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Capa de Olhos Vermelhos
Contos de Terror

Olhos Vermelhos

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Sinopse

Caio César decide registrar a experiência que o fez duvidar da própria sanidade. Ao voltar às lembranças de uma infância no interior e de uma vizinha temida pelas crianças, ele revela como uma curiosidade aparentemente inocente deu lugar a uma presença da qual não conseguia escapar.

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Fonte 18 px
Espaçamento 1.4

Capítulo único · Olhos Vermelhos

O que irei contar nas próximas linhas pode ser alucinação. Sim, há esta possibilidade. Estou enlouquecendo. Sei que estou, e é justamente por isso que resolvi sentar diante do teclado e escrever sobre meus dias de miséria. Preciso ocupar minha mente com alguma coisa.

Ter começado este relato dizendo que estou enlouquecendo pode não ter sido uma boa ideia. Os fatos que aqui irei contar podem perder o sentido para você, leitor. Mas eu preciso ser honesto com você. Assim serei honesto comigo mesmo. No momento é a única coisa que me resta.

Neste mundo há fenômenos que você não vê, mas a ciência está ali para provar sua existência. O ar que respiramos, por exemplo. Existe também aquilo que você não vê, mesmo assim acredita e a ciência não explica. Deus. O que vou contar a seguir não se enquadra em nenhuma delas.

Meu relato é baseado em algo que eu vi, infelizmente sou obrigado a acreditar, mas nenhuma ciência será capaz de explicar.

Meu nome é Caio César. Tenho 24 anos. Nasci em São Caetano, no estado de São Paulo, onde morei até os meus 10 anos. Recordo me pouco desta época, exceto o dia do meu primeiro beijo.

Em 1987 a empresa onde meu pai trabalhava o transferiu para uma filial na cidade de Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Lembro me de que fomos muito bem recebidos pela vizinhança. Havia uma quantidade grande de crianças, o que me agradou muito. O bairro era agradável, repleto de árvores. Meu pai comprara um sobrado no final da rua. Ainda me lembro do meu pai e sua expressão de alivio ao perceber que minha mãe adorara a casa. Meu pai comprara sem nos consultar.

Em poucos dias eu e meu irmão já conhecíamos todas as crianças da rua. Após a escola nós invadíamos a rua. Pouquíssimos carros passavam por ali, o que era ideal para nossas brincadeiras. Pega pega, queimada, futebol e outras.

Sábado á tarde, a rua lotada, eu e meus amigos jogávamos nosso futebol 5 contra 5. Determinado momento da partida eu acertei um chute completamente equivocado e mandei a bola na janela da minha vizinha. Resultado: 2 vidros quebrados e uma tremenda correria pela rua. Lembro me como se fosse ontem, eu ali parado no meio da rua e todas aquelas crianças correndo desesperadas, fugindo. Apenas eu não sabia do que estavam fugindo, até que alguém gritou:

— Corre, Caio! A bruxa vai ver você!

Eu achei engraçado, sorri e procurei quem gritara, mas não consegui achar. Fiquei impressionado como todos conseguiram se esconder. Finalmente eu descobrira porquê todos me passavam para trás quando brincávamos de esconde esconde.

De repente a porta da vizinha começou a se abrir. Fiquei muito nervoso. Meu coração acelerou como nunca fizera antes. Uma velhinha corcunda apareceu á porta. Não dava mais para me esconder. Eu estava ali sozinho.

— Desculpa, senhora! — gritei.

Ela ficou me observando, mas nada respondeu.

— Foi sem querer. — gritei novamente. — Meu pai vai pagar os vidros quebrados, não se preocupe. Desculpa.

A velha não me deu ouvidos. Voltou lentamente para dentro de casa. Parecia estar muito doente. Senti pena da pobre mulher.

Na mesma velocidade em que desapareceram, todos os meus amigos voltaram.

— Você não tem medo da bruxa? — perguntou me Luciano, meu outro vizinho.

— Bruxa? Coitada da velhinha.

— Todo mundo da rua sabe, Caio. Ela é uma bruxa.

— Se ela é mesmo uma bruxa, por que não fez nada comigo?

— Ah, sei lá.

— Deixa disso, vamos lá pedir minha bola. Ela não me devolveu.

— O quê? Vai sozinho então.

— Eu vou mesmo.

Quando a garotada percebeu que eu iria apertar a campainha foi aquela correria novamente. Era impressionante como todos temiam aquela pobre velha.

— Não faça isso, Caio! — era a voz de Luciano. — Você vai irritar a velha bruxa! Não dei atenção. Continuei apertando a campainha. Fiquei ali por uns quatro minutos. Mas nem sinal da velha. Desisti. Na verdade ela tinha o direito, pois eu quebrara 2 vidros de sua janela. Estávamos quites.

Ninguém sabia direito o nome da velha, todos a conheciam pelo sobrenome: Laabaya. Era muito estranho como todos os adultos da rua evitavam tocar no assunto. Meus pais perguntavam a respeito daquela vizinha que nunca aparecia e a resposta era sempre igual:

— A velha está muito doente. Velha teimosa. Não aceita ajuda de ninguém.

Todo aquele mistério sobre a velha me fascinava. Sempre que eu e meus amigos nos reuníamos surgiam histórias sobre ela. Muitas delas eram difíceis de acreditar, mesmo para uma criança de 10 anos como eu. Lembro me que apenas uma destas histórias conseguiu me tirar o sono.

As irmãs Cristina e Andréa, que moravam em frente a minha casa, haviam perdido um irmão dois anos atrás. Segundo elas, no dia seguinte ao desaparecimento elas viram a chupeta do falecido irmão jogada sobre a grama da casa da velha. Quando chamaram seus pais para ver a chupeta não estava mais lá. A polícia investigara a casa da velha dias depois, a pedido dos pais das garotas. Luciano me disse que os policiais deixaram a casa da velha totalmente enfeitiçados, andando e agindo estranhamente.

A história do desaparecimento de Eduardo, irmão de Cristina e Andréa, provocou pesadelos em mim durante algumas semanas.

Eu procurava evitar o assunto, mas não conseguia. A possibilidade de morar ao lado de uma bruxa de verdade me fascinava. Comecei a procurar livros sobre bruxas na biblioteca da escola. Quanto mais eu lia mais fascinado e intrigado eu ficava.

Na primavera de 1984 meu irmão ficou muito doente. Hepatite. Fui obrigado a mudar de quarto. No final do corredor havia um quartinho que servia de despejo de bugigangas do meu pai. Minha mãe fez uma bela faxina, obrigou meu pai a vender aquelas velharias e eu acabei me mudando para lá. A princípio não vi problema algum, até perceber uma pequena janela no canto do quarto. Esta janela permitia uma visão ampla e clara de um dos cômodos da casa da velha. Dias depois, usando minha luneta, descobri que este cômodo era o quarto onde dormia a velha.

A janela do quarto estava quase sempre fechada. Mas quando esta se abria eu aproveitava cada momento para bisbilhotar. A velha estava cada dia mais doente, dava para perceber seu rosto pálido e sua expressão de fadiga. Os cabelos ralos e aquele olhar moribundo passavam uma sensação estranha. Uma sensação de paz. Por mais que quisesse eu não conseguia olhar aquela pobre velha e imaginar uma bruxa.

Quando meu fascínio pela velha começa a acabar, algo acontece. Algo que mudou minha vida, transformando a num verdadeiro inferno. Eu daria qualquer coisa para apagar este dia.

Era domingo. Estava um calor insuportável. Passava das 10 horas da noite.

Estávamos somente eu e meu irmão em casa. Meus pais haviam saído para assistir a uma peça de teatro.

Olhei pela janela e vi uma imagem raríssima. A janela do quarto da velha estava aberta. Ela nunca deixava a janela aberta durante a noite. Nunca. Peguei rapidamente minha luneta e dei uma rápida olhada. Havia velas acesas por todo o quarto. Algo estava para acontecer naquele quarto. Eu sentia. O suor escorria do meu rosto. O calor era muito forte.

Desci rapidamente até a cozinha e peguei um copo de sorvete. Quando voltei para a janela notei um vulto no quarto da velha. Era a própria. Peguei a luneta e vi uma imagem não muito agradável. A velha estava nua. Lembro me de que não pude segurar uma gargalhada. Foi tão alta que a velha poderia ter ouvido. Mas não ouviu. Continuei observando a. Ela caminhou lentamente até a cama, pegou um vestido de cor vinho, deitou o vestido lentamente sobre o chão e tacou fogo sobre ele. Eu não conseguia acreditar no que via. Tudo parecia tão surreal.

Estaria a velha enlouquecendo? Não. Aquilo estava esquisito demais. A velha era mesmo uma bruxa. Era só isso que eu conseguia pensar. Bruxa. Era impressionante como aquela imagem da velha queimando o vestido me bateu uma sensação incrível de déjà vu. Sim. Aquela imagem não me era estranha. Mas onde? Quando? Era melhor não me preocupar com isso agora. Voltei a observar a velha. Esta se deitara na cama. O vestido já queimara todo.

A esta altura eu já estava conformado. Pra mim eu estava a observar uma bruxa. Minha única dúvida era o que ela estava tramando. Algum feitiço, com certeza. Eu estava tão concentrado naquela luneta que não percebera que meu corpo estava todo molhado de suor.

Fiquei com os olhos grudados na luneta por quase 1 hora. Nada. A velha nem se mexia. Comecei a cogitar a possibilidade da velha estar morta. O desapontamento começava a obscurecer minha animação. Uma bruxa de verdade morando ao meu lado e tudo o que eu consigo ver é sua morte? Não. Seria ridículo demais.

De repente um clarão vermelho tomou conta do quarto da velha. Tomei um susto tão grande que quase derrubei a luneta pela janela. Algo iria acontecer! Meu coração disparou. Eu mal conseguia olhar pela luneta, pois minhas mãos tremiam incontrolavelmente. Algo estava para acontecer. Infelizmente.

O clarão foi diminuindo aos poucos. Todas as velas se apagaram. A visão ficou muito prejudicada. Redobrei minha atenção. Por sorte a lua estava cheia. A velha continuava deitada. Pude ver seus pés.

O que fora aquele clarão tão forte? Aparentemente nada mudara no quarto, exceto as velas. Malditas velas.

Algo passou pela janela da velha! Meu coração disparou. Algo passara rapidamente pela janela, e não era a velha. Esta continuava deitada. Então quem era? Foi então que comecei a sentir medo. Havia mais alguém naquele quarto.

Peguei a luneta novamente e apontei para a janela da velha. Realmente havia mais alguém no quarto da velha. Alguém olhando para mim. Fiquei tão apavorado que deixei a luneta cair pela janela. Afastei me rapidamente daquele canto. Aqueles malditos olhos vermelhos me observando não saíam minha mente. Algo aterrador. Meus olhos não conseguiam olhar para outra direção senão a janela. Eu sabia que era questão de tempo para os olhos vermelhos saltarem pela minha janela. Olhos Vermelhos. Eu não conseguia dar outro nome para o que eu vira no quarto da velha. Afinal era tudo o que eu vira. Olhos vermelhos como o fogo.

Acho que fiquei uns 20 minutos com os olhos arregalados fixos na janela. Eu não conseguia me mexer. O medo não me deixava.

De repente ouvi o barulho do portão. Meu coração quase saiu pela boca. Eu estava tão molhado de suor que minhas roupas pesavam. Arranquei a camisa e joguei longe. Ouvi as vozes dos meus pais. Graças a Deus! Não era a criatura dos olhos vermelhos. Criei coragem e corri até a porta. Foi quando algo tocou minha nuca. Fiquei imóvel novamente. Virei lentamente e vi o que me acertara. Era minha bola de futebol. A mesma que ficara presa na casa da velha. Ergui os olhos e vi 2 vultos atrás da minha cama. Era a velha e a criatura dos olhos vermelhos. Eu queria correr em direção ao corredor, mas não conseguia. Meus pés pareciam feitos de chumbo. A velha começou a dizer coisas, mas eu não conseguia compreender. Sua voz estava fraca. Mesmo assim não parecia ser nossa língua. A criatura dos olhos vermelhos continuava um mistério. Estava atrás da velha. Seus olhos brilhavam intensamente. Mais do que nunca.

A velha começou a se aproximar de mim. Notei também que meus pais estavam subindo as escadas. Estavam próximos. Finalmente eu comecei a entender o que dizia a velha. Sua voz estava mais forte agora. Suas palavras eu nunca irei esquecer:

— Criança estúpida. Viu o que não devia. Maldição. Maldição cairá sobre esta criança. 1001 dias e 1001 noites de silêncio, ou sofrerás o fogo da chama eterna.

Um clarão terrível tomou conta do meu quarto. Gritei. Gritei como nunca fizera antes. Meus pais correram até o meu quarto desesperados. Abraçaram me o mais forte que puderam. O clarão se fora. A velha se fora. Mas a criatura dos olhos vermelhos permanecera.

Passei 1001 dias miseráveis. Não importa onde eu estava ou aonde eu ia, aquela maldita criatura das sombras me acompanhava. Aquele maldito olhar demoníaco. Aqueles olhos vermelhos. Vermelhos como o fogo.

FIM

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