O Velho 486
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Sinopse
Meses após perder o filho em uma queda, um casal tenta seguir em frente sem conseguir afastar a dor. Quando um antigo computador passa a fazer parte dessa história, o pai se vê diante de sinais perturbadores que podem mudar tudo o que acredita saber sobre a morte do menino.
Capítulo único · O Velho 486
Matheus tinha pouco mais de onze anos de idade naquela tarde em que pegou sua bicicleta para se encontrar com os amigos. “Avisa a mamãe que eu volto para comer o bolo de cenoura”, disse ele para mim. Mas Matheus jamais voltou para comer o bolo.
Acho que uma mãe possui um laço invisível conectado aos filhos. Uma espécie de cordão umbilical mágico. Quando esse laço se rompe elas o percebem. Talvez algumas tenham uma facilidade menor ou maior para percebê-lo, mas percebem. Lembro-me de que Irene, minha esposa, estava fazendo tricô na tarde em que nosso filho faleceu; num determinado momento suas mãos deram um tranco esquisito e ela quase espetou o braço com uma das agulhas. Irene colocou uma das mãos na cabeça, dando a impressão de sentir-se um pouco tonta. Não tenho a menor dúvida de que foi exatamente aquele o momento em que o laço entre ela e Matheus se rompera.
Uns quinze minutos depois o telefone tocou. Quem recebeu a notícia da morte do nosso filho foi Irene. A pobrezinha desmaiou; foi ao chão tão depressa que não tive tempo de segurá-la.
Porém a queda de Matheus tinha sido ainda pior; tinha sido fatal. Meu filho caíra de uma altura de sete metros, mais exatamente de uma casa na árvore, no quintal de um amigo. Segundo as duas testemunhas, seus amigos Pedrinho e Marcelo, meu filho escorregara e caíra de cabeça no solo duro. Matheus sofrera traumatismo craniano. Morrera minutos após a queda, segundo os médicos que o atenderam. A queda o deixou com o corpo todo torto. Até hoje tenho pesadelos ao lembrar daquela imagem chocante do meu querido filho. Não deixei Irene vê-lo naquele estado terrível; teria sido a morte para ela.
Só quem teve o desgosto de enterrar um filho ou uma filha sabe a dor que nós passamos. Nos dias após a morte de Matheus nós não vivemos; apenas sobrevivemos. Quase não comíamos; chorávamos muito e caminhávamos feito um casal de zumbis num filme de George Romero. Os dias passavam e a dor não cicatrizava; martelava-nos impiedosamente, como um castigo injusto. Por que levar um menino tão lindo e bom como o nosso filho? O que teríamos feito para merecer aquilo?
Cinco meses depois a dor ainda estava lá; velada em nossas mentes e corações. Mas nós tentávamos seguir nossas vidas, afinal de contas ainda tínhamos uma vida inteira pela frente; eu estava com trinta e sete anos e Irene tinha acabado de completar trinta e um. Confesso que ela estava muito mais conservada do que eu; tão linda como no dia em que eu a conhecera.
Após a morte de Matheus o meu relacionamento com Irene havia se abalado um pouco; creio que seja algo natural em situações assim. Passamos a conversar menos. Irritávamos muito facilmente. E algo começava a me afetar: não fazíamos mais sexo. Tentei tocar no assunto algumas vezes, mas não obtive sucesso. Confesso que tive oportunidades para traí-la; certa vez sua amiga Charlene veio até a nossa casa e me passou uma cantada tão descarada que devo ter enrubescido até o dedão dos pés; mas resisti. E fiz a coisa certa. Tudo nesta vida tem o tempo certo.
Estávamos no fim do verão; uma lua cheia maravilhosa surgiu num céu azul-escuro tão limpo que parecia pintado a mão. Com o passar dos minutos centenas de estrelas deram o ar de suas graças. Fazia um calor infernal; eu estava sem camisa e usava um short branco do Flamengo. Havia dias que Irene me pedia para olhar o encanamento da pia da cozinha; e eu sempre me esquecia. Mas não sei por que cargas-d’água resolvi fazê-lo naquela noite. Eu não entendia absolutamente nada de encanamento, portanto você pode imaginar a bagunça que eu aprontei no local.
Quando ouvi a porta da sala se abrir eu já imaginei a cena toda na minha cabeça: Irene faria o maior escândalo ao entrar na cozinha e encontrá-la naquele estado Pós-Guerra-No-Iraque. Mas eu não poderia estar mais errado.
Olhando por debaixo da pia pude ver suas lindas pernas bronzeadas paradas diante da porta da cozinha. Seus pés estavam nus.
— Não se preocupe — disse eu, um pouco sem jeito. — , depois eu limpo esta zona toda.
Ela não disse nada. Puxou uma cadeira e se sentou, olhando para mim. Seus lindos cabelos loiros estavam soltos; ela usava uma camiseta branca com um leão estampado na altura dos seios e vestia uma saia jeans que descia até os joelhos.
— Não vai brigar comigo? — insisti, esperando a bronca.
Ela começou a rir. Fazia tanto tempo que eu não a via sorrindo daquela forma. Senti-me como um trabalhador de uma mina de carvão olhando para a luz do sol após um mês sob a escuridão.
— Esqueça que eu estou aqui — disse ela, cruzando os braços e olhando para as minhas pernas. Depois voltou seus olhos verdes para o meu peito nu — Quero ver você trabalhar.
Depois de alguns minutos começamos a rir sozinhos, feito dois loucos.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Não posso mais sentir tesão pelo meu marido?
Naquele momento quem riu de orelha a orelha fui eu. E depois ela me acompanhou, dando uma gargalhada tão gostosa que toda a vizinhança deve ter ouvido.
Finalmente fizemos amor àquela noite; três vezes, se não me falha a memória.
E outra coisa espantosa estava para acontecer naquela mesma noite.
Desci as escadas para tomar um copo de leite gelado e notei que a porta da sala de jogos estava aberta. Detalhe: desde a morte de Matheus aquela porta estava sempre fechada, pois trazia muitas memórias do nosso falecido filho. Era ali que ele passava a maior parte do seu tempo, brincando sozinho ou com os amigos. Não tivemos coragem sequer para mexer nos objetos que ali estavam; deixamos exatamente como estavam no dia em que Matheus se foi.
Passei pela porta e voltei a fechá-la.
Fui até a cozinha, tomei meu copo de leite e preparei um lanche para Irene. Há muito tempo eu não me sentia tão feliz; pela primeira vez voltei a ter esperanças de que nosso casamento entraria nos eixos novamente. Foi estranho sentir aquela alegria toda; de certa forma senti-me um pouco culpado. De repente lembrei que jamais veria o rosto do meu filho novamente; não iria mais acompanhar sua juventude; vê-lo se casar; mimar meus netos. A alegria deu lugar a saudade.
— Sinto tanto a sua falta, filhão — falei baixinho, deixando escorrer algumas lágrimas.
A porta da sala de jogos se abriu. Quase derrubei a bandeja com os dois sanduíches que eu havia preparado para Irene.
Apaguei a luz da cozinha e parti rumo ao meu quarto, segurando uma bandeja com dois sanduíches e um copo com refrigerante bem gelado. Irene odiava leite; ou melhor, ainda odeia.
Ao passar pela porta da sala de jogos eu tornei a fechá-la. Quando subi três degraus da escada a porta voltou a se abrir; e desta vez bateu com força na parede dentro da sala de jogos. Desci os três degraus, adentrei a sala de jogos e acendi o interruptor. A lâmpada falhou um pouco no começo, mas acendeu.
Fazia meses que eu não entrava ali. Foi surreal olhar para aquele cômodo estacionado no tempo. Tive a ligeira sensação de que Matheus entraria por aquela porta a qualquer momento, espalhando os brinquedos no chão. Estava tudo ali: a mesa de pebolim; o alvo preto e amarelo e seus dardos coloridos na parede; o dominó espalhado pelo chão; a estante repleta de brinquedos sujos e outros quebrados; uma cama de solteiro; e por último: meu velho microcomputador 486 (lê-se quatro oito meia). Matheus adorava brincar com o 486; geralmente passava horas no Word, escrevendo historinhas; diferente de outras crianças, que perdem seu tempo com joguinhos estúpidos.
Comecei a chorar. Apoiei a bandeja sobre a mesa de pebolim, antes que eu derramasse litros de lágrimas sobre o lanche. Sentei-me no chão, recostando-me na cama. Apesar do intenso calor que fazia, o quarto estava relativamente frio, como se eu tivesse ligado um ar-condicionado. Mas o único cômodo da casa que possuía ar-condicionado era o meu quarto, no andar de cima.
Chorei por mais de três minutos, olhando para o monitor desligado.
Foi então que me lembrei de um fato pelo qual não me perdôo até hoje; jamais me livrei deste terrível sentimento de culpa. Alguns dias antes de morrer Matheus havia me pedido diversas vezes para acompanhá-lo até a sala de jogos; ele queria me mostrar uma de suas últimas historinhas; “a melhor que ele já tinha escrito”, segundo ele. Não lembro o que eu estava fazendo quando ele me pediu isso; só sei que não o fiz. Se arrependimento matasse ... Irene estaria viúva.
Levantei-me e liguei o velho 486. O pobre coitado empacou algumas vezes na inicialização do Windows 95, mas funcionou, enfim.
Cliquei no ícone do Word e corri o ponteiro do mouse até o menu Arquivo, procurando pelos textos mais recentes. Lembrei-me de que o título da história escrita por Matheus tinha alguma coisa a ver com coelhos ou algo parecido.
Achei. Achei um arquivo com o nome “coelho_bingo.doc”. Abri o arquivo. Surgiu na tela um texto em fonte Arial 12 com umas dez páginas. O título da história era “As Aventuras do Coelho Bingo”. Comecei a ler e desabei em lágrimas novamente. Eu ia lendo e imaginando o próprio Matheus narrando a história, com sua voz gostosa e empolgante; e sua risada encantadora, é claro. Aquele menino teria um futuro brilhante à sua frente; corujice à parte.
— Cláudio! — gritou Irene. Sua voz ecoou pela escada. — Por que está demorando tanto?
Fiquei com receio de que ela descesse as escadas e me encontrasse na sala de jogos. E que ao entrar ali os dias tristes voltassem novamente. Não, eu não queria aquilo de jeito nenhum. A noite tinha começado de forma tão maravilhosa; nossas vidas pareciam tomar rumo outra vez.
Levantei-me da frente do 486, peguei a bandeja com o lanche — detalhe: o refrigerante continuava gelado — , apaguei a luz da sala de jogos, fechei a porta e subi as escadas correndo. Desta vez a porta permaneceu fechada.
Na manhã seguinte desci as escadas para preparar o café. Ao passar pela porta da sala de jogos ela se abriu. Era tão estranho; senti-me como se eu e a porta fôssemos dois ímãs de lados opostos.
— Acho melhor trancar esta porta antes que ...
E vi que o 486 estava ligado.
Mas é claro que estava! Na pressa de subir as escadas eu me esqueci de desligá-lo, não foi? Que susto eu levei.
Mas susto de verdade eu levei quando entrei na sala de jogos e olhei para o monitor; num determinado ponto do texto havia algo estranho:
“e Bingo olhou para o leopardo, dizendo: P EDRINHO ME EMPURROU O que você faz aqui, Senhor Leopardo?”
Após a palavra EMPURROU o cursor ainda piscava.
Pedrinho me empurrou? Aquilo não fazia o menor sentido na história do coelho Bingo. É claro que não fazia o menor sentido; aquela frase não estava ali na noite anterior.
Senti a sala de jogos ficando gelada novamente. Todos os ossos do meu corpo congelaram e cada pêlo do meu corpo ficou eriçado. Acreditem ou não, senti a presença do meu falecido filho ali naquele pequeno cômodo.
— Matheus, é você? — disse eu.
Quando percebi que Irene descia os degraus da escada desliguei o gabinete do 486 e deixei a sala de jogos, fechando a porta rapidamente. Rezei aos céus para que a porta não voltasse a abrir; pelo menos não na presença da minha esposa. Aquilo poderia lhe assustar um pouco; só não sei se tanto quanto eu estava assustado naquele momento.
— Credo! — disse ela, parada no penúltimo degrau da escada, olhando para mim com olhos arregalados. — Que cara é esta?
Sorri para ela.
— Eu te amo — disse eu.
Coloquei as mãos em volta de sua cintura e a beijei. Durante o beijo eu só pensava em uma coisa: ”Quem quer que esteja abrindo esta porta, por favor não o faça agora. Por favor!”.
E a porta permaneceu fechada.
Os dias iam passando e aquela frase não saía da minha cabeça ... PEDRINHO ME EMPURROU. Seria verdade aquilo? Matheus tinha sido empurrado sete metros abaixo pelo amigo Pedrinho? Não, aquilo era crueldade demais para um garoto de dez anos. Não poderia ser verdade.
Mas quem inventaria aquilo assim do nada? Algum espírito teria invadido a minha casa apenas para me pregar uma peça? Isso era um absurdo! A explicação estava diante dos meus olhos e eu me recusava a enxergá-la: Matheus estava tentando me passar um recado.
Confesso que tentei me convencer de que aquela frase tinha sido fruto da minha imaginação. Tentei, do fundo do meu coração. Mas não consegui, é claro. Eu estava prestes a desabafar tudo com Irene, mas também não consegui.
Aquilo estava me levando à loucura.
Certa manhã de sábado fui até a casa do menino acusado. Seus pais foram super gentis comigo; conduziram-me até o quarto do garoto. Pedrinho era um menino muito magro, parecia uma vara de pescar; seus cabelos eram tão ruivos que chegavam a doer os olhos se olhássemos muito para eles. Estava jogando vídeo-game; era um jogo tão violento que cheguei a pensar que a qualquer momento espirraria sangue da tela da TV. O garoto estava tão vidrado naquilo que nem percebeu que eu tinha me sentado ao seu lado.
— Você é bom nisso aí — disse eu.
Ele não disse palavra. Seus olhos nem piscavam.
Fiquei algum tempo em silêncio, até que resolvi lhe fazer uma pergunta:
— Será que você poderia me contar o que aconteceu naquela tarde em que o Matheus caiu da sua casa na árvore?
O garoto finalmente olhou para mim, mas só por alguns instantes, depois voltou sua atenção para a TV.
— Do que vocês estavam brincando? — tentei parecer apenas curioso e divertido, como um amigo que tivesse perdido uma tarde de brincadeiras por estar de castigo e quisesse saber o que acontecera na sua ausência.
— Estávamos lendo gibis — respondeu o menino, seco. — Só isso.
— Gibis? Hmmmm, que legal.
E de repente a frase começou a martelar na minha cabeça: “Pedrinhomeempurrou Pedrinhomeempurrou Pedrinhomeempurrou”. Eu a ouvia com a voz do Matheus.
— O senhor está tirando a minha concentração — disse Pedrinho, num tom irritado.
Comecei a me sentir um completo idiota. O que eu iria conseguir ali com aquele menino? Ele era apenas mais um menino de dez anos, mimado até os ossos. Mesmo que ele tivesse empurrado Matheus sete metros abaixo, o que eu poderia fazer? Resolvi voltar pra casa.
Antes de deixar o quarto fiz algo de que não me orgulho, mas quando vi já tinha feito; sussurrei no ouvido do menino:
— Eu sei que você empurrou o meu filho, seu assassino!
O garoto ruivo parou de apertar os botões do joystick por alguns instantes; parecia ligeiramente nervoso. Mas depois voltou sua atenção para a TV novamente, como se nada tivesse acontecido.
— Tenha um bom final de semana — disse eu. Minha voz saiu baixa e fraca.
Levantei-me, enfim, e atravessei o quarto do garoto, desviando dos brinquedos espalhados pelo chão. Antes de passar pela porta dei uma última espiada no menino sentado na cama. Não sei se ele percebeu ou não, só sei que olhou para mim e deu uma piscada. Aquele gesto foi tão cínico que senti uma vontade enorme de pular em seu pescocinho fino e esganá-lo até que ele confessasse o assassinato de meu filho.
Mas é claro que eu não o fiz.
Deixei o quarto e quando eu passava pelo corredor, indo até a sala, ouvi um estouro que me fez pular meio metro de altura. O som tinha vindo do quarto do garoto.
— O que foi isso? — gritou a mãe de Pedrinho, correndo apavorada na minha direção.
Corri até a porta do quarto; Pedrinho continuava sentado na cama com o joystick nas mãos. Porém sua TV estava totalmente destruída; preta feito carvão e deixando sair uma fumaceira danada. O quarto ficou com um cheiro terrível.
— A televisão explodiu do nada, mãe! — disse o menino, um pouco agitado.
— Deus do céu! — disse ela, passando as mãos pelo corpo do menino, procurando algum sinal de ferimento.
Pedrinho olhou irritadíssimo para mim, como se eu tivesse sido o culpado pela explosão da TV. Bom, hoje eu tenho um palpite a respeito de quem explodiu o aparelho.
Tive pesadelos durante semanas com aquela piscadela do garotinho ruivo. Algumas vezes ele confessava ter empurrado meu filho para a morte. Outras vezes chorava e pedia perdão. Em alguns ele me ameaçava, dizendo que eu seria a sua próxima vítima. Porém nada traria o meu filho de volta.
Algumas vezes eu ligava o velho 486 de madrugada e deixava o Word com uma tela em branco. Mas nunca tinha nada na manhã seguinte.
Até que numa manhã de domingo vi uma frase em letras garrafais:
AMO VOCES AGORA POSSO IR EM PAZ
À noite o telefone tocou e desta vez fui eu que recebi a notícia: Pedrinho tinha caído da casa na árvore. A mesma de onde Matheus havia caído. Segundo sua mãe, a única testemunha, Pedrinho brincava sozinho no momento da queda.
Até hoje eu não me decidi se conto ou não esta história para minha amada Irene.
FIM
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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