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Capa de Sete Batidas no Portão do Cemitério
Contos de Terror

Sete Batidas no Portão do Cemitério

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Sinopse

Em Stoneyfield, a lenda de um leiteiro que massacrou várias famílias alimenta um aviso: nunca dê sete batidas no portão do cemitério. Anos depois de uma brincadeira de infância terminar em pânico, Sávio reencontra as primas e os amigos, e o grupo volta a se aproximar do lugar. Entre a vontade de acertar contas com o passado e a descrença no sobrenatural, eles desafiam uma história cujo horror pode estar longe de ter acabado.

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BOA LEITURA
Fonte 18 px
Espaçamento 1.4

Capítulo 1 · SETE BATIDAS NO PORTÃO DO CEMITÉRIO

Todos carregamos o bem e o mal dentro de nós. Seja por caráter ou por necessidade, seu caminho será traçado ao escolher entre eles. Muitos conseguem conviver com ambos. Poucos têm a capacidade de dosá los meio a meio. Mas não acredito que alguém consiga ser totalmente bom ou totalmente mau.

George D’Ambon, 56 anos, leiteiro da pacata cidade de Stoneyfield, era um homem bom. Marido exemplar, pai atencioso e amigo leal. Mas o que teria levado George a cometer tamanha atrocidade naquela manhã fria? George levantou se bem cedo, ordenhou as vacas, voltou pra casa, pegou um facão e esquartejou sua mulher e sua filha de 9 anos. Preparou a carroça e saiu para cumprir sua rotina diária de trabalho. Mas aquele dia não seria nada parecido com os outros. Levara consigo um facão e um machado, usando os para esquartejar mais sete famílias naquela manhã. George só parou sua matança ao chegar á casa do Padre Jovelino. Este ouviu sete batidas na porta.

Quando saiu para atender encontrou George caído ao chão com o facão enterrado no peito. Tudo isso aconteceu em 19 de maio de 1902.

Após o enterro de George e das famílias esquartejadas muitas lendas surgiram.

Moradores vizinhos ao cemitério afirmam que se você batesse sete vezes no portão poderia ouvir George se debatendo no caixão, ou virar sua foto de cabeça para baixo. Havia muitas outras. Lendas ou não, todos se mudaram dali. O cemitério ficou isolado da cidade.

Novembro de 2001 Sexta feira á noite em Stoneyfield. O tempo estava agradável. O céu limpo.

Algumas estrelas acanhadas. Só a lua não estava presente. As jovens irmãs Ângela e Dayane resolvem levar o primo Sávio para tomar um ar fresco e relembrar os tempos de infância, onde sempre estavam juntos. Levaram no até a praça, onde todos os jovens da cidade se reuniam nos finais de semana. Stoneyfield não apresenta muitas alternativas em termos de diversão. Teatro e cinema não funcionam. Sávio começou a perceber que apesar da saudade que sentia das primas, fez um bom negócio em deixar a cidade e se mudar para Silver Hill com seus pais. Sávio ficara nove anos sem visitar Stoneyfield, mas era impressionante como pouca coisa mudara desde sua infância.Pouca coisa mesmo. Principalmente a memória das primas.

Fevereiro de 1993 Ângela, Dayane, Sávio e seus dois amigos Marlon e Ed brincavam no lago. Quando se preparavam para voltar pra casa Sávio teve a idéia de passarem pelo cemitério para ver o túmulo do famoso George D’Ambon, o Leiteiro. Todos concordaram. Estavam curiosos para conhecer o local assombrado. Já era início de noite, precisavam ser rápidos.

Subiram em suas bicicletas e pedalaram o máximo que puderam. Sávio sabia o caminho.

Será que esta história de fantasma é verdade? — perguntou Ed.

— Sei lá, — disse Sávio. — Meu avô diz que sim.

— Eu tenho medo destas coisas. — disse Dayane. — Não quero chegar muito perto.

— Eu quero ver se a foto fica de cabeça para baixo mesmo. — disse Marlon.

— O quê? — disse Ângela. — Nada disso. Não vamos mexer em nada. Eu só quero ver como é. Não vou entrar lá não.

Os garotos sorriram maliciosamente uns para os outros. As irmãs não gostaram nada daquilo. Mas agora era tarde demais para voltarem sozinhas. O caminho ficava mais deserto e assustador a cada minuto que passava. Teriam de acompanha los.

Ao longe já era possível avistar um muro todo coberto de trepadeiras. Era o muro do cemitério. O frágil portão, todo enferrujado, estava entreaberto. A palavra vida não fazia sentido naquele lúgubre pedaço de terra. Dr. Hughes fundara o cemitério em 1794, mal sabia ele que a expressão “Descanse em Paz” realmente faria jus àquele lugar.

— Está escurecendo. — disse Ângela. — Acho melhor irmos embora.

— Ah, pedalamos tudo isso para nada? — disse Marlon. — Ninguém te obrigou a vir com a gente. Se quiser voltar, volte.

— Garota medrosa. — sussurrou Sávio.

Ângela mostrou lhe a língua. Dayane achou graça e sorriu meio de lado.

Todos desceram das bicicletas e se pararam em frente ao portão.

— Eu quero ver o túmulo do Leiteiro. — disse Ed.

— Eu não entro aí de jeito algum. — disse Ângela.

— Então você vai ficar sozinha aqui, pois sua irmã vai entrar. — disse Sávio. — Não é, Dayane?

— Eu também quero ver. — disse Dayane. — Já viemos até aqui mesmo.

Ângela ficou furiosa.

— Vai mesmo, bobona? Lembra daquela noite na casa do tio Marvin?

— O que houve? — perguntou Sávio.

— Seu pai contou uma história sobre o fantasma do leiteiro e esta medrosa ficou uns quatro dias dormindo com os meus pais.

Todos riram. Dayane fez uma cara emburrada e passou pelo portão.

— Vamos ver quem é medrosa então. — disse ela.

— Tchau, tchau, prima. — disse Sávio a Ângela.

Os três garotos passaram pelo portão. Ao se afastarem uns 15 metros, Sávio sussurrou:

— Quer apostar quanto como ela não vai ficar lá sozinha. Eu conheço minha prima. Alguns metros depois a profecia de Sávio se concretizou. Ângela entrou correndo atrás deles.

— Esperem por mim! — gritou ela.

Sávio caiu na gargalhada.

— Garotas.

O lado de fora do cemitério era sombrio, mas nada se comparava ao seu interior. Aquele ar frio e o cheiro de vela derretida eram insuportáveis.

— Meu avô disse que o túmulo do leiteiro é fácil de se achar, — disse Sávio. — pois é o único túmulo preto em todo o cemitério. Fizeram de tudo para que seu enterro não fosse igual aos das famílias que ele matou. Na verdade, o povo nem queria enterra lo aqui, queriam queima lo. Parece que o padre não deixou.

— Ele se suicidou em frente a casa do padre, né? — disse Ed.

— Sim. Cortou sete dedos das mãos e enterrou uma faca na garganta. — disse Marlon.

— Claro que não, seu burro! — esbravejou Sávio. — Com apenas três dedos como ele iria enterrar uma faca na garganta? Ele não cortou dedo nenhum! Enterrou a faca no peito e morreu.

— Ah, meu pai me disse que ele enterrou a faca na garganta.

— Seu pai está maluco. Meu avô sabe a história e...

— Ah, seu avô é um velho gagá!

— O quê?

Sávio e Marlon começaram a brigar. Rolaram na grama, dando tapas e pontapés uns nos outros. Ed não tentou apartar, pois sempre sobrava algum quando tentava.

— Garotos bobocas! — gritou Dayane, sua voz estava distante. — Nós achamos o túmulo do leiteiro.

Sávio e Marlon pararam imediatamente a briga.

— Onde elas estão? — perguntou Sávio.

— Lá atrás. — disse Ed. — Já estou vendo. Vamos lá!

Ed saiu correndo em direção as garotas. Marlon e Sávio seguiram no.

— A gente sempre chega antes de vocês em tudo, já perceberam? — disse Ângela. Os três chegaram cansados.

— Não enche o saco. — disse Sávio.

— É impressão minha ou aqui está mais frio? — disse Ed.

— Eu também percebi isso. — disse Ângela.

— Mas como ele era feio, hein! — disse Marlon, chegando perto da foto.

— Não toca nisso, Marlon! — disse Dayane. — Dá azar.

— Bobagem. — disse Marlon, ajeitando o quadrinho com a foto. — Eu quero ver direito a cara deste maluco.

— Minha mãe diz que ele só poderia estar possuído pelo demônio para fazer uma coisa tão horrível assim. — disse Dayane.

— Ah, para sua mãe todo mundo está possuído pelo demônio! — disse Sávio.

Os três garotos riram. As irmãs não gostaram.

— Vamos bater sete vezes no portão para ver se acontece alguma coisa? — disse Ed.

— Você está maluco? — disse Ângela. — Está escurecendo. A gente precisa ir embora agora mesmo.

Dayane avistou dois túmulos cheios de flores e resolveu se aproximar.

— Aonde você está indo? — gritou Ângela.

— Achei os túmulos da esposa e da filha do leiteiro! — disse Dayane.

— Vem já pra cá. Precisamos ir embora. Está escurecendo. Será que só eu estou vendo isso aqui?

— Olha só que flores lindas, Ângela.

Ângela ficou furiosa. Foi buscar a irmã. As duas nem perceberam que os garotos já estavam longe. Estavam do lado de fora do portão.

— Que barulho foi este? — disse Ângela.

Os garotos fecharam o portão.

— Malditos! — gritou Dayane. — Eles fecharam nós duas aqui dentro!

— Mas que.... Podem parar com isso, viu? Não tem graça nenhuma!

Os garotos caíram na gargalhada.

— Não tem graça mesmo, prima. — gritou Sávio. — Agora é que vai ficar engraçado.

— Vamos logo, — sussurrou Marlon. — antes que elas voltem.

Os garotos deram uma batida no portão e gritaram:

— Uma!

Bateram outra vez, gritando:

— Duas!

Só então as irmãs perceberam o que estavam fazendo. As sete batidas.

— Três!

Dayane começou a chorar desesperadamente. Ângela correu em direção ao portão.

— Parem com isso! — gritava Ângela, repetidamente.

— Quatro!

— Isso não tem graça nenhuma, Sávio! — Ângela também começou a chorar.

Os garotos não se importavam com as lágrimas das meninas, e continuavam com as batidas:

— Cinco!

Faltavam apenas duas batidas. Será que era apenas lenda ou algo de ruim estava prestes a acontecer?

— Seis!

— Pára, Sávio! — O grito de Ângela ecoou longe.

Alguém puxou os garotos, afastando os do portão. Era o padre Joseph.

— O que estão fazendo, garotos? Olhem só como as duas pobrezinhas estão assustadas!

— Os garotos não se intimidaram com a presença do padre. Acharam graça.

— Vocês deviam se envergonhar do que fizeram! — e olhou para Ângela. — Você está bem, Princesa? — padre Joseph costumava chamar Ângela de Princesa e Dayane de Princesinha.

Ângela balançou a cabeça positivamente. Mas era clara a expressão de choque em seu rostinho coberto de lágrimas.

— Santo Deus! — padre Joseph avistou Dayane caída no chão. — Vocês três, sentem estes pequenos traseiros em suas bicicletas e nem ousem se levantar!

Padre Joseph abriu o portão e correu até Ângela.

— Está tudo bem, Princesa. Vou leva la pra casa, espere um minutinho só, ok? Está tudo bem.

— Ok. — sussurrou Ângela.

Padre Joseph levantou se e correu desesperadamente em direção a Dayane.

— Princesinha! Você está bem?

Dayane nem se mexeu.

— Oh, Senhor, não. Por favor, não!

Padre Joseph aproximou se de Dayane e pegou seu pulso. Ela ainda estava viva.

— Graças a Deus.

Dayane estava desmaiada. Padre Joseph pegou a nos braços e correu até Ângela.

— Venha, Princesa. Precisamos ir embora.

— O que houve com a minha irmã? — Ângela ficou desesperada.

— Calma, Princesa. Ela vai ficar bem. Ela desmaiou. Vem, vamos embora daqui. Os garotos ficaram assustados ao olharem Dayane desacordada nos braços do padre.

— Cara, nós matamos sua prima! — disse Ed, assustado.

— Mas... mas... não é possível! — disse Sávio, paralisado em sua bicicleta.

— Foi só uma brincadeira! — disse Marlon.

Padre Joseph e as irmãs deixaram o cemitério. Os três garotos estavam aos prantos.

— Nós não queríamos fazer mal a ninguém, padre! — disse Sávio.

— A gente não queria matar....

— O quê? Calma, garotos. A Dayane não morreu! Ela desmaiou.

Os garotos sentiram um alívio tremendo. Mas ainda choravam.

— Vocês fizeram algo terrível, garotos. O que deu em vocês? Mas agora não há tempo para sermão. Corram, garotos! Pedalem até a cidade e peçam para o Dr.

Svenson vir correndo até aqui. Digam que é urgente! Pedalem, vamos, pedalem!

— Crianças são capazes de fazer coisas tão más, não? — disse Sávio. — Lembro me de que fiquei desesperado quando vi você no colo do padre Joseph.

— Eu quase morri naquela tarde. Dr. Svenson disse ao meu pai que faltou muito pouco.

— Eu sei que já lhe pedi desculpas, Dayane. Mas...

— Deixa pra lá, primo. Isso foi há tanto tempo, né?

O plano estava indo muito bem. Mas tudo poderia dar errado se o próximo movimento for mal feito.

— Sabia que desde aquele dia nós nunca mais passamos por lá? — disse Ângela.

— Pois é, eu também não passaria.

— Mas dizem que é muito importante confrontarmos nossos medos. Eu acho que seria bom voltar lá e ver que tudo não passou de um susto. O que acha?

— Acho do quê?

— Vamos lá no cemitério.

— Agora?

— Você enlouqueceu, Dayane? — disse Ângela, fingindo. Ela também sabe do plano. — Quase meia noite!

— Ah, vamos lá! Faz muito tempo que a gente não se encontra. Lembra como a gente adorava uma aventura?

— Lembro. Mas foi uma daquelas nossas aventuras que quase levou você embora. Acho melhor deixarmos isso para outro dia, prima.

— Deixa disso, Sávio. Eu já disse que te perdôo. Vamos, eu preciso voltar àquele lugar e botar uma pedra nisso para sempre. Por favor.

— Eu acho que pode ser bom mesmo. — disse Ângela.

Sávio hesitou por um instante, mas acabou cedendo ás pressões das primas. Agora o plano entrara realmente nos trilhos.

Enquanto isso, Ed e seu irmão Loyd se escondiam no cemitério. Ambos vestidos com capas pretas. Aos dois caberá a parte mais importante do plano, o susto.

— Não sei o que estou fazendo aqui. — disse Loyd. — A namorada é sua.

— A Ângela também vem. Lembra? Não foi por isso que você topou?

— Grande coisa. Ela não dá a mínima pra mim. Além do mais, não foi por isso que vim. Eu me lembro do Sávio. Ele era um chato. Se depender de mim, vai levar o maior susto da vida dele.

— Se você agisse mais e falasse menos conseguiria alguma coisa.

— Ah, cala a boca. Quer que eu vá embora? Duvido que você fique aqui sozinho.

— Que horas são? Acho que já deve estar quase na hora deles chegarem.

— Faltam cinco minutos para meia noite.

— Se elas conseguiram convence lo já devem estar chegando.

— Disse bem. “Se” conseguirem. Eu não vou esperar muito tempo.

— Eu também não. A Dayane que me perdoe, mas este lugar me dá arrepios.

— Papai adorava contar histórias sobre este lugar.

— Pobre papai. Só voltei aqui no dia do seu enterro. Se eu não gostasse tanto da Dayane aquela teria sido a segunda e última vez em que eu pisaria neste maldito lugar.

— Garotas.

O jeito como Loyd disse “garotas” fez Ed recordar aquele fim de tarde. Ângela chorando. Dayane nos braços do padre Joseph. Ele, Sávio e Marlon correndo em suas bicicletas até a casa do Dr. Svenson. Tudo aquilo passara como flashes em sua cabeça. Quando voltou a si, Loyd não estava mais ali. Ed levantou se assustado e enxergou seu irmão indo em direção aos túmulos.

— Hei, Loyd, onde você pensa que vai?

— Vou dar uma olhada no túmulo do papai. Seria uma tremenda falta de respeito virmos até aqui e não lhe fazer uma visita, não acha?

— Você é louco? Agora não! Os três estão pra chegar a qualquer momento. Você vai estragar tudo.

— Eu já volto.

Ed ficou furioso. Mas não foi buscar o irmão. Se o plano estivesse indo bem, e estava, os três já deveriam estar bem próximos.

Realmente estavam.

— Eu só não entendi porquê colocar iluminação nesta estrada deserta. — disse Sávio. — Desde a nossa infância este lugar foi deserto. Ninguém passa por aqui mesmo.

— O prefeito tem terras por aqui. — disse Ângela.

— Ah, entendi tudo.

Os três sorriram.

— Quer dizer então que a senhorita está namorando meu velho amigo Ed?

— Sim, há dois anos. — respondeu Dayane.

— Como este mundo dá voltas. — e virou se para Ângela. — Só falta você me dizer que está com o Marlon.

— Ele se mudou logo depois de você. — disse Ângela. — Estou só.

— Está porque quer. — disse Dayena. — O Loyd é louco por você faz muito tempo.

— Aquele idiota? Vai continuar sonhando.

— Espera aí, — disse Sávio. — Loyd? O irmão mais novo do Ed?

— Este mesmo. — disse Ângela.

— Sabe que eu nem me lembrava dele. Ele quase não saía de casa. — Sávio começou a rir. — Agora me lembrei de uma festa na casa do Ed. Acho que era aniversário do Loyd. Eu derrubei bolo nele. O coitado ficou uma fera! Tentou me bater e tudo.

— Ah, bons tempos aqueles. — disse Ângela. — Tudo era diversão.

Ed ouviu a chegada dos três. Apagou sua lanterna imediatamente. Ajeitou sua capa, colocou o capuz sobre o rosto e começou a torcer para que Loyd não estragasse tudo.

— Maldito lugar. — disse Sávio. — Não mudou nada.

— Naquela época não havia iluminação. — disse Dayane.

— Bom, quase nada mudou. Até o portão velho continua o mesmo.

— O mesmo vento frio. — disse Ângela.

Por um instante as irmãs pensaram em desistir da brincadeira. Sávio não era mais aquele moleque arrogante da infância. Mudara muito. O plano de vingança começara a perder a graça.

— Meu Deus, vocês duas precisavam ver como nós pedalamos naquela tarde.

Levantamos poeira desta estrada velha.

— Ainda bem, né? — disse Dayane. — Se vocês não fossem rápidos eu não estaria aqui agora.

Sávio deu um sorriso meio torto.

Ângela desistiu do plano.

— Sávio, sabe por quê estamos aqui?

— Vocês duas queriam enfrentar seus medos. Só por isso eu topei voltar....

— Bobagem, Sávio. — disse Dayane, esta também desistira. — Nós queríamos te assustar. Seria nossa vingança.

Ed não conseguia ouvir muita coisa da conversa. Permaneceu escondido atrás do portão.

— Ahã! Eu percebi mesmo que havia algo muito estranho. — disse Sávio.

— Mas aí percebemos que não seria justo. Você não é mais aquele Sávio que conhecíamos.

— Não estou entendendo. Vocês não gostavam de mim?

As irmãs se olharam por um instante, e voltaram seus olhares para Sávio.

— Você tem de admitir, primo. — disse Ângela. — Você era um capeta!

Os três riram. Ed só conseguiu ouvir a palavra “capeta”.

— Eu sei. — disse Sávio. — Mas eu era daquele jeito quando estava com os amigos. Sozinho eu não era nada.

— Já que concordamos em parar o plano, acho melhor.....

— Só não entendi este tal plano de vocês. Como vocês duas iriam me assustar?

— Nós duas? — disse Dayane. — Olha só quem também fazia parte do plano.... Dayane correu até o portão.

— Ed, você está aí? Pode sair.

— Eu ouvi bem? — disse Sávio. — O Ed também estava nessa?

— Loyd também. — disse Ângela.

Ed não conseguiu entender o que estava acontecendo. Levantou se de trás do portão e começou a gritar, tentando assusta los. Todos caíram na gargalhada.

— Ed, meu amor. — disse Dayane. — O Sávio já sabe de tudo. Nós contamos pra ele.

— O quê? Ah, mas que sacanagem é esta? Você me faz esperar aqui neste maldito cemitério até esta hora para isso?

Dayane abriu o portão do cemitério e lhe deu um longo beijo. Sávio e Dayane aproximaram se.

— Estes dois estão precisando de um motel, isso sim. — disse Ângela.

— Você me perdoa? — disse Dayane, retirando o capuz do rosto de Ed.

— Tudo bem. Você sabe que eu não consigo ficar bravo com você por muito tempo mesmo.

— Ed, seu safado! — disse Sávio. — Quanto tempo, hein!

Ed passou pelo portão e veio abraçar o velho amigo de infância.

— Que cabelo loiro é este? — disse Ed.

— Ah, longa história. Um dia eu te conto.

— Seu irmão não veio, Ed? — perguntou Dayane.

— Veio sim, aquele desgraçado.

— Mas onde ele está?

— Foi visitar o túmulo do papai. Mas já faz tempo isso.

— Seu pai morreu? — perguntou Sávio.

— Vai fazer um ano mês que vem.

— Sinto muito, Ed.

— Vá chamar seu irmão, — disse Dayane. — pois quero ir embora daqui.

— Aquele lá é teimoso como uma mula. Acho que herdou de minha mãe.

— E cafajeste. — disse Ângela.

— O quê? — disse Ed. — Esta eu não entendi.

— Longa história. Um dia eu te conto.

Ed sorriu.

— O que acham de darmos um susto nele? — disse Ed. — Já que viemos até aqui, acho besteira desperdiçarmos a noite.

— Ah, melhor não. — disse Dayane.

— Eu topo. — disse Ângela.

— Não acho uma boa idéia. — disse Sávio. — Todos aqui são testemunhas de uma brincadeira que quase virou trajédia.

— Ah, mas o Loyd já é bem grandinho. Sabe se virar. Vai ser engraçado, vamos!

— O que vamos fazer? — disse Ângela, animada.

Ed fechou o portão, dizendo:

— O que você acha? — e arregalou as sobrancelhas duas vezes.

— É isso aí, já entendi. — disse Ângela. — Vamos lá, Sávio! Pelos velhos tempos!

— Eu não vou participar disso. — disse Dayane.

— Eu também não. — disse Sávio.

Ed e Ângela não deram atenção.

— Loyd! — gritou Ed. — Lembra das histórias que o papai costumava nos contar? Lembra daquela do Leiteiro? Aquela das sete batidas no portão?

— A bateria da minha lanterna acabou! — gritou Loyd. Mas Ed e Ângela não conseguiram entender.

— Está preparada, Ângela? — disse Ed.

Ângela fez sinal de positivo.

— Cuidado com o fantasma do leiteiro, mano! — gritou Ed.

Ângela e Ed deram a primeira batida no portão.

— Uma! — gritaram eles.

— Duas!

O som do portão enferrujado vibrando era assustador.

— Três!

Loyd gritava, mas eles não conseguiam ouvi lo.

— Quatro!

— Parem com isso! — disse Dayane, nervosa.

Eles bateram outra vez.

— Cinco!

— Chega. — disse Sávio. — Acho que ele nem está ouvindo vocês. Pode ter acontecido alguma coisa com ele. Vamos lá ver, Ed.

Mais uma batida.

— Seis! — gritou Ed, sozinho.

— Chega. — disse Ângela. — Sávio tem razão. Pode ter acontecido algo com ele.

— Aquele dia nós não íamos dar a sétima batida, íamos? — perguntou Ed a Sávio.

— Claro que não, nós morríamos de medo e.......

Ed chutou o portão com toda a força que conseguiu.

— Sete! — gritou ele furiosamente.

Todos ficaram pasmos.

— Você ficou louco? — gritou Ângela.

— O que deu em você, cara? — gritou Sávio.

Dayane estava branca feito um fantasma. Imóvel.

— O que foi que eu fiz? — disse Ed, calmamente. — Não vão me dizer que vocês realmente acreditam nesta história das sete batidas?

— Mas pra quê arriscar? — disse Ângela, indo em direção a sua irmã. — Esta história não deve ter surgido do nada. Garanto a você.

— Bobagem. — disse Ed. — Vamos lá buscar meu irmão, Sávio. Você sabe que ele sempre gostou de você, né? — e sorriu. — Desde aquele dia em que você derrubou refrigerante nele.

— Bolo. Derrubei bolo.

Ed abriu o portão.

— Você não vem?

— Eu não entro aí por nada neste mundo.

— O que houve com você, Sávio? Só porque mudou de cidade virou maricas?

De repente um estrondo. O som veio do fundo do cemitério.

— O que foi isso? — gritou Ângela, abraçada a irmã.

Sávio começou a se afastar do portão. Seu coração batia forte.

— Pode me chamar do que quiser, Ed. Eu não entro aí de jeito nenhum.

Um grito apavorante ecoou pelo cemitério todo. Era Loyd.

Ed virou se imediatamente para os túmulos.

— Loyd! — gritou. — Onde você está? Fala comigo!

Outro grito. Desta vez foi possível ouvir suas palavras de desespero.

— Corra, meu irmão, corra! — e a voz parou.

— Loyd, onde você está? — gritou Ed, desesperado.

O lugar ficava mais frio a cada segundo.

— Vamos embora daqui! — gritou Dayane.

Ed ligou a lanterna e saiu correndo cemitério a dentro.

— Não faça isso, Ed! Você ouviu o que ele disse! Tem alguma coisa aí dentro. Loyd está morto!

— Não saio daqui sem meu irmão!

O que já estava ruim começou a piorar. Todas as luzes começaram a se apagar. Uma a uma. Primeiro a estrada. Depois a frente do cemitério. Escuridão total. As irmãs começaram a gritar desesperadas.

— Sávio, onde você está? — gritou Ângela.

— Estou aqui. Fiquem calmas, tudo vai dar certo.

— Certo como? — disse Dayane, apavorada. — Não conseguimos ver nada! Tem alguma coisa aí dentro deste maldito cemitério! Loyd está morto. Vocês ouviram. Eu não consigo ver nada dando certo aqui!

Outro grito. Ed.

— Não! Não! — gritou Dayane repetidamente, e caiu ao chão.

Algo tocou o braço de Ângela. Esta começou a gritar.

— Calma, sou eu. — era Sávio.

De repente o ventou frio parou. As árvores pararam de balançar. Silêncio total.

Pavor total. As irmãs choravam sentadas ao chão. Sávio não sabia o que fazer. A escuridão o impedia de qualquer movimento. Não havia nada a fazer. Só podiam esperar.

— Acho que acabou. — disse Sávio. — Seja lá o que for...... acho que já se foi.

— E o que você acha que era? — disse Ângela.

— Sei lá, talvez um....

As árvores voltaram a balançar.

— Oh, meu Deus! — disse Dayane. — Eu não quero morrer assim.

O vento frio recomeçou, ficando cada vez mais forte. O vento estava vindo do cemitério. Sávio levantou se rapidamente.

— Ângela, Dayane, levantem se. Precisamos sair daqui.

— Mas não temos para onde ir? — disse Ângela. — Não dá pra ver nada!

— Eu sei, mas precisamos tentar alguma coisa. Eu estou sentindo algo se aproximando, e está vindo do cemitério.

— Eu também estou sentindo! — disse Dayane, chorando.

As duas irmãs levantaram se.

— Vamos juntos, — disse Sávio. — de mãos dadas.

O vento estava cada vez mais forte, e trazia consigo um cheiro horrível. Os três caminhavam lentamente. Até que Ângela tropeçou num buraco e caiu, levando consigo Dayane e Sávio ao chão.

— Precisamos sair daqui! — gritou Sávio.

— Não posso. — disse Ângela. — Acho que torci o tornozelo.

Um barulho chamou lhes a atenção. Era o portão abrindo lentamente. Aquele som arrastado e irritante quase os levou a loucura.

— Tem alguma coisa vindo atrás da gente! — gritou Dayane. — Eu posso senti la.

— Fique quieta. — sussurrou Sávio. — Já que não temos pra onde ir, melhor ficarmos quietos e imóveis. Talvez esta seja nossa única chance de escaparmos. Só não sei de quem ou o quê.

Assim fizeram. Apavorados e tremendo até os ossos, os três permaneceram deitados sobre a grama fria. O vento soprava cada vez mais forte. Alguém ou alguma coisa passara pelo portão. Caminhava lentamente. Dava para ouvir os passos arrastados.

Não ver o que se aproximava tornava aquele momento ainda mais aterrador.

De repente o vento ficara insuportavelmente frio. O que saíra do cemitério estava muito próximo. Era possível notar sua presença, ouvir sua respiração, seus passos.

— Vá embora, — disse Dayane, num ato de desespero — vá embora. O que quer de nós?

Sávio procurou o rosto de Dayane com as mãos e tapou sua boca.

— Shhhhhh.

A coisa passara por eles. O vento frio a acompanhou.

— Acho que se foi. — disse Sávio.

— Mas o que era aquilo? — disse Ângela, chorando.

— Não tenho a mínima idéia. Mas havia algo de estranho naquela respiração.

Parecia humana.

— Não importa. — disse Dayane. — Só sei que estou viva. Não sei como, mas estou.

Os três se abraçaram.

Por mais terrível que fosse, os três não tinham outra opção senão permanecerem juntos ali na escuridão. Só restava torcer para que aquela noite de terror tivesse acabado ali.

Apesar daquela coisa ter ido embora, nenhum dos três conseguiu dormir. Era impossível. Ainda estavam ali, parados, frágeis a qualquer reviravolta. Qual era a garantia de que estavam salvos? Nenhuma. Depois do que passaram não havia garantia nem certeza de nada. O pesadelo era real.

A única garantia é que o tempo passa.Após horas de desespero e pavor a brisa da manhã chegara, trazendo consigo a esperança de que aquele maldito pesadelo também acabara.

Sávio levantou se e caminhou até o cemitério. Encontrou o corpo de Loyd caído dentro do túmulo aberto de George D’Ambon. Procurou Ed, mas não o encontrou. O pé de Dayane estava quebrado, Ângela ficou ao seu lado enquanto Sávio correu o mais rápido que pode em direção ao centro de Stoneyfield.

No meio do caminho Sávio encontrou uma casa com a porta aberta e as luzes acesas, resolveu parar e pedir ajuda.

— Olá, tem alguém em casa?

Ninguém respondeu. Sávio resolveu entrar.

— Preciso de ajuda.

A porta que dava acesso ao quintal não parava de bater. Sávio dirigiu se até ela e viu uma luz acesa no fim do corredor.

— Por favor, tem alguém em casa?

Nada. Silêncio total. Sávio resolveu ir até o quarto com a luz acesa. A porta estava aberta. Sávio teve a visão mais horrível da sua vida. Havia dois corpos mutilados sobre a cama.

Sávio saiu correndo desesperadamente da casa. Por um instante pensou em voltar ao cemitério e reencontrar as primas. Mas não o fez. Retomou seu caminho. De repente outra casa com a porta escancarada e as luzes acesas. O coração de Sávio bateu ainda mais forte. Suas pernas paralisaram. Não sabia se entrava e pedia ajuda ou se continuava seu caminho. Encontraria ajuda? Encontraria mais cadáveres? Resolveu arriscar.

Diferente locais, cenas idênticas. Havia mais quatro corpos mutilados. Sávio correu para o banheiro e vomitou por mais de dois minutos. Não havia telefone na casa, Sávio voltou para a estrada, avistando um pequeno vilarejo mais a frente. Mais mortos? Sávio entrou em pânico. Suas pernas tremiam como nunca fizeram antes. Sua pele branca de pavor.

Não sobrou ninguém vivo. O vilarejo inteiro estava banhado de sangue. Sávio conseguiu forças não se sabe de onde e continuou pela estrada. Seus olhos arregalados de medo. Era impossível evitar o cheiro de sangue impregnado em suas narinas.

As próximas quatro casas não estavam diferentes. A mesma fúria. O mesmo banho de sangue. Homens, mulheres e crianças. Nada escapara.

Sávio ouve gritos. Outra vítima. Seu corpo congelara de medo. Conseguiria ajudar aquelas pessoas? Não seria melhor correr até o centro da cidade e buscar ajuda?

Mas ajuda contra quem? Contra o quê? Sávio parou com as perguntas e resolveu enfrentar aquela coisa. Caminhou sorrateiramente até a janela. Não precisava estar lá dentro para saber o que estava acontecendo. Os sons do machado batendo contra a carne diziam tudo. O choro de um bebê ecoava pela casa. Sávio resolveu agir. Correu até a porta já aberta e entrou. O mesmo cheiro de morte. Outra vez o mesmo choro alto e irritante. Vinha do fim do corredor. O som do machado partia da cozinha. Num lampejo de coragem Sávio correu até o corredor. Seu coração quase se perdera no meio do caminho. O bebê chorou outra vez. A porta do quarto estava bem ao lado. Sávio entrou e agarrou o bebê contra seu peito.

— Está tudo bem, — sussurrou Sávio. — quietinho, não chore mais.

Quando Sávio voltou ao corredor alguém o surpreendeu.

— Ed, é você?

O corpo banhado de sangue e um machado na mão direita. Era Ed. Sávio observou o machado em suas mãos e começou a recuar.

— O que houve com você?

Ed permaneceu calado. Olhar frio. Não havia emoção alguma em seu rosto.

— Pensei que estivesse morto! — disse Sávio, afastando se cada vez mais.

Ed começou a caminhar lentamente em sua direção. Sávio começou a perceber que aquele não era seu amigo. Algo possuíra seu corpo. Sávio olhou rapidamente para trás e viu que havia apenas uma porta no fim do corredor. Apertou os passos. A criatura permaneceu no mesmo ritmo, lento.

Sávio passou pela porta e procurou pelo interruptor. Acendeu a luz e viu aquilo que não queria. O quarto não tinha janela. Não havia como escapar. Teria de lutar. Deixou o bebê deitado sobre um sofá velho e começou a procurar algo que pudesse usar para golpear a criatura. Tudo que achou foi um pedaço de pau jogado sobre um guarda roupa velho. Mas naquelas circunstâncias era muita coisa. Poderia ser sua única esperança de sair daquele quarto vivo.

A criatura aproximou se da porta. Sávio deu lhe um golpe certeiro sobre a cabeça. Nada aconteceu. Tentou um chute no estômago, mas este também não surtiu efeito algum. Parecia inatingível. Sávio entrou em pânico, caindo aos prantos. Só lhe restava esperar pelo golpe fatal. O bebê voltou a chorar. Quando a lâmina afiada do machado subiu, alguém apareceu. Era um velho. Parecia ter mais de cem anos.

— Largue este machado, meu pai. — disse o velho.

A criatura virou se para o velho e deixou o machado cair para trás.

— Pai? — pensou Sávio, totalmente confuso.

— George D’Ambon, — disse o velho. — se soubesse por quanto tempo eu o procurei. Meu pai.

A criatura finalmente mostrou alguma expressão em seu rosto. Parecia triste. Esticou o braço em direção ao velho. Este segurou suas mãos cobertas de sangue.

— Não posso, pai. Infelizmente não posso. Não seria justo tirar a vida deste jovem.

Sávio nunca se sentiu tão confuso em toda sua vida. O velho colocou suas mãos enrugadas sobre a cabeça da criatura, dizendo muitas palavras estranhas. Foi possível entender somente o final:

— .... Eu, Niclas Koslovys, retiro a maldição de Abigail Koslovys, minha mãe, sangue do meu sangue. George D’Ambon, você é um homem livre. George D’Ambon, meu pai, sangue do meu sangue. Descanse em paz.

A criatura caiu ao chão. O quarto tremeu. A casa toda estremeceu. Algo deixou o corpo de Ed e saiu como um raio de fogo pela porta do quarto. O velho saiu lentamente pelo corredor. Ed permaneceu caído. Sávio levantou se e o sacudiu.

— Ed, você está bem?

Ed não respondeu. Sávio correu até o velho.

— Hei, espera!

O velho olhou para trás.

— Quem é você? — perguntou Sávio.

— Niclas Kos...

— Isso eu sei, eu ouvi você, mas...

O velho olhou para o Ed e disse:

— O garoto vai ficar bem. Não se preocupe.

— O senhor chamou ele de pai. Como isso é possível?

O velho não lhe deu atenção, continuou seu rumo.

— Por favor! Não viu quantas mortes aquela coisa causou? Eu tenho o direito de saber o que aconteceu!

O velho parou.

— Longa história. Tudo começou em 1902. Minha mãe e meu avô, ciganos, estavam de passagem por Stoneyfield. George D’Ambon se apaixonou pela minha mãe. Ambos tiveram um romance ás escondidas, pois D’Ambon era casado. Eu sou o fruto deste romance. Quando minha mãe disse que estava de partida D’Ambon ficou indeciso. Não sabia se ficava com sua esposa e filha ou se saía pelo mundo com minha mãe. O dia da partida chegara e D’Ambon veio até minha mãe. Ele optou pela esposa.

Minha mãe ficou furiosa, colocando lhe uma maldição.

— Mas que maldição foi esta?

— Olhe ao seu redor, garoto. — e mostrou as marcas de sangue espalhadas pela casa. — O que mais preciso dizer? Minha mãe era uma mulher poderosa. Era capaz de tudo. Nunca a perdoei por eu não ter conhecido meu pai.

— Mas como você o encontrou?

— Instinto, eu acho. Finalmente sua alma vai descansar em paz. Fico feliz com isso. O velho continuou seu rumo. Ed recobrou os sentidos. Sávio correu até ele.

— O que houve? — disse Ed. — Parece que fui atropelado por uma carroça.

— Longa história. Um dia eu te conto.

FIM

Autor: Julio Cesar Bianchi Furtado (Julio Fantasma) Mais Contos: http://www.juliofantasma.com.br/contos de terror/ Facebook: http://facebook.com/juliofantasma Twitter: http://twitter.com/juliofantasma

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