João Tamoio
Publicado em
Sinopse
Um pesadelo leva Marcelo a revelar à esposa uma tragédia da infância sobre a qual nunca conseguira falar. Ao recordar a irmã e os amigos, ele retorna a acontecimentos que deixaram marcas profundas e a um nome que ainda o assombra: João Tamoio.
Capítulo único · João Tamoio
As crianças brincavam na sala; estavam tão entretidas que nem perceberam a presença dos pais.
— Mamãe acha que a Paula leva jeito para engenheira — cochichou Clara no ouvido do marido.
— Engenheira? — indagou Marcelo, franzindo a testa. — Será? Acho que não.
Arquiteta, talvez.
— E por que não? Nós mulheres somos ótimas em fazer projetos, sabia?
— Nisso eu concordo. Aqueles dois ali são a prova disso.
Clara deu um beliscão no braço de Marcelo. Depois riram feito crianças.
Paula, de 7 anos, finalmente se deu conta da presença dos pais. Ela olhou por cima do ombro e sorriu para eles. Erick, o caçula, continuou entretido com o seu caminhão.
— Está tarde, você não acha? — disse Marcelo para a filha.
— Não, papai, ainda é bem cedo — respondeu a menina, concentrada em sua boneca.
— E como a senhorita sabe disso? — disse Clara, aproximando se da filha.
— Marianita me contou — respondeu a menina, apontando para outra boneca. — A Marianita é a única que não mente.
O menino largou o caminhão, olhou para a irmã e disse bem sério:
— Bonecas não falam.
— Não na minha época — disse Clara, rindo. — Mas hoje em dia ...
— Eu não sei se a sua boneca mente ou não, mocinha — disse Marcelo. — Mas está tarde e vocês precisam dormir.
As crianças reclamaram bastante, mas no final obedeceram. Clara as acompanhou até seus quartos. Marcelo ligou a TV e deitou se no sofá, onde adormeceu logo em seguida.
Acordou todo suado, com os olhares espantados de Clara sobre ele.
— O que foi? — perguntou ela, vindo em sua direção.
Marcelo tirou o suor da testa e sentou se no sofá. Estava pálido e tremia bastante.
— Acabei de ter o pesadelo mais real da minha vida.
Clara sentou se ao lado dele, segurando suas mãos com força.
— Quem é Amanda? — perguntou ela, com uma voz desconfiada.
— Como você ... ?
— Você repetiu este nome várias vezes antes de acordar. Ouvi direitinho!
Marcelo sentiu a tensão no ar. Clara começou a apertar suas mãos com força.
— Amanda era o nome da minha irmã — disse ele, enfim.
Clara soltou a mão do marido e olhou ainda mais desconfiada para ele.
— Irmã? Mas você não tem irmã. Marcelo, quem é esta Amanda? É alguma sirigaita que você conheceu no trabalho?
— Minha única irmã e eu a deixei partir! Sinto tanta falta dela, Clara.
Marcelo começou a chorar. Seu corpo todo tremia muito.
Clara ficou muito confusa, mas deu uma trégua com as acusações. Correu para a cozinha e preparou um copo de água com açúcar para o marido.
Marcelo tomou tudo num gole só.
— O que você está me dizendo é verdade? — perguntou Clara, num tom de voz mais brando.
— Sim, querida. Eu tive uma irmã.
— Teve? Mas onde ela está agora?
— Ela está morta — Marcelo desabou em prantos outra vez. — E foi tudo minha culpa!
— Calma, meu amor. Mas por que você nunca me contou isso? Quero dizer, ninguém da sua família jamais me disse uma só palavra a respeito.
— Desde que ela se foi, nunca mais tocamos no assunto. É doloroso demais.
— Mas como ela morreu? Quantos anos ela tinha?
Marcelo tentou mais um gole da água com açúcar, mas tudo o que restava no copo era um punhado de açúcar.
— Ela ... ela ... ela ia fazer 14 anos no dia seguinte.
— Meu Deus! Que tristeza, Marcelo.
Clara segurou a mão do marido novamente, mas de uma forma mais carinhosa desta vez.
— Sim, foi triste demais. Horrível demais. Você não faz idéia.
— Mas como foi que ela morreu? Tão jovem!
— Clara, querida, eu prefiro não tocar neste assun ...
— Estamos casados há oito anos e você ainda não confia em mim?
— Não se trata disso; acredite em mim.
Clara soltou a mão do marido e o encarou nos olhos. Marcelo ficou assustado.
— O que foi? — perguntou ele, com a voz trêmula.
— Não foi você que ... ?
— Jesus Cristo! — Marcelo ficou de pé. — Você quer saber se eu a matei?
— Você me forçou a fazer esta pergunta.
Marcelo sentou se novamente, depois disse:
— Será que você não percebe o quanto este assunto é delicado para mim? Acabei de ver minha irmã morrer outra vez! O pesadelo foi tão real que meus ossos estão congelados até agora. Acabei de reviver a pior noite da minha vida. Se você soubesse metade do que aconteceu, jamais me cobraria isso.
— Tudo bem então. Não quer me contar, não conte. Mas saiba que estou muito decepcionada, pensei que nosso casamento fosse baseado na confiança e ...
Clara levantou se e Marcelo a segurou pelo braço.
— Tudo bem — disse ele. — Não vá. Você tem razão, eu não deveria ter escondido isso de você.
— Não precisa fazer isso se não quiser.
Clara sentou se novamente ao lado do marido e beijou lhe a testa.
— Acho que será bom desabafar. Já são dezoito anos que tenho esta história encravada no meu peito. Mas, Clara, preciso lhe dizer que não é uma história muito fácil de se ouvir.
Antes de começar a contar sua história, Marcelo pediu mais um copo de água. Desta vez sem açúcar. Sua garganta estava seca demais.
Clara estava muito surpresa com tudo aquilo, afinal de contas jamais suspeitara de que seu marido, com quem estava casada há oito anos, pudesse ter escondido algo tão importante do seu passado. Ela sentia um misto de curiosidade e decepção.
Por fim Marcelo respirou fundo, estalou os dedos (uma mania que cultiva desde sua infância), olhou nos olhos curiosos de sua esposa ... e começou a história:
Éramos irmãos gêmeos. E não éramos só parecidos fisicamente, mas também no modo de pensar e agir. Amanda era basicamente um moleque de saia. Ela jogava futebol, empinava pipa e até batia nos meus amigos. Nunca vi uma garota tão forte e valentona como ela.
Estudávamos no mesmo colégio, estávamos na mesma classe e freqüentávamos a mesma rodinha de amigos. Resumindo: estávamos sempre juntos.
Certo dia um dos nossos professores faltou e ficamos com 50 minutos ociosos. Aquela manhã foi o princípio do fim. Foi ali que tudo começou.
Éramos um grupo de sete amigos. Tínhamos praticamente a mesma idade; entre 11 e 12 anos. Além da minha irmã e eu, faziam parte do grupo: Charles, Junior, Regiane, Nara e Mônica. Acho que a Mônica era um pouco mais velha do que os demais integrantes da turma, mas não mais do que um ano apenas.
Nós sempre ficávamos num canto isolado do colégio, atrás da biblioteca. O lugar era calmo e nenhum funcionário passava por lá. Praticamente adotamos aquele pedaço do colégio para nós. Chamávamos de “Nosso Esconderijo”. Havia uma mesa velha e exatos sete banquinhos de madeira.
Nós, os garotos, queríamos jogar cartas naquela manhã. As garotas não. Começamos a discutir. Depois de cinco minutos eu notei a ausência de Mônica, mas no calor da discussão eu acabei não comentando com ninguém. Perdemos quase dez minutos brigando sobre o que deveríamos fazer nos próximos quarenta. Até que a Mônica reapareceu, segurando um compasso na mão direita e um pedaço de papel na mão esquerda.
Quando ela soltou os objetos sobre a mesa, alguns não entenderam e ficaram olhando para Mônica, esperando uma explicação.
Mas eu sabia do que se tratava, e confesso que fiquei excitado com a idéia.
— Você já fez isso alguma vez? — perguntei para Mônica, empolgado.
— Uma vez, na casa da minha tia.
— E funciona mesmo?
— Sim, é claro. Pena que a minha tia era muito medrosa e ...
— Do que vocês estão falando? — perguntou Nara, a mais desligada do grupo.
— Eu acho que entendi — disse a minha irmã. — É aquela brincadeira de conversar com os espíritos, certo?
— Errou e acertou — disse a Mônica, bem séria. — Isso aqui não é brincadeira. Mas o objetivo é entrar em contato com os espíritos sim. Nisso você acertou.
Senti que todos ficaram um pouco assustados quando Mônica disse aquilo. A que ficou mais impressionada foi a Regiane.
— Vocês não vão fazer isso, vão? — disse Regiane.
— Vou — respondeu Mônica. — Com ou sem vocês.
— Alguém aqui acredita nestas coisas? — perguntou Junior.
Mônica, Charles, Amanda e eu respondemos que sim. Nara e Regiane mexeram as cabeças negativamente.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
— Se vocês fizerem isso eu volto para a sala de aula — disse Regiane, um pouco mais exaltada.
Mônica tirou um dos seus anéis e colocou o sobre a mesa. Só neste momento eu percebi que ela não estava brincando. Até então eu tinha minhas dúvidas.
Peguei a folha de papel que Mônica havia trazido e vi que já estava tudo preparado. Havia um círculo com todas as letras do alfabeto escritas ao seu redor. Além das letras, havia números de zero a nove e um SIM e um NÃO.
Quando devolvi a folha à mesa, confesso que uma parte da minha empolgação deu lugar ao medo. Eu queria fazer aquilo, mas sentia um pouco de medo também.
— Vocês não estão falando sério — disse Nara.
— Eu estou — disse Mônica, abrindo o compasso. — Se vocês não quiserem participar, por mim tudo bem. Voltem para a sala de aula.
Mas ninguém se moveu. Regiane foi a única que esboçou uma reação, mas ficou. Cada um pegou seu banquinho e sentou ao redor da mesa. Mônica fincou o compasso no centro do círculo e colocou seu anel na outra ponta do compasso.
— Se alguém estiver com medo e quiser sair ... — disse Mônica, olhando para cada um de nós.
Até aquela manhã, eu não sabia que a Mônica se interessava por espiritismo. Eu sabia que ela era uma garota diferente, tinha um jeito próprio de se vestir e de falar com as outras crianças, mas ... Aposto que foi uma surpresa não só para mim, mas para todos nós.
Alguns estavam apavorados, mas ninguém desistiu. Quando se está em grupo, tudo fica um pouco mais fácil.
— Podemos começar? — prosseguiu Mônica.
— Anda logo com isso! — resmungou Charles.
Mônica olhou feio para ele. A tensão estava enorme.
— Você tem certeza de que não é perigoso? — perguntou minha irmã para Mônica.
— Fique tranqüila, Amanda.
Mônica respirou fundo, fechou os olhos, deixou sua mão bem leve sobre o compasso e disse:
— Se houver algum espírito entre nós, manifeste se agora.
Meu coração quase saltou para fora. Aposto que todos se sentiram assim naquele momento. Ninguém piscava os olhos. Estávamos todos vidrados no compasso.
Mas nada aconteceu.
Junior e Charles caíram na gargalhada. Mônica ficou irritadíssima com os dois.
— Veja! — gritou minha irmã, apontando para o compasso. — Ele está se mexendo! E realmente estava. Eu não conseguia acreditar naquilo, mas o compasso estava realmente de mexendo. No começou eu pensei que fosse algum truque da Mônica, mas não era. O compasso moveu se e deixou o anel exatamente sobre o SIM.
Todo mundo ficou em silêncio. Junior e Charles ficaram olhando para Mônica com olhares desconfiados, mas não disseram uma só palavra.
Mônica deu um sorriso para nós e disse:
— Temos um convidado, pessoal. Gostariam de saber o nome dele ou dela?
Regiane estava branca feito um copo de leite. Nara tremia dos pés à cabeça. Os demais estavam quietos, mas não demonstravam medo, apenas curiosidade.
— Claro que sim! — disse minha irmã, empolgada.
E Mônica perguntou qual era o nome do nosso visitante do além.
Movendo o compasso para lá e para cá, as letras formaram o nome ELEONORA. Pouco a pouco o meu medo foi sendo superado por uma incrível sensação de encantamento. Estávamos todos abismados com aquilo. Parecíamos uma platéia de circo, assistindo a uma apresentação do melhor mágico da face da Terra.
Depois do nome, perguntamos a idade de Eleonora. Movendo o compasso ela respondeu 15 anos. Junior perguntou qual a cor dos cabelos. Junior era apaixonado por loiras. Para a decepção do garoto, Eleonora era ruiva.
Após um longo interrogatório, descobrimos que Eleonora já fazia parte da nossa turma há muito tempo. Charles ficou todo vermelho quando soube que Eleonora considerava o o menino mais bonito do colégio. Aquilo não me deixou com enciumado, afinal de contas não dava para namorar uma fantasma, não é?
A pergunta mais curiosa veio da Regiane, que no final da conversa já estava bem mais calma. Regiane perguntou se Eleonora sabia quem havia escondido sua tiara amarela, que ela gostava tanto. Eleonora moveu o compasso e respondeu que SIM. Regiane perguntou quem era e Eleonora moveu o compasso, formando o apelido EDU.
— Eu sabia que o Eduardo estava por trás disso! — resmungou Regiane, cerrando os dentes. — Aquele garoto mimado vai se ver comigo!
Mônica fez outra pergunta para o espírito:
— Eleonora, você sabe onde o Edu escondeu a tiara da Rê?
O compasso moveu se e a resposta foi ATRAS ARMARIO PROFESSOR.
Regiane saiu correndo para a sala de aula.
— Será que a Eleonora vai acertar? — perguntou Nara.
— Você ainda tem dúvidas? — respondeu Mônica.
Minutos depois Regiane voltou. Sobre sua cabeça estava a tiara amarela. Confesso uma coisa, foi de arrepiar. Ficamos todos boquiabertos.
Logo em seguida o sinal tocou e tivemos que voltar para a sala de aula. É claro que ficamos muito decepcionados. Tínhamos tantas coisas para perguntar para Eleonora.
Estávamos animadíssimos com aquela experiência incrível e inédita.
Quero dizer inédita para quase todos, não é? Mônica já havia feito antes. Quando voltávamos para a sala de aula, fui até ela e lhe fiz a seguinte pergunta:
— Você já veio preparada para o colégio, não foi?
— Como assim, preparada?
— Preparada para a brincadeira do compasso. Parece até que você já sabia que a professora ia faltar justo hoje.
Mônica deu uma disfarçada e depois me lançou um sorriso maroto. Após entrarmos na sala de aula e nos ajeitarmos em nossas carteiras, ela finalmente respondeu a minha pergunta:
— Sim, eu já sabia que a professora Suzana não viria hoje.
— E quem te contou?
Mônica balançou o compasso.
Fora do colégio, ninguém se atreveu a fazer a brincadeira do compasso sozinho.
Combinamos que só faríamos aquilo juntos, e de preferência bem longe das vistas de nossos pais. Resumo da história: combinamos que só faríamos no Nosso Esconderijo.
No dia seguinte, a mesma professora faltou. Correu um boato de que ela estava desaparecida. Mas até aquele momento era apenas um boato.
Ficamos outros 50 minutos para fora da sala de aula. Achamos maravilhoso. Era mais uma chance para conversarmos com a nossa nova amiga Eleonora.
Desta vez havíamos preparado uma lista de perguntas. Todos estávamos curiosos para saber como ela falecera. Eleonora era tão jovem! O que poderia ter lhe acontecido?
Fomos direto para o Nosso Esconderijo. Cada um se ajeitou em volta da mesa e começamos o ritual. Novamente foi Mônica quem ficou responsável por segurar o compasso.
Silêncio absoluto. Mônica diz:
— Se houver algum espírito entre nós, manifeste se agora.
A resposta demorou um pouco mais desta vez, mas o compasso moveu se na direção do SIM.
Todos nós abrimos um largo sorriso. Regiane usava sua tiara amarela, toda contente.
— Eleonora, é você? — perguntou Mônica.
O compasso moveu se para o NÃO. Ficamos apreensivos. Notei que Mônica ficou na dúvida se deveria prosseguir ou não. Mas ela foi em frente, perguntando:
— Quem é você?
O compasso moveu se muito rápido, formando o nome TAMOIO. Quando o compasso parou, todos nós ficamos muito assustados. Pela primeira vez, notei que Mônica também estava nervosa. Sua mão tremia ao segurar o compasso.
— Pergunta se ele conhece a Eleonora — cochichou Regiane no ouvido de Mônica. Mônica fez sinal para que Regiane ficasse quieta. Depois ela fez a pergunta:
— Tamoio, você conhece a Eleonora?
O compasso moveu se rapidamente outra vez, caindo sobre o SIM.
— Poderia chamar a Eleonora para nós? — disse Regiane, com uma voz trêmula. O compasso moveu se para o NÃO. A mão da Mônica tremia cada vez mais.
— E por que não? — perguntou Charles.
Mônica quase o devorou com os olhos. Se ela não estivesse segurando o compasso, teria saltado no pescoço de Charles.
E não foi só a Mônica que ficou irritada, o espírito também. A mesa tremeu por alguns instantes. Ficamos apavorados. Mas ninguém deixou o lugar. Acho que estávamos tão paralisados de medo que não tivemos como fugir. Ninguém soube o que dizer e o que fazer. Eu só pensava numa coisa: a mesa tremeu de verdade! Se isso foi possível, o espírito poderia fazer alguma coisa conosco também? Aquilo me deixou muito preocupado.
De repente minha irmã decidiu fazer mais uma pergunta:
— Você é do bem?
Mônica ajeitou o compasso e o anel sobre o círculo e todos aguardamos a resposta, mais ansiosos do que nunca. Ninguém respirava. O silêncio foi incrível. Nunca tinha presenciado um silêncio tão completo como aquele.
E o compasso mexeu. A resposta foi ... NÃO.
Imediatamente a Mônica soltou o compasso. Segundos depois, a mesa tombou de lado, jogando tudo no chão. Desta vez todos nós corremos para bem longe daquele lugar. Corremos como nunca havíamos corrido em nossas vidas.
Depois deste incidente, foi difícil criar coragem para voltar ao Nosso Esconderijo.
Sempre que eu me aproximava dele, sentia meu coração bater muito mais rápido. Parecia que ia explodir. Todos os outros membros da turma relataram as mesmas reações.
E para piorar, mais tarde viemos a descobrir quem era o espírito que nos visitou naquela manhã. Tamoio era na verdade João Tamoio, um ex vigia do colégio. Dez anos atrás, João Tamoio fora acusado de violentar e assassinar sete alunas do colégio.
Condenado, assassinou seu advogado e depois cometeu suicídio.
Aí sim o Nosso Esconderijo foi extinto de vez. Jamais chegamos perto daquele lugar. Outra coisa, nossa professora Suzana jamais foi encontrada.
Agora vem a parte mais complicada e difícil de ser contada. Desde já, confesso que omitirei algumas passagens da história. Algumas por serem bizarras demais, outras por eu ter apagado da minha memória.
Espero que você entenda, Clara.
Era véspera dos nossos aniversários. Meus pais haviam saído para comprar nossos presentes. Era tradição em casa; nunca ganhávamos aquilo que pedíamos. Meus pais saíam na véspera e compravam o que achavam melhor. E na maioria das vezes eles até acertavam.
Mas não ficamos sozinhos em casa naquela noite. Convidamos Mônica, Nara e Charles. Teríamos convidado Regiane e Junior também, mas eles haviam se mudado para bem longe.
Morávamos num sobrado em Lins, São Paulo. O lugar não era muito grande, mas era aconchegante e nós adorávamos morar lá. O quintal era apertado, mas nós sempre inventávamos uma brincadeira para aproveitá lo ao máximo.
Porém aquela noite estava fria demais para brincarmos do lado de fora do sobrado. Ficamos no andar de cima, assistindo televisão.
De repente eu tive a idéia mais estúpida da minha vida. Isso ainda me corrói a alma até hoje. Sinto uma vergonha e um arrependimento enormes. Aposto que se você e nossos filhos não fizessem parte da minha vida hoje, eu já teria feito uma bobagem.
Corri para o meu quarto e peguei um compasso.
Quando viram aquele objeto na minha mão, os outros ficaram um pouco assustados. Mas consegui convencê los de que não haveria problemas, e que se acontecesse alguma coisa estranha nós desistiríamos imediatamente.
Nara foi a única que continuou preocupada. Ela quis ir embora, mas como morava muito longe e seus pais haviam viajado, não teve outra alternativa.
Mônica desenhou o círculo e escreveu letra por letra, número por número, e finalizou com o SIM e o NÃO.
Para dar um clima, apagamos todas as luzes da casa e deixamos somente o abajur da sala aceso. Abrimos um espaço no meio da sala e nos sentamos em volta de uma mesinha. A mesa era baixa, então ficamos sentados no chão mesmo.
Estava tudo preparado.
Novamente, Mônica ficou encarregada de segurar o compasso. E foi ela também que começou:
— Se houver algum espírito entre nós, manifeste se agora.
Nada aconteceu.
— Ah, que pena! — disse minha irmã, decepcionada.
— Tenta outra vez — disse Charles.
— Vou tentar — disse Mônica, fechando os olhos e concentrando se. — Se houver algum espírito entre nós, manifeste se agora.
E o compasso moveu se para o SIM. Meu coração acelerou.
— Você é um espírito do bem? — disse minha irmã.
O compasso fez alguns movimentos e depois voltou para o SIM.
Nossa, ficamos muito aliviados com aquela resposta. Por um segundo, cheguei até a acreditar que poderíamos ter reencontrado nossa velha amiga Eleonora.
Mas não era ela.
Mônica perguntou:
— Qual o seu nome?
O compasso moveu se seis vezes e formou o nome OIOMAT. Imediatamente Mônica soltou o compasso.
— O que foi? — perguntou Nara, assustada.
— Não perceberam? — disse Mônica, tremendo muito. — Oiomat é Tamoio ao contrário!
Ficamos imóveis.
— Ele está aqui? — disse Charles, olhando para os lados, como se pudesse ver João Tamoio.
Procurei imediatamente pelo interruptor da sala. Mas por incrível que possa parecer, eu não o encontrava. Eu não conseguia me lembrar onde ficava o interruptor!
— Acende a luz, por favor! — repetia Nara, desesperada. — Eu quero ir embora daqui!
E as coisas ficaram ainda piores quando a luz do abajur apagou se. Todos gritamos desesperados. Eu nunca sentira tanto medo em toda a minha vida.
— Vamos ficar juntos! — disse eu, tentando localizar os outros.
— Onde vocês estão? — perguntou Charles.
— Não me deixem aqui sozinha! — gritava Nara, desesperada.
— Amanda, onde está você? — gritou Mônica.
— Estou procurando vocês! — respondeu minha irmã.
De repente a TV ligou sozinha. Só havia chuviscos. A sala ficou clara o suficiente para nos localizarmos e nos aproximarmos. Amanda me ofereceu sua mão e eu a segurei o mais forte que pude. A pobrezinha tremia tanto!
A TV desligou novamente. Mas quando isso aconteceu já estávamos todos de mãos dadas.
— Vamos ficar juntos! — repeti.
— Temos que sair daqui! — disse Mônica, bem assustada.
— Eu sei disso, mas ...
E a TV ligou outra vez. Os chuviscos permaneciam, mas desta vez tinha algo estranho com a imagem. Se você olhasse atentamente para a tela, dava para perceber um vulto ficando cada vez mais escuro. A forma era bem parecida com a de um homem. Era um rosto masculino.
— Eu não quero ver aquilo — disse Nara, virando o rosto.
Eu não conseguia desviar os olhos da TV. E o que quer que fosse aquilo, estava olhando para mim também. Fiquei paralisado de medo.
De repente a imagem apagou e ficamos no escuro total outra vez. Em questão de segundos, a sala gelou e uma rajada de vento frio veio de encontro aos nossos corpos.
— Fiquem calmos — falei. — Se ficarmos juntos, nada vai nos ...
E ouvimos passos pela sala. Barulho de gente correndo. Vozes. Centenas de vozes, como se uma multidão estivesse passando por nós.
Mas não conseguíamos ver absolutamente nada.
Silêncio, enfim. Um silêncio igual àquele do colégio. E o vento gelado também se foi. A temperatura da sala foi voltando ao normal. Continuava fria, mas não tanto como ficara minutos atrás.
— Estão todos bem? — perguntei.
Não houve resposta. Mas estavam todos ali comigo, pelo menos eu sei que Amanda estava, pois eu segurava forte a sua mão.
Sua mão estava muito gelada, mas seu pulso batia normalmente.
— Respondam! — tentei outra vez. — E você, Amanda, o que houve?
A luz do abajur começou a piscar.
Olhei para a minha irmã e não consegui ver seu rosto. Não havia cabelos, olhos, nariz ... não havia mais um rosto, apenas um vazio inexplicável! Era como se sua face tivesse derretido.
O mesmo acontecera com os outros.
Gritei apavorado.
Amanda soltou se de mim, puxando com força sua mão gelada. Seu rosto sem expressão me encarava. Se é que isso era possível sem olhos.
Mas hoje eu acho que já sei o que houve. Eu acho que eles também me viram da mesma forma que eu os vi, sem rosto. Na hora eu não pensei nisso. Eu estava assustado demais.
De repente eles saíram correndo apavorados em direção ao corredor. Por causa do pisca pisca incessante do abajur, era possível enxergar um pouco. Do corredor chegaram à escada.
Fui atrás deles.
Foi horrível, aquelas criaturas não pareciam mais meus amigos e minha irmã.
Andavam de forma estranha e apavorante, feito animais selvagens feridos.
Quando cheguei ao corredor eles começaram a descer os degraus da escada.
No terceiro degrau eles tropeçaram neles próprios, ou foram empurrados. Não sei o que houve. Tudo o que eu sei é que seus corpos rolaram escada a baixo.
Ainda consigo ouvir os sons de seus ossos quebrando durante a queda. Foi horrível. E não sei o que foi pior: ver seus corpos rolando escada a baixo ou o silêncio fúnebre que veio depois.
Seria apenas um pesadelo?
Mas por que ele insistia em não acabar? Quando eu iria finalmente acordar e descobrir que tudo não passara de um sonho ruim?
Eu acordei sim. Acordei no meio da escada, ensopado com o sangue dos meus amigos e da minha irmã. Acordei com os gritos histéricos da minha mãe, ao encontrar os quatro corpos irreconhecíveis na ponta de baixo da escada. Acordei, mas confesso que eu preferiria não ter acordado.
Minha irmã estava morta. Meus amigos estavam mortos. Todos os móveis e demais objetos da casa foram quebrados. Parecia que um furacão havia passado dentro de casa.
Ao terminar a história, Marcelo precisou de um calmante para dormir.
Clara também.
FIM
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
Que nota este conto merece?
Conclua a leitura para avaliar.
Seja um leitor fiel. Cadastre-se grátis para salvar sua leitura e avaliar.
