Capítulo 1 · Na Pizzaria
Fim de domingão. Eu aqui, esperando o Pezão e a namorada para sairmos juntos. Que situação, hein! Segurando vela; por esta eu não esperava.
Tentei convidar a Angelina, mas a desgraçada não atendeu o maldito celular. Poxa, se não queria falar comigo, por que me passou o número então? Foda-se.
Pezão atrasado como sempre. Marcamos às 9 da noite; já são quase dez.
Quando eu me preparava para discar o número do celular, o filho da puta buzinou.
Entrei no carro e, confesso, senti uma certa inveja do Pezão. Não por ele ter mais grana do que eu, não por ele estar namorando e eu não, mas inveja pelo cheirinho bom que estava ali dentro do veículo. Eu queria tanto poder entrar no meu Opalão e não sentir vontade de vomitar cada milímetro de minhas entranhas!
— Que cara é essa? — perguntou o Pezão, me olhando esquisito — Não peidei.
— Credo, Mau! — disse Margareth. — Que nojo!
— Hmmmm ... Mau? — disse eu, em tom de deboche. — Que bonitinho! Já estão na fase dos apelidos carinhosos, é?
— Já falei pra ela que eu não gostei.
— Mas você me chama de Ma.
— E daí? Mulher é diferente. Pra homem fica gay.
— Azar o teu. De Pezão é que eu não vou te chamar!
— Então é assim, é?
— Calma, galera — tive que me intrometer. — Se vocês querem brigar, tudo bem, mas que seja por algo menos idiota!
Acho que deu certo. Ficaram quietos. E depois até rolou um beijo.
— Pra onde a gente vai? — perguntei, e foi aí que eu percebi que eles estavam se beijando até agora. Porra, eu sei que estou segurando vela, mas eles não precisam ficar se engolindo ali na minha frente, né?
— Eu mataria por uma pizza de chocolate! — respondeu Margareth, ajeitando os cabelos pelo espelho retrovisor.
— Pizza de chocolate o caralho! Doce é doce, salgado é salgado.
Margareth olhou para mim fazendo cara de poucos amigos e disse:
— Seu amigo sempre foi grosso desse jeito?
— Você ainda não viu nada, minha filha.
E Pezão saiu cantando os pneus.
— Lembra daquela pizzaria onde a gente pode comer de graça, Nando?
— Lembrar eu lembro, mas acho melhor a gente não arriscar.
— Por que vocês podem comer de graça? — perguntou Margareth.
Pezão ficou rindo sozinho.
— Pelo bem do seu apetite — falei. — , é melhor encerrarmos o assunto.
— Ah, conta aí! Agora eu fiquei mais curiosa ainda.
— O Nando tem razão, Ma. Outra hora a gente conta.
— Mas vocês dois são cheios dos segredinhos, hein!
— Que nada!
— Talvez alguns — completei.
— Sei, sei!
Pobre Margareth, se soubesse de metade do que já aprontamos, né? Sairia correndo do carro. Ou não! A mulherada hoje em dia parece gostar justamente dos homens que aprontam. Sempre que banquei o bonzinho eu me ferrei.
Pizzaria cheia. Mesmo assim conseguimos uma mesa.
Se depender da clientela, vou embora da mesma forma que cheguei; segurando vela. Porra, só tem casal! E casal de velhos! Será que é confraternização de algum asilo?
— A vovozinha ali está te encarando desde a hora em que entramos — disse Margareth num tom irônico.
— Se ela tivesse nascido 50 anos depois, teria chance — respondi, no mesmo tom.
— Peru pra dentro, cara! — disse Pezão. E o pior é que a velha escutou.
Margareth ficou puta da vida.
— Fala baixo, oh!
O garçom distribuiu os menus.
Os três concordaram com a de frango com catupiri, apesar de notar que Margareth arregalou os olhos ao ver a foto da pizza de chocolate. Coitadinha.
— Tô morrendo de fome — disse eu, esfregando as mãos.
— Nem me fale — disse Margareth — , faz tanto tempo que não como pizza. Eu estava louca pra pedir uma lá no motel, mas um certo alguém não quis, né?
— Motel foi feito pra gente pra comer outra coisa — disse Pezão.
Margareth lascou um beliscão no braço dele.
— Puta merda! Doeu, porra!
— E era pra doer mesmo!
Notei os olhos daquela velha sobre mim novamente. Ela nem piscava. Margareth reparou a mesma coisa.
— Está apaixonada, Nando!
— Você é cheia de graça, né?
— Dá pelo menos uma piscada pra ela, coitadinha!
— Margareth.
— Oi.
— Enfia o dedo ... — Não tive coragem de completar. Meu lado cavalheiro falou mais alto. — ... Ah, deixa pra lá.
— Deve ter uns 5 quilos de teia de aranha — disse Pezão, sutil como sempre.
— Eca!!! — Margareth fez uma cara tão engraçada que eu comecei a rir feito uma hiena tirando caspa.
— Um dia a tua também vai ficar assim, minha filha.
Margareth deu outro beliscão no Pezão. Este doeu até em mim. Putz!
— Pára com isso, porra! — Pezão ficou vermelho de raiva. — Dói, cacete!
Ela virou pra ele e mostrou a língua. Foi até engraçadinho, parecia uma criança brigando com o pai.
Outro beijo. Não entendo esses dois; brigam num minuto, no outro já estão se beijando.
— Calma aí, gente! O motel fica pra lá, ó!
Nem me deram bola. Para me provocar ainda mais, ficavam gemendo baixinho, e rindo.
Por falta do que fazer, dei uma olhada na direção da velha; a minha fã número um.
— Uau! — disse eu, quase babando. — De onde surgiu tudo aquilo ali?
Os pombinhos pararam com aquela melação toda e fixaram os olhos na mesa da velha.
— Puta que pariu! — disse Pezão, sem piscar. — Por onde elas entraram?
Margareth já se preparava para outro daqueles beliscões, mas agora Pezão foi rápido e a impediu.
— Agora melhorou, porra! — disse eu, esfregando novamente as mãos.
Vocês nem fazem idéia das minas que chegaram para fazer companhia à velha. Provavelmente as netas dela. Querem saber? Estou pouco me lixando se são netas ou não, eu só sei que são gatas demais. Uma loirinha com cara de alemã e duas morenas de pele tão clara que por muito pouco não chegam a ser transparentes.
— Quantos anos você daria para a loira? — perguntei para a Margareth.
— Você curtiu aquela mina esquelética? — ela fez cara de nojo. — Que mau gosto, Nando!
Reconheço que a loira é bem magrinha mesmo; corpinho de modelo. Mas o rosto dela é tão lindo que eu nem me importaria. Só para vocês terem uma idéia, ela lembra um pouco a atriz Nicole Kidman.
— Bom, a avó dela é que eu não quero!
Margareth riu.
— Vou ser sincera, ela não deve ter nem 16 anos. Dá cadeia, viu?
— Olha só — disse o Pezão. — , a mina não tem nem peito.
— Maurício, Maurício!!! Quer outro beliscão?
Meu, agora quem não consegue mais tirar os olhos da mesa da velha sou eu. A loirinha me deixou maluquinho. Porém, o que o Pezão disse é a mais pura verdade: a loira parece uma tábua, não tem peitos. Mulher com seios pequenos é a mesma coisa que café com adoçante; você até encara, mas é sem graça.
A pizza chegou.
Finalmente, né? Vamos ver se agora eu consigo me concentrar em outra coisa.
— A morena de cabelo curtinho é bonitinha, já as outras duas ... cruzes! — disse Margareth, enquanto se servia.
— Deixa pra lá — disse eu, brigando com a faca. — A loira é magra demais.
— Curte uma gordinha, né?
— Não sendo nenhuma Orca Baleia Assassina eu até encaro.
— Lembra da Jurumina? Não foi ela que mordeu o seu ... ?
Margareth olhou furiosa para o Pezão. Só não disse nada porque estava com a boca cheia.
Depois de mastigar, ela finalmente soltou o verbo.
— Já caiu a ficha de que estamos numa mesa, seu troglodita?
Olhei para o Pezão, depois olhei para a Margareth e disse:
— Não foi por educação que ele parou. Ele parou porque percebeu a bobagem que estava dizendo. Quem catou a Jurumina não fui eu, foi ele.
Margareth olhou para o Pezão e quase passou mal de tanto rir.
— Você namorou uma garota chamada Jurumina?
— Eu só catei, e foi apenas uma noite. Maldita gorda dos infernos.
Acham que vou perder a oportunidade pra zoar?
— Margareth, imagine um bujão de gás com um vestidinho decotado.
— Aff!
Rimos tanto que a galera das mesas próximas a nossa ficou olhando.
— E a Lelê? — disse o Pezão, puto pra caralho. — Lembra da Lelê, Nando?
— Claro, mas o que tem ela?
— Ela era mais feia que a gorda e você ...
— Eu o caralho! Foi o Mamutão-Bunda-Gorda que comeu a Lelê, oh!
— Ah, é!
— Porra, Pezão, tá ficando esclerosado?
— Escle o quê?
— Deixa pra lá.
Enquanto isso, Margareth enxugava as lágrimas. Ela riu tanto que até chorou.
— Meu, vocês são duas figuras — disse ela, por fim.
Olhei para a mesa da velha. Ela e as garotas também estavam se divertindo, riam às gargalhadas. Só não sei do quê.
— Um dia quero me sentar com os meus netos numa mesa de bar e contar minhas aventuras — disse eu, ainda com os olhos fixos na mesa da velha.
— Não acha cedo demais pensar em netos?
Voltei os olhos para a nossa mesa. Pezão e Margareth estavam abraçados. Olhando bem para eles, até que formam um casal bacana. Infelizmente os namoros do Pezão não costumam durar muito; o cara é escroto demais, né?
— Pensa em ter filhos? — perguntei para a Margareth. Notei Pezão meio ressabiado com a pergunta, foi nítido o desconforto ... hehehe.
— Não — disse ela, sem titubear. — , eu não seria uma boa mãe.
— Bobagem. Toda mulher acha isso antes de engravidar pela primeira vez.
— É?
— Ahã. Depois o instinto materno fala mais alto.
— Bonito isso.
— Instinto materno o caralho! — tinha que ser o Pezão. — Se esse negócio existisse mesmo não haveria tanto abandono de criança. Semana passada eu vi no jornal a história de uma mulher que jogou o seu próprio bebê numa valeta.
— Coitadinho!
— Por isso é que existem os manicômios — expliquei. — Garanto que esta mãe tem uns parafusos a menos.
Notei que Margareth quase foi aos prantos novamente, mas agora de tristeza.
— Eu jamais teria coragem de fazer uma coisa dessas. Eu falei que não daria uma boa mãe porque eu sou meio ... porra-louca. Só isso.
Pezão finalmente deu uma bola dentro: abraçou forte a Margareth e depois deu um beijo carinhoso em sua testa. Fiquei até impressionado com o gesto. Será que o Pezão está apaixonado? Nossa, fim dos tempos. O Apocalipse se aproxima.
— Vamos falar de outra coisa, porra! — agora sim, o Pezão que eu conheço.
Margareth permaneceu abatida, parecia estar em outro lugar.
— Você está bem? — perguntei.
— Hã? Ah, sim ... — e balançou a cabeça positivamente.
— Seus filhos serão caretas — disse Pezão. — , provavelmente nerds.
Margareth finalmente esboçou um sorriso.
— É mesmo? Por que acha isso?
— Pais porra-loucas; filhos caretas. E vice-versa. Nunca percebeu isso?
Agora sim ela riu. Que bom, Margareth estava com uma cara de velório que dava pena.
— É verdade — concordou ela.
— Aposto que seus pais são super caretas.
Xiiiiiiiiiii, Marquinho! Cara de velório outra vez. Até o Pezão sacou.
— Falei alguma coisa que te chateou, Ma?
— Vamos mudar de assun ... — ia dizendo eu, até que ela resolveu se abrir:
— Perdi minha mãe muito nova. Eu nem consigo me lembrar do rosto dela.
— Foi mal, desculpa — disse Pezão.
— Está tudo bem — ela segurou uma das mãos do Pezão e a beijou carinhosamente.
Ficamos alguns segundos nos olhando, meio constrangidos. Até que ela mesma quebrou o silêncio.
— Fui criada por uma tia. E você tem razão, Mau, ela é a caretice em pessoa. Só poderia dar no que deu ... Sempre fui a rebelde da turma.
— Desculpa, mas eu vou ter que perguntar — disse Pezão. — E o teu pai?
Ela ficou séria novamente. Percebi que ela apertou mais forte a mão do Pezão, talvez até lhe causando dor.
Olhei feio para o Pezão, e deu pra ver que ele percebeu exatamente o que eu queria dizer: "Por que foi perguntar isso, seu idiota?".
Margareth começou a chorar e o abraçou forte. Pezão tentou acalmá-la.
— Quer que eu vá pedir um copo com açúcar? — perguntei baixinho para ele. Pezão fez que sim com a cabeça.
Quando eu me levantei, Margareth olhou para mim e disse com uma voz abafada:
— Não vá, senta aí.
— Vou pedir um copo de água com açúcar para você.
— Besteira. Não precisa, eu tô bem.
— Não parece.
— Senta aí, bobo! — ela sorriu.
Voltei a me sentar.
Margareth tomou um longo gole de cerveja (que a esta altura deveria estar quente), respirou fundo, olhou para mim, depois olhou para o Pezão, e por fim, disse:
— Vocês devem estar me achando maluca, né?
— Nada a ver — disse eu. — Você deve ter seus motivos.
— Deve ter sido uma morte horrível, né? — disse Pezão, sutil feito um ataque de elefantes.
— Nem. Minha mãe teve um derrame. Minha tia me conta que ela morreu na sala, vendo TV.
— Eu quis dizer a morte do seu pai.
— Mas quem disse que meu pai morreu?
— Porra, você quase teve um treco quando eu perguntei dele!
— Isso não significa que ele esteja morto.
Silêncio por alguns instantes. Pezão perdeu a paciência.
— Vai nos contar o que houve com o seu pai ou não?
Margareth pegou o resto de cerveja e tomou da própria garrafa. Eu nunca tinha visto isso antes. Foi até engraçado.
— Meu pai está internado — disse ela; seus olhos revelaram uma profunda tristeza.
— Sinto muito.
— Mas o que ele tem, afinal? — perguntei. Sei que soou meio grosseiro, mas foi com jeitinho.
Ela respirou fundo, ficou meio sem graça, mas acabou respondendo:
— Ele está num ... hospício.
Silêncio constrangedor. Depois de alguns segundos ela completou:
— Mas ele está melhor. Descobri que ele receberá alta esta semana.
— Sério? Que boa notícia.
— Minha tia tentou esconder isso de mim. Pra ela o meu pai morreu, e foi isso que ela sempre quis enfiar na minha cabeça.
— E você gosta dele?
Os olhos dela disseram mais do que qualquer palavra. E ela voltou a chorar. Pezão a abraçou novamente.
— Calma, vai ficar tudo bem — disse Pezão.
Margareth enxugou as lágrimas do rosto, que de tristeza passou a raiva em poucos segundos.
— Se a minha tia pensa que vai me afastar dele, está muito enganada!
— O que você pretende fazer? — perguntei.
— O que você acha? Eu vou atrás dele, caramba!
Pezão ficou surpreso.
— O quê? E só agora você me conta isso?
Ela abriu um sorriso tão sincero feito o de uma criança.
— Que bonitinho! Você vai sentir saudade de mim? — e deu um selinho nele.
— Ah, sei lá!
Putz! Há muito tempo eu não via o Pezão ficar tão envergonhado. O pobre coitado parecia um pimentão.
— Onde fica o hospício? — perguntei.
— Em Pouso Alegre.
— Onde fica isso? — perguntou Pezão. Percebi uma certa aflição em sua voz. Ele está preocupado.
— Em Minas Gerais, meu anjo.
— Puta merda! E fica muito longe daqui?
— Pelo que eu andei pesquisando, acho que são quase 5 horas de viagem.
— Mas como você vai fazer para chegar lá?
— Ônibus. Nem todo mundo nasceu em berço de ouro como você, né?
Pezão ficou puto da vida. Não sei se foi com o que a Margareth disse ou se foi pelo fato de que ela ficará longe por alguns dias; ou quem sabe para sempre?
— Você não vai — disse ele, sério.
— Como é que é? — nossa, vai sair morte. Precisam ver a cara que ela fez. — Não vou? Você acha que manda em mim?
— Você não vai ... de ônibus.
— Como assim?
— Eu levo você.
É ... acho que Pezão tá xonado mesmo.
Nem preciso dizer que Margareth teve um orgasmo bem na minha frente, né? Pode trocar a calcinha, minha filha, pois esta ... já era.
Ah, e antes que vocês me perguntem ...
SIM, eu também vou pegar a estrada com eles. Odeio ser empata-foda, mas eles insistiram tanto, né?
Pouso Alegre ... Lá vamos nós!!!
Capítulo 2 · Timóteo
É ... acho que Pezão tá xonado mesmo.
Nem preciso dizer que Margareth teve um orgasmo bem na minha frente, né? Pode trocar a calcinha, minha filha, pois esta ... já era.
Ah, e antes que vocês me perguntem ...
SIM, eu também vou pegar a estrada com eles. Odeio ser empata-foda, mas eles insistiram tanto, né?
Pouso Alegre ... Lá vamos nós!!!
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A viagem ficou marcada para a manhã de quarta-feira. Confesso que pensei várias vezes em desistir. Tem algo me dizendo para ficar em casa, sei lá.
Bom, mas como o meu sexto sentido é uma bosta e nunca acerta, eu farei exatamente o contrário. Eu vou sim.
Pouso Alegre não fica tão longe assim, então nós voltaremos no mesmo dia. O que ainda não sabemos é se o pai da Margareth voltará conosco.
A quarta-feira chegou e, como de costume, Pezão não apareceu no horário combinado. Mas apareceu. Olhei para o carro e logo notei uma presença estranha sentada no banco de trás ... um moleque gordo. Espero que isso tenha uma boa explicação.
Entrei no carro e o clima parecia tenso. A única pessoa aparentemente animada para a viagem era justamente o gordinho, que me encarou dos pés a cabeça.
— Morreu alguém? — perguntei.
— Não — respondeu Margareth, de braços cruzados, visivelmente irritada.
Pezão saiu queimando os pneus, como sempre.
Olhei para o gordinho. O moleque deve ter uns 13 anos de idade, parece ter acabado de sair de um gibi da Luluzinha. Seus cabelos ruivos encaracolados parecem algodão-doce de laranja. Sua camiseta do Che Guevara é tão grande que daria para costurar duas para mim, e ainda sobraria pano. O iPod azul em suas mãos está tão batido que parece ter sido usado por um soldado na Segunda Guerra Mundial.
— Quem é você? — perguntei, num tom gentil.
— Timóteo. Mas me chamam de Tim.
— Deviam te chamar de chantagista, isso sim — resmungou Margareth, olhando pelo espelho retrovisor.
— É seu irmão? — perguntei para ela.
— Nem! Esta praga é meu primo.
Estendi a mão para o gordinho e me apresentei. Ele continuou com a mesma cara de bunda e voltou sua concentração para os fones do iPod.
Não vou aborrecê-los com a história toda. Resumindo: Timóteo descobriu sobre a viagem da prima e prometeu contar tudo para sua mãe, caso Margareth não deixasse ele vir junto com a gente.
Bom, só espero que o gordinho fique quieto no canto dele. Não tenho muita paciência com crianças.
— Sabe qual estrada pegar? — perguntei para o Pezão.
Ele meteu a mão no porta-luvas, retirou três folhas de sulfite dobradas em forma de um canudo e me passou pelo espaço entre os bancos da frente. Depois disse:
— O imprestável do meu irmão finalmente serviu para alguma coisa.
Desenrolei as folhas. Havia um mapa impresso nelas.
— O pirralho é foda mesmo — disse eu. — Tem tudo aqui?
— Sim, inclusive a distância em quilômetros. Ele pegou da Internet.
O gordinho esticou os olhos para o mapa e disse:
— Foda? Só por que ele entrou no Google Maps e imprimiu a rota da viagem? Qualquer idiota sabe fazer isso.
— Não somos nerds como você, gorducho — disse Pezão.
— Não precisa ser nerd para usar o Google Maps. Qualquer imbecil pode usar.
Comecei a rir. O gordinho fala de um jeito engraçado. Sua voz rouca parece a voz da Daniela Cicarelli. E o moleque tem personalidade!
Para quebrar o clima que ficava ruim, decidi puxar assunto com o gordo.
— O que você está ouvindo? Que bandas você curte?
— Quando estou de bom humor eu gosto de ouvir Black Flag.
— Não conheço. É bom?
— Sim, é acachapante.
Acachapante? O gordinho é cheio de graça, hein!
— E quando está de mau humor você escuta o quê?
— Abro só um pouquinho a torneira da pia do banheiro e deixo ela pingando bem lentamente.
— Como é que é?
— O som das gotas me acalma.
— Ah, entendi.
— Eu fico imaginando gotas de sangue caindo de um corpo pendurado numa forca.
Putz! O gordinho é mais doido do que eu imaginava.
— É ... acachapante — terminou ele.
Margareth desapertou o cinto de segurança e colocou o rosto entre os bancos, furiosa.
— Você tem que parar com isso, Tim!
— Isso o quê?
— Esses negócios aí de sangue, corpos pendurados, forca e o escambau!!!
— Todo mundo vai morrer um dia, prima. Eu, ele — apontou para mim — , você, seu namorado ...
— Eu sei, caramba!!! Mas não precisa ficar falando dessas coisas.
O gordinho olhou meio triste para mim. Depois disse:
— Você não se excita com o som de gotas de sangue caindo no chão?
— Eu? Não.
— Nem um pouquinho?
— Não.
— Você é esquisito.
Margareth não resistiu e acabou rindo. Ela apertou novamente o cinto e a viagem prosseguiu.
— Faz quanto tempo que você não vê o seu pai? — perguntei para ela.
— Mais de 10 anos, Nando.
— Caralho!!! Tudo isso?
— Ahã.
Do nada, o gordinho colocou um dos fones no meu ouvido.
— Ouve isso aqui, é acachapante — disse ele.
Acachapante porra nenhuma!!! Pensei que era alguma música, mas tudo o que ouvi foram gritos apavorantes e sons tão esquisitos que eu prefiro nem descrevê-los para vocês.
Tirei o fone imediatamente, é claro.
— Que porcaria é esta, guri?
— Você não curtiu?
— Claro que não! Um monte de gente gritando! Eu, hein!
— Não curtiu nem um pouquinho?
— Não, porra!
— É, você é muito esquisito, Nando.
— Esquisito é a puta que te pariu, gordinho do caralho!
Margareth ficou uma fera comigo.
— Nando!!! O que foi isso???
— Ah, você pode xingar o moleque à vontade, né?
— Claro, ele é meu primo.
— Tem certeza que não é seu irmão? Pois ele parece ser louco também.
Putz!!! Acho que falei demais. Margareth ficou azul de raiva.
— O que você quis dizer com isso, Nando?
— Desculpa, eu não falei por mal.
— Meu pai está curado, por isso recebeu alta.
O gordinho nem deu bola para a nossa conversa. Arregalou os olhos para mim e disse:
— Você lembra daquela cena inicial do filme Pânico, em que um dos assassinos mata o namorado da loira?
— Não. Sim. Ah, sei lá.
Ficamos todos esperando pela conclusão do raciocínio. Mas ela não veio. O gordinho ficou calado, ouvindo seu iPod.
— O que é que tem aquela cena? — disse eu, impaciente.
— Nada, oras! — respondeu ele, me olhando com cara de espanto. — Só perguntei se você lembrava.
— Pensei que você ia dizer que era uma cena acachapante.
— Que nada! Aquele filme é uma bosta. Tudo sangue fajuto. Prefiro filmes com sangue de verdade.
— Mas filme nenhum tem sangue de verdade, guri. É tudo de mentirinha.
— Já assistiu Faces da Morte?
Margareth deu um salto do banco.
— Você assistiu Faces da Morte, Tim?
— Opa, todos eles, e até já decorei alguns deles.
— Vou contar tudo pra tia!!!
— Conta. Que diferença isso vai fazer?
— Na sua idade eu costumava assistir outros tipos de filme — disse Pezão.
— Já sei — disse o gordinho. — Morte Mortal, né? Fraquinhos. Não tem desmembramentos, minhas partes favoritas.
— Não, porra!!! — disse eu, irritado. — Ele quis dizer filme pornô, gordo!!!
— Isso também não, né? — disse Margareth, fazendo cara de nojo.
— Filme pornô? E pra que eu assistiria filme pornô? — disse o moleque.
— Ora, pra fazer o que todo guri da sua idade faz, porra!!!
— Masturbação? Mas quem foi que disse que a gente precisa de filme pornô pra se masturbar?
— Bom, precisar não precisa, mas dá uma bela ajudinha.
— Eu costumava me masturbar assistindo a cena do chuveiro do filme Psicose.
— O quê? — disse Margareth, chocada. — Eu vou fingir que não ouvi.
— Mas agora eu não faço mais isso.
— Ah, que bom.
— Psicose perdeu a graça. Agora eu me masturbo vendo as cenas de desmembramento. Não tem nada mais excitante do que um braço voando longe e a pessoa gritando apavorada. É acachapante!!!
Margareth não resistiu àquela conversa, vomitou a janta de ontem e o café da manhã de hoje. O painel do carro ficou um verdadeiro arco-íris. Eca!!! O olhar de tristeza do Pezão falou mais que mil palavrões. A cena me fez lembrar do Opalão.
Agora eu tenho certeza: Pezão está mesmo apaixonado pela Margareth. Sorte a dela, pois se ele não estivesse, ela estaria morta neste exato momento.
Capítulo 3 · O Restaurante
Margareth não resistiu àquela conversa, vomitou a janta de ontem e o café da manhã de hoje. O painel do carro ficou um verdadeiro arco-íris. Eca!!! O olhar de tristeza do Pezão falou mais que mil palavrões. A cena me fez lembrar do Opalão.
Agora eu tenho certeza: Pezão está mesmo apaixonado pela Margareth. Sorte a dela, pois se ele não estivesse, ela estaria morta neste exato momento.
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Fomos obrigados a fazer uma pausa na viagem, é claro. Para a nossa sorte, encontramos um restaurante de beira de estrada logo adiante.
— Sua vomitada foi massa, prima! — disse o gordinho psicótico.
— Não enche, OK? Não estou de bom humor.
— Me fez lembrar um filme que eu assisti semana passada. Só que ao invés do café da manhã, ela vomitou as próprias tripas. Acachapante!
— Gordinho — disse eu, olhando nos olhos dele.
— Gordinho? Eu tenho nome, sabia?
— Foda-se. Enfia o dedo no cu e assovia o hino do Japão.
Ele ficou me olhando espantado.
— Não é tão difícil assim. Difícil seria enfiar a mão inteira no cu e assoviar o hino da Bulgária de trás pra frente. Isso sim seria um desafio e tanto.
Margareth desfez a cara amarrada e começou a rir feito uma hiena sentada na primeira fila do cinema.
— Vocês vão ficar parados aí ou vão me ajudar a limpar? — gritou Pezão para nós.
O gordinho foi o primeiro a querer ajudar. Achei legal isso. Talvez ele não seja tão ruim assim.
— Me perdoa, more!!! — disse Margareth, abraçando Pezão por trás.
— Ahã — respondeu ele, com um sorriso meio sem graça. — Mas você fica me devendo uma.
— Fico? E o que você quer que eu faça para compensar?
Pezão se contorceu todo e sussurrou alguma coisa no ouvido dela. Faço idéia do que tenha sido. Mas deixo que as mentes poluídas de vocês completem o serviço.
Olhei para o carro e não acreditei no que vi. O gordinho estava todo ensopado de vômito, parecia se divertir com a limpeza do carro. Confesso que vê-lo naquele estado me deu uma puta vontade de vomitar também.
— Vocês trepam todos os dias? — disse o gordinho para os pombinhos apaixonados.
Agora eu quase vomitei mesmo, mas de tanto rir. E se não bastasse, o gordinho psicótico fez gestos obscenos com a língua.
— Que raio de pergunta é esta, Tim?
— Vocês trepam bastante, não? Olho para vocês e vejo dois fornicadores.
— Forni o quê? — disse Pezão.
— Se somos fornicadores ou não, isso não é da sua conta! — respondeu Margareth, tentando não rir do que acabara de dizer.
— Quando meu pai era vivo, ele e mamãe fornicavam direto, feito coelhos.
Margareth quase surtou ao ouvir isso.
— Cala esta boca, Tim!!! — gritou ela.
— Uma vez eu os flagrei fornicando na cozinha. Mamãe estava de quatro e papai enfiava um rabanete na ...
— TIMÓTEO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O grito da Margareth foi tão alto, mas tão alto, que vi gente saindo do restaurante só para ver o que estava acontecendo ali do lado de fora.
— Se você disser mais uma palavra, eu ... eu não me responsabilizarei pelos meus atos.
O gordinho passou os dedos sobre a boca fechada, imitando um zíper. E ficou calado por um bom tempo.
Por um instante achei a Margareth super sensual. O jeito como ela apontou o dedo para o gordinho e deu o esporro nele foi uma graça. Adoro mulheres nervosinhas.
Fizemos tudo o que foi possível para amenizar os estragos feitos pelo vômito. Margareth só participou no final, borrifando perfume. Fiquei com um pouco de pena do gordinho, ele se jogou de corpo e alma na limpeza, ficou todo sujo de vômito, dos pés a cabeça. Seu mau cheiro estava insuportável. Se ele morresse agora, nem o capeta teria coragem de vir buscá-lo.
— Você precisa urgentemente trocar esta roupa — disse Margareth. — Só de olhar para você me dá vontade de vomitar outra vez.
— Não!!!!! — disse Pezão, assustado.
— Calma, meu amor, brincadeirinha.
— Não se preocupe, seca rapidinho — disse o gordinho.
— De jeito algum! A hora que isso aí secar no teu corpo o cheiro vai ficar ainda pior. O problema vai ser encontrar um lugar para você tomar este banho.
Margareth ficou olhando para o garoto e deu para sentir o remorso preenchendo cada milímetro de sua face. Aposto que ela está louca para pedir desculpas pelo esporro e dar um abraço nele. Mas só depois que ele trocar de roupa, é claro.
O problema é ... trocar de roupa como? Ninguém trouxe mala. E até onde eu sei, restaurantes não vendem roupas.
Mas vendem comida, e é exatamente o que eu mais quero agora! Estou faminto. Estamos todos famintos, melhor dizendo.
Só que ao tentarmos entrar no restaurante ...
— Perdão, mas o garoto não vai poder entrar — disse um dos funcionários do restaurante, parado na porta.
Margareth ficou puta da vida com o cara.
— Como é que é? Não vai por quê? O que vocês têm contra gordos?
— Contra gordos nós não temos absolutamente nada contra, moça. O problema é o ... mau cheiro. Desculpa dizer isso, mas o gordinho está fedendo horrores.
— Ah, ta, nisso eu até concordo.
E Margareth enfiou a mão na sua bolsa, pegou o resto do perfume e despejou sobre o moleque. As pessoas que passavam por nós olhavam espantadas, e muitas ficavam enojadas com o mau cheiro que exalava dele.
— Melhorou agora? — disse ela para o funcionário.
— Desculpa, moça, mas estou a 3 metros de distância dele e ainda sinto o mau cheiro perfeitamente.
— Cadê o gerente dessa porcaria?
— Não se preocupe comigo, prima — disse o gordinho, ligando seu iPod. — Podem ir almoçar, ficarei aqui fora esperando vocês.
Putz! Foi de partir o coração ouvir isso. Mas o funcionário do restaurante não deu a mínima. Continuou firme.
— Você vai entrar sim, primo! — E Margareth olhou na direção do funcionário, com cara de pouquíssimos amigos. — Que palhaçada é esta?
De repente apareceu uma coroa gostosa na porta do restaurante. Nossos olhares se cruzaram e notei que ela me comeu com os olhos, escondidos atrás dos óculos escuros. Sei que vocês devem estar se perguntando ... Se a coroa estava de óculos escuros, como eu sei que ela me comeu com os olhos? Simples, o movimento da cabeça foi óbvio. Ela me analisou dos pés a cabeça. Bom, se gostou ou não ... já são outros quinhetos.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou a coroa para o funcionário.
Agora quem a comeu com os olhos fui eu. Analisei o material todinho. Alta, um mulherão. Loira (acho que tingida), cabelos curtinhos, brincos de argola meio bregas (mas qual homem liga para brincos, né?), blusa tomara-que-caia branca, deixando as marquinhas de biquíni bem visíveis. A calça jeans, colada no corpo, revela curvas perigosas e, ainda não pude ver, mas o popozão parece ser de respeito! Sou péssimo para acertar idade, mas eu arriscaria uns quarentinha. Mas confesso ... corpinho de vinte e oito!
— Eles querem entrar com o garoto — respondeu o funcionário, meio apreensivo. — , mas o mau cheiro poderá incomodar a clientela.
— Que absurdo! — resmungou Margareth, com as mãos na cintura.
— Você está bem? — perguntou a coroa para o gordinho. — Está todo sujo de vômito, pobrezinho.
— Estou ótimo — respondeu ele. — O vômito não é meu, dona.
A coroa fez uma cara de nojo muito engraçada. Ela tirou os óculos e olhou para mim.
— Gostei do garoto — disse ela. Pode ser apenas minha imaginação fértil, mas eu acho que foi uma indireta. O garoto a quem ela se referiu sou eu. Ela voltou os olhos para o gordinho peçonhento e disse: — O que acha de um banho quente e roupas limpinhas?
— Acachapante!
A coroa teve um ataque de risos. Foi lindo ver aquele par de seios balançando na minha frente. Vou ser honesto ... EU VÔ!!!
E não é que demos uma puta sorte? A coroa é filha do proprietário do restaurante, ela é a gerente do bagulho. Perfeito: bonita, gostosa e, como diz o meu pai ... Tá com a Tocha! E antes que eu me esqueça, o nome dela é Monize.
Enquanto o gordinho foi tomar seu banho, nós fomos almoçar. A fome era tão grande que decidimos não esperar por ele. E aquele cheiro maravilhoso estava nos levando à loucura.
Meu prato ficou parecendo uma cadeia de montanhas. Quem olhou para ele certamente deve ter pensado que vim da Etiópia.
Quando nos preparávamos para pesar os pratos, Monize reapareceu. Pode ser apenas impressão minha, mas ela estava muito mais cheirosa do que há minutos atrás. Bom, pode ter sido para tentar apagar o mau cheiro do gordinho peçonhento. Ou para seduzir ... alguém!
— Nem sei como lhe agradecer pelo que fez — disse Margareth. — É raríssimo encontrar pessoas tão gentis assim hoje em dia.
— Não foi nada! — Monize pendurou os óculos na blusa, sobre o decote. Um gesto tão simples, porém tão sensual! — Tenho uma casa aqui ao lado. Minha irmã sempre deixa peças de roupa dos meus sobrinhos por lá. Um dos meninos dela é troncudinho também. Aposto que as roupas dele cairão feito uma luva no seu primo. E falando nele ... Que figuraça, hein!!!
— Às vezes ele me irrita tanto que tenho vontade de esganá-lo! Mas no fundo eu gosto dele.
— Ele me perguntou se eu não tenho medo da blusa cair e meus peitos pularem para fora.
Margareth quase derrubou o prato. Seu rosto ficou todo ruborizado.
— Eu não acredito! — disse ela, estupefata. — Putz grila! O Tim me mata de vergonha. Perdão, Senhora!
— Vergonha do quê? Eu achei engraçadíssimo. Não vi má intenção na pergunta, apenas uma curiosidade sincera. E que negócio é este de Senhora? Senhora está no céu, viu?
Margareth deu um sorriso meio sem graça e pediu desculpas.
Monize nos conduziu ao andar superior do restaurante. Eu nem tinha percebido que havia um segundo andar. E que visão! Dava para ver boa parte da rodovia, e a brisa que entrava pelas janelas foi revigorante. Por mim, desistiríamos da viagem e ficaríamos ali a tarde toda.
Quando nos sentamos para almoçar, pensei que Monize fosse nos deixar e voltar aos seus afazeres, mas não. Ela sentou conosco, bem do meu lado.
— Seus amigos não falam?
— Só quando eu deixo — respondeu Margareth, com um sorriso maroto.
E as duas riram à beça. Amizade de mulher é bem diferente da nossa. Aposto que se deixarmos as duas sozinhas mais alguns minutos, já saberão tudo da vida da outra. A amizade de homem começa diferente, geralmente com um comentário malicioso sobre alguém, tipo ... "Viu os peitos da loira de blusa verde, cara?". A menos que o outro cara responda... Ai que meda! ... a amizade tem futuro.
— Este aqui é o Maurício, meu more — disse Margareth, passando o braço em volta do Pezão e dando um beijo no rosto dele.
Curioso como podemos fazer mau juízo das pessoas antes de conhecê-las bem, não é? A primeira impressão que eu tive da Margareth não foi das melhores. Pensei que ela fosse uma tremenda biscate. Mas ela é muito gente fina. O Pezão deu muita sorte. O problema é que o Grande Pé sempre pisa na bola com as namoradas legais. Já as biscates peçonhentas ele corre atrás feito um cãozinho abandonado.
— Garota de sorte, hein! — disse Monize, olhando para o casal de namorados.
— Eu sei, bem. — E Margareth olhou para mim, com o olhar mais sacana que ela já me deu até este momento. Assim como eu, ela já percebeu os olhares da Monize para cima de mim. — E este é o Fernando — ela deu uma piscada para mim. — , o terror das menininhas donzelas e inocentes.
— Eu?
— Fernando ... — disse Monize, bem lentamente, como uma criança que acaba de escrever o seu nome pela primeira vez. — Sempre achei este nome lindo. Além de extremamente sexy.
Neste momento senti alguém chutar minha canela. Pela risadinha sacana, aposto todas as minhas fichas na Margareth.
— Muito obrigado! — respondi, olhando nos olhos da coroa gostosa.
— Seu more não veio junto?
— Não. Tô sem more no momento.
A coroa arregalou os olhos. Dei uma olhada rápida para a blusa tomara-que-caia e por um instante pensei que fosse realmente cair. CAIA!!! Mas como não tenho poderes mutantes, a blusa tomara-que-caia continuou apenas no tomara.
— Sério? Um gatinho assim como você?
— Pois é, né? Ninguém me quer, ninguém me chama de meu neném!
Margareth e Monize quase tiveram um ataque do coração. Pareciam hiena mãe e hiena filha rindo de uma cena engraçada de uma novela mexicana qualquer.
— Que bonitinho! — disse Monize, como se estivesse falando com um bebezinho.
— Obrigado, obrigado — disse eu, todo convencido.
— Não! — disse Monize, apontando para a escada. — Olhem, o gorduchinho! Que gracinha, gente!
Meu, juro pra vocês, eu quase caí da cadeira de tanto que eu ria.
Pobre gordinho psicótico. Tá fodido comigo.
Capítulo 4 · Monize
— Que bonitinho! — disse Monize, como se estivesse falando com um bebezinho.
— Obrigado, obrigado — disse eu, todo convencido.
— Não! — disse Monize, apontando para a escada. — Olhem, o gorduchinho! Que gracinha, gente!
Meu, juro pra vocês, eu quase caí da cadeira de tanto que eu ria.
Pobre gordinho psicótico. Tá fodido comigo.
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Acreditem se quiser, mas o moleque apareceu vestido com um shorts azul bem suspeito e, agora a melhor parte, uma camiseta Hello Kitty!!!
— Você está um perfeito MGI — disse eu, tentando parecer sério.
— MGI ? — perguntou Monize.
— Sim. Mais Gay? Impossível!!!
— Deixa o gordo sair do armário em paz — disse Pezão, fazendo aquela cara de filho-da-puta de sempre.
— Ah, parem com isso, vocês dois! — resmungou Margareth.
— Tudo bem, prima — disse o gordinho, calmo feito um monge. — Estou em dia com minha masculinidade. Só não sou mais homem por falta de barba.
— Tem certeza? — falei, rindo. — Esta blusinha Hello Kitty ficou uma graça e combina direitinho com sua masculinidade, viu?
— Ainda não entendi o motivo da gozação — disse Monize. — Meu sobrinho usa esta blusa e ninguém fala nada. Ele adora.
— Então seu sobrinho é uma tremenda bichona!!! — disse Pezão, e depois cortou um pedaço de lingüiça com a maior tranqüilidade, como se não tivesse dito nada.
— O quê? — Monize ficou super sem graça. Após uma encarada no gordinho, ela olhou na direção da Margareth e disse: — Será?
— Bom, Hello Kitty não é algo muito comum entre os meninos, né? Mas talvez não tenha nada a ...
— Acreditam que eu nunca reparei nisso? Mas pensando bem, ele até que leva jeito mesmo ... — E Monize fez uma careta. — Ai, caraca!!!
— O que foi?
— Deixa pra lá. Nada.
— Pode dizer! Está entre amigos.
— Acho que de certa forma a culpa foi minha.
— Bobagem. Quem é gay já nasce gay.
— Mas eu posso ter dado uma forcinha. Uma vez ele estava fuçando nas minhas gavetas e achou um ...
Antes que Monize completasse a frase, Margareth teve um ataque de risos descomunal. Todos no restaurante ficaram olhando para a nossa mesa. Quando notou os olhares, Margareth ficou vermelha feito um pimentão.
— Perdão, foi sem querer.
— Tudo bem, querida — E Monize ficou olhando para mim. — Você deve estar pensando besteiras a meu respeito, não?
— Desde a hora em que te vi — respondi, pegando a coroa totalmente de surpresa.
— UAU!
Nossa, os olhos da loira brilharam. Seus seios quase saltaram do decote. Aposto 1 milhão de dólares que ela ficou excitada com a resposta.
Após uma longa troca de olhares comigo, Monize virou-se para o gordinho Hello Kitty e disse:
— Você deve estar faminto, não? Vamos lá embaixo preparar um prato pra você. Enquanto você almoça irei buscar algo menos ... fru-fru. De acordo?
— Posso comer um boi — respondeu o gordo.
— Se depender da sua barriga, diria que já comeu uns três — disse eu.
Monize levantou-se e olhou para mim, dizendo:
— Vem com a gente.
Uhuuuuuuu!!! Nando Júnior vai se dar bem!!!
Margareth olhava para mim e sorria, balançando a cabeça para um lado e para o outro.
Monize e o gordo foram na frente. A coroa sabia que eu a observava, portanto fez questão de descer a escada rebolando cada milímetro do seu lindo corpo. E que belo corpo!!! Conheço muita garota de 19 anos que não chega aos pés dela. Ai que vontade de transar com ela ali mesmo, com a clientela toda do restaurante olhando para nós.
Por que você fez esta cara de espanto? Não posso ter fantasias, porra?
Largamos o gordinho psicopata com o prato nas mãos e Monize me arrastou para sua casa atrás do restaurante. E que casa!!!
Logo de cara uma piscina enorme. Um mergulho cairia super bem, mas o tesão era tanto que nem tivemos tempo para pensar nisso. Quando vi já estávamos na sala, seminus. Monize de calcinha preta e uma sandália no pé direito; eu de cueca e meia. Foi tudo tão rápido. Nem me lembro de como nossas roupas foram arrancadas.
Eu sei que para o público feminino isso não vai ter a menor graça, mas vou ter que contar ... os seios da Monize são os mais perfeitos que eu já vi em toda a minha vida. Fiquei hipnotizado olhando para eles.
— Gostou? São novinhos em folha!!! — disse ela, super orgulhosa.
— Sério? Silicone? Mas parecem tão ....
— Naturais? Que bom! Também, pelo preço que ... eu paguei.
Dane-se!!! Falsos ou naturais, vou cair de boca!!! E caí mesmo, com gosto. Joguei Monize no sofá, tirei sua calcinha com um puxão tão forte que ela foi parar sobre a TV de plasma. Havia tanta eletricidade no ar que deve ter saído faísca quando me deitei ela. Suas mãos quentes passeavam pelo meu corpo e rapidamente senti minha cueca sendo jogada longe. Talvez tenha caído sobre a TV de plasma também.
— Pega a camisinha — sussurrou ela no meu ouvido, ofegante.
— Onde? — respondi, após um chupão no seu pescoço.
— Você não trouxe? — ela me arranhava as costas de forma tão gostosa que quase apaguei de tanto tesão.
— Acho que tinha um par no bolso da minha calça, mas não faço a menor idéia de onde ela esteja.
Começamos a rir.
— Espera aqui — disse ela, após me morder a orelha. — Vou num pé e volto no outro.
— Tá.
Mas não foi bem assim que tudo aconteceu.
Eu não tinha relógio ou celular para marcar os minutos, mas garanto que pelo menos uns 5 minutos se passaram até o momento em que eu comecei a ouvir barulhos no portão, perto da piscina. Por um instante pensei que fosse ela. Tudo bem que seria um absurdo ela ter saído por um canto e reaparecer lá no portão. Mas eu precisava pensar positivo, né?
Só que não adiantou nada. Não era ela. Era um homem. Um tiozão, de uns cinqüenta e tantos anos. Cabelos grisalhos, usa óculos escuros, vestia um terno azul-marinho daqueles que custam mais do que eu já faturei em toda a minha breve existência.
Entrei em pânico.
Me joguei por trás do sofá e me rastejei até a cozinha. A porra da porta estava trancada, fui obrigado a voltar para a sala. Tentei localizar minhas roupas, mas a única peça que consegui enxergar foi minha cueca caída sobre o tapete. Tarde demais, se eu tentasse pegar a cueca seria visto pelo tiozão do terno.
Só me restou uma alternativa: subir a escada que havia ao lado da porta da cozinha. Subi feito um ninja. Praticamente no final da escada encontrei Monize, vindo toda sorridente e insinuante. Quase fiquei de pau duro outra vez.
Ela nem fazia idéia de que tínhamos companhia.
— Mô, está em casa? — disse o homem do terno.
— Ai, caraca!!! — Monize ficou branca de repente. — Ele chegou!!!
— Quem é ele?
Monize me puxou pelo braço e me arrastou até um quartinho no fim do corredor. Por fim me respondeu, meio sem graça:
— Meu marido.
— Marido?
Puta merda!!!
— Por que você não me disse que era casada?
— Você não me perguntou, ora!
Porra!!!
— E agora? Minhas roupas estão todas lá ...
— Tem um homem morto aí com você — gritou o homem do terno, enfurecido.
Os passos da escada ficavam cada vez mais altos e assustadores. Monize fechou a porta do quartinho e pediu para que eu a trancasse. Eu a obedeci, é lógico.
Bom, acho que agora será mesmo o meu fim. Foi um prazer enorme ter compartilhado boa parte da minha vida com vocês, galera. Tudo de bom para vocês. Sobre Ubatuba, perguntem para o Pezão, OK?
— Oi, amorzão — disse Monize para o marido. Foi tão falso que nem o homem mais apaixonado do mundo acreditaria.
— Amorzão é a puta que te pariu, sua vaca!!!
É, tô morto.
— O que foi, meu bem?
— Pára de cena, Monize! Você acha que eu não vi aquela cueca lá na sala? E se você me disser que é minha eu quebro a tua cara!
— Claro que é sua!
E deu para ouvir o tapão que o cara deu na Monize. Putz, doeu até em mim.
— Onde está o covarde filho a puta?
— Não tem ninguém aqui. Aquela cueca caiu do baú quando a empregada levou para lavar e ...
Outro tapa. Este ainda mais violento que outro.
Quando Monize começou a chorar, senti um aperto tão grande no coração. Aquilo mexeu demais comigo. Decidi fazer uma loucura: abrir a porta. Fiquei frente a frente com o tiozão do terno.
— Vem bater em mim, seu covarde da porra!!! — disse eu.
Ele ficou me olhando, dos pés a cabeça. Só neste momento me dei conta de que estava totalmente nu.
— Foi com isso aí que você me traiu, Monize? Um moleque?
— Um moleque que conseguiu me deixar mais molhada do que você em todos estes anos!!!
Quando o tiozão ergueu a mão para bater nela novamente eu não deixei. Segurei o braço dele e com a minha outra mão lhe soquei o estômago. O coroa foi ao chão. Monize era um mix de satisfação e tristeza. Ela não sabia se me ajudava a fugir ou se ajudava o marido a se levantar. Seu coração estava dividido.
— Some daqui, garoto! — disse o tiozão, sentado no chão. — Se você dá valor a sua vida, some já daqui.
— Vá — disse Monize, me olhando com olhos tristes e protetores. — Prometo que nada irá lhe acontecer.
— Você teve muita sorte, moleque — disse o tiozão. — Quando você abriu aquela porta, era para eu estar armado. E hoje teria sido o seu último dia entre os vivos. Jamais se esqueça disso. Hoje você nasceu de novo, seu filho de uma puta.
— Homem que bate em mulher não tem moral alguma pra vir me dar sermão. Vá se foder.
E saí.
Das minhas roupas não consegui achar uma das meias e a minha camisa. Mas também não insisti muito na procura. Eu queria sumir daquela casa.
Meu celular acusava 42 ligações não atendidas. Trinta delas vindas do celular da Margareth e o restante do celular do Pezão.
Cheguei a pensar que eles haviam partido sem mim, mas para a minha sorte eu estava enganado. O carro continuava estacionado no mesmo lugar.
Margareth, ao me ver, desceu do carro e me deu um abraço. Até estranhei.
— Você está vivo, safado! — disse ela, sorrindo para mim.
— Acho que estou.
— A perua é casada, né? Quase tive um treco quando um dos garçons veio nos contar que o marido dela havia retornado mais cedo de uma viagem. Ele viu você e a perua no maior love atrás do restaurante.
— Pois é. Por muito pouco não deu bosta.
Entrei no carro. Pezão ficou me encarando.
— Comeu, pelo menos? — disse ele.
— Maurício!!!!!!!!!! — gritou Margareth, fula da vida com ele.
E Pezão saiu cantando os pneus.
De repente o gordinho tirou a camisa da Hello Kitty e jogou pela janela. Suas banhas gelatinosas me fizeram rir.
— Está rindo do quê? — disse o gordo, invocado.
— Nada. É que você me lembra um amigo nosso que morreu.
— Puta merda, é verdade!!! — disse Pezão. — O Mamutão!!!
— É, ele mesmo. Saudade do bunda gorda dos infernos.
Após alguns segundos de silêncio, o gordinho solta isso:
— Aquela maldita camiseta estava mexendo com a minha masculinidade.
— Aposto que estava.
— Nando.
— Diga.
— Se eu tentar beijar você, promete me empurrar para fora do carro?
— Claro.
— Promete? Sem dó? Sem misericórdia? Me empurra mesmo? Até meu corpo rolar no asfalto e minhas tripas saltarem para fora?
— Prometo. E antes ainda chuto o seu saco.
— Legal. Até que você não é tão esquisito assim.
— Valeu.
— Vem aqui, agora me dá um beijinho.
— Sai pra lá, gordo peçonhento!!!
— Brincadeirinha!!! Brincadeirinha!!! Não me empurra pra fora do carro!!!
E todos começamos a rir feito bobos. Ou melhor, feito hienas idiotas.
A viagem prossegue.
Capítulo 5 · Outro Restaurante
— Prometo. E antes ainda chuto o seu saco.
— Legal. Até que você não é tão esquisito assim.
— Valeu.
— Vem aqui, agora me dá um beijinho.
— Sai pra lá, gordo peçonhento!!!
— Brincadeirinha!!! Brincadeirinha!!! Não me empurra pra fora do carro!!!
E todos começamos a rir feito bobos. Ou melhor, feito hienas idiotas.
A viagem prossegue.
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— Será que não tem algum brechó aqui por perto? — disse Pezão.
— Por quê? — perguntou Margareth.
— Está me dando aflição olhar os dois sem camisa. Parece um casal gay indo para a lua-de-mel. E eu sou o motorista!
Se foi uma piada, ninguém riu.
— Vá foder um bode — falei.
— O quê? — disse Pezão.
— Já ouvi isso em algum lugar — disse Margareth.
— É do filme O Virgem de 40 Anos — disse o gordinho. — Muito legal este filme.
— Bom pra caralho — completei. — Meu, imagine ficar 40 anos sem trepar. Eu ficaria maluco.
— Não exagera — disse Margareth.
— Sei. Você ficaria 40 anos sem umazinha?
— É diferente.
— Diferente por quê?
— Porque eu já sei como é bom. No caso do personagem, ele nunca tinha feito. É bem diferente.
— Eu sou virgem — disse o gordinho, de repente.
— Grande novidade — disse Pezão, rindo.
— Eu estou me guardando para o momento certo.
— Você é muito pirralho ainda — disse Margareth.
— Dia 12 de dezembro de 2012 — disse o gordinho, sério. — Será o grande dia.
— Grande dia do quê?
— Será o dia em que fornicarei pela primeira vez.
Margareth teve um ataque de risos.
— O pequeno Faustão é vidente? — disse Pezão.
Agora eu comecei a rir. Pequeno Faustão foi foda.
— E a moça com quem você irá fornicar já sabe disso? — perguntei. — Quero dizer, será com uma moça, né? Ou você é chegado num ...
— Dona Nina. Será com ela.
Margareth ficou séria, enfiou o rosto entre os bancos, e olhando nos olhos do gordinho peçonhento, disse:
— Dona Nina, a nossa vizinha?
— Ahã — respondeu o gordo, mexendo a cabeça.
— Você ficou maluco, Tim? Que nojo! — Margareth fez uma careta muito engraçada.
— Quem é Dona Nina? — disse Pezão.
— Lembra de uma velha que ficou lhe encarando quando você foi lá em casa me buscar?
— Claro que lembro. Velha esquisita dos infernos.
— Não fala assim da Dona Nina, seu merda! — resmungou o gordo. Foi a primeira vez que eu o vi bufar de raiva.
— Tim, você está de brincadeira, né? — disse Margareth.
— Eu gosto dela.
— O gordinho curte uma coroa, e daí? — disse eu. — Panela velha é que faz comida boa.
— Você diz isso por que ainda não viu a velhota — disse Pezão. — A criatura parece o mascote do Iron Maiden.
Meu, vocês não vão acreditar, o gordinho saltou sobre o banco e grudou no pescoço do Pezão. Nunca vi nada parecido na vida. Foi algo cinematográfico. Ainda não consegui entender como aquele monte de banha conseguiu fazer isso. O pequeno Faustão deve freqüentar alguma academia Ninja ou sei lá.
Para a nossa sorte, a estrada estava deserta e Pezão conseguiu encostar o carro sem maiores problemas. Ufa! Se estivéssemos numa rodovia movimentada, já era.
— Agora vou quebrar tua cara, gordo emo dos infernos!!!
— Quebra, cuzão, quebra!
Não deixei nada disso acontecer. Me estiquei todo e passei meu braço esquerdo no pescoço do gordinho, puxando-o para o colo da Margareth.
— Ninguém vai quebrar ninguém, porra! — falei, impondo respeito.
— Me solta! — gritava o gordinho, sem parar.
— Solto, se você prometer que vai voltar para o seu lugar, quietinho.
— Você vai enforcá-lo, Nando! — gritou Margareth, assustada.
Eu o soltei. Margareth e o primo desceram do carro e conversaram por alguns minutos. Pezão estava puto da vida.
— O gordo quis matar todo mundo, Nando — disse Pezão, olhando para mim pelo espelho retrovisor.
— Todo mundo eu não sei, mas você ele queria.
— Tem alguma coisa muito estranha com este moleque. Aposto que você já percebeu também.
— Bom, que ele é esquisitão não resta dúvida. Mas não vejo ruindade nele.
— Eu vejo. Se não fosse pela Margareth, eu o deixava apodrecendo aqui na estrada.
— Pega leve, Pezão. É só um moleque.
— Só um moleque o caralho! Se esta estrada não estivesse deserta, estaríamos todos mortos, porra!
Bom, o pior é que ele tem razão. O que o gordo fez foi muito perigoso. Melhor eu ficar de olho nele daqui pra frente.
Margareth e o gordinho voltaram para o carro. Ambos pareciam mais calmos.
— Tim, o que você tem a dizer para o Maurício? — disse Margareth para o primo.
Ele hesitou por um instante, mas disse:
— Desculpa.
Pezão olhou para Margareth, depois procurou o gordinho pelo espelho retrovisor, e disse:
— Tudo bem. Mas que isso não se repita.
E saiu queimando os pneus. Novidade, né?
— Dá uma olhada no mapa, gata — disse Pezão. — Acho que me perdi.
Margareth abriu o porta-luvas e pegou o mapa, porém ...
— Que nojo!!! — resmungou ela. — Será que você vai me perdoar?
O mapa estava todo chapiscado de vômito. Pezão encostou o carro novamente.
— Porra, e agora? — disse ele.
— Foi o pirralho que imprimiu o mapa, certo? — disse eu.
— Ahã.
— Liga no celular dele, pede para ele refazer o mapa e passar as instruções.
Mas tudo que parece fácil demais ...
Pezão ligou umas duzentas vezes para o irmão, e nada. Ou o pirralho está com uma puta caganeira ou não quer atender. A segunda opção é a mais provável. Em todos estes anos, nunca vi o Pezão ligar no celular dele para contar uma boa notícia.
— Foda-se, vamos em frente — disse Pezão, chateado — A gente vai seguindo as placas.
A gente rodou ... rodou ... rodou ... e nada de placa. Nunca vi uma estrada como esta. E o mais curioso, rodamos por quase duas horas e, se vi um carro, foi muito. Agora, a parte mais esquisita foi quando Pezão ligou o rádio e estava tocando uma música do Raul Seixas, aquela cujo refrão é "O dia em que a Terra parou!".
— Tô com fome — disse o gordinho, guardando seu fone de ouvido.
— Eu também — falei.
— Eu daria tudo por um banho — disse Margareth.
— E eu já estou de saco cheio desta maldita estrada que não termina nunca.
— Quer que eu dirija um pouco? — sugeri.
— Até que não seria má idéia.
E trocamos de lugar. Assumi o volante e o gordinho sentou-se ao meu lado. Pezão e Margareth foram para trás.
A estrada continuou deserta. Aproveitei a ocasião para pisar fundo. O sol estava escondido sobre as nuvens e o calor diminuíra bastante. Um vento gostoso entrava pela janela. Tudo parecia ir bem. Mas uma coisa começava a me preocupar ... Dirigi por mais de uma hora e não vi um carro sequer. E nem sinal de placas também. Onde será que estamos?
De repente ...
— Nando, olha! — disse Margareth, cutucando o meu ombro. — À sua direita.
Havia um outdoor bem grande, escrito HOTEL E LANCHONETE INFINITU'S – 2 KM com letras vermelhas sobre um fundo amarelo; a arte era tosca, mas tenho que admitir que chamava bastante a atenção.
— Estou faminto! — disse o gordinho, massageando sua pança desnuda. — Daria tudo por um sanduíche de presunto com mortadela.
— Presunto com mortadela?
— Opa! E se tiver salame ... será acachapante!
— Não é você que lava suas cuecas no dia seguinte, né? — disse Margareth, enfiando o rosto entre os bancos da frente.
Paramos.
Ao contrário do restaurante anterior, este parecia estar vazio. Tão vazio quanto a estrada.
O tempo começou a mudar; nuvens carregadas de chuva aproximam-se. Foi difícil acreditar que ainda são 4 e meia da tarde.
— Vai cair um temporal — disse Margareth, preocupada.
— É o que parece — respondi, enquanto trancava a porta do carro.
— In .. fini .. tu's ... — disse o gordinho, olhando para o letreiro luminoso do restaurante. — Que nome idiota!
— Melhor que Bar do Gordo — disse o Pezão.
O gordinho virou-se imediatamente para ele, com cara de surpreso.
— Você conhece o Bar do Gordo?
— E quem não conhece? — disse eu.
— Eu adorava ir lá quando criança.
— Você ainda é uma criança.
— Mas agora eu tenho pentelhos.
— E daí? Do que adianta ter pentelhos e um pinto do tamanho de um giz?
Puta merda. Vai começar a briga outra vez. Querem apostar?
— Calem a boca, vocês dois! — disse Margareth, puta da vida. — E vamos sair logo daqui, pois já sinto os primeiros pingos de chuva.
Verdade. A chuva começou. Apertamos os passos em direção ao restaurante. O gordinho peçonhento ficou para trás.
De repente ...
— Oh, Big Foot! — gritou o gordinho.
Bom, creio que o grito tenha sido para o Pezão, mas nós três olhamos para trás.
E juro para vocês, me arrependi amargamente.
— Você ficou maluco, Tim??? — gritou Margareth, colocando as mãos sobre os olhos. — Guarda isso agora mesmo!!!
Acreditem se quiser, o gordinho estava com as mãos na cintura ... e o shorts abaixado até os joelhos.
— Você ainda acha que o meu bilau é do tamanho de um giz, hã? Acha?
Putz!!! Acho que perdi a fome. Maldito gordo peçonhento dos infernos!!! Recusei-me a olhar aquela cena ridícula. Olhei para a direção contrária.
— Nem você sabe o tamanho — disse Pezão. — Com esta pança enorme em cima dele, duvido que você enxergue alguma coisa, pequeno Faustão.
— Se você me chamar de pequeno Faustão mais uma vez, irá se arrepender para o resto da sua vida.
— Fica frio, pequeno Faus ...
Tive que olhar. O gordinho subiu o shorts e partiu pra cima do Pezão.
Ah, querem saber? Foda-se, dessa vez não vou apartar briga de ninguém. Os dois que se matem! O mundo ficará melhor sem eles, não é? Abriguei-me sob um pátio coberto, de frente para o restaurante.
— Nando, você vai ficar aí parado? — gritou Margareth, protegendo-se da chuva também.
— Acho que sim. A chuva está gelada e eu ...
— Fala sério, hein! O Tim é só uma criança. Se acontecer alguma coisa com ele, a minha tia me mata.
— O Pezão só está tirando onda com o moleque. Olha só. — e apontei na direção deles. — O pior que pode acontecer é uma pneumonia para os dois.
Margareth olhou para eles e seu rosto foi mudando aos poucos, até que ela começou a rir.
— Vocês não crescem nunca, é? — disse ela. — Barba no rosto e ainda se comportam como garotos.
A cena estava engraçada. Pezão desviava dos golpes do gordinho, ria feito um doido, e ainda o provocava.
— Vamos, Pequeno Giz! Venha me pegar, Pequeno Giz!
— Parem com isso, vocês dois! — disse Margareth, num tom de voz mais calmo. — Saiam da chuva, vocês vão ficar resfriados! Está na hora do lanche.
A chuva apertou. E de repente já não era uma chuva qualquer, mas sim um temporal como poucas vezes eu vi na vida. Parecia que o mundo todo estava desabando em água.
Corremos para dentro do restaurante.
Capítulo 6 · A Tempestade
A cena estava engraçada. Pezão desviava dos golpes do gordinho, ria feito um doido, e ainda o provocava.
— Vamos, Pequeno Giz! Venha me pegar, Pequeno Giz!
— Parem com isso, vocês dois! — disse Margareth, num tom de voz mais calmo. — Saiam da chuva, vocês vão ficar resfriados! Está na hora do lanche.
A chuva apertou. E de repente já não era uma chuva qualquer, mas sim um temporal como poucas vezes eu vi na vida. Parecia que o mundo todo estava desabando em água.
Corremos para dentro do restaurante.
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O lugar estava vazio. Não havia fregueses, muito menos garçons. Nada.
— Estranho — disse Margareth, olhando ao redor. — Não tem ninguém?
— Tô morrendo de fome! — disse o garoto, passando feito uma flecha gorda por nós.
— Aonde o senhor pensa que vai, hein?
— Procurar alguma coisa para comer.
— Volta aqui! Este lugar me dá arrepios.
— Quer saber? — disse eu, indo atrás do gordo. — Ele tem razão. Eu também vou procurar o que comer. Meu estômago já está dando piruleta.
Pezão fez a mesma coisa. Margareth ficou fula da vida com a gente.
— Oh, de casa! — gritei bem alto. — Tem alguém aí? Tem freguês com fome!
De repente, passando ao lado do balcão do caixa, ouvi gemidos. Posso até estar equivocado, mas creio que são gemidos de prazer. Tem gente trepando atrás do balcão. Pelo jeito que o Pezão olhou para mim, acho que ele também pensou a mesma coisa.
— O que foi? — perguntou Margareth para nós. Ela tinha dado apenas um passo para dentro do restaurante. Parecia amedrontada, só não sei exatamente com o quê. O lugar estava deserto, fora isso não havia nada de assustador.
Pezão apontou para o balcão, depois imitou a "Dança do Créu". Você sabe exatamente como é, não peça para eu descrevê-la.
— Safado! — disse Margareth, com as mãos na cintura. — Agora não!
Pezão começou a rir, balançando a cabeça.
Enquanto os dois tentavam se entender, eu aproveitei para espiar atrás do balcão. Meu, vocês não vão acreditar no que eu vi. Putz!
— Olá! — disse eu.
Havia um casal de anões fazendo um "69" selvagem. Nunca vi nada tão bizarro na minha vida. O anão estava por cima; sua minibunda cabeluda quase me fez vomitar.
Quando notaram minha presença, ficaram super envergonhados. Pareciam dois pimentões fazendo sexo vegetal. Pezão esticou seu pescoção também. Aí eles passaram de envergonhados a irritados.
— Poderiam nos dar licença um minuto, porra? — disse o anão para nós.
— Não diga palavrão, querido! — disse a anã debaixo dele. Por um instante consegui ver sua minixoxota. Bom, para ser honesto não era tão "mini" assim.
Pezão e eu nos afastamos do balcão.
— Tem gente aí? — gritou Margareth.
— Tem — disse eu, rindo feito uma hiena brincando com um Pirocóptero na rua.
— Entra aqui, Ma! — disse Pezão. — Está com medo do quê, cacete?
— Sei lá, né? Este lugar me fez lembrar daquele filme Um Drink no Inferno.
— Falando em inferno, cadê o Pequeno Faustão? — disse eu.
— Pequeno Faustão é o corno do seu pai! — disse o gorducho, sentando-se numa das mesas, com um prato de pudim.
— Onde você pegou isso, Tim? — disse Margareth.
— No balcão de doces — respondeu ele, com a boca cheia. Depois ele disse algo que nenhum de nós conseguiu entender.
— E como você sabe que isso aí não está estragado?
Antes que o gordo peçonhento respondesse, ouvimos uma voz atrás de nós:
— Não está estragado, mocinha — disse a anã.
Todos nós viramos na direção do balcão. O minicasal, agora devidamente vestido, olhava para nós com um alto grau de desconfiança. Ambos possuem a mesma altura; um pouco mais de 1 metro. Ao vê-los, Margareth deixou escapar um riso, mas ao perceber que somente ela estava rindo, parou imediatamente.
— Desculpa — disse Margareth, envergonhada.
— Desculpa por quê? — disse o anão. — Por rir de nós ou por roubar nosso pudim?
— Calma aí, não roubamos nada! — disse eu.
— Então aquele pudim vocês trouxeram de casa, é?
— Pare com isso, Joca! — disse a anã, depois saltou do banco onde estava e veio até nós. — Deixa o garoto comer o pudim em paz.
A anã tem uma voz bonita e imponente, poderia muito bem trabalhar como locutora numa rádio. Não sou muito bom para adivinhar a idade das pessoas, principalmente de anões, mas eu diria que ela não tem mais que 30 anos. E é bonitinha, viu? Já o anão parece um filhote de Oompa-Loompa com um cachorro Chihuahua. E alguém esqueceu de dizer para ele que corte Mullet não se faz há muito tempo. Ridículo!
— Não somos ladrões — disse Margareth, irritada. — Vamos pagar pelo pudim.
— Não precisam — disse a anã. — É cortesia da casa. Além do mais, acabaria estragando se o garoto não o comesse.
Margareth estendeu a mão e cumprimentou a anã. O nome dela é Milena. Ela e o marido Joca são os proprietários do restaurante/hotel.
O minicasal nos serviu um café delicioso, com panquecas e uma pasta de amendoim como poucas vezes comi na vida.
— Acho que nunca comi tanto — disse Margareth para a anã. — A senhora fez tudo isso sozinha?
— Hoje sim — respondeu ela, sorridente. — Geralmente tenho a ajuda de outras duas cozinheiras.
— E onde elas estão?
— Demos folga para todos os funcionários. Hoje é feriado aqui em nossa cidade.
— Falando nisso — disse eu. — Que cidade é esta?
— Aqui é Cajupira, — respondeu Joca — a menor cidade do Brasil.
— A menor do Brasil? — disse o gordinho, antes de engolir um puta pedaço de panqueca.
— Sim, somos apenas 97 habitantes.
— O quê? — disse Margareth, espantada. — Noventa e sete?
— Novente e seis, querido — disse Milena para o marido. — Esqueceu que o compadre Nunes faleceu ontem?
— Sim, é verdade! Agora somos noventa e seis. Pobre compadre Nunes.
— Pensei que fosse a menor cidade em estatura — disse Pezão.
Margareth quase jantou o Pezão com os olhos. Vocês precisavam ver a cara que ela fez para ele.
— Isso também — completou Milena.
— Sério? — disse Margareth. — Então a cidade toda é ... ?
— Sim, somos todos anões.
— Tem alguma coisa errada — disse o gordinho. — A cidade dos anões fica no estado de Sergipe. E não podemos estar em Sergipe. Não viajamos tanto assim.
— A cidade dos anões é Cajupira, — disse Joca, sério. — e estamos em Minas Gerais.
— Ah, lembrei! O nome da cidade é Itabaianinha, isso mesmo!
— Você está enganado, garoto — disse o anão, bem irritado.
— Não estou.
Joca passou por mim e disse baixinho:
— Eu vou dar um cacete naquele gordo.
Comecei a rir sozinho. Ninguém entendeu nada.
Lá fora a tempestade come solta. Será que o mundo está acabando e esqueceram de nos avisar? Se esqueceram ou não, o que importa é que não há a menor possibilidade de pegarmos a estrada nestas condições.
Bom, pelo menos paramos no lugar certo, né? Afinal de contas o lugar é restaurante/HOTEL. Vamos ter que passar a noite por aqui mesmo.
— Perdão, por acaso você não teria uma camisa para me emprestar? — disse eu para Milena. — Esfriou bastante e perdi minha camiseta durante a viagem.
— Temos uma pequena sessão de Achados e Perdidos — disse ela, toda gentil. — Você nem imagina as coisas que esquecem nos quartos e até mesmo aqui no restaurante.
— Vem comigo — disse Joca. — Tem de tudo naquele lugar; de cueca a jaquetas de couro. Só não esquecem a cabeça porque está colada ao corpo.
— Tô com frio também — disse o gordinho. — Posso ir com vocês?
— Não sei se terei algo ... do seu tamanho — disse o anão, com má vontade.
E lá fomos nós até a sessão de Achados e Perdidos. Eu pensei que era apenas uma caixa de papelão, com um monte de porcarias velhas. Mas me enganei redondamente. Joca nos levou até um quartinho no andar superior, o lugar era quase do tamanho do meu quarto, repleto de quinquilharias. Havia de tudo ali dentro, desde peças de roupa a radinhos de pilha.
— Um Aquaplay! — disse o gordinho, pegando o objeto de uma prateleira.
— Aquaplay?
— Você nunca viu? Minha falecida irmã tinha um. É acachapante! Você enche de água e ...
— Coloca de volta, garoto — disse Joca.
— Deixa eu ficar com ele, deixa?
— Não. Coloca de volta na prateleira, por favor.
Fiquei com pena do gordo. Ele guardou o brinquedo onde estava, sem dizer uma palavra.
— Ali naquele baú tem algumas peças de roupa — disse Joca. — Podem pegar o que vocês quiserem — O anão olhou para o gordinho e completou a frase: — Só o que estiver naquele baú.
— Obrigado — falei.
— Vou preparar os quartos para vocês e seus amigos. Volto já.
E o anão deixou o quarto. Imediatamente o gordinho pegou o tal do Aquaplay.
— Será que tem alguma torneira aqui por perto? — disse ele, todo excitado.
— Meu, larga esta porra! Não percebeu que o Pit Bitoca não foi com a tua cara?
O gordinho começou a rir sem parar, parecia uma Orca se apresentando no SeaWorld.
— Você é foda, cara. Meio esquisito, mas é foda.
— Esquisito é você, porra! Agora largue este brinquedo idiota e procure alguma coisa para esconder esta sua pança de mamute.
Acreditem ou não, ele me obedeceu.
Abri o tal baú. Fiquei impressionado com o volume. Nem meu próprio guarda-roupa tem tanta coisa assim.
— Que cheiro é este? — disse o gordinho, fazendo careta.
— Não fui eu.
— Eu sei. É do baú. — o gordinho colocou as mãos no nariz.
— Caralho, você tem razão — falei. — Que porra de cheiro é este?
— Você fala muito palavrão, sabia?
— E daí, porra? Vai tomar no seu cu, gordinho peçonhento Zé Buceta do caralho!
— Isso é sinal de estresse. Você vai morrer cedo.
Bati 3 vezes na madeira do baú.
— Vou o caralho! Agora fica quieto e procura um lençol bem grande para cobrir esta barriga de elefante.
Fucei, fucei e acabei encontrando uma jaqueta de moletom. Deu para o gasto. Vesti imediatamente, estava fazendo muito frio. Já o gordinho parecia mais preocupado em explorar o restante do quarto.
— Olha o que eu achei! — disse ele, segurando um pinto de borracha.
— Meu, você sabe o que é isso? — perguntei.
— Lógico que eu sei, né? — e o gordinho deu uma cheirada no pinguelo.
— Puta que pariu! Eu não acredito que você fez isso!
— E faço de novo, ó! — e fez mesmo.
Meu, este moleque tem algum problema mental psicológico da cabeça.
— Você comeu cocô, porra? Joga isso fora!
— Eu só queria saber qual é o cheiro de uma ...
— Xana? Xoxota? Xereca? Xinxila? Prexeca? Periquita? Vagina? Boceta?
— Ahã. Eu sempre quis saber como é.
— Olha, vou jogar a real com você. Há umas bem cheirosas. Em compensação, tem umas que ... Puta que pariu! Sabe o cheiro daquele baú? — e apontei. O gordinho fez que sim com a cabeça. — Já tive uma namorada que a xereca dela tinha um cheiro parecido, só que mais azedo.
O gordinho deu outra cheirada no pinguelo de borracha.
— Meu, joga isso fora, porra! — gritei com ele. — Você ficou maluco, é?
— Tem um cheiro bom. Acho que a dona tinha uma ... xereca limpinha.
— Você está enganado — disse Joca. É tão pequenino que nós nem percebemos que ele havia retornado.
O gordinho ficou branco de susto. Mas não largou o pinguelo.
— Isso aí não tinha dona — disse o anão, sério. — Tinha DONO.
— O quê? — o gordinho começou a ficar verde.
— Isso aí pertencia a uma bicha enrustida que se hospedava no hotel de tempos em tempos. Se quiser pegar para você, tudo bem. O dono já morreu mesmo. E se me recordo bem, morreu com um negócio desse aí, enterrado no cu, até o talo.
Putz! O gordinho jogou o pinguelo longe. Coitado, está procurando uma torneira até agora. E garanto que não é pra brincar de Aquaplay.
Capítulo 7 · O Pinguelo Assombrado
O gordinho ficou branco de susto. Mas não largou o pinguelo.
— Isso aí não tinha dona — disse o anão, sério. — Tinha DONO.
— O quê? — o gordinho começou a ficar verde.
— Isso aí pertencia a uma bicha enrustida que se hospedava no hotel de tempos em tempos. Se quiser pegar para você, tudo bem. O dono já morreu mesmo. E se me recordo bem, morreu com um negócio desse aí, enterrado no cu, até o talo.
Putz! O gordinho jogou o pinguelo longe. Coitado, está procurando uma torneira até agora. E garanto que não é pra brincar de Aquaplay.
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Acompanhei o anão até o quarto. Fiquei impressionado com o tamanho; era enorme. Coitados dos anões responsáveis pela limpeza, não devem ter vida fácil.
— Aquele negócio que você disse foi só para zoar o gordinho, né? — disse eu para o anão.
— Infelizmente não. Milênio, meu ex-cunhado, foi encontrado morto aqui no hotel com aquele negócio enterrado no ânus.
— Puta merda, hein! O nome dele era Milênio? Com um nome como este, eu também me suicidaria. Mas não com um consolo no rabo, é claro. Um tiro na testa, talvez.
— Pois é, minha esposa demorou meses para superar a perda do irmão.
— Eu nunca imaginei que existissem anões gays.
Putz! O anão me olhou com uma cara de pouquíssimos amigos. Achei que ele fosse me dar um soco no saco.
— Foi o único que conheci — retrucou ele. — E quer saber onde foi que ele se matou?
Algo me diz que a resposta não será nada agradável.
— Exatamente ali — disse o anão, apontando para uma das camas.
Bom, pelo menos eu já sei qual das duas camas NÃO será a minha.
Margareth entrou no quarto. O anão saiu, meio apressado.
— Uau! O quarto de vocês é enorme! — disse Margareth, olhando ao redor, embasbacada.
— Quer trocar? Eu topo!
— Acho melhor não, hein! O nosso quarto só tem uma cama de casal.
— Putz! Deixa pra lá. Ficamos neste aqui mesmo.
Ela sorriu.
— Cruzes! — disse Margareth, do nada. Depois ela esfregou o braço, como se estivesse com frio. — Você também sentiu?
— Senti o quê?
— Uma corrente gelada passar por nós. Jura que não sentiu? Olha como eu fiquei toda arrepiada! — ela me mostrou o braço.
— Não senti nada.
— Eu, hein! Mudei de idéia, viu? Não quero este quarto não!
Porra, agora eu também fiquei assustado. Não que eu tenha medo de fantasma, pois não tenho! Mas sei lá, né? Vai que o anão Leão Lobo resolve me atacar no meio da noite!
Margareth saiu do quarto às pressas. Por via das dúvidas eu fui atrás.
Encontramos Pezão e o gordinho no outro quarto. Pra variar, os dois estavam discutindo.
— Deve ter enfiado no cu, gordo! — disse Pezão.
— Só se for no teu! — retrucou o gordinho.
— Parem vocês dois! — esbravejou Margareth, fula da vida. — Parecem duas criancinhas mimadas!
— Ele que começou! — disse o gordinho, apontando para o Pezão.
— Você é chato pra caralho, hein!
— Puta que pariu, vocês vão parar com isso ou não ??? — e Margareth olhou para o primo. — Sobre o quê vocês estão brigando agora?
— Seu namoradinho escondeu meu iPod.
— O quê? — Pezão ficou vermelho de ódio. — Vai se ferrar, pequeno Faustão!
— Você tem provas de que ele realmente fez isso?
O gordinho peçonhento ficou sem graça.
— Não. Mas eu sei que foi ele!
— Tim, isso não se faz! Como você pode sair acusando alguém sem provas?
— E pra que eu pegaria aquela porra de iPod? Deve ter um monte de música gay naquela bosta.
O gordinho mostrou aquele famoso dedo para o Pezão. Margareth olhou puta da vida para o namorado.
— Você também não colabora, não é?
Pezão deu aquele sorriso cínico de sempre e beijou Margareth na bochecha.
A anã entrou no quarto. Eu dei um pulo de quase dois metros de altura. Todo mundo começou a rir de mim, feito hienas soltas num sanatório.
— Assustei você, querido? — disse Milena para mim.
— Não, de jeito algum. Foi só reflexo.
Mentira. Tomei um puta susto sim, pensei que fosse o anão gay vindo me agarrar.
— Reflexo o caralho! — disse Pezão, rindo loucamente. — Nunca vi ninguém saltar tão alto em toda a minha vida. Tem certeza que não borrou a cueca também?
Mostrei o dedo para ele. E disse:
— Engraçadinho você, né?
Eles continuaram rindo por alguns instantes, até que a anã disse:
— Vocês devem estar loucos por um banho quente, não?
— Hmmmm! Só se for agora! — disse Margareth.
— Então vem comigo, querida. Já arrumei as toalhas. Infelizmente não tenho roupas limpas para lhe oferecer.
— Nossa, não precisa se incomodar com isso. Um banho quentinho é tudo o que nós precisamos.
— E um pratão de arroz, feijão e bife acebolado — disse o gordinho, alisando a pança enorme.
— Tim, não me mata de vergonha!
A anã riu pelos cotovelos.
— Vergonha do quê, querida? — disse ela. — Ele está corretíssimo! Após o banho vocês irão experimentar o meu caldinho de frango.
O gordinho peçonhento até lambeu os beiços.
— Nossa, até eu fiquei com fome agora — disse Margareth.
— Caralho, eu também — disse Pezão.
Margareth deixou o quarto ao lado da anã.
Pezão começou a rir novamente, olhando para mim.
— Meu, que pulo foi aquele? A anã nem é tão feia assim, porra. Se fosse o ...
O anão entrou no quarto. Pezão calou-se.
— Está tudo bem por aqui? — disse o anão.
— Sim, tudo certo — respondi.
Silêncio por alguns instantes.
— Preciso falar com você — disse o anão, apontando para o gordinho. — Vem comigo.
Xiiiiiiiiiiii, será que o gordinho vai apanhar? Ele acompanhou o anão, apesar de não ter gostado muito da idéia.
— O baixinho vai pegar o gordo na porrada — sussurrou Pezão para mim.
— Eu acho que vontade não falta.
— Se o toquinho de gente precisar de ajuda, pode contar comigo.
Comecei a rir.
— Sacanagem.
— Sacanagem porra nenhuma! Aquele saco de banhas me irrita, Nando! Só não pego ele na porrada por causa da Margareth.
— O amor é lindo.
— Lindo nada. Se eu pego o gordo de jeito, a Ma nunca mais dá pra mim. E tô viciado nela. Nando, é a melhor trepada da minha vida, sério!
— Claro que é, seu idiota, você está apaixonado. Sexo com amor é mais gostoso, você não sabia?
— Bobagem. Amor é coisa de bicha.
— Então você virou uma bichona, pois eu vi o jeito com que você olha pra Margareth. É amor, cara.
— Vai se foder, Nando! Está me estranhando?
— Fica frio, mano, amar é uma coisa bacana. Não é vergonha pra ninguém.
— O que eu sinto por ela é tesão, não é isso aí não.
— Quando você olha pra ela os seus olhos brilham.
— E o meu pau fica duro. E daí, pau latejando também é sinal de amor, hein?
O cuzão saiu do quarto e me deixou falando sozinho. Porra, dói tanto assim assumir que está apaixonado por alguém?
— Nando!
Puta que pariu!!! Outro susto. Acho que pulei três metros dessa vez.
— Uau! Você já pensou em fazer atletismo, Nando? — disse o gordo peçonhento, tirando uma com a minha cara. — Você pula muito alto!
— É, eu vou pular com os dois pés na sua cara daqui a pouco.
— Preciso da sua ajuda.
— Já sei, você quer que eu te ajude a encontrar aquela porra de iPod.
— Não é bem isso que estamos procurando.
Não era a porra do iPod que ele estava procurando, mas sim o cacete de borracha. O anão estava com medo de sua esposa Milena encontrar o objeto e recordar do irmão falecido. Sem ter nada melhor pra fazer, resolvi ajudar.
— Tem certeza que não está por aqui, no corredor? — disse eu.
— Já procuramos em todos os lugares; nenhum sinal daquela coisa nojenta.
— Nojenta agora, né? Quero ver você dar uma cheirada naquela coisa outra vez.
— Nem a pau, Juvenal! Tô fora!
O anão apareceu do nada, bem na minha frente. Porra, outro susto.
— Caralho! — disse eu, puto.
— Te assustei, foi? — disse o Oompa Loompa dos infernos.
— Não. Foi meu reflexo apurado, só isso.
O gordo começou a rir. Olhei puto pra ele.
— Já encontraram aquela coisa? — sussurrou o anão para nós.
— Ainda não — respondeu o gordo.
— Porra! — disse o anão, com uma cara preocupada. Ele olhou para o gordo, puto da vida, e disse: — É tudo culpa sua!
— Desculpa.
— A gente vai achar — falei. — Fica frio.
— Para ser sincero, acho que não vamos encontrar aquilo tão cedo.
— Como assim?
O anão deu uma olhada para os lados, como se certificasse de que não havia mais ninguém por perto. Ao ter certeza de que estávamos a sós, ele disse baixinho:
— Eu já tinha dado um chá de sumiço naquela porcaria.
— Sim, estava escondido atrás de uma bola de basquete — disse o gordo.
— Não, não estava — disse o anão, sério.
— Estava sim! Foi lá que eu peguei.
— A última vez que eu achei aquele negócio, embrulhei num calhamaço de jornal e joguei no rio.
— Mentira. Devia ser outro. Aquele estava atrás da ...
— Você já disse. Acredito em você. Mas você ainda não me entendeu.
— Você está dizendo que aquela coisa é assombrada? — disse eu.
— Exatamente. Já fiz aquela porcaria desaparecer umas 10 vezes. Uma vez eu até queimei numa fogueira. Semanas depois ela estava sobre a cama, como se nada tivesse acontecido.
— Acachapante! — disse o gordo peçonhento, com os olhos arregalados.
Margareth passou por nós, enrolada numa toalha. Meu, ela estava tão cheirosa! Por um segundo imaginei aquela toalha amarela caindo e ...
— Está olhando o quê? — gritou Pezão para mim, lá do outro lado do corredor.
— Tua namorada, por quê? — respondi, em tom de brincadeira.
Mas Pezão não entendeu dessa forma. Ele fechou a cara e veio babando pra cima de mim. Fiquei parado, não me movi um centímetro. O anão se afastou e o gordinho entrou na minha frente, pra me defender.
Quando Pezão ficou a cerca de 1 metro de nós, tropeçou em alguma coisa e caiu de costas no chão. Putz! O barulho foi algo perturbador. Deve ter doído horrores! Margareth abriu só um pouquinho a porta do quarto, a fim de descobrir o que estava acontecendo ali no corredor. Ao ver o namorado estatelado no chão, ela não pensou duas vezes, veio correndo até ele, nua. Sim, nua. E acreditem se quiser, em respeito ao meu amigo, procurei não olhar para ela. Talvez eu me arrependa disso algum dia, mas ...
— O que aconteceu, meu anjo? — disse ela para ele.
Meu anjo? Não é todo dia que Pezão é chamado dessa forma. E o mais curioso: é bem provável que ele não tenha ouvido. Pezão gemia de dor, gemia tanto que eu pensei que fosse morrer.
— Puta que pariu! — resmungou Pezão. — Dói tudo, Ma!
— Vocês vão ficar parados aí? — disse Margareth, provavelmente para mim, para o gordo e para o anão.
— Você está pelada? — disse Pezão.
— E daí?
O gordinho entrou correndo no quarto e trouxe a toalha para a prima. Ela o agradeceu e pude ouvir um beijo, provavelmente na bochecha dele. Juro, eu não olhei pra ela até agora.
— O que você tem? — disse Margareth. Acho que foi para mim.
— Eu?
— É, você! Vem aqui ajudar o seu amigo, caramba!
— Já enrolou a toalha?
— Já, cacete! Vem logo! Virou monge justo agora?
Quando me virei na direção deles, vi o anão agachado para pegar alguma coisa do chão. Sim, era o pinguelo de borracha, o grande causador do tombo do Pezão. Quase tive um ataque de risos. Mas me controlei. Pegaria muito mal eu ter um ataque de risos enquanto o Pezão estava esparramado pelo chão, gemendo de dor. Se bem que ele já fez isso comigo diversas vezes.
O anão enrolou aquela coisa nojenta na sua blusa de lã e saiu de fininho pelo corredor.
— Vem logo, caramba! — disse Margareth, fula da vida comigo. Ela nem reparou na presença do anão.
Ajudamos o Pezão a ficar de pé novamente. E comprovamos que aquela velha frase é verdadeira: Vaso ruim não quebra. Ele estava bem, o tombo fora apenas um susto. Mas isso não o impediu de ficar puto comigo, é claro.
— Você deu sorte, seu porra — disse ele para mim. — Eu ia te acertar em cheio.
— Ia nada. Meu escudo humano ia abafar o golpe.
— Que escudo humano? — disse Margareth, com um olhar curioso. — Nando, você ia usar o coitado do anão como escudo? Isso não se faz!
— Anão porra nenhuma! Seu primo entrou na minha frente para me defender.
— Sério? Você fez isso, Tim?
— O amor é lindo — disse Pezão.
— Vai se ferrar!
Capítulo 8 · Hora de Dormir
— Você deu sorte, seu porra — disse ele para mim. — Eu ia te acertar em cheio.
— Ia nada. Meu escudo humano ia abafar o golpe.
— Que escudo humano? — disse Margareth, com um olhar curioso. — Nando, você ia usar o coitado do anão como escudo? Isso não se faz!
— Anão porra nenhuma! Seu primo entrou na minha frente para me defender.
— Sério? Você fez isso, Tim?
— O amor é lindo — disse Pezão.
— Vai se ferrar!
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— Eu só queria me vingar por ele ter escondido o meu iPod — disse o gordinho.
— Nem encostei naquela porra de iPod, moleque!
A anã apareceu do nada, assustando a todos.
— Vocês viram o meu marido?
— Ele estava por aqui agora mesmo — respondeu Margareth.
— O que houve com você? — perguntou a anã para o Pezão.
— Levei um pequeno tombo.
— Nossa, machucou?
— Ele vai ficar bem. Algumas horas de sono e ficará novo em folha.
— Vamos jantar primeiro. O caldo de frango está pronto. Preparei umas torradinhas deliciosas também.
— Hmmmm! Acachapante! — o gordo até lambeu os beiços.
— Acacha o quê?
— Deixa pra lá, dona — disse eu.
Olha, nunca fui muito fã de frango, mas devo admitir que o cheiro vindo da cozinha está qualquer coisa de extraordinário. Meu estômago fazia tanto barulho que parecia uma orquestra desafinada tentando tocar a Quinta Sinfonia de Beethoven.
Milena nos conduziu gentilmente até a sala de jantar, impecavelmente preparada para nos receber. Ficamos todos boquiabertos com tamanha hospitalidade.
— Quantos funcionários possui o hotel? — perguntei.
— São nove, ao todo.
— Tudo aqui é tão limpinho e arrumado! — disse Margareth.
— Foi exatamente por isso que fiz a pergunta.
Milena sorriu de orelha a orelha.
— O hóspede merece, não é? — disse ela. — Este lugar pertence à minha família há gerações. Eu não posso decepcioná-los também.
— Garanto que estão orgulhosos de você — disse Margareth, colocando a mão gentilmente sobre o ombro da anã.
— Onde estão as torradinhas? — disse o gordinho peçonhento. — Adoro torradinhas com alho.
— Como sabe que preparei as torradas com alho?
O moleque deu duas cafungadas no ar.
— Reconheço este cheirinho de longe — disse ele, sorrindo feito um ex-prisioneiro que acabou de ser solto.
— Você é adorável! Algo em você me faz lembrar o meu falecido irmão.
O rosto da anã ficou triste. Margareth também percebeu.
— Quer uma ajuda para servir os pratos? — disse ela.
— Não precisa, querida.
— Não preciso. Mas eu insisto! — e ela abriu um sorriso para a anã.
Se eu confessar algo para vocês, prometem não contar nada para o Pezão? Estou começando a gostar da Margareth. Eu sei, eu sei! Ela é namorada do meu melhor amigo, mas não tenho culpa! Ela tem um sorriso encantador e ... ah, deixa pra lá! Acho que se eu me esforçar um pouco isso passa. Ou melhor, TEM que passar! Os dois estão bem juntos e seria uma tremenda sacanagem eu atrapalhar isso. Não concordam?
As duas foram para a cozinha. Restamos os três. Após um tempo, percebi que Pezão me olhava de forma estranha.
— O que foi? — disse eu.
— Eu vi muito bem o jeito que você olhou para a Margareth aquela hora.
— Que hora?
— Quando ela passou enrolada na toalha. Não se faça de bobo!
— Não viaja, cara!
— Não estou no Big Brother — disse o gordo. — , mas até eu dei uma espiadinha.
Pezão fez um cara de pouquíssimos amigos.
— Ela é sua prima, porra! — disse ele, puto. — Além de balofo é psicopata
— Nisso eu concordo com você — falei. E olhei para o gordo. — Você tem uma tremenda cara de pervertido!
— Vocês dois precisam se decidir — retrucou o gordinho. — Tenho cara de psicopata ou de pervertido? São duas coisas bem diferentes!
— Psicopata — disse Pezão.
— Pervertido — disse eu, praticamente junto com o Pezão.
— Gerontófilo — disse o gordinho, depois.
Ficamos olhando para ele, sem entender porra nenhuma.
— Geron o quê? — disse eu.
— Gerontófilo — disse o gordinho, lentamente. — Isso eu admito.
— Significa Super Gay? — disse Pezão.
O gordinho olhou sério para ele, e disse:
— Além de cuzão é ignorante.
— Gerontófilo? — falei, coçando a cabeça e tentando não parecer tão ignorante feito o Pezão. — Bom, se um pedófilo é quem sente atração sexual por crianças ...
— Porra, então eu já sei! — disse Pezão. — Gerontófilo é quem tem atração sexual por gerentes! O balofo é bicha, eu sabia!
O gordinho balançou a cabeça negativamente, mantendo um olhar irônico para o Pezão.
— Você não passou nem perto. E tem mais, você não sabia que também existem mulheres gerentes, seu idiota?
— Mas aposto que você prefere os gerentes homens.
O moleque continuou balançando a cabeça negativamente. Vou ser honesto, até eu comecei a me sentir um idiota naquela mesa. O gordo parecia o adulto e nós as crianças.
— Para o bem da minha prima, espero que o seu pinto seja maior que o seu Q.I.
Caralho!!! O gordinho humilhou!!! Tive que me segurar para não cair da cadeira.
— Sim, ele é dez vezes maior! — retrucou Pezão.
O gordinho olhou para mim e começamos a rir feito hienas comemorando uma vitória do Brasil na Copa do Mundo de futebol. Pezão ficou puto pra caralho.
— Pelo menos eu não transo com gerentes, suas bichonas! — disse ele.
— Porra! — esbravejei. — Que diabos significa gerontófilo? Isso existe mesmo?
— Existe sim. Eu também não sabia que o nome era este. Achei no Google.
— Você tem tara por girafas ou algo do gênero? Conta aí, cacete!
O gordinho fez uma concha ao redor do meu ouvido e cochichou a resposta. Pezão, do outro lado da mesa, ficou ainda mais puto.
— São duas bichonas mesmo, olha! Agora trocam segredinhos.
Putz!!! O gordinho é doente!!!
— Então é isso que significa gerontófilo? — disse eu em voz alta, tentando irritar ainda mais o Pezão.
Milena e Margareth voltaram da cozinha; cada uma com uma panela nas mãos. O gordinho fez sinal para que eu ficasse quieto. Acho que a prima não sabe que ele é um gerontófilo. Bom, se é que isso existe mesmo, né?
Percebendo a preocupação do moleque, Pezão resolveu contra-atacar.
— Você sabia que seu primo é gerontópitus, Ma?
Margareth olhou para ele com uma cara meio esquisita, quase rindo.
— O quê?
— Gerontrópicus, sei lá! Você sabia?
— Gerontrópicus é uma espécie de vegetariano, né? — disse a anã. — Tudo bem, meus queridos! Também fiz um pouco de salada, viu?
— O Tim, vegetariano? — e Margareth caiu na gargalhada. — Aquele ali só não come as próprias mãos por que precisa delas para ... — ela ficou vermelha e parou. — Deixa pra lá.
— Porra, não é vegetariano! — disse Pezão, irritado. — Eu esqueci a palavra!
— Do que vocês estavam falando? Ouvi risos escandalosos lá da cozinha.
— Nós viemos aqui para comer ou para conversar? — disse eu, tentando colocar um fim na discussão que estava prestes a começar.
E olha que eu tinha algo a dizer para o Pezão, caso ele não parasse com as provocações. Vou deixá-los curiosos só mais um pouquinho ... Pezão, tecnicamente também já praticou gerontofilia uma vez na vida. E creio que eu também ... só um pouquinho!!!
Oh, voltem aqui!!! Nada de ficar no Google pesquisando o que é gerontofilia. Deixem para fazer isso depois, porra!!! O capítulo ainda não acabou!!!
O anão finalmente reapareceu. Milena olhou feio para o esposo.
— Eu já estava ficando preocupada!
— Não havia motivos para isso, querida. Só fui lá fora colher umas goiabas para aquela torta que você quer fazer amanhã.
Era mentira, claro. Ele havia saído para dar um fim no pinguelo assombrado.
Bom, e espero que ele tenha conseguido. Aquele negócio estava começando a me dar nos nervos.
O jantar foi maravilhoso. O tal do caldinho de frango estava uma delícia! Comi dois pratos e ainda lambi os beiços. A sobremesa foi uma torta de banana com calda caramelada. Apesar do nome soar meio gay, estava muito boa. E olha que eu nem sou muito fã de doces.
Já era tarde e precisávamos descansar. Milena e Margareth começaram a retirar os pratos. Do nada, o gordo começou a rir, praticamente sozinho. Parecia um debilóide.
— Comeu cocô, moleque? — perguntei. — Do que você está rindo?
Ele continuou rindo.
Até que de repente eu entendi o motivo das risadas. O filho-da-mãe havia colocado um para a gente cheirar. Puta merda!!! Bateu uma marola quente do meu lado que eu vou contar para vocês, quase desmaiei.
O gordinho peçonhento comeu a bandeja inteira de torradas com alho. Imaginem o estrago que isso faz!!! Meu, coitado de quem dormir no mesmo quarto que ele esta noite. Esperem um pouco, serei eu!!! Tô fodido.
Poucos segundos depois, a marola passou para o outro lado da mesa, atingindo Pezão e o anão.
— Caralho, gordo! — resmungou Pezão, colocando as mãos sobre o nariz. — Pode encomendar o caixão! Puta merda! Vai cagar no banheiro, porra!
Pensei que o anão fosse fazer cara feia e deixar a mesa, mas por fim ele acabou rindo da situação (com as mãos no nariz também, é claro).
Aproveitei que a Milena estava na cozinha com a Margareth e sussurrei algo para o anão:
— Conseguiu dar um fim naquela coisa?
Ele ajeitou-se na cadeira e sussurrou de volta:
— Sim. Espero não ver aquela coisa nojenta nunca mais.
— O que você fez? — sussurrou o gordo.
— Peguei o meu machado e o parti em centenas de pedaços. Depois queimei tudo e enterrei as cinzas.
Pezão ficou olhando assustado para nós.
— Do que vocês estão falando?
— Fala baixo, porra! — disse eu, dando uma olhada rápida para a cozinha.
— Não é nada — disse o anão. — Esquece.
— Porra, mais segredos?
Hora de dormir.
Antes de abrir a porta do quarto eu tive a sensação de que o pinguelo assombrado estaria sobre a minha cama. E ... eu estava errado. Não havia nada lá, a não ser um par de cobertores.
A vida real é diferente, e geralmente sem graça. Ainda bem.
Mas ... se estivéssemos dentro de um filme de terror, aposto que haveria alguma coisa sobre a cama, provavelmente o corpo mumificado do anão gay. Que tal, hein? Seria bizarro. Daria um bom filme.
Bom, se o gordinho encontrar a múmia sobre a cama dele, basta ele peidar como peidou lá na sala de jantar. Não terá maiores problemas. Múmias resistem ao tempo, mas aposto que não sobreviveriam a um peido como aquele.
Já nos preparávamos para dormir, quando a luz do quarto acendeu. O gordinho e eu tomamos um puta susto.
— O que foi? — era Margareth. Ela começou a rir ao ver nossas caras de espanto. — Assustei vocês?
— Claro que não! — disse o gordo, nitidamente pálido.
Porra, eu tentando apagar a imagem dela enrolada na toalha e agora isso? Ela está com um pijama super apertado. Tão apertado que dá pra ver o contorno dos mamilos. Tive que fazer um esforço enorme para não olhar.
— Vim dar boa noite — disse ela, beijando a testa do gordinho.
— Que pijama é este? — disse ele, rindo. — Está tão apertado que se você peidar, o coitado não vai achar a saída.
Caímos na gargalhada.
— Este pijama é da Milena — sussurrou Margareth. — Eu não queria usar, mas ela praticamente me obrigou. Acho até que rasgou quando comecei a vesti-lo.
— Deve estar muito desconfortável — disse eu.
— E como!!! Mas assim que eu voltar para o meu quarto irei tirá-lo.
Putz!!! Tive uma ereção instantânea. Imaginei ela peladinha aqui do meu lado. Nossa, que delícia!!! Maldito Pezão sortudo do caralho!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ela apagou a luz e deixou o quarto, mas a minha ereção durou mais uns oito minutos. Minto, durou mais.
— Nando — disse o gordo, de repente.
— Oi. Não peidou outra vez, né?
— Não, de boa. Posso te fazer uma pergunta?
— Manda.
— Você já fez sexo, né?
— Opa, muitas vezes.
— E é bom mesmo?
— É horrível, dá vontade de vomitar.
— Sério?
— Lógico que não, né? Porra, gordo! Às vezes você parece tão inteligente!
— Eu leio bastante. Mas me falta prática, sabe?
— Fica frio, a sua vez vai chegar.
Silêncio. E o gordinho recomeçou o papo.
— Uma vez quase rolou, sabe?
— Sério? Já sei, com a vizinha, a coroa.
— Como você sabe?
— Gordo, eu não leio bastante como você, mas não sou idiota!
— É, eu já percebi. Já o seu amigo é uma anta humana.
— Às vezes é mesmo.
— Eu queria que a minha prima namorasse você.
— Eu também.
— O quê? Sério? Você gosta dela?
Putz!!! Oh, boca maldita!!!
— Não, falei por brincadeira. Vamos voltar ao assunto sobre você e a vizinha. Então quase rolou?
— Sim, ela me pediu pra fazer massagem.
— Hmmmmmmm, safadinha! E você fez?
— Bom, eu ... fiz, né? Mas aí ela tirou a blusa e ...
O gordo empacou. Será que dormiu?
— Porra, continua! Está ficando quente a história.
— É meio embaraçoso o que aconteceu.
— Você gozou ao vê-la sem blusa?
— Ahã. Ela estava com um sutiã marrom. Nunca vou me esquecer daquela cena.
— Puta merda, sutiã marrom? Vai ter mau gosto assim lá na casa do caralho!
— Não fala assim!
— E daí? A história acaba desse jeito? Você não deu nem uma chupada nos peitos da velha?
— Nem. Fiquei com tanta vergonha que fui correndo pra casa.
— Porra, mais uns minutinhos e o garoto ia ficar pronto pra guerra outra vez.
— Sério? É rápido assim?
— Bom, às vezes é, às vezes nem tanto. Pinto é um negócio misterioso.
Silêncio. Pensei que o gordinho fosse me deixar em paz. Mas não.
— Posso te contar um segredo?
— Pode ser amanhã bem cedinho? Estou morrendo de sono.
— É rapidão. É sobre um pesadelo que eu costumo ter, desde aquele dia.
— Pesadelo, é? Conta aí.
— No pesadelo eu transo com ela.
— Porra, então não é pesadelo! Pesadelo foi você ter gozado na cueca.
— Espera. Não terminei de contar. Ela morre durante a transa.
— Putz!!! Então é pesadelo mesmo. Posso dormir agora?
— Tem mais. Ela morre e enterram.
— Lógico. É o que fazem quando a gente morre, gordo.
— Eu sei. Mas aí, nove meses depois, nasce o nosso filho.
— O quê? Mas como? Não enterraram a velha?
— Sim, mas o bebê nasceu e veio atrás de mim.
— Caralho!!! Até arrepiei agora.
— Desde aquele dia eu tenho este mesmo pesadelo.
— Fica frio. Talvez isso não seja um pesadelo, mas sim um aviso.
— Aviso?
— Sim. Para que você use camisinha, seu imbecil!!!
Rimos bastante. Depois ele finalmente ficou quieto.
A noite seguiu tranqüila e calma. Os cobertores quentinhos e aconchegantes. Lá fora um barulhinho de chuva. Tudo propício para uma maravilhosa noite de sono.
Bom, estava propício, até que um grito apavorante ecoou por todo o hotel. E até que se prove o contrário, o grito foi dado pelo Pezão.
Capítulo 9 · O Quinto Elemento
A noite seguiu tranqüila e calma. Os cobertores quentinhos e aconchegantes. Lá fora um barulhinho de chuva. Tudo propício para uma maravilhosa noite de sono.
Bom, estava propício, até que um grito apavorante ecoou por todo o hotel. E até que se prove o contrário, o grito foi dado pelo Pezão.
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— Você também ouviu? — perguntei para o gordo.
— Meu estômago roncar?
— Que porra de estômago? O grito!
— Ah, ouvi sim. Não esquenta com isso não.
— Aconteceu alguma coisa. O Pezão pode estar precisando da nossa ajuda.
— Aposto que não.
— Como assim? Como você sabe?
— Conheço a minha prima, Nando. Vai por mim.
— Do que você está falando, porra?
— Os ex-namorados dela viviam machucados. Uma vez eu fiz uma pequena investigação e descobri que a Ma é sádica. Ela curte um sexo selvagem, saca? O negócio dela é fazer o outro sofrer.
Comecei a rir.
— Ah, fala sério! Você está zoando comigo.
O gordo não riu.
— É sério. E ela pega pesado, viu? Mas é claro que ela não sai por aí contando pra todo mundo. Aposto que ela também se masturba assistindo Faces da Morte.
— Acho que é mal de família então, né? Só tem biruta.
— O quê?
— Deixa pra lá.
Quando eu me preparava para dormir ... Outro grito. De novo o Pezão. Dessa vez eu desci da cama.
— Aonde você vai? — disse o gordo.
— Tem alguma coisa estranha. Vou ver o que é.
— Você que sabe. Depois não diz que eu não avisei.
Fiz sinal de positivo e deixei o quarto.
O corredor estava uma escuridão só. Procurei o maldito interruptor.
— Pezão! — disse eu, tentando dosar a altura da voz.
Nada de resposta. Nada de interruptor também. Onde é que está esta porra? O jeito foi ir tateando a parede.
Até onde eu me lembro, o quarto deles não está tão longe do nosso. Questão de alguns metros só. Acho que eu consigo chegar até lá.
— Pezão, está tudo bem aí? — repeti.
De repente porta deles se abre e a luz do quarto ilumina um pouco o corredor. Alguém sai do quarto rindo feito uma hiena perdida na Disneylândia.
— Margareth? — disse eu, curioso.
Ela continuou rindo, toda enrolada num lençol. Havia um certo erotismo naquela cena.
— O que você está fazendo aí? — disse ela, agora com o rosto um pouco mais sério.
— Ouvi gritos. Aconteceu alguma coisa?
Margareth olhou para dentro do quarto.
— Aconteceu alguma coisa? — disse ela, num tom irônico.
— Não! — gritou Pezão. Conheço aquele tom de voz. Ele está super mega puto. Resta saber o motivo.
— Que gritos foram aqueles, porra? — disse eu.
Margareth começou a rir novamente.
— Quer parar de rir, caralho??? — gritou Pezão. Meu, o cara está muito puto. Aconteceu alguma coisa muito séria.
Dei três passos em direção ao quarto e fiquei de frente para a porta. Pezão estava debaixo de um cobertor. Seu rosto estava pálido e ele suava muito.
— Você está péssimo, cara — disse eu.
— Que porra você está fazendo aqui, Nando? Vai dormir, caralho!
— Só volto quando eu souber o que está acontecendo aqui.
Margareth esboçou uma risada. Mas quando viu o olhar feroz de Pezão, controlou-se.
— Se você rir mais uma vez, eu juro que levanto daqui e ...
— E o quê? — disse ela, com as mãos na cintura. — Vai me bater, vai?
— Calma aí, gente! Porra, que diabos está acontecendo aqui?
— Conta para ele o que aconteceu! — disse Margareth para Pezão.
— Não. Volta pra cama, fecha esta porta e vamos todos esquecer esta noite.
— Esquecer? Esquecer como? O negócio continua aí preso, não continua?
Pezão fez uma cara de dor que deu até pena.
— Cala esta boca, porra! — disse ele.
— Que história é esta de negócio preso? — disse eu, puto. — Que negócio?
— Seu amigo teve a moral de enterrar um consolo no rabo — disse Margareth, tentando manter a seriedade. — Só não sei como é que ele conseguiu fazer isso!
O quê? Caí na gargalhada, é claro. Imagine quinhentas hienas nuas numa platéia de circo, todas rindo em perfeita sincronia. Imaginou? Azar o seu, não tinha nada a ver com a história.
— Sério? — disse eu.
— Sim! — respondeu Margareth. — E agora está jogando a culpa em mim!
— Não se faz de vítima, porra! — gritou Pezão, super irritado. — É claro que foi você, sua biscate maluca!
— Opa, biscate maluca? Biscate maluca é a tua vovozinha, sua bichona!
Ao ouvir a palavra "bichona", Pezão ficou tão puto que tentou sair da cama, mas não conseguiu. Sentiu alguma dor ou sei lá, só sei que voltou a deitar-se, fazendo cara de poucos amigos.
— Olha só o que você fez comigo, porra! E o pior é que não quer sair!
Não sei como eu não ri da situação. Devo estar amadurecendo.
— Muita hora nessa calma — disse eu, tentando apaziguar a situação — E se eu dissesse para vocês que ambos estão errados.
Eles olharam espantados para mim.
— Como assim? — disse Margareth. Ela se desconcentrou e o lençol escapuliu de uma das mãos. Vi um dos seios. Uau! Biquinho rosado, maravilhoso.
Agora eu fiquei desconcentrado.
— Continua, Nando! — disse ela. Margareth não percebeu que seu seio esquerdo estava à mostra.
— Ele está olhando para os seus peitos, porra! — gritou Pezão. — Ajeita este lençol, cacete!
— Nando, seu safado! — disse ela, rindo.
Ela arrumou o lençol. Droga!
— Então, como eu ia dizendo ... — prossegui. — Ambos estão errados. Nenhum de vocês dois enfiou o consolo no cu do Pezão.
Quase caí na gargalhada. Mas me contive.
— Para de graça, Nando — disse Pezão. — Ela sabe muito bem quem foi.
— Não fui eu, cacete!!! — disse Margareth, puta da vida.
— O que está acontecendo aqui?
Margareth e eu tomamos um puta susto. O anão surgiu do nada.
— Alguém pode me explicar? — disse ele.
— Lembra que você deu um sumiço naquela coisa? — disse eu para ele.
— Que coisa? Do que você está falando?
— O pinguelo, porra!
— Ah, aquela coisa. Fique sossegado, nunca mais veremos aquela coisa outra vez.
— Tem certeza? — E apontei para o Pezão.
O anão olhou para o Pezão, sem entender porra alguma.
— Não me diga que ele voltou — disse o anão, fazendo cara de poucos amigos.
Fiz sinal de positivo com a cabeça.
— Do que vocês estão falando, porra? — disse Pezão.
— Passa ele pra cá — disse o anão. — Antes que minha esposa o encontre.
— Acho que dessa vez teremos um pequeno problema — disse eu.
— Que problema?
— O pinguelo reapareceu num lugar ... desagradável.
— Onde?
— Mostra aí, querido — disse Margareth.
— Mostrar o caralho!!! — respondeu Pezão, vermelho de vergonha.
— Não é pra mostrar o caralho — disse eu. — Mostra o pinguelo enterrado no seu rabo.
— Nem a pau!
E Pezão não mostrou. De certa forma foi até um alívio. Não seria uma imagem muito bonita, né? O anão arranjou um pote de vaselina e Margareth voltou para o quarto, com a missão de retirar o pinguelo. A porta ficou trancada o tempo todo.
Meia hora depois, após gritos e gemidos, a porta abriu-se novamente. Margareth apareceu com o pinguelo enrolado num saco plástico.
Corri para o banheiro mais próximo e vomitei horrores. Vomitei o que tinha e o que não tinha no meu estômago. Nunca me senti tão leve em toda a minha vida.
Joguei água no rosto e saí do banheiro um pouco melhor. Não vejo a hora de desabar na cama e dormir até o fim dos tempos. Por hoje chega!
Assim que saí do banheiro, Pezão entrou correndo e fechou a porta com violência.
— Como você sabia da história do pinguelo? — disse Margareth, do nada. Tomei um puta susto.
— Caralho, de onde você saiu?
— Desculpa se te assustei.
— Tudo bem — Bocejei. — Olha, posso contar tudo pela manhã? Estou super cansado.
— Não. Tem que ser agora! Tenho que dar uma satisfação para ele, né? — Margareth apontou para a porta do banheiro. — O coitado está apavorado.
— Ele continua achando que foi você?
— Acho que sim.
— Coloque-se no lugar dele. Até eu pensaria.
— Eu sei. Mas se não fui eu, e não foi ele. Quem foi então? Como é que aquele consolo foi aparecer no cu dele?
De repente ouvi a voz do gordo, vindo do nosso quarto. Parece estar conversando com alguém.
— Seu primo fala durante o sono? — perguntei para Margareth.
— Que eu saiba, não.
— Então com quem ele está conversando? Pezão está no banheiro e nós estamos aqui.
— A anã deve estar lá no quarto. Ela gostou muito dele.
— E conhecendo seu primo, ele também gostou dela.
— O quê?
— Deixa pra lá.
Do outro lado, ouvimos passos na escada. Era justamente a anã, vindo com uma bandeja cheia de biscoitos e um copo de chocolate quente.
— Cadê o outro rapaz? — disse ela, sorrindo para nós. — Meu marido me disse que ele não está passando muito bem e resolvi trazer uns biscoitinhos.
— A senhora é mesmo um anjo — disse Margareth. — Ele está tomando um banho quente e logo estará melhor.
— O que ele tem?
Margareth olhou para mim. Arregalei os olhos e fiz sinal de negativo. Ela voltou a olhar para anã e respondeu calmamente:
— Um pouco de febre, só isso.
— Pobrezinho.
Enquanto isso, lá no quarto, o gordo continuava a tagarelar. Mas com quem? Só restou o anão.
— A senhora poderia me dizer onde está o seu marido, dona? — disse eu.
— Está lá na cozinha resolvendo um problema de goteira. Esta chuvarada toda sempre traz alguns probleminhas, não é?
— A senhora tem certeza absoluta que ele está lá?
— Sim, tenho, acabei de falar com ele enquanto preparava os biscoitos. Por quê?
Olhei para o meu quarto novamente. Margareth também. Depois olhamos um para o outro, assustados.
O gordo peçonhento está conversando com quem?
Capítulo 10 · O Paraíso
— A senhora poderia me dizer onde está o seu marido, dona? — disse eu.
— Está lá na cozinha resolvendo um problema de goteira. Esta chuvarada toda sempre traz alguns probleminhas, não é?
— A senhora tem certeza absoluta que ele está lá?
— Sim, tenho, acabei de falar com ele enquanto preparava os biscoitos. Por quê?
Olhei para o meu quarto novamente. Margareth também. Depois olhamos um para o outro, assustados.
O gordo peçonhento está conversando com quem?
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Porra, ou o gordinho é o cara mais corajoso que eu já vi ou, além de gostar de velhas, é chegado em espíritos também. Será que tem algum nome pra isso? Espiritófilo?
Respirei fundo e tomei a iniciativa de entrar no quarto. Margareth ficou parada, branca feito um jato de porra.
— Não quer ver? — perguntei pra ela.
— Eu não!
Foda-se, já estou lascado mesmo. Acendi o interruptor.
O moleque estava escondido debaixo das cobertas. Ele todo, não sobrou nem um pedacinho da cabeça gorda para fora. Sussurrava alguma coisa; eu podia escutar. Mas sussurando o quê? E pra quem, porra?
Dei dois tapas no que eu acredito ser as costas dele. Ao não obter nenhuma resposta, fiquei irritado e puxei o cobertor. Putz!!! Nunca me arrependi tanto na minha vida.
— Puta que pariu, Nando! — gritou o gordo, mais vermelho que a camisa do Internacional de Porto Alegre.
O gordo estava nu. A mão esquerda no pinto e a mão direita num celular. A bunda gorda e branca me fez lembrar do falecido Mamute. Disparei num ataque de risos. Fiz tanto estardalhaço que Margareth veio ver o que estava acontecendo.
— Cruzes! E eu morrendo de preocupação, Tim! — disse ela, virando o rosto para não ver a bunda branca do primo.
Ao ver a anã se aproximar da porta do quarto, joguei as cobertas novamente sobre o gordo punheteiro.
— Preocupada por quê? — resmungou o gordo, puto da vida. — Eu só estava batendo uma, e daí? Não é crime, é?
— Você gasta toda a sua mesada com Tele Sexo? — disse eu, após uma breve pausa nas gargalhadas.
— Que Tele Sexo? Meu celular nem tem crédito.
— Mas nós ouvimos você conversar com alguém — disse a prima.
O gordo peçonhento fez uma puta cara de tarado. Eu já tinha um certo medo do moleque. Agora fiquei mais assustado ainda. Este gordinho vai ser um Serial Killer algum dia. Anotem aí.
— Foi a mãe de um amigo que me ligou. Ela tem uma voz ... maravilhosa. De vez em quando ela me liga de madrugada e ...
Notei o gordinho virando os olhos e senti uns movimentos debaixo do cobertor.
— Porra, — esbravejei. — não acredito que você ainda está batendo uma enquanto conversamos!!!
— Você me interrompeu, né?
Puta merda. Ninguém merece.
De repente gritos. Era o Pezão ... outra vez. Corremos todos para a porta do banheiro. Margareth estava apavorada, batendo na porta com toda a força.
— Deixa eu entrar! — repetia ela.
De dentro do banheiro nós ouvíamos o Pezão gritar:
— O que está fazendo aqui, porra? Para com isso! Me deixa em paz!
Margareth chorava, pobrezinha. E batia na porta com o que lhe sobrava de forças.
— Tem mais alguém lá dentro? — disse a anã, bem assustada.
E o anão apareceu.
— O que está acontecendo aqui? — disse ele. — Que gritaria é essa?
Puxei o anão para um canto e sussurrei no seu ouvido:
— Acho que o seu ex-cunhado está lá dentro — apontei para o banheiro. — com o meu amigo.
O anão engoliu seco e me olhou assustado.
— Não brinque comigo, rapaz! — disse ele.
E a porta do banheiro abriu-se. Agora quem engoliu seco fui eu. Confesso que fiquei todo arrepiado, dos pés aos pentelhos do saco.
Pezão saiu, enrolado na toalha, e chorava feito um menino que apanhou no colégio. Senti pena dele.
Margareth deu-lhe um beijo na testa e depois um abraço carinhoso. Nunca vi ninguém tratar o Pezão como ela o trata.
— O que houve? — disse a anã para o Pezão. — Você está bem, querido?
Pezão balançou a cabeça negativamente.
— Eu quero ir embora da porra desse lugar — disse Pezão, com a voz meio rouca.
A anã ficou meio sem graça. O anão ficou zangado.
— Olha como você fala com a minha esposa, moleque!
— Vão se foder todos vocês, seus duendes do caralho! Por que fizeram isso comigo? Nunca fiz mal para ninguém da sua espécie, porra!
— Do que você está falando? — disse o anão. — Nós não fizemos nada com você!
— Não? Não fizeram? Então o que é isso?
Pezão afastou Margareth, deixou cair a toalha e virou-se de costas para nós. O pinguelo de borracha estava enterrado até o talo no seu cu.
Puta que pariu! Vou confessar algo para vocês. Doeu só de olhar.
O anão deu um pulo espetacular e parou na frente da esposa, encobrindo sua visão.
— Você ficou maluco, rapaz? — disse o anão, puto da vida.
Margareth fez um favor para todos nós e recolocou a toalha na cintura do namorado.
Pezão voltou para o seu quarto, caminhando todo torto. Deu até uma ligeira vontade de rir, mas segurei. Seria muita sacanagem da minha parte, né?
Margareth foi atrás do Pezão. Ao passar por mim, falei baixinho para ela:
— Eu e o gordo vamos esperar vocês lá embaixo.
Ela me olhou espantada.
— Esperar? Como assim? Eu quero dormir.
— A gente espera lá embaixo.
— Não estou te entendendo.
Trinta minutos depois, Pezão e Margareth desceram as escadas. Ele com cara de poucos amigos; ela praticamente dormindo em pé.
— Vamos embora dessa porra — disse Pezão.
Olhei para Margareth e falei:
— Entendeu agora?
Ela bocejou e depois me mostrou aquele famoso dedo.
Pezão passou pela porta e nem olhou para trás. Não fui tão rude; agradeci os anões pela hospitalidade e prometi voltar algum dia. Lógico que fui apenas simpático. Não pretendo voltar aqui nunca mais. Já imaginou se resolvem enterrar aquele negócio no meu fiofó? Nem a pau, Juvenal! No meu não! No meu ... NÃO!
O gordinho passou por mim com uma sacola cheia de biscoitos e outras guloseimas. Maldito gordo peçonhento punheteiro gerontófilo morto de fome dos infernos.
A anã derramou algumas lágrimas ao nos ver partir. Pobrezinha, senti um aperto no coração ao ver aquela cena. Fez-me lembrar da minha infância, quando íamos visitar meus parentes em Minas Gerais e meus avós sempre choravam quando íamos embora.
— Vão ficar aí ou o quê? — gritou Pezão, após três longas buzinadas.
— Já estamos indo, porra! — respondi, delicadamente.
Cai uma garoa fina e gelada. Nem faço idéia de que horas sejam.
Entramos no carro e Pezão saiu fincando. Ao passarmos novamente pela porta do hotel, ele ainda estendeu a mão esquerda para fora da janela e mostrou aquele famoso dedo para a porta.
— Malditos Frodos do caralho! — esbravejou ele. — Nunca me esquecerei o que fizeram comigo, seus filhos da puta!
— Não entendi — disse o gordo, após engolir uma bolacha recheada. — Frodos? E o que fizeram com ele?
— Deixa pra lá, guri.
De repente o gordinho começou a bater na janela do carro, apavorado.
— Para! Para o carro! Precisamos voltar!
— Nando — disse o Pezão, sério. — , pede pra esse pentelho filho da mãe ficar quieto ou serei obrigado a jogá-lo na estrada.
Olhei para o gordo e disse:
— Ouviu, né?
— Mas nós temos que voltar, é urgente!
— Urgente o escambau! Estou vendo que você trouxe tudo o que precisava: bolacha doce, salgada, pão, bolo e o caralho. Estou sentindo até cheiro de torta de frango nessa porra de sacola!
— O meu iPod ficou lá no hotel!
— Já Elvis, Faustão — disse Pezão.
— Eu sabia! Você deu um fim no meu iPod, né?
— Os gnomos do caralho roubaram.
— O quê? — disse eu, surpreso.
— Foi isso mesmo que você ouviu. Aqueles malditos duendes roubaram o iPod do gordo. Eu vi com os meus próprios olhos.
— Ah, não viaja!
— Se não acreditam em mim, foda-se! Mas eu vi o iPod dele na cintura daquele filho da mãe.
— Eu não vi nenhum iPod com eles — disse o gordo, bem sério.
— Estava com o terceiro anão.
— Que terceiro? Só havia dois.
— Só eu vi o terceiro, dentro do banheiro. Malditos duendes do caralho!
— Duendes não existem, cara — disse eu. — Eles são anões. Pessoas como nós, porém pequenos.
— Você estava dentro do banheiro comigo?
— Claro que não, né?
— Então você não viu o que eu vi, certo?
— Certo, eu não vi.
— Eles eram uma família de duendes. O terceiro usava até aquelas roupinhas gays que eles usam.
É claro que eu tive um ataque de risos, né? Tipo uma hiena assistindo o filme Banzé no Oeste.
— Você fuma maconha, né? — disse o gordinho para o Pezão, bem sério.
— Se não acreditam ou não em mim, estou cagando e andando. Eu sei o que vi.
Bom, se o Pezão está dizendo a verdade, eu não sei. Mas uma coisa é certa ... aquele lugar era bem sinistro.
Pra completar a noite, Pezão me solta essa:
— Vocês não assistiram O Senhor dos Anéis ? Duendes existem, porra!
Eu e o gordo nos olhamos e começamos a rir, é claro.
E Margareth finalmente deu o ar da graça. Pensei até que tinha morrido.
— Dá pra vocês ficarem quietos? — resmungou ela, puta da vida — Tem alguém tentando dormir, cacete!
Peguei um biscoito recheado da sacola, comi e caí no mais profundo sono. Não me lembro de ter dormido tão rápido assim em toda a minha vida.
Tive sonhos e pesadelos, dos mais incríveis aos mais toscos possíveis e imagináveis. Dos sonhos eu destaco um com a Caroline, minha querida e esverdeada Caroline. Poxa, que saudade eu sinto daquela garota ... ai ai.
Entre os pesadelos, o pior de todos foi sem dúvida aquele com o Pigmeu. Estávamos eu e ele na época dos dinossauros. De repente o maluco resolve dar um daqueles seus famosos tapas num T-Rex. Aquele mesmo, dos bracinhos curtos e dentes enormes e afiados. Dos bracinhos eu lembro pouco, mas dos dentes ... puta que pariu! Por incrível que pareça, sinto saudade do Pigmeu também. Só não vou suspirar. Aí já seria demais, né?
Por mais estranho que pareça, acordei com o som de pássaros. O carro estava parado debaixo de uma árvore gigantesca, vocês nem imaginam o tamanho dos troncos; era algo descomunal.
O interior do veículo estava cheirando cecê e frango. Quase vomitei sobre o gordo. Faltou pouco. O peçonhento roncava feito um velho com asma. Nem acredito que eu tenha dormido tão bem com um ronco alto daqueles.
Olhei para os bancos da frente; estavam vazios. Nem sinal de Pezão e Margareth. Olhei para o lado de fora e nem sinal deles também.
Desci do carro. O lugar era bonito demais para ser verdade. Cocei os olhos para ver se eu estava realmente acordado ou tendo alucinações. É, estou acordado mesmo.
Estamos num bosque, sei lá. Parece cenário de filme, nunca estive num lugar tão sossegado e bonito como este. Senti uma vontade enorme de sentar na grama fofa à minha frente. Estava tão verde que parecia ter sido pintada por computador.
Bom, tudo muito verde. Tudo muito tranqüilo. Tudo muito bonito. Mas cadê o Sr. e Sra. Smith?
— Pezão! — gritei. — Margareth! Onde vocês estão?
O gordo acordou e saiu do carro.
— Que lugar é este? — disse ele, limpando remela dos olhos.
— Ué, você não lembra do acidente?
— Acidente?
— Sim, acidente. Nós todos morremos e viemos parar aqui. Estamos no paraíso.
— Ah, você está zoando comigo.
— É sério!
— Cadê a minha prima?
— Ela foi a única que sobreviveu.
— E o teu amigo?
— Ele foi mandado para o outro lado — e apontei para baixo.
O gordo sorriu.
— Para o inferno. Gostei da idéia.
Comecei a rir.
— Ele não é tão ruim assim, gordo.
— Não fui com a cara dele desde o começo.
— Com o tempo você se acostuma.
— A Ma não é de namorar por muito tempo. Logo ela enjoa e dá um pé nele.
— Então foram feitos um para o outro. Ele também não consegue ficar com alguém por muito tempo.
De repente ouvimos risadas. Ambos olhamos na mesma direção.
— É a minha prima.
— Foi o que eu pensei também.
Seguimos o som das risadas. Havia uma trilha pelo mato.
— Será que estão ... fornicando? — disse o gordo.
— Fornicando? Porra, gordo, de que século você é?
— Gosto dessa palavra. É ...
— Acachapante!
O gordo me olhou surpreso, e disse:
— Como adivinhou?
— Eu leio mentes.
— Sério? No que eu estou pensando agora?
— Fácil. Torta de chocolate.
— Puxa, você é bom mesmo.
O som das risadas ficavam cada vez mais altos. Pezão e Margareth pareciam estar se divertindo à beça. Tem um barulho bem familiar ao fundo, tipo uma cachoeira.
Não deu outra. Acertei na mosca. Eles estavam nadando num rio.
— Que acachapante, meu! — disse o gordo, correndo para pular na água.
— Sai pra lá, gordo! — resmungou Pezão.
— Por acaso você é o dono? — retrucou o gordo.
E ele caiu dentro do rio. Suas banhas jogaram água pra todos os lados, inclusive em mim.
— Porra, gorducho! — esbravejei.
— Que delícia! — disse o gordo, todo sorridente. — Vem você também, Nando!
Olhei para o lado e finalmente entendi o motivo do Pezão ter ficado puto com o gordo. Todas as suas roupas estão jogadas sobre um gramado ao lado do rio. O casal está totalmente nu.
Dei uma olhada sacana para eles e outra para as roupas. Eles perceberam imediatamente o que eu tinha em mente.
— Nem pense nisso, Nando! — disse Margareth, rindo.
Apertei os passos em direção às roupas e Pezão começou a nadar na mesma direção.
— Você nunca foi bom nadador, cara — falei, agora correndo.
E é claro que eu alcancei as roupas antes dele. Putz! A calcinha da Margareth é tão minúscula que mais parece de boneca. Se é que boneca usa calcinha, né? Nunca espiei pra ver. Bom, já espiei uma vez, mas ... deixa pra lá. Um dia eu conto a história toda.
— Sacanagem, Nando! — disse Margareth, rindo.
Peguei todas as peças de roupas deles e deixei mais distante. Vai ser divertido quando eles precisarem delas. E é claro que vai ser excitante ver a Margareth saindo peladinha e molhadinha do rio, né?
Nunca fui de ficar olhando namorada de amigo meu, mas como o gordinho já disse que o namoro dos dois não vai durar mesmo, não custa dar uma espiadinha nela antes de dispensar o Pezão. Ou ele dispensá-la, tanto faz.
— Você é um cuzão, sabia? — disse Pezão para mim.
— Cuzão, eu? Tem certeza que sou eu mesmo? O seu não deve ser muito pequeno, pelo tamanho do pinguelo que ...
Margareth começou a rir. Pezão ficou puto com ela.
— Isso, vamos todos rir do que me aconteceu! Vamos, você também, gordo do caralho!
— Deixa o coitadinho fora disso, seu estúpido! — retrucou Margareth.
Xiiiiiiiiiii, acho que fiz merda. Maldita hora pra fazer piada com o cu do cara.
— Calma, Pezão — disse eu. — Retiro o que disse.
— Depois de falar é fácil, né? Vai se foder!
— Ele pediu desculpas, oh! — disse Margareth, jogando água no Pezão.
— Isso, defende ele!
E Pezão começou a nadar para a beira do rio.
— Aonde você vai? — disse Margareth, chateada. — Volta aqui, Maurício!
Pezão nem olhou para trás. Deixou o rio e saiu nu pelo gramado, pisando duro. O cara ficou puto mesmo.
— Aoooooooooooooo, bunda branca! — gritou o gordo.
— Pelo menos não é mole e gorda como a tua, Faustão!
O gordinho nem deu bola para a resposta. Mergulhou e saiu jogando água pra todos os lados.
— Volta aqui, more! — gritou Margareth, sorrindo para o namorado. — Por mim, vai! Prometo fazer aquilo que você me pediu, lembra?
Opa! Agora fiquei curioso. Pezão até deu uma olhada pra água novamente. Mas continuou caminhando em direção às suas roupas.
— Deixa quieto — gritou ele.
— Ah, você é um chato, sabia? — e Margareth mergulhou. Deu pra ver um pedaço da sua bunda.
Pezão percebeu que eu olhava pra ela.
— Você está a fim de levar um murro na cara, né? Agora entendi sua brincadeirinha idiota; era só pra ela sair pelada do lago e você ter uma imagem pra tocar punheta depois, né?
Fiz cara de surpreso.
— Lago? Isso aqui é um lago ou um rio? — fiz de propósito, só para irritá-lo.
— Não disfarça, Nando! Acha que eu sou cego, porra?
— Eu reconheço, ela é muito gostosa. E às vezes é difícil desviar o olhar.
— Mas vai ter que desviar, caralho! Ela é minha!
— Mas não se faça de santo, Pezão. Você lembra muito bem de Ubatuba. Ou vai ter a cara-de-pau de dizer que já esqueceu, hein?
O rosto dele mudou totalmente. Digamos que ele baixou a bola.
— Vem pra água, Nando! — gritou Margareth. — Se ele não quer se divertir, azar o dele! A água está uma delícia! Vem!
Olhei para o Pezão. Ele estava com aquela cara de poucos amigos.
— Volta pra água, cara — disse eu, com sinceridade. — Ela é legal e gosta de você. Não decepciona a menina.
— Não. Se eu fizer isso, perco o controle sobre o relacionamento.
Quase ri. Mas ao vê-lo sério, perdi o clima.
— Relacionamento? Nunca ouvi você dizer esta palavra antes.
— Pois é.
— Vem pra água, Nando! — disse Margareth, outra vez.
— Já vou! — respondi.
E comecei a tirar a jaqueta, finalmente. Estava um calor dos infernos, eu não suportava mais aquele maldito moletom. Se Pezão não vai entrar na água, eu vou.
— Só uma coisinha — disse Pezão, olhando sério para mim. — , você terá que escolher entre a minha amizade e o lago.
— O quê?
— Você me ouviu. Se você entrar na água com ela eu termino nossa amizade aqui, neste exato momento.
Nunca vi o cara me olhar daquele jeito. Tirei o moletom e joguei na grama. Pezão ficou me encarando.
— O que foi? — falei, rindo.
— Você vai mesmo entrar na água?
— Vou, claro.
— Beleza então — ele saiu bufando, parecia um touro raivoso.
— Aonde ele pensa que vai? — gritou Margareth.
— Sei lá, o namorado é teu.
E mergulhei no rio. Ou lago, sei lá. O importante é que tem bastante água.
Capítulo 11 · Jezebel e Mirabel
Nunca vi o cara me olhar daquele jeito. Tirei o moletom e joguei na grama. Pezão ficou me encarando.
— O que foi? — falei, rindo.
— Você vai mesmo entrar na água?
— Vou, claro.
— Beleza então — ele saiu bufando, parecia um touro raivoso.
— Aonde ele pensa que vai? — gritou Margareth.
— Sei lá, o namorado é teu.
E mergulhei no rio. Ou lago, sei lá. O importante é que tem bastante água.
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E aí, cambada, tudo certo com vocês?
Quem sou eu? Porra, o Pezão! Isso mesmo, hoje quem vai tomar conta dessa birosca sou eu. Espero que o Nando morra afogado naquele lago maldito.
Não gosto muito de ler, muito menos de escrever, mas vou tentar. Não deve ser nada do outro mundo. Até o babaca do Nando consegue, né?
Bom, não sei como funciona esta porra. Ele vai contando tudo o que acontece com a gente? Sério? Puta que pariu, que merda! Então vocês devem saber praticamente tudo da minha vida, porra! Ubatuba não, né? Aí suja o nosso lado.
Voltei para o carro, muito puto. Realmente não sei o que fazer. Estou com tanta raiva daquele cuzão! A minha vontade é voltar lá e encher o Nando de porrada.
Acho que já sei o que fazer, vou dar uma volta. Dirigir me deixa mais calmo.
Dei a partida. O carro engasgou. Porra! Vou tentar de novo. Agora sim, a merda ligou. Vamos lá.
Nunca peguei uma estrada tão morta como esta. Você não vê carro, não vê gente, não vê porra alguma! Que raio de lugar é este, caralho? Será que estamos no caminho certo? Acho que o infeliz do meu irmão aprontou mais uma. Só pode ser isso.
Peidei. Puta merda, que cheiro é este? Maldita comida de duendes. Eu juro que ...
Caralho, o que é aquilo? Estão vendo? Porra, é claro que vocês não estão vendo, né? Esqueci. Mandei mal agora. Porra, é a minha primeira vez! Mas eu pego o jeito.
Parei o carro. Qualquer um de vocês pararia também. No acostamento tem uma loira de quase dois metros de altura. Gostosa pra caralho!!!!!!!!!
— Olá! — falei pra gostosa.
— Oi!
— Precisando de carona?
— Sim, sim! Muito obrigada!
Abri a porta para a gostosa. Bom, acho que não preciso ficar repetindo que ela é gostosa, né? Acho que vocês já perceberam.
Ela não entrou.
— Por que não entra? Tem alguma bagagem? Quer que eu ajude?
— Obrigada, não tenho bagagem.
— Então entra! — e sorri. Acho que ela está com medo de mim, sei lá!
Porra, será que o carro ainda está com o cheiro do meu peido? Não, acho que não. Os vidros estavam abertos, ele já deve ter ido embora.
De repente vi um gordo sair de trás de uma moita. A loira acenou para ele e gritou:
— Consegui carona!
Puuuuuuuuuuuuuuuuuuuuta que pariu!!! Ah, tomar no cu! Fala sério, porra! A loira está de sacanagem comigo, né? Não acredito nisso.
— Desculpa fazer você esperar — disse a loira. — Meu marido estava meio apertado e ...
Já entendi — falei, puto.
Meu, puta que pariu, como é que uma loira maravilhosa como esta foi casar com aquele Shrek? É sério, o gordo parece o Shrek. Se pintar de verde fica igualzinho.
— Pronto, já caguei — disse o Shrek para a Fiona. Quero dizer, loira gostosa.
Deu pra ouvir o som de um beijo. Puta merda, que nojo! Tomar no cu, loira! Você é cega, porra? Vai ter mau gosto assim lá na casa do caralho!
Foi um puta sacrifício para o Shrek entrar no carro. Pelo menos um lado positivo, ele ficou lá no banco de trás. Também, com aquela bunda enorme, era o único lugar possível. A loira ficou do meu lado. O nome dela é Jezebel e do gordo não importa, pois vou chamá-lo de Shrek mesmo.
Vocês devem estar curiosos para saber como é a gostosa, né? Tudo bem, seus punheteiros de merda, vou descrevê-la para vocês. Usei a palavra certa? Descrevê-la? Porra, to pegando o jeito da coisa, hein! Eu sabia que era molezinha.
Não sei se Jezebel percebeu, mas eu dei uma bela secada nela antes de ligar o carro. Fala sério, ela é muito gata! A loira parece atriz pornô de filme sueco. Seus cabelos loiros são compridos e bem lisos. Sua pele é bem clarinha. Seus olhos são azuis. O nariz é bonitinho, bem pequeno e arrebitado. Sua boca é pequena, mas eu aposto que faz um boquetão gostoso. Ela não usa brinco e tem pouca maquiagem no rosto. Acho que só passou um pouco de batom, sei lá. Agora a melhor parte ... os peitões! Puta que pariu, que peitões! Eu daria qualquer coisa pra chupar aqueles melões.
Caralho, é normal ficar excitado durante a narração da história? Ah, foda-se! Estou de pau duro sim, e daí? Não tenho culpa se a loira é gostosa pra caralho. Garanto que tem muito marmanjo correndo para o banheiro neste exato momento.
Bom, acho que só faltou comentar as pernas e a bunda, certo? As pernas são compridas e meio secas. Para ser bem honesto, prefiro coxas grossas. A bunda eu não pude ver muito bem, mas parece ser meio sequinha também. Mas eu comeria! Bundinha seca é legal pra pegar de quatro.
Não preciso descrever as roupas também, né? Acho bobagem, isso aqui não é desfile de moda, caralho! Tudo o que vocês precisam saber é que a loira é bonitona e gostosa. Pronto. Se não acreditarem em mim, não posso fazer nada.
Ela bateu a porta do carro e olhou para mim, sorrindo.
— Você foi um anjo que caiu do céu — disse a gostosa.
— Anjo, eu? — comecei a rir. — Já me chamaram de tudo nesta vida, mas anjo é a primeira vez. E a loira me olhou de um jeito que ... Ela quer dar pra mim.
— Você está indo pra onde? — perguntou Jezebel.
— Pouso Alegre.
— Sério? Que maravilha! Nós também! — e a loira ficou de joelhos no banco, para falar com o Shrek. — Ele está indo pra Pouso Alegre!
— Jóia — disse o gordo, sem muita empolgação.
— Falta muito para chegarmos lá? — perguntei pra loira.
— De trator o meu pai levava umas três horas, mais ou menos.
— Bom, acho que o meu carro anda um pouco mais rápido que o trator do seu pai, né?
— Acho que sim.
E ficamos rindo feito idiotas.
Querem saber? Vou fazer uma surpresa pra Ma. Vou buscar o pai dela em Pouso Alegre e levá-lo até ela. Que tal?
Dei a partida no carro e saí queimando os pneus. Isso sempre impressiona a mulherada, elas adoram.
Meu, a loira é cheirosa demais. Não é possível que ela seja casada com o Shrek ali atrás. Bom, rico o cara não deve ser, pois não estariam aqui pegando carona. Vai ver o cara tem meio metro de pau.
— O que vocês vão fazer lá em Pouso Alegre? — puxei assunto.
— Assinar os papéis do nosso divórcio.
Ah, agora sim as coisas começam a fazer mais sentido nessa porra. Ela vai largar o Shrek!
— Certo. Vocês estão casados há quanto tempo?
— Mês que vem completaríamos 10 anos juntos.
— Dez anos? Puta que pariu!
A loira começou a rir.
— Você falou nome feio — disse ela, rindo feito uma menininha.
— Que nome feio? Puta que pariu?
E a loira caiu na gargalhada outra vez.
— Vocês não falam palavrão por aqui? — perguntei.
— Este aí não.
— Ah, ta. Desculpa então.
— Tudo bem. Mas antes de dormir você se desculpa com Papai do Céu, né?
— O quê? Ah, sim, claro.
— Legal. Você é um menino bonzinho.
Porra, é impressão minha ou a loira é uma mulher com cérebro de criança? Tem alguma coisa bem esquisita.
De repente a loira começou a cantar ...
— La la la la la la la la la la la!!!
Puta que pariu, muito bizarro! Olhei para o lado e vi a loira toda encolhida no banco, com o dedão na boca, imitando uma chupeta. Vocês devem achar que estou zoando, mas é sério! A loira imita uma criança direitinho.
— Daqui a pouco ela para — disse o gordo.
— Ela tem algum problema?
— O doutor falou que ela tem uma tal de dupra pessoa na idade.
— Dupla personalidade?
— Isso! É isso mesmo aí que o senhor falou. O senhor também é do ramo das medicina?
— O quê?
E a loira começou a chorar e chutar o painel do meu carro.
— Cadê meu chocolate? — gritava ela, feito uma maluca. — Eu quero meu chocolate!
Não tive outra opção a não ser encostar o carro.
— Calma, calma! — falei pra loira biruta, e segurei suas pernas, para que ela parasse de chutar o painel.
— Você disse que ia me comprar chocolate! Eu quero agora! Agora! Agora! Eu quero!
— Eu te disse isso? Quando?
— Você disse sim. Disse, disse, disse, disse e disse! Você prometeu que ia comprar!
Olhei para o Shrek lá atrás e perguntei:
— O que eu faço?
— Fica frio, a Mirabel sempre foi mimada assim mesmo.
— Mirabel? Que porra de Mirabel? O nome dela não é Jezebel?
— Jezebel é a metade adulta. Esta é a Mirabel. Ela tem 7 anos.
Puta merda, é a tal da dupla personalidade? São duas pessoas dentro de uma só?
Olhei para o lado e vi a loira me olhando, meio assustada.
— Por que paramos? — disse ela. — Aconteceu alguma coisa?
Pelo tom de voz, acho que ela voltou ao normal. Fiquei sem saber o que responder.
— Você conheceu a Mirabel, né? — disse ela, meio envergonhada.
Balancei a cabeça, indicando que sim.
— Desculpa! Você deve estar arrependido de dar carona pra gente, né?
E Jezebel começou a chorar, com as mãos no rosto.
— Fica calma — falei. — Não me arrependi não. Está tudo bem.
Liguei o carro novamente e prosseguimos viagem. Ficamos em silêncio por alguns minutos.
— Ela queria chocolate — falei, pra quebrar o gelo.
— Aquela putinha só come besteira! — disse Jezebel, bem irritada. — Aí eu tenho que me matar em ginástica depois.
— Você tem um corpo lindo — e olhei pelo retrovisor. — Com todo o respeito.
— Fica frio, cara — disse o Shrek. — Falta a papelada, mas na verdade já estamos separados há muito tempo. Não é, Je?
A loira só balançou a cabeça. Senti ela bem abatida.
— Você é tão nova! — falei. — Como pode estar casada há tanto tempo assim?
— Eu tinha só 15 anos quando nos casamos.
— Caralho, tá explicado então. Quinze anos! Praticamente uma criança.
— Sim, o doutor me disse que foi exatamente por isso que a Mirabel apareceu.
— Acho que entendi. Como você não teve infância, a menina ...
— La la la la la la la la la la la!!! Cadê meu chocolate, hein?
Porra, de novo? Vai tomar no cu!
Capítulo 12 · O Hospício
A loira só balançou a cabeça. Senti ela bem abatida.
— Você é tão nova! — falei. — Como pode estar casada há tanto tempo assim?
— Eu tinha só 15 anos quando nos casamos.
— Caralho, tá explicado então. Quinze anos! Praticamente uma criança.
— Sim, o doutor me disse que foi exatamente por isso que a Mirabel apareceu.
— Acho que entendi. Como você não teve infância, a menina ...
— La la la la la la la la la la la!!! Cadê meu chocolate, hein?
Porra, de novo? Vai tomar no cu!
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Antes que você me pergunte, sou eu outra vez, o Pezão. Não gostou? Azar o seu! Já basta ter que aguentar esta maluca do meu lado, não vou me preocupar com vocês aí não.
— Eu quero a rola!!! — gritou Jezebel. Quero dizer, Mirabel. Ah, sei lá!
— Rola? — perguntei. — Você é muito nova pra isso, não acha?
O gordo esticou o braço pelo vão entre os bancos e entregou uma bonequinha de plástico para Mirabel. Esta agarrou o brinquedo com tanta força que pensei que fosse quebrar em dois.
— Porra, o nome da boneca é Rola?
O Shrek explicou:
— Era pra ser Lola, mas como ela não conseguia falar, ficou Rola mesmo.
— Então ela tem o problema inverso do Cebolinha?
— O quê?
— Deixa pra lá.
Caralho, será que pega muito mal se eu expulsar estes dois malucos do meu carro? Porra, o carro é meu, certo? Tenho direito a fazer isso, não tenho?
Outra vez aquele choro. Acho que a loira voltou a ser Jezebel.
— Desculpa!!! — disse ela. — Estou super envergonhada.
— Fica fria. Enquanto a Mirabel não fizer xixi no meu carro está tudo certo.
A loira gostosa sorriu. Puta merda, se não fosse este gordo aqui atrás eu juro que daria um beijão de língua nela.
— O que você veio fazer nas Minas Gerais? Seu sotaque não é daqui.
— Vim encontrar uma pessoa.
— Aposto que é uma namorada.
— Não é. Na verdade é o ... pai dela.
— Pai?
— É uma longa história.
— Qual o bairro onde ele mora?
— Olha, não faço a menor idéia, tudo o que eu sei é que ele está internado num hospício.
A loira fez uma cara meio triste.
— O que foi? — perguntei.
— Aquele lugar não me traz boas recordações.
— Que lugar?
— O Hospício São Borba. Fiquei internada lá um bom tempo.
— Caralho, então você conhece lá? Que legal!
Olhei para o lado e ela estava chorando. Porra, a loira só chora!
— Fica assim não — falei, colocando minha mão direita sobre o ombro dela. — Não chore.
— Chorar me faz bem. Quando eu choro a Mirabel não aparece. Eu odeio quando ela se apodera de mim, odeio!
Sério? Então chora, loira, chora. Aquela pentelha chocólatra é um porre!
Só uma dúvida ... Se pintar um clima e eu comer a Jezebel, será pedofilia se a Mirabel tomar o corpo dela na hora H? Admitam, é uma pergunta digna de vestibular da Unicamp.
— Posso te fazer uma pergunta? — disse eu para a loira.
— Claro.
— O motivo de você ficar internada no hospício foi o lance da Mirabel?
— Foi — ela respondeu meio sem graça. — Você está com medo de mim, não é?
— Medo? Não, de jeito nenhum. Você é muito gata.
— Obrigada. Mas ninguém quer uma mulher maluca. Nem o Valdir suportou muito tempo.
— Valdir?
Jezebel apontou para o Shrek.
— Ah, ta, o Shr... o Valdir. Saquei.
— Ninguém pode dizer que eu não tentei — disse o Shrek.
— Pobrezinho, não foi fácil ter que suportar a Mirabel todos estes anos. E não é justo que ele precise aturá-la mais. Ele vai encontrar uma mulher que lhe faça muito feliz.
Feio daquele jeito? Acho meio difícil. Lembram daquele gordinho do filme O Cruzeiro das Loucas? Então, o cara parece um pouco com ele, só que mais peçonhento.
— Nossa união matrimonial terminará hoje, mas continuaremos amigos para o resto de nossas vidas.
Tem mais alguém aí com vontade de vomitar ou só eu?
Bom, se a porra da placa não estiver errada, chegamos em Pouso Alegre.
— A Rola quer aprender a dirigir!!!
— Porra, a Maísa voltou.
— Você falou nome feio outra vez. E meu nome não é Maísa, é Mirabel.
O gordo estava quase gozando de tanto rir lá atrás.
— Maísa — disse ele. — Mandou bem, cara.
— Você vai ensinar a Rola a dirigir ou não?
É incrível como o rosto da Jezebel muda quando ela está possuída pela pirralhinha maluca. Vou confessar, é meio assustador. Lembra um pouco o filme O Exorcista. Só falta ela girar a cabeça em 360 graus. Se isso acontecer eu juro que expulso os dois do meu carro, nem que seja na porrada.
— A Rola é uma boneca — falei, sério. — Bonecas não dirigem.
— Dirigem sim! A Barbie tem carro.
— Mas a Barbie é a Barbie. A Rola é a Rola.
Não resisti. Caí na gargalhada. A menina ficou puta da vida comigo.
— A Rola é muito melhor que a Barbie, sabia?
— Por favor, Jezebel, volta!
— Não funciona assim — disse o gordo. — Já tentei isso muitas vezes.
— Não tem nenhum truque que funcione?
— Não que eu saiba.
— Vou ser sincero contigo, como é que você aguentou isso por 10 anos? Pensa bem, você tinha uma esposa e uma filha dentro de um mesmo corpo. Não era esquisito?
— Esquisito? Era bem pior que esquisito, era bizarro, isso sim! Se eu te contar minhas histórias você não vai acreditar, cara.
— A Rola quer chocolate! A Rola quer chocolate!
— O que eu faço, porra? — perguntei, olhando o gordo pelo retrovisor.
— Ignore. Ou você prefere ensinar a boneca a dirigir?
O Shrek está ficando folgado ou é impressão minha?
A menina me azucrinou tanto que eu acabei perdendo a paciência.
— Pega este chocolate e enfia no cu da Rola, caralho!
— O quê? — pelo tom de voz eu percebi que Jezebel estava de volta.
— Putz, foi mal.
Ao perceber que a boneca estava em suas mãos, Jezebel sentiu tanta raiva que a jogou longe.
— Nãããããããaãão!!! — gritou o gordo, desesperado. — Para o carro, agora!
— Por quê? — perguntei. — É só uma boneca estúpida.
— Só uma boneca? A Mirabel que você conheceu é a versão leve. Precisa ver como ela fica quando não acha a boneca.
— Azar o dela. Ela que chupe o dedo para passar o tempo.
— Por favor, pare o carro — insistiu o gordo. — Não deve estar difícil de encontrá-la. Eu mesmo procuro, vocês podem esperar aqui.
— Ela precisa aprender uma lição — disse Jezebel, séria.
— Depois não digam que eu não avisei — disse o gordo, puto.
— Pra onde vamos? — perguntei. — Querem assinar a papelada do divórcio ou vamos procurar o hospício? O que faremos primeiro?
— Eu prefiro assinar logo o divórcio e dar o fora daqui — resmungou o Shrek.
— Mas o hospício fica mais perto — disse Jezebel.
— Beleza então.
Bom, se o pai da Margareth estiver tão curado quanto Jezebel, algo me diz que terei problemas.
Vou ser bem honesto com vocês, a fachada do hospício me deu um certo cagaço. Porra, o lugar parece cenário de filme de terror. Se fosse noite, eu daria meia-volta e adeus.
Jezebel desceu do carro junto comigo. O gordo preferiu ficar.
— Assustador, não? — disse a loira. — Lá dentro é ainda pior.
— Sério? Puta merda.
Silêncio enquanto subíamos as escadas em direção ao portão principal.
— Você o conhece pessoalmente?
— O pai da minha namorada?
— Sim.
— Não, nunca vi.
— Sabe o nome, pelo menos?
— Sim, é Manfredo. Ou acho que é isso.
— Acha que é? Como você pretende tirá-lo daqui se você nem sabe o nome dele?
— Um biruta a menos, um a mais, eles nem vão perceber.
A loira começou a rir. Aproveitei e deixei que ela me ultrapassasse, somente para vê-la subir as escadas de um ângulo mais apropriado.
Que delícia! Que bunda!
— O que foi que você disse?
— Eu? Nada.
Porra, como foi que ela me ouviu? Caralho, preciso aprender a dominar melhor este negócio aqui.
Paramos diante de uma porta enorme de madeira, muito parecida com aquelas portas de castelos. Jezebel tocou a campainha.
Quando eu me preparava para lhe agradecer, vi seu rosto mudar novamente.
— Onde estamos? — disse Mirabel, com aquela voz irritante.
— Na Disney.
— Acha que sou burra?
— Acho.
E antes que eu pudesse fazer alguma coisa, ela me acertou um chute certeiro no saco. Filha da puta!!! Acho que jamais serei pai depois disso.
— Sorte sua ... por ser mulher — falei, meio sem fôlego. Puta merda, que dor!!!!!!!
Ela riu de mim. Aquilo me deixou ainda mais puto.
E pra ajudar, a porta do hospício abriu. Um homem de mais de 2 metros apareceu, vestido todo de branco.
— Em que posso ajudá-los? — disse o gigante.
— Você ... pode esperar ... só um minuto? — eu estava sem fôlego suficiente para completar uma frase inteira.
— O moço precisa de alguma coisa?
Respirei fundo e tentei esquecer a dor. Se você é homem sabe o que estou passando. Não há nada pior que levar um chute certeiro nas bolas. Bom, levar uma facada nas bolas deve doer ainda mais, é lógico.
— Eu vim buscar um paciente que está para receber alta — fui honesto. Agora vamos ver a merda que vai dar.
— Qual paciente?
— Manfredo Palladine.
O grandão abriu um sorriso de orelha a orelha. Estranho. Contei alguma piada?
— Sério, o Man? — disse ele, todo empolgado. — Você veio buscar o Man?
— Man? Até onde eu sei, o nome dele é Manfredo.
— Sim, mas todos o conhecem por Man.
A Margareth não me falou nada a respeito de apelido, mas deve ser ele. Quais as chances de haver dois Manfredos malucos no mesmo hospício, né?
— Ele está recuperado, certo? — perguntei, só por precaução.
O gigante começou a rir. Depois respondeu:
— Claro, claro, ele está outra pessoa. Vamos entrar, você terá que assinar alguns documentos. Coisa rápida.
Porra, tem alguma coisa cheirando mal. E juro que não peidei.
De repente o grandão encarou Jezebel ... ou Mirabel, sei lá.
— Não te conheço de algum lugar?
— Não — a voz era da Jezebel. Ufa, a biscatinha adormeceu.
Caí pra dentro. Jezebel ficou parada na porta, meio assustada.
— Você não vai me largar sozinho neste lugar, vai? — falei.
— Acho melhor esperar aqui fora. Este lugar me dá arrepios.
— Deixa de bobeira. Vem comigo, por favor.
Ela ficou indecisa, dava para ver nos olhos dela. Mas por fim ela acabou cedendo.
Capítulo 13 · Uma Surpresa
Porra, tem alguma coisa cheirando mal. E juro que não peidei.
De repente o grandão encarou Jezebel ... ou Mirabel, sei lá.
— Não te conheço de algum lugar?
— Não — a voz era da Jezebel. Ufa, a biscatinha adormeceu.
Caí pra dentro. Jezebel ficou parada na porta, meio assustada.
— Você não vai me largar sozinho neste lugar, vai? — falei.
— Acho melhor esperar aqui fora. Este lugar me dá arrepios.
— Deixa de bobeira. Vem comigo, por favor.
Ela ficou indecisa, dava para ver nos olhos dela. Mas por fim ela acabou cedendo.
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— Que cara é esta? — perguntei baixinho para ela.
Ela fez sinal para que eu me aproximasse. Fiz o que ela me pediu.
— Tenho medo que se recordem de mim.
— Por quê?
— Bom, você já percebeu que não estou completamente ... curada.
— Fica fria. Não vou deixar que nada lhe aconteça.
E Jezebel me deu um beijo. Infelizmente na bochecha.
Se o hospício era macabro por fora, por dentro consegue ser pior. E frio. Parecia que havíamos entrado numa câmara frigorífica. Puta merda, como é frio!
— Por que faz tanto frio aqui? — perguntei.
— O diretor gosta que fique assim.
— Diretor?
— Sim, o Sr. Vandella, diretor do hospício.
— Ah, ta. E isso ajuda na recuperação dos malucos?
O grandalhão não respondeu, apenas deu de ombros.
Percorremos um corredor enorme até chegarmos numa sala com paredes altas. Uma gorda sentada atrás de um balcão velho me encarava com olhos curiosos. Aparentemente estamos na recepção. Se bem que eu nunca vi uma recepção tão longe da porta de entrada. Lugar esquisito da porra.
— Aguardem aqui — disse o enfermeiro gigante. — Vou preparar a papelada.
E o homem deixou a sala. A gorda continuava me encarando. Pensando melhor, acho que ela está encarando a Jezebel, não eu.
— A Silvia Popovic gostou de você.
Jezebel fez cara de quem não entendeu porra alguma.
— Silvia Popô o quê?
— A gorda ali.
— Você a conhece?
— Não.
— Então como sabe o nome dela?
Comecei a rir sozinho.
— Deixa pra lá. Foi uma piada.
— Nossa, não foi muito boa.
De repente a gorda nos pegou de surpresa, dizendo:
— Te conheço de algum lugar.
— Quem, eu? — perguntei. Mas eu sabia que ela estava falando da Jezebel.
— Não, a moça — disse a gorda.
Olhei para a coitada da Jezebel, ela estava suando frio.
— Não, senhora. Nunca te vi mais gorda.
Putz!!! Comecei a rir feito um maluco no hospício. A gorda ficou chocada. Jezebel não sabia onde enfiar a cara.
— Perdão, senhora! Não falei por querer, eu .. eu ...
Tocou o telefone na mesa da gorda. Ela atendeu, com uma cara emburrada que só vendo.
— Recepção: Carlete falando. O quê? Mas não é possível! Qual o número do quarto? Sim, entendi, já estou indo agora mesmo!
E a gorda colocou o telefone no gancho, com força. Parecia bem assustada. Ela sacudiu as banhas atrás do balcão e saiu ... correndo. Ou pelo menos tentou.
— Não saiam daqui! — disse ela, com uma voz trêmula — Eu volto já.
Balançamos as cabeças afirmativamente em sincronia.
— Nossa, o que será que houve? — perguntou Jezebel.
— Devem ter acabado as guloseimas da cozinha.
— Também foi uma piada?
— Deixa pra lá.
Porra, vai tomar no cu! Quando o Nando faz estas observações idiotas todo mundo ri, né?
— Eu tô com frio!
Ah, não! Puta merda! Eu conheço este tom de voz. A porra da pirralha voltou.
— Eu tô com frio!
— E eu com isso?
— Eu quero chocolate quente!
Porra, vou tentar me estressar o menos possível dessa vez.
— Espera um pouco, já estão fazendo — falei, bem calmo.
— Onde?
Apontei para a porta por onde passou a gorda.
Para a minha surpresa, Mirabel saiu em disparada, abriu a porta e me deixou sozinho.
— Não! — gritei. — Volta aqui, caralho!
Puta merda, viu? E agora, o que eu faço?
— Mirabel, volta aqui!
Nada. Nem sinal dela. Porra!
Bom, o jeito é ir atrás dessa pentelha maldita. Abri a porta e vi outro corredor, idêntico ao primeiro. Mas por incrível que pareça, ainda mais gelado. Juro para vocês, dei uma baforada e saiu até fumacinha.
— Mirabel, cadê você?
Minha voz ecoou pelo corredor. Puta que pariu, que frio! É melhor eu me mexer ou vou virar picolé aqui nessa porra.
Quanto mais eu ando, mais frio fica. E pior ... nem sinal da menina-mulher.
— Mirabel!!!
De repente ouvi uma gritaria danada. Para ajudar, a luz do corredor apagou. Legal, né? Muito obrigado! Agora estou num frio da porra e na escuridão total. Eu mereço.
Só me resta uma alternativa, seguir em frente. Só espero que este frio diminua em breve, pois não vim até aqui para me transformar num sorvete de Pezão.
— Tem alguém aí? — gritei.
A gritaria diminuiu um pouco, ou ficou mais distante, sei lá.
Será que estou próximo do final do corredor? Meu, não aguento mais este frio do caralho! Meu pau deve estar do tamanho de um amendoim, todo encolhido.
— Me ajuda! — uma voz feminina sussurrou no meu ouvido.
Vou ser bem sincero com vocês, eu quase me borrei todo.
— Mirabel, é você?
Silêncio. Porra, eu juro que ouvi alguém me pedir ajuda.
— Jezebel, é você? Está tudo bem, sou eu. Não precisa ter medo.
De repente as lâmpadas do corredor começaram a piscar. Aproveitei para me situar; estou um pouco além da metade. Agora vem a parte mais estranha ... o corredor está completamente vazio!
Mas como? Eu ouvi alguém sussurrar no meu ouvido. Eu juro!
Calma, cara, fica frio. Isso aqui é um hospício, certo? Hospícios são lugares onde há muitos loucos, certo? Talvez isso seja contagioso ... e quem fica muito tempo aqui deve ficar meio lelé da cuca também, certo? Ah, sei lá!
Não vou esperar a porra da luz apagar novamente, corri para o final do corredor o mais depressa que pude. Mas faltando alguns metros a porra da luz se foi novamente.
Fica frio, relaxa. Já está quase no fim. Você vai abrir a porra da porta e vai dar de cara com a Jezebel, nua, esperando você e ... Puta merda! Estou começando a delirar. Deve ser esta porra do frio.
— Eu quero sair daqui! — caralho, é a voz da Jezebel!
— Jezebel, onde você está?
— Maurício, é você?
— Sim, mas é estranho quando me chamam assim.
— Pezão! Graças a Deus é você!
Nunca ouvi esta frase antes.
— Você está bem, gata?
— Eu não sei, está tudo escuro aqui! — e ela começou a chorar.
— Fica calma, vai dar tudo certo.
— Eu não quero morrer!
— O quê? Ninguém vai morrer, fica fria.
— Está muito quente aqui, não sei quanto tempo vou aguentar.
— Muito quente?
— Sim, insuportável! Parece uma fornalha, meu Deus!
Porra, não é possível, ela deve estar completamente maluca. Está um frio do caralho, isso sim!
Acho que finalmente cheguei ao final do corredor. A maldita porta está trancada. Dei vários murros nela.
— Me tira daqui, por favor!
— As chaves não estão na porta?
— Não, eu já verifiquei!
— As chaves também não estão do lado de cá.
Ela começou a chorar novamente.
— Fica tranquila, nós vamos dar um jeito.
— De novo não, por favor, não! — gritou ela, desesperada.
— O que foi?
— Eles estão voltando!
— Eles quem?
— Eu não sei, está escuro demais, mas tem mais gente aqui. E fedem carniça!
— Será que não dão banho nos malucos?
— Por favor, me tira daqui! Eles estão vindo!
Chutei a porta com toda força. Mas parece ser inútil.
— Por que parou?
— Estou congelando aqui. Meu corpo todo dói.
— Congelando? Não pode ser, está um calor infernal aqui!
— Acredite, estou quase virando picolé.
— Eles estão aqui — sussurrou Jezebel. — Não vou aguentar este cheiro por muito tempo, acho que vou desmaiar.
— Jezebel, não! Aguenta firme!
Silêncio.
Porra!!! Será que ela desmaiou?
— Jezebel, fala comigo! Está tudo bem aí?
— Eu não gosto de escuro!
Era só o que me faltava. Mirabel outra vez.
— Mirabel, fica calma.
— Está fedendo aqui, eu quero sair!
— Calma, eu vou tirar você daí.
— Eu quero a minha Rola!
Porra, isso é hora de pensar em rola? Ah, ta ... é a boneca. Viajei.
— A Rola está aqui comigo, não se preocupe.
— Me larga!
— O que está acontecendo aí?
— Tem alguém me puxando. Me larga!
— Quem?
— Está muito escuro, não consigo ver! Me solta!
Porra!!! Voltei a chutar a porta com força. Tentei vários golpes, mas não vi nenhum progresso. Aos poucos a voz de Mirabel foi ficando mais distante. Até que desapareceu de vez.
— Mirabel! Mirabel!
Nenhuma resposta. Mas ouvi passos arrastados do outro lado da porta. Será uma rebelião dos malucos? Que raios está acontecendo aqui?
— Eu vou chamar a polícia, ouviram? — falei, puto.
Tirei o celular do bolso, mas não havia sinal. Puta que pariu!!! Do que adianta ter celular se esta bosta nunca funciona quando a gente precisa?
Dei meia volta e saí em disparada pelo corredor. Nem me importei com a escuridão. Não há nada para que eu tropece mesmo, foda-se. Corri tanto que me esqueci da outra porta no final do corredor. A pancada foi forte. E doeu pra caralho!
Levantei-me meio grogue. Ao girar a maçaneta e puxar a porta, a surpresa ... estava trancada.
— Fodeu.
Capítulo 14 · A Volta dos que Não Foram
— O que foi? — falei, rindo.
— Você vai mesmo entrar na água?
— Vou, claro.
— Beleza então — ele saiu bufando, parecia um touro raivoso.
— Aonde ele pensa que vai? — gritou Margareth.
— Sei lá, o namorado é teu.
E mergulhei no rio. Ou lago, sei lá. O importante é que tem bastante água.
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Estou de volta, pessoal!
Quem? Eu, porra! O bom e velho Nando. Sentiram a minha falta? Não mintam, eu sei que sim. Humillllllllllllllde, né? Hehehe ...
Meu, está foda isso aqui. Eu de cueca e a namorada do meu melhor amigo nadando nua ao meu lado; honestamente não sei o que fazer. Um Nando fantasiado de Santo Expedito, do tamanho de um Playmobil, fica aqui no meu ouvido direito me pedindo para ignorá-la. E no esquerdo fica outro Nando, fantasiado de Darth Vader, instigando-me a conhecer o lado negro de Margareth, se é que vocês me entendem.
— Vem pra cá! — gritou Margareth mais uma vez.
— Acho melhor eu ficar mais afastado — respondi, olhando para a local onde Pezão saiu bufando agora há pouco. Acho que ela entendeu o que eu quis dizer.
— Esquece. Será que ele vai nos deixar aqui?
— Sei lá, não duvido de nada. Ele ficou muito puto comigo.
— Por quê? Só por causa das roupas? Que bobagem.
— Ele achou que eu fiz de propósito, só pra te ver pelada.
Notei que ela ficou meio sem graça.
— E foi mesmo? — perguntou ela. Seu rosto estava vermelhinho.
— Lógico que ... não, né?
Ela riu. Estava linda com os cabelos molhados. Antes que a conversa ficasse mais embaraçosa, o gordinho peçonhento deu o ar de sua graça:
— Nando, Nando, vem ver isso aqui! Rápido!
— O que foi? Os peixes estão mordendo seu cu?
— Encontrei um cardume de Peixequetes! Vem ver!
— Peixequetes?
O gordinho estava na região mais rasa do rio. Fui nadando lentamente na sua direção, até que percebi algo terrível ... ele também estava nu. E como a água era bem mais clara, deu pra ver algumas coisas que me arrependerei para o resto da vida. Afastei-me dali imediatamente.
— Aonde vai, Nando? Vem aqui pra você ver!
— Não, obrigado! Já vi até demais, porra! — respondi, olhando na direção contrária.
— Peixequetes, Nando! Eles existem! Vem ver!
— Do que você está falando? Nunca ouvi falar nisso.
— Eu vi no Discovery Channel uma vez, eles ... oh, que delícia!!!
Acreditem se quiser, o gordo começou a gemer de prazer.
— Meu, não acredito que você está tocando punheta no rio! — falei, puto.
— Punheta? Não, isso aqui é dez mil vezes melhor. É acachapante!
Criei coragem e olhei na direção dele. Suas mãos estavam desocupadas, flutuando na água. Mas por que ele continuava gemendo feito um tarado na porta do vestiário feminino?
— O que você pensa que está fazendo, porra?
— O que Peixequetes fazem, Nando? Use a cabeça.
Demorou, mas caiu a ficha. Peixequete seria Peixe Boquete? Ah, fala sério!
— Ah, vai se foder, gordo! — disse eu, rindo.
— Não preciso. Os Peixequetes estão fazendo isso por mim. É a melhor sensação do mundo! Alguns possuem a boca quente e outros bem geladinha. Meu, que delícia! Você precisa experimentar isso, Nando!
E a porra do gordo continuou gemendo. Ou fingindo, sei lá. Chegava até a virar os olhos. Confesso que comecei a ficar curioso.
— O que está acontecendo aí, hein? — disse Margareth, nadando em nossa direção.
— NÃO, NÃO!!! — gritou o gordo, ao ver a prima se aproximar. — Você irá espantá-los!!!
— Espantar quem?
— Os Peixequetes!!!
— Peixe o quê?
Comecei a rir feito uma hiena pelada na piscina do vizinho, fazendo xixi.
— Não, voltem aqui!!! — repetia o gordo, debatendo-se na água. — Voltem!
— O que deu nele? — disse Margareth para mim.
E sem querer olhei diretamente para ela. Consegui ver mais da metade de seus seios. Foi o suficiente para que eu tivesse uma das mais rápidas ereções da minha vida. O sangue deve ter descido para o meu pau com tanta rapidez que fiquei até meio zonzo.
— Psiu, ouviu o que eu disse? — disse ela para mim, estalando os dedos.
Tomara que Margareth não tenha percebido a minha barraca totalmente armada.
— Porra, você espantou todos eles! — resmungou o guri, encarando a prima com olhos demoníacos. — Peixequetes morrem de medo de mulher.
— Ah, para de graça, Tim!
De repente senti algo me beliscar debaixo d'água. Sim, acreditem se quiser, senti um peixe beliscar a minha cueca, tentando acertar o meu pinto. Imediatamente lembrei daquele filme Piranhas Assassinas. Dei um pulo, apavorado.
— O que foi? — disse Margareth, surpresa.
— Piranhas assassinas!!! — gritei, assustado. Tão assustado que deixei a coitada em pânico. Ela nadou pra bem longe, gritando feito uma maluca, como se estivesse fugindo de uma barata aquática. Se é que isso existe, claro.
Quanto mais longe ela ficava, mais peixes me beliscavam. Para a minha sorte, não eram piranhas. Sei que vocês vão rir de mim, mas eu acho que o gordinho estava dizendo a verdade sobre os tais Peixequetes.
— Nando, sai daí!!! — gritou Margareth, já fora d'água. Ela estava atrás de uma árvore, trocando de roupa.
Meu, puta que pariu, não acredito que eu não a vi saindo peladinha do rio!!! Puto, arriei a cueca e deixei os Peixequetes se divertirem à vontade. Não custa nada arriscar.
— Sai da água, Tim! — gritou sua prima, apavorada. — O Nando disse que tem piranhas assassinas no rio!
— Mentira, Ma! — respondeu o gordo. — Volta pra água.
Ela estava bem longe, mas deu pra perceber seu olhar furioso para mim.
— Ah, fala sério, viu? — disse ela, com as mãos na cintura. — Você quase me mata de susto!
Eu queria pedir desculpas, mas o negócio debaixo d'água estava tão bom que eu não consegui. Nossa, o gordinho peçonhento tinha razão, isso aqui é acachapante mesmo! Senti como se estivesse gravando a versão pornô do Procurando Nemo. Nunca recebi um sexo oral tão perfeito em toda a minha vida. Acho que tem mais de 20 peixes disputando uma chupadinha. Calma, galera, tem pra todo mundo!
— Hei, deixa uns pra mim! — disse o gordo, nadando na minha direção.
— Sai pra lá, moleque! Agora é a minha vez!
— Não é justo, eu vi primeiro!
— E daí? Além do mais seu bilauzinho deve ser tão pequeno! Não serve nem de aperitivo para os coitadinhos.
O gordo ficou no horror comigo. Deu pra ver sangue nos seus olhos.
— Fica com todos pra você então. Mas lembre-se que eu fui o único que assistiu o documentário no Discovery Channel.
— Grande bosta! Eu nem curto essas paradas de documentário mesmo.
Ele deu uma risadinha sarcástica, depois nadou até a borda e saiu da água. Só então percebi que Margareth havia sumido, provavelmente à procura do namorado. Falando nisso, onde diabos ele está? Será que nos deixou aqui mesmo?
Gozei. Gozei gostoso com aqueles peixinhos tarados. E foi aí que passei o maior susto da minha vida. O cardume de Peixequetes simplesmente triplicou. Porra, filhotinhos? Se eles também me chuparem serei considerado um peixófilo, pedófilo de peixes?
Não foi bem isso que aconteceu. Os filhotinhos mordiam. Sim, e mordiam com vontade. Não era nenhum ataque de piranhas assassinas como estamos acostumados a ver nos filmes, mas confesso que fiquei bem assustado. Nadei para fora do rio às pressas. Meu pau estava queimando. E dava para ver sangue na água. Puta que pariu!!!
Lá fora o gordinho peçonhento rolava de rir.
— Diga tchau pardal para o seu bilau! — gritou ele, rindo feito uma hiena gorda comendo sozinha no McDonald's.
Eu queria mostrar aquele dedo para ele, mas aí eu teria que parar de nadar. Estes malditos peixinhos do caralho estão me comendo vivo! Sai, sai! Xô!
Saltei para fora do rio, nu. Minha cueca sumira no rio. Acho que os peixes a devoraram, sei lá. Eu estava tão atordoado que nem me lembrava onde havia deixado as minhas roupas. O gordo percebeu que eu as procurava e apontou na direção correta.
— Anda logo! — gritou ele, rindo — Este seu bundão branco vai atrair os urubus.
Não dei a mínima para o que ele disse. Eu estava mais preocupado com a situação do meu pau. Minha virilha queimava. Eu nunca havia sentido tanta dor naquela região. E olha que já tive muitos finais de semana selvagens, se é que vocês me entendem.
Eu queria olhar, mas faltava coragem. Será que sobrou alguma coisa do meu inestimável Nando Júnior? Se ficou apenas um toquinho, então prefiro a morte. Toquinho não!
— Olha o bumbum do Nando! — gritou Margareth, rindo.
Ignorei-a completamente. Eu tinha outras preocupações.
Foda-se, dei uma espiada, tremendo de pavor. Ufa, a situação estava feia, mas meu bilau ainda estava inteiro. O coitadinho estava todo mordiscado e sangrava em algumas regiões, mas repito: inteiro. Vesti a calça, aliviado. A jaqueta eu deixei no mato; estava calor demais para vesti-la.
— Cadê o filho da puta do seu namorado? — gritei para Margareth.
— Acredita que ele nos deixou aqui?
— Claro que acredito. No fundo eu até já sabia.
Caminhei lentamente até os dois, a dor ainda persistia.
— O que houve? — perguntou ela. — Por que está andando feito um zumbi?
— Bati o saco numa pedra — não tive as manhas de dizer a verdade.
— E agora, o que faremos? — perguntou Margareth?
— Daqui a pouco a dor passa, não se preo ...
— Eu quis dizer sobre a nossa situação!
— Ah, entendi.
Meti a mão no bolso da calça e peguei meu celular. Quando eu ia discar para o Pezão, Margareth me interrompeu, dizendo:
— Já liguei umas cem vezes para ele. Está fora da área de cobertura.
— O cuzão já deve estar bem longe — disse o gordo.
Mesmo assim eu tentei ligar. Mas ela tinha razão, o celular dele estava fora da área de cobertura. Não sei por que usamos estas porcarias se nunca funcionam quando mais precisamos.
— Você o conhece há muito mais tempo — disse Margareth para mim. — Você acha que ele vai voltar?
— Honestamente? Sim, mas por sua causa. Se estivéssemos somente nós dois — apontei para o gordo. — , ele não voltaria jamais. Apodreceríamos aqui.
— Credo, não fala assim, vocês são amigos. Ele não faria isso.
— Puto como ele estava, faria sim. Oh, se faria!
— Bom, o que você sugere então?
— Vamos esperar alguns minutos. Se ele não voltar, a gente dá um jeito de ir embora daqui.
— A pé? — disse o gordo, assustado.
— Ninguém nasceu com rodas, Eric Cartman!
Ele ficou olhando pra mim, não sabia se ria ou se ficava puto.
— Eric Cartman? Até que esse apelido foi criativo. Gostei.
— Eu tô morrendo de fome — disse Margareth.
Todos nós estávamos.
— Acho que vi uns pés de jabuticaba ali na frente — disse ela, apontando para o local.
— Jabuticaba? Isso dá uma caganeira dos infernos — argumentei. Meu histórico com esta fruta não é dos melhores. Passei duas semanas cagando pedra ano passado.
O gordo já estava lambendo os beiços.
— Sei lá, pode haver outras frutas também. Venham, eu mostro o caminho.
O gordo foi atrás. Eu os segui, mas lentamente, minha virilha ainda doía horrores.
— Psiu, gordo! — chamei o moleque.
— Gordo é o corno do teu pai! Eu tenho nome, sabia?
— Vem aqui, porra!
Mesmo fazendo mil e uma caretas ele veio. Margareth continuou lá na frente.
— Você sabia que os peixes iam me atacar, né?
Ele riu. E balançou a cabeça positivamente. Ai que vontade de chutar o saco do guri. Mas me controlei.
— Afinal de contas o que tinha naquele maldito documentário?
— Você quer mesmo saber?
Comecei a ficar preocupado.
— Conta logo, caralho!
— Você que sabe. No documentário eles diziam que os benefícios de uma chupada dos Peixequetes são inúmeros, inclusive para a nossa saúde. Mas tudo que é bom demais tem os seus riscos também, né?
Fodeu. Lá vem merda:
— Não se deve gozar, jamais, em hipótese alguma, pois os Peixequetes adultos aproveitam-se para alimentar os filhotes com a nossa porra. Eles adoram!
— Valeu, só agora você me avisa.
— Se você não tivesse sido tão egoísta, né? Bem feito!
— Meu pau está parecendo uma goiaba podre.
O filho da puta riu.
— E vai ficar pior, sabia?
— O quê? — arregalei os olhos.
— O documentário mostrou um caso de um cara que gozou. Depois de 24 horas no hospital o pau dele apodreceu e caiu. Parecia um pinto de estátua, quebrado.
— Você está zoando comigo.
O gordo balançou a cabeça negativamente, sério.
— Procura o vídeo na Internet, é acachapante!
— Acachapante é a puta que te pariu, seu gordo peçonhento dos infernos!!!
— Calma, oh!
— Calma o escambau! Se isso acontecer comigo eu juro que enfio duas latas de sardinha no teu rabo, seu merda!
— Já estão brigando outra vez? — gritou Margareth, uns cem metros à nossa frente.
— Deixa eu matá-lo! Só um pouquinho, deixa!
Ela riu, achou que eu estava só brincando. Depois gritou para o primo:
— Vem, Tim, achei umas jabuticabeiras enormes!
Pra comer ele corre, né? Gordo esfomeado da porra.
— Volta aqui! — gritei, puto.
— O que você quer agora?
— Só me diz uma coisa: há cura?
— Se me lembro bem, em 10 por cento dos casos as vítimas se recuperam sem nenhuma sequela. Não se preocupe, você vai ficar bem.
E o maldito saiu fincando pra comer jabuticaba. Mostrei outra vez o meu dedo pra ele.
É lógico que aquilo mexeu comigo, né? Já imaginou o meu pau apodrecer e cair?
— O que você tem, Nando? — perguntou Margareth, escalando uma entre as dezenas de jabuticabeiras do local. — Que cara é essa?
— Deixa pra lá — respondi, deitado sob a sombra de uma árvore.
— Está com o saco dodói, é? — ela riu à beça. — Pede para o Tim lhe fazer uma massagenzinha.
— Engraçadinha você, né? Dormiu com o Bozo, foi?
Ela riu tanto que perdeu um pouco do equilíbrio e quase caiu.
— Isso, bem feito! — disse eu, rindo. — Faz mais piadinhas sem graça, faz!
Enquanto ela subia na jabuticabeira, o gordo catava as frutas que caíam na grama. Maldito guri folgado.
— O saco dele está assim, prima! — disse ele, mostrando duas jabuticabas grudadas uma na outra.
Margareth riu tanto, mas tanto, que dessa vez ela realmente caiu da árvore. Eu e o gordo ficamos brancos, olhando um para o outro.
— Você está bem? — disse eu, correndo até o local da queda.
— Sim, foi só um susto — respondeu ela, estatelada na grama.
— Pensei que fosse morrer! — disse o gordo, com os olhos arregalados.
— Calma, gente! Vocês nunca caíram de uma árvore? Quando criança eu vivia caindo. Vaso ruim não quebra, né?
Mas ela não estava tão bem quanto pensava. Assim que tentou se levantar, sentiu alguma coisa e foi ao chão novamente. A expressão em seu rosto era de muita dor.
— Acho que torci meu tornozelo — disse ela, fazendo caretas.
— Que legal, hein! — falei, em tom de ironia. — Eu com o ... saco inchado e você com o tornozelo fodido. O que mais falta nos acontecer?
— Só o Tim continua firme e forte — ela riu, depois voltou a fazer caretas.
Veremos até quando.
Capítulo 15 · Cansei de Esperar
Mas ela não estava tão bem quanto pensava. Assim que tentou se levantar, sentiu alguma coisa e foi ao chão novamente. A expressão em seu rosto era de muita dor.
— Acho que torci meu tornozelo — disse ela, fazendo caretas.
— Que legal, hein! — falei, em tom de ironia. — Eu com o ... saco inchado e você com o tornozelo fodido. O que mais falta nos acontecer?
— Só o Tim continua firme e forte — ela riu, depois voltou a fazer caretas.
Veremos até quando.
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Passaram-se quase duas horas e nada do Pezão.
Meu estômago está cantarolando faz tempo, mas jabuticaba eu não como nem a pau.
— Eu disse que ele não ia voltar — resmungou o gordo, comendo mais uma jabuticaba.
— Começo a achar que não mesmo — disse eu, olhando para a prima dele.
Margareth pegou o celular do bolso e ligou outra vez para Pezão. Pelas minhas contas será a vigésima tentativa. A expressão no rosto dela disse tudo: sem sinal outra vez.
— Eu não acredito que ele fez isso com a gente — disse ela, puta pra caralho.
Levantei-me para esticar os ossos. Meu pinto ainda doía, mas nem tanto.
— Vamos voltar para a estrada? — falei.
Ninguém me respondeu. E o gordo pegou a milésima sexta jabuticaba.
— Meu, puta que pariu, para de comer esta porcaria nojenta!
Para me provocar, ele enfiou mais duas jabuticabas na boca. Foi a gota d'água. Saí andando para onde meu nariz apontava.
— Aonde você vai? — gritou Margareth.
— Pra casa — respondi, puto.
— Volta aqui, nervosinho! Você também vai nos abandonar?
Bateu um certo remorso. Não pelo gordo peçonhento, mas por ela. A coitada estava com o tornozelo torcido e seria uma puta sacanagem da minha parte deixá-la ali.
Voltei.
— Vamos embora daqui — disse eu, ajudado-a a se levantar. Vocês vão achar que é implicância minha, mas o gordo comeu mais uma jabuticaba. Senti uma puta vontade de vomitar sobre ele.
— Pra onde vamos? — perguntou Margareth.
— Sei lá, mas não vou ficar aqui esperando por alguém que não vai voltar.
E partimos na direção da estrada. O gordo jogou algumas jabuticabas no bolso e veio atrás, com uma cara de poucos amigos.
Margareth andava com dificuldade, precisou apoiar-se em mim. Ficamos agarradinhos, se querem saber. Ela cheira tão bem.
— Você é um cara legal, Nando — disse ela, de repente.
— Impressão sua. É a fome.
Ela riu.
— Por que você não está namorando?
— Sei lá, meus namoros não costumam durar muito.
— Por quê?
— Sei lá! — e dei de ombros.
— Você já se apaixonou alguma vez?
— Já.
— Que bonitinho!
— Qual era o nome do cara? — disse o gordo peçonhento.
— Fica na tua, Free Willy!
— Fri o quê?
— Ah, deixa pra lá.
— Vocês dois parecem irmãos — disse Margareth.
— Porra, agora você pegou pesado — resmunguei.
Levamos uns bons vinte minutos para chegarmos à estrada. Estava deserta, como eu já imaginava.
— Que raio de lugar é este que não passa ninguém? — disse eu, puto.
— Calma, vai passar — disse Margareth, calma. — Se fizeram a estrada é por que alguém precisa dela, não é?
— Nem sempre — disse o gordo. — Pode ter sido apenas uma obra superfaturada.
Ficamos olhando espantados para o moleque.
— O que foi? — disse ele. — Vocês não assistem jornal? É acachapante!
Margareth mostrou a língua pra ele, depois riu. Fui menos sutil, mostrei o dedo.
Sentamos debaixo de uma árvore e ficamos esperando algum movimento. Mas nada acontecia naquela porra de estrada. Absolutamente nada se mexia, nem as folhas das árvores. Caralho, será que todos os seres vivos do planeta morreram e só sobramos nós três?
— Conta uma piada, Nando — disse o gordo.
— Está me achando com cara de Ary Toledo?
— Credo, ele só pediu pra você contar uma piada — argumentou Margareth.
— Mas eu não sei contar piada.
Silêncio. De repente Margareth começou a rir sozinha.
— O que foi? — perguntei. — Lembrou de alguma?
— Conta aí, prima!
— Não é piada. Lembrei de uma história que aconteceu semana passada. — agora ela estava às gargalhadas, parecia uma hiena tomando refrigerante gelado num dia quente de verão — Vocês homens são muito sem noção.
— Conta logo, cacete! — disse eu, rindo.
— Ah, é meio íntimo, aconteceu no motel.
— No motel? Opa, agora é que vai ter que contar mesmo!
— Fala que você estava chifrando o seu namorado cuzão, por favor! — disse o gordo, esfregando as mãos.
— Que chifre o quê? Eu estava com o Maurício mesmo.
— É tão estranho ouvir Maurício, dá a impressão que você estava chifrando o Pezão com outro.
— Querem que eu conte a história ou não?
Eu e o gordo balançamos a cabeça positivamente, e nos calamos.
— Nem é tão boa assim, mas quando eu lembro começo a rir feito uma idiota. Estávamos na banheira e de repente senti a água borbulhar. Pedi para que ele desligasse a hidromassagem, pois odeio aquilo.
Ela desembestou a rir novamente; seus olhos pareciam as cachoeiras de Foz do Iguaçu.
— É a história mais idiota que eu já ouvi — disse o gordo.
— Eu ainda não terminei, Tim. O filho da mãe olhou pra mim e respondeu: Quem disse que eu liguei a hidro?
O gordo ficou olhando pra ela, sem entender. Eu comecei a rir, mas eu confesso que estava rindo da cara do gordo, não da história. Afinal de contas peidar na banheira é algo tão comum. A diferença é que eu espero ligar a hidro pra dar uma disfarçada, né?
— Eu queria bater nele — completou Margareth, rindo. — Mas eu ria tanto que não consegui.
— Você entendeu? — perguntou o moleque, olhando sério para mim.
— É piada de motel, fica frio que um dia você vai entender.
— Grande coisa! Já vi fotos de motel pela Internet, não sei qual é a graça daquilo. É basicamente um quarto com uma cama redonda e espelho no teto. E daí?
— Na teoria eu até concordo contigo. Mas não sei explicar, motel é motel. Mesmo que você tente recriar o ambiente na sua casa, não é a mesma coisa.
— Com certeza — completou Margareth. — Por mais fuleiro que seja, motel é motel. Só de passar pela porta de entrada já dá aquele arrepio gostoso na espinha.
— Bobagem — disse o gordo, puto da vida. E aposto que não entendeu o lance da banheira até agora.
— Conta uma história boa de motel pra gente — disse Margareth para mim. — Aposto que você deve ter muitas.
Tentei puxar pela memória e caí numa armadilha. Lembrei-me de Caroline olhando apavorada para a irmã, caída no banheiro. Uma das piores noites da minha vida.
— Nossa, que cara é essa? — perguntou Margareth, olhando assustada para mim.
— Deixa pra lá.
— Lembrou de umas brochadas, né? — disse o gordo.
Fiquei tão desnorteado com aquela lembrança que nem me importei com o que ele disse. Por que será que toda vez que lembro da Caroline eu fico assim, porra?
Levantei-me, ainda meio grogue, e disse:
— Vamos, não aguento mais ficar aqui sentado.
Estendi a mão para Margareth e a puxei. Mesmo assim ela fez uma careta de dor.
— Seu tornozelo continua ruim?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Pra onde a gente vai? — perguntou o gordo.
— Sei lá, meu! Mas você prefere ficar sentado aqui o dia todo?
— Ahã.
— Então fique — e olhei para Margareth. — Mas nós vamos embora daqui, né?
Ela tentou dar dois passos e gritou de dor. Não sei quem ficou mais triste: ela ou eu.
— Acho que está mais sério do que eu imaginava — disse ela, quase chorando.
Tive uma reação rápida e totalmente espontânea. Tentei pegá-la no colo. A princípio Margareth ficou meio sem graça, mas acabou cedendo.
— Estou muito gorda, Nando! — disse ela, com o rosto todo vermelho.
— Gorda era a Jurumina.
— Quem?
— Deixa pra lá — e olhei para o primo — Você vem com a gente ou não?
Ele fez uma cara de poucos amigos, colocou as mãos na cintura e respondeu:
— Tudo bem, eu vou. Mas a gente vai parar pra comer, né? Estou faminto!
Assim que ele respondeu que viria já comecei a andar.
Margareth nem era tão pesada assim, mas depois de alguns minutos eu já estava exausto por carregá-la. Lembrei-me de um filme de terror, onde o marido carregava sua esposa pelo deserto, enquanto seu filho os seguia logo atrás. No filme morrem os três. Minha memória está uma maravilha hoje, né?
Se já não bastasse tudo o que estamos passando, o gordo peçonhento começou a resmungar lá atrás. A cada dois passos eu ouvia seus gemidos.
— O que você tem, porra? — perguntei, sutilmente.
— Minha barriga tá doendo!
— Claro que está! Você comeu uns 30 quilos daquela maldita jabuticaba, cacete!
— Preciso cagar, Nando!
Aproveitei a oportunidade para parar e descansar um pouco os braços. Coloquei Margareth delicadamente sentada sobre um toco de árvore ao lado da estrada. O sol estava insuportável e não havia uma sombra sequer.
O gordo ficou acariciando a barriga e fazendo caretas.
— O que você está esperando? — disse eu para ele. — Vai cagar, porra!
— Onde?
— E eu é que sei? Procura um lugar por aí.
Ele ficou um tempão olhando para os lados, tentando criar coragem.
— Anda, gordo, você vai cagar na calça!
— Deixa ele, Nando — disse Margareth, bem abatida. Pela primeira vez a vi assim.
— A dor de barriga está passando.
— Está porcaria nenhuma! Dá para vê-la tatuada na sua cara. Você vai se cagar todo.
— Não vou.
— Vai.
— Não vou.
— Pior que vai.
— Parem vocês dois!!! — gritou Margareth, puta da vida. — Ouçam!!!
— O que foi? — perguntei.
— Acho que ouvi um barulho de motor.
— Não é motor, é seu primo peidando feito um ... Caralho, agora eu ouvi também! É barulho de motor mesmo!
— Eu não disse?
O som foi ficando cada vez mais alto, até que avistamos uma Variant laranja se aproximar. Poucas vezes vi um carro tão velho e feio, mas nunca fiquei tão contente em vê-lo. Precisávamos desesperadamente de uma carona.
— Mostra suas pernas! — pedi para Margareth. Ela não gostou muito da idéia, mas ao ver que o carro ia passar por nós, atendeu ao meu pedido.
O motorista da Variant encostou o carro imediatamente.
— Sempre funciona — completei, com sorriso nos lábios.
— E se o motorista fosse uma bichona?
— Uma bichona jamais dirigiria uma Variant laranja.
Capítulo 16 · Uma Estranha Família
— Mostra suas pernas! — pedi para Margareth. Ela não gostou muito da idéia, mas ao ver que o carro ia passar por nós, atendeu ao meu pedido.
O motorista da Variant encostou o carro imediatamente.
— Sempre funciona — completei, com sorriso nos lábios.
— E se o motorista fosse uma bichona?
— Uma bichona jamais dirigiria uma Variant laranja.
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Nós ainda caminhávamos até o carro quando a porta do carona abriu. Pensei que despencaria no asfalto; aquilo não via um óleo há muito tempo. Em seguida a outra porta também foi aberta e o motorista desceu do carro. O cara era tão feio e velho quanto sua Variant. Sua careca brilhava sob o sol escaldante. Usava um par de óculos escuros bem estiloso, tipo Matrix. Seu nariz era amassado para um dos lados, como se tivesse levado um soco e congelado naquela posição. Por fim ele tirou os óculos, olhou para mim e disse:
— O que vocês fazem por aqui?
— Estamos meio perdidos — falei, tapando o sol que batia diretamente nos meus olhos.
— Pouso Alegre é perto daqui? — disse Margareth, mancando e fazendo caretas.
— Mais ou menos. Posso levá-los até lá.
— Jura? — Margareth abriu um sorrisão, algo que eu não via desde a sua queda. — O senhor é um anjo que caiu do céu!
— Sou isso não. Agora entrem, o sol está muito quente.
E estava mesmo, daria para fritar um ovo no asfalto. Sentimos um alívio enorme ao entrarmos no carro. Mesmo desconfortável era dez mil vezes melhor que enfrentar o calor lá fora.
O gordo peçonhento não tirava as mãos da pança, parecia sentir muitas cólicas. Fazia uma careta mais engraçada que a outra. Só espero que ele não faça nenhuma bobagem dentro da Variant do velho. Ele e a prima ficaram no banco traseiro, sentei-me ao lado do careca esquisito. Foram necessárias dez tentativas para o motor pegar no tranco.
— A moça está mancando bastante.
— Torci o tornozelo. E por favor, não precisa me chamar de moça. Meu nome é Margareth.
— Bonito nome.
— Obrigada. Que indelicadeza a nossa, nem perguntamos o seu nome.
— Porrah — respondeu o careca. Todos ficamos espantados dentro do carro.
— Não precisava xingar — disse o gordo. — Ela só perguntou o seu nome, cara!
— Não xinguei! Meu nome é Porrah, mas com H no final. É um nome bastante comum no sul da Turquia.
— Ah, fala sério!
— É sério. É o nome do meu filho caçula também.
— Porrah Júnior? — perguntei, tentando manter a seriedade.
— Isso mesmo.
Com exceção do careca, começamos a rir. Reconheço que foi falta de educação da nossa parte, mas não deu para evitar, né?
De repente bateu uma marola insuportável dentro do carro. Puta que pariu, tenho a certeza de que o gordo peidou lá atrás.
— O senhor tem quantos filhos? — perguntou Margareth.
— Sete, mas uma já morreu.
— Nossa, que triste.
— Pois é, triste demais da conta.
— Sua esposa ainda é viva, né?
— Sim, muito viva, é a mulher mais linda do universo todo.
Se for tão linda quanto o marido, a pobre coitada deve ser uma mistura de Dercy Gonçalves com Ruth Romcy (a velha que fazia as pegadinhas do Silvio Santos).
— Desculpa interromper — falei. — , mas ainda falta muito para chegarmos em Pouso Alegre?
— Tem chão ainda.
Que pergunta besta foi a minha, é claro que ainda falta muito! Na velocidade em que estamos indo, até uma carroça puxada por burros pernetas iria mais depressa.
Para ajudar, acho que o gordo peidou outra vez.
Quase uma hora depois o velho saiu da estrada e pegou um caminho de terra vermelha e cascalho. Achei aquilo bem suspeito. Lá atrás, Margareth e o primo roncavam.
— Este caminho vai nos levar até Pouso Alegre? — perguntei, espantado.
— Na verdade já estamos em Pouso Alegre. Mas preciso dar uma passadinha em casa antes.
Puta merda, já assisti uns oito filmes de terror que começaram exatamente assim. Será que o velho é um psicopata?
— Será que é uma boa ideia? Estamos um pouco atrasados e ...
— A garota precisa de cuidados médicos no tornozelo, coitadinha. E o gordinho ... — ele abaixou o tom de voz. — ... deve estar todo cagado.
Comecei a rir feito uma hiena comemorando um pênalti perdido pelo time adversário. Ri tão alto que acordei os dois lá atrás.
— Já chegamos? — perguntou Margareth, bocejando.
— Ainda não, querida. Antes vocês farão uma visitinha lá em casa.
Alguns minutos depois nós paramos. O lugar parecia uma fazenda antiga, do tipo que a gente vê nos livros de história, da época dos escravos. Palmeiras muito bonitas circundavam um velho casarão. O cenário era de encher os olhos.
— Chegamos — disse o velho.
— Aquela é a sua casa? — perguntei, apontando para o casarão enorme.
— Sim, é humilde, mas pelo menos é minha.
— Humilde??? Se aquilo é humilde eu moro na favela.
O careca riu.
— Vocês jovens são tão exagerados.
Ao descermos do carro, um cão enorme veio correndo em nossa direção. Voltei imediatamente para dentro do carro, é claro. Margareth deu um grito e fez o mesmo.
— Não precisam ter medo, ele não morde — disse o careca, acariciando a cabeça do cachorro. Sou péssimo para identificar raça, mas creio que seja um Pastor Alemão.
Dentro do carro estava um cheiro insuportável.
— Você cagou na calça, né? — falei para o gordo. Ele estava com uma cara terrível. Parecia um peru na véspera de Natal.
— Acho que sim.
Margareth pulou para bem longe dele.
— Credo, Tim!!! Então era você que estava cheirando mal?
Ele balançou a cabeça positivamente, todo envergonhado.
— Eca!!!
— Venham, ele não vai morder vocês! — repetiu o velho, lá fora.
Saí do carro, principalmente por causa do cheiro horrível que estava lá dentro. Margareth veio logo em seguida. O gordo foi o último, o coitado não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha. Assim que ele colocou um pé fora do carro, a merda começou a escorrer por sua perna. Deu vontade de rir, mas achei sacanagem. O velho aproximou-se de mim e sussurrou no meu ouvido:
— Não te falei? — depois sorriu para o gordo e disse: — Vem comigo, vamos dar um jeito nisso. Não precisa ficar com vergonha, isso acontece com qualquer um. O gordinho não disse uma palavra.
O careca é gente boa. Eu só não entendi uma coisa até agora: se ele mora numa fazenda tão grande, como pode andar num carro tão velho e podre como aquele? Vai ter mau gosto assim lá na casa do caralho!
— Venham — disse ele para nós. — Quero que vocês conheçam minha família.
O gordo tomou um banho de mangueira antes. Nem o cachorro teve coragem de ficar perto.
Entramos no casarão. O lugar era tão belo por dentro quanto era por fora. A decoração era bem antiga, senti como se estivesse visitando um museu do início do século.
— Nunca vi nada tão lindo em toda a minha vida — disse Margareth, boquiaberta.
— Muito obrigado — respondeu o Sr. Porrah.
— O senhor deve ser muito rico — disse o gordo.
De repente surgiu um casal de crianças. Estavam tão bem vestidas que nos sentimos uns favelados. A menininha usava um vestido rosa, pronta para uma festa de gala. O menino usava um terninho e uma gravata borboleta. Estranho ver crianças vestidas assim, principalmente num dia insuportavelmente quente como este.
— Sou rico sim — disse o velho, orgulhoso — , mas pela família maravilhosa que eu tenho.
As crianças vieram correndo lhe abraçar.
— Conseguiu, papai? — disse a menina. Caralho, menina? Sua voz é de homem! Poucas vezes vi algo tão esquisito.
— Não, Luci, hoje não.
— Mas o senhor foi até o final da estrada? — disse o menino. Agora fiquei ainda mais abismado. Ele tem a voz da Fátima Bernardes, do Jornal Nacional. Margareth também notara algo estranho, pois sua cara era de total espanto. O gordo ria baixinho.
— Sim, fui até o final, Ferdnand.
— Ferdnand? — disse eu para o garoto. — Somos quase xarás, meu nome é Fernando.
— Prefiro Ferdnand — respondeu ele, com o nariz empinado. Putz! Isso que dá a gente querer ser gentil com criança. E a voz é realmente idêntica a da Fátima. Se ele disser "Boa Noite" a mulherada vai pensar que está na hora da Novela das Oito.
A menina não parava de olhar para o gordo. Será que gamou?
— Você está bem acima do seu peso ideal — disse ela, com aquela voz de trovão.
Comecei a rir. A menina olhou feio para mim e disse:
— Está rindo do quê? — sua voz grossa é ameaçadora. — Contei alguma anedota?
Fiquei sem graça pra caralho. E um pouco assustado, confesso.
— Luci, não seja deselegante com a visita!
E a guria saiu batendo os pés, bem irritada. O irmão foi atrás dela, com cara de poucos amigos também. Eu, hein! Nunca vi crianças tão estranhas em toda a minha vida. Deu até saudade dos meus irmãos pentelhos.
O velho olhou para o gordinho e disse:
— Não ligue para o que a minha filha disse, tá? Ela anda meio amarga ultimamente.
— Tudo bem, já estou acostumado. Pelo menos ela não me chamou de Faustão ou Pequeno Hipopótamo.
— Vou preparar um banho e roupas limpas para você. O que acha?
— Eu acho que vou começar a chamá-lo de papai.
O velho riu feito uma criança. Depois olhou para nós.
— Sintam-se em casa. Vou preparar um banho para o garoto e chamar minha esposa para conhecê-los.
Margareth e eu ficamos esperando na sala. Ela andava de um lado para o outro, embasbacada com tudo. Confesso que eu também estava impressionado, mas não tanto quanto. Seus olhos até brilhavam.
— Você chegou a imaginar que ele morasse num lugar como este? — disse ela, agora parada no centro da sala, com as mãos na cintura.
— Os verdadeiros donos devem estar de férias; aposto que ele é só o caseiro.
— Será? Não pode ser. E as crianças? Não viu como elas o recepcionaram?
— E daí? Caseiros também fazem filhos.
— Sim, mas caseiros não vestem os filhos com terninhos e vestidos caríssimos.
— Sei lá, quem garante que as roupas são deles? Podem ser dos verdadeiros donos.
— Tudo bem. Mas por que ele faria este teatro todo? Não faz sentido.
— Eu poderia dizer que é para te impressionar, mas não faria sentido ele dizer que tem esposa.
— Viu só? Não faz sentido. Isso aqui é dele mesmo.
— Acachapante.
Ela ficou me olhando, prestes a cair na gargalhada, mas apareceu alguém e ela segurou.
— Olá — disse Margareth.
Olhei para trás e vi uma garota de maiô. Linda, devo admitir, mas muito novinha. Eu arriscaria uns 15 aninhos. Não dá pra saber se é loira ou morena, pois seus cabelos estão enrolados numa toalha. Os olhos da guria são grandes e de um verde tão lindo que fiquei hipnotizado por alguns segundos.
— Caralho, quem é você? — disse a garota, irritada. Foi tão esquisito ouvir aquele palavrão sair da boca dela. Ela parece uma princesinha dos filmes Disney.
— Meu nome é Margareth e este é o ...
— Não me interessa, sua vadia! O que você quer, porra?
Putz! De princesinha a guria só tem o rosto mesmo. Que boquinha suja.
— Do que você me chamou? — retrucou Margareth.
— Chamei de vadia, e daí? Vai encarar, biscate?
Xiiiiiiiiiiii, vai dar merda isso aqui.
— Calma — sussurrei para Margareth. — Senta aqui do meu lado.
A estressadinha deu a volta no sofá e ficou encarando a Margareth, bufando feito um touro jurando morte ao toureiro. Será que estou invisível? Ela não olhou para mim até agora.
— O que você pensa que está fazendo aqui, cacete?
— Calma, guria, baixa a bola! — falei.
E ela finalmente olhou para mim. Pode ser impressão minha, mas eu acho que só agora ela percebeu a minha presença.
— Nossa, de onde você saiu? — seu tom de voz mudou totalmente. Nunca ouvi um som tão doce em toda a minha vida. Juro, nem parecia a mesma garota.
— De lugar algum — e dei uma risadinha. — Eu já estava aqui quando você entrou, mas você nem me ...
— Qual o seu nome?
Vocês vão pensar que estou inventando ou aumentado as coisas, mas eu posso jurar que os olhinhos dela brilharam.
— Pode me chamar de Nando.
Ela tirou a toalha da cabeça e soltou os cabelos. Eram loiros e compridos, quase encostaram no chão. A menina ficou ainda mais bonita.
— Muito prazer — disse ela, beijando o meu rosto nas duas faces. — O meu é Ximba.
— Ximba? — disse Margareth. — Que nome diferente.
— Diferente por quê, sua puta? — cacete, a voz da guria mudou novamente. Imaginem a voz da guria do filme O Exorcista nas cenas de possessão. Imaginaram? Então, não tem absolutamente nada a ver, mas seria interessante se vocês imaginassem que é parecida com a voz da Ximba. Daria um ar mais dramático e assustador.
— Qual é a tua, hein? — disse Margareth, vermelha de raiva — Está me ofendendo a troco do quê?
— Dá um tempo, sua velha!
— Velha? Quem é velha aqui?
Percebi Margareth fechando os punhos para socar a menina, mas para a nossa sorte o Sr. Porrah apareceu.
— O que está acontecendo aqui? — disse ele.
— Esta moça queria me bater, papai! — sua voz ficou doce outra vez.
— Como é que é? — ele olhou para Margareth, espantado.
— É brincadeira dela.
O velho sorriu. Ufa! Foi por pouco.
De repente senti alguém beliscar a minha bunda. Preciso dizer quem foi? Sossega, minha filha, isso dá cadeia!
Capítulo 17 · Sim ou Não
Percebi Margareth fechando os punhos para socar a menina, mas para a nossa sorte o Sr. Porrah apareceu.
— O que está acontecendo aqui? — disse ele.
— Esta moça queria me bater, papai! — sua voz ficou doce outra vez.
— Como é que é? — ele olhou para Margareth, espantado.
— É brincadeira dela.
O velho sorriu. Ufa! Foi por pouco.
De repente senti alguém beliscar a minha bunda. Preciso dizer quem foi? Sossega, minha filha, isso dá cadeia!
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Após o beliscão ela correu até a escada e subiu os degraus numa velocidade tão grande que eu pensei que fosse tropeçar e levar um tombo cinematográfico.
— Ela é meio estressadinha, né? — disse Margareth para o Sr. Porrah.
— Já foi bem pior — ele respondeu, com um olhar pensativo.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, notei alguém descendo a escada. E descia com uma elegância tão impressionante que eu tive a sensação de que tudo ao meu redor simplesmente congelou. Primeiramente vi um par de pernas de parar o trânsito. A mulher usava um vestido rosa claro, todo florido, até a altura das coxas. Barriguinha aparentemente sarada. Ela descia os degraus lentamente, como se parasse para posar para câmeras imaginárias. Logo vi um par de seios (não estavam nus, é claro), mas o decote sensual da blusa deixou bem claro que se tratavam de seios perfeitos, daqueles esculpidos com capricho pela deusa Afrodite. Agora só falta o rosto. Tenho quase certeza de que a gostosa é a cara da Vera Fischer, no auge.
Errei.
Puta que pariu! A Vera Fischer é um bagulho perto dela. Meu, que rosto é aquele? A mulher parece uma princesa de contos medievais, com longos cabelos loiros e olhos verdes tão brilhantes quanto zircônias. Zircônias? Porra, de onde eu tirei isso? Bom, já deu pra perceber que mulher bonita me deixa inspirado, né?
— Olá! — disse a princesa, com um sorriso tão acolhedor que eu me senti em casa.
Sorrimos de volta. Eu confesso que derramei um pingo de baba quente no tapete.
O Sr. Porrah ficou ao lado dela e disse, olhando para nós:
— Esta é Ajandra, minha esposa.
O quê? Esposa? Ah, fala sério! Não pode ser verdade. Deve ser filha ou neta.
— Nossa! — disse Margareth, tão surpresa quanto eu. — Agora eu entendi porque o senhor disse que ela é a esposa mais linda do universo.
— Você disse isso? — e Ajandra deu um tapinha no ombro do marido. — Exagerado!
Acho que estou de boca aberta até agora. Não acredito que a mulher mais linda que eu já vi é casada com aquele velho com cara de sapo-boi do pântano.
— Você deve ser a Margareth. Seu primo me falou muito de você.
— Sério? Coisas boas, né?
— Sim, ele é uma graça! E aquelas bochechas gorduchinhas são tão gostosas! Ai que vontade de ficar o dia todo apertando!
Gordo peçonhento sortudo do caralho. Apertar as minhas bochechas ninguém quer, né?
— E você é o Nando — sua voz é rouca, incrivelmente sexy. Só de ouvi-la dizer o meu nome eu quase tive uma ereção.
Sossega, Nando Júnior!!!
— Sim, sou eu — respondi, tentando evitar a ereção. Acho que consegui.
— Sejam bem-vindos ao nosso lar. Sintam-se em casa.
Desde que eu te vi já estou me sentindo assim, meu anjo. Fala sério, se eu não deixar este lugar vou me apaixonar por esta mulher. Você deve estar me achando um completo babaca, mas se você estivesse no meu lugar diria a mesma coisa.
— Vou preparar uns bolinhos e já volto — e lascou um beijo no velhote. Virei os olhos para não ver aquela cena nojenta. A dentadura do velho não deve ter um gosto de hortelã ou cereja, né?
— Não precisa se incomodar, Ajandra! — disse Margareth. — Já estamos de partida.
— Estão nada! Vocês vão provar meus bolinhos, depois a gente decide se estão de partida ou não.
Margareth olhou para mim. Dei de ombros.
— Tudo bem — assentiu Margareth. — , podemos ficar mais um pouquinho.
— Não irão se arrepender — disse o velho. — , ela faz os melhores bolinhos do universo.
— Não espalha, hein! — disse eu. — Senão marcianos podem vir até aqui e levá-la embora.
E todos riram, apesar da piada idiota.
Ajandra nos deixou. Imediatamente senti o ambiente perder sua leveza. O velho apontou para a escada e disse:
— Não querem tomar um banho? Temos toalhas e roupas limpas, se quiserem.
Não estávamos em condições de recusar. Nossos corpos cheiravam a gambás.
Cavalheiro que sou, deixei Margareth tomar seu banho primeiro. Enquanto aguardava a minha vez, o gordinho peçonhento finalmente deu as caras. Vestia roupas limpas e, pela primeira vez, estava com os cabelos penteados. Até parecia gente. Apesar de tudo, estava com uma expressão assustada.
— Este lugar está cheio de gente esquisita! — sussurrou ele.
— Ah, tá, e você é normal, né?
— Perto dessa gente eu sou mesmo. Reparou nos nomes daquelas crianças?
— O casalzinho das vozes invertidas?
— Isso! Reparou nos nomes? Luci e Ferdnand.
O gordinho ficou me olhando com olhos esbugalhados.
— E daí, porra? Poderia ser bem pior, tipo Lucicreide e Ferdinélisson.
Ele nem esboçou sorrir. Continuou me encarando com aquela cara rechonchuda, depois disse:
— Junte os nomes. Dá Lúcifer. Lúcifer! Este nome lhe diz alguma coisa?
— Ah, não viaja! Coincidência, porra!
— Coincidências não existem.
— Porra, gordo, vai dar uma de Padre Quevedo agora? Eles são esquisitos, nisso eu até concordo com você, mas deve ser alguma doença na garganta, só isso!
— E os irmãos gêmeos, você já os conheceu?
— Irmãos gêmeos? Não, estes eu ainda não vi.
— Acachapantemente esquisitos! Um só sabe dizer SIM, o outro só diz NÃO.
— Ah, eles estavam zoando com você, gordo. Crianças fazem isso o tempo todo.
— Não estavam zoando coisa nenhuma! Criança quando brinca dá risada. Eles não sorriem. Estou falando para você, este lugar só tem gente esquisita!
— Quando a Ajandra apertou suas bochechas você não achou que ela fosse esquisita, né?
— Ah, toda regra tem sua exceção, né?
— Gordo safado.
— Mas ... apesar de linda, ela também é meio esquisita. Você não achou?
— Esquisita? Porra, esquisito é você! Ela é a mulher mais linda que eu já vi. O corpo, o rosto, o sorriso, os olhos, tudo nela é milimetricamente perfeito.
— Eu sei, mas isso não impede que ela seja meio esquisita. Se você prestar bem atenção, ela não pisca.
Comecei a rir feito uma hiena com o vírus Influenza.
— Você dá pra comediante, gordo.
— Sai fora! Não dou pra ninguém!
— Ela não pisca! Esta foi muito boa.
De repente ouvimos a voz da Margareth no corredor. Ficamos em silêncio para ouvi-la melhor.
— Que fofos! — disse ela. — Como vocês se chamam?
Nenhuma resposta.
— Aposto que ela encontrou os gêmeos! — disse o gordo. — Eles só sabem dizer Sim e Não, por isso não responderam.
— Ah, fala sério!
Corri até o corredor para ver aquilo com os meus próprios olhos. Vi Margareth e dois garotinhos. Os meninos estavam vestidos de formas totalmente opostas. Um vestia camiseta preta, bermuda amarela, meias pretas e tênis amarelo; o outro vestia camiseta amarela, bermuda preta, meias amarelas e tênis preto.
Margareth percebeu a minha presença.
— Olha que gracinhas, Nando! Nunca vi gêmeos tão idênticos assim!
Os dois olharam na minha direção. Juro, senti uma sensação estranha. Não sei exatamente o que foi, mas não gostei.
— Como vocês se chamam? — perguntei, fingindo sorrir.
Ficaram mudos. Um deles parecia estar com medo de mim, o outro me encarava de forma ameaçadora. Vou ter que concordar com o gordinho: crianças esquisitas!
— Vocês estão com medo de mim? — perguntei, meio sem querer.
Ambos responderam exatamente juntos. Mas um disse Sim e o outro respondeu Não. Foi muito estranho.
— Eu não disse? — disse o gordinho peçonhento, atrás de mim. Tomei um susto daqueles.
— Porra, gordo! — xinguei. — Quer me matar do coração, caralho?
— Não digam palavrões na frente dos garotinhos! — reclamou Margareth.
Resolvi testar os pirralhos.
— Vocês sabem dizer palavrões? — perguntei.
O garotinho da direita respondeu:
— Não.
Seu clone permaneceu calado, parecia um boneco de cera.
— Quantos anos vocês tem? — perguntou Margareth.
— Não adianta! — resmungou o gordo, balançando a cabeça negativamente. — A pergunta precisa ser respondida com Sim ou Não.
Margareth soltou um riso curto.
— Até parece! — disse ela, descrente. — Eles estão brincando com a gente.
— Vocês dois estão zoando com a gente? — perguntou o gordo para os meninos.
O garotinho da direita novamente respondeu:
— Não.
— Não falei? — disse o gordo. — Eu quero ir embora daqui. Esta casa me dá arrepios.
E foi aí que tive uma ideia absurda, mas foda-se, a vida é feita de ideias absurdas mesmo, né? Resolvi perguntar para os pirralhos:
— O Pezão vai voltar?
Margareth e o primo ficaram me olhando, abismados.
De repente um dos pirralhos respondeu:
— Não.
— Tem certeza? — disse eu.
— Sim — respondeu o outro.
— Estamos fodidos — disse o gordo, desanimado.
— Isso é um absurdo! — resmungou Margareth. — Eles nem conhecem o Maurício!
— Espera — disse eu. — Vamos ver se eles são bons mesmo. Olhei para os pirralhos e: — Viajamos até aqui para a Margareth ver a mãe dela. Sim ou não?
— Não.
Tentei outra:
— Viajamos até aqui para a Margareth ver o tio. Sim ou não?
— Não.
— Viajamos até aqui para a Margareth ver o pai. Sim ou não?
— Sim — respondeu o outro.
— Caraca! — disse Margareth, pousando sua mão direita sobre a boca. — Só pode ser alguma brincadeira.
— Nós vamos morrer? — perguntou o gordo.
— Sim.
— Mas que raio de pergunta imbecil foi esta? — disse eu, muito puto. — É claro que vamos morrer. Por acaso você é Highlander, gordo?
— Putz, viajei. Todos nós vamos morrer um dia, né? Dããããããããã!
Pensei numa pergunta melhor para os gêmeos esquisitos:
— O Pezão ainda está vivo?
Margareth nem respirou.
— Sim — respondeu o guri.
O alívio no rosto dela foi comovente. Acho que ela gosta do Pezão de verdade.
— Falta muito tempo para a minha morte? — perguntou o gordo, viajandão.
— Sim.
— Se você continuar com estas perguntas idiotas, eu prometo encurtar este prazo!
— O meu namorado está perto? — perguntou Margareth. Ótima pergunta!
— Sim.
Ela abriu um sorriso de alívio. De repente fechou a cara e fez outra pergunta:
— O meu namorado está com outra mulher?
Os dois garotinhos falaram juntos. Mas um disse sim e o outro disse não.
— O quê? — Margareth ficou puta da vida. — Respondam! Sim ou não?
Eles repetiram as respostas, perfeitamente sincronizados.
— Já entendi — disse o gordo, rindo feito uma hiena rechonchuda rolando morro abaixo. — O seu namorado está com um traveco!
Capítulo 18 · A História da Variant
— O meu namorado está perto? — perguntou Margareth. Ótima pergunta!
— Sim.
Ela abriu um sorriso de alívio. De repente fechou a cara e fez outra pergunta:
— O meu namorado está com outra mulher?
Os dois garotinhos falaram juntos. Mas um disse sim e o outro disse não.
— O quê? — Margareth ficou puta da vida. — Respondam! Sim ou não?
Eles repetiram as respostas, perfeitamente sincronizados.
— Já entendi — disse o gordo, rindo feito uma hiena rechonchuda rolando morro abaixo. — O seu namorado está com um traveco!
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Pela primeira vez vi as veias da Margareth pulsarem freneticamente. Por um momento pensei que veria fumaça sair de suas orelhas, como nos desenhos animados.
— Aquele filho da puta! — gritou ela.
— Não diga palavrão perto dos meninos — disse o gordo, irônico.
— Eu quero que estes gêmeos se fodam!
E Margareth saiu batendo os pés pelo enorme corredor. Depois desceu a escada.
— Oh, aonde você pensa que vai? — gritei.
Ela nem me deu pelota.
— Caramba, a Ma ficou puta da vida — disse o gordo.
— Nããããão! Você acha mesmo?
Os gêmeos ficaram olhando para nós sem expressão alguma. Pareciam dois bonecos de cera. Se um diretor de Hollywood encontrasse estes meninos faria um filme.
— Só mais uma pergunta — falei para os dois: — O gordo ainda é virgem?
O garotinho do Sim logo se manifestou, falando bem alto. Olhei para o gordo e desembestei a rir feito uma hiena andando de cueca no meio de uma rodovia.
— Porra, sacanagem! — disse o pequenino Faustão, mostrando aquele famoso dedo para mim, e depois para o Sim Boy.
Quando eu me preparava para voltar para o quarto o gordinho soltou esta pergunta para os gêmeos:
— O Nando já deu o cu?
Prontamente o garotinho do Não se manifestou.
Apenas sorri e fiz aquele sinal de "se fodeu" com as duas mãos para o gordo.
— Eu me garanto — falei. — Posso perguntar se você já deu o seu?
Eu ia perguntar, mas vi a esposa gostosíssima do velho surgir atrás do gordo. Fiquei calado, é claro. Mas o filhote de baleia com mamute não percebeu a presença dela e soltou esta:
— O Nando já teve fantasias eróticas chupando uma rola bem grossa?
Meu, vocês precisavam ver a cara da gostosa atrás do gordo. Ela ficou tão vermelha de vergonha que mais parecia o Hellboy. Só faltou o charuto.
— Lave esta boca, menino! — disse ela, horrorizada.
Puta que pariu!!! Se a cara da gostosa já tinha sido engraçada, a do gordo então foi ainda melhor! Juro, se houvesse um jeito de esconder a própria cara no cu ... ele esconderia.
E o garotinho do Não se manifestou. Atrasado, mas se manifestou. Ainda bem, né? Porra, ficou na dúvida, caralho? Sai fora!
— Por um acaso vocês disseram alguma coisa para a garota? — perguntou a gostosa, ainda olhando torto para o gordo.
— Eu não!!! — respondeu o peçonhento, rápido no gatilho.
E a boazuda olhou para mim, dizendo:
— Ela pegou as chaves da Variant e saiu queimando os pneus. Nem sei como ela conseguiu fazer isso, pois aquilo quase não anda.
— Como é que é? — perguntei, pensando ter ouvido errado.
— Estava completamente fora de si; transtornada. Pensei que vocês tivessem discutido ou algo assim.
— Os gêmeos disseram que o namorado dela está com outra. — disse o gordo. Depois completou: — Ou outro, sei lá.
— Vocês fizeram isso, meus anjos?
O Sim Boy logo se manifestou.
— Vocês são muito malvados! Já de castigo! — e a gostosa apontou seu lindo dedo para um dos quartos. Os gêmeos nem esboçaram reclamação; fizeram imediatamente o que ela pediu.
Credo em cruz, serão crianças de verdade? Parecem robôs, porra!
— Acho melhor você ir atrás dela, hein! — disse a gostosa, olhando para mim.
— Seu marido tem outro carro para nos emprestar? — perguntei.
— Sim, ele já está lá embaixo esperando por vocês.
Descemos o mais rápido possível.
Do lado de fora da mansão, o Sr. Porrah nos aguardava, sentado ao volante de um maravilhoso Ford Galaxie azul.
— Uau! — falei, arregalando os olhos para o carro.
— Entrem! — disse o Sr. Porrah, visivelmente preocupado.
O Galaxie do velho tem 4 portas. Sentei-me no banco da frente e o gordinho foi lá para trás. O carro cheirava a eucalipto, bem diferente daquela outra porcaria velha que o Sr. Porrah usou para nos trazer até aqui.
Assim que o gordo fechou a porta o velho deu a partida e saiu fincando, levantando poeira atrás de nós.
— Não vou me perdoar se acontecer alguma coisa com aquela menina.
— Fique calmo, ela não vai muito longe — tentei acalmar o velho.
— Aconteceu alguma coisa? Ela estava enlouquecida. Passou a mão no molho de chaves e simplesmente voou até o carro. Nunca vi ninguém agir tão rápido em toda a minha vida. Não tive tempo de impedi-la.
— O namorado dela está com outra — disse o gordo. — Ou outro, sei lá.
— Ah, então é isso? O amor faz isso com as pessoas; enlouquece.
— Bom, se ela ama um babaca como aquele ... só pode estar louca mesmo.
— Perdão por mudar de assunto, — disse eu. — mas ... de que ano é este carro?
— É de 1978. Lindo, não?
— Puta que pariu, está conservado demais!
— As coisas boas da vida a gente precisa cuidar com muito carinho, filho.
— Com certeza.
— Mas a Variant laranja o senhor não trata com tanto carinho, né? — disse o gordo.
Notei que o velho fechou a cara. Maldito gordo peçonhento, ele tem as manhas de irritar as pessoas. Já perceberam?
— Aquele carro tem uma história.
Silêncio. Até que o velho desembuchou:
— Aquele carro matou uma das minhas filhas.
— Acachapante — disse o gordo, mas dessa vez num tom triste. — A Variant era dela?
— Não. Um bêbado sem vergonha dirigia por esta mesma estrada onde estamos e a atropelou.
— Sacanagem — disse eu.
— Pois é, muita sacanagem — acho que o velho vai chorar. — Ela era linda.
E o velho desabou. Creio que suas pernas amoleceram, pois ele parou de acelerar o carro.
— O senhor está bem? — perguntei, assustado. Olhando para ele e para a estrada. Para a nossa sorte a estrada era bizarramente deserta.
— Perdão — respondeu ele, chorando feito uma criança. — Não tenho condições de dirigir. Troque de lugar comigo.
Opa!!! Vou dirigir o Galaxie!!! O velho parou o carro no acostamento e trocamos de lugar. No começo eu estranhei bastante os pedais e o câmbio, mas aos poucos fui pegando o jeito. Incrível, eu ainda nem era um projeto de gente quando este carro saiu da fábrica. Acachapante! Porra, este negócio pega!
Pra onde estamos indo mesmo? Ah, lembrei, atrás da Margareth.
— Posso acelerar? Alguma coisa me diz que a Margareth precisa de nós.
— Fique à vontade, filho.
Uhuuuuuuuuuuuuuu!!! Era tudo o que eu precisava ouvir. Pisei fundo! O gordinho peçonhento quase voou pela janela.
A estrada estava deserta como das outras vezes. Que raio de lugar é este onde não passam carros?
Quando o velho finalmente parou de chorar, o gordo me solta esta:
— O senhor comprou a Variant do bêbado que atropelou a sua filha?
— Não exatamente. No dia seguinte ao acidente ele ficou tão arrependido que queria me recompensar de qualquer jeito. Como a única coisa que o sujeito tinha era o carro ...
— Ah, entendi.
— Mas no começo eu não queria de jeito nenhum. Eu fiquei com a sensação de que estava sendo comprado, sabe? E carro nenhum no mundo pagaria pela perda da minha filha. Nem uma frota de Ferraris. Nada!
— E por que o senhor mudou de ideia e aceitou o carro?
— Gordo, não acha melhor mudarmos de assunto? — disse eu, olhando feio para ele pelo espelho retrovisor.
— Está tudo bem — disse o velho. — Ele é um garotinho curioso, como todo garotinho deve ser. Eu vou lhe contar o motivo de ter mudado de ideia.
O velho nem percebeu que eu estava voando baixo com o seu Ford Galaxie azul. Em breve alcançaremos a Margareth, com certeza. Duvido que ela esteja indo tão rápido quanto nós.
— Tudo aconteceu numa sexta-feira à noite — prosseguiu o velho. — Eu estava saindo da delegacia e vi a Variant parada no pátio. A frente estava toda amassada e ainda dava para ver algumas manchas de sangue — ele engoliu seco. — Não sei explicar, mas alguma coisa me atraiu até o carro, como um ímã. Enquanto eu caminhava até a Variant eu comecei a me sentir cada vez mais leve, como se eu estivesse pisando nas nuvens. Eu nunca havia experimentado uma sensação de paz tão grande como aquela. E quando eu cheguei bem pertinho do carro tive a visão mais incrível da minha vida.
Silêncio. Olhei para o lado e vi que os olhos do velho brilhavam. Seu rosto até pareceu mais jovem. Acreditem se quiser.
— O que foi que o senhor viu? — gritou o gordo, desesperado.
— Ah, deixa pra lá, vocês vão pensar que sou um velho louco.
— Lógico que não, conta!
— Na época ninguém acreditou em mim. Nem a minha falecida esposa.
— Falecida? — disse eu. — E a Ajandra?
— Já tive 6 esposas antes dela, filho. Ajandra ainda era uma criança naquela época.
— O que tinha na Variant? — insistiu o gordo.
— A minha filha — sussurrou o velho. — Ela estava sentada no capô amassado da Variant, tão linda quanto no dia em que fora atropelada por aquele maldito bêbado. Sorria para mim. Tentei abraçá-la, mas quando eu me aproximei ela evaporou como fumaça.
— Acachapante!
O velho riu.
— Nem sei o que significa esta gíria, mas se você diz que é ... eu acredito.
— E o fantasma da sua filha aparece sempre? — continuou o gordo com o seu irritante interrogatória.
— Algumas vezes. Sempre no mesmo local.
— Já sei — disse eu. — No local do acidente.
— Exatamente. Acabamos de passar por ele, alguns minutos atrás.
— Sério? — disse o gordo. — E ela estava lá?
— Não.
— Ah, que droga!
— Que papo é este, gordo? — falei. — Você tem vontade de ver fantasmas?
— Claro! Deve ser ...
— Acachapante? — completou o velho.
— Ahã!
E finalmente avistamos a tão famosa Variant laranja. O ferro velho estava parado no acostamento, soltando mais fumaça que as brasas do inferno. Margareth estava sentada na estrada, chorando. Seu rosto era frustração pura.
Encostei o Galaxie logo atrás. Quando ela percebeu que éramos nós, abriu um sorriso amarelo.
— Você está bem, minha filha? — disse o velho, carinhosamente. Alguma coisa me diz que a Margareth lembra muito a sua filha falecida.
— Não, não estou — disse ela, de cabeça baixa.
— Está ferida? — o velho correu em sua direção.
— Não, não é isso. Estou morrendo de vergonha. O que fiz foi errado. Eu praticamente roubei o seu carro, né?
— Ah, não diga isso. Não roubou nada. Olha a minha velha Variant aqui!
— Fundiu o motor.
— Não foi a primeira nem será a última. Agora levante-se, por favor.
— O senhor não está bravo comigo?
— Lógico que não. Você agiu com o coração, só isso. Não fez por mal.
Margareth fez uma careta. E ficou de pé.
— Ah, então o senhor já sabe da história — disse ela.
— Sim, mas fique tranquila. Aposto que tudo não passa de um engano.
— Prima, você não viu uma moça na estrada? — perguntou o gordo.
— Moça, que moça? Esta estrada é mais deserta que o Saara. Não passa uma alma viva neste lugar!
— Viva eu sei que não. Mas a moça que eu falei já morreu.
Cutuquei o gordo. Porra, o pequeno Faustão não tem semancol, né?
— Seu primo cheirou cocaína e fumou maconha ... ao mesmo tempo — falei. — Não liga para o que ele está dizendo.
O gordo andou ao redor da Variant, olhando assustado para ela. Eu não sabia se ria ou se dava um safanão no moleque.
— O que deu nele? — perguntou Margareth.
— Sinto lhe informar, mas seu primo é tão louco quanto gordo.
Margareth enfim sorriu.
— Tadinho, não fala assim dele.
De repente ouvimos o ronco de um motor. Era a Variant. Nem preciso dizer que o gordo deu um pulo de 2 metros, né? Bom, deve ter emagrecido uns 2 quilos.
— Buuuuuuuuuu!!! — gritei na direção do gordo, rindo feito uma hiena navegando pelo site do Julio Fantasma.
Ele mostrou aquele famoso dedo para mim.
— Não estou entendendo vocês — disse Margareth, me encarando com olhos curiosos.
— Nem queira entender.
— Como foi que o senhor conseguiu? — perguntou Margareth para o velho. — Eu tentei de tudo e o motor nem dava a partida.
— Parece que só eu entendo este carro — respondeu ele, sorrindo. — Podemos voltar pra casa agora?
— E o Maurício? — sussurrou Margareth para mim. — Eu sinto que ele está em perigo.
— Sério?
— Ahã — E Margareth olhou para o velho. — Será que eu posso abusar mais um pouquinho da sua bondade?
— Sim, querida, claro que pode.
— O senhor nos empresta o carro para procurarmos o meu namorado?
— Lógico que sim! Fiquem com o Galaxie.
— Quem?
— O Ford Galaxie é o carro azul — sussurrei no ouvido dela, apontando para ele.
— Ah, entendi. — Margareth correu até o velho e beijou-lhe o rosto. Ele ficou todo sorridente. — Muito, muito, muito, muito obrigada!!!
Não resta a menor dúvida: ele vê a filha na Margareth. Alguém aí duvida? Bom, ou é isso ou o velho está apaixonado por ela. Mas eu ainda fico com a primeira opção.
O velho deu meia-volta com a Variant e parou do nosso lado. Ele olhou diretamente nos meus olhos e disse:
— Mas cuide dele como se fosse o amor da sua vida, OK?
— Pode deixar — respondi.
— Ficaremos esperando vocês. Precisam experimentar os bolinhos da Ajandra!
— Ah, sim, os melhores bolinhos do universo! — completou Margareth.
O velho deu uma piscadela, duas buzinadas, e pegou a estrada.
— Fala sério, você já viu alguém mais bacana do que ele?
— Não — respondi. — É tão legal que dá até medo.
— Medo? Medo do quê, bobo?
— Sei lá. Vamos?
Entramos no Galaxie e ao tocar o câmbio a voz do velho veio na minha mente: "cuide dele como se fosse o amor da sua vida". Bom, vou tentar. O último amor que eu tive morreu a vassouradas, né?
Não pisei fundo como da outra vez. As palavras do velho mexeram comigo. Não seria justo eu detonar uma obra de arte como esta. Este carro não é apenas um carro, é uma relíquia. E eu não sou o queridinho do velho, como é a Margareth. Se acontecer alguma coisa com o Galaxie o Sr. Porrah não será tão compreensivo.
— Desde quando você é sensitiva? — perguntei para a Margareth.
— Sei lá. Enquanto dirigia por esta estrada deserta eu tive uma sensação tão ruim.
— É? — disse o gordo, arregalando os olhos.
— Fica quieto aí, Maquete de Orca.
— Maquete de Orca é o seu rabo!
— Parem vocês dois! Que saco! Parecem crianças!
— Desculpa — falei. — Prossiga. Você dirigia e teve uma sensação ruim.
— Sim, um pouco antes daquele monte de ferro velho me deixar na mão.
— Percebeu? — disse o gordo. — Ela teve a sensação ruim exatamente ao passar pelo local do acidente.
Margareth olhou imediatamente para o banco de trás, onde estava o gordo.
— Que acidente?
— O acidente com a filha do velho! Ele nos contou a história.
— Não estou entendendo nada.
— Deixa pra lá, Margareth — falei. — O velho inventou uma historinha para passar o tempo e o seu primo caiu direitinho.
— Sério? Agora eu fiquei curiosa. Também quero saber!
E Margareth não sossegou o rabo enquanto não lhe contamos toda a história. E para minha surpresa, ela ficou tão impressionada quanto o gordo peçonhento. Talvez um pouco mais.
— Cruzes — disse ela. — Então aquela porcaria, além de velha, é mal assombrada?
— Acachapante, né?
— Acachapante porcaria nenhuma! Horripilante, isso sim! Olha, estou toda arrepiada!
— Vocês são dois idiotas — falei. — Tudo isso não passa de uma história que o velho contou para fazer o gordo calar a boca.
— Se é apenas uma história, como é que você explica o fato da Ma ter se sentido mal bem no local do acidente, hein? E ela não sabia de nada.
— C o i n c i d ê n c i a. Apenas uma coincidência, só isso.
— Será, Nando? Foi uma sensação tão ruim. Tive pensamentos horrorosos!
— Enquanto estamos aqui, aposto que o Pezão está em algum boteco tomando uma.
— Quando saí daquela mansão eu imaginei isso também. Não exatamente um boteco, sabe? Imaginei o safado com outra rapariga. Mas conforme os minutos foram se passando meus pensamentos foram tomando outros rumos. Da raiva que eu estava sentindo eu passei a sentir medo. Medo de perdê-lo.
— Bobagem. Vaso ruim não quebra.
Margareth olhou séria para mim. Seus olhos cheios de lágrimas.
— Desejo do fundo do coração que você esteja certo — disse ela.
— Eu ainda acho que ele está com um traveco — disse o gordo.
E caímos na gargalhada. Acho que dessa vez o gordo peçonhento mandou bem. Aliviou o clima tenso.
Percorremos mais uma meia hora de estrada deserta. Juro, nunca vi um lugar tão parado. Parece que nem o vento sopra por estas bandas. Eu, hein!
E finalmente avistamos uma placa. Será que estamos perto de Pouso Alegre? Não. Na placa lia-se outra coisa: ORUOGA 1KM. Ela apontava para uma outra estradinha à direita.
— Oruoga? Que raio de nome é este?
— Parece japonês — disse o gordo.
Pior que parece mesmo.
— Porra, será que andamos tanto assim?
— Ah, tá! — zombou Margareth.
— E aí, o que eu faço agora?
Ninguém disse nada. Então resolvi ignorar a placa e seguir em frente. De repente Margareth soltou um grito:
— Pega a direita, Nando, por favor!
— Porra, quer me matar de susto? Por que não disse antes?
— Desculpa! Mas alguma coisa me diz que o Maurício está por perto e precisa da nossa ajuda.
Dei a ré e virei à direita, rumo a Oruoga. Vamos ver no que dá. Pior não pode ficar.
Esta porra de cidade deve ser fantasma, pois até agora não vi ninguém entrar ou sair dela. Deve ser um fim de mundo dos infernos. Se bobear, nem televisão tem.
Quando eu já estava pensando em dar meia-volta, vimos algo que me fez mudar de ideia imediatamente: o carro do Pezão. Estava estacionado em frente a um terreno baldio.
— Eu não disse? — gritou Margareth, quase saltando para fora do Galaxie em movimento. — Pare, eu preciso descer!
Fui obrigado a parar o carro, ou ela realmente saltaria pela janela, tamanho era o desespero da guria.
Assim que ela desceu correu feito uma doida para o terreno abandonado. Havia um matagal mais alto que ela, mas Margareth não deu a mínima.
— Espere por nós! — gritei. Mas ela não olhou para trás. — Pode ser perigoso!
O gordo e eu descemos do carro e corremos atrás dela.
— Espera, Ma! — gritou o gordo, ofegante. Suas banhas saltavam no ar feito geleia de mocotó.
E Margareth desapareceu no meio do matagal.
— Puta que pariu, sua prima é foda! — resmunguei.
Um minuto depois o gordo me alcançou.
— Eu não imaginava que ela gostasse tanto assim daquele idiota.
— Ele tem sorte.
— Se ainda estiver vivo, tem.
Ao ouvir isso eu me dei conta da gravidade da situação: o carro do Pezão estava largado em frente a um terreno baldio! Será que ele foi sequestrado? Será que foi assaltado e vieram desovar o corpo no matagal? Só consegui pensar em coisas desse naipe.
— Ma, onde você está? — gritou o gordo, ameaçando entrar no matagal.
Nenhuma resposta.
— Fique aqui — falei para o gordo. — Vou procurar a sua prima. Se o pior acontecer eu vou gritar e você sai correndo o mais rápido que puder. Entendeu?
Ele arregalou os olhos para mim e balançou a cabeça afirmativamente. O coitado estava muito assustado. Provavelmente todo cagado também. E não vou mentir, também estou quase chegando lá. Ainda bem que vou entrar num matagal, né? Lugar mais propício não existe.
— Bom, aqui vou eu.
O mato tem mais de 2 metros de altura. Há muito tempo que este lugar não recebe uma limpeza.
— Margareth, cadê você? — gritei.
Nada. Silêncio. Um silêncio como eu nunca presenciei em toda a minha vida. Senti como se eu estivesse completamente só neste mundo.
Procurei um tempão por ela. Mas só vi mato, nada além disso. O lugar parecia um enorme labirinto. Depois de um tempo senti que estava andando em círculos, pois todos os lugares pareciam iguais.
Minhas esperanças estavam praticamente indo embora quando ouvi uma voz gritar:
— Nando, onde está você?
Eu estava tão tenso que não consegui sorrir ou sequer esboçar uma reação alegre. Só consegui gritar de volta:
— Você está bem?
— Sim, estou! Ele está vivo, Nando! O Maurício está vivo!
— Acachapante!
Porra, isso pega mesmo!
— Preciso da sua ajuda para tirá-lo daqui! Ele está meio grogue!
— Continue falando comigo, vou tentar localizá-la.
E ficamos gritando um com o outro por uns 10 minutos, até que eu os encontrei. Margareth estava sentada no chão e Pezão deitado com a cabeça apoiada nas coxas dela. Ele parecia bem, mas um pouco perdido.
— Como você veio parar aqui? — perguntei.
— Eu dei carona para um casal — Sua voz saiu estranha. Ele parecia anestesiado.
— Casal, que casal?
— Sei lá, está tudo diferente de quando chegamos aqui.
— Outra hora conversamos sobre isso — disse Margareth, solicitando com as mãos a minha ajuda para levantá-lo.
Levamos mais uns 20 minutos para sair daquele maldito matagal.
Sentamos o Pezão no banco do carona do seu carro e Margareth assumiu o volante. O gordo e eu voltamos para o Galaxie. E fomos para a mansão do Sr. Porrah, afinal de contas não poderíamos partir sem experimentar os melhores bolinhos do universo.
Ao chegarmos na mansão fomos recepcionados com tanta festa e carinho que ficamos até emocionados. Margareth tem razão: o velho é realmente um cara muito bacana. E sortudo, né? Afinal de contas a esposa dele é simplesmente a mulher mais linda que eu já vi.
— Então você é o famoso namorado? — disse ele para o Pezão.
— Famoso eu não sei, mas namorado ... — Pezão aparenta estar bem melhor. E já fala com menos dificuldade.
Margareth lhe deu um beijo estalado.
— Eu não disse que tudo não passava de um engano? — disse o velho para ela.
— Disse mesmo. O senhor é um anjo — agora ela beijou a bochecha do Sr. Porrah.
Caralho, todo mundo ganhando beijo e eu aqui chupando dedo? Ah, fala sério!
Ficamos para o jantar.
Sentados à mesa, Pezão começou a contar sua versão do que havia lhe acontecido.
— ... e foi então que este casal estava parado no acostamento, pedindo carona.
— Tem certeza que era um casal mesmo? — disse Margareth, encarando o namorado com olhos ameaçadores. — Aposto que era uma gostosa com uma saia minúscula!
— Nem era. A mulher nem era tão bonita assim e o cara parecia o Shrek.
Todos riram.
— Duvido, Maurício! Você não iria parar se a moça não fosse gostosa. Eu te conheço muito bem!
— Em que ponto da estrada eles pediram carona? — perguntou o velho, sério.
— Sei lá, só consigo me lembrar de umas árvores grandes e ...
— Qual era o nome da moça?
— Eu ia entrar justamente nesta parte. Ela tinha dois nomes!
— Dois nomes? — perguntou Margareth, rindo.
— Sim: Jezebel e Mirabel.
Todos ficaram mudos à mesa, olhando para o Pezão com olhos arregalados.
— Caralho, o que foi que eu disse?
— Você deu carona para a milha filha Jezebel — disse o velho, prestes a chorar.
— Sério? Ela é sua filha?
— Era.
— Como assim, era? Não é mais?
— Ela morreu há 15 anos, filho.
— Ah, vocês estão me zoando, né? — Pezão caiu na gargalhada.
O velho balançou a cabeça negativamente.
Só depois de um bom tempo Pezão parou de rir, ainda desconfiado de tudo aquilo.
— E o gordão Shrek? Também era um fantasma?
— Ele era marido de Jezebel. Suicidou-se alguns dias depois da morte da minha filha, no mesmo local do acidente.
Mais tarde, naquela mesma noite, Margareth recebera uma notícia desagradável: o hospício onde o pai dela supostamente estaria internado havia pegado fogo exatamente no mesmo ano em que a filha do velho morrera. Ninguém sobreviveu.
Pois é ... Sinistro!!!
Outra coisa: Pezão jura que não viu a tal da placa ORUOGA 1KM. E também jura que ao invés de um terreno baldio havia um hospício. Se havia, sumiu como um peido, pois eu não vi porra nenhuma de hospício. Só vi mato!
E agora chega de fantasmas e anões esquisitos!!!
Tudo o que eu quero é voltar pra casa, descansar e pegar uma baladinha. Estou precisando desesperadamente de uma namorada ... ou ficante, sei lá! Só sei que eu não aguento mais ficar sozinho!!! Eu quero beijar na boca!!!
( FIM )
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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