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Contos de Terror

O Trem

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Sinopse

Pressionado pelos amigos, um garoto troca o caminho de casa por uma visita à ferrovia, onde um acidente despertou a curiosidade da cidade. Entre os trilhos e o cemitério vizinho, o passeio o aproxima de algo que tornará impossível olhar para aquele lugar da mesma maneira.

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Espaçamento 1.4

Capítulo único · O Trem

Seria apenas mais um fim de tarde, pensei. Deixaria o colégio, compraria doces na mercearia da esquina e iria direto para minha casa. Mas não foi bem assim.

Faltavam poucos minutos para a aula da Sra. Margareth terminar, Matheus me cutucou pelas costas e sussurrou:

— Você vai com a gente ou não?

Matheus era meu melhor amigo, e também o maior arruaceiro que já conheci. Quebrar vidraças era pouco para aquele moleque de olhos esbugalhados e sardas nas bochechas. Seu cabelo era tão ruivo que parecia estar em chamas. Por onde anda Matheus hoje? Só Deus sabe.

— Não! — respondi. — Minha mãe me disse que se eu chegar atrasado em casa mais uma vez ela vai me colocar de castigo por duas semanas.

— Molenga! — disse Pedro, sentado na carteira ao lado.

Pedro também não era nenhuma flor que se cheirasse, mas pelo menos era inteligente. Era o único aluno que conseguia tirar nota 10 nas aulas da Sra. Margareth.

Pedro eu sei por onde anda, transformou se num bem sucedido homem de negócios, sua empresa de refrigerantes vende tanto quanto as grandes marcas. Bom, pelo menos foi o que fiquei sabendo.

— Vocês não entendem! — protestei. — Se eu ficar de castigo não vou poder jogar a final semana que vem. É isso que vocês querem?

Nosso time de futebol estava na final do campeonato entre os bairros. Bons tempos aqueles em que eu ainda praticava algum esporte. Bons tempos!

— Não se preocupe, não vamos demorar! — retrucou Matheus.

Pedro pegou no meu braço e me disse:

— Vem com a gente, molenga!

Na manhã daquele dia um trem havia atropelado uma égua. Para uma cidade pacata como a nossa aquilo foi o acontecimento do ano. Pedro e Matheus estavam loucos para ver a cena bizarra. Daniel, o valentão do nosso bairro, jurou que havia passado no local e que os pedaços do animal ainda estavam lá, espalhados por todos os lados. Segundo ele, a coisa mais legal que já vira em toda sua vida. É impressionante como criança adora coisas nojentas.

Confesso que além da ameaça de castigo pela minha mãe havia outro motivo pelo qual eu não me simpatizei com a idéia, eu morria de medo daquela ferrovia. Desde pequenino eu já ouvia histórias e mais histórias sobre aquele lugar. Sem contar que o cemitério municipal ficava bem ali do lado.

Mas quando se tem 10 anos e os amigos começam a lhe chamar de medroso você não tem outra saída, você topa qualquer aventura. E foi o que eu fiz.

A sirene tocou, era o fim da aula da Sra. Margareth. Em todos aqueles anos de colégio aquela foi a primeira vez em que a sirene não me foi bem vinda. Muito pelo contrário, senti um calafrio enorme.

— Lá vamos nós! — disse Matheus, eufórico.

Ele falou tão alto que despertou a atenção da professora.

— Aonde vocês vão, hein? — perguntou ela, olhando sobre os óculos.

— Pra casa, fessora! — respondeu Pedro, o garoto prodígio da Sra. Margareth. Não havia dúvida alguma de que ele era o seu aluno predileto. Pedro, é claro, tirava proveito o máximo que podia.

— Olha lá, hein! Estou de olho em vocês. Principalmente em você, Matheus.

E lá fomos nós.

Saímos do colégio e a primeira coisa que eu notei foi o céu carregado, deixando aquele final de tarde ainda mais escuro. Faltavam dez minutos para as seis horas. Só de imaginar aquela ferrovia debaixo da escuridão eu já tremia todo.

— Como vocês sabem se os pedaços da égua ainda estão espalhados por lá? — perguntei.

— Por causa da tempestade de ontem a prefeitura está cheia de serviço. Meu pai disse que só amanhã é que o pessoal fará a limpeza.

O pai de Matheus trabalhava na prefeitura, só não me recordo o cargo.

Entramos na ferrovia e começamos nossa jornada. Seriam 30 minutos de caminhada, segundo Daniel, o valentão.

— Vocês não vão acreditar no que me aconteceu ontem. — disse Matheus, com um baita sorriso nos lábios.

— Seu primeiro pêlo pubiano cresceu? — perguntou Pedro.

Eu tinha uma vaga idéia do que seria “pêlo pubiano”, mesmo assim caí na gargalhada.

— Pêlo o quê? — perguntou Matheus, confuso.

— Deixa pra lá. O que aconteceu com você?

— Então, minha mãe achou uma revista de mulher pelada debaixo do colchão do meu irmão ontem.

— E daí?

— E daí que ela jogou a revista fora. Só que eu consegui retirá la do lixo!

— É mesmo? Mostra pra gente!

— Não está aqui comigo. Cara, demais!

— Depois você me empresta?

— Claro que não! Se a sua mãe encontrar fará a mesma coisa que a minha fez.

De repente os dois enfiaram as mãos dentro de suas mochilas e cada um retirou uma lanterna. Foi aí que eu percebi que já estava escuro. Pedro ligou a sua e apontou bem na direção dos meus olhos.

— Você não trouxe a sua? — perguntou ele.

— Não.

Matheus também ligou sua lanterna.

— Pessoal, já que estamos aqui, poderíamos dar uma passadinha pelo cemitério depois.

— Nem pensar! — resmunguei. — O combinado era visitarmos a égua morta e pronto.

— Do que você tem tanto medo? — perguntou Pedro.

— Não tenho medo de nada, só não quero ficar duas semanas de castigo.

— Ele está com medo da Menina do Assovio. — disse Matheus.

Menina do Assovio. Eu tinha ouvido aquela história minha infância toda. Diziam os mais velhos que no ano de 1922 uma garotinha havia sido atropelada por um trem, ali mesmo naquela ferrovia, e que anos após sua morte os maquinistas ouviam um assovio sempre que passavam pelo trecho do acidente.

— Você é que tem medo! — respondi, com raiva.

Continuamos a caminhada, andando pelo meio dos trilhos.

— Meu avô foi maquinista. — disse Pedro, de repente.

— Mentiroso! — retrucou Matheus. — Seu avô fica jogando xadrez o dia todo lá na praça.

— Seu burro! Ele foi maquinista, mas muitos anos atrás, eu nem tinha nascido.

— E daí? — perguntei.

— Ele disse que já ouviu o assovio.

Matheus mirou a lanterna no rosto de Pedro e disse:

— Deixa de ser mentiroso.

— Ele me disse que ouviu uma vez. Só uma vez, mas ouviu.

Depois daquilo continuamos o caminho em silêncio. Embora ninguém admitisse, estávamos os três assustados. Senti uma leve sensação de arrependimento nos olhares de Pedro e Matheus.

Mas nenhum de nós desistiu. Estávamos próximos do local onde o acidente com a égua havia acontecido, então prosseguimos.

De repente ouvimos um assovio agudo. Meu coração quase saiu pela boca. Pedro até derrubou sua lanterna sobre as pedras.

— Peguei vocês!!! — disse Matheus, caindo sentado entre os trilhos, quase rolando de tanto rir.

Pedro pegou sua lanterna, mas não conseguiu ligá la.

— Olha o que você fez, idiota! — gritou ele, furioso.

— Se você não fosse tão medroso não teria se assustado e jogado sua lanterna longe. Pedro pegou uma pedra e ameaçou jogá la em Matheus, mas não o deixei.

Estávamos tão próximos, se Pedro acertasse o alvo teria causado um estrago e tanto na cabeça ruiva de Matheus.

Após o incidente recomeçamos a caminhada. Pedro tentou várias e várias vezes ligar sua lanterna, mas em vão. A única luz que nos guiava era a que saía da lanterna de Matheus. Era pouca coisa para aquela escuridão toda.

De repente sangue, muito sangue. Pedaços de carne e ossos partidos pelos trilhos. Sim, não havia dúvidas de que havíamos encontrado o local do acidente. Meu coração acelerou ainda mais.

— Foi aqui. — disse Pedro, com a voz fraca.

Matheus mirou a lanterna para os lados e a cena foi ainda mais bizarra e chocante do que havíamos imaginado. A égua estava com o corpo todo aberto. Havia pedaços espalhados por todos os cantos. Sua cabeça estava uns 20 metros além, do outro lado dos trilhos. Certamente algum cachorro tentou levar e não suportou o peso. Ao ver tudo aquilo diante de meus olhos a primeira sensação que tive foi uma ânsia muito forte. O cheiro estava insuportável. O som das moscas zunindo em nossos ouvidos foi algo que eu jamais me esqueci.

Fiquei um bom tempo paralisado com aquela cena chocante. Meus ossos congelaram e meus olhos quase não piscavam. Mesmo com o mau cheiro eu não conseguia mover meus braços e colocar minhas mãos contra as narinas. Fiquei literalmente paralisado de terror.

Pedro e Matheus, ao perceberem minha condição, desapareceram. Quando percebi já era tarde. Entrei em pânico.

— Pedro, Matheus, onde vocês estão? Parem de brincadeira, está escuro aqui!

Nada, eu só conseguia ouvir os barulhos das moscas sobre a carcaça da égua.

— Matheus, acenda a lanterna, por favor!

Nada. Nem sinal dos dois. Comecei a chorar. Num determinado momento eu até ouvi a risada de Matheus, mas estava tão longe que eu rezei para não ser a dele. Por mais embaraçosa que fosse a minha situação eu ainda queria que eles estivessem próximos.

Mas não estavam.

E ali estava eu, sozinho, na escuridão, o lugar cheirava tão mal que eu estava quase vomitando, e o som das moscas estava me levando à loucura. Dizem que todo pesadelo termina no auge do terror. Pensei comigo, se aquilo ali era um pesadelo então estava prestes a terminar.

Mas não terminou. Estava apenas começando. No auge do meu desespero comecei a sentir o chão tremer e ouvir um som ficando cada vez mais próximo. Era o trem.

É duro admitir isso, mas já que estou contando tudo, não custa nada confessar que me urinei todo. O pavor foi tão grande que perdi o controle sobre meu corpo. Meus ossos congelaram e eu não conseguia me mover. Eu só conseguia fazer duas coisas, chorar e gritar os nomes dos meus amigos ingratos. Com amigos como aqueles eu não precisava de inimigos, esta era a verdade.

E o trem se aproximava cada vez mais. Os trilhos tremiam, denunciando e sentenciando minha morte. Dentro de mim eu queria correr, queria me jogar para longe daqueles trilhos, mas eu não conseguia. Quanto mais próximo o trem ficava menos controle eu tinha sobre o meu corpo. Era como se eu já estivesse morto, apenas esperando o trem me acertar em cheio para que minha alma pudesse se libertar.

Quando percebi o trem há menos de 50 metros a única coisa que eu vi foi minha mãe. Vi claramente seu rosto. Ela estava sorrindo para mim, seus olhos azuis brilhavam mais do que nunca. Senti um aperto no coração por tê la desobedecido. Antes que eu pudesse me despedir e olhar o seu rosto pela última vez eu senti o clarão do trem me iluminar por inteiro. Lembro me vagamente deste momento, quase fiquei cego com aquela luz intensa sobre os meus olhos. Foi quando senti um empurrão. Meu corpo foi arremessado violentamente para o lado e escapei da colisão com o trem.

Quando abri os olhos novamente eu estava no hospital. A primeira pessoa que vi foi minha mãe. Os mesmos olhos azuis e o mesmo brilho da noite anterior.

— Eu não queria me atrasar, mãe, mas o Matheus e ...

— Está tudo bem, agora descanse bastante. — disse mamãe, acariciando meu rosto.

— Feche os olhinhos e durma. Mamãe vai sair só um minutinho e já volta, está bem?

Fiz sinal positivo com a cabeça. Eu ainda estava muito confuso. Meus braços doíam. Mamãe deixou o quarto e a acompanhei com os olhos. Eu estava num quarto pequeno, havia mais duas camas, uma ocupada por um velho e outra por uma menina. Ela estava sentada me encarando.

— Sua mãe foi pegar sopa? — perguntou a menina.

— Perguntou pra mim?

— Sim, sua mãe foi pegar sopa?

— Não sei. Por quê?

— Porque a sopa daqui é ruim.

— Muito ruim?

— Sim, muito.

— Vou tentar evitar então. Obrigado.

— De nada.

Acho que adormeci antes de minha mãe voltar para o quarto. Eu devia estar sobre o efeito de algum remédio.

Quando anoiteceu recebi alta do hospital. A menina da sopa e o velho dormiam quando deixei o quarto de braços dados com meus pais. No momento em que passava pela porta vi a enfermeira com um prato de sopa nas mãos. Olhei bem para ela e disse:

— Vocês não teriam outra coisa além de sopa?

A enfermeira sorriu para mim e respondeu:

— Por quê? Você não gosta de uma sopinha bem quentinha?

— Por mim tudo bem, mas ela não gosta. — falei, apontando para a cama da garotinha.

Todos olharam na direção onde eu apontei. Notei que fizeram umas caras estranhas.

— Ela quem? — perguntou a enfermeira.

— Aquela menina ali! — apontei novamente.

Olharam novamente e notei a mesma expressão em seus rostos.

— Não tem nenhuma menina ali, filhão. — disse meu pai.

Quando olhei para dentro do quarto a menina não estava mais sobre a cama, estava diante da janela, olhando para mim. Seu assovio era doce como uma flauta.

FIM

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