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Contos de Terror

O Poço

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Sinopse

Afundado em dívidas, Ronaldo vê na fazenda herdada da mãe a chance de salvar suas finanças. Ao retornar à propriedade após vinte anos, ele encontra um lugar aparentemente preservado, mas os mistérios da família e a presença de um velho poço ameaçam transformar o negócio em uma experiência aterradora.

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Espaçamento 1.4

Capítulo único · O Poço

Ronaldo Sanz tinha 30 anos quando a mãe morreu, deixando lhe a Fazenda Santa Gertrudes como herança. Cerca de 15 alqueires de terra na cidade de Campanha, sul de Minas Gerais. A fazenda vinha passando de geração em geração, desde 1903. Mas este ritual de passagem estava com os dias contados. O restaurante de Ronaldo ia mal e suas finanças estavam chegando no vermelho. Os dias se passavam e os credores aumentavam. Funcionários com salários atrasados, contas de água e luz, prestações da casa, tudo chegava ao mesmo tempo. Vender a fazenda poderia ser a salvação.

Ronaldo nasceu e cresceu em Belo Horizonte, chegou a visitar a fazenda apenas uma vez, quando sua avó morreu. Ronaldo tinha 10 anos naquela ocasião. Foi muito estranho para ele ter conhecido a avó deitada num caixão de madeira. Ele exigiu respostas da mãe, respostas que nunca vieram. Sua mãe não gostava daquele lugar, era tudo o que ele sabia ao certo. Alguns anos depois seu avô também faleceu. Sua mãe herdou a fazenda. Ela não assumiu o comando das terras, mas também não teve coragem de vendê las. Sorte de Ronaldo.

Vinte anos haviam se passado desde a sua última visita à fazenda, o lugar parecia o mesmo. Após a morte do avô, sua mãe fizera questão de manter a fazenda em ordem, enviando aproximadamente 500 Reais mensais para Antônio, um antigo empregado da fazenda. Antônio ficaria encarregado de manter o velho casarão em boas condições. Após a morte de sua mãe, Ronaldo interrompeu os cheques, usando o dinheiro para suas próprias despesas, portanto ele não sabia o que esperar quando chegasse à fazenda. O lugar poderia estar próximo do caos. Mas não estava. O mato ao redor do casarão estava um pouco alto, mas nada além disso. A fazenda estava em ótimas condições. Ronaldo sentiu seus problemas financeiros indo embora. Ao mesmo tempo sentiu uma leve sensação de culpa por se desfazer daquele lugar tão bonito, e que fora de sua família por tantos anos. Por um instante imaginou sua filhinha Juliana, de 6 anos, correndo pelo caminho de terra vermelha até a varanda do casarão, imaginou também sua ex esposa sentada na cadeira de balanço chamando o para o almoço, mas só imaginou. Ambas estavam longe e não faziam mais parte de sua vida, infelizmente. Ronaldo e Maria Luiza estavam separados há 3 anos. Incompatibilidade de temperamentos, alegaram.

Abriu a porteira e adentrou lentamente, estacionando seu Palio branco logo abaixo de uma jabuticabeira, próximo ao velho casarão. As lembranças de Ronaldo eram poucas e, na maioria das vezes, vinham de antigas fotografias. Mas ele logo percebeu que o casarão continuava belo e imponente.

— Caramba, este lugar deve valer muita grana! — disse ele, abrindo um largo sorriso e procurando as chaves no porta luvas.

Já passava das 6 horas da tarde e o sol começava a ir embora. O número de chaves era tão grande que Ronaldo levou cerca de 10 minutos para achar aquela que abriria a porta da frente do casarão. Quando esta se abriu ele ficou impressionado. O interior era ainda mais bonito e parecia ter o dobro do tamanho. Como aquilo era possível ele não sabia dizer. Os móveis estavam cheios de teia de aranha, mas eram belíssimos. Havia um tapete enorme sobre o chão da sala, decorado com desenhos de animais e textos em caracteres cuneiformes. As cortinas eram todas bordadas, nas cores branco ovo. Havia uma mesa enorme, feita com troncos de árvores medianas. Apesar das teias de aranha e um pouco de poeira, o lugar parecia estar vivo, como se a qualquer momento alguém pudesse descer as escadas e lhe dar as boas vindas.

— Uau! — disse baixinho.

Ronaldo iniciou sua turnê pelo velho casarão e ficou deslumbrado com a finíssima decoração. Seus avós possuíam bom gosto, isso era inegável. Sentiu um aperto no coração por não ter conhecido seus avós mais intimamente.

Quando desceu as escadas para pegar suas malas já era noite. Seu estômago roncava. Na cozinha não havia nada além de um saco de Pão Pullman cheio de bolor, provavelmente esquecido por Antônio. Ao pensar em Antônio, Ronaldo se deu conta de quão honesto aquele homem deveria ser. O casarão possuía tantos objetos de valor e, aparentemente, continuavam todos ali. As contas de água e luz haviam sido pagas, pois tudo funcionava perfeitamente. Isso reforçou a tese de Ronaldo sobre as pessoas do interior possuírem um grau de honestidade bem acima daquelas que vivem nas grandes cidades. Pensou em procurá lo no dia seguinte para um almoço e um bate papo. Não o conhecia pessoalmente, mas a cidade é pequena, talvez não seja tão difícil encontrá lo.

Cansado, Ronaldo deixou as malas no sofá, pegou o carro e dirigiu até o centro da cidade. Foram necessários 24 minutos. A estrada era de terra e toda cheia de buracos, mas a fome falava mais alto. Ele precisava arranjar algo para comer imediatamente. Não havia muitas opções na cidade, além de já ter escurecido e a maioria dos estabelecimentos estarem fechados. Ronaldo teve de se contentar com hot dog de um carrinho de lanches. Pediu dois, praticamente devorando o primeiro com rápidas mordidas. Um velho, sentado num engradado de Coca Cola, observava Ronaldo comer o segundo hot dog.

— Deve estar faminto, moço! — disse o velho. — Nossa! Cuidado para não engasgar. Ronaldo limpou os lábios com o guardanapo e respondeu:

— Sim, senhor. Saí de Belo Horizonte com apenas um pão com maionese. Quando dirijo não gosto de parar, portanto...

O homem do carrinho de lanches o interrompeu.

— Logo notei que o senhor não é daqui.

— Caramba, é tão óbvio assim?

— Vocês da cidade grande estão sempre apressados. — disse o velho.

Ronaldo sorriu, após outra dentada no hot dog.

— Veio dar um passeio? — perguntou o homem dos lanches.

— Na verdade, não. Vim resolver alguns negócios. Pretendo vender uma fazenda.

— Uma fazenda? — perguntou o velho. — Ah, sim, o senhor não tem cara de quem gosta disso não. Aquele ali é o seu carro, não? — e apontou a mão enrugada para o Palio de Ronaldo. — O senhor tem jeito de advogado.

— Não, está enganado. Não totalmente, a primeira observação estava correta.

Dois garotos chegaram e pediram X Bacon. Enquanto pegava os pães, o homem do lanche fez outra pergunta a Ronaldo:

— Meu Padrinho está interessado em comprar algumas terras por aqui. Onde fica a sua fazenda?

Ronaldo terminou o segundo hot dog e jogou o saco plástico no lixo.

— Talvez vocês a conheçam. Fazenda Santa Gertrudes. Fica perto da...

— Espere um pouco, — interrompeu o velho. — você é o neto do Onório?

— Sim, eu sou, — Ronaldo ficou um pouco surpreso. — você conheceu o meu avô?

— Você é muito parecido com ele. Por um instante pensei que fosse o fantasma do seu avô perambulando pela cidade. — Ronaldo sorriu, e o velho continuou: — Trabalhei muitos anos para ele, moço. Até pouco tempo eu cuidava do casarão, a pedidos de sua mãe.

— Eu sei. Então você é o Antônio?

O homem dos lanches colocou pedaços de bacon na chapa. A fumaça irritou um pouco os olhos de Ronaldo.

— Eu mesmo. — respondeu o velho, sorrindo.

Ronaldo limpou as mãos com guardanapo e se aproximou do velho. Apertou lhe as mãos com ligeira força.

— Muito prazer, Antônio, meu nome é Ronaldo.

— O prazer é meu, Ronaldo. — fez se silêncio. — Sinto muito sobre a sua mãe. Ronaldo sentiu se constrangido, afinal ele cortara os 500 Reais mensais de Antônio.

— Pois é, uma tristeza. Mas ela vinha sofrendo muito naquele hospital.

— Então foi para o bem dela. Deus sabe o que faz, moço.

— Pode me chamar de Ronaldo, por favor.

O velho fez sinal de positivo com a cabeça.

— Então você vai vender a fazenda?

— Eu não gostaria, mas eu preciso. É uma longa história.

— Compreendo. É uma pena, aquele lugar pertence à sua família faz muito tempo. Antes mesmo de eu nascer aquilo já era de algum antepassado seu. Minha família trabalhou lá por muito tempo também. Meu pai trabalhou para o seu bisavô.

— Eu sei, agora eu entendo o motivo de minha mãe não ter conseguido vendê la. O sentimento de culpa espeta o coração como uma agulha.

— Sua mãe amava e odiava aquele lugar com a mesma intensidade.

— Acho que odiava mais do que amava. Mas ela nunca entrava em detalhes.

— Eu me lembro de algumas coisas. Ela era apenas uma garotinha quando perdeu a amiga, não?

— Pois é, ela me contou. Foi um choque muito grande ter perdido sua melhor amiga daquela forma.

— O desaparecimento de Malina chocou a todos nós. Um dos maiores mistérios da cidade. Acho que nunca saberemos o que realmente aconteceu com ela.

— Minha mãe me contava que as duas eram como unha e carne. Estavam sempre juntas.

— Sim, elas eram inseparáveis. Eu ainda me lembro das duas brincando no jardim. Havia um certo contraste, sua mãe era branca feito uma folha de caderno e Malina tinha a pele tão escura quanto um pedaço de carvão. Vez ou outra ouvíamos comentários carregados de malícia, se é que você me entende.

— Entendo. O preconceito é um negócio tão idiota.

— Sim, Ronaldo, uma burrice do tamanho de um bonde. É uma pena que isso ainda exista. Mas naquela época era ainda pior.

— Você acha que o desaparecimento de Malina pode ter sido fruto de racismo?

— Talvez sim, talvez não. O fato é que a pobre menina desapareceu sem deixar pistas. Pobre menina. Aqueles tempos não eram fáceis para os negros aqui. Meredith, mãe de Malina, sofrera muito também. Eu me lembro muito bem disso. Se não fosse a sua avó, aquela santa mulher, Meredith teria morrido com a filha ainda em sua barriga. Eu nunca me esqueço daquele dia. Algumas pessoas a apedrejavam, dizendo lhe palavras duríssimas, dizendo lhe que seria uma blasfêmia trazer outra criança negra para este mundo. Ronaldo, você não imagina como eu me senti por dentro vendo tudo aquilo de perto e sem poder fazer nada para ajudá la. Mas foi aí que um anjo enviou sua avó, aquela mulher tinha uma personalidade e uma presença tão fortes que poderiam levantar um trem. Ela expulsou aqueles idiotas e levou Meredith pro casarão. Algum tempo depois Meredith foi efetivada como cozinheira.

Ronaldo sempre ouvira histórias fantásticas sobre sua avó, mas era sua mãe quem as contava, então alguns fatos poderiam estar distorcidos. Mas não estavam.

— Minha avó devia ser uma pessoa incrível.

— E era mesmo, Ronaldo.

— Minha mãe falava pouco sobre meu avô. Dizia apenas que ele amava aquela fazenda e que trabalhava muito.

— Seu avô era uma pessoa difícil. Vivia o tempo todo de cara fechada. Eu juro pra você, em todo o tempo em que trabalhei naquela fazenda eu só o vi abrir um sorriso umas 3 vezes, no máximo. Mas uma coisa era inegável, ele amava a filha mais do que qualquer coisa neste mundo.

— Minha mãe sabia disso.

— Seu avô me fez chegar em casa chorando muitas vezes, meu rapaz.

— Sinto muito, Antônio. Ele era durão assim?

— Todos morriam de medo dele. Até os cachorros andavam de lado quando estavam perto dele. — o velho esboçou um sorriso.

— Caramba, eu não sabia disso não.

O velho começou a olhar distante, como se estivesse acessando fatos longínquos do seu passado. Ronaldo começava a bocejar.

— É melhor eu voltar pra fazenda, Antônio.

— Claro, fez uma longa viagem, você precisa descansar.

Ronaldo estendeu lhe a mão direita.

— Antônio, foi um prazer enorme te conhecer pessoalmente.

O velho lhe deu um aperto de mão bem forte.

— Nós já nos conhecíamos pessoalmente, meu rapaz. Quando sua avó morreu você visitou o casarão com sua mãe. Eu me lembro deste dia como se fosse ontem.

— Garanto que sim. Antônio, quer uma carona pra casa?

— Não precisa, moro aqui do lado. Obrigado. Sabe de uma coisa? Você pode ser a cara do seu avô, mas parece ter a personalidade da sua avó. Isso é muito bom. Muito bom mesmo.

— Que bom, Antônio. Fico agradecido.

Ronaldo voltou para o carro e, antes de abrir a porta, virou se na direção do velho, gritando:

— Antônio, amanhã você me passa as contas de água e luz que você pagou. Preciso reembolsá lo.

— Como assim? Que contas?

— Eu parei de lhe enviar os cheques, como você pagou as contas?

— Eu não paguei nenhuma conta.

Ronaldo ficou um pouco surpreso, mas estava cansado demais para argumentar.

— Tudo bem, deixa pra lá. Boa noite, Antônio.

— A gente se vê, meu rapaz.

Ronaldo fez o trajeto de volta um pouco mais devagar. Travou duas batalhas, uma contra os buracos na estrada e outra com o cansaço. Por fim ele venceu ambas. Levou mais de 40 minutos para chegar até a fazenda. O lugar estava no breu, com exceção da varanda, onde deixara a luz acesa antes de sair. Boa idéia, pensou ele, caso contrário seria quase impossível achar alguma coisa.

Estava tão cansado que caiu no sofá feito um saco de batatas. As molas do sofá não funcionaram direito, mas Ronaldo nem percebeu. Pegou no sono logo em seguida. Quando estamos realmente cansados não damos tanta importância ao conforto, talvez seja um truque do nosso cérebro.

Acordou assustado, teve um pesadelo esquisito. Sua mãe percorria o casarão chamando pelo nome da amiga, Malina. Ela usava um vestido vermelho, todo rasgado, e o mais estranho, sua cabeça estava sobre uma bandeja prateada, que ela mesma carregava com a mão direita.

— Mas que diabos foi isso?

Olhou seu relógio. Marcava 2:36AM. Seu corpo estava todo molhado de suor.

Acendeu a luz da sala e se lembrou que as malas ainda estavam ali. Abriu uma delas, pegou uma camiseta branca, uma cueca e uma bermuda jeans. Abriu outra mala e pegou uma toalha. Precisava de um banho. Esfriar a cabeça seria bom, além disso seu corpo cheirava mal.

Deixou a luz da sala acesa para enxergar melhor os degraus que levavam aos aposentos de cima. Lembrou se de ter visto 2 banheiros na parte superior do casarão. Fazia calor, um banho de água fria cairia muito bem naquele momento. Enquanto subia a escada notou algo que não havia notado quando passara ali pela primeira vez. Havia diversos quadros pendurados na parede, com fotos antigas. Em alguns dos quadros faltava o rosto de uma pessoa. Era como se alguém tivesse cortado as fotos com um pequeno canivete. Um quadrado quase perfeito, deixando um buraco preto. O rosto que faltava pertencia a uma criança. Uma menina. Uma menina negra. Malina? Muito provável que sim. Mas por quê seu rosto fora retirado daquelas fotos? Ronaldo cravou os olhos nos quadros com um certo espanto. A cada quadro novo que surgia a situação se repetia. O mesmo buraco vazio sobre o rosto da menina. Sua mãe estava em todas estas fotos, sempre ao lado da menina sem rosto. Ronaldo tentou lembrar se aqueles quadros estavam ali quando visitou a fazenda pela primeira vez. Provavelmente não, concluiu. Sua mãe certamente teria visto e feito um escândalo. Ela adorava um escândalo.

A escada parecia não ter fim. A luz da sala ia perdendo a intensidade a cada novo degrau, mas a escada não acabava. Ronaldo começou a sentir um calafrio na espinha por ter de subir aqueles últimos degraus no escuro. Quando era garoto ele tinha pavor de lugares escuros. Um pavor quase incontrolável. Após alguns anos de terapia ele conseguiu superar este medo. Mas agora ele estava de volta. A cada novo degrau suas pernas tremiam, fazendo a sola do tênis bater repetidamente sobre a madeira da escada, provocando um TOM TOM TOM TOM que ecoava pelo casarão. Seu coração batia tão forte que ele pensou estar próximo de um ataque cardíaco. Imaginou se rolando escada a baixo.

— Fique calmo, respire fundo! — disse a si mesmo, fechando os olhos. — Há um interruptor logo após o último degrau. Depois o corredor, com muitas lâmpadas. Tudo vai ficar bem. Tudo vai ficar bem!

Dar ordens para si mesmo fora uma sugestão da terapeuta. Funcionou quando ele era um garoto. Agora, adulto, sentiu se um idiota fazendo isso. Mas o método era eficaz, funcionou novamente. Enquanto falava ele terminou os últimos degraus e encontrou o interruptor. O corredor apareceu. De frente para ele surgiu um quadro, onde havia a foto de uma garotinha sorrindo. Aqueles olhos brilhantes, o nariz arrebitado e os cabelos loiros encaracolados só poderiam ser de sua mãe. Ronaldo fitou a foto por um instante, e disse:

— Acho que estou começando a entender porque a senhora evitou este lugar, minha querida mãe.

A garotinha da foto usava o mesmo vestido vermelho do pesadelo, mas Ronaldo estava tão assustado que não prestou atenção.

Será que o pavor do escuro voltara definitivamente? Afinal ele tivera este problema durante boa parte da sua infância. Ronaldo acendeu quase todas as luzes do corredor até chegar ao banheiro. Ele teve a leve sensação de ter voltado no tempo, quando fazia isso em sua casa, em Belo Horizonte, quando garoto. Ronaldo costumava acender todas as lâmpadas ao fazer o caminho do seu quarto até o banheiro. Sua mãe sempre lhe dava bronca, até perceber que aquele medo era um problema, e que precisava ser tratado com especialistas. Apesar das manias e loucuras da mãe, Ronaldo a idolatrava. Ela sempre estava de braços abertos quando ele precisava de ajuda. Ronaldo perdera o pai quando tinha 3 anos, sua mãe o criara com a ajuda das tias.

Acendeu a luz do banheiro, entrou e deixou a porta aberta. Nunca tomara banho com a porta do banheiro aberta antes, mesmo morando sozinho, mas aquele casarão começava a lhe despertar calafrios, algo que ele nunca sentira antes. Girou a torneira do chuveiro lentamente, não sabendo o que esperar. O modelo do chuveiro era um pouco antigo, havia algumas teias de aranha sobre ele, mas ele ligou. Provocou alguns estalos no início, mas funcionou, deixando cair uma água morna. Por alguns instantes aquela sensação estranha sobre o casarão se foi. Não é à toa que dizem “um bom banho pode limpar até a alma”. Enquanto uma parte de sua mente se esforçava para manter a racionalidade, outra parte não conseguia esquecer aquelas fotos sem o rosto da menina. Quem recortou o seu rosto das fotos e por quê?

Já fazia 10 minutos que Ronaldo estava debaixo do chuveiro, quando ele ouviu alguma coisa ecoar pelos aposentos do casarão. Eram vozes, ou pareciam vozes. Ele desligou imediatamente o chuveiro, girando a torneira com as mãos trêmulas. Quando os últimos pingos caíram o silêncio voltou. Seu coração estava disparado novamente.

— Cara, você está ficando lou...

Os sons ecoaram pelo casarão novamente. Agora com o chuveiro desligado dava pra notar que era realmente o som de vozes. Parecia vir lá de baixo. Ladrões? Pensou Ronaldo. Mas por quê não roubaram antes quando a casa estava vazia? Seriam provavelmente os ladrões mais estúpidos da face da terra. Lembrou se de uma cena do filme “Esqueceram de Mim”, onde a dupla de ladrões invade a casa e passam por diversos apuros com as armadilhas de Kevin. Riu por um instante. Mas as vozes continuaram. Falavam como tagarelas, mas não era possível entender o que falavam. Ladrões não invadem casas falando pelos cotovelos, invadem? Pensou Ronaldo, enxugando se com uma tremenda rapidez, apesar das mãos continuarem trêmulas. Havia alguma coisa muito estranha.

Ronaldo vestiu a cueca e a bermuda, largando a camisa sobre a tampa do vaso sanitário. Pegou o desentupidor com ambas as mãos, segurando o feito um bastão de beisebol. Seu coração ainda batia forte e suas pernas fraquejavam, mas Ronaldo tentou pensar o menos possível, só assim conseguiria forças para descer novamente aqueles degraus. Enquanto descia a escada notou que tudo parecia estar do mesmo jeito que ele deixara alguns minutos atrás. A porta não mostrava sinal algum de arrombamento, assim como as janelas. Suas malas continuavam desarrumadas como ele deixara. De repente as vozes pararam de tagarelar. Mas Ronaldo continuou descendo os degraus, procurando não olhar diretamente para aquelas fotos penduradas na parede. Aqueles quadrados vazios nas fotos lhe davam uma sensação estranha, quase uma sensação de culpa. Mas por quê? Pensaria nisso depois, agora ele tinha as vozes para se preocupar.

Quando Ronaldo se aproximou do sofá as vozes recomeçaram. Vinham da cozinha. As vozes falavam muito rapidamente. A luz da cozinha estava apagada. Ronaldo contou até três, respirou fundo e correu até o interruptor, mantendo o desentupidor preso à mão direita. Acendeu a luz e, por instinto, gritou. Mas não havia ninguém ali. As vozes vinham de um rádio velho sobre a pia.

— Puta merda, caralho! — gritou Ronaldo, largando o desentupidor e levando a mão direita contra o peito, com a respiração ofegante.

As vozes no rádio continuaram:

— Muito bem, Jaime, agora vamos começar o bloco de notícias.

— Sim, isso mesmo, nossos ouvintes precisam ficar bem informados, não?

— Sem dúvida, e aqui vão algumas manchetes de hoje, dia 02 de Julho de 1945. Os olhos de Ronaldo voltaram se para o rádio, arregalados.

— Hã? — grunhiu ele, com um nó na garganta.

O locutor prosseguiu.

— Jaime, pra começar, uma notícia não muito boa.

— Fala logo, Leo. A Alemanha quer guerra novamente? Espero que não.

— Uma garotinha está desaparecida.

— Isso é horrível, Leo. Temos a descrição da garotinha? Assim nossos ouvintes podem ajudar em sua busca.

— Temos sim. Atenção, ouvintes, uma garotinha está desaparecida desde a tarde de ontem. Ela tem olhos castanhos, cabelos negros bem curtinhos, tem a pele negra e....

— Espere aí, Leo! Você disse que a menina é uma crioula?

— Sim, Jaime, a ...

— Mas quem se importa com o desaparecimento de uma crioula?

Neste momento o rádio perdeu a sintonia, emitindo um chiado agudo, ensurdecedor. Ronaldo correu para desligá lo, mas não foi necessário, o rádio entrou em curto, esfumaçando completamente a cozinha. Ronaldo saiu dali o mais rápido possível, temendo que algo explodisse. Mas isso não aconteceu. Ronaldo caiu sentado no sofá, com os olhos cravados na cozinha. A fumaça começava a desaparecer. O rádio estava todo preto, carbonizado.

— Mas que diabos está acontecendo com esta casa?

Sua cabeça estava a ponto de explodir. Tantas perguntas. Tantas perguntas sem respostas. Tantas perguntas sem respostas normais. Quem teria ligado o rádio? Ele realmente ouviu aquelas vozes? Teria sido mais um truque de sua mente? E o rádio entrando em curto? E a fumaça? Quando Ronaldo conseguiu dormir novamente já era quase dia. Seu corpo parecia tão cansado quanto o de um operário de construção após cumprir uma longa jornada.

Acordou por volta do meio dia. O sol já estava quente lá fora. Ali dentro, o velho casarão parecia uma fornalha. As costas nuas de Ronaldo grudaram se ao sofá de couro. Ao se levantar seu corpo parecia um band aid sendo puxado de uma ferida. Quando se pôs de pé, a primeira reação de Ronaldo foi olhar para a cozinha, tentando provar para si mesmo que aqueles fatos estranhos da madrugada não passaram de um sonho muito esquisito, como aquele em que sua mãe carregava a própria cabeça numa bandeja. Mas o rádio continuava lá, todo queimado, e as paredes sujas por causa da fumaceira.

— Não pode ser. — sussurrou ele.

Ronaldo aproximou se do rádio com um certo espanto e curiosidade, como uma criança se aproxima de um cão sem dono. O cheiro de queimado era forte, um pouco nauseante. O estômago vazio de Ronaldo roncou. Ergueu o rádio com as duas mãos e percebeu que a tomada não estava ligada. O fio estava enrolado e preso com um pequeno pedaço de arame. Não havia sequer uma tomada ali próximo ao rádio. Examinou o aparelho e também não encontrou sinal de pilhas. Estranho. Muito estranho.

Pela primeira vez, desde a morte da mãe, Ronaldo começou a sentir que vender a fazenda não seria algo assim tão doloroso. Aquele lugar estava lhe dando nos nervos.

Acordando velhas fobias e despertando outras. Isso não era nada bom. Mas sentiu se bem em ver aquele sentimento de culpa ir embora.

Faminto, Ronaldo partiu em direção ao centro da cidade. Precisava fazer algumas compras, visto que ele teria de passar, no mínimo, mais um dia na fazenda. Ronaldo pretendia tirar algumas fotos do local e colocar anúncios nas imobiliárias da região.

Pretendia também separar alguns objetos de valor e vendê los para Mauro, um amigo em Belo Horizonte, dono de uma loja especializada em usados. Ronaldo precisava mesmo fazer algum dinheiro com a fazenda, pois a quantia que ele conseguira ao vender o Restaurante acabou servindo para pagar salários atrasados dos funcionários e algumas outras contas vencidas. Seu Palio ainda não estava totalmente quitado também, faltando algumas prestações. Vender a fazenda seria realmente um super negócio. Com a venda concretizada ele teria a chance de começar uma vida nova. Talvez numa outra cidade, numa outra região do país ou até mesmo viajar para fora do Brasil. Ele precisava reverter aquele quadro ruim em sua vida. Divórcio, a morte da mãe, negócios falindo, já estava na hora de algo bom acontecer. Mas ele precisava se livrar daquela fazenda. Quanto mais rápido, melhor.

Ronaldo parou no supermercado e comprou carne para hambúrguer, pães, maionese, mostarda, uma Coca Cola 2 litros e 10 latinhas de cerveja. Doces nunca fizeram parte da dieta de Ronaldo, desde criança sempre gostou mais dos salgados.

— Veio gastar um pouco? — alguém lhe disse, dando lhe dois tapinhas no ombro direito. Ronaldo não precisava se virar para saber quem era.

— Antônio! Você está me seguindo, homem?

Ambos sorriram.

— Cidade pequena é assim mesmo. — disse o velho, enquanto procurava algo na prateleira de refrigerantes. — A gente está sempre se esbarrando com todo mundo.

— Deve ser.

— Dormiu bem?

— Na verdade, não muito.

— Muito calor, não? Fazia tempo que não esquentava tanto nesta cidade. Geralmente aqui faz um tempo muito gostoso. As pessoas de fora adoram.

— O calor não me incomoda, estou acostumado.

Ficaram em silêncio por alguns segundos. De repente o velho perguntou:

— Você também ouviu, não?

Ronaldo ficou um pouco surpreso.

— Do que você está falando?

— Eu acho que você sabe do que eu estou falando.

Ronaldo não queria tocar no assunto do rádio. Não queria contar aquilo pra ninguém. Quem acreditaria naquilo? Mas não resistiu.

— Você também ouviu uns caras falando no rádio desligado?

Agora foi a vez do velho se espantar. Seus olhos ficaram arregalados.

— Rádio, mas que rádio?

— Um rádio velho que estava sobre a pia da cozinha. Mas ele estava desligado!

Ontem de madrugada ele funcionou sozinho, mas...

— Não sei do que você está falando. Quando eu deixei o casarão não havia rádio nenhum.

— Havia sim, mas agora está todo queimado, acho que entrou em curto. Fez uma fumaceira dos diabos naquela cozinha.

— Juro pra você que não me lembro deste rádio. Seu avô odiava barulho. Sua avó possuiu um rádio há muito tempo atrás, mas seu avô o fez em pedaços com um machado. Santo Deus, isso causou uma discussão tremenda entre os dois, se eu me lembro bem.

— Caramba, eu devo estar enlouquecendo então.

— Não diga isso. Você devia estar muito cansado. Só isso.

— É verdade. Mas o rádio existe sim, Antônio. Posso te mostrar.

— Não precisa. Acredito em você.

— Antonio, aposto que você poderá matar uma curiosidade minha. Quem cortou aquelas fotos emolduradas nas paredes da sala? E por quê? Por quê recortaram o rosto daquela pobre menina?

O olhar do velho foi entristecendo rapidamente.

— É difícil explicar, meu rapaz.

— Por quê? Quem fez aquilo?

O velho pareceu constrangido, como se não quisesse contar.

— Por favor, Antônio, conte me o que houve. Você não faz idéia do que eu passei esta madrugada. Mas pelo menos este mistério você pode resolver.

Antônio acabou cedendo à pressão.

— Não tem mistério algum naquilo. Seu avô foi o responsável.

Os lábios de Antônio tremiam timidamente.

— Meu avô? Mas por quê ele faria uma coisa dessas?

O velho fitou Ronaldo por alguns segundos, calado. Seus lábios ainda tremiam.

— Seu avô odiava negros.

— O quê?

— Perto da sua avó ele os tratava normalmente, mas longe era outra história.

— Isso não é possível. Minha mãe nunca me falou nada sobre isso.

— E por quê falaria? Ronaldo, por quê falaria? Se você não acredita em mim, tudo bem. Você tem todo o direito.

— Não é isso, Antônio. Perdoe me. Você me pegou de surpresa.

— Longe dos olhos da sua avó aquele homem era o pior pesadelo de qualquer funcionário da fazenda. Mas com os negros ele era ainda pior. Jesus Cristo! Eu não conseguia entender de onde vinha todo aquele ódio. Vi seu avô aplicar tantos castigos horríveis àqueles garotos negros da fazenda. Eu procuro não me lembrar daquelas cenas. Fico grato da minha memória funcionar melhor com momentos bons e falhar com os momentos ruins. Isso sim é uma memória boa.

— Caramba. Meu avô era um carrasco?

O velho não confirmou nem discordou. Ficou quieto, olhando Ronaldo com olhos tristes.

— Eu me lembro do dia em que ele recortou o rosto de Malina de todas aquelas fotos. Eu estava cortando o mato do jardim quando seu avô passou por mim feito uma bala. Seu rosto estava branco feito leite.

— O que houve?

— Ele disse que Malina piscara pra ele enquanto subia as escadas. As fotos, sabe? Eu era garoto naquela época, lembro me de ter ficado bem assustado quando ele nos contou. Eu ficava apavorado quando precisava subir aqueles degraus.

— A menina piscava pra ele nas fotos? Isso é ridículo.

— Ridículo ou não, ele pegou um canivete e cortou o rosto de Malina de todas as fotos. Todas elas. Na verdade ele queria queimá las, mas sua mãe também estava naquelas fotos, então ele não teve coragem. Sua avó ficou furiosa. Meu pai viu a briga dos dois, disse que faltou pouco para sua avó acertar um vaso na cabeça do velho. — Antônio sorriu, mais pela lembrança de seu falecido pai. — Sorte que sua mãe já estava morando na casa das tias em Belo Horizonte, pois eu nem consigo imaginar o que ela teria feito ao ver as fotos daquele jeito, sem o rosto da amiguinha desaparecida. Se me lembro bem, fazia quase 1 ano do sumiço de Malina quando o seu avô fez aquilo com as fotos.

— Agora eu entendo minha mãe. Ela era meio maluca, mas teve a quem puxar. Meu avô era meio estranho, não? Pobre de mim, será a minha vez?

— Não diga besteira. Meu velho pai já dizia: “Cada um cada um”.

— Isso se o “um” não for parente do outro “um”, aí é foda.

O velho sorriu.

— Vocês da cidade grande falam cada coisa!

Ronaldo sorriu de volta, e olhou o relógio, que marcava 1:10 PM.

— Eu fico contando minhas histórias e acabo te atrapalhando, não?

— Claro que não, Antônio, você está sendo muito útil para eu descobrir bons segredos da família.

— Tenho muitas histórias daquela época. Muitas mesmo. Afinal eu nasci e cresci dentro daquela fazenda.

— Antônio, eu adoraria ouvir estas histórias, mas uma outra hora. Acho que você deve ter ouvido o meu estômago roncar enquanto conversávamos, não?

— Então era o seu estômago? Pensei que tinha algum bicho na prateleira de Guaraná.

Ronaldo deu uma gargalhada, chamando a atenção de duas moças loiras que passavam pelo corredor.

— Essa foi boa, Antônio. Mas eu preciso ir, meu amigo. Estou faminto.

— Mastigue bem, meu rapaz. Um velho amigo passou desta pra melhor após engasgar com um ossinho de frango. Já imaginou morrer assim? Deus me livre.

Ronaldo apertou a mão do velho.

— Pode ficar sossegado. Antônio, a gente se vê por aí.

— Claro. E se eu souber de alguém interessado na fazenda eu mando te procurar.

— Ah, muito obrigado.

Cada um foi para um lado. Ronaldo caminhava em direção ao caixa e Antônio se preparava para pegar uma garrafa de Guaraná Kuat. De repente Ronaldo virou se novamente para Antônio, perguntando:

— O que você ouviu?

O velho foi pego de surpresa.

— Como assim?

— Antes que eu lhe contasse a história sobre o rádio você ia me contar alguma coisa, lembra? Você pensou que eu tinha ouvido a mesma coisa que você. Como não foi o rádio. Então o que você ouviu?

— Deixa pra lá, meu rapaz. Quando a gente envelhece deixa de ouvir muita coisa e passa a ouvir outras. Deve ter sido isso. Deixa pra lá.

Ronaldo pensou em insistir, mas estava realmente faminto. Acenou para Antônio e continuou seu caminho até o caixa.

Uma simples ida ao supermercado acabou se transformando numa aula de história. Descobriu que seu avô era racista, tinha alucinações, além de torturar cruelmente seus empregados. Era muita informação pra tão pouco tempo. Não fazia nem 24 horas que estava ali e tudo parecia tão diferente agora, principalmente a fazenda. Seria um lugar assombrado? Supondo que sim, isso atrapalharia a venda? A cabeça de Ronaldo estava prestes a entrar em parafuso.

Voltou pra fazenda, preparou 2 hambúrgueres com muita maionese e mostarda e abriu uma latinha de cerveja. Almoçou do lado de fora do casarão, sentado numa banqueta de madeira. As árvores proporcionavam uma sombra agradável e o vento estava brando. Entre um arroto e outro, Ronaldo observava a bela paisagem ao seu redor. O primeiro hambúrguer ficara delicioso, no ponto exato, bem diferente do segundo, cuja carne queimara um pouco, ficando com um gosto amargo. Mesmo assim ele os devorou com vontade. Levantou se e pegou outra cerveja. Enquanto bebia, muitas coisas começaram a passar por sua cabeça, o desaparecimento de Malina, os recortes nas fotos, o rádio misterioso, seu avô e o ódio aos negros. Parecia haver uma ligação em todos aqueles fatos. Mas qual? Uma hipótese passou por sua mente, uma hipótese assustadora e abominável. Viu seu avô como suspeito pelo desaparecimento de Malina. Ronaldo abriu outra cerveja e tomou num gole só. Queria tirar aqueles pensamentos da cabeça. Seria uma mancha monstruosa em seu passado familiar, algo inconcebível. Mas isso era apenas uma hipótese. Não era?

Após aquele almoço nada saudável, Ronaldo pegou sua câmera e saiu fotografando praticamente todos os ângulos do velho casarão. Propaganda á alma do negócio, e se for bem feita é melhor ainda. Tirou as malas da sala, ajeitou os sofás e a mesinha de centro e bateu diversas fotos. Jogou o rádio queimado no lixo e fotografou a cozinha com a garrafa de Coca Cola sobre a mesa, um pequeno merchandising gratuito. Tirou aproximadamente 30 fotos no interior do casarão.

A fazenda era grande e Ronaldo não queria deixar nada de fora. Quanto mais fotos, melhor. Isso atrairia os compradores como uma ratoeira com fartos pedaços de queijo. O lugar era bonito, ele não precisaria se esforçar muito. Só precisava tomar cuidado com o sol forte. Ronaldo saiu caminhando pelas terras e fotografando tudo o que via de interessante. Fotografou praticamente todos os ângulos do casarão, o açude, a cocheira e seguiu em frente. Caminhava, caminhava, e as cercas limites nunca chegavam.

— Caramba, vou precisar de alguém pra avaliar isso aqui. Como é grande!

Ronaldo avistou um poço. Mais ao fundo havia algumas jabuticabeiras. Daria uma bela foto. Posicionou se de forma a evitar o brilho intenso do sol e fotografou. Segundos após o CLIQUE da câmera, um som ecoou do fundo poço. Parecia um choro de criança. Ronaldo sentiu um frio na espinha.

— Você está começando a ouvir coisas. — pensou consigo mesmo.

Quando virou as costas para o poço o choro recomeçou. Agora mais alto. Era o choro de uma garotinha.

— Caralho!

Colocou a alça da câmera em volta do pescoço e correu até poço. Havia um amontoado de madeira sobre ele, selando o por completo. Quando Ronaldo começou a tirar os pedaços de madeira de cima do poço o chorou parou. Mas Ronaldo continuou, até deixar o poço totalmente descoberto, revelando o seu diâmetro, um pouco mais de 1 metro.

Ronaldo fez de tudo para ver o que havia lá embaixo, mas não conseguiu, era muito profundo e estava bem escuro.

— Estou enlouquecendo. Só pode ser. Parece que isso é comum na família, não? Ronaldo sentou se na grama, recostando se no poço. Passou o braço sobre a testa, tirando o suor. Sua garganta estava seca, suplicando por água. Fazia muito calor ali.

— Este maldito sol está fritando meus últimos neurônios. É melhor...

— Eu quero sair daqui! Eu quero a minha mãe! — os gritos vieram do fundo do poço. Ronaldo levantou se tão depressa que ficou até meio zonzo, sua visão escureceu por alguns instantes.

— Quem está aí? — gritou ele, provocando eco dentro do poço.

Nada. Silêncio.

— Tem alguém aí? — repetiu. — Eu quero ajudar!

Ronaldo não conseguia tirar os olhos do fundo do poço, parecia em transe. Seus olhos quase não piscavam. Respirava com certa difuculdade.

De repente algo lhe passou pela cabeça, havia uma corda na cocheira, ele poderia usá la para descer até o fundo do poço. Sem pensar duas vezes ele correu até a cocheira, pegou a corda, e depois correu até o seu carro e pegou uma lanterna no porta malas. Foi até a cozinha e tomou um longo gole de Coca Cola no gargalo da garrafa. Voltou para o poço. Amarrou uma ponta da corda num dos troncos de madeira que ele tirou de cima do poço e usou como apoio para poder descer. Seu coração estava disparado, suas pernas tremiam um pouco, mas ele sentia que precisava fazer aquilo, ou enlouqueceria.

Tentou segurar a lanterna com uma das mãos e usar a outra para se segurar à corda, mas não conseguiu. Ronaldo não era uma pessoa acostumada a exercícios físicos, não possuía força suficiente para sustentar seu corpo com um braço só. Colocou a lanterna no bolso traseiro da calça e agarrou se à corda com ambas as mãos. Apoiou os pés na parede do poço e iniciou a descida. A corda media aproximadamente uns 30 metros de comprimento, Ronaldo acreditava que seria suficiente. E foi. Ronaldo desceu uns 25 metros até sentir seus pés tocarem o solo novamente. A superfície do poço era lamacenta e pegajosa, além de exalar um cheiro terrível. Ronaldo pegou a lanterna e tentou acendê la. Mas não conseguiu.

— Filha da ... — deu lhe um tapa e funcionou.

Mirou a lanterna para o seus pés, estes estavam submersos por quase 15 centímetros de uma lama preta.

— Que merda! — seu resmungo ecoou pelo poço. E olhou para cima. A subida não seria nada fácil.

Ronaldo apontou a lanterna para sua direita e avistou um pequeno túnel, de 1 metro de altura por uns 70 centímetros de diâmetro. Virou para sua esquerda e viu a mesma coisa.

— Tem alguém aí? — sua voz estava trêmula.

Decidiu averiguar um dos túneis. Escolheu o da direita. Precisou fazer um pouco de força para caminhar sobre aquela lama espessa. Quase caiu de costas ao dar o primeiro passo. A lanterna voltou a falhar, mas outro tapa a fez funcionar novamente. Tem coisas que insistem em falhar quando mais precisamos delas. A famosa Lei de Murphy.

Ronaldo é um homenzarrão com quase 1,90 de altura, por isso não foi nada fácil passar por aquele túnel estreito. Seus braços esbarravam nas laterais e havia coisas ali que Ronaldo preferiu nem imaginar o que era. Quase botou pra fora os 2 hambúrgueres e a cerveja. O túnel tinha quase 10 metros de comprimento. Ronaldo teve a leve sensação de estar no filme “Um Sonho de Liberdade”, naquela cena em que o personagem de Tim Robins atravessa o esgoto. Mas havia uma diferença crucial entre o filme e o poço, no filme Tim Robins saía do cano do esgoto e encontrava a liberdade, aqui Ronaldo saiu do túnel e encontrou um esqueleto de criança. O esqueleto de Malina.

— Jesus Cristo! — sussurrou ele, limpando o suor que escorria por todo o rosto.

O esqueleto estava caído sobre a lama, encoberto alguns centímetros. Ronaldo se aproximou do crânio e o tocou. Havia uma rachadura na parte superior, indicando uma forte pancada.

— Pobre menina. O que fizeram com você?

De repente uma risada esganiçada ecoou por todo o poço. Ronaldo levou um susto tão grande que perdeu o equilíbrio e caiu sobre o esqueleto, quebrando os ossinhos em pedaços. A risada continuou cada vez mais aguda e perturbadora. Ronaldo deixou a lanterna caída sobre a lama e levou as duas mãos aos ouvidos, rezando para que aquela risada apavorante parasse. Mas não parou. Desesperado, Ronaldo agarrou a lanterna e voltou pelo túnel, não se importando em esbarrar nas coisas esquisitas que sentira antes, tudo o que ele queria era sair dali o mais rápido possível. Mas seria difícil, a corda não estava mais ali.

— Caralho! Onde está a ... ?

Com as mãos tremendo ele apontou a lanterna para cima. Alguém estava colocando os pedaços de madeira novamente sobre o poço.

Ronaldo entrou em desespero total.

— Ei, o que pensa que está fazendo? Ei!!!

Quem estava lá em cima prosseguiu. Pouco a pouco o poço foi sendo coberto.

— Quem está aí? Esta brincadeira de mau gosto não vai ficar assim!

De repente tudo parou. Lá em cima, o poço estava quase totalmente selado com os pedaços de madeira, sobrara apenas um espaço num dos cantos. Um vão de aproximadamente 15 centímetros. Ronaldo o observava apavorado, torcendo para que tudo não passasse de uma brincadeira sem graça. Mas nada acontecia. Silêncio total.

— Jogue a corda, seu filho da puta! — Ronaldo começou a gritar feito um louco.

De repente algo apareceu sobre o vão. Ronaldo tentou de todas as maneiras ver quem era. Mas não conseguiu.

— Quem é você? Por favor, jogue a corda e me deixa sair daqui!

Não obteve resposta. Quem quer que estivesse lá em cima continuou lhe observando por longos minutos. Ás vezes chorava, ás vezes ria baixinho.

Ronaldo só conseguiu deixar o poço 9 dias depois, quando Antônio o encontrou e comunicou imediatamente ao Corpo de Bombeiros da cidade. Até hoje os médicos não conseguem entender como ele conseguiu sobreviver tanto tempo comendo apenas a lama do poço. Ele próprio não conseguia contar como tudo acontecera, parecia ter acordado de um pesadelo.

Uma semana após deixar o hospital, Ronaldo mandou revelar as fotos da fazenda. Foi aí que ele percebeu que seu pesadelo estava apenas começando.

FIM

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MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR

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