O Colecionador
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Sinopse
Contratada para trabalhar na mansão de um milionário reservado, uma jovem governanta tenta conquistar o respeito dos funcionários e se adaptar à nova rotina. Mas a coleção de objetos raros guardada em um aposento proibido desperta uma curiosidade que pode levá-la muito além dos segredos de seu patrão.
Capítulo único · O Colecionador
A curiosidade mata, dizia a minha mãe.
No meu caso não chegou a tanto, caso contrário eu não estaria aqui para contar este episódio que marcou a minha vida para sempre.
Comecei a trabalhar aos 12 anos como empregada doméstica. E comecei com o pé direito, diga se de passagem. Minha primeira patroa foi uma pessoa tão importante na minha vida que eu a considero até hoje como a minha segunda mãe. Stella Amaral era o seu nome. Mas os amigos a chamavam por Tetela. Se você morou na cidade de São Paulo na década de 70 certamente ouviu falar nesta grande mulher. O nome Stella Amaral estava sempre nas colunas sociais dos jornais paulistanos. Ela era uma mulher de muitas posses; uma herança gorda do falecido marido, um rico empresário. Tetela vivia com suas duas filhas; Pietra, de 19 anos e Maristella, de 21 anos. Esta segunda morria de ciúme do meu relacionamento com sua mãe. Apesar das crises de ciúme eu possuía o respeito e o carinho das irmãs. Elas sabiam que eu trabalhava duro e fazia por merecer. Com o passar do tempo passaram a me tratar como uma irmã caçula.
O meu salário era maior do que a aposentadoria do meu pai. Eu ajudava com a maioria das despesas de casa. O pouco que sobrava minha mãe depositava numa caderneta de poupança, no meu nome. Foi uma época feliz da minha vida. Eu tinha duas famílias, com situações econômicas bem diferentes, mas eu era amada por ambas. E era isso o que importava.
Tudo que é bom dura pouco, dizia o meu pai.
No meu caso não durou tão pouco assim, afinal de contas passei cinco anos maravilhosos trabalhando naquela mansão no bairro do Bexiga.
Mas ...
Em junho de 1984 Tetela resolveu deixar o Brasil e ir morar na Itália com as filhas. Dona Stella possuía muitos parentes na cidade de Florença.
Chorei muito quando recebi a notícia. Chorei tanto que eu não conseguia me reconhecer no espelho. Meu rosto parecia uma vela derretida.
Tetela chegou a me convidar para ir com elas, mas eu não poderia viajar sem os meus pais. Mamãe estava cada dia mais doente e meu pai não conseguia tomar conta nem dele próprio. Não, eu não poderia deixá los. O remorso me comeria viva.
No dia 2 de julho do mesmo ano elas partiram para a Itália.
Antes, porém, minha querida ex patroa enviara uma carta de recomendação a um amigo. “Falei tão bem de você que é bem capaz dele querer adotá la ao invés de contratá la”, disse me Tetela, pouco antes de se despedir de mim.
Logo na manhã seguinte fui chamada para uma entrevista na mansão do Sr. Roney Montenegro, o tal amigo. Na verdade não foi bem uma entrevista, pois eu já saíra de casa praticamente contratada. Nunca cheguei a ver a tal carta de recomendação escrita por Tetela, mas ela tinha razão, seu amigo me recebeu de braços abertos e com um sorriso sincero.
Roney Montenegro, ou Sr. Montenegro, como todos o tratavam, era um homem muito rico. — Na verdade eu nunca soube exatamente de onde viera sua enorme fortuna. — Tinha pouco mais de sessenta anos. Era gordo, baixinho, cabelos grisalhos, com penteado rabo de cavalo, tinha um rosto simpático, apesar dos olhos vesgos. Era praticamente impossível saber pra onde ele estava olhando. — Isso me deixava um pouco nervosa quando conversávamos, devo admitir. — Não possuía esposa nem filhos.
Sua mansão tomava um quarteirão inteiro do Anhangabaú, em São Paulo. Para manter aquele lugar em ordem havia um batalhão de funcionários. Oito faxineiras, três cozinheiras, um casal de jardineiros, um motorista particular e alguns vigias.
Fui contratada para trabalhar como governanta, apesar da minha assumida inexperiência na área. Eu estava acostumada a receber ordens, não o contrário. Façam as contas, eu estava com apenas 17 anos quando comecei a trabalhar para ele. Agora vocês imaginem aquelas mulheres recebendo ordens de uma garota que ainda tinha espinhas no rosto. No começo eu flagrava as faxineiras fofocando pelos cantos. Algumas delas achavam que eu tinha um caso amoroso com o patrão. Eu não conseguia sequer imaginar aquilo. Em todos os anos em que trabalhei para o Sr. Montenegro jamais ultrapassamos a barreira do beijo no rosto. E mesmo assim foram poucos, pois ele era uma pessoa muito tímida e reclusa.
Apesar de ter a confiança e o total apoio do patrão, eu precisava adquirir o carinho e o respeito das demais funcionárias. Na verdade eu não precisava, mas eu queria muito. É terrível você trabalhar num lugar onde as pessoas falam e riem pelas suas costas. Eu queria rir com elas.
E com o passar do tempo eu consegui conquistá las, o suficiente para não me sentir excluída. Demonstrei que apesar da pouca idade eu era, acima de tudo, capaz. Eu entrava pontualmente às 7 horas da manhã e saía por volta das 5h30. De lá eu ia direto pro colégio, antes de voltar para casa.
Assim como a maioria dos milionários, o Sr. Montenegro era uma pessoa de gosto excêntrico. Ele adorava comprar coisas raras e estranhas. Possuía uma coleção enorme delas, guardadas numa sala fechada a sete chaves, a qual os funcionários chamavam de Aposento Secreto.
Ninguém entrava naquele lugar. Ficava situado no andar de cima da mansão. A porta era de madeira escura, toda entalhada com desenhos de anjos tocando trombetas. Era a coisa mais bela que eu já tinha visto.
Arlete, uma das faxineiras, contou me que de tempos em tempos o Sr. Montenegro abria as portas para uma limpeza total, e que o lugar era enorme, e que havia de tudo um pouco lá dentro, desde pedras da cidade de Machu Picchu a coleções de bonecos do mundo todo. Uma espécie de museu particular.
E aquilo não me surpreendia. Um milionário sem esposa e sem filhos poderia muito bem arranjar tempo de sobra para colecionar o que quisesse.
Numa manhã chuvosa de dezembro eu fui chamada até o escritório do meu patrão. Não sei explicar, mas eu já sabia do que se tratava. Sexto sentido feminino, sei lá.
Bati duas vezes na porta e ele me mandou entrar. Sua voz saiu abafada. Entrei e fechei a porta. O lugar era só fumaça, pensei até que estava pegando fogo. Mas era apenas o Sr. Montenegro e seu fétido charuto cubano.
— Sente se — disse ele, tirando o charuto da boca.
— Isso não lhe faz nada bem para a saúde — falei, e quando terminei a frase senti uma leve ânsia de vômito.
Ele se ajeitou na cadeira e sorriu. Na verdade não parecia sorrir para mim, pois um olho estava na minha direção e o outro apontava para um quadro no outro lado do escritório. Ele apagou o charuto num cinzeiro.
— Você tem certeza que só tem 17 anos, filha?
— Absoluta.
Abriu uma gaveta e retirou um molho de chaves. Havia tantas que eu não sei como ele conseguiu tirar uma de forma tão rápida. Na hora eu cheguei a pensar que pudessem ser todas idênticas, mas não eram.
— Você me surpreendeu — ele ergueu as sobrancelhas. — Quando lhe contratei eu pensei que não fosse dar conta do recado.
Ele voltou a guardar as outras chaves na mesma gaveta.
— Eu amo o que faço — falei, com convicção. — E quando a gente faz alguma coisa com amor ...
— Faz bem feito — completou ele. Agora um olho estava em mim e o outro apontava para o tapete — Se eu pudesse mandaria todo mundo embora e ficaria só com você.
Fiquei muito orgulhosa ao ouvir aquilo.
— Mas este lugar é grande demais — completou. E abriu um largo sorriso.
Eu não conseguia tirar os olhos da chave que ele retirara da gaveta. Era uma chave curiosa, pequenina, e brilhava tanto que parecia ser feita de ouro.
— Posso saber por que mandou me chamar?
No fundo eu já sabia, mas eu não queria que ele soubesse disso.
— Há quanto tempo você está conosco?
— Semana que vem irei completar cinco meses.
— Nossa, pensei que fosse mais.
Balancei a cabeça negativamente. Ele ficou de pé.
— Tenho uma tarefa importantíssima para você, minha jovem governanta.
Ocasionalmente ele me chamava desta forma. Nunca na frente dos outros funcionários.
— Pode dizer — disse eu, encarando o nos olhos vesgos. — Irei cumpri la à risca.
— Não tenho a menor dúvida.
Fez uma pequena pausa e prosseguiu: — Com certeza você já deve ter percebido que há uma porta nesta casa que está sempre trancada.
— Sim, senhor. Já percebi.
— E muito provavelmente já lhe fofocaram alguma coisa a respeito do que há atrás daquela porta.
Balancei a cabeça positivamente. E percebi que ele não se contentou, ele queria uma resposta que saísse da minha boca.
— Ouvi dizer que o senhor possui um museu particular.
Ele sorriu, aparentemente aliviado.
— Foi isso que lhe disseram?
— Sim.
— As mulheres desta casa fofocam demais.
— Não só as desta casa, senhor.
Pensei que fosse sorrir, mas não. Seu rosto ficou sério.
— Eu guardo objetos valiosos naqueles aposentos. Não são apenas coleções. Você terá a oportunidade de ver com os seus próprios olhos. Mas precisa me prometer que não irá sair por aí contando pra todo mundo.
Confesso que num determinado momento eu estava prestes a pular sobre a chave e arrancá la de suas mãos.
— Fique tranqüilo quanto a isso — disse eu, tentando demonstrar a maior calma do mundo.
Ele deu um sorrisinho meio amarelo.
— Estou assustando você, não é? Calma, não guardo nada ilegal, se é isso que você está pensando. Não há nenhuma bomba atômica ou coisas do gênero.
— Isso jamais me passou pela cabeça.
Pra ser sincera não me lembro se passou ou não. Eu sonhava em poder abrir aquela porta.
— Tudo o que eu quero é evitar especulações. E é claro, evitar os ladrões.
— Entendo.
— Quero que você escolha as duas melhores faxineiras. Você ficará encarregada de observá las e garantir que tudo fique limpo e organizado lá dentro. E, é claro, ficará responsável por qualquer besteira que fizerem também.
Não gostei nem um pouco de ter ouvido aquilo.
— Amanhã irei ao Rio de Janeiro receber mais um item para a minha coleção. Quando eu chegar quero que tudo esteja limpo e brilhando. Vou deixar a chave na primeira gaveta da minha mesa. — e apontou para a gaveta. — Ela abre a porta principal e todas as portas dos quartos lá dentro.
Pouco antes de ir para o colégio eu já tinha escolhido as duas faxineiras. A escolha não foi tão difícil assim, resolvi optar pelas mais experientes: Silvana e Genoveva. As duas não estavam entre as mais simpáticas, mas eu resolvi usar a razão ao invés do coração. Além do mais, se eu optasse por levar duas amigas, provavelmente ficaríamos de conversa e o serviço não seria executado a tempo.
A pedido do Sr. Montenegro a notícia só deveria ser dada minutos antes de começarmos o serviço.
Saí do colégio e fui direto pra casa. Não consegui dormir direito aquela noite. Tive vários pesadelos com o Aposento Secreto. Num destes pesadelos eu abria a porta e dava de cara com grandes estátuas de faraós. Enquanto trabalhávamos eu percebia que as estátuas se mexiam. Após terminarmos o serviço a porta não abria de jeito algum, e as estátuas vinham na nossa direção, com aqueles olhos que olham para o nada. Era assustador. Acordei ensopada de suor.
Eu pegava metrô para chegar ao trabalho. Aquele dia foi terrível. Entrei no metrô e a sensação que eu tinha era que as estátuas estavam atrás de mim. Nunca me senti tão claustrofóbica como naquela manhã.
Quando cheguei para trabalhar o Sr. Montenegro já havia viajado para o Rio de Janeiro. Senti um certo calafrio ao adentrar a mansão. Foi quase como se eu estivesse entrando ali pela primeira vez. Até o Firmino, um dos vigias que tomava conta do portão, ficou me olhando assustado. Eu devia estar com uma cara de quem viu fantasmas dançando frevo sobre o túmulo da própria avó.
Silvana e Genoveva chegaram juntas alguns minutos depois. Meu coração disparou. A hora estava chegando. Finalmente eu ia descobrir o que tinha no Aposento Secreto.
Caminhei com as duas até a cozinha, preparei um café e servi uma xícara para cada uma de nós. Silvana estava chegando aos 40 anos de idade e Genoveva já tinha bem mais de 50.
Quando contei a respeito da faxina no Aposento Secreto algo totalmente inesperado aconteceu. Silvana recusou se a executar o serviço. Fiquei pasma.
— Mas são ordens do Sr. Montenegro — disse eu, um pouco irritada.
— Eu não entro naquele lugar outra vez — disse ela, e tomou um longo gole de café.
— Nem morta.
O jeito com que ela disse me deixou arrepiada dos pés a cabeça. Genoveva fez o sinal da cruz umas duas vezes. Isso me deixou ainda mais assustada.
Tomei o resto de café que havia na minha xícara. Minhas mãos tremiam. Se a xícara estivesse cheia eu teria espirrado café em nós três.
— Por quê? — perguntei, enfim.
— Prefiro não falar nisso, filha — e ela ficou de pé. — Se me dá licença, tenho muito serviço a fazer.
Olhei atônita para Genoveva. Esta deve ter percebido a minha aflição.
— Não se preocupe — disse ela. — Escolha a Arlete, nós trabalhamos bem.
Eu continuava com aquela frase na cabeça ... “Eu não entro naquele lugar outra vez”. E aquilo significava duas coisas: 1) Silvana já conhecia o Aposento Secreto. 2) Aconteceu alguma coisa desagradável com ela lá dentro.
— Você sabe por que ela não quer entrar lá? — perguntei pra Genoveva.
Esta franziu a testa e tomou mais um gole de café.
— Deixa pra lá, menina.
Assim que a Arlete chegou contei lhe sobre a nossa missão. Ao contrário da outra, esta ficou empolgadíssima. Arlete era a mais jovem das faxineiras. Acho que tinha 22 ou 23 anos. Magra feito um palito de fósforo. Seus cabelos eram ruivos e enormes, estilo juba de leão. Ela era fanática por New Wave. Chegava sempre com um fone de ouvido plugado a um walkman amarelo, ouvindo Information Society ou New Order.
Eu preferia o A Ha.
Peguei a chave no escritório e lá fomos nós.
Eu com a chave nas mãos e as duas com esfregões, baldes e espanadores. A esta altura todas as outras empregadas da mansão já estavam trabalhando. Algumas nos olhavam com curiosidade e outras com inveja. Mas percebi que a maioria sentia um certo alívio por não participar do Esquadrão Limpa Aposento Secreto.
Enquanto subíamos as escadas minhas pernas iam amolecendo. Pensei comigo: “se continuar assim não vou conseguir chegar ao último degrau”.
Mas consegui.
Eu ainda estava amedrontada com o pesadelo da noite anterior. Se eu abrisse a porta e desse de cara com estátuas de faraós eu juro que teria corrido pra bem longe dali.
Mas a realidade foi bem diferente.
Quando girei a chave na fechadura e abri a porta não vi nenhuma estátua de faraó. Estava meio escuro. Apertei um interruptor do meu lado direito. Tomei um susto. O lugar era maior do que eu imaginava. Havia um corredor de três metros de largura por uns quarenta metros de comprimento, com portas a cada dez metros, de ambos os lados do corredor. Contei 8 portas.
— É a primeira vez que vocês entram aqui? — perguntei para as duas.
As duas responderam juntas. Mas Genoveva disse não e Arlete disse sim.
Tranquei a porta atrás de nós. Os desenhos na porta eram os mesmos do lado de fora, mas no lugar dos anjos havia criaturas com chifres. Senti um certo desconforto ao olhar para aqueles desenhos.
— Temos uma longa jornada pela frente — disse Genoveva.
— Pode apostar que sim — disse eu, olhando toda a extensão do corredor.
Arlete foi até a primeira porta do lado esquerdo e ficou olhando para mim.
— O que foi? — perguntei.
— Você está com a chave, não está? — respondeu ela, sorrindo.
Ás vezes eu vivia no mundo da lua, dizia minha tia Clarice.
Abri a porta para ela, usando a mesma chave. Estava escuro lá dentro. Tateei a procura do interruptor. Meu coração quase saiu pela boca quando ouvi o tick do interruptor. O quarto era enorme, cheio de quadros maravilhosos nas paredes. Havia estátuas também, por todos os lados, mas não eram grandes e ameaçadoras como as do meu pesadelo. Eu não precisava ser nenhuma expert em artes para saber que aquelas peças deveriam valer muito dinheiro.
Desejei boa sorte para a Arlete e parti para o próximo quarto. Genoveva veio logo atrás de mim. Parei diante do segundo quarto e notei que Genoveva continuou caminhando.
— Aonde está indo? — perguntei.
Ela parou diante do terceiro quarto e ficou me olhando, como se estivesse me esperando.
— Prefiro este aqui — disse ela, apontando para a porta com o dedo indicador.
Dei de ombros e fui até ela.
— O que tem de errado com aquele? — e apontei para o quarto anterior.
— Deixemos para o final — disse ela. — Não quero ficar sozinha lá.
Senti um nó na garganta ao ouvir aquilo.
No terceiro quarto havia uma quantidade enorme de espadas, escudos, armaduras e outros objetos usados em batalhas de séculos passados. Era algo surreal. De onde vinha aquilo tudo? Seriam todas verdadeiras? Não estariam melhor acomodadas num museu?
Sei lá, eu estava mais preocupada com o que tinha no segundo quarto.
— Não vai me contar por que pulou aquele quarto? — perguntei, enfim.
Genovena me olhou com o rabo dos olhos e continuou seu serviço. Depois de um tempo ela disse:
— Não seria melhor para todas nós se você ajudasse na limpeza também?
Sem dúvida alguma. Mas minha cabeça estava em outro lugar.
Resolvi tentar tirar alguma informação da Arlete.
— Por que tanto mistério a respeito daquele segundo quarto? — perguntei, enquanto admirava um belíssimo quadro com uma gorda nua tocando uma harpa debaixo de uma cachoeira.
— Também não entendo — disse ela, passando o esfregão com tanta graciosidade que mais parecia estar dançando. — Quando comecei a trabalhar aqui este mistério já existia.
— Mas você não tem idéia do que seja?
Ela parou de dançar e apoiou os braços no esfregão.
— Ouvi algumas histórias.
— E o que está esperando? Conte me agora mesmo.
Arlete hesitou por um instante, mas ...
— Ouvi dizer que no segundo quarto há uma coleção de objetos utilizados em filmes. Devo ter arregalado os olhos quando ouvi aquilo. Eu não conseguia acreditar.
— Verdade?
— Foi o que me contaram.
— Mas não entendo. O que isso tem de tão assustador?
Ela deu uma engolida a seco. Senti que aquilo precederia alguma informação importante. E eu estava certa.
— Você já assistiu aquele filme ... O Exorcista?
Fiquei arrepiada só de lembrar. Acho que foi no final de 1983 que a minha ex patroa Tetela havia alugado. Eu nem sabia direito o que era um videocassete. Quando começamos a assistir o filme estávamos em cinco pessoas; Tetela, eu, Pietra, Maristella e seu namorado. Pouco a pouco fomos deixando a sala. Pietra foi a primeira a correr para o quarto, horrorizada. Tetela saiu alguns minutos depois. Resisti mais um pouco e saí algum tempo depois. Quase no final a Maristella também não suportou mais e deixou o namorado sozinho na sala. O rapaz foi o único que conseguiu assistir o filme todo. Até hoje eu ainda acho que ele ficou firme até o final só para impressionar a Maristella.
— Assisti — disse eu. — Não vi o filme todo, mas ...
— É assustador, não?
— Pode apostar que sim. Mas o que o filme tem a ver com isso?
Arlete começou a me olhar como se eu tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo. Pouco a pouco minha ficha foi caindo.
— Tem alguma coisa do filme ali naquele quarto? — disse eu, com a boca seca e as pernas moles.
Ela balançou a cabeça positivamente, e me olhava um pouco assustada.
— A cama — disse ela, enfim.
Senti cada fio de cabelo do meu corpo arrepiar. Minhas pernas ficaram tão bambas que quase fui ao chão.
Se arrependimento matasse ...
Eu deveria ter ficado quieta no meu canto. O serviço pesado estava sendo feito pelas duas, não estava? Tudo o que eu precisava fazer era observá las de tempos em tempos. Só isso! Mas a curiosidade foi maior do que eu.
Maldita!
A chave começou a coçar nas minhas mãos. Sim, eu estava louca de curiosidade para abrir aquela porta e ver se era verdade mesmo. Por duas vezes eu cheguei a enfiar a chave na fechadura. Mas ... não tive coragem de girá la. Eu tremia tanto que não consegui.
Resolvi esperar.
Lembrei do que Genoveva dissera: “Deixemos para o final. Não quero ficar sozinha lá.”
Concordei plenamente.
Eu não teria coragem de entrar sozinha naquele quarto.
Os outros aposentos possuíam coleções magníficas. No quarto aposento havia discos e mais discos, inclusive a coleção completa do A Ha. Vejam só! Pena que a vitrola não funcionou. No quinto aposento havia sacos de areia, blocos de pedra, pergaminhos, sarcófagos e ... estátuas de faraós. Mas aquilo não me afetou nem um pouco, o meu medo tinha outro foco naquele momento. No sexto aposento fiquei encantada com a enorme quantidade de bonecas e carrinhos. Eu nunca tinha visto tantos brinquedos na minha vida. Por alguns minutos voltei a minha infância perdida.
A chave não conseguiu abrir os dois últimos aposentos.
— Não entendo — disse eu, tentando girar insistentemente a chave na fechadura da oitava porta. — Ele disse que a chave abria todas as portas.
— Acho que estes dois sempre estiveram vazios — disse Genoveva, com uma voz ligeiramente cansada.
Retirei a chave da fechadura.
Nós três olhamos juntas para o segundo quarto. Uma mais amedrontada do que a outra.
— Só falta aquele — disse eu.
— Vamos acabar logo com isso — disse Arlete, pegando o balde do chão.
Genoveva fez o sinal da cruz duas vezes. Pensei em fazer também, mas eu não era uma pessoa muito religiosa naquela época.
Talvez se eu fosse ...
E lá fomos nós.
Ficamos lado a lado diante da porta. Enfiei a chave na fechadura e minha mão começou a tremer outra vez. Mas desta vez fui até o fim. Girei duas vezes e a porta abriu. Não fez aquele grunhido que costumamos ouvir nos filmes de terror. Mas senti um vento gelado bater no meu rosto. Foi assustador.
— Está frio aqui ou é impressão minha? — disse eu, minha voz saiu como um sussurro.
— Parece que estou no frigorífico do Sebastião.
Sebastião era o namorado da Arlete. Hoje eles estão casados e possuem dois filhos. Tateei a mão pela parede até encontrar o interruptor. Eu nunca tinha sentido tanto medo em toda a minha vida. Tudo bem, eu só tinha 17 anos, mesmo assim ...
Quando a luz acendeu nós três ficamos literalmente de queixos caídos. Eu não conseguia acreditar no que estava diante dos meus olhos. Havia de tudo naquele quarto. Roupas aos montes. Vestidos de todas as cores. Máscaras. Facas e machados de plástico. Sangue de borracha. Uma porção daquelas coisas falsas que a gente vê nos filmes de terror. Eram tão reais. Teriam vindo todos de Hollywood? Senti me amedrontada e fascinada ao mesmo tempo.
Mas nem sinal da cama. Arlete e eu começamos a rir aliviadas.
Quando olhei para Genoveva percebi que ela continuava com aquele mesmo ar assustado de minutos atrás.
— A história da cama é mentira — disse eu, sorrindo.
Ela não me deu atenção. Seus olhos estavam fixos em alguma coisa atrás de mim. Olhei para Arlete e notei que ela não sorria mais, e olhava na mesma direção de Genoveva.
Virei me e vi um saco plástico preto no fundo do quarto, cobrindo alguma coisa grande. Pelo formato não poderia ser outra coisa, era uma cama.
— É a cama, tia Gê? — disse Arlete.
Genoveva balançou a cabeça positivamente. Ela nem piscava.
Senti outro assopro de ar gelado no rosto. Detalhe: não havia janelas naquele quarto; então de onde vinham estes ventos gelados? Aquilo me arrepiava por inteiro.
Mesmo apavoradas as duas começaram a trabalhar. Para terminarmos mais rápido a limpeza resolvi ajudá las. Peguei o espanador da Arlete.
O quarto ia ficando cada vez mais gelado na medida em que íamos nos aproximando da cama.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, até que Arlete resolveu dizer algo:
— No filme era assim também, vocês lembram?
— Assim como? — disse eu, passando o espanador num maravilhoso vestido azul.
— Gelado — disse Arlete. — O quarto da garotinha era gelado. Lembro da fumaça saindo da boca dos atores e ...
— Faça o seu serviço e fique quieta — disse Genoveva, zangada. — Quero ir embora daqui o mais depressa possível.
Esperei um pouco e resolvi fazer uma pergunta que estava entalada na minha garganta por algum tempo.
— O que aconteceu com a Silvana quando ela esteve aqui?
Genoveva parou o que estava fazendo e me olhou feio.
— Não é da sua conta.
— Credo, tia Gê! — disse Arlete, tomando as minhas dores.
Genoveva voltou a usar o esfregão, com raiva.
— Vocês não entendem — disse ela. — A Silvana pode perder o emprego se a história chegar aos ouvidos do patrão.
O tiro saiu pela culatra. Ficamos mais curiosas ainda.
— O patrão jamais faria isso com ela — disse eu.
— Não mesmo — completou a Arlete. — E tem mais, o Patrício é quase um irmão mais velho para ele.
Patrício era o motorista particular do Sr. Montenegro. Patrício e Silvana eram casados e tinham um filho de 9 anos.
Genoveva parou com o esfregão outra vez.
— O Patrício também seria demitido imediatamente — disse ela, séria.
— Como é que é? — disse Arlete, pasma. — O que ele tem a ver com isso?
Genoveva emitiu um longo e penoso suspiro.
— Deixem me em paz! — disse ela, irritadíssima.
Limpamos cada canto daquele quarto.
Cheguei a derrubar um ou outro objeto, mas para a minha sorte eram todos de plástico ou borracha.
Faltava apenas a região ao redor da cama.
E alguém tinha coragem? Não, nenhuma de nós conseguia chegar a menos de três metros daquela coisa debaixo do saco preto. Era incrível como fazia frio ao seu redor. Vi Genoveva fazer o sinal da cruz umas vinte vezes enquanto estávamos ali.
— Acho que terminamos — disse Arlete, cansada.
Dava pra ver claramente que a região ao redor da cama não havia sido limpa.
Qualquer patrão menos exigente notaria a diferença. Nós precisávamos fazer alguma coisa a respeito.
Peguei o esfregão das mãos da Arlete e ...
— O que você pensa que vai fazer? — disse ela, assustada.
— Vou sair voando — disse eu, sorrindo. — Esqueceu que sou uma bruxa?
Foi bom para descontrair um pouco, pois o que estava por vir não foi nada engraçado. E sinto calafrios só de lembrar.
Segurei o esfregão com força e comecei a limpar o chão ao redor da cama.
— Não chegue muito perto, menina — disse Genoveva. O jeito com que ela falou me fez lembrar a minha falecida avó.
— Está tudo bem — disse eu, procurando manter a calma.
Mas não estava tudo bem. Quanto mais perto da cama eu ficava, mais frio eu sentia. E sentia alguma coisa me puxar. Era exatamente esta a sensação que eu tive naquele momento ... alguma coisa me puxava para a cama.
A cama parecia ser muito bonita. Eu estava louca para retirar aquele saco plástico e vê la com meus próprios olhos. Depois de um certo tempo a sensação de estar sendo puxada parou e eu fiquei mais calma. Até mesmo a sensação de frio diminuiu.
Resolvi limpar debaixo da cama. Quando eu ia me abaixando ...
— Você enlouqueceu? — gritou Arlete.
Tomei o maior susto. Meu coração quase pulou do meu peito.
— Quer me matar do coração? — disse eu, com o coração disparado.
— Pra que limpar debaixo da cama?
— Ele sempre olha — disse Genoveva. — O patrão sempre olha debaixo das camas para conferir se está tudo limpo.
— Está vendo? — disse eu.
— Tudo bem — disse Arlete. — Mas tome cuidado, por favor.
Fiquei de joelhos ao lado da cama, ergui um pouco o plástico e enfiei o esfregão por debaixo dele.
Percebi que Arlete e Genoveva quase não respiravam. Elas estavam mais apavoradas e ansiosas do que eu.
— Anda logo com isso — disse Arlete, muito nervosa.
Antes de ficar de pé outra vez eu resolvi conferir o serviço com os meus próprios olhos. Deitei me no chão frio e olhei debaixo da cama. Não havia nada. E estava razoavelmente limpo.
Resolvi dar por encerrado o nosso serviço.
Puxei o esfregão e me levantei. Senti um alívio enorme nos olhos das duas. Parecia até que elas não me viam há séculos.
— Acabou? — disse Arlete. — Podemos ir embora agora?
Olhei para o plástico preto sobre a cama.
— Antes eu preciso fazer uma coisa — disse eu.
E puxei o plástico, descobrindo totalmente a cama.
Nem preciso dizer que as duas quase tiveram um ataque cardíaco.
— Não faça isso! — gritou Genoveva, apavorada.
Tarde demais. Eu já tinha feito.
Fiquei maravilhada com a beleza daquela cama. Eu nunca tinha visto uma tão bonita assim de perto. Não tinha certeza se era a mesma cama do filme, pois como eu já disse antes, eu não assisti até o final. Minhas recordações do filme eram terríveis, mas poucas.
Mas algo me dizia que era a mesma cama. Eu sentia isso. O colchão tinha algumas manchas estranhas. Havia dois travesseiros grandes e sujos.
— Ela é linda — disse eu, hipnotizada pela cama.
— Já matou sua curiosidade, menina — disse Genoveva. — Basta. Agora vamos embora.
E quando percebi eu já estava deitada na cama.
— Não! — gritou Arlete. Seu grito foi tão assustador quanto um uivo de um lobo desgarrado.
— Esta menina enlouqueceu de vez — disse Genoveva.
O colchão tinha um cheiro estranho, bem como os travesseiros, mas eram macios e confortáveis.
Ouvi passos apressados. Genoveva pegou suas coisas e partiu, irritadíssima.
— Volte aqui, tia Gê! — gritou Arlete, apavorada.
— Eu não vou participar desta maluquice — disse Genoveva.
Arlete olhou irritada para mim.
— Viu o que você fez?
— Eu não fiz na ...
Senti alguma coisa apertar o meu pescoço. Dois polegares fazendo pressão na minha garganta, é assim que eu posso descrever para vocês.
O frio voltou com intensidade total. Senti me dentro de uma geladeira.
Eu tentava gritar, mas eu não conseguia.
Arlete entrou em pânico.
— O que está acontecendo com você? — gritou ela. A pobre coitada não sabia se me ajudava ou se corria atrás da Genoveva.
Optou por tentar me ajudar.
Mas quando ela chegou perto da cama alguma força a empurrou para longe. O corpo de Arlete foi parar a uns 10 metros de distância da cama.
Quando eu estava prestes a perder minha consciência vi um vulto se aproximando da cama. Era Genoveva.
— Pare agora mesmo! — gritou ela.
Minha visão estava um pouco embaçada, mas acho que ela estava fazendo o sinal da cruz sem parar. Fazia tão depressa que seu braço parecia de borracha.
— Vá embora! — repetia ela, sem parar.
E a pressão no meu pescoço foi diminuindo aos poucos. E parou.
— Você está bem? — disse Genoveva, acariciando o meu rosto.
Olhei um pouco assustada para ela. Eu ainda não tinha condições de falar, mas sorri. Ela sorriu de volta.
— Graças ao nosso Jesus Cristo — disse ela, fazendo o sinal da cruz mais uma vez, agora com mais calma.
Ouvimos Arlete gemendo de dor. Apontei na direção dela. Genoveva entendeu o recado e foi ajudá la.
Procurei recuperar minhas forças o mais rápido possível. Eu tinha que sair de cima daquela cama, urgente. Eu sentia a coisa voltando.
Quando coloquei os pés no chão senti uma mão gelada me puxar com força.
Caí sobre o chão frio.
Tinha alguma coisa debaixo da cama. Sua pele era pálida. Estava encolhida e parecia estar em posição de ataque. Tinha formas humanas, pelo menos as feições do rosto eram humanas. Um rosto largo e repuxado feito borracha. Seus olhos pareciam dois buracos. As sobrancelhas eram finas. O nariz era meio empinado e parecia estar se soltando do rosto. Os lábios eram pálidos e não havia dentes em sua boca.
Olhava na minha direção. Parecia sorrir pra mim; um sorriso cínico e pavoroso.
— Nátaly, o que houve? — gritou Genoveva, apavorada.
Ela se ajoelhou do meu lado e segurou minhas mãos com força. Olhei para ela rapidamente.
Quando olhei debaixo da cama novamente a coisa não estava mais lá.
Mas eu jamais me esqueci daquele sorriso.
Fiquei traumatizada.
E tudo ficou ainda pior após uma tarde de fevereiro de 1985.
O filho de Silvana e Patrício completava 10 anos de idade e fui convidada para a festa de aniversário. Eu não saía de casa fazia dias e decidi que estava na hora de vencer os meus medos.
Arlete e seu namorado Sebastião foram me buscar em casa.
Até aí estava indo tudo muito bem.
O problema foi quando eu fiquei cara a cara com Lúcio, o aniversariante.
O garoto tinha o mesmo sorriso cínico da criatura debaixo da cama. Até o jeito de me olhar era igual.
Caí dura no chão. Fiquei em coma por 4 anos.
Anos mais tarde Arlete foi me visitar e me contou a história de Silvana e Patrício. Tia Gê finalmente lhe contara tudo o que sabia.
Eu não fui a única a me deitar naquela maldita cama. Silvana e Patrício também o fizeram. E foi naquele dia em que conceberam Lúcio.
FIM
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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