Libertando as Almas
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Sinopse
Ao parar para socorrer uma jovem em um acidente na estrada, Cristiano recebe dela um objeto misterioso e um pedido que não compreende. A desconhecida sabe seu nome, e o encontro transforma seu retorno para casa no início de uma jornada em que a fronteira entre vivos e mortos já não parece segura.
Capítulo único · Libertando as Almas
Era começo de segunda feira e Cristiano voltava para Pindamonhangaba. A estrada estava vazia e o tédio começava a lhe consumir. Lembrou se do pen drive no seu bolso. Espetou o no aparelho de som, mas infelizmente não havia mais nenhum de seus álbuns preferidos; Larissa, sua namorada, teria apagado para liberar espaço para as fotos do passeio de sábado, em Ilhabela.
Quando se preparava para guardar o pendrive, algo lhe chamou a atenção, fazendo seu coração disparar. Um capotamento no outro lado da estrada. E parecia ser recente, pois as luzes do carro ainda piscavam. Não havia outra alternativa senão parar para ajudar.
Estacionou o carro logo atrás do local do acidente e deixou os faróis acesos. O veículo acidentado estava completamente destruído. Dava claros sinais de que capotara várias vezes antes de atingir o barranco.
Estava nervoso; nunca havia estado tão perto de um acidente antes. Daria tudo para que sua namorada estivesse ao seu lado agora. Cursando o segundo ano de enfermagem, ela seria a pessoa mais preparada neste momento.
Seria prudente chamar o resgate. Com as mãos trêmulas, retirou o celular do bolso da calça. Em vão, a bateria acabara. Não havia mais ninguém a quem recorrer.
Deitou se na grama para tentar um contato visual com as possíveis vítimas. Torceu para que a cena não fosse traumatizante. Ver alguém partido ao meio no cinema é uma coisa, na vida real é bem diferente.
Aproximou se do acidente, tomando cuidado para não se cortar com os estilhaços de vidro espalhados pela grama. Havia uma moça entre as ferragens. Aparentava ter uns 20 e poucos anos de idade. Tremia e sangrava bastante, respirava com dificuldade e um dos braços estava virado ao contrário.
— Está tudo bem — disse Cristiano. Sua voz saiu fraca. — Estou aqui pra te ajudar, OK?
Ela arregalou os olhos e tentou mover o braço bom. Fazia caretas de dor.
— Você está presa em alguma coisa?
— Não. Estou ... bem.
Bem? Ela não parecia nada bem. Muito pelo contrário, parecia uma morta viva dos filmes de George Romero.
— Tem mais alguém com você?
— Não, só eu.
Ela insistia em mover o braço, parecia tentar pegar alguma coisa.
— Está procurando o celular? A bateria do meu acabou.
— Não tenho celular há muito tempo. Peguei ódio dessa coisa.
— É, eu também, mas numa situação como esta ...
Ela finalmente encontrou o que procurava; segurava um objeto em formato de concha.
— O que é isso?
— Um presente — respondeu ela, encarando o objeto.
— Presente?
— Sim, quero ... — ela tossiu sangue. — ... que fique com ele.
— Perdão, mas não posso aceitar.
— Pode sim — ela esticou o braço com dificuldade e lhe ofereceu mais uma vez — Sei que você cuidará bem dele.
Apenas para não contrariá la, ele o pegou de suas mãos. Ao tocá lo, estava tão quente que quase queimou as pontas dos seus dedos. Assim que ela o soltou, sua temperatura esfriou por completo.
— Nunca vi uma concha como esta. Onde você a encontrou?
Ela cuspiu mais sangue. Depois olhou bem nos olhos dele e disse:
— Proteja um ao outro. Adeus, Cristiano.
Ele arregalou os olhos para ela. Sabia que não havia dito o seu nome em momento algum da conversa.
— Como é que você sabe o meu nome?
E a moça sorriu pela última vez. A expressão em seu rosto parecia de alívio. Aos poucos seus olhos foram se fechando.
— Não se vá! Fala comigo!
Esticou se cuidadosamente e segurou o pulso dela. Estava morta.
Voltou para o carro meio grogue, como um pugilista que recebe um golpe fatal no final do último round. Como ela poderia saber o seu nome? Ele nunca a vira antes.
Após uma longa e agonizante espera, um casal passou por ali e parou para ajudar. Chamaram o resgate, que atendeu ao chamado com uma eficiência incrível. Era uma lástima ter sido tão tarde. A vítima foi identificada como Adelina Remmf, de 23 anos. Para Cristiano, este nome não lhe dizia absolutamente nada. Seguiu sua viagem de volta, muito abalado e confuso. Chegara ao seu apartamento exausto, física e mentalmente.
O objeto em forma de concha estava jogado sobre o banco do carona. Sentiu um certo remorso por não tê lo devolvido. Talvez tenha algum valor sentimental para a família da falecida, pensou ele.
Poderia tentar devolvê lo, mas não agora, não hoje. Tudo o que ele queria era um banho quente e longas horas de sono. Faculdade? Só amanhã.
Acordou com o telefone tocando. Pensou em ignorá lo e voltar a dormir. Mas lembrou se de que talvez fosse Larissa, muito provavelmente apavorada por não ter tido notícias sobre o seu retorno para casa.
— Alô.
— Cris, o que aconteceu? — era ela. — Estou te ligando no celular desde a madrugada!
— A maldita bateria me deixou na mão outra vez.
— Também liguei no apartamento, e nada.
— Calma, eu explico. Houve um acidente na estrada.
— Acidente? Meu Deus, você está bem?
— Sim, fique tranquila. O acidente não foi comigo. Encontrei um carro capotado na beira da estrada e parei pra ajudar.
— Você, ajudar?
— Pois é, era pra você estar lá comigo. Talvez salvasse a vida dela.
— Dela quem?
— Da moça que estava no carro acidentado. Ela morreu.
— Tinha mais alguém no carro?
— Não, só ela.
— Dirigir sozinho à noite é muito perigoso, já cansei de te dizer isso.
Cristiano ouviu vozes na sala.
— Estranho, acho que a TV ligou sozinha — disse ele.
Levantou se da cama e foi até lá. Levou o telefone junto.
— Fiquei tão preocupada com você — disse Larissa. — Tive pesadelos a noite inteira. A TV não estava ligada.
— Você ainda está aí? Cris!
— Oi, estou aqui — ele estava confuso. A voz que ouvira parecia real.
— O que houve? Você parece tão distante.
— Juro que ouvi vozes na sala. Mas está tudo fora da tomada.
De repente uma voz chamou seu nome.
— Você também ouviu, La? — disse ele, olhando assustado para os lados.
— O quê?
— Ouvi alguém me chamar.
— Não ouvi nada. Cris, você esta bem?
— Sim, estou bem. Desculpa, acho que foi a noite mal dormida.
— Se quiser posso dar um jeito de ir aí.
— Não precisa, está tudo bem. E você tem que estudar para a prova de amanhã. Esqueceu?
— Droga, nem me lembre. Estou tão nervosa.
— Vai dar tudo certo.
— Vou deixar você dormir mais um pouco.
— Acho que estou precisando mesmo.
— Você precisa é de um celular novo, isso sim. Quase me mata do coração.
A voz lhe chamou outras vezes, mas ele não quis assustar a namorada.
— Pode deixar, eu vou providenciar. La, preciso desligar. Mais tarde a gente se fala.
— Tá bom. Se cuida, hein? Beijão.
— Outro.
A voz a lhe chamar era masculina e vinha do objeto em forma de concha.
— Que porra é isso aqui? — disse ele, colocando o objeto sobre o ouvido, como uma criança que acaba de encontrar uma concha na praia.
— Cristiano, onde você está? — disse a voz mais uma vez.
Tomou um susto tão grande que derrubou o objeto no tapete.
— Deve ser alguma brincadeira de mal gosto — disse ele, irritado.
— Está me ouvindo? — a voz ficava cada vez mais limpa e compreensível.
— Quem está aí? Como sabe o meu nome? Acabou a brincadeira.
— Por favor, me ajuda!
Enquanto segurava o objeto, examinava o cuidadosamente em busca de algum botão ON/OFF. Mas não havia nenhum sinal de que aquilo fosse eletrônico.
— Quem é você?
Silêncio.
Devo estar enlouquecendo, pensou.
— Meu nome era Sebastian Franchini.
Cristiano ficou olhando para o objeto, com uma mistura de medo e irritação.
— O que quer de mim? — disse ele.
— Você deveria saber.
— O que eu sei é que esta brincadeira já foi longe demais.
— Brincadeira? Não se trata de nenhuma brincadeira. Eu morri há algumas horas e só você pode me ajudar.
Cristiano começou a rir.
— Escuta aqui, eu vou procurar a polícia, seu idiota.
— Não seria uma má idéia. Meu corpo ainda não foi localizado. E acredito que dificilmente o encontrarão sem alguma ajuda.
— Tenho que admitir, você é um bom ator.
— Cristiano, acho que você ainda não entendeu. Não sou nenhum ator.
— Mas deveria tentar a carreira então; leva jeito.
— Você tem que acreditar em mim. Eu preciso de você. Não quero ficar preso aqui para sempre.
— Agora há pouco estava morto, agora está preso? Seu roteiro está confuso, colega!
— e começou a rir novamente.
— Você atendeu ao meu chamado, então isso quer dizer que as histórias do meu pai eram verdadeiras. O Noai realmente existe!
— Ahã, sei. Noai — disse ele, em tom de ironia.
— Mas não entendo o seu tom de surpresa ao conversar comigo. Você já deve ter ajudado muitos espíritos assim como eu, não?
— O quê?
— Se não me engano, somente o protetor do Noai pode ouvir o chamado de um espírito. Você já deve ter ouvido muitos outros chamados.
— Esta coisa está comigo há algumas horas.
— Sério? Agora faz mais sentido.
— Sentido? Nada disso faz sentido! Nem sei por que estou perdendo tempo falando com uma concha.
— Não creio que seja apenas uma concha.
— Ganhei este negócios de uma moça, minutos antes de sua morte.
— Caramba! Então fui o seu primeiro espírito?
— Você vai insistir com isso?
— Sou muito azarado mesmo. Fui assassinado no dia em que completaria Bodas de Prata com minha esposa e, agora, para que meu espírito tenha paz, dependo de um novato.
— Você decorou sua história muito bem. Quase me convenceu. O lance das Bodas de Prata foi bem criativo.
Silêncio.
— Ainda está aí? — disse Cristiano. — A bateria desta coisa deve estar quase acabando, não?
— Por favor, me ajude a sair daqui. Talvez você não saiba, mas esta será a sua missão daqui pra frente.
— O quê?
— Se você me ouve é porque o Noai é seu, até a morte. E quem o possui tem a missão de atender aos chamados dos espíritos. Fui o primeiro a te chamar. E acredite, fui o primeiro de muitos que ainda virão.
— Sei, sei.
— Agora escute o que vou lhe dizer: será que os próximos serão tão pacientes e compreensivos como eu?
— Ui, que medo!
— Cuidado, Cris. Posso te chamar de Cris?
— Acabou de chamar, não? — risos do outro lado da concha. — Como é mesmo o seu nome?
— Sebastian Franchinni. Olha, sei que tudo isso é bem esquisito. Não só para você, é esquisito para mim também. Mas acredite na minha palavra.
— Se você é mesmo um espírito, por que não aparece aqui no meu apartamento? Se eu posso te ouvir, talvez possa vê lo também.
— Ainda estou me acostumando com tudo isso. Talvez seja possível, mas sinceramente não sei lhe responder. Você vai me ajudar ou não?
Cristiano não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Era algo tão surreal que parecia ter saído de um dos seus velhos gibis de terror. Chegou até a desconfiar de possíveis efeitos alucinógenos daquela concha misteriosa.
— Como saber se você está dizendo a verdade ou se é uma brincadeira de mau gosto?
— Se não sou um espírito, você está conversando com um concha. Prefere admitir que está louco ou me ajudar?
Ele riu.
— Bem pensado.
— Vai me ajudar?
— Calma — e colocou as mãos na cabeça, tentando encontrar uma explicação racional para tudo aquilo. Mas não encontrava — Enquanto eu não tiver uma prova concreta não farei absolutamente nada.
— Meu corpo foi escondido num terreno baldio, em Jacareí, onde eu morava.
— Jacareí? Somos praticamente vizinhos.
— Infelizmente não somos mais.
Silêncio por alguns instantes. Era bizarro imaginar que aquela voz pertencia a um morto.
— Você sabe a localização desse terreno baldio? Sabe pelo menos em que bairro fica isso?
— Sei.
— Tenho um tio é Investigador de Polícia em São José dos Campos, vou ligar pra ele e pedir que dê uma olhada no local.
— Você não entendeu, eu preciso da sua ajuda.
— O que quer dizer com isso?
— Só você e o Noai podem me tirar daqui.
— O que você quer que eu faça? Não vou sair por aí procurando seu corpo.
— Nosso encontro não precisa ser no terreno baldio. Reconheço que não estou com uma aparência muito agradável. Fui assassinado covardemente a facadas.
Silêncio novamente.
— Faça com que seu tio me encontre. E quando fizerem meu velório, compareça. E não se esqueça de levar o Noai, é claro.
Sebastian explicou com ricos detalhes a localização do terreno baldio onde seu corpo fora escondido. Mesmo sem acreditar totalmente, Cristiano ligou para o tio. Não contou sobre a concha misteriosa nem sobre a voz; inventou uma história sobre amigos seus da faculdade terem visto atividades suspeitas quando passavam em frente ao terreno baldio.
Durante as horas em que sucederam a ligação, o objeto misterioso ficou mudo.
Cristiano investigou cada centímetro dele, cada curva, cada imperfeição, e realmente não havia nada tecnológico naquilo. Mas de onde vinha a voz daquele homem? E como ele conseguia ouvi lo? Fosse o que fosse, jamais vira nada parecido. Recorreu à Internet, onde procurou pelas palavras ‘concha’ ‘noai’ ‘noay’ ‘espíritos’, mas não conseguiu absolutamente nenhuma informação a respeito.
Mais tarde naquele mesmo dia, quando Cristiano começava a duvidar de tudo o que acontecera pela manhã, recebeu um telefonema do tio, informando lhe sobre a localização do corpo de um homem, morto a facadas, escondido debaixo de um amontoado de sacos de lixo, exatamente onde ele descrevera.
Ficou paralisado ao ouvir aquilo. Arrepiou se todo; cada pêlo do seu corpo ficou de pé naquele momento. Das duas, uma: ou o dono da voz era mesmo um fantasma ou talvez o próprio assassino. Cristiano não tinha preferência por nenhuma das respostas.
No início da noite a voz lhe chamou novamente:
— Cris, você está aí?
— Sim.
— Não sei se você já sabe; seu tio me encontrou.
— Eu sei.
— Obrigado, meu amigo.
Cristiano estava um pouco assustado. Ficou calado.
— Estou no IML de Jacareí.
— Você sabia exatamente a localização do corpo. Quem me garante que você não é o assassino?
— O quê? Se eu fosse o assassino, por que eu entraria em contato com você? A troco de quê?
— Sei lá. Porra, você há de concordar comigo que isso tudo não faz o menor sentido! Se o que você me diz é verdade ...
— Acredite, é verdade.
— Mas então você é um fantasma!
— Não sei. O que eu sei é que somente você e o Noai podem me libertar desse sofrimento.
— Digamos que eu faça isso, o que acontecerá com você? Para onde você vai?
— Esta resposta só saberei depois. Mas eu não quero ficar no meio do caminho.
— E como você sabe que seu plano irá funcionar? Como você mesmo disse, sou novato.
— Fique tranquilo, você saberá o que fazer quando o momento chegar. Assim como eu soube como lhe encontrar.
— Você sabia até o meu nome. Assim como a garota do acidente.
— Estamos ligados uns aos outros. É muito estranho, eu sei.
— Estranho? Bota estranho nisso!
No dia seguinte, após deixar a faculdade um pouco mais cedo, Cristiano partiu para a cidade de Jacareí, a 80 km de Pindamonhangaba. Lá acompanhou o velório de Sebastian Franchini. Apresentou se como amigo do falecido. Recebeu olhares curiosos, mas ninguém o incomodou. A viúva chorava tanto que nem percebeu sua presença. Sebastian tinha uma família grande e devia ser muito querido. Sua casa estava abarrotada de gente. Por um momento, Cristiano sentiu se dentro de um filme em 3D, onde os atores passavam ao seu lado mas não podiam interagir com ele. Quando se aproximou do caixão e finalmente olhou para o corpo, sentiu um profundo arrepio na espinha. Não soube explicar, mas teve um déjà vu.
Retirou a concha misteriosa do bolso, esta brilhava intensamente. Um brilho como nunca vira antes. Mas ao que parecia, somente ele era capaz de vê lo. De repente, mesmo sem saber como aquilo era possível, ele disse uma oração:
“Em nome do Senhor Jesus Cristo, eu renuncio, quebro e me desligo de qualquer mal que tenha causado à minha mãe, pai ou quaisquer outros seres humanos, vivos ou mortos, que, no passado ou agora, de alguma forma me controlaram ou dominaram de maneira contrária à vontade de Deus Todo Misericordioso.
Agradeço ao Senhor por me terdes libertado. Também peço perdão e me arrependo se a alguém eu dominei ou controlei de forma errada.
Amém.”
Ao dizê la, foi como se alguém a tivesse dito em seu lugar. Foi uma sensação inexplicável. O objeto em sua mão esquentou tanto que ele precisou devolvê lo ao bolso imediatamente. Sentiu se fraco, pensou que ia desmaiar ali no meio daquelas pessoas. Olhou uma última vez para o corpo do falecido e sentiu uma paz como nunca havia sentido antes em toda a sua vida. A sensação de missão cumprida era tão clara quanto o branco do véu que balançava sobre o caixão.
Manteve segredo sobre a concha e tudo o que lhe acontecera. Contar sua história para alguém seria o mesmo que assinar um atestado de loucura, pensou ele.
Depois daquele dia, o objeto permaneceu mudo por um bom tempo. Por vezes, Cristiano o encarava por horas. Perdera a conta de quantos sites visitara em busca de alguma informação. Qual a sua origem? Do que mais seria capaz? Haveria a possibilidade de fazer contato com seus avós falecidos? Não encontrou resposta alguma. Muito pelo contrário, quanto mais o tempo passava, mais perguntas ele tinha.
Certa vez, quando Cristiano voltava da faculdade, sentiu suas mãos esquentarem muito rapidamente. Por um momento pensou ser o volante, mas não era. Foi obrigado a encostar o carro e esperar até que suas mãos voltassem ao normal. No fundo ele sabia que aquilo era um sinal. O objeto misterioso, trancado na gaveta de sua escrivaninha, estava a lhe chamar.
Ao chegar em casa, correu para o quarto e destrancou a gaveta. Uma voz aguda e irritante ecoou do objeto:
— Cristiano?
Seu coração disparou. Era uma mistura de medo e excitação.
— Estou aqui — respondeu ele.
— Por favor, me ajuda!
E foi assim que o segundo chamado começou. O espírito identificou se pelo nome de Isabella Verona. Morrera ao cair de um brinquedo num parque de diversões, em São Paulo. Tinha apenas 12 anos de idade. Seu corpo seria velado à noite, em Santo André, no ABC Paulista.
Cristiano repetiu o processo bem sucedido do primeiro encontro. Entrou no velório e se identificou como professor da garota falecida. Retirou o objeto do bolso, este brilhou feito uma estrela perdida na Terra, e a mesma oração foi dita por ele, apesar de não saber de onde vinham as palavras que saíam de sua boca.
O terceiro, quarto e quinto chamados vieram nas semanas seguintes.
Ana Claudia Padova, o quarto espírito, contou lhe que nem todos são capazes de chamá lo; somente um determinado grupo de pessoas, e que isso era herdado de geração em geração. Mas infelizmente ela não soube lhe explicar o motivo.
Se aquilo era uma missão, divina ou não, Cristiano estava cumprindo como podia. E a sensação de paz que sentia após ajudar os espíritos não tinha preço.
Mas foi no sexto chamado que algumas coisas começaram a mudar.
Era uma noite de sábado, ele passava mais um final se semana na casa da namorada, em Caraguatatuba, quando sentiu uma dor insuportável nas mãos.
— O que foi? — disse Larissa, olhando ele balançar as mãos de forma apavorada. — As mãos queimando outra vez?
Ele não respondeu, continuou chacoalhando as mãos.
— Fica calmo, vou pegar gelo!
— NÃO!!! — disse ele, com os olhos arregalados.
— Mas aquele dia no teu apartamento você me pediu gelo, não?
— Dessa vez elas estão ... congelando — ele parecia uma criança assustada.
— Congelando? Mas está um calor insuportável!
— Eu sei — ele fazia caretas assustadoras de dor.
— Você precisa ir ao médico, meu amor. Temos que descobrir o que você tem.
— Logo passa, não se preocupe.
Larissa olhava assustada para ele.
— Volto já, vou trazer um pouco de água quente, tá?
Era a primeira vez que suas mãos ficavam daquele jeito, geladas. Estava acostumado a esquentarem, mas nunca o contrário. Por precaução, Cristiano sempre levava o Noai em suas visitas à namorada, para casos de emergência.
Apavorado, ele foi até o carro, onde o Noai estava guardado dentro de um pequeno baú, trancado com cadeado. Ele precisava atender àquele chamado, ou desmaiaria de tanta dor. Suas mãos doíam tanto que para abrir o carro foi um sacrifício e tanto. E para piorar a situação, Larissa veio atrás dele.
— Cris, o que está fazendo? — disse ela, segurando uma panela com água quente.
— Nada, lembrei que tinha esparadrapos no porta luvas.
— Esparadrapos? Cortou as mãos?
— Não, não, fique tranquila, eu estou bem.
Ela ficou olhando para ele, confusa.
— O que foi? — disse Cristiano, tentando ignorar a dor.
— Você ia embora assim?
— Lógico que não, La!
— Então pára de me enrolar e conta a verdade.
— Do que você está falando?
— Tudo bem — disse ele — , preciso que você pegue um baú que está no porta luvas.
Os pais de Larissa haviam viajado naquele final de semana, portanto eles estavam sozinhos. Cristiano agradeceu aos céus por isso. Se o segredo ia ser descoberto, que fosse pela namorada, apenas.
Ela destrancou o pequeno baú. Cristiano retirou o Noai de dentro dele. Suas mãos voltaram ao normal imediatamente. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha.
— Que alívio — disse ele.
— A dor passou? — ela ficou olhando para ele, curiosa.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Que concha mais esquisita! Onde você ... ?
De repente um grito assustador ecoou do Noai. Cristiano tomou um susto tão grande que quase caiu do sofá.
— O que foi? — disse Larissa, rindo dele.
— Você não ouviu mesmo?
— O quê?
Antes que ele dissesse alguma coisa, ouviu outro grito, agora mais alto. A voz era masculina e parecia sentir muita dor.
— Você está bem? — perguntou ela. — Que cara é esta?
— Nada não, pensei ter ouvido alguém te chamar no portão, só isso.
Cristiano sentiu se aliviado por ela não poder ouvir aqueles gritos.
— Onde você comprou esta concha?
— Não comprei, foi presente dos meus pais.
— Seus pais? — ela o olhou desconfiada. — Desculpa, mas não consigo imaginar nenhum deles te dando isso.
— E por que não?
— Eles são ... chiques demais, né?
— Você ia dizer “frescos”, não é?
— Ahã — ela caiu na gargalhada.
Quando Cristiano se preparava para beijá la, um terceiro grito saiu do Noai. Dessa vez o grito saiu fraco e distante, mas não menos assustador.
— O que foi dessa vez? — disse Larissa, impaciente. — Não tem ninguém me chamando no portão.
Ele tirou o Noai das mãos da namorada e o guardou no baú, cuidadosamente. Suas mãos tremiam.
— Nunca te vi desse jeito, Cris.
Ele trancou o baú e beijou delicadamente a testa da namorada, depois disse:
— Está tudo bem, não se preocupe.
Mas ele estava mentindo. Sabia que havia algo de errado. Que gritos estranhos eram aqueles? Todos os chamados anteriores foram tão tranquilos, e de certa forma surpreendentes, pois estavam mortos e nenhum deles demonstrava desespero ou tristeza. Em momento algum ouviu lamentações daqueles que o procuraram. Queriam apenas um desfecho.
Haviam combinado de sair com os amigos dela naquela noite, mas Cristiano pediu para que cancelassem. Se ele conhecia bem a concha, sabia que aquele fora apenas o primeiro chamado da noite. Viriam outros em breve.
Jantaram e depois assistiram um filme. O calor estava insuportável aquela noite.
Mesmo com dois ventiladores eles ainda suavam. Só conseguiram dormir quando o relógio marcava 2h46 da madrugada.
Meia hora depois, Cristiano acordou com as mãos geladas novamente. A dor era tão intensa quanto da primeira vez. Levantou se sem fazer barulho e foi até a sala, onde estava o baú. Retirou o Noai e foi até o quarto dos pais da namorada. Já que este estava vazio, seria o melhor lugar para um possível contato com o sexto espírito. Trancou a porta e sentou se na cama, segurando cuidadosamente o objeto. Suas mãos voltaram ao normal.
— Vamos lá, apresente se logo — disse ele, baixinho.
E finalmente uma voz saiu da concha:
— O que você quer?
Era uma voz masculina e num tom ríspido.
— O que eu quero?
— Eu te fiz alguma coisa, porra?
Por incrível que pareça, era a primeira vez que um dos espíritos dizia um palavrão.
— Qual é o teu nome? — perguntou Cristiano. — De onde você é?
Silêncio.
— Você ... sabe que está morto? — prosseguiu ele.
— Não, sério? — a resposta foi em tom de ironia.
— Vai me dizer quem você é ou não? Se não quer a minha ajuda ...
— Ajuda? Ajuda pra quê, mané?
— Pra tirar você daí.
— Me tirar daqui? — risos irônicos. — Acho que é um pouco tarde pra isso.
— Acredito que todos os outros estejam num bom lugar agora.
— É mesmo? Que gracinha.
Fosse quem fosse, começava a irritar Cristiano profundamente. O homem tinha um sotaque bem carregado.
— Você é carioca?
— Nossa, você é um gênio.
— Já percebi que não quer me dizer o seu nome. Tem medo do quê?
— Medo? E quem disse que estou com medo?
— Então me diz o seu nome.
— Eu falo pra tua namoradinha, que tal? Ela tem uma voz muito sexy, sabia? Como ela é? Adoro uma loirinha!
Cristiano jogou o Noai no chão, com raiva. Foi incrível não ter quebrado em pedaços, parecia tão frágil.
— Ficou mudinho, foi? — disse a voz, provocando o.
— Quem é você, seu filho da puta?
— Filho da puta? É assim que você trata os mortos?
— Escuta aqui, babaca, ajudei todos outros que me procuraram, mas você, desejo que apodreça aí neste lugar, seja lá onde for!
— E quem disse que eu quero sair daqui, seu mané?
Por que todos os outros pediam desesperadamente para deixar aquela situação e este não parecia se incomodar tanto? Cristiano ficou confuso.
— Você não quer sair? — perguntou ele.
— Já estive em lugares bem piores.
— Cite um.
— Experimente uma cela apertada com um monte de retardados fungando no teu cangote.
— Você estava preso?
— Que tal prestar concurso pra Investigador, hein? Você leva jeito, com este maldito interrogatório pra cima de mim, porra. Qual é a tua, meu irmão?
— Só quero saber com quem estou falando.
— Vai ficar querendo, seu curioso de merda.
De repente uma frase dita por Sebastian veio à mente de Cristiano: Será que os próximos serão tão pacientes e compreensivos como eu?
Este último, com certeza não era.
— Pra encerrar a conversa, você não quer a minha ajuda.
— Muito ajuda quem não atrapalha.
E o Noai ficou mudo. Cristiano voltou para a cama, nervoso. Aquele havia sido o mais estranho e perturbador de todos os chamados, sem dúvida. Pela primeira vez ele temeu pelo pior.
O calor estava tão intenso que ele preferiu deitar se no chão, ao lado da cama.
Acordou com os dedos de Larissa brincando com seus cabelos. Ele estava deitado de lado, de costas para a cama.
— Como você consegue dormir tão bem com este calor todo? — disse ele.
— Esqueceu que eu nasci no litoral? Calor já faz parte da minha vida.
— Pois é, você já está acostu ...
Ao virar se, Cristiano quase teve um ataque do coração. Havia alguém debaixo da cama. Ele ia gritar de susto, mas no último segundo conseguiu segurar. Larissa percebeu sua cara de espanto.
— O que foi? Pelo amor de Deus, não me diz que aqueles malditos ratos voltaram! Ótima desculpa, pensou ele.
— S ... sim, e é dos grandes — ele mentiu.
Respirou fundo e olhou debaixo da cama novamente. Havia uma mulher, ou pelo menos parecia ter sido algum dia. Seu corpo era esquelético e a pele tinha um tom acinzentado. O olhar em seu rosto magro parecia de desespero e seus lábios murchos tentavam dizer alguma coisa. Mas ela não possuía língua.
— Eu quero ver — disse Larissa, de repente.
— Não! — respondeu ele, com o coração prestes a sair pela boca.
E quando olhou debaixo da cama outra vez, não havia mais nada lá, além de umas manchas negras no piso.
— Vai matá lo ou não? — disse a namorada, irritada.
Ele estava tão concentrado nas manchas que nem ouviu o que ela havia lhe perguntado.
— Cris? Planeta Terra chamando!
— O que foi?
— Não vai matar o rato?
— Ele ... sumiu.
Assim que a namorada deixou o quarto para tomar banho, Cristiano afastou gentilmente a cama para o lado, para ver melhor aquelas manchas.
Mas na verdade não eram manchas. Havia algo escrito no chão:
MERECE O INFERNO NÃO PODE ESCAPAR Ficou parado um bom tempo olhando aquilo, até que ouviu o barulho da porta do banheiro se abrir. Precisava agir depressa para apagar aquilo. Retirou um lençol do guarda roupas e o esfregou no chão, com força. Com muito custo as palavras se desfizeram, mas deixou o lençol todo manchado. Finalmente arrastou a cama para o seu lugar e enrolou o lençol rapidamente.
Cristiano passou o domingo inteiro tentando entender o que significava aquilo. Quem era aquela coisa debaixo da cama? E pra quem seria aquele recado? Para ele?
Saiu para caminhar na praia com a namorada. Talvez esquecesse aquela manhã tão estranha.
— O que está acontecendo com você? — perguntou Larissa.
— Comigo?
— Você está cada vez mais quieto. Às vezes parece tão distante.
— Impressão sua.
— Não é, não. Estou com saudade daquele Cris brincalhão e que falava pelos cotovelos.
— Acho que são as provas desse bimestre, meus pais estão me cobrando um desempenho melhor. Querem que eu justifique o investimento, né?
— Não precisa mentir pra mim.
— Não estou mentindo, La! — respondeu, franzindo a testa.
— Está sim. Você tem um cacoete infalível quando mente, sabia?
— O quê? Bobagem, não tenho isso não!
— Tem, e eu já percebi faz tempo. Você pisca mais vezes. É até bonitinho.
Ele a agarrou pela cintura e a beijou. Após o beijo ele a encarou nos olhos e começou a piscar rapidamente.
— E agora, vai me dizer que o beijo foi de mentirinha também?
— Bobo.
— São coisas da sua cabeça, meu anjo. Sou o mesmo Cris de sempre.
— Então me responde uma coisa.
— Claro.
— O que foi que você viu debaixo da cama?
Cristiano ficou totalmente surpreso com a pergunta. Pensava ter encerrado o assunto, pelo menos com ela.
— Um rato, esqueceu?
— Mentira. Você está piscando de forma nervosa outra vez.
— O quê? Você está inventando isso.
— Cris, eu nunca tinha visto você tão assustado.
— Acreditaria se eu lhe dissesse que tenho um trauma de ratos?
Ele deu um sorriso amarelo. Por muito pouco não lhe contou toda a verdade. Mas achou melhor não envolvê la na história.
Só voltaram para casa no final da tarde, quando uma tempestade repentina formou se sobre toda a cidade.
— Posso ir com você? — perguntou Larissa, do nada.
— Pra onde?
— Pra Pinda. Não quero ficar sozinha em casa.
— Seus pais não vão voltar hoje à noite?
— Não, esqueci de lhe contar. Eles resolveram fazer uma visita para o meu tio Jorginho. Só voltarão na quarta feira.
— Entendi.
— E aí, posso ir pra Pinda com você?
— Não — disse ele, piscando freneticamente.
Ela caiu na gargalhada.
— Assim não vale! Estou arrependida de ter lhe contado, viu?
Passou mais uma noite na casa da namorada e pegaram a estrada pela manhã.
— Prometo não atrapalhar sua rotina de estudos — disse ela, após um tempo de silêncio no carro.
— Atrapalhar? Você me inspira, meu anjo.
Ela afrouxou o cinto de segurança e inclinou se para beijá lo na bochecha. Mas antes que ela o beijasse, Cristiano viu outra criatura acinzentada. Usava um longo vestido vermelho, todo rasgado e sujo. Sua aparência era tão medonha quanto a outra, sua pele parecia mais apodrecida. Ela estava parada ao lado de uma placa de trânsito; tinha o mesmo olhar desesperado e triste da outra. Os longos cabelos esbranquiçados lembravam palha de milho. Ela seguia o carro apenas com os olhos.
As pernas de Cristiano amoleceram, causando a desaceleração do carro. Um caminhão que vinha logo atrás foi obrigado a desviar bruscamente, passando a milímetros deles. Depois disso encostou o carro.
— O que houve? — disse Larissa, apavorada. Suas mãos tremiam.
Seus olhos nem piscavam, ele olhava para a placa de trânsito, abismado. Larissa olhou também. Ela não viu nada, exceto uma placa de trânsito, onde estava escrito PARATY 74 km. Cristiano conseguia ver a criatura acinzentada, e mais duas palavras na placa: AJUDA ELA, escritas manualmente.
— Nunca te vi tão pálido! — ela ajeitou o espelho para que ele pudesse se ver. Mas ele aproveitou para olhar mais uma vez para a placa. As duas palavras misteriosas começavam a derreter, como sorvete no asfalto quente.
— Estou bem. Foi só um susto.
— Assim você me mata do coração, sabia? Já está mais do que na hora de procurar um médico. Você não está bem!
— Foi só um mal estar.
Como seria bom se fosse apenas isso, pensou ele.
Chegando em Pinda, Larissa insistiu para que ele não fosse à aula naquela manhã, mas ele foi. Os pais ameaçavam tirar lhe o apartamento se suas notas não fossem satisfatórias.
Conseguiu chegar a tempo para a segunda aula. Mas é claro que não prestou atenção em nada. Não conseguia tirar aquela frase da sua mente: AJUDA ELA. Mas ajudar quem? O que estava acontecendo? Seriam novos chamados dos espíritos?
No meio da terceira aula, Cristiano sentiu suas mãos geladas. Logo em seguida, recebeu uma mensagem da Larissa no seu celular: “tem alguém no ap. vem pra ca! To com mt medo!”
Entrou em pânico. Recolheu suas coisas e saiu correndo da sala de aula, e ligou para a namorada.
— Cris, graças a Deus! — atendeu ela, falando baixinho.
— O que houve? — ele andava a passos largos até o estacionamento da faculdade.
— Tem alguém aqui, Cris, o que eu faço?
As mãos dele ficavam cada vez mais geladas. Isso o deixou ainda mais nervoso.
— La, saia daí agora mesmo!
— Sair? Você não entendeu o que eu disse? Tem alguém aqui!
— Onde você está?
— No quarto. Tranquei a porta. Estou com muito medo!
— Calma, vai ficar tudo bem. Vou ligar na portaria e descobrir o que está acontecendo.
— Desculpa atrapalhar sua aula, amor!
— Para com isso, sua segurança é muito mais importante. Daqui a pouco estarei aí, já estou entrando no carro. Não se preocupe, vai ficar tudo bem.
E desligou o celular. Suas mãos estavam congelando. A dor era insuportável. Com muito sacrifício conseguiu ligar para a portaria do edifício. Pediu desesperadamente para que alguém fosse averiguar o que estava acontecendo no seu apartamento. Se alguma coisa ruim acontecesse com Larissa, ele jamais se perdoaria.
Foram momentos de agonia e desespero, cada minuto parecia durar uma década inteira. E suas mãos continuavam doendo, congelando.
Quando ele estava prestes a descer do carro para pedir ajuda, sentiu suas mãos voltando ao normal. E logo em seguida o celular tocou. O número era do seu apartamento.
— Você está bem, La? — atendeu ele, super nervoso.
— Cris, sou eu, o Pedrinho.
O coração de Cristiano quase saiu pela boca. Pedrinho era o porteiro do edifício.
— O que aconteceu com ela?
— Fique tranquilo, sua namorada está bem. Ela só está um pouco assustada.
— Onde ela está?
— Foi tomar um copo de água com açúcar na cozinha. A dona Maristela está lá com ela. Fica calmo, Cris, ela está bem.
Cristiano saiu queimando os pneus.
Chegando no apartamento, encontrou a namorada toda encolhida no sofá da sala, assistindo TV.
— Você está bem? — disse ele, ajoelhando se ao lado dela.
— Por que demorou tanto? — respondeu ela, friamente.
— Desculpa, peguei vários sinais fechados.
— Nunca tive tanto medo na minha vida. Quase tive um ataque do coração e depois todos ficaram olhando para mim como se eu fosse uma maluca.
— O que aconteceu?
— Depois que você desligou o celular o quarto ficou tão frio quanto uma câmara frigorífica. Pensei que fosse o ar condicionado, mas ele estava desligado. Tudo estava desligado, pois não havia energia elétrica. E foi aí que eu senti ... — ela começou a chorar
— alguém me tocar.
— O quê? Quem?
— Eu não sei! Não tinha ninguém no quarto, mas eu juro que senti uma mão acariciar as minhas pernas, Cris!
— Calma, está tudo bem agora — e deu lhe um beijo na testa.
— Você acredita em mim, não é? Aquela velha do apartamento vizinho me olhou de um jeito tão estranho.
— A dona Maristela olha daquele jeito pra todo mundo, não se preocupe.
— Se eu lhe fizer uma pergunta, você promete responder com toda a sinceridade do mundo?
— Claro que sim.
— Você também já sentiu coisas estranhas no seu apartamento?
Ele hesitou um pouco, mas respondeu:
— Já.
— É por isso que você anda meio estranho ultimamente?
— Sim. Quero dizer, não só por isso.
— Se eu preparar seus dois pratos favoritos, você me conta tudo?
— Conto.
Mais calma, Larissa preparou o almoço: macarronada e nugets caseiros. Como já era de costume, almoçaram assistindo TV, na sala. Sandra Annemberg apresentava sozinha o Jornal Hoje.
— Às vezes sinto vontade de deixar o meu cabelo igual ao dela — disse Larissa, apontando para a TV. — O que você acha?
— A cor ou o tamanho?
— Os dois.
— Nem pensar. Odeio cabelo curtinho. Para mulher não fica bem.
— Claro que fica! Não acha a Sandra bonita?
Neste momento uma repórter entra ao vivo e dá a seguinte notícia: “Foi encontrado mais um corpo na cidade de Resende, no sul do Estado do Rio de Janeiro. A vítima, uma mulher de 25 anos, foi encontrada morta dentro de um poço desativado, na zona rural da cidade. As autoridades acreditam que esta seja mais uma vítima do assassino que aterroriza a Região das Agulhas Negras nos últimos 3 anos, Alfredo Rossi, mais conhecido como Estuprador de Resende.”
Quando mostraram uma foto da vítima, tirada um dia antes de seu desaparecimento, Cristiano até engasgou com a comida. A moça era linda, tinha os cabelos bem loiros, longos, e usava um vestido vermelho, idêntico ao que a criatura acinzentada estava usando lá na estrada.
Terminada a matéria, a edição do jornal voltou para Sandra Annemberg, esta informou que Alfredo Rossi, principal suspeito por aquele e muitos outros assassinatos na região, ainda não havia sido capturado. Por fim mostraram um retrato falado do suspeito. Cristiano teve um déjà vu.
— O que foi? — perguntou Larissa, olhando assustada para ele.
— Nada, por quê?
— Credo, você ficou pálido de repente. Está se sentindo bem?
— Sim, está tudo bem.
Mas não estava tudo bem. Ele estava apavorado. Seria Alfredo Rossi o sexto espírito? O sotaque carioca, o jeito malandro, uma provável passagem por uma prisão. E aquelas criaturas acinzentadas? Seriam espíritos de suas vítimas?
No dia seguinte levou Larissa de volta para sua casa, em Caraguatatuba. Depois de algumas histórias sobre fantasmas brincalhões, ela não teve coragem de ficar. Ele não teve coragem de contar a verdade.
Ao retornar, teve mais uma visão ao passar pela placa PARATY 74 km. Mas dessa vez havia outra frase: ELA PRECISA DE VOCÊ. AJUDA! Ele entrou em pânico. Parou o carro no acostamento e ligou para o celular da namorada imediatamente. Ele temia que a frase pudesse ter algo a ver com ela.
— Oi, já chegou em Pinda? — ela atendeu.
— Ainda não. Você está bem?
— Sim, por quê?
Ele sentiu um alívio grande.
— Deixa pra lá. É tão bom ouvir tua voz.
— Xiiiiiii, está ficando meloso agora, é? Nunca foi.
Ao voltar para o apartamento, correu para o computador, acessou a Internet e procurou “desaparecimento em Paraty”. Enquanto procurava por alguma informação que pudesse lhe ajudar, sentiu suas mãos congelarem. Era o sinal que ele esperava.
Correu para o quarto e tirou o Noai da escrivaninha. A temperatura do quarto caía drasticamente. Apesar de empolgado pelo chamado, estava com medo. Ele não sabia o que esperar.
— Escute aqui, seu filho da puta, a próxima vez que você se meter com a minha namorada ...
— Você vai fazer o quê? Vai ... me matar?
O espírito rindo histericamente.
— Vi sua cara na TV, babaca. Meu, você é muito feio! Quero dizer, era muito feio. Silêncio.
— O que foi? — disse Cristiano. — Ficou nervosinho?
A cama chacoalhou com violência e o arremessou contra a porta do quarto.
— Eu já sei porquê você foi o único que não me pediu ajuda. Seu destino é o inferno. Por isso você prefere ficar aí, não é?
— Puta que pariu, descobriu tudo isso sozinho? — disse o espírito em tom de ironia.
— Covarde. Quantas mulheres você matou?
Silêncio. De repente o Noai foi arremessado contra a parede. Não dava para acreditar como algo tão frágil resistira a uma pancada tão forte como aquela. A parede sofrera uma pequena rachadura.
O guarda roupas começou a tombar sobre Cristiano. Este rolou pelo chão e escapou por alguns centímetros.
— Talvez ainda lhe reste alguma esperança — disse ele, ofegante. — Tenho visto os fantasmas das moças que você matou. Se entendi bem as mensagens que elas estão tentando me passar, uma de suas vítimas ainda está viva.
As portas do guarda roupa abriam e fechavam, fazendo um barulho ensurdecedor.
— Ajude me a salvá la — gritou ele. — Talvez isso o ajude a ... limpar sua ficha. Que tal?
— Ajudar aquela piranha? — e o espírito cai na gargalhada.
As gavetas da escrivaninha voaram longe. O abajur caiu do criado mudo e a cama levantou se por alguns centímetros. Quando Cristiano temia pelo pior, tudo parou. O Noai ficou mudo novamente.
Passou o resto do dia pesquisando na Internet a respeito do Estuprador de Resende. O que encontrou deixaria qualquer um de cabelos em pé. O homem tinha métodos sádicos terríveis para se satisfazer. Sentia prazer em torturar suas vítimas até a morte. Por fim, como uma assinatura macabra, arrancava lhes a língua com um alicate. Suas vítimas eram todas mulheres, variavam entre 19 e 23 anos de idade, bonitas e, em sua grande maioria, de classe média. Tinha preferência por pele e olhos claros.
Adormeceu sobre o teclado.
Acordou tarde da noite, suando. Fazia um calor insuportável, chegando a lembrar os dias mais quentes que passara na casa da namorada. Levantou se e, ao olhar para o reflexo do monitor, viu alguém parado ao lado da estante de livros. Era mais uma daquelas criaturas acinzentada. Baixinha, rosto redondo e cabelos curtos, brancos feito neve. Seu olhar era frio e inexpressivo. Vestia apenas uma camiseta suja do clube Vasco da Gama. Estava descalça e faltavam lhe alguns dedos dos pés.
— O que você quer de mim? — disse Cristiano, olhando para a criatura com muito esforço.
A coisa acinzentada grunhia, não conseguia se expressar verbalmente. Faltava lhe a língua.
— Meu Deus, quantas mulheres aquele filho da puta torturou até a morte?
Não houve reação. Depois a coisa apontou para o monitor. Cristiano percebeu que o site Orkut estava aberto.
— Não me lembro de ter aberto esta porcaria.
O perfil aberto não era o dele, mas sim o de uma moça loira.
— É ela que precisa de ajuda? — e apontou para o monitor.
A coisa fez sinal de positivo com a cabeça.
— Você sabe onde ela está?
E a criatura desapareceu feito fumaça. Cristiano socou o teclado, enfurecido, e soltou uma dezena de palavrões.
Navegou durante uns quinze minutos pelo perfil da garota. Se as informações eram fiéis, ela tinha 20 anos, morava em Itatiaia, no Rio de Janeiro, estudava Educação Física, adorava viajar e era apaixonada pelo Stallone, seu Pastor Belga.
Clicou na página de recados da garota. Havia quase 3 mil mensagens. As mais recentes eram de apoio e clamavam por rapidez nas investigações de seu desaparecimento. Cristiano foi lendo uma por uma, em busca de alguma informação que lhe pudesse ser útil; e encontrou. Na oitava página havia uma mensagem cuja data precedia ao final de semana em que desaparecera. O recado era de outra garota, provavelmente sua amiga, convidando a para uma festa em Paraty. Clicou imediatamente sobre a foto e caiu no perfil da amiga. Ao abrir a página de fotos, sentiu um arrepio ao ver um álbum inteiro dedicado ao Vasco da Gama. A amiga era a criatura acinzentada que estava no seu quarto minutos atrás, só que no Orkut ela sorria e sua aparência era muito mais agradável. Mas era ela, sem dúvida alguma.
Desligou o monitor, pegou uma toalha e foi tomar um banho gelado para esfriar o corpo e a mente.
Durante o banho foi surpreendido por uma queda de energia. Tudo escuro e chuveiro desligado. Tentou manter a calma; procurou pela toalha e quando pisou fora do Box, sentiu alguém lhe empurrar. Desabou sobre o chão do banheiro. Antes que pudesse gritar, sentiu uma pressão terrível no pescoço. Apavorado, tentou acertar o agressor com o um soco, mas aparentemente não havia mais ninguém. Tentou gritar por socorro, mas não conseguia. Prestes a perder o fôlego, rolou para o lado e finalmente conseguiu tirar aquela pressão terrível sobre o pescoço.
— Deixe me em paz! — disse ele, com firmeza.
Risos. Ele conhecia bem aquele riso irônico e irritante.
— Tentando matar um homem, pra variar?
E a luz do banheiro começou a piscar. Havia um vulto preto parado na porta do banheiro. A imagem era turva, mas parecia humana. Apenas parecia, pois quando a luz do banheiro voltou ao normal, a imagem se desfez como fumaça diante de um ventilador, o ambiente pareceu ter ficado mais leve, as luzes e o chuveiro voltaram a funcionar normalmente.
Irritado, correu para o quarto, enrolado na toalha, retirou o Noai do Baú e ameaçou jogá lo pela janela. “Maldita hora em que você entrou na minha vida”, pensou.
Quando se preparava para jogá lo, teve uma visão. Durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para deixá lo assombrado. Havia um corpo caído no chão, imóvel, coberto por um lençol azul. O lugar era iluminado por um lampião sobre uma mesinha velha de madeira. Ao aproximar se do lençol, a visão terminara. Cristiano ficou ainda mais confuso. O corpo debaixo do lençol seria da garota do Orkut?
Manteve as luzes acesas e uma garrafa de café sobre o criado mudo. Não se atreveu a dormir aquela noite. Era arriscado demais. Aquele espírito preso no Noai ficava cada vez mais atrevido e perigoso. No último encontro suas mãos não ficaram geladas, o que demonstra que ele pode aparecer de surpresa, sem avisar.
A noite demorou uma eternidade para passar, mas pelo menos não recebeu novas visitas fantasmagóricas nem teve novas visões.
Quando o dia finalmente clareou, tomou um banho completo, pegou o Noai e partiu para a cidade de Paraty. Não tinha a menor idéia do que faria ao chegar lá, mas alguma coisa lhe dizia que o seu futuro dependia daquela viagem.
Na metade do caminho, precisou parar o carro para abastecê lo. Enquanto o frentista fazia seu serviço, Cristiano desceu para tomar um pouco de ar puro. Sentia uma ligeira falta de ar, desde que saíra do apartamento.
— O senhor está bem, moço? — perguntou o frentista. O rapaz era exageradamente magro e lembrava lhe Jerry Lewis no início de carreira.
— Sim, obrigado.
— Muita gente chega aqui meio ruim do estômago. Aquele ponto ali nós até já apelidamos de vomitório.
Deu um sorriso amarelo para o frentista e foi até a conveniência comprar um picolé. Ao voltar, notou que havia alguém dentro do seu carro, sentado no banco do carona.
Mordeu o picolé pela última vez, jogou o palito no lixo, lavou as mãos, respirou fundo e caminhou lentamente até o carro. Talvez fosse apenas o frentista, pois este havia sumido.
Mas não era.
Era outra daquelas criaturas cinzas. Estava seminua, num estado de decomposição bem mais avançado que as anteriores. Seus seios lembravam duas maçãs podres.
De repente a criatura começou a apontar para ele, desesperada. Antes que Cristiano pudesse entender o que ela pretendia com aquilo, tomou uma chave de braço no pescoço.
— Hei, o que é isso? — gritou ele, assustado.
— Aonde você pensa que vai? — era a mesma voz do sexto espírito.
O frentista era o seu agressor, mas ao que tudo indicava estava possuído pelo espírito ruim. Outros dois frentistas e um cliente do posto vieram correndo para ajudá lo.
— Você ficou louco, Jardel? — gritou um dos frentistas para o amigo. Este sorriu e lhe mostrou a língua. Seus olhos estavam brancos e enlouquecidos.
Os frentistas e o cliente ficaram se olhando, apavorados.
— Ninguém vai me ajudar, caramba? — disse Cristiano, irritado.
Os três partiram pra cima do frentista, mas foram arremessados longe. Neste momento outras pessoas que passavam por ali se aproximaram. Foram necessários seis homens para separar o frentista de Cristiano. Puxaram no pelas pernas, braços e cintura. Ninguém conseguia entender como um homem tão franzino era capaz de possuir tanta força.
— Não sei o que deu nele — disse um dos frentistas, ofegante. — O Jardel é um cara tão sossegado.
— Você disse alguma coisa pra ele? — disse um cliente para Cristiano.
— Eu? Não!
— O frentista o atacou covardemente — disse uma mulher. — Eu vi tudo ali do meu carro.
A criatura acinzentada continuava sentada no banco do carona. Mas somente Cristiano conseguia vê la. Sentiu se aliviado por isso.
Não demorou muito para uma viatura da polícia aparecer no local. Dois policiais desceram do carro, dispersando boa parte da multidão.
— O que está havendo aqui? — perguntou um dos policiais.
— Um funcionário do posto atacou aquele homem.
Imediatamente o policial olhou para Cristiano. Sua camiseta estava rasgada e seu rosto bem vermelho e todo arranhado.
— E foi ele que te atacou? — perguntou o policial para Cristiano, apontando para o frentista.
O espírito já havia deixado o seu corpo. O pobre coitado estava apavorado ao ver aquela multidão ao seu redor, apontando dedos para ele.
— O que está acontecendo? — disse o frentista. — Por que estão me olhando desse jeito?
— Todas estas testemunhas viram você agredir aquele rapaz — disse o policial.
— O quê? Vocês ficaram malucos?
— Deve ter sido algum mal entendido — disse Cristiano para o policial. — Talvez ele tenha me confundido com alguém e ...
Tiros.
Dois disparos na direção de Cristiano. O primeiro passou a poucos metros dele, o segundo acertou o ombro de uma mulher. O atirador era o outro policial. Seu rosto tinha as mesmas feições enlouquecidas do frentista possuído. Agora era a sua vez. A multidão, apavorada, corria para longe do posto.
— O que você pensa que está fazendo? — gritou o outro policial.
Outro tiro na direção de Cristiano. Este acertou a porta do seu carro.
— Você ficou louco? — e o policial apontou sua arma para o companheiro. — Pare já com isso, pelo amor de Deus! O que deu em você, caralho?
Cristiano entrou rapidamente em seu carro e deu a partida. Nem percebeu que a criatura acinzentada ainda estava ali, sentada ao seu lado. Outro tiro, este último acertou o vidro traseiro. Pisou fundo no acelerador e saiu queimando os pneus. Quase atropelou um casal que corria assustado.
Estava tão apavorado que por muito pouco não pegou o caminho de volta para Pindamonhangaba. Ao fazer a volta na rotatória e retomar o caminho correto, percebeu a presença sobrenatural ao seu lado.
— Você está aqui para me ajudar, creio eu — disse ele. E olhou para a criatura com o rabo dos olhos. Era disparadamente a mais feia.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Antes que você vire fumaça como as outras, diga me: sabe onde a garota está? Outro gesto positivo.
— Ótimo. Ela ainda está viva?
Ela demorou um pouco para responder, mas fez outro sim.
Cristiano abriu o porta luvas e pegou o Noai. Depois disse:
— Sinto que teremos companhia.
Mais um sim.
Chegando em Paraty, Cristiano encostou o carro e finalmente criou coragem para olhar nos olhos da criatura. Seu olhar era tão inexpressivo quanto o das anteriores. Tentou tocá la no ombro, por culpa de uma curiosidade mórbida. Sua pele era fria e gelatinosa.
— Nunca acreditei em histórias de fantasmas e coisas desse tipo — disse ele, com um pouco de nojo. — E agora vivo cercado por vocês. Ironia, não?
Ela olhou na direção do porta luvas e apontou para ele.
— Entendi. Esta concha maldita é uma espécie de ímã do além.
A criatura concordou.
— Bom, estamos aqui. Vou precisar da sua ajuda para encontrar a garota. Para onde vamos? Você sabe o caminho, certo?
Ela apontou para uma rua à esquerda.
A criatura o guiou por todo o caminho. Saíram do centro da cidade e foram parar numa área rural. Passaram por estradas de terra, mato e cascalho. Rodaram quase quarenta minutos, até que uma porteira velha ficou no caminho.
— Chegamos? — disse Cristiano, parando o carro. Ele nem percebera que a criatura já estava do lado de fora, esperando por ele.
Ventava muito. A criatura era tão franzina que dava a impressão de que sairia voando a qualquer momento.
Ele abriu a porteira e dois cães Fila, esqueléticos, vieram em sua direção. Pareciam famintos. Cristiano fechou a porteira novamente.
— Odeio cachorro — disse ele.
Os cães aproximaram se da porteira, mas quando viram a criatura acinzentada, saíram correndo, apavorados.
— Eles conseguem te ver? — perguntou ele, apontando para os cães. Ela balançou a cabeça positivamente. Depois apontou para o carro.
— O que foi?
Ela fez um gesto com as mãos, como se abrisse uma gaveta. Ele custou um pouco a entender, mas a ficha caiu quando ela repetiu o gesto.
— Vamos precisar dele?
Outro sim.
Estavam numa chácara, aparentemente abandonada. O vento continuava a soprar forte, balançando os galhos das árvores. Não havia sinal de animais ou vizinhos próximos. O lugar parecia esquecido da face da Terra.
— Este lugar me dá arrepios.
De repente um dos cães Fila surgiu do meio do mato e saltou sobre Cristiano. Este se jogou, tentando cair sobre o corpo magro do cachorro. Havia algo de estranho com o animal, seus olhos estavam brancos, exatamente como os olhos do frentista e do policial.
Cristiano pegou um pedaço de pau e acertou o cão com força. O animal rosnou e tentou atacá lo novamente, mas a criatura acinzentada entrou na frente e o protegeu. Ela segurou o cão pelo pescoço e o jogou longe.
— Obrigado — disse Cristiano, ofegante e com as mãos no joelho.
O cão ficou caído no mato, seu corpo tremia de uma forma estranha, como se algo tentasse sair de dentro dele.
A criatura acinzentada puxou Cristiano pelo braço. Ela parecia ter muita pressa.
Caminharam mais dez minutos por uma estradinha de cascalho, pularam um riacho e atravessaram uma ponte de madeira, caindo aos pedaços, até que avistaram um casarão velho. Era o estábulo que ele vira na noite passada.
Antes que ele pudesse dizer algo, percebeu que estava só. Olhou ao redor e disse baixinho:
— Esteja onde estiver, obrigado.
Um grito assustador ecoou pela chácara. E não era parecido com nada que já ouvira antes.
A porta do estábulo estava escancarada. Ele entrou. Mantinha um pedaço de pau numa mão e o Noai na outra.
— Tem alguém aí? — gritou ele.
Nada. Lá fora, outro grito assustador. E parecia mais próximo.
Cristiano percebeu uma portinhola aberta no chão do estábulo. Correu imediatamente até ela. Encostado na portinhola havia uma escada de madeira, bem velha. Esticou o pescoço pela portinhola e gritou o mais alto que conseguiu:
— Fernanda, você está aí?
Este era o nome da garota, conforme constava no seu perfil do Orkut.
Mesmo sem ter ouvido nenhuma resposta, preparou se para descer a escada. Lá fora algo se aproximava, dava para sentir o chão do estábulo tremer.
Quanto mais ele descia, mais escuro ficava. De repente ouviu um grito por socorro.
— Quem está aí? — gritou a garota. — Cristiano, é você?
Ele ficou arrepiado ao ouvir aquilo. Como ela poderia saber o seu nome? Não havia tempo para perguntar. Desceu os degraus o mais rápido que conseguiu.
— Sim, sou eu — respondeu ele, assustado, olhando pra cima. — Fique tranquila, vou tirar você daqui, OK?
Ela começou a chorar de alegria.
— Eu sabia que você viria. Obrigada, meu Deus!
— Está muito escuro aqui. Onde você está?
— Estou trancada num depósito. A porta é de madeiras grossas. Será necessário arrombá la. Você está sozinho?
Antes que ele pudesse responder, algo colocou a cara na portinhola lá em cima. Era difícil identificar o que era, mas era grande e tinha os olhos enfurecidos.
Cristiano engoliu seco e respondeu:
— Não estou sozinho.
Fosse quem fosse, começava a descer a escada. E descia rápido.
Cristiano deixou o Noai no chão e segurou o pedaço de pau como um bastão de baseball. Antes que ele pudesse esboçar um golpe, foi arremessado violentamente contra a parede.
— O que está havendo? — gritou a garota, assustada.
Antes que ele pudesse responder, foi arremessado novamente.
De repente o Noai começou a brilhar; um brilho tão intenso que doía olhar diretamente para ele. Com a luz, Cristiano finalmente pôde ver seu agressor. A coisa media quase 2 metros de altura e tinha formas humanas. Do seu corpo saltavam pedaços do cão Fila, como se um cientista maluco tivesse experimentado uma fusão entre as duas criaturas. O rosto lembrava um pouco o retrato falado da TV, mas não dava para garantir, a luz estava muito forte. A criatura parecia temê la; estava imóvel feito uma estátua.
Cristiano lembrou se de que já tinha visto aquele brilho cinco vezes. Teve uma idéia.
— Fernanda, de quem é o corpo coberto por um lençol azul? — gritou ele.
Ela começou a chorar.
— É filho da puta que te arrastou pra cá, não é? — completou.
— Sim, é ele — disse ela, num tom de raiva. — Mas como você sabe disso?
— Creio que da mesma maneira que você já sabia o meu nome. Faça o seguinte, arraste o até a porta. Pode fazer isso pra mim?
— Por quê?
— Vamos mandá lo para o lugar que ele merece.
A criatura gritou alto, mas continuou no mesmo lugar, parecia presa ao chão. Cristiano segurou o Noai, fechou os olhos e esperou que ele fizesse o resto. Segundos depois seus lábios começaram a se mexer, involuntariamente, dizendo:
“Em nome do Senhor Jesus Cristo, eu renuncio, quebro e me desligo de qualquer mal que tenha causado à minha mãe, pai ou quaisquer outros seres humanos, vivos ou mortos, que, no passado ou agora, de alguma forma me controlaram ou dominaram de maneira contrária à vontade de Deus Todo Misericordioso.
Agradeço ao Senhor por me terdes libertado. Também peço perdão e me arrependo se a alguém eu dominei ou controlei de forma errada.
Amém.”
Silêncio. A criatura deu um último grito.
Neste instante um buraco de aproximadamente 2 metros de diâmetro rasgou o chão e a coisa fantasmagórica foi sugada para dentro dele. Em seguida o buraco fechou se. À medida que a luz do Noai foi diminuindo sua intensidade, Cristiano foi ficando mais fraco, como se ambos fossem uma coisa só. Por fim ele foi ao chão, desmaiado.
Minutos depois, Fernanda o acorda.
— Você está bem? — disse ela, ajoelhando se ao lado dele.
A luz que irradiava do Noai era mais fraca, mas foi o suficiente para ele enxergar a garota ao lado dele.
— Como você conseguiu sair?
— O Padre — respondeu ela, olhando para os lados. — Onde ele está?
— Padre?
— Sim, ele abriu a porta, mas não pergunte como.
— Mas que Padre?
— Ele não estava com você?
— Não.
Mais um mistério para Cristiano, mas ele já estava se acostumando. O importante é que eles conseguiram escapar daquele lugar pavoroso.
A história da fuga foi destaque em jornais de todo o país.
Fernanda conseguira seus momentos de fama, ao contar em detalhes como conseguira escapar da morte. Ela e a amiga haviam sido sequestradas pelo Estuprador de Resende quando saíam de um show em Paraty. O homem as levou para a chácara, cujos donos haviam sido assassinados por ele, meses atrás. A amiga tivera menos sorte e morrera na primeira noite de carceragem. Quando chegara a sua vez, ela conseguiu acertar o assassino com um golpe na boca do estômago. Ao cair no chão ela roubou sua faca e o esfaqueou até a morte. Coisas que somente o instinto de sobrevivência é capaz de fazer. O homem a trancava com um cadeado de segurança com segredo, portanto quando ele morreu, o segredo do cadeado se fora com ele. Implorou para que o assassino revelasse o segredo do cadeado, mas este preferiu a morte. Segundo seus relatos, ele morrera sorrindo.
Cristiano tornou se um herói da noite para o dia. Tornou se a mais nova celebridade do Vale do Paraíba e região. Muitas partes da história foram omitidas e outras substituídas, mas o que realmente interessava era o final feliz. Talvez o único trecho sobrenatural publicado nos jornais foi o aquele em que Fernanda afirmou ter visto uma frase escrita na parede do seu cárcere: FICA CALMA. CRISTIANO VIRÁ TE AJUDAR.
Três semanas após o episódio ...
Cristiano foi informado de que havia um homem procurando por ele na portaria do edifício. O homem, um senhor de quase 70 anos, identificou se como Paolo Franchinni, pai de Sebastian Franchinni.
Pediu para que porteiro o deixasse subir, apesar de não ter a menor idéia do que ele queria. Pelo menos não era mais um repórter; já estava farto deles.
— Em que posso ajudá lo? — disse Cristiano, convidando o velho a entrar.
— Antes eu gostaria de parabenizá lo por ter salvo a vida daquela garota. O mundo precisa de mais pessoas como você.
— Obrigado. Mas qualquer um teria feito o mesmo.
— Qualquer um? Não, você está longe de ser qualquer um, garoto.
E o velho sorriu para ele. Cristiano pediu para que o velho entrasse e se sentasse no sofá.
— Perdão, mas ... como o senhor me encontrou?
— Sua foto saiu em todos jornais. E eu nunca me esqueço de um rosto; lembro de você no velório do meu filho.
— Falando nisso, sinto muito pela sua perda.
— Sebastian era um filho extraordinário. Fiquei muito feliz por você tê lo ajudado. Jamais imaginei que fosse conhecer pessoalmente um Protetor.
— Protetor?
— Eu sei que o Noai está com você. Todos que o possuíam eram chamados de Protetores.
— Como o senhor sabe de tudo isso? Pesquisei em bibliotecas e naveguei horas pela Internet e não encontrei uma linha a respeito. Nada!
— É algo meio fechado. A história foi passando de pai para filho, apenas.
O velho ficou visivelmente emocionado.
— Você conversou bastante com Sebastian?
— Um pouco. No começo eu custei para acreditar na história dele. Imagine a minha reação ao saber que estava conversando com um ... fantasma.
— Meu Deus, então ele foi o seu primeiro? Imagino o susto que você levou.
— Cheguei a pensar que fosse uma brincadeira de mau gosto.
O velho sorriu.
— Aceita uma xícara de café?
— Sim, obrigado.
Cristiano estava empolgado com a visita. Sentiu que finalmente teria respostas para perguntas que lhe atormentavam o sono.
— Entendi que o senhor me reconheceu através dos jornais, mas como o senhor soube do Noai? Não falei nada sobre ele nas minhas entrevistas.
— Como eu lhe disse, vi você no velório. Eu conhecia todos os amigos do meu filho, e você não era um deles. Estava com uma cara tão assustada; fiquei de olho em você.
— Lembro me vagamente do senhor, mas não percebi que me observava com tanta atenção.
— E quando você tirou o Noai do bolso eu quase tive um ataque cardíaco. Precisei respirar um ar puro lá no quintal, ou minha família seria obrigada a velar mais um. Quando voltei você já havia desaparecido. Imagine a minha frustração.
— Se eu soubesse, teria procurado o senhor aquele dia. Eu estava tão assustado, tão confuso. Uma conversa teria sido tão útil.
Paolo tomou um último gole de café.
— Mais um pouco? — ofereceu Cristiano.
— Não, muito obrigado. Na minha idade não podemos abusar muito.
Riram um pouco. Paolo tinha exatos 67 anos, mas aparentava bem menos.
— Tenho tantas perguntas — disse Cristiano, ansioso. Tomara 4 xícaras de café enquanto o velho tomara apenas uma.
— Se eu souber as respostas, terei o maior prazer em ajudá lo. Mais que um prazer, será uma honra poder ajudar um Protetor. Jamais imaginei que fosse conhecer um pessoalmente.
— Vou começar com a pergunta que mais me atormentou nestes últimos meses: de onde veio aquilo?
— Poxa, justo esta? — o velho coçou a cabeça. — Dizem que foi encontrado num lago por uma criança. O nome do lago era Noai; o nome da criança era Ernesto di Aquino. Este nasceu na cidade de Roma, Itália, em 1877. Aos 5 anos de idade veio para o Brasil com os pais e a irmã. A concha, sua companheira inseparável, veio com ele. Ernesto passou sua infância e adolescência em São Paulo. Foi ordenado padre aos 23 anos de idade.
Cristiano arregalou os olhos.
— Padre?
— Sim. Padre Ernesto di Aquino. Somente alguns Protetores podiam vê lo — completou o velho. — Quero dizer, o espírito dele.
— Eu ainda não o vi. Mas a Fernanda parece ter visto.
— Sério? É algo bem raro.
— Falando em raridade, por que somente alguns espíritos conseguem se comunicar através do Noai?
— Então, o motivo ainda é um mistério, mas desconfiam de uma teoria: Padre Ernesto era muito requisitado para dar extrema unção; e o Noai estava sempre com ele. Somente os descendentes daqueles que receberam sua extrema unção conseguem um contato.
— Reparei que todos os espíritos que me chamaram tinham sobrenomes italianos.
— Sim, Padre Ernesto atuava bastante na comunidade italiana em São Paulo.
— Eu também vi os fantasmas das vítimas de um dos espíritos do Noai. Isso é comum?
— Aquela concha deve ser uma espécie de para raio do além, sei lá. Há histórias de Protetores que viam muitas coisas bizarras.
— Falando nisso, de onde surgiu este termo Protetor?
— Quando o padre morreu, aos 84 anos de idade, ele confiou o Noai ao seu sobrinho Nicholas, de 15 anos. Dizem que suas últimas palavras para o garoto foram: “Protejam um ao outro”.
Silêncio por alguns instantes. Cristiano estava muito feliz por receber aquelas informações. Chegou a pensar que enlouqueceria tentando encontrar aquelas respostas, sozinho.
— Posso vê lo? — disse Paolo. Seus olhos brilhavam e seu rosto parecia até mais jovem.
— Claro que sim.
Ele correu até o quarto e o retirou do baú. Olhou para o objeto de forma diferente; sentiu mais respeito por ele. Não recebia um novo chamado há um bom tempo. Mas sentia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.
O velho derramou algumas lágrimas ao segurá lo. Suas mãos tremiam.
— Sebastian deixou algum recado? — perguntou ele.
— Não. Mas ele amava muito vocês.
— Minha neta ainda fala como se ele estivesse vivo. Ás vezes até me esqueço que ele já se foi.
— Tive contato com 6 espíritos até este momento. Sebastian parecia ser o único verdadeiramente em paz.
— Obrigado por me contar isso. Não imagina o bem que isso me fez.
Silêncio. De repente o velho levantou se do sofá.
— Já tomei muito do seu tempo, garoto. Agora eu preciso ir. Minha sobrinha deve estar assando dentro do carro.
— Se o senhor não se incomodar, gostaria de manter contato.
— Claro, será um prazer, meu amigo. Afinal de contas um herói sempre precisa de um parceiro, não?
— Com certeza. Mas nada de Batman e Robin, OK?
Os dois riram e abraçaram se. Trocaram telefones e o velho se foi. Ao fechar a porta, Cristiano sentiu suas mãos esquentarem subitamente e uma voz misteriosa chamar o seu nome.
FIM
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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