Capítulo 1 · Mirabel
E aí, cambada, quanto tempo! Senti saudade de todos vocês, é sério.
Foi bizarro ver os dias passarem sem ter ninguém para seguir os meus passos, meus tropeços e … sim, alguns triunfos. Triunfos? Sim, por que não? Arranjei um emprego e agora moro sozinho! Finalmente deixei a casa dos meus pais e descolei um lugar só meu. Agora posso andar peladão pela casa. Não que eu já tenha feito isso, mas o que importa é que agora eu posso. Ah, o doce sabor da liberdade! Tudo bem, morar sozinho tem as suas dificuldades, como ter que cozinhar e lavar minhas próprias freadas nas cuecas, mas eu acho que vale a pena.
Quem leu “O Segredo de Ubatuba” sabe que eu reencontrei o grande amor da minha vida: Polly. Eu me apaixonei novamente por ela, se é que isso é possível. Chegamos até a viver um romance bem caliente por algum tempo, mas como ela mora no Rio de Janeiro e eu aqui no interiorzão de São Paulo, as coisas não saíram como eu esperava. Namoro à distância não é para mim, não funfa. Mal tenho grana para pagar as minhas contas, quanto mais para bancar passagens de ônibus (o Opalão está encostado já faz um bom tempo. Motor pifando e aquele velho problema do cheiro de gambá) até o Rio, sem contar os créditos que evaporavam do meu celular de forma assustadora. Tive que fazer não sei quantas horas extras para pagar minhas dívidas com a operadora de celular.
Mas Polly é o grande amor da sua vida, Nando! Não vale a pena o sacrifício?
Sendo sincero: não. Nosso reencontro foi maravilhoso, inesquecível, mas o fogo durou pouco. Cinco meses e duas semanas, para ser mais exato. Sim, eu contava os dias para revê-la, mas sabe quando você encontra a pessoa e não sente que ela ficou tão feliz em te ver quanto você ficou? Pois é, se você já passou por isso sabe como é foda. Amar pelos dois ninguém merece. Porra, eu trocava finais de semana com meus colegas de serviço só para poder ir até o Rio de Janeiro me encontrar com ela, e na última vez que eu fui …
“A minha alma tá armada e apontanda para a cara do sossego!”
É o toque do meu celular. Não tenho telefone fixo.
Preciso dizer quem é? Atendo ou não? Tudo bem, só porque vocês estão com saudade dele. Estão sim, eu sei. É como diz aquele comercial de carro: “Ele é fura zóio, mas é meu amigo!”
— Faaaaaaaaaaaaaala, grande Pé … no saco!
— E aí? — putz, que desânimo em sua voz. Parecia aquela hiena dos desenhos.
— Quem morreu?
— Ninguém.
Caraca, nunca vi o Pezão assim tão pra baixo. O que será que houve? Deve ser algum rolo com a Margareth. Sim, esqueci de dizer, eles ainda estão juntos. Tem seus altos e baixos. Mais baixos do que altos, melhor dizendo, mas … eles se gostam.
— Tudo bem com a Margareth?
— Sei lá! — seu tom de voz mudou de desanimado para irritado.
Bingo! Acertei na mosca. Os dois brigaram outra vez.
— O que você aprontou dessa vez, cara?
— A Margareth tem uma amiga, que é amiga de outra mina, que é vizinha da morena da padaria. Aquela. Das fotos.
— Puta merda, a Margareth viu aquelas fotos que você me mandou pelo celular?
— Tá louco? Ela me mata se ver aquelas fotos. Falando nisso, você já fez bastante careta para o azulejo e depois deletou tudo, certo?
— Sim, é claro — na verdade não deletei. Meu, a morena é muito gostosa. Pezão deu uns pegas nela e acabaram num motel. Foi o que fiquei sabendo, eu não estava junto.
— Já deletei tudo do meu, — prosseguiu ele. — ou pelo menos eu acho que deletei. Não manjo nada dessa porra de iPhone. Eu gostava mais do meu celular antigo.
— Porra, dá esse pra mim então!
— Ta ficando pidão igual o Zoinho? Para com isso. Podemos nos concentrar no meu problema? Estou fodido, cara, a Margareth viu uma foto onde eu apareço com metade da minha língua dentro da orelha da morena. Bateram esta foto quando ainda estávamos no bar.
— Mas como ela descobriu a foto?
— No tal do Facebook. Maldita internet dos infernos. Quem foi o filho da mãe que inventou essa porcaria? Será que ele não tinha mais o que fazer?
— Não coloque a culpa na internet. Sem internet não teríamos mulheres peladas 24 horas ao dia, 365 dias ao ano. É uma bênção!
— Tá na seca, filhão?
Pior que estou. Faz dois meses que terminei o namoro com a Polly e não vi nem a cor de uma pixirica até agora. E o pior é que nem internet eu tenho aqui em casa. Nem peitinhos virtuais eu estou vendo ultimamente.
— Não é problema seu — rebati, tentando não soar muito irritado. Se Pezão percebe um ponto fraco seu, tá fodido na mão dele. — E aí, a Margareth terminou com você? Estamos na pista novamente?
— Então … ela está fula da vida comigo. Bateu o telefone na minha cara e descarregou um caminhão de palavrões para cima de mim, eu nem sabia que ela conhecia tantos palavrões assim. Mas também não disse nada a respeito de termos terminado.
— E você acha que precisa de mais alguma coisa? Admita, a morena da padaria foi a gota d’água. O que você faria se visse uma foto da Margareth com a língua dentro da orelha de outro cara?
— Eu matava os dois — silêncio por alguns instantes, por fim ele disse: — Mas foi a única vez que eu a traí. Juro!
— Pezão, pra cima de mim?
— É sério, cara! Foi a primeira e última, eu gosto muito da Margareth.
Disso eu não tenho dúvida, mas Pezão é descabeçado demais. Conseguiu uma garota especial e não dá o menor valor. Ela é bonita, gostosa, inteligente e bem humorada. Faz o tipo de qualquer um. Acho que me esqueci de contar para vocês, ela se mudou para uma cidade do sul de Minas Gerais. Assim como eu, Pezão também estava vivendo um namoro à distância. Disse estava porque eu acho que depois da língua-na-orelha-da-morena o Pezão já rodou.
— Então dá seus pulos e diz isso pra ela, porra! — gritei com ele, até cuspi no celular.
— Estou tentando, sem parar, mas ela não me atende.
Silêncio. Ouvi um soluço? Pezão está chorando?
— Calma, também não precisa chorar.
— Que choro? Não estou chorando, cacete!
Outro soluço. Está sim. Ou pegou uma gripe de repente.
— Seguinte — falei, e olhei para o relógio do celular: 12h25. — Já almoçou?
— Ainda não.
— Pensei que tinha alguém batendo na minha porta, mas aí eu percebi que é o meu estômago roncando. Quer almoçar comigo?
— A sua comida? Miojo com salsicha não é almoço, cara.
Pegou pesado agora. Só porque ele comeu miojo com salsicha uma vez aqui em casa não significa que eu coma isso todos os dias. Bom, de segunda a quinta sim, mas sextas e sábados eu frito uma batatinha (ou carne de hambúrguer) e aos domingos eu tento fazer uma macarronada, que nunca dá certo e acaba virando uma gororoba grudenta que nem o falecido Mamutão teria coragem de comer. Vida de solteiro morando sozinho, gente. Uma vez por semana minha mãe passa aqui para dar uma sondada, mas eu não deixo ela cozinhar nada. Preciso aprender a me virar sozinho. Às vezes ela vem e lava a louça. Eu não falo nada. Lavar louça é mesmo um saco e não tenho muita paciência.
— Eu sei — falei. — Shopping?
— Pode ser. Combinado. Eu passo aí.
— Pezão, só mais uma coisa ...
— Já sei. Eu pago, porra. Não entendo, você parece ter menos grana agora do que tinha quando não trabalhava.
Falando em trabalho, eu estou gostando desse negócio de ser locutor de rádio. Sempre me disseram que eu tinha uma voz legal. Mas eu nunca levei a sério. Comecei fazendo um programa de humor de meia hora, de segunda a sábado. A audiência foi tãããããããããão boa que reduziram para 10 minutos, até que perceberam que eu não levava o menor jeito para comediante e me puseram para tocar música mesmo. No meu horário eu só toco indie e rock, apesar do povo ligar lá e insistir em pedir Jorge e Mateus. Nada contra, mas eu prefiro enfiar o dedo no cu e rasgá-lo a ter que trabalhar ouvindo isso. O problema é quando substituo algum outro locutor, aí eu sou obrigado a tocar qualquer coisa. E parece que tem ouvite que conhece o meu gosto e fica pedindo as piores bostas só para me irritar, é foda. Mas no geral eu estou gostando. Estou até pensando em fazer uma facul de comunicação.
Exatos 20 minutos depois Pezão tocou a minha campainha. Sério, eu tenho a minha própria campainha. Não é o máximo? Minha casinha é modesta. Quero dizer, bemmmm modesta mesmo. Pense numa casa pequena. Agora divida ao meio. Pronto, você já conhece a minha casa. Um muro de tijolos expostos razoavelmente alto (tem que ser, pois o bairro tem gente meio barra-pesada), portãozinho de ferro, uma garagem que só cabe o meu Opalão e mais nada. Nada mesmo, até eu tenho que me espremer todo para passar. A sala é minúscula e no momento só tem um sofá doado por um dos meus tios e uma mesinha de centro. Na verdade toda a mobília da casa é composta por doações dos meus pais dos meus tios, além dos móveis que ficavam no meu antigo quarto, como cama, guarda-roupas, cômoda e uma TV de 32 polegadas. A cozinha também é apertadinha, mas dá para o gasto. A mesinha no canto só dá para duas pessoas. O mais estranho é o banheiro: é maior que o da casa dos meus pais. Não o medi, mas aparentemente é o maior cômodo da casa. Meu pai ficou com inveja. O quintal é grande o suficiente para eu estender minhas peças de roupa no varal. Não preciso mais do que isso. O bairro é meio afastado, mas eu não ligo. Tem ônibus de meia em meia hora para o centro da cidade. Bom, com o salário — ó — que eu ganho lá na rádio foi o melhor negócio que eu consegui.
— Estava se maquiando? — disse Pezão, segurando uma das barras de ferro do portão. — Já tem mais de 5 minutos que estou aqui.
— Eu estava no banheiro.
— Suspeitei desde o princípio — e olhou para o Opala na garagem. — Quando você vai vender esta porcaria?
— Nunca. Tem valor sentimental.
— Que bichona! Vende e compra … uma bike — e o filho da puta riu de orelha a orelha. — Não, melhor! Vou mandar uma cartinha para o Luciano Huck, aí você participa daquele quadro lá … o Lata Velha!
Mostrei aquele dedo para ele.
— E o cheiro de gambá com vômito de cachorro, saiu?
Fiz que não com a cabeça. Destranquei o portão, saí para a calçada e tranquei novamente, dando duas voltas com a chave. Pezão ficou me observando, com aquele sorrisinho filho da puta que só ele sabe fazer.
— Para que trancar? — ele disse. — Quem vai querer sua Lamborghini perfumada?
— Esse bairro tá foda, semana passada fizeram uma limpeza naquela casa ali — e apontei para a melhor casa do bairro. Um sobrado velho, mas mesmo assim não deixava de ser a melhor casa do bairro — Levaram até os periquitos da mulher.
Pezão balançou a cabeça, rindo. Gente rica não entende. Temos pouco, mas o pouco que temos foi conquistado com suor. Quando roubados, ricos como ele simplesmente pegam o cartão de crédito e compram tudo de novo. Fácil assim.
Falando nisso, Pezão trocou de carro outra vez. Agora ele dirige um VW up! azul escuro, lindão. Presentinho de aniversário da mamãe, é claro.
Entramos no carro e a cara do Pezão pareceu murchar em questão de segundos.
— Caralho, que cara é essa? Nem peidei nem nada.
Entendi. Ele estava olhando para um dado de pelúcia pendurado no espelho retrovisor central. Presente de Margareth.
— Ela não quer falar comigo — disse Pezão, quase chorando. — Acho que estraguei tudo dessa vez. Caguei geral.
— Você acha? E por que você deixou baterem aquela foto no bar?
— Eu nem vi quando fizeram. Eu estava mais bêbado que o Batman, o Robin e o Coringa juntos. Para falar a verdade eu nem me lembro de ter comido a morena. Só lembro de ter acordado naquele maldito motel cheio de carrapatos. Estou com coceira até no cu.
Ri histericamente. Pezão ficou putinho.
— Por causa dos carrapatos, porra!
E o filho da mãe pisou fundo no acelerador e saímos fincando. De repente sentimos um baque e o carro deu um ligeiro salto. Ouvi um grito agudo. Atropelamos alguma coisa.
— Era uma vez um … cachorro? — falei. E olhei para trás. Sim. Estava morto.
— Só me faltava essa — seu tom de voz parecia deprimido.
Pezão parou o carro e caiu de testa no volante. Os olhos fechados.
— Calma — falei, e dei dois tapinhas nas costas dele.
— Primeiro minha namorada não quer mais falar comigo, agora eu mato um cachorro?
Caraca, não estou gostando do Pezão-bebê-chorão. Uma coisa é você ser sensível, mas isso já está passando dos limites.
Pensei que não poderia ficar pior, mas ficou. O dono do cachorro era um velhinho ranzinza de barba branca. Uma versão mais irritadinha do Papai Noel. Meu vizinho mais chato. Reclamava de tudo e de todos. Uma vez ele veio me encher o saco porque eu estava ouvindo música alto demais. E o pior é que eu não estava. Velho chato!
Ao ver seu cão esmagado no asfalto o velho ficou furioso, mais do que de costume. Olhou na nossa direção, praguejando algum palavrão que eu não escutei direito, mas terminava com “uta”.
— Fodeu — falei, cutucando o ombro do Pezão. — Você matou o cão-múmia do velho.
Eu o chamava de cão-múmia porque o bicho parecia ter todas as idades do mundo. Era engraçado vê-lo subir as escadas do sobrado do velho. Geralmente parava no meio do caminho para tirar um cochilo, horas depois continuava.
O Papai Noel às avessas bateu com a sua bengala na minha porta. Desci o vidro, dizendo:
— Sentimos muito.
— Você sente muito? É só isso que tem a dizer? Meu melhor amigo acaba de morrer e tudo o que você tem a dizer é que sente muito? Ele — e apontou para o defunto. — sente muito. Eu sinto muito. Vocês, moleques de hoje em dia, com seus carros comprados pelos papaizinhos, não sentem nada! — e ficou um silêncio constrangedor. — E agora, como ficamos? Como ficamos, hein?
— Quanto o senhor quer? — perguntou Pezão, quase num sussurro.
— Ele acaba de me perguntar quanto eu quero? — disse o velho olhando para mim. — É isso mesmo? Eu escutei direito? Meu cachorro era de raça, sabia? Um legítimo Boston Terrier, seu moleque insolente!
O velhote tem um jeitão meio Clint Eastwood do Paraguai.
Pezão suspirou, colocou a mão no bolso da calça e puxou sua carteira, dizendo:
— Quanto custaria um Bostonzinho novinho em folha?
— Em primeiro lugar venha aqui fora para conversarmos olhos nos olhos.
Pezão deu mais um longo suspiro, revirou os olhos, abriu a porta do carro e caminhou a passos lentos até o velho. Resolvi descer também. Queria ver a cena de perto.
O velho ficou alternando olhares para o Pezão e para o cão defunto, até que de repente parou de frente para o Pezão e disse:
— Você acha que pode colocar um preço no meu Ronnie Von?
— Em quem?
— Era o nome dele — e o velho apontou para o defunto novamente. — Ronnie Von! Meu grande amigo, meu único amigo, Ron-Ron para os mais próximos.
Tive que me segurar para não rir feito uma hiena no jardim de infância. Não sei como Pezão não riu daquilo. Permaneceu sério, encarando o velho, depois disse:
— Dou mil reais agora, em dinheiro.
O velho ficou indignado. Pensei que ia dar uma bengalada no saco do Pezão.
— Seu moleque petulante, como ousa pagar o meu sofrimento com o seu dinheiro?
Neste momento vi alguém descendo as escadas da casa do velho. Por um momento pensei que fosse a esposa dele, uma velhinha baixinha e de sorriso fácil, mas não era. Era uma garota de cabelos loiros com algumas luzes rosa-vinho. Não chega a ser tão espalhafatoso quanto aparenta ser, mas com certeza é um cabelo diferente. Baixinha. Tem um rosto lindo, com algumas sardas nas bochechas. Seus olhos azuis são grandes e chamam a atenção de longe. Usa óculos de armação vermelha e noto um piercing delicado no nariz. É gostosa. Caramba, como é gostosa! Está com uma camiseta preta com um casal de Stormtroopers se abraçando, super apertada no corpo, revelando seios grandes e uma barriguinha sarada. Show! O shorts jeans curtinho deixa suas pernas deliciosamente à mostra. E que pernas! Não são grossas, mas estão longe de serem cambitos. Nos pés uma rasteirinha (é assim mesmo que chama?) com detalhes de oncinha. Fiquei de boca aberta. Qualquer um ficaria.
O velho percebeu que eu estava quase babando na minha camiseta, deu com a bengala na minha canela e gritou para mim:
— Pare de comê-la com os olhos, seu moleque pervertido sem-vergonha!
Pezão foi o último a perceber a presença da gostosa, pois estava de costas para a casa do velho. Ele se virou para ela, e é claro que também a comeu com os olhos. Era impossível não fazer isso com um corpão daqueles descendo a escada.
— O que está acontecendo aqui? — disse ela, um pouco antes de passar pelo portão.
O velho apontou para o cachorro morto. A gostosa finalmente percebeu o defunto no meio da rua, mas não pareceu dar muita bola. Apenas voltou os olhos para o velho e disse:
— É o Ronnie Von? — sua voz era rouca. Gostei — Descansou, né?
O velho semicerrou os olhos, indignado, parecia que ia soltar fogo pelas narinas.
— Descansou? Como assim descansou?
— Vovô, convenhamos, ele já estava fazendo hora extra aqui na Terra, né?
Vovô? A gostosa de luzes nos cabelos é neta do velho barbudo? Aí fomos surpreendidos novamente.
— Mas ainda tinha muito para viver — argumentou o velho. E virou-se para nós, apontando com a bengala — Até que estes moleques o assassinaram!
— Foi um acidente, senhor! — resmungou Pezão, após uma encarada rápida nas coxas da garota.
— Viu só, vovô? — disse ela, agora a poucos centímetros de nós. Ela é cheirosa, um cheiro leve e adocicado. De onde saiu esta garota que eu nunca a vi antes? — Foi um acidente. Isso estava para acontecer mais cedo ou mais tarde. A visão dele não era das melhores.
Sorri para ela, depois estendi minha mão para cumprimentá-la — Prazer. Nando. — Ela pegou na minha mão e disse:
— Mirabel.
Pezão a encarou de forma estranha, depois falou:
— Mirabel? Isso não é marca de biscoitos?
— Não — respondeu ela de bate-pronto. — É o nome de uma rainha da Noruega do século passado. Ficou mundialmente famosa como “Mirabel, a Rainha Elegante”.
— Ah, então tá.
Ela riu, e disse:
— Brincadeira, vem das bolachas mesmo.
O mais curioso é que ela respondeu olhando para mim, não para o Pezão. Apesar de toda a sua sensualidade, não há como negar que ela tem um jeitinho meio nerd.
— Sua mãe era apaixonada por estes biscoitos — disse o velho para a neta. Por um instante ele até pareceu uma pessoa gentil e amável. Mas logo voltou para o velho ranzinza e gritou com o Pezão: — E como resolvemos a nossa situação aqui? — disse ele, passando as mãos na barba branca.
— Eu enterro, vô, não se preocupe.
— O quê? Mas isso não tem o menor propósito. Você não vai fazer nada, minha querida.
— Nós enterramos — falei.
— Você enterra então! — disse o Pezão, olhando feio para mim.
O velho lançou um olhar de raio laser para o Pezão.
— E o dinheiro? Você me deve um cachorro novo.
— Vovô — disse a garota num tom apaziguador. — , não foi de propósito — e olhou para o Pezão.
— Lógico que não. Eu nem vi o filho da …
Fingi que tossi. Pezão entendeu o toque e ficou quieto. Por fim tirou um bom número de notas da carteira e ofereceu ao velho.
— Milzinho — disse. — É pegar ou largar.
Quem me dera ter milão assim na carteira. Ou no colchão. Ou no banco.
— Não precisa! — disse Mirabel, puxando carinhosamente o avô pela cintura. — Ronnie Von era velho e morreria a qualquer momento mesmo. Lembra que ele quase morreu ontem com um pedaço de carne, vô?
Num movimento consideravelmente rápido o velho se soltou da neta e puxou as notas do Pezão. Foi até engraçado.
— Meu precioso Ronnie Von valia muito, muito, muito mais que isso, — e balançou as notas no ar. — mas eu aceito. Vai servir para pagar as custas do funeral do meu querido e estimado amigo.
— Vovô! — disse Mirabel, balançando a cabeça, quase rindo. — Ai que vergonha!
De repente ouvimos:
— Meu Santo Expedito! — agora sim era a velha, descendo a escada com o dedo apontado para o cachorro morto. — Aquele é o Ronnie Von?
Todos fizemos que sim com a cabeça, quase em sincronia. Não sei se foi impressão minha, mas parece que a velha deixou escapar um sorrisinho.
— Eu estava ouvindo um falatório lá da sala — disse ela. Eu semper a vejo lavando a calçada, sempre sorrindo e dando bom dia e boa tarde para todos os vizinhos. Parece gente fina. É o oposto do marido carrancudo e brigão.
— Ron-Ron se foi para sempre — disse Mirabel para a avó, que agora estava próxima de nós, depois piscou para ela.
O velho não percebeu a piscadela, e disse:
— Moleques inconsequentes. Poderia ter sido eu. Ou você, minha velha.
— Credo, vô! — resmungou a garota. — Vire esta boca pra lá!
Percebi os olhos da velha em cima de mim.
— Este eu conheço — disse ela. — Você mora aqui na nossa rua.
— Sim, somos vizinhos. Sou o Nando — eu a cumprimentei. — Este é o meu amigo Pezão.
— Olá — disse Pezão mega desanimado.
Agora a velha estava encarando os pés do Pezão.
— Pezão? Nossa, você tem pés muito grandes mesmo — disse ela, depois soltou uma risada gostosa que só velhinhas sabem fazer. Por fim disse: — Sou a Mirtes. Nunca tive apelidos. Eu queria tanto ter um apelido!
A velhinha é adorável. Senti uma enorme vontade de beijar sua testa enrugada. Eu achei que o velho tinha cara de Jonas, mas seu nome verdadeiro é Noriel. A velha o chama de Seu Nori.
— Bom, eu acho que podemos voltar aos nossos afazeres — disse Mirabel, colocando as mãos novamente na cintura do avô.
— E o Ronnie Von? — perguntou o velho, preocupado.
— Eu resolvo, vô.
— Eu te ajudo — falei. Uma gata dessa eu ajudo a fazer qualquer coisa, até a assaltar um banco se ela me pedir.
Pezão mostrou seu iPhone com capinha do Homem de Ferro para mim, apontando para o relógio na tela. Nem consegui enxergar que horas eram.
— Não íamos almoçar no Shopping? — sussurrou ele para mim. Mas como Pezão não consegue fazer nada com delicadeza, até a velha o escutou.
— Tem bastante almoço lá em casa — disse Dona Mirtes para nós dois, toda felizona. — Venham almoçar com a gente!
— O quê? — o velho quase surtou. — Depois de assassinarem o meu melhor amigo, vou alimentá-los com a minha comida? Do meu bolso? Que absurdo isso, minha velha!
— Absurdo coisíssima alguma — e a velha lançou um olhar sinistro para o marido. — Eles são meus convidados. Se estiver incomodado, fique aqui na rua e almoce com o Ronnie Von.
Caraca, a velha é fodaça, depois dessa não teve como recusarmos seu convite. E, na boa, o cheiro que vinha da casa era simplesmente maravilhoso. Seria arroz, feijão e um bifão acebolado com mandioca frita? Oh, yeah! Quanto tempo não como comida de vovó. E de sobremesa um enterrinho básico, mas um enterrinho com uma gata nerd incrivelmente sexy.
A tarde promete.
Capítulo 2 · Uma Dica
Se lá da rua o cheiro da comida já estava maravilhoso, imaginem na cozinha!
A mesa dos velhinhos estava mais farta do que todas as ceias de Natal e Ano Novo que eu já participei em toda a minha vida.
Arroz, feijão, macarronada, bifes acebolados (eu não disse?), frango assado, batatas fritas, mandioca frita, salada com alface, tomate, brócolis e uns outros negócios verdes que eu não sei o nome.
Não sou fã de saladas.
Meus olhos foram atraídos quase que magneticamente pelos bifes no centro da mesa. Faz tanto tempo que eu não como um bom bife que nem me importaria se não tivesse mais nada, mas tinha … e como tinha! Um verdadeiro banquete.
— Fiquem à vontade, meninos — disse Dona Mirtes, entregando um prato para mim e outro para o Pezão.
— Muito obrigado — falei. — Acho que eu nunca vi tanta comida assim. Estão esperando mais alguém para o almoço?
Era tanta comida que eu só pude deduzir que ele estavam esperando a visita dos filhos, netos e bisnetos.
Dona Mirtes abriu um largo sorriso, e respondeu:
— Não, não, só nós mesmo. Normalmente não faço tanta comida assim — ela olhou afetuosamente para a neta. —, mas como estamos com uma visita mais do que especial, o cardápio tinha que ser especial.
— Ah, vovó, a senhora é demais!
— A Bel é nossa neta favorita — disse a velha olhando para mim. — Ela é linda, você não acha?
— Vó! — a garota ficou sem graça.
— Ela é sim — falei. — E muito parecida com a senhora — na verdade só se pareciam no azul dos olhos, mas eu quis fazer um agrado para a velhinha.
— Posso atacar? — disse Pezão, quebrando a rasgação de seda.
— Atacar? — resmungou o velho, enquanto pegava um prato. — É assim que vocês jovens falam hoje em dia à mesa? Mundo perdido mesmo. Se eu dissesse um absurdo desse na frente do meu pai ele me arrancava os olhos e fritava junto com os ovos.
— Para de implicância, Seu Nori! — repreendeu-lhe Dona Mirtes. E olhou para o Pezão, dizendo: — Sirva-se à vontade … Pezão. Não esqueci seu apelido, viu? Ah, mas depois quero saber seu nome, tudo bem?
Pezão fez que sim com a cabeça. Em seguida ele se serviu de arroz e feijão e um punhado de batatas fritas. Seu prato favorito. Antes de se sentar ele disse:
— Meu nome é Maurício, mas até a minha mãe já parou de me chamar assim. Para falar a verdade eu só me lembro do meu nome quando preciso apresentar algum documento.
Todos rimos, exceto o velho, é claro. Do que será que ele ri? Será que assassinamos sua única fonte de alegria? Será que ele só se divertia com o pobre cão-múmia?
Peguei de tudo um pouco, com exceção das coisas verdes que eu não sei o nome. Fiquei com vergonha de perguntar o que eram, então achei melhor simplesmente não comê-los. Os bifes eu peguei quase todos. Estavam estupendamente acebolados e cheirosos. É hoje que eu tiro a barriga da miséria!
A mesa era redonda e bem grande. Estávamos sentados na seguinte disposição, em sentido horário: eu, Pezão, Mirabel, Seu Nori e Dona Mirtes.
Por incrível que pareça, o maior prato foi o da Mirabel, bem ao estilo pedreiro mesmo, eu quase não pude ver seu rosto lindo atrás dele. Bom, é claro que eu exagerei um pouco, mas o prato dela era realmente grande. Fiquei imaginando como uma garota tão gostosa poderia comer um prato daquele tamanho. Aposto que é uma boa genética, pois ela não tem cara de quem frequenta academia.
— Notei que você não tirou os olhos do meu prato — disse Mirabel para mim. Nem tive tempo de me sentir envergonhado e pedir desculpas e ela falou novamente: — Eu como pra caramba. Se tem uma coisa que eu gosto é comer. Agora você entende o porquê de tanta comida.
— E a bichinha não engorda! — disse Dona Mirtes. — Nisso ela puxou o pai.
— Aquele sempre foi teve uma carcaça de grilo — resmungou Seu Nori, mordendo uma coxa de frango.
O velho só balançava a cabeça negativamente para tudo. Estava mega incomodado com a nossa presença. Isso me chateava um pouco no começo, mas depois eu nem me importei mais. Não fomos nós que nos oferecemos para o banquete, né?
Pezão parecia faminto, pois já estava indo para o terceiro prato. Nunca o vi comer tanto.
— Não tem comida na tua casa? — brinquei come ele.
Antes que ele dissesse alguma coisa, Dona Mirtes o defendeu:
— Deixa ele comer! Isso mesmo, Pezão, sinta-se em sua casa.
— Só que não. Na minha casa nunca almoçamos juntos.
— Isso é triste.
Notei que Dona Mirtes e a neta trocavam olhares de vez em quando, e numa dessas trocas de olhares a velha fez um gesto com a cabeça na minha direção. Não entendi muito bem o porquê, mas parecia que a velha estava querendo que a neta falasse algo para mim, ou de mim, sei lá.
Como a mesa ficara silenciosa de repente, resolvi puxar assunto com a netinha favorita de Dona Mirtes, afinal de contas precisaríamos de um certo entrosamento para realizarmos o enterro do Ronnie Von.
— Você mora aqui pelas redondezas, Mirabel?
Ela terminou de mastigar, depois respondeu:
— Moro em Taubaté com o meu pai e minha irmã caçula. Pode me chamar só de Bel.
— OK. Só-de-Bel.
Ela riu.
— Você tem namorada? — perguntou a velha para mim. Fui pego de surpresa. Até engasguei com um pedaço de carne.
A neta olhou torto para a avó. Será que era isso que a velha queria que a Bel perguntasse para mim? Respondi para Dona Mirtes, olhando por cima do ombro.
— Não tenho namorada.
Notei o velho arregalando os olhos para mim, e disse:
— Mentira dele!
— Por que mentira? — falei, franzindo a testa. Comeu cocô, véio?
— E a moça do Rio de Janeiro? — acusou ele. — Uma toda posuda. Eu nunca entendi como uma moça bonita daquela podia namorar um moleque como você.
Meu, como assim? Como ele sabe da Polly? Não entendi nada.
— O senhor conhece a Polly? — falei, começando a soar irritado. Notei que a Bel estava com os olhos fixos em mim, então eu completei: — Ela é minha ex-namorada. — olhei na direção do velho outra vez: — E como sabe que ela mora no Rio?
— Pela placa do carro. Ela insistia em deixá-lo estacionado bem na frente da minha garagem.
— Mas o senhor não tem carro mesmo — falei, agora bem irritado.
— E daí? Eu poderia ter. Por que ela não guardava na sua garagem?
— Talvez porque o meu carro esteja lá e não caiba mais nada além dele.
— Mas isso não era problema meu, não é?
Dona Mirtes puxou a orelha do velho. Eu não teria acreditado se não tivesse visto com os meus próprios olhos. Foi hilário! Pezão estava tão concentrado no seu iPhone que nem viu nada. Perdeu.
— Que vergonha! — disse Dona Mirtes, ainda segurando a orelha do marido. — Bisbilhotando a vida dos vizinhos, Seu Nori! E que história foi aquela de chamar a namorada do nosso convidado de “toda posuda”?
— Ex-namorada — eu a corrigi.
Dona Mirtes soltou a orelha dele. O velho estava mais vermelho que um pimentão.
— Eu não estava bisbilhotando nada — disse ele, por fim. — O carro ficava parado na frente da minha casa, eu tinha todo o direito de saber de quem era e de onde vinha. Um carrão novinho daquele, eu pensei que fosse de algum traficante do bairro. Quando vi a placa do Rio de Janeiro, aí minhas suspeitas aumentaram.
Bel ria de tudo, balançando a cabeça.
De repente nossos olhares de cruzaram. Não dissemos nada, apenas esperamos a briga dos velhinhos terminar. Quando a poeira abaixou, ela disse para mim:
— Então sua namorada morava lá no Rio? E tinha carrão de traficante?
— Viu só? Não mexa comigo. Já falei que ela é a neta favorita de Pablo Escobar?
A Bel soltou uma gargalhada, mostrando todos os seus dentes. Ela é linda, mas sorrindo fica ainda mais. Seus olhinhos semicerrados ficam uma graça, como uma japonesinha num festival de Cosplay.
De repente Dona Mirtes segurou a minha mão e me disse baixinho:
— A Bel também está solteirinha.
— Vó!
A garota ficou quase da cor das luzes dos seus cabelos.
— Falei alguma mentira? — e a velha ria e ria.
Realmente os opostos se atraem. A velha ri de tudo. O velho não ri de nada.
— Tec-nica-men-te falando eu não estou solteira — disse Bel. — Estamos dando um tempo.
Droga! A gostosa tem namorado.
— Ah, é? — falei, demonstrando interesse em saber mais a respeito. — E seu namorado também é de Taubatexas? (para quem não é daqui, temos o costume de chamar a cidade de Taubaté de Taubatexas).
— Não. Olha só que coincidência: ele também é do Rio.
Caraca! Mundo pequeno sem porteira.
— Não me diga! Muita coincidência mesmo.
— Vocês também se conheceram pela Internet?
— Não. Quando eu a conheci, ela ainda morava aqui.
— Hummm, legal.
Silêncio.
Pezão não tirava os olhos do celular. Parecia trocar mensagens com alguém, provavelmente Margareth. Mas como a cara dele não estava muito boa, acho que a conversa não estava indo bem.
De repente o velho disse, bem zangado:
— Vocês já terminaram de comer? Agora podem ir para suas casas, não acham? Nós temos mais o que fazer.
— Quieto! — disse a velha, ameaçando puxar sua orelha novamente. — Deixe as crianças conversarem. Se não quer ouvir, vá dormir no sofá.
E ele foi mesmo, mas antes lançou um olhar feroz para o Pezão e depois para mim.
Dona Mirtes se levantou em seguida, e disse com sua voz carinhosa novamente:
— Alguém vai comer mais?
— Olha — falei. — , se tivesse espaço eu até comeria, mas não cabe nem mais uma ervilha. Nunca comi uma comida tão gostosa, Dona Mirtes.
Ela riu (novidade!) feito uma hiena depois do coito com a hiena mais gostosa do bando.
— A senhora não quer trampar de cozinheira lá em casa? — disse Pezão, sem tirar os olhos do celular. — Minha mãe paga muito bem.
— Sério? — os olhinhos cansados da velha até brilharam. — Olha que eu topo!
— Faz uma marmitinha para eu apresentar o produto para a mama. Quando ela provar, vai ficar de quatro.
Eu nunca vi o Pezão elogiar ninguém dessa forma. A velhinha conseguiu um verdadeiro milagre.
— Vocês são uns fofos — ela disse, e começou a recolher os pratos. Enquanto fazia isso não tirava os olhos de mim e da neta, como se esperasse novas histórias de ambos.
Não quis decepcioná-la. Perguntei para a Bel:
— Então você conheceu o namorado pela Internet?
— Pois é. Nós participávamos do mesmo fórum. Conversa vai, conversa vem …
A avó a interrompeu:
— Esse negócio de conhecer namorado pela Internet não me cheira nada bem.
— Também acho ridículo — disse Pezão, com a mão direita levantada, como um aluno na hora da chamada. — Como diz o Faustão: “Quem sabe faz ao vivo”.
— Adorei, Pezão! — disse a velhinha, batendo palmas para ele. Pensei que ela ia correr até ele e fazer um “toca aqui”, tamanha a empolgação. — E você, querido, tem namorada?
— Tem uma pergunta mais fácil, vó?
— Seu amigo é uma graça — disse Dona Mirtes para mim. — Ele me chamou de vó!
— Ele é um amorzinho mesmo — falei. — É o cuti-cuti da mamãe.
Pezão olhou pra mim e eu aposto que mostrou aquele dedo para mim mentalmente. Só não mostrou de verdade porque a velhinha o observava com ternura.
— Problemas com a namorada? — disse a Bel para ele. — Você não largou este celular durante quase todo o almoço, sempre com uma cara aborrecida.
— Sim, eu pisei na bola com ela.
— E agora ela não atende os seus telefonemas. Só responde pelo WhatsApp, né?
Pezão fez que sim com a cabeça, meio tristonho.
— Dizem que os homens são previsíveis — explicou a Bel. — , mas nós mulheres também — ela riu. — Eu também faço isso com o meu namorado quando estou zangada com ele. Geralmente mantenho esta estratégia por uns 3 ou 4 dias.
— E quantos dias você faria isso se achasse uma foto dele no Facebook com a língua dentro do ouvido de outra garota? — perguntei.
Pezão me olhou puto, mas depois olhou para ela, esperando a resposta.
— Bom — disse ela. — , aí nem WhatsApp. Eu nunca mais olharia na cara dele.
— Fodeu.
— Sem palavrões na minha cozinha! — disse Dona Mirtes, de costas para nós, lavando os pratos.
— Sua namorada mora longe? — perguntou a Bel.
— Minas Gerais — disse ele, com um olhar distante.
— Meu, de boa, namoro à distância não funfa!
Putz, quando ela disse isso eu quase caí da cadeira. Foi exatamente isso que eu disse para vocês, não foi?
— Concordo totalmente contigo — falei. — Namoro à distância é um saco!
Pezão repetiu o gesto da mão levantada. Depois largou o celular sobre a mesa, bem irritado. E disse:
— Ela é uma filha da puta de uma ingrata!
— Sem palavrões! — repetiu Dona Mirtes. — Calma, querido, não fique assim.
Parece que a velhinha gostou mesmo dele.
— A Margareth se esqueceu de todas as coisas boas que eu fiz, porra!
Dona Mirtes pousou a cabeça por cima do ombro e olhou feio para ele.
— Desculpa, vó. Saiu sem querer querendo.
E o improvável aconteceu: Pezão desabou num choro convulsivo que eu nunca vira antes. Caraca, parecia um ganso com resfriado. Nunca vi nenhum ser humano chorar daquela maneira. Foi bizarro.
Em outras oportunidades eu teria achado aquilo hilário, mas a verdade é que eu fiquei com pena dele. Acho que todos nós ali na cozinha ficamos. Dona Mirtes foi a primeira a se aproximar dele e fazer um carinho nos seus cabelos. E disse:
— Calma, ela vai se lembrar do menino bonzinho que você é.
Ah, tá! Segurei para não rir. Se Dona Mirtes soubesse de 1 por cento do que esta peste já aprontou em seu curto período de vida … Bom, nós sabemos, né?
E Pezão continuou chorando. A velhinha preparou um copo de água com açúcar para ele. Nosso amigo tomou o copo inteiro. Quando o choro diminuiu ele falou:
— Ela me acusa de não ser espontâneo — soluços. — , disse que eu nunca lhe fiz uma — soluços. — surpresa, que eu nunca fiz uma loucura.
— Então faça, caramba! — disse Bel. — Você gosta dela?
— Muito.
— Então dê a ela o que ela quer.
— Mas o quê?
— Sei lá, quando foi a última vez que vocês se viram?
— Umas 3 semanas atrás, eu acho.
— Caraca, tudo isso? E geralmente é você que vai pra lá ou ela que vem?
— Só ela que vem — respondi por ele. — E depois ele não sabe o porquê dessas cobranças.
Bel arregalou os olhos, depois balançou a cabeça. Por fim, disse:
— Você nunca foi visitá-la, mané?
— Mas ela gosta de vir pra cá. As amigas dela estão todas aqui.
Bel fez sinal para ele se calar.
— Inacreditável — disse ela, irritada. — , vocês homens são todos iguais. Eu ia te ajudar, mas agora eu nem sei se devo. Você não gosta dela de verdade.
— Gosto sim, eu juro!
— Não, não gosta. Se gostasse de verdade você entraria naquele seu carrinho cheirando a novo e pegaria a estrada agora mesmo.
— Mas, tipo, agora?
— Pra ontem, seu idiota! Você não entendeu a dica que ela deu?
Pezão coçou o couro cabeludo por um instante.
— Claro que não entendeu, né? Vocês não sabem ler nas entrelinhas.
Pezão ficou ainda mais confuso, com certeza tentando entender o que significa “entrelinhas”.
— Levanta a bunda daí e vai atrás do seu amor, de preferência com um buquê de flores mais caro que você encontrar e uma caixa de bombons finos.
— Mas eu nem sei direito onde fica a cidade dela.
Bel fez um gesto como se fosse enforcá-lo. Eu rachei de rir.
— E aquele seu carro não tem GPS, mané? — ela disse, bem irritada.
— Tem, mas eu não sei mexer naquilo.
Bel olhou para mim, mas apontando o dedo para o Pezão, e disse:
— Esse cara tá de brincadeira comigo, né?
— Pior que não — falei.
A neta da Dona Mirtes puxou o ar pelo nariz e depois o devolveu lentamente pela boca, olhou fixamente nos olhos do Pezão e disse:
— Vou te ajudar a recuperar a namorada. Se é que ela existe mesmo, pois estou achando quase impossível que você seja capaz de namorar alguém além de uma boneca inflável.
— Bel! — disse Dona Mirtes, horrorizada. — Pobrezinho, não fale assim com ele.
Bel se levantou e puxou o Pezão da cadeira, fazendo com que ele se levantasse também.
— Você sabe o nome da cidade onde ela mora, pelo menos?
— É alguma coisa … Mirim.
— Você não existe.
Ela pegou o celular do Pezão de cima da mesa e digitou alguma coisa, com uma habilidade incrível. Segundos depois ela disse:
— Cachoeira Mirim, é isso?
— Caraca, é isso mesmo! Cachoeira Mirim! Como você descobriu?
— Nunca ouviu falar no Google, mané?
Nunca vi o Pezão tão sem graça.
— Vem, vou configurar o seu GPS para te levar até lá.
— E se ela não quiser falar comigo?
— Confie em mim, ela vai falar com você. Melhor, vocês vão conhecer o melhor motel da cidade ainda hoje.
— O quê? Você cheirou cola no almoço, foi?
— Quer apostar comigo? — ela estendeu a mão para selar a aposta. — Milzinho, igual àquele que você deu para o meu vô.
Pezão nem pensou duas vezes. Apertou a mão da garota, dizendo:
— Você é a gostosa mais maluca que eu já conheci.
— Você ainda não viu nada.
Não é por acaso que ela é a neta favorita da Dona Mirtes. Ela é demais!
Quando passamos pela sala o velho não estava dormindo no sofá, como imaginávamos. Ele estava no quintal, cobrindo um buraco com terra. Sim, ele mesmo enterrou o cão-múmia, Ronnie Von, ou simplesmente Ron-Ron para os chegados.
Dona Mirtes ficou possessa ao ver a zona que o marido aprontou no seu lindo jardim.
— Seu Nori, eu não acredito que você matou as minhas tulipas para poder enterrar aquele cachorro velho e estúpido?
— Pelo menos as tulipas a gente pode plantar novamente ...
Isso a desconcertou. Ela não disse mais nada, mas ainda havia ódio em seus olhos.
Quando descíamos as escadas, não resisti e olhei para o requebrar da bunda da Bel. Não resisti, qualquer homem (ou lésbica) que se preze teria admirado.
De repente ela olhou para trás e por muito pouco não me deu um flagrante.
Ah, como eu desejei por mais degraus naquela maldita escada.
Como prometido, ela configurou o GPS do carro do Pezão, tão rápido que eu fiquei com vergonha da nossa estupidez. Uma vez eu configurei aquilo e fomos parar quase na casa do caralho, bem ao lado de onde Judas perdeu as pregas.
A distância calculada entre o ponto de partida e Cachoeira Mirim foi de 258 km. Tempo estimado de 3 horas e 42 minutos de viagem. Lógico, isso com tempo bom e pouco tráfego na estrada.
Pezão já estava com o sinto de segurança e se preparava para se despedir de nós, quando algo inesperado aconteceu. Bel, toda empolgada, virou-se para nós e disse:
— Vou só dar um tchau para a vovó e o vovô e já volto. Ah, e pegar os meus remédios também.
E saiu correndo. Ela subiu a escada de dois em dois degraus. Olhei para a sua bunda outra vez. Não resisti. Dessa vez ela não olhou para trás.
— É o que eu estou pensando? — falei, franzindo a testa.
— Eu tô pensando que aquele shortinho poderia ser ainda mais curto.
— Claro, isso também. Mas não foi o que eu quis dizer … Ela acha que vai com você até Minas Gerais.
— Sério? Não viaja … Se eu chegar lá com uma gostosa do meu lado a Margareth nunca mais olha na minha cara.
E lá vinha a gostosa descendo a escada, toda sorrisos. Usava a mesma camiseta, mas trocou o shorts por uma calça jeans desbotada com rasgos nos joelhos. No lugar da rasteirinha de onça ela calçou um tênis roxo e verde-limão (quase nada cheguei). Apesar do coque engraçado que fez nos cabelos, ela conseguiu ficar ainda mais atraente. Uau! Segurava uma sacola de supermercado numa das mãos e trazia pendurada no ombro uma bolsinha preta de couro (já viu uma garota sair de casa sem sua bolsa?)
Foi engraçado, ela já chegou se jogando no banco do carona. Ajeitou a sacola de plástico entre as pernas, ergueu os olhos para mim e disse:
— Tá esperando o quê, mané? Você também vai.
Mas é lógico que eu vou!
— Vou — falei calmamente. — , mas você pegou o meu lugar. Então vaza. Xispa. Evapora. Escafede.
— OK, OK, nossa!
— Ah, outra coisa: odeio que me chamem de mané.
Ela ficou me olhando por cima dos óculos, segurando para não rir. E finalmente saiu do meu lugar.
Preciso dizer que nós olhamos para o traseiro dela outra vez quando ela pulou para banco de trás? Desnecessário, né?
Sentei no banco do carona. Meu lugar. Porra, acabou de chegar e já quer sentar na janelinha? Não é assim não, fia!
Espetei o meu pen drive no som do carro e coloquei minha pasta de rock para tocar. Para começarmos a viagem com o pé direito coloquei a música Immigrant Song, do Led Zeppelin.
— Aí sim — disse Bel, balançando a cabeça com o primeiro acorde da música.
Pezão saiu cantando os pneus novinhos do seu carro novinho. Filho da mãe sortudo.
Dessa vez não atropelamos nenhum cão-múmia.
Minas Gerais, aqui vamos nós, uai, sô!
Capítulo 3 · Oh, Minas Gerais ...
Nem dobramos a primeira esquina e Bel nos ofereceu salgadinho.
Sua sacolinha estava cheia de petiscos e guloseimas: três pacotes de salgadinho Elma Chips, um pacote de bolacha água e sal, um pacote de Trakinas, um saquinho de biscoito de polvilho, um saquinho de amendoim japonês e outro de balas de goma. Ufa! Caraca, ela acabou de bater dois pratos de pedreiro no almoço e já está com fome? Essa garota tem lombriga.
— Tem coisa melhor que comer? — disse ela, entre uma mastigada e outra.
— Tem sim — respondi, olhando para ela pelo espelho retrovisor.
— Sexo? Ah, sim, é legal também. Mas ...
— Espera aí, você trocaria uma trepada por um saco de Baconzitos?
— Depende. Qual o tamanho do pacote?
— Você é estranha, mina — disse Pezão. Depois ele olhou para mim por cima do ombro. — E você, não vai trabalhar hoje?
E não é que eu me esqueci completamente do trampo? Acho que ainda não me acostumei com isso …
— Puta merda, e agora?
— Não tem como você pedir para alguém fazer o seu horário?
— Verdade, eu vivo quebrando o galho de todo mundo por lá.
Sim, e nunca pedi nada em troca. Chegou a vez de retribuírem. O problema é que eu não tenho muita intimidade com os outros locutores. A grande maioria são mais velhos e nem falam comigo direito.
Mas ... sei de alguém que não vai me negar um favor: Marinalva Guedes. Ela parece gostar de mim. E já fiz o horário dela algumas vezes, compartilhamos o mesmo gosto musical. Se ela não topar, meu passeio já era.
Tenho o WhatsApp dela. Mandei uma mensagem. Ela viu e já me respondeu. Iniciamos uma conversa:
Eu: Mari preciso te fazer um peido
Ela: Oi lindinho. Um peido? kkkkkkkk
Eu: Maldito corretor!!! Eu quis dizer um PEDIDO
Ela: kkkkkkk entendi. Pode peidar. Quero dizer pode pedir
Eu: hahahaha pode cobrir a minha escala hj?
Ela: hummm sério? :(
Eu: Sério. Por favor!!!!!
Ela: Hj é meu único dia de folga na semana
Eu: Quebrei seu galho nos últimos dois sábados à noite, lembra?
Sem resposta por uns 2 minutos, até que enfim:
Ela: Tudo bem
Eu: Uhuuuuuuuuuuu valeu!!! 19h30 até 0h30
Ela: PQP
Eu: hahahaha passa rapidinho
Ela: Só que não
Eu: Posso ficar tranquilo então, né?
Ela: Pode
Eu: Obrigado Mari. Vc é dez
Ela: Vc fica me devendo umazinha ta?
Eu: OK agora eu preciso ir. Fui!
— Armou! — gritei.
— Puta que pariu — disse Pezão, puto. — Quase me mata de susto, cacete!
— Achei alguém para ficar no meu lugar.
— Sério? Achou um trouxa?
— Tem uma locutora lá que vive me dando bola.
— Quem?
— A Marinalva Guedes.
Pezão arregalou os olhos para mim.
— Caralho, ela tem a voz mais sexy do mundo inteiro. Ela tá te dando bola? Já pegou?
Comecei a rir feito uma hiena no show do Iron Maiden no Rock in Rio.
— Aposto meus braços que ela é o cão chupando bala — disse Bel, abrindo o pacote de Trakinas.
— Você a conhece? — perguntei.
— E preciso? Todo mundo que trabalha em rádio tem o rosto zoado.
Agora foi o Pezão que riu feito uma hiena curada de catapora.
— Você é locutor? — Bel me perguntou, franzindo testa. — Não é para ficar se achando, mas você é gatinho. Tá na profissão errada.
Foi uma cantada? Sei lá, mas eu gostei.
— Porra, então a Marinalva não é a gata que eu sempre imaginei? — disse Pezão.
— Feia pra cacete — respondi. — Ela me faz lembrar a Amy Winehouse.
— Mas a Amy era bonita! — disse a Bel.
— Corrigindo: Amy Winehouse na fase das drogas e pingaiada. E o pior é que eu acho que ela me passou uma cantada pelo WhatsApp.
— Sério? — e meteu a mão por entre os bancos e puxou o celular da minha mão. — Posso ver? Sou ótima em achar mensagens nas entrelinhas.
— Fique à vontade — falei. Já pegou o meu celular mesmo, né?
Ela leu toda a conversa e me devolveu o celular, com um sorriso meio sacana nos lábios.
— Ela quer uma noite de sexo selvagem com o lindinho.
— Hummm, garanhão! — zoou o Pezão. — Ela é gostosa, pelo menos?
— Magra feito o coisa-ruim.
— Você curte uma gordinha? — disse Bel, segurando a última bolacha do pacote.
— Uma gordinha eu até pego, mas muito magra me dá aflição. Quem gosta de osso é cachorro.
— E Paleontólogos — completou ela.
Nós dois rimos. Pezão ficou boiando, olhando para mim.
— Os caras do filme Jurassic Park — falei. — Aqueles com chapéu engraçado.
— Ah, tá.
— Ainda não entendeu, né, mané? — imitei o jeito da Bel falar mané. Ela diz pausadamente, o que provoca ainda a pessoa zoada.
Ele mostrou aquele dedo famoso para mim.
As próximas duas horas serviram para conhecermos a Mirabel um pouco mais a fundo. Calma, ninguém transou nessa viagem. Ainda.
Ela tem 20 anos. Faltam apenas 2 dias para o seu 21º aniversário. Perdeu a mãe para o câncer 4 anos atrás. Dona Mirtes e Seu Nori são avós maternos (fiquei triste por eles). Cursa o segundo ano de Engenharia de Computação na faculdade. Está de férias. Odeia qualquer tipo de esporte, principalmente futebol. Sua banda favorita é The Vaccines — que ela conheceu quando um ex-namorado lhe disse que a garota da capa do CD “What Did You Expect from The Vaccines?” era muito parecida com ela. E a semelhança é incrível mesmo. Já toquei músicas desse CD no meu programa. Quando cantarolei um trecho da música “If You Wanna”, Bel arregalou os olhos para mim, encantada. Ganhei mais alguns pontos com ela. — Adora livros e filmes de suspense e ficção científica. Ama Star Wars e tem fantasias eróticas com Darth Vader. Seus pratos favoritos são todos, só não come pedra. Nunca namorou sério. Seus últimos três namoros começaram pela Internet, sempre com caras 10 anos mais velho do que ela. Tem uma doença cujo nome é impronunciável. Ela tentou dizer o nome, mas aparentemente não conseguiu. Parecia estar falando em mandarim ou em russo ao contrário.
Esta última parte eu achei meio estranha: doença? Ela parece tão saudável! Será que tem algo a ver com a quantidade absurda de comida que ela consome? Sei lá, percebi que ela ficou bem sem graça ao tocar no assunto. Segue o jogo.
Depois foi a nossa vez.
Pezão contou como conheceu a Margareth e eu expliquei como virei locutor da noite para o dia.
Também contamos um pouco das nossas aventuras e desventuras, escondendo os lados mais obscuros, é claro. Bel acha que já esbarrou com o Pigmeu numa festa, e percebi seus olhos cheios d’água quando contamos a história de um amigo nosso que faleceu, o Mamute. Ela escutou nossas histórias atentamente, sempre mordiscando alguma coisa.
Não contamos nada sobre Ubatuba. Se ela quiser saber, que compre o livro.
Estávamos passando pela cidade de Conceição dos Ouros, já em Minas Gerais, quando ela percebeu que sua sacolinha de petiscos estava vazia. Meu, a garota quase surtou. Me fez lembrar do Pigmeu quando está sem os seus … bagulhos.
Pezão foi obrigado a fazer a primeira parada da tarde.
Eu até achei bom, pois já estava me dando vontade de ir ao banheiro. Número 2 me chamando.
Paramos numa padaria bem fuleira.
A fachada pintada a mão dizia em letras garrafais: Padoca do Careca. Do outro lado do balcão um gordo careca nos observava com um certo temor, como se fôssemos estuprá-lo ou algo assim. Achei que ele poderia mudar o nome da padaria para Padoca do Gordo Careca Ressabiado.
— Tarrrrrrde — falei, quase me cagando. — Onde fica o banheiro?
O homem apontou para uma portinha atrás de um freezer da Coca-Cola. Andei o mais depressa que pude, trançando as pernas feito um competidor de Marcha Atlética.
Nunca vi um banheiro tão sujo em toda a minha vida, e olha que já vi muitos por aí. Eu nem tinha me evacuado ainda e o cheiro já era insuportável, imaginem depois que eu deixar a minha humilde (mas poderosa) contribuição. A parede estava toda rabiscada com desenhos eróticos (só que não) de mulheres peitudas. O engraçado era que os seios pareciam ovos fritos. Tentei desviar o olhar daquilo, estavam atrapalhando a minha concentração. Tenho este pequeno problema ao ir ao banheiro: se não estou totalmente focado no que vou fazer, não sai nem com macumba. Já me cutucaram uma vez num mictório, pensaram que eu estava dormindo em pé. Porra, eu só estava me isolando do resto do mundo para poder mijar em paz. Ninguém tem paciência comigo.
Se entrei em ritmo de Marcha Atlética, saí com a rapidez de um velocista de 100 metros rasos. Pelo amor dos meus filhinhos, se eu ficasse naquele banheiro mais 1 segundo eu teria desmaiado, é sério.
Quando saí dei de cara com a Bel comendo uma senhora de uma coxinha. A coxinha era tão grande que caberia um frango vivo dentro dela. E dessa vez não estou exagerando.
— Fazendo uma boquinha? — falei, após uma piscadela.
Ela fez apenas um joinha para mim, estava com a boca cheia.
— Já é a segunda — disse Pezão, meio impaciente. — Como consegue comer tanto e ser tão … — ele a mediu dos cabelos aos pés. — gostosa?
Bel quase engasgou com a coxinha ao ouvir isso. Começou a rir que não parava mais.
— Obrigada pelo “tão gostosa”. Ganhei o dia.
Porra, se eu soubesse teria dito antes.
Ficamos ali esperando ela devorar a coxinha-monstro. Ela comia com tanto gosto que até fiquei com vontade de experimentar, mas eu não conseguiria comer uma inteira sozinho.
— Quer dividir uma comigo? — perguntei para o Pezão.
Ele topou. Ergui o braço para fazer o pedido. Ao mesmo tempo a neta favorita da Dona Mirtes apontou para o expositor de salgados e gritou para o gordo careca:
— Aquela torta de frango com catupiry é de hoje, Ademir?
O homem arregalou os olhos, indignado, e disse:
— Faz quantos dias que você não come, menina?
— Não vou comer agora, meu anjo. Tem como embrulhar para eu levar?
— Claro, é pra já!
Enfim pedi a coxinha e a dividimos no meio. Meu, é muito grande!
Enquanto nos esforçávamos para comê-la, Bel abastecia sua sacolinha. Ela pegou de tudo um pouco. Mais salgadinhos, bolachas, pãezinhos, chocolates e, é claro, o pedaço de torta de frango com catupiry, embrulhado num papel gorduroso e nojento. Perdi até a fome. Pezão também. Não conseguimos terminar nossas metades da coxinha.
Como ela conseguiu comer duas inteiras?
Na hora de pagar, Bel apontou para o Pezão. Ele ficou puto.
— Eu só comi a porra da metade de uma coxinha! E você comprou a padaria toda.
— Nossa, amigo, quebra o galho aí. Depois você desconta do valor da aposta — ela olhou para o gordo careca, que a esta altura era só sorrisos. O cara vendeu mais em meia hora do que em todo o mês. — O senhor me vê uma notinha de tudo?
— Não. Mas posso anotar com caneta se você precisar.
Que legal. Foram mais 15 minutos desperdiçados.
Pezão foi ao banheiro antes de voltarmos para o carro. Saiu de lá verde e sem ar, quase vomitando.
— Caralho, Nando, deu PT no banheiro, porra! Se eu não estivesse tão apertado vinha aqui mijar na tua cabeça.
Nem demos muita bola para ele. Estávamos rindo do recibo improvisado que o Ademir fez para a Bel. Havia pérolas como “bescoitu”, “bulaxa” e outros assassinatos a sangue frio do nosso querido português.
Pegamos a estrada novamente.
O carro é tão silencioso que o único som que conseguíamos ouvir era o crec-crec da Bel mastigando os biscoitos de polvilho, sem parar.
O barulhinho começava a me dar nos nervos. Resolvi puxar assunto para ver se ela para de comer um pouco.
— Posso te fazer uma pergunta, Bel?
— Claro … "lindinho". A moça lá da rádio te chama assim pessoalmente também?
— Pior que sim. É bem constrangedor.
— Que meigo. Bom, mas o que você ia me perguntar?
— Sobre o cachorro do seu avô, o Ronnie Von. Você e a sua avó não gostavam dele, né?
— Não mesmo. Para falar a verdade eu odiava aquele cachorro.
— Por quê? — intrometeu-se Pezão.
— Aquele cão velho era um tarado pervertido!
Dúvida: existem tarados que não sejam pervertidos?
— Como assim, o que ele fazia? — perguntei, rindo antes mesmo da resposta.
— Sempre que eu saía do banheiro enrolada na toalha ele ficava me rodeando, como se fizesse de tudo para eu derrubar a toalha.
— Bobinho ele, né? — disse o Pezão, piscando para mim.
— Cão velho safado! — disse ela, irritada. — Ontem eu estava me trocando e não percebi que ele estava debaixo da minha cama. Quando eu me abaixei para vestir a calcinha ele soltou um uivo tão alto que eu quase morri de susto. Parecia que tinha um lobisomem dentro do meu quarto. Cruz credo! Mas eu me vinguei, joguei a cadeira da penteadeira em cima dele.
Pezão e eu ficamos rindo feito duas hienas em cima de um palco cantando clássicos da música sertaneja.
Bel continuou:
— Ele também rasgou várias calcinhas da minha avó.
— Eca!!! — dissemos os dois juntos.
Agora foi a Bel que soltou uma gargalhada.
— Aquele cachorro era um tarado.
— Há quanto tempo seu avô tinha ele? — perguntei.
— Acho que fazia pouco mais de 1 mês.
Pezão arregalou os olhos para o espelho retrovisor e encarou a Bel, dizendo:
— Como assim 1 mês? Só 1 mês?
— Sim, ele apareceu lá na casa do meu avô, do nada.
— Então aquela história de melhor amigo e o caralho era mentira? Que palhaçada é essa?
— Tudo papo furado — disse ela. Bel não conseguia parar de rir.
— Aquele velho maldito!
— Oh, não fala assim do meu avô! Ele deve ter reparado que o seu carro era novo, então aproveitou a oportunidade. Você não teria feito o mesmo?
As veias na testa do Pezão pulsavam de raiva.
— Nem de raça ele era então — falei, colocando mais lenha na fogueira.
— Nem — ela disse, quase mijando na calcinha de tanto rir. — Um baita de um vira-latas pulguento, tarado, pervertido e comedor de calcinhas cheirando naftalina.
— VÉIO FILHO DA PUTA!!!
— Se você repetir isso mais uma vez eu vomito no seu banco novinho.
Depois disso ficamos num silêncio constrangedor por quase meia hora.
Dessa vez silêncio de verdade. Bel parou de comer. Dessa vez mexia na sua bolsa. Parecia estar procurando alguma coisa, e pelo jeito não estava encontrando. Estava com uma cara de poucos amigos.
— Tudo bem aí atrás? — falei, enfiando a cara entre os bancos.
— Quer a real? — disse ela, nervosa. — Não está nada bem. Nada bem mesmo!
— Já sei — disse Pezão. — , acabaram seus biscoitos.
— Nada disso, seu imbecil!
Pezão a procurou pelo espelho retrovisor, olhando feio.
— Calma, foi só uma brincadeirinha.
— Desculpa. Estou nervosa. Minha irmã aprontou uma comigo. Outra vez.
— Como assim? — falei. — O que ela fez?
— Aquela fedelha sabotou o meu remédio — ela segurava um pequeno potinho branco com tampa verde. — São meus … calmantes. Minha querida irmã substituiu os comprimidos por M&M’s. Dá pra acreditar nisso? Eu mato aquela vadiazinha!
— Calma — falei. — , paramos na próxima cidade e compramos outro potinho desse.
Ela balançou a cabeça negativamente. E disse:
— Só que não. São feitos numa farmácia de manipulação, especificamente para mim.
— Puta merda.
Pezão fez uma pergunta que estava na ponta da minha língua:
— O que acontece se você ficar sem esse remédio? Você morre?
Ela inspirou, expirou, depois respondeu:
— Morrer eu não morro, mas fico muito irritada e agressiva. Começo a xingar demais. Tudo me estressa. Tudo mesmo! Vocês não tem noção! Fico outra pessoa.
— Tipo uma TPM? — perguntei.
— Exatamente! Só que numa escala maior.
Putz!
— A Margareth fica um pé no saco quando tá assim — disse o Pezão.
— Toda mulher fica — afirmei. — Bel, não precisa se preocupar, a gente aguenta.
— Vocês não estão entendendo. Eu me transformo numa megera. Fico insuportável. Vocês vão querer me jogar para fora do carro.
— Lógico que não! Fica sussa.
— Esperem! — Bel disse de repente. Os olhos dela se arregalaram. — Acho que encontrei um último comprimido — ela segurava o remédio entre os dedos. — Mas não sei se tomo agora ou guardo para uma situação de emergência.
— Você me parece bem calminha agora.
Ela me ofereceu o pequeno comprimido, dizendo:
— Guarde-o para mim. Quando estou irritada tendo a não querer tomá-lo.
— Então teremos que forçá-la a tomar?
Ela assentiu com a cabeça, parecia muito envergonhada.
— Desculpa, meninos, eu não queria que isso acontecesse. Não mesmo.
— Está tudo bem — falei. — Somos dois e você não pratica MMA.
Peguei o remédio da mão dela e guardei no bolso da minha calça.
— Sua irmã me fez lembrar do meu — disse Pezão.
— Fariam um belo par — falei, rindo. — Saudade do pirralho.
— Sabia que ele entrou numa escola só para crânios?
— Sério? Que dahora! Ele tem Facebook?
— Tem sim, é só procurar por Garoto “Podrígio”.
— Adorei! — disse Bel.
Rimos feito hienas viajando por Minas Gerais.Capítulo 4 · A Mala Sem Alça
Faltando apenas 15 Km para chegarmos em Cachoeira Mirim começamos a perceber a transformação da “Bel - A Gostosa” em “Bel - A Mala Sem Alça e Sem Rodinhas”.
— Caramba de cidade que não chega nunca! — ela disse, bufando. — Se eu fosse você, dava um pé na bunda dessa Margareth e partia para outra. Sua garota mora no cu do mundo!
Pezão olhou para mim. Olhei para ele. Demos uma risadinha.
Até este momento estava engraçadinho o mau humor dela.
— Falta pouco — falei. — Estamos quase lá.
— Pare o carro, Pezão, agora!
— Por quê?
Ela jogou sua sacolinha no colo do Pezão.
Estava vazia.
Fodeu.
— Estou com fome, mané! — disse ela. Sua voz levemente mais grave. — E quem será que fez aquela maldita torta? Estava com gosto de bunda de macaco!
Depois dessa não consegui me segurar, comecei a rir.
— Está rindo do quê?
— De nada, Bel.
— Só idiotas riem sem motivo. Você é idiota? Cara de idiota você já tem.
Achei melhor ignorá-la, é a doença dela falando mais alto, né?
— Quem cala, consente — disse ela. — Tá com medinho de mim, Nando? Fala comigo, cacete!
— Eu sou um idiota mesmo.
Ela me deu um peteleco na orelha. Puta que pariu, como doeu!
— Porra, Bel, aí já é demais!
— Vamos parar para eu comer alguma coisa ou não?
— Nem fodendo — disse Pezão, bem calmo. — Já estamos quase chegando.
Agora ela deu um peteleco na orelha do Pezão.
— Porra, mina, qual é o seu problema?
— Eu quero comer! Eu quero comer! Eu quero comer! Eu quero comer! Eu quero comer!
Pezão ficou olhando feio para mim.
— O que foi? — perguntei, com a voz um pouco mais alta do que o normal.
— Tá esperando o quê para dar a porra do remédio?
— Mas não era para esperarmos por uma emergência?
— O vermelhidão na sua orelha me diz que já estamos numa emergência. Dá logo esse caralho de remédio para ela!
— Nem pense em me dar nenhuma droga — ela disse, e já me deu outro peteleco na orelha.
Puta que pariu, como ela consegue ter tanta força naqueles dedos tão delicados? Minha orelha ficou queimando de dor. Subiu o sangue. Meti o meu rosto entre os bancos e gritei com ela:
— Você vai tomar sim!!! Por bem ou por mal.
Enfiei a mão no bolso para pegar o maldito comprimido e não encontrei. Putz! Era só o que me faltava.
— O que está fazendo com esta mão aí, cacete? Batendo umazinha?
Tentei novamente, agora com mais calma, encontrei. Ufa!
— Calma, eu achei.
— Quero ver você tentar — Bel me provocou.
Como vou fazer para ela tomar esse maldito comprimido? Vou precisar da ajuda do Pezão.
— Para esse carro — falei.
Pezão deu um soco no volante, chateado. Bufou. Revirou os olhos. Mas por fim reduziu a velocidade e …
Puta que pariu, eu não acredito que ela fez isso!!! Ela pegou o comprimido da minha mão e jogou pela janela.
— O QUE VOCÊ FEZ, PORRA??? — gritei.
Pezão se assustou e deixou o carro morrer, o tranco nos jogou para frente.
Abri a porta e pulei para fora do carro, tentando sem sucesso algum localizar o comprimido na beira da estrada.
Com as mãos na cintura, puto da vida, fiquei ali, admirando a bela paisagem à minha volta, pastos, montanhas, o sol cada vez mais baixo no horizonte, meus pensamentos distantes, tentando pensar numa solução, tentando achar forças para não puxar a neta favorita da Dona Mires para fora do carro e deixá-la ali.
É claro que eu jamais conseguiria fazer isso, mas que me deu uma puta vontade, deu.
Pezão desceu do carro e veio atrás de mim. Estava puto.
— Ela me deu outro peteleco, Nando — ele falou. — Deve ser algum problema com esse nome: Mirabel.
— Não entendi.
— Lembra daquela viagem que fizemos para Pouso Alegre? — assenti. — Quando eu fiquei sozinho eu dei carona para uma gostosa. O nome dela era Jezebel, mas às vezes ela assumia a personalidade de uma criança. O nome da pirralhinha mala??? MIRABEL.
Bel desceu o vidro, dizendo:
— Vocês vão fazer um filme pornô gay aí? Estou com fome! Falta muito para chegarmos? O remédio já era, voltem para o carro.
Pezão olhou para mim e disse:
— Se ela não fosse tão gostosa eu deixava ela aqui mesmo.
Foi com um puta alívio que vi a placa CACHOEIRA MIRIM e uma seta apontando para a direita.
Chegamos.
Entramos numa estradinha bonita ladeada por pinheiros. Minas Gerais é um estado belíssimo. A paisagem é o que está salvando esta maldita viagem, até aqui.
— Quando vamos parar para comer? — preciso mesmo dizer quem disse isso? Desnecessário, né?
Tentei a tática de ignorá-la, não deu muito certo. Os petelecos na orelha doem pra cacete. Então é melhor dar atenção. Respondi:
— Deve ter um boteco na entrada da cidade. Sempre tem.
— Boteco? E o que eu vou fazer num boteco, seu tapado? Quero comer, não quero encher o cu de pinga.
— Geralmente tem aqueles ovos cozidos cor-de-rosa — disse o Pezão. — Delícia!
Como eu previa, passamos por um botequinho, mas era tão precário que nem ovo cor-de-rosa tinha.
Para a nossa sorte, e azar do bolso do Pezão, encontramos um mercadinho.
Os dois foram às compras, eu fiquei esperando no carro, ouvindo música.
Quase 20 minutos depois eles voltaram.
Ela abasteceu três novas sacolinhas com suas porcarias cheias de calorias. Parecia muito feliz, como uma criança voltando do McDonald’s cheia daqueles brinquedinhos idiotas.
Por alguns segundos ela quase — eu disse quase — voltou a ser a Mirabel que todos nós gostamos.
Quando entraram no carro, Pezão disse baixinho para mim:
— Tenho uma teoria. Se ela comer vai nos deixar em paz.
— Pode ser. De boca cheia não dá para nos xingar de manés ou tapados.
— Isso isso isso — não acredito que o Pezão imitou o Chaves.
— Acham que sou surda? — ela disse, abrindo um pacote gigantesco de Doritos.
Fingimos que não a escutamos.
— Quase fomos expulsos do supermercado — disse Pezão para mim.
— Sério? Por quê?
— Essa aí — Pezão apontou para o banco de trás.
— Eu não falei nada de mais.
— Nada de mais? Você chamou a moça do caixa de lesma retardada. Só isso.
— Você não fez isso — falei, incrédulo.
— Fez — reforçou Pezão. — Pior que fez.
— Meu, é tão difícil pegar um produto e passar na frente do leitor de código de barras? Até imbecis como vocês conseguem fazer.
— Mas não havia leitores de código de barras neste supermercado, porra! O bagulho é tão antigo que ela digitou o preço de tudo um por um.
— Ah, é? — disse ela, surpresa. — Foi mal então.
Pezão balançou a cabeça. E disse:
— Pedi desculpas e botei a culpa na TPM. A idiota aqui vira para a funcionária e diz que não está com TPM porra nenhuma.
— Putz! — falei, e me enfiei entre os bancos. — Você deve se meter em muitas enrascadas quando não toma o seu remédio.
Ela deu de ombros e disse:
— Olha a minha cara de preocupada.
Escuro lá fora. Quase 7 horas da noite.
Ainda estamos parados no estacionamento do mercadinho.
A teoria do Pezão parecia fazer sentido. Bel se acalmou um pouco enquanto devorava suas porcarias. Pelo menos nos deixou em paz, e parou com aqueles malditos petelecos.
Agora temos um novo problema para resolver: onde mora a Margareth?
Pezão pegou o celular para ligar para ela e (tentar) descobrir. E contar que viajamos até aqui, é claro. Mas Bel acordou dos mortos e o interrompeu:
— Não liga do seu aparelho, mané! Ela não vai atender nem fodendo. Esqueceu que ela viu uma foto sua comendo a orelha de uma vagabunda?
Porra, até que enfim uma frase sensata! Gostei.
— Acho que ela tem razão — concordei. Peguei o meu celular e ofereci ao Pezão. — Liga com o meu. Se tiver crédito, claro.
Ele discou o número. Suas mãos tremiam. Pezão nervoso? Essa é nova.
— Está chamando! — a voz dele era toda empolgação. Torci por ele. O cara pode ser cuzão e tal, mas é meu melhor amigo. Quando ele fez joinha para mim eu percebi que ela atendeu: — Ma, sou eu! Por favor, não desliga! Você não vai acreditar onde eu estou. Não, porra, não estou enchendo a cara no bar. Ma, escuta. Por favor, deixa eu falar, cacete! Eu estou aqui em Cachoeira Mirim. É sério, estou no estacionamento de um mercadinho bem fuleiro. O nome? Deixa eu ver … — Mercado Zezinho, falei. — Sim, é a voz do Nando, ele está aqui comigo.
— Eu também, Ma! — gritou a Bel. — E que cacete de apelido imbecil é esse?
Fiz sinal para ela se calar, mas acho que o estrago já foi feito.
Pezão continuou:
— Voz de mulher? Que voz de mulher? Ah, é ... uma ficante do Nando — e riu da minha cara. — Deixa isso pra lá. Ma, tá fácil chegar aí na tua casa? Preciso te ver, agora!
— Essa conversinha tá me dando vontade de vomitar — Bel disse, apontando o dedo indicador para a sua boca aberta.
— Quieta, porra! — disse Pezão. — Não, Ma, não falei com você. Foi para a ficante do Nando. Ela tá de TPM e veio nos apavorando na viagem.
— Ai que medinha dele!
Pezão lançou um olhar tão assustador para ela que até eu fiquei com medo. Mas ele voltou sua atenção para o aparelho celular:
— Eu sei que você ainda está puta da vida comigo. Reconheço, pisei na bola feio. Mas eu gosto muito de você! Me perdoa, Margareth!
— Margareth — Bel falou lentamente. — Que nomezinho mais antiquado, né?
Dessa vez Pezão quase voou no pescoço dela.
— Quem é você para falar alguma coisa? Você tem nome de rosquinha, caralho!
Ele abriu a porta com raiva e saiu do carro. Fechou a porta com ainda mais raiva. Acho que ele saiu para não dar um soco na cara da Bel.
— Tem geladeira na sua casa não? — ela disse.
— Bel, dá um tempo! — falei. — Nós viajamos até aqui para ele encontrar a namorada e agora você quer foder tudo? Ei sei que é esta sua maldita doença esquista do caralho, mas tente se controlar, por favor!
Pensei que ela ia baixar a bola, mas eis que ela me responde com uma voz cínica pra cacete:
— Tudo isso é ciúme do seu amiguinho? Vocês formam um belo casal.
O sangue ferveu. Confesso que fiquei com muita vontade de sentar a mão na cara dela, mas não bato em mulher. Homem que é homem não faz isso.
Lá fora Pezão ainda travava uma batalha épica por um simples endereço. Já imaginaram se a Margareth decide não lhe dizer onde mora? Voltar para casa assim vai ser foda, nosso amigo ficará puto.
Bel abriu um pacote de biscoito de polvilho. Viva! Vai me deixar em paz pelos próximos minutos. Ou não.
— Ai que brega! — disse ela, de boca cheia. Voou pedaço de biscoito por todos os lados, inclusivo nos meus cabelos. Ela apontou o dedo na direção do Pezão — Você viu aquilo?
— O quê?
— Não ouviu o que o mané disse para a namoradinha dele?
— Não, porra! O quê?
— Ele disse “Eu te amo”.
— Sério? Mas como você conseguiu ouvir?
— Eu não ouvi. Nunca ouviu falar em leitura labial?
Tem alguma mina aí disponível para vir aqui dar um soco na cara da Bel? Pago quando puder.
Será que o Pezão disse aquilo mesmo? Ele está voltando para o carro, vem sorrindo de orelha a orelha. Acho que conseguiu o que queria.
— Rua das Palmeiras, número 702 — repetia ele, sem parar.
— Caraca, teve que dizer “eu te amo” para conseguir o endereço?
Ele olhou espantado para mim.
— O quê? Eu não falei isso.
— Disse sim — afirmou a Bel.
— Não viaja, rosquinha!
— Rosquinha é o teu cu!
Comecei a rir que não parava mais, parecia uma hiena doidona no Tomorrowland.
Pezão deu uma ré queimando os pneus, quase atropelamos duas velhinhas. Uma delas tentou acertar uma bengalada na traseira do carro. A outra nos xingou, mas não entendi o que disse.
— Rua dos Pinheiros, número 702 — Pezão disse para ele mesmo, baixinho.
— Rua das PALMEIRAS, seu idiota! — gritou a Bel lá atrás.
— Nada a ver.
— Rua das Palmeiras, 702 — confirmei. — Pelo menos foi o que você disse quando voltou para o carro.
— Estou muito nervoso, caralho.
— Tô vendo mesmo. Essa Rua das Palmeiras fica muito longe?
— Nada aqui é longe — Bel disse. — Essa cidade não tem nem 15 mil habitantes. Se você engatar a segunda marcha voltamos para a estrada.
Saindo do estacionamento pedimos informações para um velhinho. Caraca, só tem velho nesse lugar? Ele disse, gesticulando mais do que um guarda de trânsito:
— Siga esta avenida até a Farmácia do Ciro. Depois vire à direita. Siga em frente até uma escola infantil. Esquerda. Direita. Pega a reta e vai embora até um semáforo. Quando passarem pelo semáforo vocês entrarão na Rua das Palmeiras.
Agradeci o velho, Pezão saiu queimando os pneus outra vez. E logo perguntou:
— Depois da Padaria vem o quê?
— Fala sério! — Bel disse. — Essa tal de Margareth devia estar a perigo mesmo para namorar um lesado como você.
Pelo espelho retrovisor Pezão mostrou aquele dedo para ela. Bel cagou e andou.
Guiamos o Pezão pelas informações do velho. Tudo certo, nos mínimos detalhes.
A Rua das Palmeiras não tem palmeira alguma, mas tudo bem.
A iluminação é péssima. Sofremos para enxergar os números das casas.
Acho que levamos mais tempo procurando o número 702 do que para encontrar a rua certa, mas por fim encontramos.
A casa é simples, o portão de ferro está enferrujado e o muro tem um metro de altura. Uma árvore gigantesca na calçada deixa tudo ainda mais escuro. Daria um ótimo cenário para um filme de terror.
Pezão encostou o carro.
Suas mãos tremiam ao volante. Ele estava num mix de empolgação e ansiedade.
— É agora — ele disse.
— Vai lá — falei, após um soco no ombro dele.
— Quanta viadagem — Bel disse.
— Vai se foder — xingamos juntos.
Pezão olhou para nós e disse:
— Falei para a Margareth que vocês são namorados.
— Não foi bem o que você disse — Bel o corrigiu. — Eu ouvi perfeitamente quando você disse que sou a “ficante” do Nando. Ficante? Quem é que ussa essa palavra hoje em dia?
— Foda-se! O que importa é que vocês vão confirmar a história e ponto final. De agora em diante vocês formam um belo casal de pombinhos apaixonados.
— E se eu não quiser?
— Não existe esta alternativa. Você quer e foda-se.
— Vamos ver. Se eu for com a cara dela ...
Ela força a amizade, né? Calma, Nando, calma … você consegue não socá-la. Pense em lindas gaivotas voando num céu azul, com golfinhos pulando no oceano.
— Tudo o que eu peço é que vocês me ajudem, por favor! — Vi sinceridade na voz do Pezão como poucas vezes vi na vida. — Eu gosto muito dela, porra.
— Vai logo, mané! — disse Bel, impaciente.
E ele foi.
Olhou mais uma vez para o número da casa e, antes de bater palmas, recuou alguns passos e perguntou para mim:
— O número é aquele mesmo?
— Porra, Pezão, não sei quem tem a memória mais zoada: você ou a Dory do Procurando Nemo.
A Bel riu feito uma criança. Ah, ela ainda sabe rir, bom saber.
Pezão não bateu palmas, gritou o nome da namorada por sobre o portão.
Uns trinta segundos depois a porta da casa se abriu.
Como eu já disse antes, a iluminação do local é terrível, não consegui ver quem abriu a porta. Só sei que não foi a Margareth, ela é alta e magra, o vulto parado na porta é de alguém mais baixo e atarracado.
— Vocês vieram mesmo! — disse uma voz rouca, masculina.
Cacete, eu conheço essa voz.
— É o Nando ali no carro? — disse o personagem misterioso, apontando para mim.
Eu aaaaaaaaaaacho que já sei quem é. Será?
— Que acachapante! — ele disse.
Suspeitei desde o princípio.Contamos com os comentários de vocês lá na nossa Fanpage, OK?
Capítulo 5 · Henrietta
Sim, é ele mesmo: Timóteo, ou simplesmente Tim, o gordinho peçonhento. Lembram dele, né? Primo da Margareth, chegado em coisas bizarras. Antes um moleque, agora um pré-adolescente, a cara estampada com incontáveis espinhas, seus cabelos ruivos caindo sobre os olhos — a porra virou Emo? — , cresceu mais para os lados do que para cima. Incrível como ele me faz lembrar demais do saudoso Mamute.
Ele abriu o portão e deu um abraço-surpresa no Pezão. Este ficou paralisado.
— Quanto tempo, cara! — disse Tim, abrindo um sorriso ingênuo e sincero.
— Você está mais gordo — disse Pezão, seu jeito sutil de ser.
— Mais apetitoso, você quis dizer.
— Não. Mais gordo mesmo.
Desci do carro para dar um abraço no gordinho.
— E aí, beleja? — perguntei, enquanto seus bracinhos fofos me contornavam.
— Nando, que saudade de você, cara!
— Cadê a sua prima? — perguntou Pezão impaciente.
— Ah, ela saiu para comprar macarrão. Volta já.
— Ela vai fazer macarronada para mim? Eu adoro a macarronada dela!
Os olhos do nosso amigo brilharam como poucas vezes eu vi. E senti Pezão com voz de remorso? Uau, parece que ele realmente tem sentimentos.
De repente alguém finalmente deu o ar de sua graça:
— Aeeeeeeee! — gritou Bel, olhos fixos no Pezão. — Ganhei a aposta, mané!
— Que aposta? — disse Tim. — E quem é ela?
Fodeu. Se a Margareth souber da aposta vai pegar mal.
— Esta é a Bel — falei, abrindo a porta do carro para ela. — Estamos ficando.
— Nossa! — disse Tim, fazendo uma cara de espanto.
Bel desceu do carro me encarando por cima dos óculos. Seus olhos são lindos demais, parecem ter sido pintados por um artista.
— Ficando? — ela disse, franzindo a testa. — Ah é, sou a ficante, quaaaaaaase me esqueci.
Ufa! Acho que ela embarcou na brincadeira. Se fosse a “outra” Bel eu até arriscaria um beijo, mesmo que fosse só na bochecha, mas com a versão atual seria suicídio.
Tim se aproximou de mim e sussurrou no meu ouvido:
— Ela é a garota mais acachapante que eu já vi na minha vida, cara! — e por fim deu um soco no meu ombro. — Seu sortudo de uma figa!
— Vai demorar muito pra sair essa macarronada? — disse Bel.
— Vocês estão com fome? — disse Tim. — Vamos entrar, vocês aceitam uma xícara de chá com rosquinhas?
— Eu aceito! — é lógico que ela aceita.
O gordinho ficou olhando para a Bel, fascinado, parecia um cão vira-latas admirando aquelas máquinas de assar frango, as famosas TVs para cachorro. Eu tenho uma leve impressão de que ele se apaixonou por ela. Ou está salvando imagens dela em sua mente para bater uma punheta mais tarde. Eu fazia isso com as mães gostosas dos meus amigos na minha pré-adolescência. Fica aqui um alerta para as leitoras gostosas: se algum amigo (ou qualquer outro cara) fica te olhando de forma obcecada, pode ser que ele esteja fazendo exatamente isso.
— Eu sou o Tim — disse ele para a Bel, oferecendo-lhe a mão direita. Eles se cumprimentaram — Você é muito gata!
— E você é cheio de espinhas — retrucou ela.
Ao invés do garoto ficar chateado com o que ela disse, ele apenas sorriu de um jeito bobo. Acho que gamou mesmo.
Caímos para dentro da casa, que parecia ser bem maior por dentro do que aparentava ser pelo lado de fora. A sala era estreita, porém comprida. Para onde você olhava tinha um vaso com flores que eu nunca vi na vida. O lugar tem um cheiro adocicado bem enjoativo, aposto que tem um incenso aceso em algum cômodo próximo. Todos os móveis são de demolição e tem uma aparência medieval, muito bonitos. Nunca vi um sofá com madeiras tão grossas. A única coisa que ficou meio fora de tom foram as cortinas vermelhas, passa a sensação de que a qualquer momento vai entrar uma cartomante para dizer tudo o que você quer ouvir e tirar até o último centavo do seu bolso.
Na TV (de tubo) um casal de babuínos fazia sexo em cima de uma árvore. Logo fomos atraídos pela imagem, como ímãs. Tim dá um sorrisinho para nós e diz:
— Adoro como os animais fornicam o dia todo. Já fornicou em cima de uma árvore, Bel?
Soltei uma gargalhada rápida. Bel olhou para mim e disse:
— Esse gordo espinhento tem muitos problemas.
Tim sorriu, depois entrou por um corredor ainda mais estreito que a sala. A planta dessa casa deve ser bem esquisita.
Sentamos os três num mesmo sofá. O móvel tinha as almofadas mais confortáveis do mundo, senti uma vontade de me deitar e dormir até as duas horas da tarde de amanhã.
— Não tem com trocar de canal? — disse Bel. — Esses macacos tarados estão me irritando.
— Concordo — falei. — Ninguém consegue segurar uma ereção por tanto tempo.
— Eu consigo — disse Pezão, levantando a mão.
— Só que não — disse Bel. — E que mania ridícula é essa de ficar levantando a mão ao dizer as coisas? É algum tique nervoso?
De repente o gordinho voltou segurando uma bandeja com uma xícara e um pote de vidro cheio de guloseimas. Por um instante eu pensei que os olhos da Bel saltariam para fora das órbitas, como num desenho animado.
— Não temos pão — disse Tim. — Mas minha mãe faz umas roscas maravilhosas.
— Essa aí come até pedra, gordo — disse Pezão.
Bel tentou dar um peteleco na orelha dele, mas dessa vez ele foi rápido e conseguiu colocar a mão em cima e se proteger.
— Por que você nunca me chama pelo nome? — disse Tim para o Pezão. — Isso é bullying, sabia?
Pezão deu de ombros.
— Já te chamei de coisas piores — ele disse.
Enquanto isso, Bel já pegava sua quarta rosquinha do pote, eu contei.
— A rosquinha da sua mãe é incrível! — disse ela, e mandou mais uma para dentro.
— Ahã — concordou Tim. — Eu disse, né?
Vi nos olhos do Pezão que ele ia fazer uma piadinha. Não deu outra, ele disse:
— Então todo mundo gosta da rosca da sua mãe?
— Ahã — Tim nem percebeu a piada.
Pezão riu e enfiou a mão no pote, pegando uma rosquinha também.
— Vamos ver se a rosca da sua mãe é boa mesmo.
— Você é um idiota — disse Bel com a boca cheia, voou pedaço de rosca por toda a sala.
Para diminuir a tensão que crescia, decidi mudar o assunto.
— Você e a sua prima moram sozinhos? — perguntei para o Tim, e aproveitei para experimentar a tal da rosquinha. Meu, que porra é essa? Deliciosa, com todo o respeito.
— Não — Tim respondeu, depois se ajeitou numa poltrona de frente para nós. — Moramos com a minha mãe. Ela já deve estar chegando também.
— Sua mãe deve ter muito dinheiro — disse Bel. — Esses seus móveis são caríssimos. Valem mais do que a porcaria dessa casa.
— Rica ela não é, mamãe não se importa muito com dinheiro. Ela valoriza outras coisas. Ela é a mulher mais acachapante de todas.
Bel ficou encarando o moleque, a testa frisada, depois disse:
— Acachapante? Que porra de palavra é essa?
— Quando ela entrar por aquela porta você vai entender.
Barulho no portão lá fora, alguém chegou.
Será a tal da mulher mais acachapante de todas? Não, era a Margareth. Empurrava uma bicicleta com uma mão e segurava uma sacola de supermercado com a outra. Estava gostosa como sempre. Vestia uma camiseta amarela, um shortinho jeans tão curto quanto o que a Bel usou hoje mais cedo, e sandálias de salto alto. Se descalça ela já é enorme, imaginem agora, parecia uma modelo de passarela. Se Pezão pisar na bola com ela novamente eu mesmo bato nele. Será que ele não percebe o quão sortudo ele é?
— Oi — disse ela.
Acenamos para ela. Pezão ficou de pé, olhando para as pernas da namorada.
— Você foi ao supermercado assim? — ele disse.
— Ahã. Por quê?
— Pelada desse jeito? Aposto que dá pra ver até uma lasca da sua bunda.
Margareth encostou a bicicleta na parede e deu uma voltinha de 360 graus. Infelizmente não deu para ver uma lasca da sua bunda, mas confesso que faltou pouco..
— Jura que você veio até aqui para implicar com as minhas roupas? — disse Margareth. — Se for assim ...
Pezão agiu rápido, agarrou a namorada pela cintura e a beijou. Sobrou língua pra tudo que é lado, e até mão na bunda eu vi. De repente os babuínos na TV perderam até a graça.
— Não tem Motel nesse fim de mundo? — disse Bel, segurando a última rosquinha do pote. Caralho, ela já comeu tudo?
Foi instantâneo, Margareth apertou o botão STOP nos amassos e olhou para a Bel, dizendo:
— Quem é você mesmo?
— Sou a Bel — e olhou para mim, apontando o dedo indicador. — A ficante dele.
Margareth sorriu para mim e disse:
— Gostei dela.
— É um amorzinho — falei.
Se a sala já era bem diferente, a cozinha não ficou para trás.
Em volta dela toda havia centenas de potes, todos devidamente etiquetados. A maioria com nomes que eu nunca ouvi falar, como ALMÍSCAR, ARTEMISIA, HIPERICÃO e outros. O cheiro ali era diferente, menos enjoativo, talvez tenhamos nos distanciado do incenso, finalmente. Mais um minuto naquela sala e eu vomitaria.
Pezão e Margareth iniciaram uma DR civilizada perto da pia, enquanto o restante se sentou em volta de uma mesa belíssima. O móvel parece ter saído da cozinha de um Hobbit, toda entalhada com desenhos e uma escrita que eu não consegui identificar.
Tim não tirava os olhos de cima da Bel. Notei que ela estava ficando puta da vida com isso. Antes que ela estourasse e desse alguma merda, resolvi iniciar uma conversa:
— Seus pais são separados? — perguntei para o gordinho.
— Meu pai morreu, cara. Esqueceu? Ele e a minha irmã caçula sofreram um acidente num parque de diversões.
— Que sinistro. Sinto muito.
— Caíram de uma roda gigante.
— Puta merda, é sério?
— Ahã, seus corpos ficaram espalhados pelo chão do parque em vários pedacinhos. Teve gente que ...
— TIMÓTEO! — gritou Margareth por cima dos ombros. — Já deu, né?
De repente uma voz ecoou do corredor até a cozinha. Uma voz belíssima, diga-se de passagem. Ela disse:
— Que cheiro maravilhoso é esse, crianças?
Os olhos de Tim brilharam. Ele abriu um largo sorriso para nós e disse:
— Mamãe chegou.
Não sei se foi apenas impressão minha, mas senti o clima da casa mudar, e para melhor. Não sei como explicar isso, mas eu senti.
A mulher entrou na cozinha como uma diva, parecia a Ivete Sangalo subindo num trio elétrico em Salvador. Logo que ela nos viu, abriu um belo sorriso, como se já soubesse que estávamos ali. Acho que todos ficamos olhando para ela de queixo caído, pelo menos eu fiquei. Ela é bem mais nova do que eu imaginava, chutando alto uns 40 anos, mas deve ter menos. Magra, alta, elegante. A pele clara, sem rugas ou pés de galinha. Seu rosto tem formas meio quadradas, mas é belíssimo, as sobrancelhas são mais grossas do que estou acostumado a ver por aí, mas bem cuidadas, seus olhos são grandes e carismáticos, cor de mel, lindos. Seus lábios são grossos e no momento estão sem batom. Os cabelos são negros, longos e estão trançados num rabo de cavalo de fazer inveja em muitas cabeleireiras profissionais. Veste preto da cabeça aos pés, numa elegância impecável.
Vou ser bem honesto com vocês, se tropeçar na grande área eu apito e coloco na marca da cal.
— Você é adotado, né? — disse Bel para Tim.
— Não — respondeu o gordinho, todo sorrisos. — , mas não me importaria nem um pouco se fosse. Amo esta mulher — ele olhava para a mãe com uma devoção incrível. — Pessoal, esta é Henrietta, minha mãe. Linda, única, a perfeição da natureza, e é claro, acachapante!
O sorriso que Henrietta nos ofereceu foi tão perfeito que parecia comercial de pasta de dente.
Bel continuou sua linha de raciocínio, dizendo:
— Mas ela é tão linda e você …
A mulher de preto a interrompeu:
— Meu filho é lindo — ela disse com tanta convicção que eu acreditei nela.
— Se a senhora acha … — Bel disse.
Henrietta lançou um olhar raio laser para a Bel. Os olhos da mulher são grandes e impõem respeito. Até eu fiquei assustado. Putz, vai dar merda.
— Sinto algo estranho em você, mocinha — disse Henrietta. — Você se sente bem?
— Tirando a minha barriga que não para de roncar, está tudo ótimo.
— O jantar já está quase pronto — disse Margareth.
— É aquela sua famosa macarronada? — disse a tia, curtindo o aroma de molho no ar.
— Sim! Faz tempo que não faço, né? Foi a única herança deixada pela minha mãe.
— Que delícia! — e o rosto de Henrietta mudou, ela encarou os olhos do Pezão. — Criou vergonha nessa cara e veio visitar a namorada, Maurício?
— Sim, senhora.
Sim, senhora? Como assim? Nosso amigo paga um pau para a tia da Margareth?
Agora Henrietta olhou para mim. A mulher tem uma presença intimidadora mesmo, eu preciso admitir. Seus olhos grandes me encarando com atenção, como se estivessem lendo o último capítulo de um livro bom. Fiquei arrepiado. E ligeiramente excitado, admito.
— Você é o famoso Nando? — ela disse.
Fiquei de pé para cumprimentá-la.
— Famoso eu não sei, mas sou o Nando — e apertei a mão dela.
Quase tomei choque, eu juro. E percebi que ela também sentiu algo. Bom? Ruim?
— Você é muito espirituoso — ela disse. — Pessoas assim são sempre bem-vindas em minha humilde residência.
— Obrigado.
Tim também se levantou e deu um beijo na testa da mãe. Ela lhe retribuiu o beijo da mesma maneira. Bonita a relação dos dois.
— E você, mocinha — disse Henrietta para Bel. — , está em desequilíbrio total com essa casa. — E correu os olhos pelos potes etiquetados.
— Desequilíbrio? — resmungou Bel. — Do que você está falando? Não me amola.
Henrietta deu a volta em toda a cozinha recolhendo potes, empilhando uns sobre os outros, num equilíbrio espetacular. Será que ela já trabalhou no circo?
— O que ela pensa que está fazendo? — perguntou Bel para mim.
Dei de ombros.
— Mamãe prepara os melhores chás — disse Tim, sentando à mesa novamente.
— Não quero porra de chá nenhum! — Bel resmungou. — Quero comer, estou faminta.
— Gula! — disse Henrietta, de costas para nós. — Tem isso também.
— Gula é o teu cu!
Caralho, eu não acredito que ela disse isso. Ficou um silêncio constrangedor na cozinha. Todos pararam de respirar. Tenso.
Henrietta ficou imóvel por alguns instantes, respirou fundo, depois disse calmamente:
— Vai dar trabalho, mas a noite é só uma criança.
E a macarronada finalmente ficou pronta. Linda, suculenta, com molho caseiro, fresquinho. É uma pena que vocês, pobres leitores, não possam sentir o cheiro maravilhoso. Um cheiro tão bom que abafou totalmente os malditos incensos.
Enquanto avançávamos sobre a macarronada feito leões sobre uma zebra manca, Henrietta ainda procurava por novos potes. Parecia obcecada, nem olhava para nós.
— Vem jantar, tia! — disse Margareth, já devidamente sentada e de prato arrumado. — Depois você resolve isso.
— Já estou indo, querida — respondeu Henrietta com sua voz doce.
— Não vou conseguir esperar por você, mamãe — disse Tim. — O cheiro está bom demais. Tudo bem?
— Comam, crianças, comam!
E foi exatamente o que fizemos.
Comemos. E como comemos! Eu repeti três vezes, só perdi para a Bel, é claro. Agora eu me pergunto: para onde vai toda essa comida? Ela só foi ao banheiro uma vez. Seria necessário um exército de lombrigas para dar conta de tudo o que ela comeu só no dia de hoje.
Quase não sobrou macarronada para a dona da casa. Se Margareth não fosse esperta e separasse um pouco dentro do forno, nossa amiga Magali, quero dizer Bel, teria faturado também.
De repente Henrietta solta um grito de satisfação:
— Consegui!
Despejou um líquido cor de guaraná numa belíssima xícara de porcelana e trouxe para a mesa. Depositou a xícara lentamente na frente da Bel e disse:
— É pra você, Mirabel.
Bel ficou irritada. Novidade, né?
— E desde quando se toma chá após uma macarronada? — ela disse. E afastou a xícara para longe dela. — Não vou tomar essa porcaria!
— Não seja estúpida, garota! — disse Margareth, indignada. — Minha tia perdeu o jantar só para lhe preparar este chá.
— Perdeu porque quis! Eu pedi, por acaso?
Vi nos olhos de Margareth que a vontade dela era socar a cara da Bel, mas a namorada do Pezão contou até 10 e se conteve.
— Tome o chá, Bel — falei o mais gentil que consegui.
— Toma você então!
— Não — disse Henrietta, calma feito um monge tibetano — Eu fiz especialmente para você, querida.
Todos os olhares estavam voltados para a neta favorita da Dona Mirtes. Notei que ela estava ficando vermelha, só não sei se de raiva ou de vergonha.
— Se eu tomar um gole dessa porcaria vocês me deixam em paz?
Todos assentiram em silêncio.
Bel fez uma careta, pegou a xícara, hesitou por alguns instantes, mas enfim tomou um gole.
— Até que é gostoso — disse ela, um pouco mais calma. — O que você colocou nisso aqui?
Henrietta sorriu para ela, enquanto alisava o próprio queixo com o polegar e o dedo indicador. Depois disse:
— Isso não importa. O que realmente importa é que você vai se sentir bem melhor quando esta xícara estiver vazia. Confie em mim.
E num segundo gole ela tomou todo o conteúdo da xícara. Incrível como o rosto dela mudou quase que de imediato. Sorria feito uma criança que viu a mãe na porta do colégio esperando por ela.
— Por que estão todos olhando para mim? — ela perguntou, colocando a xícara vazia sobre a mesa.
— Como se sente, Mirabel? — perguntou Henrietta, enquanto abria o forno para pegar o que sobrou da macarronada.
— Nossa, eu me sinto ótima, pareço até mais leve!
Porra, depois de tudo o que ela comeu? Chazinho milagroso, hein!
— A nuvem negra que estava em você desapareceu — disse Henrietta.
— Nuvem negra? — perguntou Bel, franzindo a testa.
Henrietta passou por nós com o seu prato de macarronada. O cheiro ainda estava delicioso. Ela respondeu:
— Assim que eu entrei em casa percebi que tinha alguém num desequilíbrio total com o ambiente. Tinha uma … nuvem negra sobre você. Às vezes eu vejo isso nas pessoas. Quando o coração da pessoa é bom, uma combinação certa de ervas resolvem, mas se o coração já estiver corrompido, aí é bemmmmm mais complicado.
Bel estava chorando.
— Nem sei o que dizer — ela disse. — Muito obrigada.
Incrível como até a sua voz voltou ao normal.
Henrietta finalmente pôde comer seu prato de macarronada, sob os olhares fascinados de todos nós. A mãe do Tim é acachapante mesmo.
Capítulo 6 · Outra Aposta
Cheguei ao lado da Bel perguntei no ouvido dela:
— É você outra vez?
Ela deu um sorriso gostoso, depois disso nem precisava responder, mas ela respondeu:
— Yeah, I’m back, baby!
— Ufa! — Dei um abraço nela.
— Não sei o que tinha naquele chá, mas preciso da receita.
— Você parecia outra pessoa, Bel.
— Eu sei. Eu avisei, né? Você me perdoa por todas as barbaridades que eu falei?
— Claro, mas … ainda vou me vingar pelos petelecos — e apontei para a minha orelha direita.
— Desculpa, Nando! — Ela riu. — Dói?
— Nããããããão, só latejava por meia hora, todas as vezes.
— Tadinho! Ah, obrigada por não me jogar para fora do carro.
— Vou ser bem sincero, vontade não faltou. Sorte a sua ser gostosa.
— Vocês só não me expulsaram porque eu sou gostosa?
— Ahã — e ri feito uma hiena que teve alta da UTI.
Ela deu um soco no meu ombro.
Tim se aproximou de nós.
— Você é tão perfeita — disse ele. — Ainda não entendi porque mamãe fez chá pra você.
Nós rimos. Bel disse:
— Aquela não era exatamente eu, Tim. Agora sou eu de verdade: Mirabel, uma garota comum, com nome de bolacha, viciada em salgadinhos e que nunca enjoa de assistir as versões originais de Star Wars.
— Essa Bel é fascinante — falei. E pisquei para ela. Sim, foi uma cantada.
— Fascinante é babaca — disse Tim. — Ela é ACACHAPANTE.
Bel ria que não parava mais.
Putz, que saudade eu estava dessa Bel. Tirando essas luzes esquisitas nos cabelos, ela faz o meu tipo, sem dúvida. Bom, acho que ela faz o tipo de qualquer cara, né?
Mas parece que tenho concorrência. Tim não tira os olhos de cima dela desde que a viu. Tudo bem que chamar o gordinho peçonhento de “concorrência” é até uma sacanagem com a minha pessoa, mas a questão é que ele parece um urubu sobre a carniça, não sai de cima! E lá vem ele de novo, puta que pariu!
— Bel, você lembra daquela cena inicial do filme Pânico, em que um dos assassinos mata o namorado da Drew Barrymore?
— Claro que me lembro! — ela respondeu, empolgada. — Adoro esse filme.
— Sério? — os olhinhos dele brilharam.
— O que tem nessa cena de tão interessante? — perguntei, boiando feito merda no esgoto.
— Nada — ele disse. — Eu só queria saber se ela lembrava.
Tim finalmente se afastou. Bel a seguiu com os olhos.
— Ele é uma gracinha — disse ela, ainda olhando para ele.
— O Tim? — reforcei apontando com o indicador.
— Bom, de um jeito meio bizarro e bem esquisito, mas eu também sou bizarra e esquisita.
— Bizarra e esquisita, você? Lógico que não!
Ela ficou me encarando alguns segundos, antes de me dizer isso:
— Sou tão — ela fez sinal de aspas com os dedos. — “fascinante” … que você teria me deixado sozinha no meio do nada.
— Mas não deixei.
— Por que eu sou gostosa. Grande bosta! — Nossa, como sua voz ficou irritada de repente. Será que a Bel maluca voltou? — Gostosa qualquer garota imbecil pode ser. Eu não quero carregar esse rótulo, sempre odiei ser a gostosa da turma.
Caraca, é a primeira vez que escuto uma garota dizer isso, e acho que será a última também, né? Ela deu as costas para mim. Só agora percebi que estávamos sozinhos na cozinha.
— Bel, espera! — falei, mas ela nem me deu bola, entrou pelo corredor pisando duro.
Merda! Eu e a minha boca grande.
Bel e Tim estavam na sala, sentados um em cada canto do sofá. Quando Tim percebeu que eu procurava pelo resto da turma, ele disse:
— Mamãe está no banho. Seu amigo e Margareth saíram para fornicar.
— Você venceu — falei para a Bel. — O milão mais fácil da sua vida.
Ela nem me deu bola, olhou para o gordinho e disse:
— Fornicar? Seu vocabulário é muito bom para alguém da sua idade.
— Obrigado, Belzinha.
Belzinha? Que porra é essa? Esse gordinho peçonhento tá muito folgado para o meu gosto. Eu sei que a Bel não é minha namorada, mas ele não sabe, então tecnicamente ele está dando em cima da MINHA garota. Estou certo ou ficando paranóico?
Sentei entre os dois no sofá. Nossa, quase gozei ao cair sobre aquelas almofadas incríveis. Um sofá desse na minha sala não ia prestar, eu não sairia nunca mais de casa.
Na TV um leão comia a leoa com vontade, sem sair de cima.
— Eu não sabia que o Animal Planet passava tanta putaria assim — falei.
— Não é Animal Planet, é meu DVD — explicou Tim. — Eu baixo os vídeos da Internet e salvo tudo em DVDs, catalogados por ordem alfabética e grau de excitação.
— Você fica de pintinho duro?
— Pintinho é o cacete — protestou ele. — Mas respondendo a sua pergunta: sim, eu fico muito excitado com estes vídeos. Eu passo por fases, sabe? Tipo, antes eu me excitava com imagens de desmembramento, depois passei pela fase dos desenhos animados.
— Desenhos animados? — disse Bel.
— Sim, eu era tarado pela Marge Simpson e pela Smurfette também.
Bel quase fez xixi na calcinha de tanto rir.
— Pior que a Smurfette é gostosinha mesmo — falei. — Mas ficar de pau duro com cenas desmembramento e animais, aí já é demais para a minha cabeça.
— OK, ficar excitado cenas de braços voando é meio que um lance só meu mesmo.
— Você acha? — ironizei.
— Sim, eu pesquisei na Internet. Mas com vídeos de animais é algo bem comum, existem até grupos no Facebook. Eu participo de todos eles.
— Você é maluco, cara.
— Não fala assim com ele, Nando! — disse Bel num tom desafiador. — Que tal uma aposta?
— Aposta, que aposta?
— Assim, você vai ficar de pé, no meio da sala, de frente para a TV. Tim vai colocar um dos vídeos dele e você vai assistir.
— Que aposta idiota.
— Se é tão idiota, será a grana mais fácil da sua vida. Cenzinho, topas?
— Não vou apostar nada — falei injuriado.
— Vou pegar um vídeo bem legal! — disse Tim, passando por mim feito um foguete gordo e desengonçado.
Fiquei encarando a Bel.
— Qual versão sua é agora? — perguntei.
— Fica frio. Cenzinho, Nando! — disse ela empolgada. — Basta você assistir dois minutos de vídeo e manter o seu … passarinho preso na gaiola.
— Tinha cocô na macarronada de vocês dois? — falei.
Tim voltou correndo com uma bolsinha cheia de DVDs. Bel começou a rir feito uma hiena passeando de mãos dadas com o Mickey pelos estúdios Disney.
— E por 150 — disse ela. — , você toparia?
Porra, será que estou perdendo dinheiro? Eu não tenho nenhuma tara secretar por animais (Smurfs não são animais, certo?). Vai ser fácil tirar dinheiro da neta favorita da Dona Mirtes. Decidi fazer uma contraproposta:
— Por trezentão eu topo.
Bel parou de rir e ficou me encarando com aqueles olhos lindos, e por fim disse:
— Tudo bem, mas você terá que assistir o vídeo por … 6 minutos cravados.
— Seis minutos?
— Sim. É pegar ou largar.
— Já separei o vídeo — disse Tim, com o DVD em mãos.
— São apenas animais trepando na natureza, né? Sem pegadinhas, hein!
— Sem truques — afirmou Tim.
— Mas como vocês saberão que eu fiquei ou não fiquei excitado?
— Já sei! — disse Bel, quase num grito. — Tim, você tem uma calça moletom para emprestar para ele?
— E qual é o gordo que não tem uma calça moletom? — respondeu ele. — Volto já!
— Se algo se mexer dentro da calça — disse ela, rindo. — Você perde. Eu ganho.
— Não acredito que vou fazer isso — falei, balançando a cabeça. — Devo estar muito desesperado por dinheiro.
Bel esfregou as mãos.
— Tente encarar como uma experiência — disse ela, tentando ficar séria outra vez, mas não conseguia.
Tim voltou com uma calça moletom verde-musgo nas mãos, tosca pra caralho.
— Esta deve servir — ele disse, oferecendo a peça de roupa para mim. — No fim do corredor, à direita, fica o meu quarto. Você pode usá-lo para se trocar. Já deixei a luz acesa para você.
Entrei no quarto e fiquei com medo de não conseguir achar a saída depois. Nunca vi tanta bagunça. Se você já viu aquele programa “Acumuladores” vai ter uma ideia do que estou falando. Pra onde eu olho tem uma lata de refrigerante aberta. Por incrível que pareça, a cama está impecavelmente arrumada. Encima dela um iMac novinho me deixou com inveja. Ao lado da cama, prateleiras de vidro, repletas de fitas cassete e DVDs. Nem perdi meu tempo tentando ler os títulos, com certeza não me agradariam. Nas paredes há centenas de pôsteres de filmes de terror, de Freddy Kruegger a Jogos Mortais. Isso eu até curti.
Mas vamos ao que interessa: a calça.
Ficou um pouquinho larga, mas acho que vai servir para o propósito. Se Nando Júnior se animar, eles saberão. Ainda não acredito que estou fazendo isso.
Ao deixar o quarto percebi que havia um único pôster diferente de todos os outros, com um hambúrguer Big Mac gigante esmagando o palhaço Ronald McDonald. Cara, se esse filme existe eu preciso assistir. Ou não!
Deixei a luz do quarto acesa (não achei o interruptor entre tantos pôsteres) e voltei para a sala. É lógico que eu fiquei ridículo com a calça, mas por 300 reais eu usaria até uma calcinha da Bel. Opa, Bel só de calcinha, tá aí uma imagem bonita para salvar em minha mente para mais tarde, hein!
Assim que coloquei os pés na sala os risos começaram. Bel olhou para a calça e praticamente rolou no chão, feito uma hiena que pensa que é uma foca.
Ah, esqueci de lhes dizer, além de horrorosa, a calça tem um furo na bunda. Top!
— Pago 500 se você topar uma voltinha pela noite “agitada” de Cachoeira Mirim — debochou Bel.
— Eu topo! — disse Tim. — E ainda vou sem cueca, se quiser.
— Você é fofo! — Bel apertou as bochechas do gordo. — Coloca esse DVD de uma vez, antes que alguém mude de ideia.
— Que bicho você escolheu? — perguntei, só de curiosidade.
— Assim não vale! — indignou-se Bel. — Tem que ser surpresa, pô!
— E que diferença isso faz? Fala logo, Tim. Hipopótamos, girafas e zebras?
— Avestruzes — respondeu Tim sério. — Meu favorito. Só de pensar eu já fico com uma mega vontade. De fornicar.
— Sério, Tim? — disse Bel. — Você está precisando de uma namorada, querido.
Porra, até que enfim ela disse algo que faz sentido. E acrescentei:
— Você está precisando é de um psiquiatra.
— Deixa o menino se excitar com o que ele quiser! — disse Bel nervosa. — Ele não está fazendo mal pra ninguém, né?
— Você tem cachorro, Bel? — perguntei. Calma, a minha pergunta tem um porquê.
— Tenho, um Rottweiler lindo, o nome dele é Saracura.
— Você acharia legal se o taradão aqui — apontei para o Tim. — comesse o rabicó dele?
— Eu não fornico com animais! — defendeu-se Tim. — Eu apenas me utilizo das imagens para me excitar.
— E fazer uma carinha para o azulejo mais tarde, é claro — completei.
— Às vezes. Bom, quero dizer, sempre.
— Parou! — disse Bel indignada. — Deixem o cu do meu cachorro em paz. E mesmo que Tim sequer pensasse na hipótese de comer o cu do Saracura, seria estraçalhado em pedacinhos. Sabem aquelas reportagens fofinhas sobre Rottweilers bonzinhos que não atacam? Meu Saracura jamais seria convidado, aquele bicho é do mal, até o olhar dele mete medo. Bom, mas estamos perdendo o foco aqui — ela puxou o celular do bolso. — Vou usar o cronômetro para marcar o tempo. Seis minutos. Todos preparados?
— Eu já nasci preparado — falei.
— Tudo certo com o vídeo, Tim?
— Certíssimo. Delícia!
Relaxei todos os músculos do corpo, balancei os braços, respirei fundo e fiz um sinal de positivo com o polegar. Tim apertou o “play” do seu controle remoto e Bel ligou o cronômetro do celular dela. Valendo!
Dois avestruzes (que eu não sei se formam um casal hetero ou gay) apareceram na TV Philco de 29 polegadas. Um deles está agachado num chão de terra cheio de pedregulhos (aparentemente um zoológico qualquer) e o outro está montado em cima. O que está embaixo faz cara de quem não está nem aí, o de cima move o seu longo pescoço para a direita e para a esquerda, sem parar, como se procurasse por alguma coisa no chão.
— O que ele tanto procura, uma camisinha? — falei.
— Opa, sem tirar os olhos da TV, Nando! — disse Bel.
— É muito sensual — disse Tim.
— Coitada da avestruz — disse Bel num tom triste. — , pela cara dela não vai gozar nem a pau. O de cima tá curtindo. Olha como as plumas dele balançam para cima e para baixo!
— Sem comentários — falei, tentando não perder o foco.
— Gente, vocês me dão uma licencinha? — disse Tim, correndo para o corredor.
— Aonde você pensa que vai? — disse Bel. — Nós dois somos os juizes da aposta.
— Volto já! — gritou ele do corredor. — A natureza me chama!
— Ele é muito fofo mesmo — zoei.
Confesso que ter a Bel encarando (sem piscar) a minha virilha me deixou um pouco desconfortável, mas acho que isso contribuiu ainda mais para o meu ótimo desempenho. Já se passaram alguns minutos e Nando Júnior permanece quietinho, imóvel. Acho que não sinto atração sexual por avestruzes, mais uma para o meu currículo de sanidade mental.
Nesses primeiros minutos foram vários casais diferentes de avestruzes, aparentemente eles gostam de rapidinhas. Quando o avestruz termina é simplesmente hilário, ele levanta e sai correndo para o lado, com seu órgão balançando atrás, como se nada de mais tivesse acontecido segundos antes. Eu ri todas as vezes. A coitada da avestruz ficava ali parada mais alguns segundos, talvez se perguntando que diabos lhe aconteceu, e que agora só lhe restava esperar pela chegada dos pequenos avestruzezinhos (nunca pensei que fosse escrever esta palavra na minha vida).
— Morreu aí? — gritei na direção do corredor.
Nenhuma resposta.
— Deixa o moleque! — disse Bel, olhando para a minha virilha.
— Já separou o meu din-din? — perguntei. — Este vídeo está melhor do que a Zorra Total, mas “ele” — apontei para o meu bilau. — não viu graça alguma.
— TIM, VEM TROCAR O VÍDEO! — ela gritou. — Esse aqui tá muito sem graça mesmo. Talvez uns gorilas sejam mais excitantes.
— Sério? Dois gorilas trepando na floresta? Você se excitaria?.
— Sei lá, dependendo do gorilão, alto, batendo no peito, todo machão, pode até ser que …
Tim voltou. Estava todo contentinho.
— Descabelou o palhaço? — zoei.
— Ahã, tó até mais leve.
— Troca o vídeo, Tim! — disse Bel ansiosa. — Já se passaram 2 minutos e meio e não aguento mais esses avestruzes estúpidos, parecem até meus ex-namorados.
— Tenho uns vídeos bem bacanas com cigarras.
— Cigarras não, caramba! — protestou Bel. — Quem é que se excita com cigarras?
Tim levantou o braço. É lógico que levantou.
— Já sei, Gorilas! — disse Bel empolgada. E apertou um botão do celular.
— Acabaram os seis minutos? — perguntei todo animadinho.
— Não, apenas pausei o cronômetro. Faltam 3 minutos ainda. Quando o Tim trocar o vídeo recomeçamos de onde parou.
— Acho que eu tenho um bem legal — disse Tim, procurando na sua bolsinha de DVDs. — Achei! Esse é acachapante!
— Isso, queremos uma barraca armada dessa vez! — disse Bel.
Se você vestir aquele shortinho do almoço consegue uma barraca armada em segundos, querida! Calma, mantenha a concentração, Nando! Serão os trezentinhos mais fáceis que você já ganhou na vida, cara!
Tim trocou o vídeo. Está pausado, mas já dá para ver um casal de gorilas num fundo verde, uma floresta. Fiz sinal de positivo, lá vamos nós para os últimos minutos de Sexo dos Animais Vs. Nando Júnior. Quem vencerá esta incrível disputa? Bel apertou o botão do cronômetro.
Para facilitar ainda mais a minha vida, imaginei a voz do Galvão Bueno narrando a nossa luta. Em minha mente ele disse assim:
“Bem amigos da Rede Globo, estamos aqui para mais uma luta de MMA - Minhoquinha Morta Adormecida. De um lado ele: Nando Júnior, que em outros dias já foi uma anaconda incansável, enorme, durona, mas que nesse momento luta bravamente para permanecer acachapantemente mole. Do outro lado, vindo diretamente das florestas tropicais da África: os gorilas tarados de Uganda, incansáveis procriadores da mãe natureza. Haaaaaaaaaaaja coração!!!”.
Eu estava me saindo muito bem, até que … faltando pouco menos de 1 minuto para eu faturar a grana mais fácil da minha vida, algo totalmente inesperado aconteceu.
Capítulo 7 · O Clima Esquenta
Henrietta me aparece na sala vestindo um babydoll preto mais transparente que água de nascente. Uau! Tentei não olhar pela segunda vez, mas já era, a imagem grudou na minha mente feito música de axé no Carnaval.
— O que estão fazendo? — disse ela, e fez o “favor” de parar ao meu lado.
— Apostamos que o Nando … — disse Tim, mas foi logo interrompido pela Bel.
— Eu vi, mexeu! — Gritou ela empolgada, parecia gol do Brasil na Copa do Mundo.
— O que foi que mexeu? — perguntou Henrietta.
Bel ficou meio sem graça. Acho que finalmente ela percebeu o absurdo que estamos fazendo.
— Seu bigulim tá duro, cara! — disse Tim apontando. — Acachapante!
E o pior de tudo é que estava mesmo. A primeira reação que tive ao ver que todos na sala olhavam para a minha barraca armada foi me encolher. Eu devo estar mais vermelho que a bandeira do PT.
Tim e Bel fizeram um “toca-aqui” no ar e vibraram, rindo feito duas hienas apaixonadas numa tarde de verão.
— Não valeu! — protestei. E quando a ereção começava a se dissipar olhei para o lado e dei de cara com as coxas de Henrietta. Nando Júnior se animou outra vez.
— Por que não valeu? — disse Bel franzindo a testa — Ainda faltam 10 segundos para acabar o tempo. Valeu sim senhor!
Puta merda, como eu explico que o motivo de eu ter ficado de pau duro não foi o casal de gorilas na TV, mas sim a mãe do Tim, mais gostosa do que nunca.
— Acontece que … — tentei explicar, mas não tive a moral, não com ela aqui do meu lado. Ela intimida.
— Acho que agora eu entendi — disse Henrietta sorrindo para mim. — É perfeitamente normal ficar excitado, querido.
Tudo o que eu consegui fazer foi balançar a cabeça e dar um sorrisinho bem amarelo para ela. Juro, poucas vezes na minha vida eu fiquei tão sem graça. Nando Júnior começou a se encolher outra vez.
— Tem algum supermercado aberto a essa hora? — disse Bel para Henrietta.
— Só lá no centro, por quê?
— Para eu gastar os meus 300 reais em coisas bem gostosas.
Tim arregalou os olhos.
— Um potão de Nutella cairia bem — disse ele, lambendo os beiços.
— Sinto desapontá-los — falei. — , mas não tenho essa grana toda aqui comigo. Quero dizer, acho que eu não tenho nem 30 paus.
Bel ficou me encarando sem expressão. Por fim disse:
— Eu deixo por 30 paus, se você tiver.
— Minha carteira está na minha calça — falei. — E a calça ficou no quarto dele — apontei para o Tim.
— Eu pego lá! — disse o gordo todo animadinho. Quando o assunto é comida, né?
Ele voltou num piscar de olhos, segurando a minha calça.
Tirei a carteira do bolso e tudo o que eu tinha era isso: uma nota de 10, uma de 2 e duas de 5.
— Merda — disse Bel desanimada. — , não dá pra comprar nada.
— Não mesmo — tentei convencê-la a desistir de pegar o meu dinheirinho.
— Mas é melhor do que nada. — Não deu certo. — Passa pra cá!
Quando eu estiquei as notas na direção dela, Henrietta segurou delicadamente o meu pulso e me disse com sua voz deliciosa:
— Deixa comigo, querido — quase fiquei de pau duro outra vez. Depois ela olhou para a Bel — Vocês podem ir ao supermercado e trazer um pouco de cravo-da-índia para mim? Com o troco vocês compram o que quiserem.
Bel arregalou os olhos e assentiu, sorrindo.
Henrietta saiu pelo corredor e voltou com uma nota de 100 reais.
— Preciso de 100 gramas — disse ela, entregando a nota nas mãos da Bel.
— Nutella, uhuuuuuuu!!! — disse Tim quase gozando na cueca.
— Não exagerem nos doces, OK? — disse Henrietta.
— Não sou muito fã de doces — respondeu Bel, colocando a nota no bolso.
Henrietta olhou séria para o gordo.
— Mas ele é — disse ela.
Tim e Bel saíram às pressas e nem perguntaram se eu queria ir. Eu não iria de qualquer jeito, mas custava perguntar? Magoei.
Brincadeirinha, magoei porra nenhuma. Fiquei sozinho com a gostosa de babydoll.
Fui até o quarto do Tim colocar minha velha calça jeans outra vez. Quando voltei, Henrietta estava sentada num canto do sofá com as pernas cruzadas. Ela desligou a TV com o controle remoto, depois disse:
— Odeio essa coisa.
Sentei no outro canto do sofá, e respondi:
— Também não muito fã de TV.
Silêncio por um tempo, aí ela falou:
— A menina continua com uma fome anormal.
— Anormal é pouco, nunca vi ninguém comer daquele jeito.
— Já resolvi problemas de muita gente com os meus chás, mas a gula ainda é um mistério para mim. Fico muito chateada, pois eu queria poder ajudar o meu filhote. Não sei se já percebeu, mas ele está um pouquinho acima do peso.
Um pouquinho? Eu tive que me segurar para não rir.
Tem algo nessa mulher que me deixou intrigado desde a primeira vez que bati os olhos nela. Foda-se, eu vou falar.
— Posso te fazer uma pergunta? — falei, olhando para ela por cima dos ombros.
— Claro, querido. E a resposta é “sim”, eu sou o que você está pensando que eu sou.
Suspeitei desde o princípio. Nunca foi tão excitante ficar a sós com uma bruxa.
— Como sabia o que eu ia perguntar? — falei.
— Eu vi nos seus olhos. Você não tem medo de mim.
— Lógico que não, e por que eu teria?
— Muita gente tem.
Comecei a rir.
— O Pezão se borrou todo quando você chegou — falei.
— Aquele é um cagão mesmo — ela gargalhou alto. — , mas apesar dos muitos defeitos, tem um bom coração.
— Verdade, ele não é de todo ruim.
Silêncio outra vez. Porra, a mulher acaba de assumir que é bruxa, e eu ainda estou aqui na sala, sentado ao lado dela. Será que estou enfeitiçado por ela? Com certeza.
— Você adora o capeta e coisas assim? — perguntei.
Henrietta riu tanto que eu achei que ela fosse mijar no sofá. Acho que a minha pergunta foi bem idiota, né?
— Sou bruxa, não satanista — explicou ela. — Também não como criancinhas, não sacrifico animais, não uso aqueles chapéus ridículos e não vou ao supermercado voando sobre uma vassoura.
— Desculpa — fiquei sem graça. — , sou um tapado mesmo.
— Você não é um tapado. Muita gente não sabe nada sobre nós.
— Então você é uma bruxa ... boazinha, né? — Quase que eu falei “boazuada”, mas consegui voltar a tempo.
Ela sorriu para mim antes de responder:
— Sim, Nando, não precisa ter medo de mim.
— Mas eu não tenho medo de você.
— Eu sei. Você sente por mim exatamente o mesmo que eu sinto por você — disse ela com uma voz super sensual. Fiquei surpreso. Aí ela deslizou o seu corpo na minha direção e pousou sua coxa direita sobre as minhas pernas. Seu perfume chegou ao meu cérebro feito um jab de direita. Nossos rostos coladinhos, meu coração aceleradíssimo, Nando Júnior explodindo de tesão dentro da cueca e …
A porra do meu celular resolve que é a hora certa para tocar.
Cortou o clima totalmente. Porra!
Começamos a rir. Eu ria de raiva, Henrietta eu não sei.
— Pode atender — disse ela, debruçada de frente para mim, seus seios suculentos quase vazando para fora. Mata o papai, mata!
— Foda-se o celular — falei, tentando arrancá-lo de qualquer jeito do meu bolso e desligá-lo o mais rápido possível. Seios suculentos são prioridade, né?
Já reparou como as tarefas mais simples da vida parecem testes de física quântica quando você precisa executá-las com rapidez? Quanto mais a porra do celular tocava, mais eu penava para encontrá-lo no bolso. Que dureza!!!
— Quer uma ajudinha aí? — zombou Henrietta.
Ufa, consegui!
— Vou desli…
— Pode ser algo importante — interrompeu ela. — Atenda.
— Eu até já sei quem é — mas olhei para a tela para ter certeza. — Sim, é ele mesmo.
— O Maurício? — Assenti. — Ele está com a minha sobrinha. Eles podem estar precisando de ajuda. Atenda, Nando.
— Sério mesmo? — implorei por um “não”.
— Sim, por favor — ela respondeu séria.
Droga! Então eu atendi:
— Desembucha — falei, puto.
— Por que demorou tanto para atender, porra? — disse Pezão bem baixinho. — Precisamos voltar pra casa!
— O quê? A ligação está péssima.
— Sou eu que estou falando bem baixinho, a Ma está tomando banho.
— O que você quer? Estou … — dei uma bela olhada naquele corpo escultural à minha frente. — muito ocupado aqui!
— Ocupado? Ocupado com o quê?
— Não é da sua conta. Vou desligar.
— Calma, escuta! Nós precisamos voltar urgente, surgiu um problemão.
— Problemão, como assim?
— Nem te conto, fodeu! A Ma está saindo do banho, vou ter que desligar.
Pezão desligou o celular na minha cara.
— Que história é essa de “problemão”? — disse Henrietta preocupada.
— Ele deve ter brochado. — Ela ficou olhando séria para mim. — Fique tranquila, não é nada com a Margareth, ela estava tomando banho.
— Certeza? Ouviu a voz dela?
— Calma, meu anjo. — falei, e desliguei o celular de vez e peguei na cinturinha da Henrietta. Sua pele é mais macia do que a de muita garota mais nova. — Os dois estavam se divertindo num motel. Uma ótima ideia, não acha?
Ela olhou bem nos meus olhos e sorriu. Puxei a gostosa para perto e beijei sua boca. Ela enfiou a língua quase na minha garganta e ficamos nessa por um bom tempo, minhas mãos ganharam passe livre para os seios e as coxas dela. Tentei algo mais quente, ao sul, mas ela deu dois tapinhas na minha mão, sinal vermelho. Será que tem “surpresinha”? Não, eu consegui passar a mão e não tinha absolutamente nada. Nada mesmo, ela é 100% raspadinha. Ui, delícia!
Quando eu percebi já estávamos no quarto dela, sobre a cama. E que cama enorme! Será que ela dorme com os 7 anões da Branca de Neve?
— Você é gostosa assim mesmo ou jogou algum feitiço em mim? — brinquei.
Henrietta colocou o dedo indicador erguido na frente da boca dela e fez “Shhhhhhh”.
Tirei a calça. Ela arrancou a minha cueca com um puxão rápido, suas unhas grandes arranharam as minhas pernas. Eu gritei. E nós rolamos pelos quatro cantos da cama gigante. Incrível como a cama não faz barulho algum, coisa boa mesmo. Uma vez eu transei sobre uma cama que fazia mais barulho que eu e a garota juntos.
— Sabia que eu sinto tesão por você já faz algum tempo? — disse ela, deitada sobre mim, com a língua enfiada na minha orelha.
— Sério? — perguntei, acariciando as curvas das suas nádegas. — Mas como?
— A minha sobrinha me mostrou uma foto sua.
— Nossa! Por esta eu não esperava.
— Na foto estavam você e o traste do namorado da Margareth. Lembro de ter dito a ela: “Você escolheu muito mal, o outro é muito mais interessante”. Ela riu, mas não disse nada. Acho que lá no fundo ela concordou comigo.
Rolamos e agora eu fiquei por cima, minha posição favorita. Chupei seu pescoço e fui me perdendo pelas curvas do seu corpo delicioso. Fiz uma longa pausa nos seios, adoro bicos rosados.
— Seus seios são perfeitos — falei. Ela sorriu mordendo os lábios, de olhos fechados.
Desci mais um pouco até a barriguinha sarada. Ela tem um piercing no umbigo, sexy! Quando cheguei na raspadinha eu me joguei de corpo e alma. Sem pelos fica bem melhor para uma boa linguada.
E chupei! Eu sei que elas gostam. Eu também gosto. Não sou egoísta na cama.
Chupei com vontade mesmo, como se não houvesse amanhã. Acho que ela quase gozou quando usei os dedos também.
— Agora é a minha vez — disse ela me derrubando para o lado.
Fiquei só esperando sua boca alcançar o Nando Júnior, mais melado do que nunca.
— Posso morder? — disse ela com cara de safada.
— Pode, mas sem arrancar pedaço.
Ela riu, e mordeu a cabeça de leve. Nossa, quaaaaaase gozei nos dentes dela.
Outra mordida, agora mais forte. Não me machucou, mas confesso que a primeira foi mais gostosa.
— Devagar, devagar … — falei segurando os cabelos dela.
Quando ela caiu de boca nós ficamos a três: Eu, Henrietta e Murhpy.
Meu velho amigo Murphy, da “Lei de Murphy”. Já expliquei isso umas 100 vezes, então não explico mais, procura no Google.
Alguém bateu na porta do quarto três vezes.
— Mãe, você tá aí? — gritou a voz lá fora.
Puta que pariu, tá de sacanagem comigo, né? A voz do gordinho peçonhento foi um balde de água fria. Henrietta olhou para mim assustada.
— Estou com dor de cabeça — disse ela, largando Nando Júnior. Deu pena dele, murchando mais e mais.
— Por que trancou a porta? — continuou Tim.
— Privacidade, meu filho.
— Mas por quê? Aconteceu alguma coisa?
— Timóteo, eu estou com muita dor de cabeça.
— Cadê o Nando?
Ela arregalou os olhos para mim.
— Estava assistindo TV na sala — respondeu ela.
— Ele não está na sala, mamãe.
— Acho que ouvi ele dizer que ia sair para comprar cerveja.
— Cerveja? No bar do Tonhão?
— Não sei, filho! Por favor, me deixe descansar.
— Posso lhe dar um beijo de boa noite?
— Já estou debaixo das cobertas, querido.
— Por favor, mãe!
Henrietta respirou fundo, torceu os lábios, e por fim disse:
— Só um minuto.
Henrietta saltou da cama bufando, vestiu o babydoll novamente e ajeitou os cabelos o máximo que deu. Lá fora ouvi Tim discutindo com a Bel sobre o meu “sumiço”.
— Entre no banheiro e se esconda dentro do box — sussurrou Henrietta para mim, depois deu uma piscada.
Foi exatamente o que eu fiz. Desci da cama com cuidado, recolhi todas as minhas roupas do chão e fui na pontinha dos pés. Segundos depois ouvi a voz do gordinho peçonhento ecoando pelo quarto:
— Precisa de alguma coisa, mamãe?
— Não, filho, obrigada. Já tomei um chazinho, logo ficarei boa.
— Tomou chá e a dor ainda não passou? Estranho, muito estranho.
— Não tem nada de estranho, agora me deixe descansar.
Silêncio. Tim deve estar investigando o quarto. Se desconfiar, fodeu.
— O Nando está aqui com você? — disse ele. Acho que fodeu.
— O quê? — respondeu Henrietta surpresa. — Tim, estou muito decepcionada com você! Agora saia do meu quarto, por favor.
— Desculpa, mãe!
— Tudo bem. Agora me dá um beijo e vá comer o seu pote de Nutella, que eu sei que você comprou.
— Mamãe, eu acho que estou apaixonado.
Suspeitei desde o princípio.
— Eu sei — disse Henrietta calmamente. — Agora vá.
Ouvi um beijo estalar na bochecha que até agora há pouco era toda minha. A porta fechou e Henrietta a trancou novamente. Ufa, essa foi por pouco!
Ela reapareceu nua no banheiro. Meu Deus, assim você mata o papai.
— Onde paramos? — sussurrou ela com um sorrisinho sacana. Adoro.
Nando Júnior até despertou do seu sono, parti para cima da Henrietta novamente.
Voltamos para a cama em silêncio.
Brincamos gostoso por mais um tempo, e quando não aguentei mais de tanto tesão eu sussurrei no ouvido dela:
— Eu não trouxe camisinha. Você tem?
— Veja na primeira gaveta da cômoda — e apontou para o móvel, enorme.
Pulei da cama e abri a gaveta feito um ninja. Mexi, remexi, nunca vi tantas calcinhas pretas na minha vida, todas iguais.
— Não tem camisinha nenhuma aqui — falei, frustrado. — Só 1 milhão de calcinhas.
Ela riu, e disse:
— Nunca uso a mesma calcinha duas vezes.
— Sério, mas por quê?
— Porque eu posso.
Olhei para o Nando Júnior, dormiu outra vez. Droga!
— Tá desanimadinho, é? — disse Henrietta para o Nando Júnior. — Vem aqui que eu te animo rapidinho.
— E o que fazemos com a falta de camisinhas?
— No quarto do Tim tem uma dúzia delas.
— Sério? Ele conseguiu comer alguém?
— Ele vai achar alguém especial, e vai ser em breve.
Ficamos olhando para a cara um do outro.
— O que você está esperando? — disse ela.
— Ué, você disse que as camisinhas estão lá no quarto dele, então fodeu.
— Nando, repare o silêncio que tá esta casa. Tim e a sua namorada de mentirinha saíram para procurar você.
— Opa, como você sabe que a Bel não é minha namorada?
— Sabendo. Agora vá pegar as camisinhas, antes que eles voltem!
Vesti a cueca e abri porta do quarto uns 10 centímetros. Coloquei o ouvido no vão e tentei ouvir alguma coisa lá fora. Nada. Silêncio total. Acho que eles saíram para me procurar mesmo. Uhuuuuu, me dei bem.
— Vai logo, Nando — ordenou Henrietta. — Estão na terceira gaveta da cômoda, ao lado de vaginas de borracha e uns ovinhos de masturbação.
— Você aprova isso? Você é uma mãe bem moderninha.
— Masturbação faz parte da vida, é natural e saudável.
— Mas que porra são ovinhos de masturbação?
— Quer mesmo que eu explique? Vai logo, Nando!
Eu fui.
O corredor estava um breu danado. O quarto do Tim fica no final do corredor.
Fui tateando a parede. Olhei para trás por um instante e pensei: “se vier alguém da sala vai me flagrar só de cueca pelo corredor”. Mas querem saber? Foda-se! Quarto do Tim. Terceira gaveta da cômoda. Camisinhas. Volto. Henrietta me chupa. Entro no clima outra vez. Peru pra dentro. Gemidos. Fuck me. Fuck me. Porra na camisinha. Sorrisos. Pernas bambas. Comi uma bruxa. Só alegria!
Só alegria, será mesmo?
A porta do quarto do gordinho peçonhento está entreaberta e a luz apagada, mas escuto uns gemidos, tem gente no quarto. Coloquei o ouvido no vão da porta, exatamente como eu fiz agora há pouco, a diferença é que dessa vez eu consegui escutar o Tim gemendo, provavelmente brincando com os seus ovinhos de masturbação.
Fodeu, não vou conseguir pegar as camisinhas.
Quando eu me preparava para voltar para o quarto da Henrietta escutei um gemido diferente, um gemido feminino.
Santa Pixirica, não pode ser! Será???
Capítulo 8 · Um Problemão
Eu sei que a curiosidade matou o gato, mas não resisti, fiquei ali parado diante da porta, tentando descobrir se o gordinho peçonhento estava perdendo o cabaço com a Bel ou se a voz feminina vinha de alguma boneca inflável de última geração, do tipo que geme.
Mas parece que é mesmo a Bel.
O que deu nela? Comeu cocô? Será que compraram alucinógeno no supermercado? Misturaram Nutella com maconha?
Calma aí, esperem um pouco … o chá. Sim, o chá! O chá que a Henrietta fez para ela. É isso! Só pode ser. A bebida não resolveu o problema da gula, mas curou a chatice da Bel e despertou uma paixonite pelo filhinho gorducho e virgem da bruxa.
Meu, alguém aí, me ajuda! Estou viajando na maionese? Será que isso faz algum sentido ou estou forçando a amizade?
Não, não estou. Tudo se encaixa.
Quando o gordinho contou para a mamãe que estava apaixonado pela Bel, Henrietta respondeu “eu sei”. Ela já sabia, tanto quanto já sabia que Bel não era a minha namorada. Tudo bem, Henrietta fez tudo isso pelo filho, ela apenas deu um empurrãozinho na vida sexual do garoto. Se eu pudesse faria o mesmo pelo meu filho.
Alguém acendeu a luz do corredor. E eu aqui só de cueca. Será a Henrietta?
— Nando??? — disse uma voz lá no começo do corredor. Margareth.
— Que susto! — falei, realmente apavorado, e sem ação alguma. Fui “pego de calça curta”, literalmente.
— O que você está fazendo aqui só de cueca?
— Como é que é? — disse Pezão surpreso. Ele não tinha me visto, até agora. Ele gargalhou alto. — Errou a porta do banheiro, filhão?
Juro, não consegui pensar em nada para responder. Fiquei travado.
— O que fazia no quarto do Tim? — disse Margareth franzindo a testa.
— O quê? — respondi tão rápido quanto uma bala. — Não! Eu não estava no quarto do seu primo.
— Comeu o rabo do moleque, Nando? — disse Pezão, rindo feito uma hiena curada de cataratas.
— Enfia o dedo no teu cu e assovia o hino da China em mandarim — falei.
— E o que você faz aí parado na frente do quarto dele só e cueca? — insistiu Margareth, agora vindo na minha direção. Pezão veio junto.
Pouco mais de 1 metro atrás deles vi um braço despejando todas as minhas roupas no corredor. Henrietta, é claro. Pezão e Margareth nem perceberam.
— Querem saber? — falei injuriado. — Errei mesmo a porta do banheiro, e daí?
E caminhei tranquilamente até as minhas peças de roupa jogadas no chão, logo atrás deles.
Margareth ficou me olhando. Será que ela percebeu que as roupas não estavam ali segundos atrás? O olhar dela diz que ela ficou, no mínimo, intrigada.
— Você tira a camisa e as meias para mijar? — perguntou ela.
— Eu ia tomar um banho quente. Porra, que interrogatório é esse? Está me estranhando, Margareth? Seu primo é um “gordinho gostoso”, mas não faz o meu tipo.
Ela riu.
De repente Tim e Bel saem do quarto abraçadinhos, suados, descabelados e com umas manchas marrons (pode ser Nutella, ou não, eca!). O sorriso de orelha a orelha na cara do gordo não nega, eles estavam mesmo brincando de “meu-pipi-no-seu-popô”.
— O que é isso? — disse Margareth incrédula. E olhou para mim. — Não creio … vocês estavam … Ménage à trois?
— Não, nada a ver! — respondi rapidamente. Se fosse a Margareth no lugar do gordo, até que não seria uma má ideia.
Margareth ficou olhando para o casal. Tim estava todo faceiro, beijou (o nariz?) da Bel, todo desajeitado e disse:
— Nós fornicamos. De verdade. Eu. Ela. Nós dois. Com Nutella. Foi …
— ACACHAPANTE — dissemos eu, Pezão e Margareth juntos.
Todos rimos.
Margareth franziu a testa e olhou para mim novamente.
— Está tudo bem — falei. — Nós terminamos, então ela dá para quem quiser.
— Nossa, quanta delicadeza! — disse Bel me olhando furiosa. — Não entendo o porquê desse alvoroço todo. Pintou um clima entre nós dois e rolou, só isso.
— Nós ficamos fora algumas horinhas e o mundo virou de pernas para o ar? — disse Margareth coçando a cabeça, estava mais perdida que cachorro em tiroteio.
— Finalmente molhou o biscoitinho, hein, gordo! — disse Pezão com uma cara bem sacana, dando tapinhas no braço dele. — Cachorrão! Tá mais ligeiro que o Nando.
Mostrei aquele dedo para o Pezão.
Tim não disse nada, apenas sorriu de orelha a orelha, de mãos dadas com o seu amor, fruto de um feitiço muito bem feito. Agora ele ficou olhando para mim, eu estava terminando de subir o zíper da calça.
— Errei a porta do banheiro — expliquei. — Acontece nas melhores famílias.
Tim nem deu bola para mim. E você daria? Porra, o gorducho acabou de comer a gostosa da Bel, até eu ficaria nas nuvens.
Resumo da história: Pezão comeu a Margareth; Tim comeu a Bel; eu comi uma bela macarronada. Que faaaaaaaase, hein!
— Cadê a tia? — perguntou Margareth.
Deve estar puta da vida. Chupei, mordi, dedei, massageei, deixei a mulher em ponto de bala, e não comi.
— Mamãe não estava se sentindo muito bem — explicou Tim. — , está deitada no quarto dela.
— Deitada? — disse Margareth surpresa. Aí ela olhou para mim. E olhou para a porta do quarto da tia, bem próximo de nós. E olhou para mim outra vez — Deitada, sei.
Margareth sacou, ela é ninja. E deve conhecer muito bem a tia que tem, né?
— Agora vocês me dão licença — disse Tim. — , nós vamos comer alguma coisa. Fornicar dá fome.
— Primo, até respirar te dá fome — disse Margareth.
Nós rimos.
Tim e Bel foram para a cozinha, ainda de mãos dadas. Que fofo! Que nojo!
Pezão chegou perto do meu ouvido e disse:
— Vamos embora ainda hoje.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Margareth disse nervosa:
— Embora o caramba! E se você for, não precisa voltar nunca mais.
Pezão ficou puto, fez uma careta tão feia que assustaria até uma criança dormindo.
— Eu não quero ir, mas eu preciso! — disse ele, quase gritando.
— Mas o que é assim tão importante que não dá para esperar até amanhã?
— É um negócio lá da minha mãe que eu me esqueci de fazer — explicou ele. — Ma, é sério, se eu não resolver isso amanhã cedinho ela me mata, ou pior, me deserta.
— Deserda — corrigi.
— Tanto faz — resmungou Pezão.
Margareth ficou olhando para ele com os olhos semicerrados.
— Eu prometo que resolvo isso e volto pra cá amanhã mesmo — disse Pezão, ele parecia sincero. — Eu juro pela minha mãe.
Margareth olhou para mim. Seu olhar de fogo quase me cegou.
— É mentira dele, não é? — disse ela.
Sem dúvida alguma. O tal “problemão” é outra coisa, só não faço ideia do que seja.
— Ele está dizendo a verdade — falei. — Vou ser bem sincero, não sei do que se trata, mas sei quando ele está falando a verdade, e ele está. Pode acreditar.
— Você sabe que ele pisou na bola, e feio dessa vez. Ainda estou magoada. Não pense que não estou, porque estou. Certas feridas demoram para cicatrizar.
— Acho que ele aprendeu a lição — falei. — Nunca vi o desgraçado tão arrependido em toda a minha vida.
Pezão olhou para mim com gratidão, algo que eu nunca vi também.
— Onde você estava, Nando? — perguntou Margareth. — Eu fico tão mais tranquila quando vocês estão juntos.
Não entendo o porquê, já aprontamos tanta coisa, não é?
— Agora eu trabalho, nem sempre tenho as noites livres — expliquei.
— Entendo.
Ficamos em silêncio, parados no corredor. Margareth e Pezão não pareciam um casal que acabou de sair do motel, pareciam ter saído de um funeral.
— É loucura pegar a estrada agora — disse Margareth. — Você não está em condições de dirigir.
— Não se preocupe — disse Pezão desanimado. — , a estrada está vazia, vai dar tudo certo. Eu não queria, mas infelizmente preciso ir. Você conhece a minha mãe. Se eu não ...
— De novo sua mãe? — Margareth perdeu a paciência. — Se vão embora, vão logo então! Não aguento mais esta explicação que não explica nada!
Pezão tentou um beijo, mas a namorada afastou o rosto. Tenso.
— Vamos — disse Pezão para mim.
— E o que fazemos com a garota-biscoito?
— Quem? — disse Margareth.
— A Bel.
— Ah, entendi. Mirabel. Biscoito. Essa foi boa. Você não tem sorte mesmo com garotas, hein! É cada uma que você arranja, Nando! A Poly já era mesmo? Eu achei que vocês fossem noivar e casar algum dia.
— Pois é, eu também pensei, mas a vida não é como a gente imagina, né?
— Com certeza não é.
Pezão foi até o fim do corredor, parou na porta da cozinha e disse em voz alta:
— Estamos indo embora. Você vem ou vai ficar com o bonequinho Lego do Faustão?
— Como assim indo embora? — respondeu ela. — Embora pra onde?
— Pra casa, porra!
— Mas, mas … mas como assim? Agora?
— Pra ontem! Você vem com a gente ou não? Não vou perguntar outra vez.
Silêncio. Ela não respondeu. Pezão deu as costas para a cozinha e voltou pisando duro.
— Vou dar só uma mijada e já vamos — disse ele para mim.
— Beleja — respondi.
Olhei no relógio do celular, são 1h35 da madruga. Estou muito curioso para saber o que aconteceu para obrigar o Pezão a voltar para casa a essa hora. A merda foi das grandes.
Margareth e eu esperamos por ele na sala. Ela não parava de esfregar as mãos, parecia muito preocupada. Ela gosta mesmo dele, sem dúvida.
— Vamos revezando até lá — falei, tentando acalmá-la.
— Grande coisa! Você também deve estar cansado.
— De boa, mas você teria um pouco de café?
— Não tomamos café, só chá.
Chá? Não, obrigado!
Pezão saiu do banheiro.
— Vamos? — disse ele pilhado. Não sei se estava mesmo pilhado ou se tentava demonstrar que estava bem acordado para enfrentar a longa jornada pela frente.
— Vamos — respondi. E dei uma última olhada naquele sofá onde eu catei a tia da Margareth. Lembrei da Henrietta só de babydoll deslizando seu corpo em direção ao meu, toda apetitosa. Eu queria tanto me despedir corretamente dela, mas acho que não vai dar tempo. Espero voltar algum dia para terminar o que começamos, foi muito bom.
— Eu queria tanto ir com vocês — disse Margareth bem chateada. — , mas amanhã bem cedo tenho uma entrevista de emprego. E faz muito tempo que estou esperando por esta oportunidade.
— Fica, meu amor — disse Pezão pegando nas mãos dela. — Amanhã mesmo eu estarei de volta, prometo.
— Promete mesmo?
— Prometo.
Enfim Pezão conseguiu beijá-la. Que fofo! Que nojo!
E nós partimos, queimando os pneus pela milésima vez.
Pensei que a Bel fosse mudar de ideia no último segundo e vir atrás de nós, mas isso não aconteceu. Lá no fundo vou sentir falta dela na viagem. Não daquela Bel mala-sem-alça, mas da Bel original, divertida e, acima de tudo, gostosa.
— O que eu falo para os avós da Bel se eles encontrarem na rua? — perguntei.
— Antes de mais nada manda o velho tomar no cu. E avisa aquele paspalhão que vou querer o meu dinheiro de volta. E diz a verdade, porra! Diz que ela veio até aqui e se apaixonou por um saco de banhas que não tem nem pentelhos no saco, e que os dois vão se casar e gerar os filhos mais esquisitões que já nasceram na face da Terra.
Por que eu fui perguntar, né?
Atravessamos em total silêncio toda zona urbana da cidade, que mais parecia uma cidade fantasma, diga-se de passagem. Não havia uma alma sequer pelas ruas, nada.
Éramos só Nando e Pezão outra vez, como nos velhos tempos.
E nosso amigo não parava de bufar, estava puto pra cacete.
— Vai me explicar o que aconteceu ou não? — falei, quebrando aquele maldito silêncio ensurdecedor, se é que isso realmente existe. — Desembucha, cara!
Pezão respirou fundo.
— Eu mato aquela piranha! — disse ele, cuspindo fogo no volante.
— A Bel?
— Não, aquela maldita biscate da padaria.
— Quem? Ah, aquela da foto com a língua na tua orelha?
— Ahã, essa aí. Aquela piranha!
— Mas você e a Margareth já fizeram as pazes, não fizeram?
— Sim, estamos de boa outra vez.
— Então larga mão. Por que estamos voltando para casa?
— Por causa disso — ele tirou o celular do bolso e começou a fuçar.
O carro começou a perder o rumo da estrada.
— Meu, olha para frente! — gritei. — Quer nos matar?
Ele me entregou o aparelho. Havia pelo menos uma dúzia de selfies da morena da padaria com ele, nus, numa cama redonda de motel. Detalhe: Pezão estava com os olhos fechados em todas as fotos. Muito bizarro, ele parecia um morto.
— Caralho, Pezão!!! — falei, incrédulo. — Será que ela te drogou?
— Sei lá! Eu me lembro de ter bebido muito naquela noite. Como eu já disse, nem me lembro de ter trepado com ela. A piranha fez estas fotos com o celular dela quando eu apaguei.
— E agora?
— E agora a filha da puta quer o meu iPhone.
— Como assim?
— Ontem, quando a Margareth foi tomar banho recebi uma ligação da piranha. Ela me disse que tinha algumas fotos nossas comprometedoras, e que enviaria estas fotos para a minha namorada.
— Filha da puta!
— Vai vendo … Ela disse que só não faria isso em troca de uma coisa.
— Seu iPhone.
— Exato, a piranha quer o meu celular.
— Até eu que sou mais bobo.
— Na hora eu achei que era brincadeira e desliguei o celular na cara dela. Menos de 1 minuto depois ela me enviou estas fotos pelo WhatsApp. E o pior, a vagabunda sabe o nome da Margareth! Como ela sabe? Sabe até o número do celular da Ma! Aí me fode.
— Você estava muito chapado, né? Deve ter contado tudo isso para a biscate.
— Verdade, pode ser. Não me lembro de quase nada daquela noite.
Pezão estava tremendo de nervoso.
— Fica sossegado, a gente dá um jeito — falei.
— Vou dar a porra do celular para ela e acabar logo com isso.
— Faz isso não, cara!
— A piranha vai mandar as fotos para a Margareth, aí será o fim, vou perdê-la para sempre.
— Você ama a Margareth, não é?
— O quê? Não, ah, sei lá! Eu não entendo dessas porras aí não, mas eu gosto dela pra caralho.
— Você é um cara de muita sorte. Precisava ver como ela estava preocupada com a nossa viagem. A Margareth te ama, Pezão.
— Você acha mesmo? — ele olhou para mim com atenção.
— Não acho, tenho certeza.
Pezão abriu um sorriso tímido.
Puta merda, isso aqui tá mais pra porra da Malhação do que para Nando e Pezão. Que melação-de-cueca do caralho! Aproveitei que o meu pen drive ainda está espetado no som do carro e coloquei a minha música favorita do Black Sabbath: Iron Man.
O clima mudou imediatamente.
— A primeira medida a se tomar é deletar estas fotos nojentas aqui — falei, balançando a cabeça para frente e para trás no ritmo da música. — Você está parecendo aquele cara do filme “Um Morto Muito Louco”.
E caí na gargalhada, Pezão não gostou muito da piada.
Meu, que fotos ridículas! A biscate fazendo biquinho em algumas e carinha de safada em outras; Pezão com cara de defunto, com baba escorrendo pelos cantos da boca. Se extorquir o Pezão não der certo, ela pode vender as fotos para alguma revista de contos de horror, dá para faturar uma boa grana.
— Eu não sei como vou reagir quando ficar cara a cara com aquela piranha — disse Pezão, do nada. — Acho que eu vou agarrar aquele pescoço e enforcá-la.
— Aí você vai preso. Não queremos isso. Lembra de Ubatuba, né?
— Lógico que eu me lembro, porra.
— Você não vai matar ninguém.
— Pelo menos um soco naquela cara-de-pau!
— Calma, Pezão, bater em mulher? Você não é disso, cara.
— Eu peço para minha irmã então.
— Quer meter a sua irmã na confusão, tem certeza disso?
— Verdade, é uma péssima ideia, ela contaria tudo para a minha mãe.
— Lógico que contaria! Você quer a sua mãe metida nisso?
Pezão olhou para mim com os olhos arregalados.
— Nem fodendo! Vira esta boca pra lá!
— Então deixa comigo, eu tenho um plano.
— Plano, que plano?
Eu tive uma ideia … acachapante (O gordo é peçonhento, mas estou sentindo a falta dele. A viagem seria mais divertida com ele ali no banco de trás. Ou não! Ele e a Bel “fornicando” não seria uma imagem muito agradável).
— Calma — respondi. — , nós temos toda a viagem pela frente, eu te conto.
Capítulo 9 · Lar, Doce Lar
E que viagem chata, puta que pariu! Pior que isso, só jogo de golf para cegos.
Se não fosse o meu pen drive eu teria me jogado para fora do carro, é sério. Parecia que estávamos andando em círculos. Eu tenho quase certeza de que passamos pelo mesmo cruzamento umas três vezes. Pezão garantiu que não.
Margareth ligava de hora em hora para saber se ainda estávamos vivos. Fofa!
Numa dessas ligações ela me perguntou se eu catei a tia dela. Respondi que não, mas ela continuou insistindo, até que o Pezão se irritou e tomou o celular das minhas mãos.
— Ele não tá com moral pra isso não, Ma! — disse ele com o celular colado ao rosto, rindo alto e dirigindo com apenas a mão esquerda. Se com as duas mãos no volante ele já é um perigo, imagine com apenas uma! — Não viaja! O Nando não tá pegando nem sarampo.
Não consegui ouvir o que a Margareth disse em resposta, mas escorreram lágrimas dos olhos do Pezão, de tanto que ele ria. Cuzão.
— Tudo bem então — continuou ele. — , se o Nando catou a sua tia … — ele olhou para mim com ar de deboche. — … vou dirigindo até a sua casa apenas de calcinha e sutiã.
E agora, conto ou não conto? Não, agora não, se eu contar agora ele vai pensar que estou zoando, só para ele ter que pagar o mico.
Eles ficaram naquela … “Ah, desliga você. Não, desliga você.” por um tempo, até que eu peguei a porra do celular e desliguei por eles. Que fofo! Que nojo!
Pezão ficou olhando puto para mim, putinho.
— Tá com invejinha? — disse ele. — Cara, eu não tenho culpa se você tá sem sorte com a mulherada.
Eu abri a boca para contar que catei a gostosa da Henrietta, mas no último segundo decidi ficar calado. Deixa que a Margareth vai descobrir tudo e contar para ele, aí eu vou estar lá para exigir que ele cumpra com a palavra, vai dirigir até Minas Gerais de calcinha e sutiã. Ah, vai, nem que eu tenha que roubar uma calcinha furada da Dona Mirtes.
E a porra do tempo não passa!!!
Tentei me manter alerta o máximo que pude, mas acabei cochilando.
Só acordei duas horas depois com uns empurrões nada delicados do Pezão. Estávamos parados no estacionamento de um daqueles restaurantes de beira de estrada.
— Obrigado pelo companheirismo — disse Pezão, abrindo a boca de sono. — Tá com fome?
— Não muita.
Pezão jogou a chave do carro no meu colo.
— Agora é a sua vez — disse ele. — Vem comigo, eu te pago uma jarra inteira de café. Se você dormir de novo eu te mato.
— Pezão, se eu dormir, a estrada mata nós dois, não se preocupe.
Ele ficou me olhando, irritado. Mas não disse nada, saiu e foi caminhando em direção à entrada do restaurante, feito um zumbi. Ele tá só o caco. Se eu não assumir o volante voltaremos pra casa em lindos caixões de madeira. Cruzes, deu até calafrios.
Incrível como estes restaurantes tem uma vida ativa 24 horas por dia, o lugar estava lotado. Mas tinha mais gente comprando óculos escuros do Paraguai do que comida, talvez seja para esconder as olheiras. Nunca vi tanta gente com cara de sono.
Bem acordados mesmo só os funcionários, que disposição às 3 da madruga!
Pedi um copo grande de café e um misto quente na chapa, Pezão pediu Coca-Cola e uma empada-monstro de palmito. Sentamos numa mesinha qualquer. Pezão não parava de me encarar.
— O que foi? — perguntei, aquilo estava me incomodando. — Eu sei que eu sou lindo.
— Você vai contar a porra do seu plano ou não?
— Ah, sim, o plano! Eu acabei de sonhar com isso, sabia?
— Meu, como você ronca!
— Eu nunca ouvi.
Eu achei graça, Pezão não, ficou me olhando com cara de pouquíssimos amigos.
— Já falaram que você é chato pra cacete? — disse ele. — Desembucha, porra!
— Tá certo, o negócio é o seguinte: você vai ter que catar a biscate mais uma vez.
— O quê? Você comeu bosta? Nem a pau, Juvenal!
Pezão falou tão alto que chamou a atenção de outras mesas próximas. Fiz sinal para ele pegar leve.
— Diz pra ela que você quer uma trepada de despedida. Se ela é tão vadia quanto você diz, ela vai topar.
— Aí a gente dá um cacete nela, né?
— Não, porra! Você vai dar alguma coisa pra ela apagar.
Pezão arregalou os olhos e finalmente sorriu.
— Vamos matar a piranha? — disse ele empolgado. — Massa!
— Porra, Pezão, você é mais devagar que o cágado da minha tia Jandira. Quando eu disse “apagar” eu quis dizer dormir, seu animal!
— Ah, tá, mas pra quê?
— Quer que eu desenhe com canetinhas da Hello Kitty? Enquanto ela dorme você pega celular dela e deleta todas as fotos que você encontrar. Molezinha.
Pezão ficou me olhando com admiração.
— Até que não é um plano tão ruim assim — disse ele, e tomou o resto do refrigerante num gole único.
— É perfeito, não?
— Perfeito não é, e se ela mandou as fotos para mais alguém?
Verdade. Eu não tinha pensado nisso.
Ela também pode ter descarregado as fotos num computador, mas acho que não, quem é que faz isso hoje em dia, né? Bom, quer plano infalível procure o MacGyver (vulgo Magaiver). O meu é esse e foda-se.
— Entra no WhatsApp dela e descobre — falei. — , dá pra saber se ela enviou para alguém. Eu acho meio difícil, pois as fotos ficaram muito bizarras, ela está com a cara toda borrada e você … — comecei a rir feito uma hiena que peidou e culpou o irmão caçula — … parece um defunto fresco.
Ele mostrou aquele dedo do meio para mim.
Pedi outro copo de café, quero chegar em casa vivo.
— O que você disse para a biscate, afinal de contas? — perguntei.
— Como assim?
— Quanto ela te chantageou, você simplesmente topou? Disse que vai dar o iPhone para ela e pronto?
— Na hora eu fiquei tão apavorado que não consegui pensar em outra resposta.
— E disse quando?
— Ela exigiu que fosse hoje. Tentei explicar para a piranha que eu estava bem longe, em outro estado, mas ela achou que fosse caô meu. Ela quer o meu celular hoje, ou manda todas as fotos para a Margareth. Piranha fodida dos infernos!
— Calma. Será que tá muito tarde para você ligar para ela?
— Sei lá, ela deve estar em algum motel tirando selfies com algum trouxa.
Dei risada, e tomei um longo gole de café.
— Pode rir — disse ele, envergonhado. — Eu reconheço que fui um trouxa. De todas as idiotices que eu já fiz, esta foi a maior de todas, com certeza.
Ah, não foi, mas não foi mesmo! E nós sabemos disso, né? Já contei da vez em que ele fritou um cocô e ofereceu para a irmã? Ela quaaaaaase comeu, pensando que era um kibe, mas o pirralho a salvou no último segundo. Meu, parecia MMA, voaram pernas e braços para todos os lados. A Maura sempre teve as mãos pesadas, ela bate feito homem, e vocês lembram que ela é quase isso mesmo. Mas pior do que os hematomas, Pezão ficou sem a mesada da mama por quase 2 meses, isso sim doeu nele.
Pezão pegou o celular.
— Vai ligar agora? — perguntei.
— Foda-se, vou ligar — respondeu ele, já discando. — Antes que eu desista.
Chamou por uns 20 segundos, ela atendeu.
— Te acordei? — disse Pezão num tom bem amistoso. Falso! — Eu estou voltando pra casa. E te avisei que estava viajando. Avisei sim, mas você não acreditou em mim. Sim, o nosso acordo está de pé. Mas … eu estava lembrando daquela noite no motel, foi bom demais. Será que podemos repetir a dose? O que você acha, hein? Meu, você é muito gostosa, eu preciso de mais uma noite como aquela, nunca ninguém me chupou daquele jeito. Ah, sei lá, daquele jeito que você fez, nunca vi nada igual. Você tem as manhas. Com a minha namorada não é a mesma coisa, ela é meio careta, tão sem graça! Eu sei, eu sei, você topa? O iPhone? Eu compro outro, sou rico. Fiquei puto sim, mas já passou. Foi uma ótima desculpa para voltar para casa. E aí, vamos curtir mais uma noite como aquela? Vamos? Legal, show de bola! Como é que é? Você tá de folga hoje? Porra, melhor ainda! Certo, mas onde eu te pego então? Ahã, certo, eu sei onde fica. Pode repetir o número? Meia nove? Hummmm, gostei do número. É, né? Safada! Eu te ligo quando estiver chegando então. Legal, gata, até mais tarde. Tchau!
Pezão desligou o celular, abriu um sorriso sacana e fez sinal de positivo.
— Caralho, foi bem mais fácil do que eu imaginava — disse ele. — Nossa, eu devo ter mandado muito bem naquele motel, ela me disse cada coisa. Mas eu não consigo me lembrar de porra nenhuma, nada, branco total.
— Você passou mel no bilau? — falei, uma velhinha que passava olhou torto para mim.
— Parece que passei — respondeu ele, guardando o celular no bolso. — , bastou eu começar a namorar sério, a mulherada tá arreganhando geral para mim. Você sabe, antes da Margareth eu não estava com essa bola toda.
Não mesmo.
Mas essa teoria é comprovada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts: sempre que estamos apaixonados, as tentações simplesmente despencam do céu e brotam da terra, é batata! Aposto que vocês, nobres leitores, já passaram ou passam por isso.
Voltamos para o carro.
Pezão se encolheu todo lá no banco de trás, de ladinho, como um mendigo na calçada. Deu um peido longo (que mais parecia uma corneta desafinada) e simplesmente desmaiou.
Somente quando o cheiro de palmito estragado evaporou totalmente eu me sentei diante do volante. Respirei fundo, fiz o sinal da cruz, sacudi os braços, estalei os dedos e liguei o carro.
Para competir de igual para igual com o barulho dos roncos (e peidos) do Pezão, coloquei o pen drive para tocar uma seleção das melhores do Iron Maiden.
Wasted Years tocando, aí sim.
Engatei a ré e deixamos o restaurante. Só para constar, não queimei os pneus.
Saudade da Bel. Se ela tivesse vindo, essa porra de viagem não seria esse inferno de monotonia do caralho. Acho que o café me despertou de verdade, mas também me deixou irritado, sei lá. Não costumo tomar café, principalmente nesta quantidade absurda que eu acabei de tomar. Espero que não me faça mal.
Quem já dirigiu de madrugada, com o banco do carona vazio, sabe como é chato pra caralho. Puta que pariu, e com alguém roncando e peidando no banco traseiro, pior ainda.
Apesar do café ter me deixado ligadão na primeira hora, o efeito foi passando aos poucos. Eu queria poder dizer que não pesquei, mas não posso, acho que pesquei pra cacete. Teve um momento em que eu quase enfiei o carro num barranco, mas o meu anjo da guarda estava fazendo hora extra, eu acho.
Pessoal, papo sério agora, jamais dirijam cansados, é foda.
Não dá para confiar no anjo da guarda sempre. Vai saber o que ele está fazendo, né? Os pobres coitados devem cochilar e tirar férias também, né? Não podemos arriscar.
Entre uma pescada e outra eu fui levando.
Quando Pezão acordou já estava claro lá fora, a linha do horizonte exibia um degradê alaranjado e o sol estava louco para dar as caras. Nunca vi uma imagem tão linda, quero dizer, tirando os seios da Henrietta. Meu, que seios eram aqueles? Bruxaria?
— Estamos vivos? — perguntou Pezão, tirando remela dos olhos.
— Opa! Só por Deus, mas estamos.
Não sei como, mas Pezão conseguiu pular para o banco do carona. O carro é lindão e o caralho, mas é bem apertado.
— A Margareth ligou? — perguntou ele, após um bocejo que parecia não ter fim.
— Não. Acho que não. Pelo menos não ouvi o seu celular tocar, e o meu também não tocou. A coitada deve ter dormido em cima do celular.
Ele balançou a cabeça, estava quase dormindo outra vez.
— Não me deixe aqui falando sozinho, porra! — reclamei, cutucando o braço dele.
— Viu como é ruim pra caralho dirigir com alguém roncando?
— E você peidou pra cacete também.
— Só eu? Você não peida, né? Acha que seu cu veio de enfeite? Vai se foder, você peidou pra caralho também! E você tem um gato morto aí dentro, puta que pariu.
Nossa, que discussão intelectual!
O mais importante é que estamos quase chegando.
— Preciso de um banho, urgente — falei.
— Com certeza. Eu até pensei que estávamos no seu Opala nojento.
Eu ia discutir novamente, mas achei melhor ficar calado, curtindo o visual, o sol subindo pelas montanhas e o céu mudando de cor. Pezão também não disse mais nada pelo resto da viagem, parecia tenso, preocupado.
Enfim, chegamos, e vivos! Lar, doce lar.
Parei o carro no meio-fio e falei para o Pezão, num tom apaziguador:
— Cara, fica tranquilo, vai dar tudo certo.
— Você vai me ajudar, né?
— A minha parte eu já fiz.
— E se algo der errado?
— Só depende de você.
Ele ficou me olhando com olhos desesperados. Quaaaaase senti pena, só que não.
Ah, foda-se! Estou com sono, cansado e vazando cecê por todos os poros do corpo. Não estou em condições físicas nem mentais de fazer mais nada por ninguém. Fechei para balanço, por hoje chega.
— Posso, pelo menos, ficar na tua casa? — disse ele. — Está muito cedo, minha mãe ainda não foi para o escritório, e não estou com saco para ouvir sermão, não agora.
Para ser bem sincero eu queria ficar sozinho, mas não tive coragem de dizer não.
Entramos.
Pezão ficou na sala, deitado no sofá.
Eu corri para o banheiro. Tomei um banho de 35 minutos. Que delícia, saí do chuveiro outra pessoa. Mesmo assim era uma pessoa necessitada de umas boas horas de sono.
Quando passei pela sala, rumo ao meu quarto, Pezão estava conversando com a Margareth pelo celular.
— … assim que eu resolver tudo o que tenho para resolver eu pego a estrada outra vez. — dizia ele. — Sim, fica tranquila, vou descansar e dormir um pouco. Eu sei, pode deixar! Tá bom, se cuida! Ah, boa sorte na entrevista de emprego. OK. Eu também te amo. Tchau.
Te amo? Hora de erguer a plaquinha “Eu Já Sabia”.
Ele desligou o celular e desviou o olhar, meio sem graça.
— Tá com vergonha do quê? — perguntei. — Cara, dizer “eu te amo” não é crime federal ou admitir que tem herpes genital, todo mundo já amou alguém pelo menos 1 vez na vida. Relaxa! É até legal da sua parte, demonstra que você tem coração, apesar de tudo.
— Mas eu só falo isso para deixá-la feliz.
— Isso é amar, seu animal! Amar é querer a felicidade do outro.
— Sério? Não pode ser tão simples assim.
— Mas é — falei, rindo. — Pezão, eu vou dormir. Sinta-se em casa (só que não, o cara mora numa mansão, o banheiro da mãe dele é maior do que a minha casa, incluindo o terreno). Se quiser comer alguma coisa, fique à vontade para sair e comprar, não tem porra nenhuma na geladeira. Beleja?
Pezão fez sinal de joinha, depois mudou para aquele dedo do meio.
— Tem certeza que foi uma boa ideia sair da casa dos seus pais?
— Foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida. Um dia você vai entender.
— Mas a minha casa vai ser bem maior que esta — ele olhou ao seu redor.
— Com certeza, principalmente se for patrocinada pela mamãe.
Ele fechou a cara. Aproveitei a deixa para vazar para o meu quarto.
Entrei, fechei a porta, passei o trinco e me joguei na cama. Nossa, bom demais!
Mas tudo que é bom dura pouco.
Não se passaram nem 30 segundos e Pezão bateu várias vezes na porta, tipo Sheldon na porta da Penny, em “The Big Bang Theory”. Nando. Nando. Nando. Nando.
— Como eu vou fazer para a piranha apagar? — gritou ele.
— Nos filmes tem sempre um pozinho que eles colocam nas bebidas.
— Mas onde eu compro isso?
— Sei lá, porra! Use o seu celular com Internet e pergunte ao Google!
— O plano é seu, caralho, me ajuda!
— O plano é meu, a execução é sua!
Consegui ouvir ele bufando de ódio lá fora. Porra, só falta ele querer que eu coma a piranha no lugar dele. Se bem que … eu toparia, tô precisando molhar o biscoito, urgente.
Engraçado, agora que eu posso dormir, o maldito sono parece ter me abandonado. Já mudei de posição uma dúzia de vezes, até carneirinhos eu já contei, mas nada. Merda!
Saí para tomar um copo de água. Dei de cara com o Pezão, fazendo caretas para o celular. Tapado como ele é, aposto que não conseguiu nem abrir o navegador.
— Ah, você! — disse ele, feliz em me ver. — Tô apanhando aqui (novidade!). Procurei todo tipo de pozinho no Google. Nada faz o que eu preciso. Pozinho de Pirlimpimpim não serve, né?
— Acho que não — e olhei sério para ele. — Já ouviu falar em Boa noite Cinderela?
— Filme para crianças?
— Drogas, Pezão.
— Drogas? Aí fodeu, a única droga que eu tenho em casa é a imprestável da minha irmã.
— Não consegue imaginar quem possa ter?
— O camaradinha.
— Exato. O maluco deve ter.
Peguei o celular do Pezão e pesquisei “Boa noite Cinderela”. Maldita internet, foi mais fácil do que eu imaginava. É por isso que este mundo está perdido. Se você quer fazer algo de errado e não sabe para quem perguntar, a internet responde, e com detalhes.
Anotei os nomes das substâncias, peguei as menos prejudiciais à saúde que eu encontrei. Não queremos matar a garota, né?
Liguei para o Pigmeu. Tocou, tocou, tocou, e ele finalmente atendeu.
— Zorba, é agora ou a porra da maionese vai explodir, camaradinha! — disse ele, com aquela voz arrastada de sempre. Já está mais louco que o Batman.
— Sou eu, porra! O Nando, seu camaradinha.
— Nando, que Nando?
— Eu, porra! Ubatuba. Altas aventuras. Pá.
— Ah, tá, mas eu liguei para o Zorba.
— Fui eu que te liguei, Pigmeu!
— Você ligou para o Zorba?
— Não, caralho, eu liguei para você! Eu preciso de umas paradas sinistras.
— Sério? Eu também, chama o Zorba pra mim.
— Pigmeu, você tá de zoação com a minha cara?
— Não, camaradinha, é sério, eu acabei de levar um papo cabeça com um pote de maionese Hellmann’s. Bem que eu sempre suspeitei desse nome: HELLmann’s. Hell significa inferno em latim, certo? MAN é homem, certo? Então essa maionese deve ter algo a ver com o homem do inferno, o diabo, pode crer, é sinistro pra chuchu. Mas o que eu quero saber é se você pode chamar o Zorba para mim, é meio que urgente.
— Porra, Pigmeu, assim fica difícil. Afinal de contas, quem é esse tal de Zorba? É algum traficante?
— O Zorba é foda, é o único cara que eu conheço que solta pum pelo pau. Chama ele aí pra mim, é meio que urgente. Peraí, acho que eu já falei isso. Ou não.
A minha vontade era jogar o celular na parede, mas aí me lembrei que era o iPhone do Pezão. Melhor não, né?
— Do que vocês estão falando, porra? — disse Pezão, impaciente. — Quem é Zorba?
Fiz sinal para ele se calar. Vou direto ao assunto:
— Pigmeu, onde eu consigo uns bagulhos para fazer um Boa noite Cinderela?
— Boa noite Cinderela? Essa parada é sinistra demais, camaradinha.
Disso ele entende, né? Eu devia ter começado a conversa por aí, teria economizado uns 100 reais do plano do Pezão. Mas … é a mamãe dele que paga mesmo, então foda-se.
— Mas eu quero algo bem leve, você tem?
— É sequestro? O Zorba tá no esquema com você?
— Não é sequestro, nada a ver. Pigmeu, você pode me ajudar ou não? Sabe me dizer onde consigo os bagulhos para eu fazer o coquetel?
— O que você vai fazer com a Cinderela? Vai meter o dedo no cu dela, é? Eu já fiz isso uma vez. A mina apagou nos meus braços. Eu fui segurar a mina para não deixar ela cair e acabei enterrando o dedo no cu dela, eu não sabia que ela estava sem calcinha, juro que não sabia. Ela virou a minha boneca e eu o ventrículo.
— Ventríloquo.
— Tem certeza? Melhor perguntar para o Zorba. Chama ele pra mim, é meio que urgente. Seu número é o mesmo que o dele? Por que eu liguei para ele e você atendeu?
— Pigmeu, porra, você tem os bagulhos ou não?
— Vai enfiar o dedo no cu dela ou roubar um rim?
— Nem. O Pezão precisa apagar algumas fotos do celular dela, só isso.
Ouvi Pigmeu gargalhar do outro lado da linha. Não entendi a piada. Eu falei algo engraçado?
— Camaradinha, celular não tem foto — disse ele, rindo alto. — , essa maquininha se chama câmara.
— Câmera! Não é câmara. E em que planeta você vive, porra? Hoje dá pra fazer até sexo virtual.
Não que eu já tenha feito, mas… OK, eu já fiz. A minha ex-namorada morava no Rio de Janeiro, né? Quem já namorou ou ainda namora à distância sabe como é foda.
— Se é assim, bate uma foto do Zorba, quero ver.
— Vou perguntar mais uma vez: você tem os bagulhos ou não?
— Tenho. Peraí, acho que tenho. Não, não tenho. O Zorba tem. Peraí, acho que tem. Não, ele também não vai ter. Pergunta aí pra ele.
— Valeu.
Que puta perda de tempo, né? Na próxima vez em que eu pensar em ligar para o Pigmeu, por favor estourem os meus miolos antes, combinado?
E quando eu ia desligar, ele me diz isso:
— Se é para a Cinderela apagar por alguns minutos eu tenho uma receita sinistra pra chuchu, funciona, eu dei isso para a minha namorada no nosso primeiro encontro.
Porra, até o Pigmeu tá namorando. Vou ficar para titio mesmo.
— Você tá de zoação ou tá falando sério? — perguntei.
— Palavra de escoteiro, camaradinha. Já te contei as minhas histórias de quando eu fui escoteiro?
— Já, Pigmeu, já me contou todas.
É lógico que não, eu nem sabia que o puto do Pigmeu já foi escoteiro, mas eu tinha que cortar essa conversa logo, né?
— O Zorba adora as minhas histórias — disse ele. — Chama ele aí pra mim.
— Já sei, é meio que urgente. Vai me ensinar como apagar a Cinderela ou não?
— A minha Cinderela dormiu por 2 horas. Enfiei o dedo no cu dela também, mas no dela não foi sem querer, eu queria mesmo. Eu me amarrei nessas paradas de brincar de ventrículo. Você tem Fanta roxa?
— Fanta uva? Não tenho. Faz parte da receita?
— Não, só fiquei com vontade de beber. É tão bom, né?
Ninguém merece. Acho melhor desligar, essa conversa não vai dar em nada.
— Anota aí, camaradinha — disse ele. — Compra o vinho mais barato do supermercado, o mais barato mesmo, enche até a metade de um copo americano, joga uma pitadinha bem pequena de sal e pinga exatamente 13 gotas de Dorflex. Não brinca com esse final, tem que ser exatamente 13 gotas, nem mais, nem menos, tem que ser 13 gotas certinho, copiou? Pronto, sua Cinderela vai apagar por umas 2 horas, aí você enfia o dedão no cu dela e brinca de ventrículo.
Tive um ataque de risos que não parava mais, eu parecia uma hiena no show do Ary Toledo.
— É zoeira, né? — perguntei.
— Escoteiros não mentem nunca, jamais.
Será que dá para confiar? Dizem que todo maluco tem seu minuto de gênio. Vai que o Pigmeu resolveu gastar o seu minuto comigo, né?
— Valeu, camaradinha, a gente se tromba por aí. — me despedi.
— Com certeza. E chama o Zorba pra mim ...
É meio que urgente.
Desliguei. Chega! Minha orelha estava quase pegando fogo, puta merda.
— Queimou todos os meus créditos — disse Pezão, pegando o iPhone de volta. — Mas serviu para alguma coisa? Ele tem ou não tem os bagulhos?
— Ele me passou uma receita. Ele jurou que funciona. Palavra de escoteiro.
— Escoteiro, o Pigmeu? — Pezão riu alto, parecia uma hiena saltando de bungee jump.
— Não custa arriscar. Tem outra ideia melhor? Vai que cola!
— Você não está falando sério.
— Todos os remédios para montar o coquetel dependem de receita médica. Quem teria a coragem de receitar estas porcarias para nós dois? Então o que temos é a receita do Pigmeu. Ou é isso ou você parte para o método tradicional mesmo, enfia cachaça na lambisgoia até o cu dela começar a piscar.
— A cachaça não é uma má ideia.
Merda, eu sei que a curiosidade matou o gato, mas eu não aguentei, pedi o carro do Pezão emprestado e fui até o supermercado comprar o vinho mais vagaba que tinha. Sal eu já tenho em casa, é claro, pelo menos isso. O Dorflex eu tenho também, mas em comprimidos. O camaradinha insistiu nas 13 gotas, né? Passei na farmácia mais próxima e comprei um vidrinho. Se vou arriscar, melhor arriscar do jeito certo.
Voltei para casa e Pezão estava no celular outra vez com a Margareth. Esta melação de cueca não combina com o Pezão. Não, não é ciúme, é apenas uma observação. Enfiem os respectivos dedos nos seus cus e assoviem o hino do Japão com o capacete do Jaspion.
— Você é doido — disse Pezão ao me ver passar com as sacolinhas do supermercado e da farmácia. — Trouxe pão? Estou com fome. Não tem nem água filtrada nessa porra.
— Sal tem.
Ele ficou me olhando sem entender nada.
Fui direto para a cozinha. Pezão se despediu da namorada e veio atrás de mim.
Preparei tudo exatamente como o camaradinha falou. Na hora das 13 gotas de Dorflex a minha mão tremeu, mas contei 13 gotas. Não foram 12. Não foram 14. Pinguei exatamente 13 gotas.
Mas não tive coragem de beber. Fiquei encarando o copo sobre a mesa.
— Agora bebe, filho da puta! — disse Pezão, rindo. — Quero ver.
— Eu vou beber, calma.
— Tá esperando o quê então?
— É que vindo de quem veio, dá um pouco de medo, né?
— BEBE, PORRA!!!
Foda-se, peguei o copo, fechei os olhos e bebi tudo num gole só.
Puta merda, meu pau encolheu, encolheu até sumir.
Pegadinha do Mallandro, ráááááá! Tá louco? Nem brinca com isso.
Pezão ficou olhando para mim com cara de espanto. Acho que ele não acreditou que eu ia be...
Zzz!
Capítulo 10 · Surpresas
E não é que a porra da receita do Pigmeu funciona mesmo?.
Apaguei. Ploft!
Só acordei às 15h30, mais perdido que rato em casa de ração.
Acordei sobre o tapete da sala, Pezão deve ter me arrastado. Prêmio Nobel da Amizade para ele, né? Custava ter me colocado sobre o sofá, porra?
Meu corpo todo doía, não sei como os mendigos conseguem dormir na calçada todas as noites. Parece que fui atropelado por uma jamanta.
Nem sinal do Pezão. Deve ter saído para pegar a biscate da padaria.
Quando me levantei quase fui ao chão novamente, as pernas estão meio bambas ainda. O bagulho do Pigmeu é foda mesmo.
Entrei no banheiro para dar uma mijada e escutei o meu celular tocar.
Não preciso dizer quem é, né? Mas atendi:
— Por que não me deixou no sofá? — falei, com a voz meio arrastada.
— Eu tentei, mas você é pesado pra caralho.
— Pesado, eu? Fala sério. Onde você está?
— Parado em frente ao portão da piranha, tô esperando ela se arrumar. Quando ela veio falar comigo eu tive que me segurar para não quebrar a cara dela.
— Você não fez isso, né?
— Não, de boa, mas vontade não faltou.
— Vão direto para o motel ou vai pagar um McDonald’s primeiro?
— Nem um nem outro. Vai ter que ser aí mesmo na tua casa.
— O quê? — minha voz saiu tão aguda que devo ter trincado a minha meia dúzia de copos. — Nem pensar, Pezão!
— Calma, armei você.
— Como assim?
— Ela topa fazer a três. Falei de você e ela topou.
— Você ficou maluco? Trazer essa piranha aqui em casa? Nem fodendo.
— Ela tá vindo! Prepara o bagulho do Pigmeu. Fui.
E desligou a porra do celular na minha cara.
Filho da puta! Eu não acredito que ele vai fazer isso comigo.
Já sei! Vou sair de casa e trancar tudo. Tomo um chá de sumiço e só volto mais tarde, aí eu quero ver ...
Cadê as minhas chaves? O desgraçado levou e me deixou trancado aqui.
Galera, eu retiro todos os elogios que eu fiz para o Pezão nos últimos capítulos, aquele filho da puta não merece.
Meu, que ódio! O que eu faço agora?
Fiquei tão desorientado que nem vi os minutos passarem. Quando dei por mim eles já estavam entrando pelo portão, rindo feito duas hienas perseguindo uma zebra manca.
Não, eu não vou permitir isso, assim que eles entrarem pela porta da sala eu vou expulsá-los daqui com uma voadora e ...
— Oi, você que é o Nando? — disse a biscatona, me encarando com os olhos arregalados e um sorriso sacana. — Nossa, mas você é bem mais gato do que eu imaginava.
Quebrou as minhas pernas.
Meu, a biscate da padaria é muito gostosa! Eu já tinha conferido o material por foto de celular, mas pessoalmente é muito melhor, uma cavala! Caraca, que mulher é essa? Uma puta morena de tirar o fôlego, que Globeleeeeeeeza! De rosto não é lá estas coisas, mas com um corpão desse quem precisa de uma carinha de anjo? Puta que pariu, vai ser gostosa assim lá (aqui) em casa! Seu vestido de oncinha é tão curto que se ela peidar o cu dá boa tarde. Puta merda, olha o tamanho daqueles peitos! Dá pra perder umas duas horas.
Agora eu te pergunto: Pezão encontrou esta cavalona na padaria? Ah, conta outra!
— Obrigado — respondi, totalmente desarmado.
Confesso: perdi o rebolado. A mina não é gostosa. É muuuuuito gostosa. E mulher gostosa desconcerta a gente, não tem jeito.
Pezão deu um tapão na bunda da morena. O barulho foi incrível.
— É gostosa ou não é? — disse ele, com aquele sorriso sacana dos velhos tempos.
Apenas assenti, sem tirar os olhos da morena. Ela já percebeu que eu quero passar o peru nela. Mulher gostosa saca isso como ninguém.
Porra, eu sempre quis fazer um ménage à trois, mas com duas mulheres. Com o Pezão envolvido ninguém merece, né? Uma vez quase rolou, lembram? Com a gostosérrima da Aneri. Nossa, eu nunca mais tive notícias dela.
E a morena não para de me olhar. Acho que dessa vez vai rolar.
— Como é que a gente começa isso? — disse Pezão de repente. — Fica todo mundo pelado ao mesmo tempo e corremos para o quarto?
— Calma — disse a morena. — , por que não tomamos alguma coisa para dar uma relaxada? — ela voltou seus olhos maliciosos para mim. — Seu amigo ali parece meio tenso.
E estou mesmo, pode apostar.
— Ótima ideia! — Pezão abriu um sorriso de orelha a orelha, e olhou para mim. — Nando, você não teria … uma garrafa de vinho, teria?
— Eu estava guardando para uma ocasião especial.
— Nossa, gatinho, esta não é uma ocasião especial? — disse a morena fazendo beicinho.
— Calma, você não me deixou terminar a frase, eu ia dizer que esta é uma ocasião SUPER especial.
— Hummmm, que delícia! — ela molhou a calcinha, com certeza.
— Já volto!
E voei para a cozinha.
Enquanto eu preparava os copos de vinho me dei conta de que não seria dessa vez que eu participaria de um ménage à trois. Assim que ela tomar o vinho “batizado” do Pigmeu vai apagar, exatamente como aconteceu comigo.
Tudo bem, fica para a próxima, fazer sexo a três com o Pezão no meio não rola, é broxante.
Voltei para a sala com uma bandeja improvisada e 3 copos de vinho. Foi meio ridículo, parecia que eu estava levando groselha para 3 crianças, mas tudo bem.
Pezão e a cavalona estavam sentados no sofá. Dessa vez era ela que estava com a língua na orelha dele. Detalhe: Pezão parecia meio desconfortável com a situação.
Entreguei o copo batizado para a morena com o micro vestido de oncinha — quem usa um vestido assim já sai de casa sabendo que vai dar — Pezão piscou para mim e pegou um copo, e eu peguei o último. Não imaginei que fosse ser tão fácil assim.
— À nossa transa deliciosa de hoje — brindou a gostosa, erguendo o copo.
Pezão e eu batemos nossos copos de leve no copo dela. Nós três nos entreolhamos e tomamos o primeiro gole de vinho, rindo.
A gostosa passou uma das mãos nas minhas pernas e foi subindo. Pirei. Ela ficou de pé e chegou junto, colou seu corpão no meu. Começamos a nos beijar. Ela foi me empurrando devagar até a parede. Tomou todo o resto do vinho e ...
Porra, já era para ela ter apagado. O que aconteceu?
Quando olhei para o Pezão eu entendi exatamente o que aconteceu. O filho da puta estava desmaiado no sofá, babando nas minhas almofadas. Seu copo de vinho, vazio, tombado de lado.
Puuuuuuuuuuuuuta que pariu, ele tomou o vinho batizado!
Mas como? Eu não tirei os olhos do copo o tempo todo, como eu pude dar o copo errado para ele? Porra, que vacilo!
Minha cara de espanto deve ter sido bem feia, pois a morena ficou preocupada.
— O que foi, gatinho? — perguntou ela, franzindo a testa.
— Pezão dormiu — respondi, sem saber se caía na gargalhada ou se me desesperava.
— Como assim? — ela se virou na direção dele. — Puta merda, eu não acredito! — ela riu feito uma hiena alcoólatra num alambique, e olhou de volta para mim. — Já é a segunda vez que ele faz isso comigo. Acho que ele não é chegado no material, hein!
— Ué, mas vocês já transaram antes, não?
— Fomos para o motel, mas trepar que é bom, nada. Seu amigo tirou a roupa, caiu na cama e roncou feito um porco a noite toda.
Tive um ataque histérico de risos que não parava mais. Sem brincadeira, eu acho que ri por uns 3 minutos seguidos.
— Sério? — falei, por fim. — Mas e tudo aquilo que ele disse que você fez com ele?
— Ele disse isso? Só se foi em sonho, querido. Vocês dois são boiolas?
— Não, eu não! Tá me estranhando?
— Ele é, né?
— Também não.
— Tem certeza?
— Acho que ele está com a cabeça em outro lugar, Pezão está amando pela primeira vez na vida.
— E desde quando um homem apaixonado recusa tudo isso aqui, ó?
E numa velocidade incrível ela se despiu do vestido de oncinha. Tudo bem que se trata de um micro micro micro micro vestido, mesmo assim fiquei impressionado. Agora ela está só de calcinha e sutiã vermelhos. Hummmm, delícia!
— Uau! — falei, fazendo biquinho e apreciando a belíssima paisagem.
— Isso sim é uma reação decente — disse ela, rindo. — Acredita que o seu amigo não me deu nem um beijo na boca hoje? Puta merda, será que estou com mau hálito?
Gostei dela, é bem direta. Quanto será que ela vai cobrar? hehehehe
Olha, na seca que eu estou, vai puta mesmo. Tô nem aí. Pezão não vai acordar tão cedo, então “Carpe diem”.
Peru pra dentro! Se deu bem, Nando Júnior, vai comer filé hoje, hein! Olha o tamanho dessa mulher!
Puxei a cavala para o meu humilde cafofo e tirei o atraso.
Fizemos de tudo, menos “papai e mamãe”, ela diz que é normal demais.
Meu, que mulher é essa? Nossa, fazia tempo que eu não gozava tão gostoso. Cara, que delícia, terminei bagaçado, anotem a placa do caminhão.
Olhei ao meu redor e ri sozinho, parecia que o furacão Katrina tinha passado pelo meu quarto. Ah, esqueci de contar que quebramos a minha cama. Tudo bem, já estava na hora de trocar mesmo, e também serviu para darmos boas gargalhadas.
De todas as vezes que eu transei com uma desconhecida, essa foi a melhor, sem dúvida!
— É verdade que você trabalha numa padaria? — puxei assunto, já que eu não fumo.
— Durante o dia sim, à noite eu gravo filmes pornôs.
— Sério?
Ela ficou olhando para a minha cara com uma das sobrancelhas erguidas.
— Não, né? Por que será que todo mundo acredita quando eu falo isso?
— Desculpa.
— Tudo bem, eu sei que meu jeito é meio vulgar mesmo, e já tentaram me mudar, mas eu sou assim e pronto, foda-se. Gosto muito de sexo, e daí? A diferença é que uma mulher que gosta da coisa é considerada biscate, já vocês viram garanhões. Puta merda, só falta você ter pensado que eu sou puta!
Fiquei sem graça.
— Você ficou ainda mais gatinho todo vermelho — disse ela, acariciando os meus cabelos.
— Não faz assim que eu gamo.
— Você é legal, bem diferente do seu amiguinho Bela Adormecida.
Essa foi boa! Rachei o bico, ela é muito engraçada.
— Como você conheceu o Pezão, num barzinho?
— Sim, e não. Ele compra croissant para a mãe dele lá na padaria onde eu trabalho, então eu já o conhecia de vista. As meninas da padaria são todas gamadas nele.
— Conta outra.
— É sério, mas vou ser bem sincera, a maioria está de olho no carro zero. E quando ele aparece com um carrão preto até o dono da padaria arreganha pra ele.
— Deve ser o Audi A8 da mãe dele, é top mesmo.
Ambos suspiramos. Acho que pensamos a mesma coisa: vamos ralar as nossas vidas inteiras e, mesmo que somemos nossos salários, jamais teremos um carrão assim.
Silêncio por alguns instantes. Fiquei contemplando seu corpo nu sobre o meu. Quantas curvas, que bundão! Na verdade tudo nela é “ão”, com exceção dos pés. Que pezinhos pequenos ela tem!
— Posso ser bem honesto com você? — perguntei.
— Claro, gatinho, sempre!
— Você é totalmente diferente do que eu imaginava.
— Sério? Mas você me “imaginava”? Você já sabia que ia me ver?
— O Pezão me ligou e avisou que vocês estavam vindo para cá. Mas … já que estamos de boa e sendo sinceros um com o outro, eu vou jogar a real com você.
— Ai que medo.
Hesitei um pouco, mas por fim eu disse:
— Ele me contou a história do celular.
Ela riu. Mas foi um riso meio sem graça, como o de uma criança que descobre que o pai já sabe que ela aprontou alguma coisa.
— Ah, isso? Olha, eu só queria brincar com ele.
— Não é o que o Pezão me contou, pareceu um lance bem mais sinistro.
— Acho que ele exagerou então. Eu estava apenas brincando. É que as meninas que trabalham comigo endeusam tanto o seu amiguinho que chega a me irritar. Quando eu fiz as selfies foi para mostrar que ele roncou e babou a noite toda.
— Porra, mas e a chantagem?
— Então, não foi ideia minha, uma das meninas lá da padaria que sugeriu que eu pedisse o iPhone dele em troca de não divulgar as fotos. Assumo a culpa por ter me deixado influenciar, mas foi apenas uma brincadeira mesmo, eu não tinha a menor intenção de aceitar o celular.
Fiquei puto. Sorte a dela não ter contado para o Pezão, ele teria dado um soco no queixo dela.
— Você nos fez viajar a madrugada toda por causa de uma brincadeirinha?
— Como assim viajar a madrugada toda?
— Ele não te contou que estávamos em Minas Gerais, na casa da namorada?
O rosto dela murchou de repente.
— Ele disse, mas eu pensei que fosse ...
— Caô.
— Ahã. Puta merda, então vocês vieram de Minas Gerais por causa da brincadeira do celular?
Respondi balançando a cabeça, sério.
— Pezão ficou uma fera — expliquei. — Ele queria te matar.
— Não tiro a razão dele. Puta merda, eu estava só brincando. Era tão bom ver o filhinho da mamãe todo assustadinho.
— Sacanagem, hein!
— Nossa, gato, não precisa me deixar pior do que eu já estou. Sinto muito, OK?
— Mas devo confessar, você não se parece em nada com a garota que o Pezão pintou durante a viagem.
— Nossa, ele contou a história do celular para mais alguém?
— Não, fica sossegada. E considere-se uma garota de sorte, pois se ele conta para a mãe dele, provavelmente você estaria presa neste momento.
— A mãe dele é uma dona toda metidona, né? Já a vi na padaria uma vez.
— É a melhor advogada que eu já conheci, a mulher é fodona pra cacete.
A morena perdeu o rebolado, parecia uma menininha assustada. Tentei acalmá-la, dizendo:
— Mas pelo que eu estou vendo, tudo não passou de um grande mal-entendido.
— Pode apostar que sim.
Ela começou a chorar. Limpei as lágrimas do seu rosto e falei que estava tudo bem. Aos poucos ela foi se acalmando. Quando ela parou de chorar, disse:
— Então ele deixou a namorada lá e veio aqui só para me entregar o iPhone?
— Pois é ...
Não resisti, caí na gargalhada. Ela não, permaneceu séria, parecia bem abalada.
— Puta merda, estou me sentindo péssima.
Sua carinha triste a deixou ainda mais sexy. Acariciei suas costas até chegar às nádegas, e beijei sua boca.
— Eu sei um jeito de fazer você se sentir melhor.
Fiquei por cima dela e fui passando a minha língua até chegar lá. Diferente da Henrietta, a morena não é raspadinha, mas também não tem nenhuma floresta, podemos chamar de corte estilo Hitler.
Chupei até ela gozar gostoso.
Ela voltou a sorrir.
E retribuiu a chupada.
Eu sorri. Só alegria.
Bateu aquela fome.
Quando passamos pela sala em direção à cozinha, Pezão estava exatamente na mesma posição em que o vimos pela última vez. Roncava feito uma jamanta com problema no motor.
— Será que ele morreu? — perguntou a morena.
— E desde quando mortos roncam? — ela riu. — Deixa ele descansar, vai precisar estar bem para pegar a estrada outra vez.
— Como assim?
— Ele prometeu para a namorada que voltaria ainda hoje.
A morena fez cara de choro. Se arrependimento matasse …
Meu, o que viemos fazer na cozinha mesmo? Não tem porra nenhuma, né?
Bom, para não dizer que não tem nada, achei um último pacote de macarrão instantâneo (o famoso “Ki-Nojo”), 1 ovo solitário, algumas fatias de queijo e presunto e um pote de ketchup que provavelmente já venceu. E o resto do vinho, é claro.
— Você não recebe muitas visitas, né? — disse a morena, vestindo uma camiseta minha do Ramones e sua calcinha vermelha feito sangue. Eu estou apenas de cueca.
— Minha ex abastecia isso aqui, mas depois que terminamos ...
— Homem é tudo igual mesmo, puta merda. O que seria de vocês sem nós?
Dei de ombros, e dei um sorriso amarelo.
— Pega aquele ovo, e me passa aquele resto de queijo e presunto também. Vou tentar fazer alguma coisa comível.
No exato momento em que ela quebrou o ovo, a campainha tocou.
Porra, quem será agora? Foda-se, não vou atender.
Tocou mais uma vez. E mais uma. E outra. Até que a pessoa desistiu de tocar e começou a gritar o meu nome.
— É voz de mulher — disse a morena, bem tranquila. — Bem que podia ser a sua ex vindo abastecer a geladeira, não acha?
— Engraçadinha.
E o pior é que ela tem razão, é voz de mulher mesmo. Será a minha mãe?
Agora uma outra voz chamou o Pezão.
Puta que pariu, esta segunda voz parece ser da Margareth! Mas não pode ser, o que ela está fazendo aqui?
— São duas vozes diferentes — disse a morena, franzindo a testa. — Vocês combinaram uma suruba e não me avisaram? Safadinhos, hein! Eu até gosto de suruba, mas ...
— Fodeu — falei. — É a namorada do Pezão.
— Puta merda!
— Puta merda mesmo, fodeu!
— A outra é a sua ex?
— Não. Acho que é a Mirabel.
— Mirabel? — disse ela, com cara de riso.
— Eu sei, é uma marca de bolacha.
Ela riu que não parava mais. Arregalei os olhos para ela e fiz “shhhhhhhhhhhhh”.
— Não adianta se esconder — disse a morena. — O seu carro está na garagem, e o carro do Pezão está parado na frente da sua garagem. Elas sabem que vocês estão aqui.
— Verdade. E agora?
— Calma, não vou lhe causar problemas, eu me escondo no seu quarto. Prometo ficar quietinha. Só peço uma coisa.
— O quê?
— Me deixa levar esta gororoba — ela apontou para a panela. — , estou faminta!
Acabei rindo. E concordei com ela, é claro.
Corri para o quarto e vesti a minha calça e a primeira camisa limpa que encontrei. Recolhi o copo de vinho que o Pezão derrubou sobre o sofá e o levei para a cozinha. Ajeitei o Pezão no sofá, para parecer que ele simplesmente apagara de cansaço.
A morena pegou a panela, um garfo, e foi se esconder no meu quarto. A calcinha enfiada no rabo me fez rir.
Lá fora as duas ainda gritavam os nossos nomes.
Respirei fundo e caminhei tranquilamente até a porta da sala. Girei a maçaneta e abri a porta lentamente, para tentar dar a impressão de que eu tinha acabado de acordar e ainda estava meio sonolento. Vai que cola!
Paradas no portão estavam as duas: Margareth (com cara de poucos amigos) e Mirabel (com cara de bunda).
— Por que demorou tanto para abrir esta maldita porta? — disse Margareth, com as mãos na cintura. — Cadê o Maurício? E por que vocês não atendem seus telefones?
— Caraca, estou no “Show do Milhão”? Quantas perguntas! — e olhei para a Bel, surpreso. — Você por aqui? E o namoradinho, veio junto?
— Que namorado? — disse ela, espantada.
— O Tim, porra!
Ela caiu na gargalhada.
— Ele é um fofo, mas não é meu namorado.
— Dá para abrir este portão ainda hoje ou tá difícil? — resmungou Margareth.
— Desculpa, é claro que dá — falei, e fui até o portão, tirando remelas fictícias dos olhos. — Depois da viagem nós apagamos. Eu estava dormindo até agora. — abri o portão. — Seu namorado ainda está roncando no sofá. Tomou um gole de vinho e apagou geral.
— Vinho?
— Era a única coisa que tinha na minha cozinha, aí nós tomamos.
— Ele nem gosta de vinho.
— Repito: era a única coisa que tinha na minha cozinha.
Margareth esboçou um sorriso, mas passou por mim feito um foguete.
— Não repare a bagunça — falei. — Casa de homem solteiro é ...
Antes que eu pudesse me dar conta do que estava por vir, Bel me lascou um beijo na boca. Caraca, aí fomos surpreendidos novamente. Que porra foi essa? Mas … eu gostei.
Fiquei olhando para ela, surpreso.
— Faz tempo que eu queria fazer isso — disse ela, sorrindo.
— E por que não fez? Eu também queria.
— E por que você não fez?
— Sei lá. Uma hora você era você, e outra hora você não ...
Ela me beijou outra vez.
— Este foi acacha ...
— Pelo amor de Deus, se eu ouvir isso mais uma vez eu me mato!!!
Caí na gargalhada.
— Mas me conta, que história é essa de vocês duas juntas? — perguntei, curioso.
— Bom, eu estava na rodoviária esperando o ônibus para voltar, de repente olho para o lado e vejo a Margareth. Por ironia do destino ela pegou uma poltrona colada com a minha. Viemos conversando a viagem toda. Quando chegamos nós fomos até a mansão do seu amigo e só estava a empregada, que não tinha a menor ideia de onde o Pezão estava. Fomos atrás de você então. Margareth não sabia o endereço da sua casa. Eu sabia.
— Adorei a surpresa.
Agora fui eu que a beijei.
Só paramos porque a Margareth nos interrompeu, dizendo:
— O Maurício está chapado? Dei pelo menos 5 tapas na cara dele e o desgraçado não acordou! Quantas garrafas de vinho vocês tomaram?
— Garrafas? Só tomamos um golinho.
— Ah, é? E por que tem três copos sujos de vinho?
Fodeu.
— O quê? — fingi estar surpreso.
— Não se faça de idiota, tinha mais alguém com vocês.
— Não viaja.
— Nando, não adianta mentir — Margareth quase esfregou o copo na minha fuça. — E o que você me diz sobre esta mancha de batom, hein? Quem é a piranha?
Puta merda, aí quebra as minhas pernas. O que eu digo para ela? E para ajudar, a Bel me encarava com aqueles lindos olhos azuis.
— Ela ainda está aqui, não está? — disse Margareth, possessa.
— Não tem ninguém aqui. Este copo deve ser da minha empregada. Ela gosta de tomar uns gorós enquanto trabalha.
— Empregada? — ela soltou uma risada de deboche. — Esta casa está imunda!
— Eu falei que ela bebe, né?
Margareth ficou puta da vida e voltou para a sala, pisando duro. Fui atrás dela, Bel veio logo atrás.
— Dá pra sentir o cheiro de perfume barato no ar, Nando! — disse Margareth, cheirando o pescoço do Pezão. Para a sorte dele não havia marcas de batom em sua boca, ele foi esperto em não beijar a morena de oncinha. — Que tipo de festinha vocês estavam fazendo aqui? Suruba?
— Nada a ver, Margareth, você está imaginando coisas.
Margareth deu três tapas fortes no rosto do Pezão. Ele não acordou.
— O que você me diz sobre isso? — disse Margareth apontando para o Pezão. — Ele está chapado, cacete!
— Não, Margareth, ele está muito cansado, só isso! Nós viajamos a madru ...
— Por que aquela porta está trancada, hein? — ela apontou para o meu quarto . — A piranha está escondida lá dentro, né?
Margareth mirou e foi até a porta como um touro em direção ao toureiro. Ao girar a maçaneta eu senti um frio na espinha como nunca sentira antes. Mas a porta não abriu, a morena a trancou por dentro, boa garota.
— Não tem nada aí — falei. — Só um monte de tralhas que eu trouxe da casa dos meus pais.
— OK. Então me mostra!
— Não me lembro onde coloquei a chave.
Margareth começou a socar a porta, com ódio.
Bel só observava, mas dava para ver nos seus olhos que as minhas chances com ela iam pelo ralo a cada minuto que passava.
Foda-se, não tem mais como sustentar esta mentira. Vou abrir o jogo. Não vou contar tudo, é claro, mas um pouco.
— OK, você venceu — falei. — Tem alguém ali dentro.
— É puta, não é? Esse perfume no ar está me deixando zonza.
— Bom, você não é minha namorada, então não lhe interessa saber quem eu pego ou deixo de pegar.
— Então tem mesmo uma mulher no seu quarto? — disse a Bel, bem chateada.
Assenti, bem constrangido. Bel me olhou feio, virou as costas e foi embora.
— Bel, volta aqui, por favor!
Eu ia atrás dela, mas a Margareth segurou o meu braço, dizendo:
— E ele? — ela apontou para o Pezão, que não parava de babar no meu sofá.
— O que tem ele, porra? O filho da puta tomou um copo de vinho e apagou aí, só isso! Que tipo de putanheiro você acha que eu sou? Acha que a minha casa é zona? Eu trago garotas aqui e vou passando de pica em pica? Porra, Margareth, você me conhece!
— Mas por que você não abriu o jogo logo de uma vez, caramba?
— Por que será, né? — e olhei na direção da porta, por onde saiu a Bel. — Por que será, né? Obrigado por tudo, Margareth, você me fodeu.
— Eu te fodi? De que merda você está falando? Você gosta daquelazinha? Você virou as costas e ela deu para o meu primo. A Bel tirou a virgindade do Tim! Que mina louca tem a moral de dar para aquele garoto?
— É uma história complicada. Você não entende.
— Não entendo mesmo. Aí ela chega aqui e você já está com outra. Será que EU te fodi? Ah, vai se ferrar, Nando!
E ficou um puta silêncio constrangedor.
Fui até a cozinha, enchi um copo com água e voltei para a sala. Derramei o copo inteiro na cara do Pezão. Ele finalmente esboçou uma reação.
— Até que enfim, caramba! — disse Margareth, aliviada. — Eu já ia chamar uma ambulância.
Pezão finalmente abriu os olhos e deu de cara com a namorada. Tomou um susto tão grande que quase caiu do sofá, parecia estar vendo um fantasma.
— O que você está fazendo aqui? — ele alternava olhares para ela e para mim, apavorado.
Fiz sinal de positivo. Não sei o que ele entendeu, ficou um pouco mais calmo.
— Eu vim te ver — disse Margareth. — Senti sua falta.
— Eu também senti.
— Te amo, seu fujão filho da mãe.
— Eu também ... te amo.
Eles se beijaram. Que meigo. Que nojo!
Deixei os pombinhos a sós e fui para o meu quarto. Bati na porta duas vezes.
Antes que a porta se abrisse, ouvi a voz da Margareth atrás de mim:
— Agora que tudo se esclareceu, não vai me apresentar a sua peguete?
— Me perdoa, Margareth, hoje não.
FIM
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MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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