Capítulo 1 · Jibóia
Lar, doce lar.
Pobre só se fode mesmo, não é? Raramente pego uma praia, e quando decido pegar, olha o que acontece ... sou seqüestrado por dois psicopatas e meu amigo Mamute morre. Eu devo ter jogado muito cocô na cruz numa outra encarnação.
Azar por um lado, sorte pelo outro, pois foi um verdadeiro milagre termos escapado daquela dupla de malucos. Vocês não fazem idéia do tamanho da ficha criminal daqueles dois. Somando as atrocidades cometidas por ambos, o PCC parece até brincadeira de criança.
Falando em criança, pobre guri, irmão da Caroline. Antes do garoto morrer esfaqueado, sua madrasta havia assassinado seu pai e suas duas irmãs de sangue. E ao que tudo indica, a velhota também assassinou a própria filha, a minha querida Caroline.
Fala sério! A velhota teria sido a pior sogra de todos os tempos, hein!!!
Bom, mas chega de histórias tristes ... Vamos falar de coisas boas.
E tem?
Tem. Meus pais caíram direitinho na história da Faculdade ... hehehe. Pobrezinha da minha mãe, está toda empolgada com o vestibular que irei prestar.
E talvez eu até preste mesmo, mas é claro que não em Itu.
O Pezão, acreditem se quiser, bancou todo o funeral do Mamutão. E o gordo merecia mesmo um funeral decente, não é? Claro que sim. Se não fosse o telefonema dele, nenhum de nós estaria aqui neste momento. Seremos gratos ao Mamutão pelo resto de nossas vidas.
Diga-se de passagem, o funeral ficou mais caro do que o normal, afinal de contas o Mamutão não tinha um corpinho de bailarina, né? O caixão não custou barato.
Mas é claro que o Pezão não poderia deixar de dar uma sacaneadinha de leve. Mandou escrever na lápide a seguinte frase: Descanse em Paz, Bunda Gorda dos Infernos.
Trrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmm!!!
Já passou da hora de trocar este telefone, hein!!! Porra, os telefones de hoje fazem um barulho bem mais suave. Esta porcaria aqui ainda me mata do coração, caralho!!!
— Fala, Pezão — disse eu, meio deprê.
— Porra, que ânimo é este? Hoje é sexta-feira, cara!!!
— Pezão, você não faz nada da vida. Que diferença faz se hoje é sexta ou não?
— Sei lá, porra! Mas hoje é sexta-feira!!! Sexta-feira!!!
— Pezão.
— Fala.
— Enfia o dedão no cu e assopra.
Silêncio por alguns instantes. Será que ele está enfiando o dedão no cu e assoprando?
— Cara, eu acho que estou ficando velho — disse Pezão, de repente. Sua voz ficou bem mais desanimada. Parecida com a minha, pra ser honesto.
— Claro que está ficando velho, seu bosta! Não tem jeito de ficar novo.
— Eu sei disso, cuzão. Mas sei lá, aconteceu um negócio estranho hoje de manhã, quando eu fui mijar.
— Caraca, você mijou sangue?
— Vira esta boca pra lá, cara!!! Não foi isso não!!!
— Então o que foi, porra?
— Achei uns fios brancos nos meus pentelhos. Até no saco eu achei alguns.
Putz!!! Eu mereço???
— Eu não acredito que você me ligou às 11 horas da manhã pra me contar isso.
— E não liguei mesmo. Liguei por outro motivo.
— Se for outra babaquice como esta, eu juro pra você que pego o Opala e vou aí chutar o seu cu, porra!!!
— Fica frio, cara. Ô, você lembra do Jibóia?
— Se o Ji bóia eu não sei, mas a merda bóia.
E caí numa gargalhada gigantesca, tipo uma hiena francesa comemorando o chapéu do Zidane no Ronaldo.
— Cara, foi a piadinha mais ridícula que eu já ouvi em toda a minha vida — disse o Pezão, claramente irritado.
— Pior que a história dos pentelhos brancos eu juro que não foi.
— Meu, você lembra do Jibóia ou não?
— O seu primo comedor de menininhas inocentes?
— Lembrou, né?
— Claro que sim. Na nossa infância você era o fã número 1 do cara. Era Jibóia pra cá, Jibóia pra lá. O meu primo Jibóia fez isso, fez aquilo, comeu aquela, comeu não sei quem, chupou a fulaninha, lambeu a siclaninha ...
— O cara é foda.
— Eu quero que ele se foda.
— Ele está vindo me visitar. Deve chegar daqui a pouco lá na rodoviária.
— E eu com isso?
— Porra, cara!!! Hoje é sexta-feira!!! Faz tempo que a gente não sai pra gandaiar. E hoje teremos um convidado ilustre, o Jibóia!!! O Jibóia vem aí, cara!!!
— Ah, sei lá, não estou muito animado pra gandaiar hoje não.
— Pois trate de se animar, seu bosta!!! Passaremos aí na sua casa mais tarde.
E o filho da puta desligou o telefone. Maldito Pezão dos infernos.
Meu, eu odeio este tal de Jibóia. O cara se acha!!! Ele mora (ou morava, sei lá!) em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Ele costumava passar as férias na mansão do Pezão. O filho da puta é mais velho, então ele sacaneava muito com a gente. E é claro, por ser maior, ele também levava vantagem quando brigávamos.
Resumindo, eu tenho péssimas lembranças desse filho da puta. Por mim, poderia estar morto e enterrado. Eu não sentiria a menor falta.
Em compensação, Pezão o idolatrava. Nem sei explicar por quê, pois o filho da puta do Jibóia também não dava moleza pro Pezão. Teve uma vez em que estávamos jogando vídeo-game e o Pezão estava dando uma verdadeira surra no Jibóia. Surra no jogo, claro, pois fisicamente isso seria impossível. Jibóia ficou tão puto, mas tão puto, que levantou-se, abaixou a bermuda e mijou em cima do vídeo-game do Pezão.
Depois de uma certa idade, Jibóia deixou de passar suas férias pra cá. Ainda bem!!! Ou eu juro que teria assassinado o filho da mãe.
Bom, Jibóia deve ser uns seis ou sete anos mais velho do que eu. Se estou com vinte anos ... use um pouquinho das aulas de matemática e faça as contas.
Mas a questão principal é: que diabos este cuzão vem fazer aqui? Será que é apenas uma visita? Ou será que o cabação vem pra ficar?
Putz!!! Se for a segunda opção, eu juro que me mudo daqui. Ninguém merece o Pezão e o Jibóia juntos. Um filho da puta já é difícil de suportar, imagine dois!!!
Quer saber? Eu estou precisando dar uma volta. Opalão, aqui vou eu.
Levantei-me, tomei um banho, comi dois pães com maionese e ... Percebi que minha mãe estava louca pra me dizer alguma coisa.
— Eu conheço a senhora, mãe — falei, enquanto lavava a xícara na pia. — Desembucha.
E dei um sorriso maroto pra ela.
— Você sabe que não somos ricos, filho — disse ela, meio sem jeito.
— Era isso que a senhora queria me dizer? Poxa, eu sei disso faz tempo.
— Não se faça de bobo, Fernando. Você entendeu o que eu quis dizer.
Xiiiiiiiiiiiiiiiii! Fernando? Lá vem bomba.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, assustado. — O pai perdeu o emprego?
— Credo! Vira esta boca pra lá! — e minha mãe bateu três vezes na mesa.
Curioso. Já é a segunda vez que ouço esta frase hoje.
— O que foi então?
Minha mãe ficou em silêncio por alguns instantes, depois disse:
— Você sabe que pra pagar a sua faculdade, você vai ter que vender o carro.
Putz!!! Saber eu até sabia, mas precisava me lembrar disso agora, mãe? Sacanagem, hein!!!
— É, eu sei — lógico que respondi quase chorando. E minha mãe percebeu minha dor, é claro. Mãe é mãe, você sabe.
— E mesmo vendendo o carro, você terá que arranjar um emprego também.
Putz!!! Se eu já estava deprimido, imagine agora. Resolveram me dar todas as notícias ruins num dia só??? Assim não vale, porra!!! Só falta eu passar pela sala e meu pai me contar que tenho câncer no pênis.
Capítulo 2 · O Cortiço
Minha mãe ficou em silêncio por alguns instantes, depois disse:
— Você sabe que pra pagar a sua faculdade, você vai ter que vender o carro.
Putz!!! Saber eu até sabia, mas precisava me lembrar disso agora, mãe? Sacanagem, hein!!!
— É, eu sei — lógico que respondi quase chorando. E minha mãe percebeu minha dor, é claro. Mãe é mãe, você sabe.
— E mesmo vendendo o carro, você terá que arranjar um emprego também.
Putz!!! Se eu já estava deprimido, imagine agora. Resolveram me dar todas as notícias ruins num dia só??? Assim não vale, porra!!! Só falta eu passar pela sala e meu pai me contar que tenho câncer no pênis.
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Ao passar pela sala, ninguém me contou que eu tenho câncer no pênis, mas tropecei num maldito carrinho de controle-remoto dos meus irmãos caçulas. Foi um tombo daqueles! É claro que soltei todos os palavrões possíveis e imagináveis.
— Lava esta boca, Fernando!!! — esbravejou minha mãe.
Juro pra vocês, se eu estivesse sozinho em casa com os meus irmãos, teria enfiado aquele maldito carrinho no cu de um deles.
Depois do tombo, confesso que fiquei com um pouco de medo de sair com o Opala. Meu, hoje parece ser mais um daqueles dias onde tudo dá errado. O meu carro é a única coisa de valor que eu tenho.
Ah, quer saber? Foda-se! Se toda vez que acontecer algo de ruim comigo, eu ficar apavorado, nunca mais vou sair de casa.
Tirei o Opala da garagem e saí para dar uma volta.
Bastou eu ligar o som, tive mais um sinal de que o dia vai ser daqueles. Olha só o que estava tocando no rádio ... "Vai, Lacraia! Vai, Lacraia!"
Puuuuuuuuuuuuuuuta merda!!! Ninguém merece. Fui obrigado a encostar o carro e procurar algum CD. Ou prosseguir em silêncio mesmo. Se até as rádios estão contra mim, prefiro ouvir o ronco do motor do Opalão.
Calma, Nando, não seja tão melodramático. No porta-luvas tem um CD do Alice In Chains. Não é bem o tipo de banda que eu gostaria de ouvir num dia ensolarado como este, mas ... é bem melhor que Vai, Lacraia!!!
Engatei a primeira e saí queimando os pneus. Por muito pouco não estraçalho um cão vira-latas. Sai da frente, porra!!!
Bem que eu poderia encontrar uma donzela para dar uma carona. Uma morenona peituda, de coxas grossas e lábios carnudos. Conversa vai, conversa vem, ela desistiria de ir para casa e me pediria para levá-la para o motel mais próximo. Putz!!! Calma, Nando Júnior!!! Isso não vai acontecer, cara!!! Principalmente hoje. Do jeito que está o dia, é mais fácil um assaltante de banco me parar e levar meu querido Opala.
Bom, nem a morenona peituda, nem o assaltante de banco. Aconteceu outra coisa.
Eu estava virando a esquina do cemitério, quando vi uma cena curiosa: dois garotinhos chutando um mendigo na calçada. Os moleques não tinham mais do que nove anos cada um, mas eu tentei me imaginar no lugar do mendigo e não achei nada gostoso. Resolvi encostar o carro e acabar com aquela brincadeira idiota. Porra, coitado do mendigo!
— Deixem o cara em paz! — gritei, descendo do carro.
Um dos pestinhas teve a moral de mostrar aquele famoso dedo para mim. Meu, fiquei tão puto que saí correndo atrás dos fedelhos. Eles recolheram uma bola de futebol que estava jogada ao lado do mendigo e saíram em disparada.
Aproximei-me do mendigo para ver se ele estava bem. E foi aí que tomei um puta susto. Meu, vocês não vão acreditar em mim. Não era um mendigo, era o Pigmeu!
— Anões, matem os anões!!! — gritou Pigmeu, com um olhar assustado.
— Calma, eles já foram embora.
Estendi minha mão para ajudá-lo a se levantar. Meu, não é à toa que eu o confundi com um mendigo; Pigmeu está um bagaço só, suas roupas estão todas rasgadas e creio que ele não toma banho há uns dois meses, no mínimo.
— Odeio anões — disse ele outra vez.
Se o Pigmeu não fosse um chegado meu, juro que eu sairia correndo pra bem longe. Seu cheiro está insuportável!!! Deve estar todo cagado e mijado.
— Não eram anões — disse eu. — Eram apenas dois garotinhos filhos da puta.
— Da próxima vez eu mato aqueles malditos anões!!!
— Você fez alguma coisa para eles? Os moleques pareciam estar com muita raiva de você, cara.
— Malditos anões ingratos!!! Eles vinham passando e vi algumas joaninhas iradas. Aí eu ...
Putz!!!
— Já entendi — falei. — Aí você chegou por trás deles e .. PA!!!
Pigmeu ficou me olhando com aqueles olhos vermelhos.
— Pa? — disse ele, curioso. — Que Pa? Não teve Pa nenhum. Eu dei um golpe samurai nos anões e eliminei umas dez joaninhas iradas de uma vez só.
Por um segundo eu até esqueci o cheiro terrível que vinha do maluco e comecei a rir feito uma hiena no show do U2.
— Eu já falei que odeio anões?
— Já, Pigmeu, umas vinte vezes.
— Anões são ingratos. Malditos anões ingratos.
Meu, ninguém merece.
Caralho, acho que o Pigmeu finalmente se deu conta de que está fedendo. Ele começou a tapar o nariz e fazer umas caretas estranhas.
— Você está com gases, camaradinha — disse Pigmeu, bem sério.
— Vai se foder, Pigmeu!!! Você é que está fedendo, cara!!!
— Se não foi você, então foram aqueles malditos anões!!! Anões sofrem de gazes, eu vi naquele filme O Senhor dos Anais.
Putz!!! Senhor dos Anais foi foda. Será que é uma versão pornô? Preciso alugar.
Acho melhor eu dar o fora daqui, o cheiro do Pigmeu está começando a me dar náuseas.
— Foi um prazer te ver, cara — disse eu. Falso!!!!!
E Pigmeu ficou me encarando, como se tivesse visto um fantasma.
— O que foi, cara? — perguntei.
— Você parece um camaradinha amigo meu.
— Pigmeu, seu porra!!! Esse seu amigo sou eu, o Nando!!!
— Não, você não é o Nando.
— Claro que sou eu, caralho!!!
— O Nando é bem mais alto que você, camaradinha. Ele tem quase o dobro da sua altura.
Putz!!! Eu mereço? Bom, mas pelo menos ele me deu uma boa desculpa para ir embora sem remorsos.
— Você tem razão — concordei. — O Nando é bem mais alto e mais bonito.
— Não. Vocês dois são bem feios.
Se ele não fosse maluco eu juro que teria batido nele. Mas deixa pra lá, os moleques já bateram bastante nele hoje.
Fiz um sinal de positivo para o maluco e me mandei dali. Pigmeu ficou me olhando com aquele olhar de criança curiosa. Dei tchau e ele não me respondeu; continuou me olhando. Entrei no carro e a cena continuou a mesma, Pigmeu não tirava os olhos de cima de mim.
Não consegui ligar o carro. Não tive coragem. Senti muita pena do Pigmeu. O coitado estava ali no meio da calçada, totalmente perdido, sem noção alguma da realidade, roupas sujas e cheirando como um gambá. Coitado do maluco. Seria muita sacanagem da minha parte deixá-lo ali sozinho.
Resolvi ajudá-lo. Sei que vou acabar me arrependendo, mas foda-se.
Saí do carro e gritei para ele:
— Quer uma carona?
Depois de alguns segundos de atraso ele respondeu:
— Quero.
E o maluco continuou parado na calçada. Não moveu um músculo.
— Então entra no carro, porra! — perdi a paciência.
— Você não perguntou se eu queria entrar no carro. Perguntou se eu queria carona.
Eu mereço ... eu mereço!!! Parei o carro mais próximo dele.
— Entra logo, Pigmeu!!!
— No seu carro? Não. Aí eu não entro.
— Comeu cocô, Pigmeu? Você não disse que queria a carona?
— Sim, mas neste carro eu não entro. De jeito nenhum. Não entro.
— Por quê?
— Por que foi num carro como este que levaram o meu tio Jacinto para o cemitério.
— E daí, porra?
— E daí que depois daquele dia eu nunca mais vi o meu tio Jacinto. Acho que enterraram ele.
Meu, eu vou descer do carro e chutar o cu do Pigmeu. Vocês são testemunhas, eu queria ajudar o maluco, mas ele não está colaborando!!!
— Fica frio, eu também morro de medo de cemitérios — minha última tentativa.
Detalhe: nós já estamos na rua do cemitério. Mas é claro que ele nem suspeita disso. Acho que ele nem suspeita de que estamos no planeta Terra, né?
— Sério? — disse ele, animado.
— Sério. Agora entra no carro.
Aleluia!!!!!!! O maluco finalmente entrou no Opala. E foi exatamente neste momento em que me arrependi amargamente em lhe oferecer ajuda. Meu carro foi tomado por aquele cheiro terrível de ce-cê com urina de gambá. Nossa!!! Pior do que este cheiro, só aquele que o irmão do Pezão inventou. E mesmo assim, é pau a pau.
Saí fincando.
— Você ainda mora no mesmo lugar? — perguntei, sem muita expectativa de ouvir uma resposta sensata.
Pigmeu nem prestou atenção na minha pergunta, ele estava muito agitado. Olhava para todos os cantos do meu carro, meio assustado. Deve estar vendo joaninhas iradas por todos os lados.
— O que foi? — perguntei. — Perdeu alguma coisa?
— Estou vendo se você não escondeu o meu tio Jacinto.
Eu não sabia se ria ou se chorava.
— Por acaso o sobrenome do seu tio era Pinto Norrêgu?
— Sim! Não. Não sei, camaradinha.
Ah, deixa pra lá. Malucos não têm senso de humor. Ele nem percebeu a piada.
Chega de papo. Vou levá-lo até a rua onde ele morava e dane-se, ele que se vire por lá.
De repente, do nada, Pigmeu solta uma dessa:
— Sua mãe está bem?
— Como é que é? Minha mãe?
— Sim, camaradinha, ela está bem?
— E por acaso você conhece a minha mãe?
— Claro, Nando!
Porra, o maluco finalmente lembrou de mim? Eu, hein!!!
— Você estava zoando comigo, Pigmeu? — falei, puto da vida.
— Eu? Claro que não! Eu juro que vi um homem estrupando sua mãe, cara! Eu vi, camaradinha!
Putz!!! Não acredito nisso. Minutos atrás o cara nem sabia quem eu era; agora conseguiu se lembrar disso? Ah, fala sério!!! É por isso que eu não uso drogas.
— Aquela não era a minha mãe, Pigmeu!!! Era uma ex-namorada minha.
— Sua namorada foi estrupada na sua frente e você não fez nada?
— Não tinha estuprador algum, porra!!! Era eu que estava transando com ela sobre o capô do carro.
— Você estrupou sua própria mãe, camaradinha???
— Não era a minha mãe, porra!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Meu, se a casa do Pigmeu não chegar logo, vou enfiar o CD do Alice In Chains no cu do maluco e empurrá-lo para fora do carro!!! Ah, fala sério!!! Ninguém merece!!!
Pisei fundo, como poucas vezes havia feito com o Opalão. Acho que avancei uns dois sinais vermelhos, mas foda-se. Eu estava tão nervoso e com tanta pressa que nem me dei conta.
Mas finalmente chegamos.
Putz!!! Assim que encostei o carro, lembrei daquela noite em que passei com a Caroline na casa do Pigmeu. Lembram? Foi nossa última noite juntos.
— Você ainda mora ali naquela casa? — perguntei, apontando para o local.
— Está falando comigo?
— Não, porra, com o seu tio Jacinto!!! É claro que é com você, Pigmeu!!!
— Não fique nervoso, camaradinha. Um dia a gente pega o estrupador da sua mãe e dá uma surra nele.
— Pigmeu, some do meu carro agora — falei, controlando-me para não voar no pescoço dele. — Antes que eu faça uma besteira.
— E a minha carona, camaradinha?
— Hã? Já dei a carona, porra!!!
— Deu nada! A minha mina não mora aqui.
— Mina? Que mina?
— Eu tô morando com a minha mina.
Putz!!! Pra suportar o Pigmeu, a garota tem que fumar ou cheirar um bagulho dos fortes, hein!!! Bom, foda-se, tudo o que eu quero é me livrar deste maluco o mais rápido possível.
— E onde ela mora? — perguntei.
— Ela quem?
— A sua mina, Pigmeu!!!
— A Gercylene?
— E eu é que sei?
— A Gercylene mora num cortiço aqui perto. Mas eu prefiro a Filó.
— Filó? Que Filó?
— A Filomena.
Meu, sou apenas eu ou vocês também estão ficando confusos?
— Pigmeu, o nome da sua mina é Gercylene ou Filomena?
— Não, camaradinha, uma é uma, a outra é outra. Gercylene é a minha noiva. A Filomena é só sexo.
Putz!!! O cara não consegue nem se lembrar do planeta onde vive, mas consegue dar conta de duas mulheres? Essa é boa. Tem alguém botando viagra na maconha do Pigmeu.
— Pigmeu, qual delas mora mais perto?
— A Gercy. Não, é a Filó. Espera, acho que é a Gercy mesmo.
— Pára de palhaçada, Pigmeu! Escolhe uma, porra!
Por incrível que pareça, Pigmeu conseguiu me guiar até o cortiço da sua noiva Gercylene. Foram mais dez minutos de sofrimento. Vocês não fazem idéia do mau-cheiro que está o Pigmeu.
Senti calafrios ao entrar naquele cortiço. O lugar era barra-pesada. Cada figura esquisita! E cachorros, muitos cachorros! Nunca vi tanto cachorro na minha vida.
No meio do caminho senti uma vontade enorme de voltar correndo pro carro e sumir dali, mas a minha curiosidade em conhecer a noiva do Pigmeu foi maior.
— É aqui — disse Pigmeu, parando diante de uma porta amarela, com o número 69 pintado em vermelho.
— Meia nove! — Falei, rindo. — Belo número. Mas combina mais com a outra. Aquela que você disse que é só ...
Pigmeu ficou me encarando com aquele olhar curioso.
— Não se mexa — disse Pigmeu, super sério.
Puta merda! Meu corpo todo congelou. Aposto que é algum ladrão vindo por trás para levar a minha car ...
E Pigmeu me deu um daqueles famosos tapas na minha testa. Depois me mostrou três dedos.
— Já sei — disse eu, puto. — Três joaninhas iradas na minha testa.
— Não. Só duas. A outra eu não sei o que era. Mas era irada também!
E a porta amarela finalmente abriu-se. Apareceu uma moça baixinha com avental na cintura. Não era nem feia nem bonita. Pela aparência atual, eu daria uns trinta e poucos anos. Mas creio que ela tenha bem menos. Este lugar aqui deve envelhecer as pessoas mais rapidamente.
— Resolveu aparecer, foi? — disse ela, super irritada.
— Calma, camaradinha — disse Pigmeu, aproximando-se da moça.
— Camaradinha é a puta que te pariu!!!
Caramba!!! A moça falou com tanto gosto que até cuspiu em mim.
— Calma, Gercylene!!!
Meu, quando Pigmeu disse Gercylene, a moça ficou vermelha de raiva. Deu pra ver as veias saltando em sua testa.
— Do que é que você me chamou? — disse ela, colocando as mãos na cintura.
Xiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!! Acho que o Pigmeu fez confusão. Esta aqui deve ser a tal da Filó, aquela que é só ...
— Quem é Gercylene? — perguntou a moça, batendo no Pigmeu com tapas e chutes.
— Calma, Dona Filomena! — disse eu.
Putz!!! Pra que eu fui abrir minha boca? A mulher arregalou os olhos pra mim e me deu um safanão na orelha. Estou ouvindo sinos até agora.
— Calma o seu cu!!! — disse ela para mim. — E que história é esta de Filomena? Meu nome é Marycleide!!! E quem é você?
— Eu sou alguém que não devia ter saído de casa hoje — respondi, afastando-me de fininho.
E depois saí correndo daquele maldito lugar.
Fui perseguido por uns três cachorros pulguentos, e um deles até conseguiu morder meu tornozelo, mas eu continuei correndo.
De repente, quando eu estava prestes a deixar o cortiço, olhei para a minha direita e vi uma moça muito bonita atravessar um corredor e entrar por uma porta azul.
Não sei se foi só impressão minha, mas a moça era parecidíssima com a minha querida e finada Caroline.
Capítulo 3 · Socorro, Nando!
De repente, quando eu estava prestes a deixar o cortiço, olhei para a minha direita e vi uma moça muito bonita atravessar um corredor e entrar por uma porta azul.
Não sei se foi só impressão minha, mas a moça era parecidíssima com a minha querida e finada Caroline.
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Será que é ela?
Não. Não pode ser. Caroline está morta. Encare os fatos e siga em frente, porra!
De repente um cara com mais de dois metros de altura pára bem na minha frente, impedindo minha passagem.
— Está procurando alguém, colega? — disse o gigante.
Inconscientemente, olhei mais uma vez na direção da porta azul, por onde entrara a guria parecida com a Caroline. Depois olhei para o gigante e respondi calmamente:
— Não. Já estou de saída.
O cara me olhou desconfiado. Aquilo começou a me preocupar. O gigante tem um jeitão de líder do Carandiru.
— Você veio atrás do Pipoca? — insistiu ele, olhando feio para mim.
— Pipoca? Não, não ... Nem sei quem é este tal de pipoca, eu só vim trazer um amigo meu e ...
— Aquele ali é o seu amigo? — disse ele, apontando para o Pigmeu, que vinha em nossa direção.
— Sim, é ele.
— Aquele é o irmão do Pipoca — e o grandão arregalou os olhos para mim, como se me acusasse de matar a própria mãe. — Anda, filho da puta, corta o papo furado e me diz o que vocês vieram fazer aqui.
Agora lascou. Estou sentindo que a coisa vai ficar feia. E que papo é este do Pigmeu ser irmão do Pipoca? Eu nem sabia que o Pigmeu tinha irmão.
Olha, o que eu fiz a seguir, nem eu acredito. Mas fiz. Parece coisa que a gente vê em desenho animado do Pernalonga. Mas o pior é que funcionou.
— Caralho, que loira gostosa! — falei, apontando para um corredor à esquerda do grandão. O vacilão olhou, para a minha sorte.
Eu dei no pé. Passei por ele feito uma bala. Nunca corri tanto. Meu coração veio parar na minha garganta. Olhei para trás e notei que o grandão não viera atrás de mim. Achei muito estranho. Pensei que ele fosse me perseguir até o fim dos tempos. Putz, acho que ando assistindo muito filme de ação.
Entrei no Opala, engatei a primeira e saí fincando. Quando passei em frente ao cortiço eu descobri por que o grandão não viera atrás de mim. Ele escolhera uma vítima mais fácil: Pigmeu.
Confesso que eu pensei em passar reto e ignorar aquela cena terrível, mas não consegui. Não sei se foi instinto ou sei lá o quê, só sei que encostei o Opala e corri para dentro do cortiço. Pensei em gritar e pedir ajuda. Mas não havia mais ninguém por perto. E tem mais, quem me garante que a ajuda ficaria do meu lado?
Tive que agir por conta própria.
O grandão estava chutando o coitado do Pigmeu. Os chutes eram tão violentos que até eu sentia uma pontinha de dor a cada golpe.
Entrei no cortiço feito um gato, na pontinha dos pés. O grandão estava de costas para mim. Aquela cena me fez lembrar de vários filmes, quando o mocinho franzino chega e desfere um golpe num bandido bem maior que ele; geralmente o bandido sente apenas uma cócega, ri e ... vocês sabem, o mocinho leva um soco ou recebe uma cadeirada nas costas.
Bom, mas isso aqui não é cinema. Vamos ver no que dá.
Aproximei-me do grandão e dei-lhe um puta chute no meio das pernas. Tive que chutar bem alto, pois o grandão tinha pernas muito compridas.
Se ele sentiu cócegas eu não sei, mas que sentiu uma puta dor ... sentiu. O gigante desabou no chão do cortiço, gemendo e gritando todos os palavrões possíveis e imagináveis.
Notei alguns olhares nos observando pelas janelas; eram olhares de felicidade. Parece que o grandão não é muito bem visto pelos moradores do cortiço.
— Você tá ferrado comigo — disse o grandão.
Puxei Pigmeu pelos braços e o ajudei a se levantar. O coitado estava todo machucado e estava mais grogue do que de costume.
De repente tive outra alucinação ... Vi Caroline outra vez. Ela me observava por uma janela. O susto foi tão grande que quase derrubei Pigmeu.
— Cuidado! — gritou uma voz à minha direita.
O grito foi pra me avisar que o grandão estava tentando se levantar.
Segurei Pigmeu o mais firme que consegui e o arrastei para fora do cortiço. Ajeitei o coitado no banco de trás do Opala e saí em disparada, rumo ao pronto-socorro.
Pobre Pigmeu, está sempre levando uma surra de alguém. Mas desta vez o bagulho foi sério; acho que se eu não impedisse o gigante ... tchau Pigmeu e suas joaninhas iradas.
Olha, vou contar para vocês, se eu soubesse do interrogatório pelo qual eu iria passar no pronto-socorro, não teria ajudado o Pigmeu.
Tive que passar por uma verdadeira sabatina para internar o maluco. As enfermeiras queriam saber por que ele cheirava tão mal e como era possível ele ainda estar vivo, mesmo tendo o sangue tão cheio de ... impurezas.
Quase fomos parar na polícia. Dá para acreditar? Hoje não é o meu dia mesmo.
Quando cheguei em casa o almoço já estava frio, é claro. Desgraça pouca é bobagem.
— Credo, Nando, que cheiro horrível é aquele no seu carro? — disse minha mãe, fazendo uma careta bem engraçada.
— Dei carona para um amigo — respondi, enquanto acendia o fogão para esquentar o meu almoço.
— Amigo ou um gambá? Que horror! Se aquele cheiro não sair do carro, você jamais conseguirá vendê-lo.
De repente senti um estalo. Ótima idéia! Se o cheiro não sair, não vendo o carro. Se eu não vendo o carro, ele fica comigo para sempre e ...
Putz!!! Fui longe demais, hein! Acorda, Nando! Se aquele cheiro não sair, nem você vai conseguir dirigir o Opala e, é claro, jamais vai conseguir que uma garota entre nele. Nem com macumba!
— E que marcas de sangue são aquelas nos vidros? — prosseguiu minha mãe.
— É uma longa história.
E enquanto eu não a contei, minha mãe não me deu sossego. É claro que eu omiti algumas partes, mas deu pra ela ter uma vaga idéia do que aconteceu.
Depois do almoço eu voltei para o meu quarto e ...
TRIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!
O maldito telefone começou a berrar feito uma criança com fome. Será que é do pronto-socorro? Será que o Pigmeu partiu desta para a melhor?
— Alô!
— Me ajuda, cara!!! — é o Pezão.
— O que aconteceu?
— Pega o carro e dá um pulo aqui em casa, agora!!! Ou vou acabar fazendo uma besteira.
— Caralho, Pezão, conta logo o que aconteceu!
— Ah, é o meu primo — Pezão falou baixinho.
— O que foi desta vez? Ele resolveu mijar na sua TV de plasma?
— Muito pior.
— Pezão, estou cagando e andando. Dá seus pulos, cara!
E desliguei o telefone na cara do filho da mãe.
Mas é lógico que o telefone berrou outra vez. E mais uma vez ... e outras e outras vezes. Até que ele passou a ligar para o meu celular.
Não teve jeito. Tive que atender.
— O que foi, porra???
— Vem aqui me socorrer, cara, por favor!!!
— Pezão, você sabe muito bem que eu odeio o babaca do seu primo.
— Mas ele mudou, Nando. Mudou até demais.
— Como assim? Virou gay?
— Não sei se chega a tanto, mas ...
— Desembucha, porra!!!
— O cara virou um moscão dos infernos!!!!!!!!!!!!
— Moscão? Como assim?
— Ele era meu ídolo na infância, você lembra. Mas o filho da mãe cresceu e virou um bunda mole.
— Quer dizer que o Jibóia virou uma Minhoquinha?
Pezão caiu na gargalhada. Depois disse baixinho:
— Bem por aí, cara. Anda logo, porra, vem pra cá. Se eu ficar mais dois segundos sozinho com ele, serei obrigado a me jogar da janela do meu quarto.
— Sério? Gostei da idéia, hein!
— Vai tomar no seu cu, Nando!
— Já falei uma vez e vou repetir: dá seus pulos!!!
— Seu cuzão, você não tem nada pra fazer mesmo! Vem pra cá, porra!
— Não. Vou lavar o Opala. O bichão está com um puta cheiro de gambá e ...
— Comeu uma pé-vermeio, né? E nem me contou, caralho?
— Não comi pé-vermeio porra nenhuma!
— Traz o Opala aqui em casa! A gente dá um trato nele.
— Bom, até que não é uma má idéia. Sozinho vai dar muito trampo e ...
— Vem logo, porra!!!
E lá fui eu para a casa do Pezão.
Meu, quando eu entrei no Opala, o cheiro estava tão forte, mas tão forte, que eu quase fui jogado para fora. Putz!!! Aposto que tem um monte de urubu sobrevoando a garagem da minha casa.
Dirigi o mais rápido que pude, antes que eu morresse asfixiado. Mesmo com os vidros totalmente abaixados, o cheiro ainda era insuportável.
Maldito Pigmeu dos infernos; vai ficar me devendo mais uma. Nunca mais dou carona para aquele maconheiro desgraçado.
Pezão me aguardava em frente ao portão. Este já estava escancarado. Pezão fez sinal para eu entrar com o Opala dentro do quintal.
— Pára ele ali sobre a grama — disse ele, apontando com as mãos.
Fiquei impressionado. Já estava tudo preparado: mangueira, baldes com sabão, esponjas, panos e o escambau. Será que o Pezão bateu a cabeça? Será que ele está freqüentando a seita do Babalu Cósmico outra vez?
Só não vi o tal do primo moscão. Será que o Pezão jogou o cara pela janela?
— Cadê o Jibóia? — perguntei, enquanto descia do carro. Foi um alívio deixar aquele maldito cheiro para trás.
— Está tomando uma penca de remédios lá na cozinha — disse Pezão, fazendo uma puta cara de desânimo. — O filho da mãe é alérgico a tudo. Nunca vi coisa igual.
Ficamos em silêncio por alguns intantes. De repente algo me veio à cabeça, e botei para fora:
— Será que existe alguém que seja alérgico à xoxota?
— Caralho, já imaginou?
Pezão caiu na gargalhada, parecia uma hiena americana jogando basquete.
— Ainda bem que você veio, porra — disse ele, enchendo um balde com água da mangueira. — Talvez o Jibóia se anime um pouco e ...
Ouvimos passos na grama. Era ele: Jibóia. Meu, o Pezão tinha razão; o cara está bem diferente. Quando moleque ele tinha um cabelo que era só gel, vestia roupas descoladas e tinha um jeitão malandro de andar. O Jibóia de hoje parece mais um jogador de xadrez, todo engomadinho e mauricinho. O óculos com lentes fundo-de-garrafa deixa seus olhos enormes e muito engraçados. Aquele ali é o mesmo cara que infernizou boa parte da minha infância?
— Nando, é você? — disse ele, abrindo um sorriso meio amarelo.
— Quanto tempo, cara — falei, sem sorrir. Fiz cara de bunda mesmo.
Jibóia continuou vindo na minha direção. Se o que ele quer é um abraço, sinto muito, mas não vai conseguir nem a pau. Chuto o saco dele, se for necessário.
Eu estava sentado no capô do Opala quando ele veio e parou do meu lado.
— É seu? — disse ele, abrindo a porta do carro.
— Yes — respondi.
Jibóia sentou-se no banco do motorista e começou a brincar com o volante. Parecia uma criança que nunca viu um carro antes. Através do vidro eu vi Jibóia ficar cada vez mais amarelo.
— Que cheiro horrível é este? — disse ele.
— Meu, acho melhor você descer logo do carro e ...
Tarde demais. Jibóia vomitou tudo o que podia e o que não podia no painel do meu Opala. Na hora eu fiquei tão horrorizado que meus músculos congelaram.
Pezão não conseguia parar de rir.
— Fica frio, Nando — disse ele, quase sem fôlego de tanto rir. — Você trouxe o carro pra gente limpar mesmo, não foi?
Puta que pariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu!!! Hoje eu mato alguém.
Capítulo 4 · Um Segredo
— Meu, acho melhor você descer logo do carro e ...
Tarde demais. Jibóia vomitou tudo o que podia e o que não podia no painel do meu Opala. Na hora eu fiquei tão horrorizado que meus músculos congelaram.
Pezão não conseguia parar de rir.
— Fica frio, Nando — disse ele, quase sem fôlego de tanto rir. — Você trouxe o carro pra gente limpar mesmo, não foi?
Puta que pariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu!!! Hoje eu mato alguém.
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E eu estava decidido a matar mesmo. Nunca senti tanta raiva de alguém, como senti naquele exato momento. Voei no pescoço do Jibóia e ...
— O que está acontecendo aqui? — gritou uma voz atrás de mim.
— Tá viva ainda, mulher? — disse Pezão, em tom irônico.
Pela voz eu já tinha desconfiado. É ela, a Maura, irmã do Pezão.
Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!!! Será que ela só voltou pra casa hoje? O esquema lá em Belo Horizonte foi bom, hein!!!
— Maura, é .. é .. é você? — perguntou Jibóia, tentando disfarçar as manchas de vômito em sua roupa.
Maura fez uma puta cara de nojo e respondeu:
— Sim. Mas você me conhece de onde?
— Sou eu, o Athirson!
Maura deixou suas duas bolsas no gramado e ficou encarando o Senhor Vômito.
— Athirson? Não conheço nenhum ...
— Sou o seu primo Jibóia!
— Não acredito! Filho da tia Palmirinha?
— Não. Tia Palmirinha morreu solteira e sem filho algum.
— Tia Palmirinha morreu?
— Morreu — disse Pezão. — É uma longa história. Não é, Nando?
— Com certeza — disse eu, balançando a cabeça positivamente.
— Puta merda, como é bom estar em casa outra vez — disse a Maura, pegando as bolsas outra vez.
Meu, a filha da puta está gostosa demais, além disso pintou o cabelo de preto e mudou totalmente o penteado. Ela veste um tomara-que-caia abóbora e uma saia azul curtíssima. Aposto como ela andou malhando. Ela não tinha este corpinho!
Quando ela passou por nós, Jibóia e eu ficamos embasbacados com tanta sensualidade. Ficamos olhando aquele bumbum empinadinho rebolar pra lá e pra cá.
Resolvi aloprar o filho da puta do Pezão. Gritei pra Maura:
— E o travecão? Continua apaixonado pelo Pezão?
Ela parou, virou-se para nós e disse:
— Não fala assim, Nando. O nome dela é Meiry — e olhou para o Pezão. — Não sei que diabos ela viu em você, mano. A coitadinha chorou por dias e mais dias.
Pezão ficou vermelho de raiva. Ou de vergonha. Sei lá.
— Coitadinha o caralho!!! Um puta travecão daqueles!!!
Caí na gargalhada, tipo uma hiena com coceira no sovaco.
— Vai se foder, Nando!!! — e Pezão mostrou aquele famoso dedo pra mim.
Reparei uma coisa: Jibóia não tirava os olhos de cima da Maura nem por um segundo. Meu, tudo bem que ela está super hiper mega gostosa com aquela saia curtinha. Mas ...
Passei as mãos na frente dos olhos do cuzão. Ele nem piscou. Jibóia continuava olhando para a porta da cozinha, por onde a Maura já havia entrado há séculos.
— Cuidado pra não gozar na cueca, Athirrrrrrrrrrson — falei no ouvido dele.
Jibóia deu uma longa suspirada. Xiiiiiiiiiiiiiiiiiii, Marquinho. Já vi tudo.
— Pezão, o Jibóia gamou na tua irmã.
— Ela é tua prima, seu mané! — disse Pezão, encarando Jibóia com cara feia.
De repente Jibóia ficou com uma cara triste pra caralho. Sentou-se na grama, enfiou a cabeça entre as pernas e chorou feito um garotinho após um tombo de bicicleta.
Eu fiquei com pena do Jibóia, já o Pezão estava louco pra rir. Mas segurou.
— Se você disser que está chorando por causa da minha irmã — disse o Pezão. — , eu vou chutar o seu saco com tanta força que ...
— Pega leva, cara — falei para o Pezão.
Jibóia levantou a cabeça, limpou as lágrimas do rosto e disse com uma voz melancólica:
— Desde pequeno que eu sou apaixonado por ela.
Putz!!!!!!
— Ela quem, a Maura? — disse o lerdo do Pezão.
— Não, seu imbecil! — disse eu. — A Xuxa!
Pezão mostrou o dedo pra mim. E olhou para o primo.
— Mas ela é tua prima, porra!!!
Jibóia abaixou a cabeça outra vez. Senti pena do coitado. O cara está todo sujo de vômito, fedido, chorando, ama alguém que nunca deu a mínima pra ele e ... é bem provável que nunca venha a dar. Apesar de nunca ter gostado do cara, fiquei com pena do Jibóia.
— Tem tanta mulher por aí, caralho! — falei pra ele, tentando animá-lo.
— Xoxota é o que mais tem neste mundo, brother — disse Pezão, sentando-se perto do Jibóia.
— E tem mais, a Maura não é muito chegada em ... homem.
Jibóia ficou pasmo. Levantou a cabeça rapidinho. Pezão me olhou torto, depois olhou para o Jibóia.
— Não é bem verdade — disse Pezão. — Ela é ...
— Bi — completei.
Jibóia ficou de queixo caído. Parecia não acreditar no que estávamos contando.
— A Maura não gosta de homem? — disse Jibóia. Parece até que vi um sorriso em seus lábios.
— Gosta, primo, mas ela também gosta de mu ...
— Então é por isso que ela nunca me deu bola! — disse Jibóia, com um sorriso de ponta a ponta.
— Ou talvez tenha sido por que você é ... PRIMO dela, caralho!!!
— Deixa o cara em paz, Pezão. Ele até já parou de chorar feito uma bichona.
Jibóia olhou feio pra mim.
— Mas espera um pouco — disse o Pezão para o Jibóia. — , você me ligava pra contar as suas aventuras com as biscates e nunca mencionou deu um pio sobre a minha irmã.
Jibóia ficou branco feito um copo de leite. Seu rosto voltou a murchar.
De repente a ficha do Pezão caiu. A minha já tinha caído faz tempo.
— Era tudo mentira, né? — disse Pezão, puto da vida.
Jibóia confirmou com a cabeça. Em seguida voltou a chorar.
— Porra, mano, outra vez? — falei. — Você não sabe fazer outra coisa?
— Desculpa, desculpa, desculpa ...
Puta merda!!! Se o Jibóia falar desculpa mais uma vez eu não sei o que vou fazer.
— Sua mente era fértil, hein! — disse Pezão. — As suas histórias eram tão boas que eu tocava umas três punhetas após desligar o telefone.
— As histórias eram de uma revista de contos eróticos que eu lia na época.
Puta merda, pensei que o Pezão fosse pular no pescoço do Jibóia. Mas ele ficou só na vontade. Sorte do Jibóia, pois eu não iria protegê-lo. Meu, o cara é muito chato! Ninguém merece.
— Eu ligava pra sua casa — disse Jibóia. — , só pra ouvir a voz da Maura. Mas ela nunca atendia a droga do telefone.
Pezão ficou ainda mais puto.
— Então era você que ligava pra cá de vez em quando e desligava na minha cara?
— Provavelmente sim.
Putz!!! Agora não teve jeito. Pezão voou no pescoço do Jibóia.
E agora, o que eu faço? Ajudo ou não ajudo? Separo ou não separo?
Droga, por mais que eu odeie o babacão do Jibóia, não suportei ficar apenas olhando. Tirei o Pezão de cima do Athirrrrrrrson, o Senhor-Vômito-e-Lágrimas.
— Tiaaaaaaaaaaaaaaaaa! — gritou o Jibóia. — O Maurício ficou maluco! Ele quer me matar!
Pezão ficou mais enfurecido ainda. Deu um puta trabalho segurá-lo.
— Se você chamar a minha mãe outra vez, sua bicha, eu juro que ...
E Jibóia desabou sobre a grama. Parecia um saco de batatas caindo sobre o chão do supermercado.
— Deve ser um teatrinho dele — disse o Pezão.
— Acho que não, cara. Você não viu o jeito que ele caiu?
Larguei o Pezão e corri até o Jibóia. Coloquei minha mão sobre o peito dele e tomei um puta susto. Seu coração não batia.
— Fodeu! — disse eu, bem assustado. — O Jibóia morreu.
— E daí? Um cuzão a menos no mundo.
— Não brinca, Pezão. Estou falando sério, porra!
— Eu também.
— Anda logo, chama uma ambulância! Faz alguma coisa, caralho!
— O que aconteceu??? — gritou uma voz lá longe.
Era a mãe do Pezão, na janela do quarto do Pezão.
— O Athirson passou mal e desmaiou sobre o gramado! — gritei.
— Puta que pariu!!! Eu não acredito nisso.
Ela tirou seu celular do bolso e correu apavorada para dentro da mansão.
Olhei assustado para o Pezão.
— O que a gente faz agora? — perguntei.
— E eu tenho cara de médico, porra?
Jibóia deu sinal de vida. Tossiu. Uma tossida bem feia e nojenta. Mas pelo menos tossiu. Mortos não tossem, não é?
— Eu não falei que era teatrinho dele? — resmungou Pezão.
De repente Jibóia ficou com os olhos brancos e começou a se debater sobre a grama. Não sou médico, mas creio que ele esteja tendo algum tipo de convulsão. Sei lá! Como o Pezão disse ... Eu não sou médico, porra!!!
A Maura e a mãe do Pezão vieram correndo, bem nervosas.
— Ele não pode morrer aqui na minha casa — disse a mãe do Pezão, apavorada. — Se isso acontecer, minha irmã vai ficar ainda mais puta da vida comigo e ...
Parou uma ambulância em frente ao portão. Ufa!
Jibóia foi levado para o hospital.
Os médicos descobriram um tumor maligno no seu cérebro. A pior parte nós ficamos sabendo no dia seguinte, quando estávamos indo para o hospital visitá-lo: Jibóia só terá alguns dias de vida. Seu último suspiro poderá ser amanhã ou daqui a duas semanas. Pobre Athirrrrrson.
Pezão e eu entramos no quarto juntos. Ficamos calados por alguns instantes. Não sabíamos o que dizer. Eu nunca conversei com alguém nesta situação.
Depois de algum tempo, Jibóia tomou a iniciativa:
— Vocês já devem estar sabendo de tudo, não é?
— Sim, sua tia nos contou — disse eu, um pouco sem-graça.
— Não precisam ficar com estas caras — e Jibóia sorriu. — Todo mundo morre um dia.
— Com certeza — disse Pezão, também constrangido. Acreditem se quiser.
— Volto pra puxar os pés de vocês nas madrugadas.
E acabamos rindo um pouco.
Como é possível isso? O cara era um mala-sem-alça, e agora que lhe faltam alguns dias de vida, parece até outra pessoa. Até o seu olhar está diferente.
Bom, deve ser muito estranho você saber que pode morrer daqui a dois minutos. Se bem que ... eu também posso morrer daqui a dois minutos, não posso? Claro que posso. Para morrer, basta estar vivo.
Melhor mudarmos de assunto, isso aqui está ficando triste demais e ...
— Eu queria contar um segredo a vocês dois, antes que eu ...
— Bata a cachuleta — disse o Pezão, sério.
Jibóia começou a rir feito uma hiena com micose.
— Cachuleta?
— Que segredo é este? — perguntei.
Jibóia parou de rir e olhou sério para mim.
— Nunca tive coragem de contar pra mais ninguém. Mas eu não posso levar este segredo para o túmulo. De jeito nenhum!
— Você tem um tesouro enterrado no seu quintal! — disse Pezão, rindo.
— Não.
— Assassinou umas trinta mulheres e enterrou os corpos no seu quintal!
— Hã? Também não. Você é louco, primo?
— Eu não, mas você tem uma carinha de psicopata.
— Desembucha logo, porra! — disse eu. Perdi a paciência.
— Tudo bem — e Jibóia respirou fundo. — Eu ...
Capítulo 5 · Empolgadaço
— Você tem um tesouro enterrado no seu quintal! — disse Pezão, rindo.
— Não.
— Assassinou umas trinta mulheres e enterrou os corpos no seu quintal!
— Hã? Também não. Você é louco, primo?
— Eu não, mas você tem uma carinha de psicopata.
— Desembucha logo, porra! — disse eu. Perdi a paciência.
— Tudo bem — e Jibóia respirou fundo. — Eu ...
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— ... eu sou virgem.
Puta merda!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
— Caralho, primo!!! — Pezão falou tão alto que todo mundo no hospital deve ter ouvido.
Jibóia ficou vermelho. Parecia um pimentão.
— Meu, como você conseguiu ficar sem buceta? — perguntei ... "sutilmente".
— Tenho duas mãos, Nando.
— Não tem nem comparação, porra!!!
— Primo, não tem nada melhor do que uma xo ...
Neste exato momento entrou uma enfermeira deliciosa no quarto. Meu, eu não sabia que existiam enfermeiras tão gostosas assim na vida real! Uma loira peituda de tirar o fôlego. É claro que nós três ficamos de olhos arregalados pra enfermeira.
— O que foi? — perguntou ela, abismada com toda a atenção.
— Tem mais de onde você veio? — perguntei, sorrindo pra ela.
— Como assim?
Putz!!! Loira burra é foda.
— Meu amigo tentou te passar uma cantada — disse Pezão, ironicamente. — E muito tosca, diga-se de passagem.
E a loira caiu na risada, parecia uma hiena fazendo strip-tease com gases.
— Sério? — disse ela. Gostei do jeitinho dela, meio tímido. — Desculpa, eu sou muito distraída mesmo.
Jibóia arregalou os olhos.
— Distraída? — disse ele. — Não é você que cuida da minha medicação, é?
Agora a loira quase molhou a calcinha de tanto rir.
— Não — disse ela. — Eu vim apenas avisar que o horário de visitas acabou.
— Nós já estávamos de saída — falei, piscando pra ela.
E a enfermeira olhou para o Jibóia.
— Ah, e tenho uma notícia boa pra você: o doutor me disse que você terá alta hoje mesmo.
— Que boa notícia.
Putz! Jibóia falou de um jeito tão triste. Fiquei com pena do cara. Não deve ser fácil estar com os dias contados. E pior ... morrer sem nunca ter chupado uma buceta!
A loira saiu do quarto e todos nós ficamos admirando seu lindo e exuberante traseiro.
— Os médicos daqui devem fazer a festa, hein! — disse Pezão.
— Sei lá — disse Jibóia, ainda mais deprimido.
— Ânimo, Jibóia!!! — falei, tentando animar o coitado.
— Do que me adianta isso? Posso morrer daqui a vinte segundos.
— Não vai não! — falei de forma decidida.
Jibóia me olhou estranho.
— E como você sabe disso?
— Você vai foder hoje.
— Mas ele já está fodido, Nando — disse Pezão.
— Eu quis dizer que ele vai comer alguém hoje, seus idiotas.
— Sério? — disse Jibóia, bem mais animado.
— Meu, eu não acredito que você vai dar a bunda pro Jibóia.
— Porra, Pezão, vai se foder!!! Não sou eu que vou dar pra ele, caralho!!!
— Então quem, a minha irmã?
Agora Jibóia acordou de vez. Vocês precisavam ver os olhos do cara, brilhavam mais que pisca-pisca de árvore de natal.
— Será que ela toparia? — disse ele, rindo de orelha a orelha. — Mesmo que por caridade, né? Será que toparia, hein? Será?
Pezão e eu começamos a rir.
— Eu não apostaria suas fichas nisso não, cara. — falei.
— Nem eu, primo.
Jibóia ficou triste outra vez.
— Não desanima não, porra! — falei. — Eu falei que você vai comer alguém, então você vai comer alguém e pronto. Já está decidido.
— Mas quem?
— Isso eu ainda não sei. Mas fica frio. Você não vai morrer sem chupar uma buceta, isso eu "agarântio".
E deixamos o hospital. Jibóia não saiu com a gente, pois teria alta só no final da tarde. Parece que ele precisava fazer alguns exames ainda.
— O que você está planejando? Levá-lo pra zona?
— Pensei nesta hipótese, mas sei lá ... A gente poderia tentar uma balada antes de apelar pro zonão.
— Você acha mesmo que o cara vai conseguir pegar alguém?
Pezão começou a rir sem parar.
— E por que não?
— Sei lá, não comeu ninguém até hoje ... Por que comeria justo agora?
— Pense bem, ele não tem mais nada a perder. O cara pode ir numa balada e xavecar todas. O que vier já será lucro, seja filé ou pé-vermeio.
— Bom, isso é verdade.
— Como é mesmo o nome daquela choperia que abriu semana passada?
— Brusque.
— Isso! É lá que vamos levar o Jibóia. Ouvi dizer que a mulherada está caindo em peso lá.
— Demorou então! O coitado não pode morrer sem chupar uma buceta.
— Claro que não, porra! É direito de todo cidadão homem do sexo masculino que possui seu bilau saudável e em dia com as prestações do carnê do baú, porra!!!
Jibóia teve alta naquela tarde, mas voltou para a casa do Pezão meio grogue por causa dos remédios. Sua mãe queria levá-lo de volta para Volta Redonda de qualquer jeito, mas é claro que ele decidiu ficar. Garoto esperto, né? Hehehe ...
Então combinamos que assim que ele se sentisse melhor, nós colocaríamos o nosso plano em ação. Quero dizer, se ele não morresse antes, né? Coitado do cara.
Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmmm!!!!
Puta merda! O que o Pezão quer comigo a esta hora? Será que o primo bateu as botas antes de ... ?
— Fala, Pezão dos infernos.
— Não é o Pezão. Sou eu, o Athirson.
— Athirson? Que Athirson?
— O Jibóia, cara!
— Está vivo, meu filho?
— Opa, vivíssimo!
— Gostei de ver, hein! Empolgadaço.
— Nunca me senti tão vivo em toda a minha vida, Nando.
Caralho! O cara ainda não comeu ninguém e já está assim. Imagine depois então!!!
— É isso aí, Jibóia. Pensamento positivo e confiança. A mulherada adora isso, cara.
— Sério?
— Pode apostar.
— Eu só liguei pra avisar que estou em ponto de bala.
— Já deu pra notar — e comecei a rir feito um louco. — Acho até que está de pau duro.
— Sim, estou mesmo.
— Porra, Jibóia! Pára com isso, cara! Agora não, caralho!
— Não consigo evitar, cara. Desde aquela nossa conversa lá no hospital, estou sempre de pau duro.
— Vai com calma, mano. Se gastar os cartuchos agora, pode faltar na hora H.
— Sério, Nando?
— Vai por mim. Toma um banho frio, sei lá! Mas acalma o moleque aí.
— Beleza. Pode deixar. Mas e aí, vamos sair esta noite então?
— Claro, vamos sim. Mas pega leve, hein! Homem de pau duro não entra no meu carro, porra!!!
Jibóia começou a rir. E desligou o telefone.
Dois minutos depois, Pezão me ligou.
— Fala — atendi.
— Maldita hora que você foi dar esperanças pro cara.
— Por quê? O pobre coitado está tão contente, nem parece que vai morrer.
— Pois é, mas está contente até demais!
— Já percebi — e caí na gargalhada, tipo uma hiena tirando pulga do saco.
— Meu, o cara anda pra lá e pra cá de pau duro o dia todo! Não agüento mais!
Minha gargalhada triplicou de intensidade. Quase engasguei.
— Dá o rabo pra ele que resolve, oras!
— Nando.
— O quê?
— Enfia o dedo no cu e assovia o hino da Coréia, seu porra!!!
E Pezão desligou o telefone na minha cara, puto da vida.
Capítulo 6 · Uma Ex-Namorada
— Meu, o cara anda pra lá e pra cá de pau duro o dia todo! Não agüento mais!
Minha gargalhada triplicou de intensidade. Quase engasguei.
— Dá o rabo pra ele que resolve, oras!
— Nando.
— O quê?
— Enfia o dedo no cu e assovia o hino da Coréia, seu porra!!!
E Pezão desligou o telefone na minha cara, puto da vida.
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Estou ansioso para conhecer a nova choperia da cidade. Dizem que o lugar é chique e que o público é selecionadíssimo. Resumindo: só playba e patricinha. Confesso a vocês que eu odeio lugares assim, mas ... o Jibóia merece perder a virgindade com carne de primeira, não é? Seria sacanagem o coitado comer uma pé-vermeio, pegar uma DST e morrer cheio de perebas no pinto.
Tudo bem, admito que vai ser uma tarefa mais difícil, afinal de contas uma pé-vermeio a gente leva pra qualquer motelzinho barato de beira de estrada; já uma patricinha demanda um esforço maior. Mas estou confiante. O Jibóia vai ser dar bem.
Fiquei sabendo que uma ex-namorada minha é promoter da choperia. Demorou pra eu descolar umas entradas na faixa! Antes que você me chame de mão de vaca, saiba que eu tenho grana para pagar, viu? Mas admita ... entrar de graça é tão gostoso, não? Aposto que você vive pedindo convite para seus amigos descolados. Pede, né? Eu sabia. Brasileiro adora levar vantagem em tudo.
Será que eu ainda tenho o telefone daquela lambisgóia? Sim, lambisgóia! Olha só que absurdo! Uma vez eu peguei esta guria tocando uma pro meu vizinho no cinema. Acreditam? Vocês precisavam ver a cara da biscate quando me viu. Putz grila! Não gosto nem de lembrar daquele dia que eu fico muito puto da vida. Que ódio!
Ah, achei! O telefone dela ainda está no meu caderninho. Não foi difícil de achar, afinal de contas eu anotei a palavra LAMBISGÓIA bem grande ao lado do nome dela: Valeriana.
Bom, vamos lá ... A gente não se fala desde aquele fatídico episódio da punheta no cinema, mas ... Ela tem os convites, né? Posso deixar meu orgulho de lado; será por uma boa causa.
Disquei o número. Está chamando.
— Alô! — é ela. Reconheço esta voz esganiçada em qualquer lugar do planeta.
— Val? — nós namorávamos, né? Eu tinha intimidade e a chamava de Val.
— Quem está falando?
— Sou eu, o Nando.
— Que Nando?
— Caramba, Val, não reconheceu a minha voz?
Pequena pausa da parte dela. Creio que ela vá bater o telefone na minha cara e...
— Nandinho, é você?
Eu avisei que tínhamos intimidade, né? Ela me chamava assim. Eu sei que é ridículo. Mas qual é o casal de namorados que não tem apelidos ridículos um para o outro, né? Pituzinho e pituzinha, mozinho, benzinho, titinha, tchutchuquinho, bibinha, etc ...
— Lembrou, né? — disse eu, bem cínico.
— Nunca pensei que fosse falar com você outra vez.
Para ser bem honesto, nem eu. Mas se eu disser isso ... ADEUS convites.
— O que passou, passou — falei, tentando parecer o mais sincero possível. — Como vai você?
— Meio pra baixo ultimamente, e você?
— Pra baixo? O que você tem?
— Meu namorado terminou comigo ontem.
Provavelmente pegou a lambisgóia tocando uma pro vizinho no cinema, né?
— Pobrezinha! Fica assim não, Val!
Ouvi Valeriana dar uma longa suspirada do outro lado do telefone. De repente ela voltou a falar:
— E você, já se casou?
— Eu? Comeu cocô, guria?
E Valeriana caiu na gargalhada. Parecia uma hiena mascando chiclete de tuti-fruti.
— Você é doido, Nandinho! Eu adorava estas suas frases divertidas. Sinto saudade de você, sabia?
Epa! Não estou gostando do rumo desta conversa. Estão notando um clima no ar? Eu estou. Porra, eu liguei apenas para descolar três convites. Não estou nem um pouquinho interessado num Vale a Pena Ver de Novo.
Melhor eu mudar logo de assunto.
— O que anda fazendo da vida, Val?
— Nada, e você?
Porra! Que papo é este? Será que me passaram informação errada? Será que é outra ex-namorada que trabalha lá na maldita choperia?
— Nada? — disse eu, confuso. — Não está trabalhando ... ?
— Ah, sim, claro que estou! Mas como sou tapada, Nandinho! É que eu não faço praticamente nada, então até me esqueço que é um trabalho. Eu sou promoter da Brusque, uma nova choperia que abriu lá no centro.
Agora sim!!! Já assistiram aqueles documentários que mostram os leões se preparando para dar o bote em veadinhos indefesos? Pois é exatamente assim que eu estou me sentindo ... hehehe.
— Que bacana, Val! Ouvi dizer que o lugar é estaile pra caralho
— O lugar é show de bola. Meu tio investiu muita grana.
— A choperia é de um tio seu?
— Sim. Como você acha que eu descolei este trampo? Eu não sei fazer nada, Nandinho!
Claro que sabe! E o filho da puta que ficou com ela no cinema também sabe que ela sabe. Maldita lambisgóia dos infernos! Perdão, eu fico muito irritado quando me lembro daquela cena nojenta. Não sei o que me irrita mais: lembrar da cara de lambisgóia dela ou da cara de alegria do filho da puta do meu vizinho.
Calma, Nando! Concentre-se nos convites!!! Concentre-se nos convites, porra!!!
— Falando em descolar ... — disse eu. — Val, será que você poderia me descolar três convites pra hoje?
— Claro, Nandinho! Três, né? Um pra você, um pra mim e ... ?
E Valeriana deu uma risadinha daquelas que só as mulheres sabem dar. Conheço esta risadinha muito bem, é a risadinha que diz: "Eu sou mulher e você é um otário. Eu sou mulher e vou fazer você comer na minha mão. Viva o poder da minha vagina!"
Resumindo: fodeu.
Se eu disser que ela não está incluída nos planos para hoje, perco os convites. Conheço muito bem a Valeriana. Ela foi a namorada mais mimada que eu tive até hoje. Quando ela queria algo, batia os pezinhos e não sossegava até consegui-lo. Nem preciso dizer que ela sempre conseguia, né? Nós homens somos todos otários mesmo, de carteirinha e tudo.
O pior de tudo é que Valeriana é uma gracinha. Ela é baixinha, corpinho de bailarina, rostinho de anjo, cabelos loiros na altura dos ombros, olhos azuis tão azuis que nem parecem reais, mas são. Seu narizinho de boneca, seus lábios finos e o queixinho ponteagudo completam suas feições delicadas. Mas não se engane, ela tem esta aparência de bonequinha de porcelana, mas na cama é uma felina selvagem. E gosta da coisa, viu? Como gosta! Gosta tanto que não se contenta com apenas um. Depois que terminei o namoro com ela é que fiquei sabendo dos inúmeros chifres que ela me colocou.
Maldita lambisgóia!
Calma, Nando. Vamos voltar aos convites ...
Dei uma risadinha sem graça e falei:
— Mas você não está trabalhando lá? Não quero atrapalhar seu trabalho e ...
— Vai atrapalhar em nada não, bobo! Já falei pra você, eu não faço porcaria nenhuma. Meu tio descolou este emprego só para o meu pai parar de pegar no meu pé.
— Mas você recebe salário no final do mês?
— Claro! Emprego é emprego, né? — e ela deu uma risada muito bonitinha.
Putz!!! Tem gente que nasce com o cu virado pra lua mesmo.
— E não tem uma vaguinha pra mim lá?
— Posso ver com o meu tio.
— Isso! De preferência um emprego idêntico ao seu, hein!
E caímos na gargalhada, feito duas hienas taradas fazendo um filme erótico pela primeira vez.
— E então, que horas você passa aqui em casa para me pegar? — disse Valeriana, decidida e empolgada.
— Você ainda mora na mesma casa?
— Ahã!
— Beleja. Passo aí .... 10 e meia, pode ser?
— Ótimo! Nossa, Nandinho, fazia tempo que eu não ficava tão ... ansiosa.
Ela ia dizer excitada. Eu sei que ia. Mas mudou de idéia no último segundo. Mulher é um bichinho sem-vergonha mesmo, né? Sabe como nos tirar do sério. Todas elas já nascem com este dom. Dom ou maldição? Sei lá.
— Val, será que você poderia descolar mais dois convites?
— Claro que sim!
Pronto. Tudo armado para hoje à noite.
Meus planos mudaram um pouco, né? Sair para a balada com uma ex-namorada que me traiu com metade da cidade não era bem o que eu tinha em mente, mas ... Vamos ver no que dá. Talvez seja até bom, pois a Valeriana com certeza tem muitas amigas, e podemos apresentar uma delas para o Jibóia e conversa vai conversa vem ... pimba na gorduchinha!!! Peru pra dentro!!! Ou melhor, Jibóia pra dentro!!!
O relógio marca 22h16 ...
Saio pisando baixo com o opalão. Cheguei na casa do Pezão tão rápido que nem eu sei como consegui. Bati o recorde.
Dei duas buzinadas e vi o Jibóia aparecer na janela do quarto do Pezão. Ele deu uma acenada rápida e correu para dentro da mansão.
Feito uma flecha, Jibóia atravessou todo o imenso jardim. Pezão veio logo em seguida, mas bemmmmmmm mais devagar.
— Meu, você parece um cachorrinho no cio — falei para o Jibóia.
— Fiz o que você me pediu: tomei banhos frios o dia todo.
— Mas pelo jeito não resolveram em nada, hein! Você parece um ator pornô que ficou em coma por 5 anos e agora quer recuperar o tempo perdido. Fica calmo, porra!!!
— Eu estou calmo — disse ele, agitado dos pés a cabeça. O cara parece um vibrador ligado numa tomada de 220 volts.
— As bocetas não vão fugir, cara. Fica frio.
Pezão passou pelo portão; totalmente o oposto do primo. Pezão está tão relaxado que ...
— Quem você comeu? — perguntei. — Conheço esta cara, seu filho da puta. Você comeu alguém.
Pezão me mostrou os cinco dedos da mão direita, depois disse:
— Cinco vezes só nesta tarde — e o filho da mãe abriu um puta sorriso, aquele sorriso que só o Pezão filho da puta sabe. — Fazia tempo que eu não trepava tão gostoso, cara!
E ambos entraram no Opala. Jibóia sentou-se no banco de trás; Pezão sentou-se ao meu lado. Antes de engatar a primeira, eu tinha que perguntar, né?
— Mas quem você comeu, porra?
Pezão parecia em transe. Virou-se lentamente para mim e respondeu:
— A diarista.
Putz!!! Não resisti. Caí na gargalhada. Pezão mudou de zen para puto num segundo.
— Do que você está rindo, seu bosta?
— Imaginei você comendo aquela baixinha do programa "A Diarista", que passa na Globo.
— A Marinete? — disse Jibóia, rindo.
— Mari o quê? — disse Pezão, vermelho de raiva.
Dei a partida no carro e saí queimando os pneus.
— Esquece, Pezão — falei. — Mas conta aí ... faz tempo que você está comendo ... a diarista?
Agora quem caiu na gargalhada foi o Jibóia. O cara parecia uma hiena-saci fumando cachimbo.
— Eu não estou entendendo qual é a graça — disse Pezão, vermelho de raiva.
— Ao invés de dizer diarista, não dá pra você dizer empregada? — disse eu, rindo muito. — Acho que já resolveria o problema.
— Vocês dois são uns idiotas mesmo — disse Pezão. — É por isso que vocês não comem ninguém. Podem rir à vontade, o importante é que hoje eu tive o melhor sexo da minha vida. Meu, a filha da puta me chupou de uma forma que nunca me chuparam antes! Estou vendo estrelas até agora! Uhuuuuuuu!
Agora ninguém riu. Acho que Jibóia até sentiu uma pontinha de inveja. Eu não. Já fui chupado de todas as formas e duvido que ainda haja alguma maneira inédita de se fazer isso.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que resolvi quebrar o gelo, dizendo:
— Por acaso ela não te chamou de "polha", chamou?
Pezão me olhou sem entender porra alguma. Enquanto isso, Jibóia quase botava as tripas para fora lá atrás. Nunca vi alguém rir tanto na minha vida.
Acho que consegui deixar o Jibóia relaxado. Que bom, né? Homem de pau duro no meu carro não, porra!!!
Só eu, é claro.
Capítulo 7 · Chove Chuva
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que resolvi quebrar o gelo, dizendo:
— Por acaso ela não te chamou de "polha", chamou?
Pezão me olhou sem entender porra alguma. Enquanto isso, Jibóia quase botava as tripas para fora lá atrás. Nunca vi alguém rir tanto na minha vida.
Acho que consegui deixar o Jibóia relaxado. Que bom, né? Homem de pau duro no meu carro não, porra!!!
Só eu, é claro.
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— Aonde você pensa que vai, mané? — gritou Pezão para mim. — A choperia fica do outro lado, cara.
— Eu sei disso. Mas a mina que vai com a gente mora pra lá — e apontei com a cabeça na direção contrária.
Pezão arregalou os olhos. E foi aí que a minha ficha caiu: eu não tinha contado para eles a respeito da Valeriana!
— Que mina? — perguntou Pezão. — É uma só? Não tem uma pra mim?
— Bom, o combinado era apenas ela, mas sei lá ... tudo é possível. Mulher raramente sai pra balada sem levar uma amiga, né?
— Você namora, Nando? — perguntou Jibóia.
— Não. Esta mina é uma ex-namorada minha, biscate pra caralho.
— Já sei! — disse Pezão, rindo. — É a Val, não é?
— Caralho, como você adivinhou?
— Matemática, porra. Somei "ex-namorada" e "biscate" ... deu "Val". A mina traía o Nando com a cidade inteira, primo. Só o idiota não percebia.
— É sério, Nando?
— Foda-se! Todo mundo já levou chifre uma vez ou outra na vida. Não fui o primeiro e nem serei o último. E tem mais, a Val é passado.
— Será mesmo? Pra onde estamos indo neste exato momento?
— Calma aí. Eu só aceitei levá-la porque senão adeus convites.
— Porra, só por causa disso? É tão caro assim para entrar naquela birosca?
Fiquei sem saber o que responder. De repente me bateu um desespero e eu encostei o carro.
— O que foi? — perguntou o Pezão. — Por que parou?
— Acho que levar a Val com a gente não foi uma boa idéia — respondi. — Vou fazer o retorno e ...
— Faz isso não!!! — gritou o Jibóia, desesperado. Tomei um puta susto.
— Comeu cocô, Jibóia??????? Vai dar susto assim na puta que te pariu!
— Desculpa. Mas não dê meia-volta não. Sacanagem com a garota.
Pezão virou-se para trás, olhando de forma cínica para o Jibóia.
— O primo quer comer a Val, Nando!
De repente senti uma lâmpada acender sobre a minha cabeça, igual àquelas que a gente vê em gibis.
— Como é que eu não pensei nisso antes? — falei, todo empolgado. — Meu, a Val é a maior biscate que eu já vi. O Jibóia nem vai precisar de muito esforço.
De repente o Jibóia foi murchando.
— Mas, tipo assim, ela dá pra todo mundo? — perguntou ele, desanimado.
— Mais do que chuchu na serra, primo — respondeu Pezão, rindo.
E foi aí que vi outra lâmpada ... hehehe. Descobri algo que pode retomar o ânimo do Jibóia. Querem ver? Olhei para o Pezão e falei:
— Mas ela nunca deu pra você, né?
— E daí? Só não deu porque eu não quis!
— Ah, ta! — e dei uma piscada irônica para o Jibóia. Este riu.
— É sério, porra! — Pezão começou a ficar vermelho de raiva. — Teve uma vez que nós fomos juntos num barzinho e ...
— Oi, Nandinho!
Puta merda! Que susto! A Valeriana surgiu do nada.
— Como você nos encontrou? — perguntei, totalmente abismado com a sua presença.
— Eu moro logo ali — e Valeriana apontou para uma linda casa de esquina, a uns cinqüenta metros de distância.
Putz! O destino é um negócio engraçado mesmo. Vocês acreditam que eu estava indo para outro lugar totalmente diferente? Provavelmente para a casa de outra ex-namorada. Já imaginaram a confusão que ia dar?
— E por que você não parou mais perto, hein? — resmungou ela. — Meu irmão é grande, mas não morde, viu?
— Desculpa. É que aqui fica mais fácil para fazer o retorno.
— Sei, sei ...
E aos poucos fui relembrando do nosso tempo de namoro. Esse jeitinho mimado da Val me irritava tanto!
Desci do carro e quando eu me preparava para dar um beijo no rosto da Val, ela me surpreendeu e me lascou um beijo de língua. Juro para vocês que eu não esperava por isso. Fiquei até meio sem graça.
— Você ainda beija muito bem — disse ela, sorrindo para mim.
Val não tem mais aquele corpinho de bailarina, mas também não está de se jogar fora. A única coisa que mudou bastante foram os cabelos: agora estão escuros e bem mais curtos. Estilo Fátima Bernardes, do Jornal Nacional.
Ela está uma graça, usando uma blusinha verde abacate e uma saia jeans justa, um palmo acima do joelho. Suas pernas estão mais grossas, mas continuam branquinhas como antigamente. Analisando friamente, ela está mais gostosa hoje do que na época em que namoramos.
— Obrigado — respondi, ainda meio bobo.
Reclinei o meu banco e pedi para que ela entrasse no carro. Val me olhou torto.
— Não vou do seu ladinho? — disse ela, fazendo bico.
— Já tem gente ali e ...
— Pede pra ele sair! Eu quero ir pertinho de você.
Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! A Val está querendo levar uma pinguelada do Nando Júnior esta noite. Olha, numa outra noite eu até toparia! Mas hoje a Val tem que dar para o Jibóia, né? O coitado precisa muito mais do que eu.
Só para não criar caso, pedi para o Pezão remover sua bunda branca do banco da frente e sentá-la confortavelmente no banco de trás, ao lado do primo.
Nem preciso dizer que o Pezão ficou no horror, né? Mas para a sorte de todos, ele não fez nenhuma cena mais dramática.
Todos devidamente acomodados dentro do carro.
Apresentei a Valeriana para o Jibóia. Acho que o cara ficou de pau duro só de segurar nas mãos dela.
— O Pezão você já conhece, né? — falei, enquanto soltava o freio de mão.
— Quem? — disse Valeriana, tentando enxergar melhor o rosto do Pezão.
Putz! Nem preciso dizer que Pezão ficou puto da vida, né? Eu sei que ele não comeu a Valeriana porque ele mesmo já me contou que não. Só que ele não se lembra que me contou.
Dei meia-volta. Agora sim ... Choperia, aqui vamos nós!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Não sei o que vocês estão captando, mas eu estou captando ótimas vibrações. Acho que esta noite promete. Só espero que o coitado do Jibóia agüente firme e sobreviva a ela.
Quem está empolgada até demais é a Val. No primeiro semáforo que eu parei, senti sua mão esquerda alisando minha coxa direita. Não consegui evitar, fiquei excitado.
Sossega, Nando Júnior! A mina é do Jibóia!
Mas por mais que eu tentasse me controlar, a mão habilidosa da Val não deixava. Ela apertava, alisava e me beliscava. Aquilo estava me deixando louco! Quase pedi para ela parar, mas estava tão bom! Garota com prática é outra coisa, viu?
Pobre Jibóia, se ela fizer isso nele, o cara goza em dois segundos.
Parei o Opala no estacionamento da choperia. Meu, só tinha carro de playba. O meu era o mais modesto de todos. Mas sei lá, pelo menos o meu tem cara de carro de macho. Os outros são tão enfeitados que mais parecem carrinhos de brinquedo, recém adquiridos por filhinhos de papai.
Desci do carro e notei que o tempo havia mudado bastante. Não estava tão calor como antes. Ventava frio e caía um leve sereno.
Valeriana desceu pelo outro lado e veio correndo para os meus braços.
— Está frio! Me abraça, Nandinho!
Nem tive como recusar, né? Ela já chegou abraçando e agarrando a minha bunda. Levei um beliscão tão forte que mais pareceu uma ferroada de abelha.
— Caralho! — esbravejei. — Doeu, Val!
E ela deu aquela risadinha de menina mimada.
Pezão desceu do carro e veio caminhando lentamente até nós, com uma cara de pouquíssimos amigos.
— Cadê o Jibóia? — perguntei.
Pezão não disse nada, apenas apontou para o carro.
— O que deu nele?
— Acho que seu plano foi pro saco.
Val arregalou os olhos para mim, dizendo:
— Que plano?
Meu, que ódio que eu fiquei do Pezão!!! Se eu pudesse, arrancaria o saco dele e daria para os cachorros da minha vizinha.
— Tem plano nenhum — respondi calmamente.
Soltei-me da Val delicadamente e voltei para o carro para ver o que estava acontecendo com o Jibóia.
— O que houve? — perguntei, inclinando o banco para a frente.
Jibóia estava todo encolhido no banco de trás. Tremia um pouco e parecia assustado. Sentei-me ao seu lado.
— Ainda está chovendo? — disse ele, com a voz abafada.
— Chovendo? Não! Está caindo um sereno, só isso.
— Mas eu estou ouvindo os pingos sobre o capô do carro.
— Você comeu cocô, Jibóia? E daí se estiver caindo uns pinguinhos de chuva ou sereno? Você não é feito de barro, é? Você por acaso derrete?
— Não.
— Então foda-se!!! Levanta esta bunda magra daí e ...
— Eu sou alérgico à água de chuva.
Putz!!!!!!!!!!!!! Eu não acredito nisso. Ele só pode estar de zoeira, né?
— Jibóia, pára de palhaçada e levanta daí, caralho!!! A Val está molhadinha! E não é de chuva, viu?
— Se eu sair do carro e cair uma gota de chuva sobre a minha pele, vou ficar mais inchado que uma balão de Festa Junina.
Meu, ninguém merece!
E para piorar a situação, o que era apenas um sereno transformou-se numa chuva torrencial. O barulho sobre nossas cabeças era tão alto que parecia chuva de granizo.
Val e Pezão vieram correndo para dentro do carro. Estavam encharcados.
— Puta merda, está desabando o mundo lá fora! — disse Pezão.
— Ai que frio!!!!! — resmungou Val, tremendo e esfregando as mãos.
Jibóia estava mais encolhido do que nunca. Acho que ele estava com medo do Pezão espirrar água de chuva nele.
— Pezão, dá pra você se enxugar mais devagar? — falei.
— Como é que é? — Pezão não entendeu nada, é claro. — Vai tomar no seu cu, Nando! Você não estava lá fora, né?
Valeriana passou as mãos nos seus poucos cabelos, mas eu senti alguns pingos tocarem o meu rosto. Jibóia entrou em pânico.
— Fiquem quietos vocês dois! — gritou ele, apavorado. — Vocês estão encharcados com esta água imunda!
Valeriana começou a ficar assustada. Ela arregalou aqueles lindos olhos para mim e disse:
— Seu amigo fumou muita maconha hoje?
— Ficou louco, primo? — gritou Pezão.
— Calma, gente — falei. — Ele é alérgico à água de chuva.
— Ah, fala sério! — disse Valeriana em tom de deboche.
— Isso não existe — disse Pezão.
E em seguida, Pezão encharcou as mãos sobre seus cabelos molhados e ameaçou sacudi-las na direção do primo.
— Não faça isso, cara — sussurrei para ele.
Mas Pezão fez aquela cara de filho-da-puta que só ele sabe fazer, mergulhou suas duas mãos sobre os cabelos molhados outra vez e ... mandou ver.
Capítulo 8 · Pobre Opala
E em seguida, Pezão encharcou as mãos sobre seus cabelos molhados e ameaçou sacudi-las na direção do primo.
— Não faça isso, cara — sussurrei para ele.
Mas Pezão fez aquela cara de filho-da-puta que só ele sabe fazer, mergulhou suas duas mãos sobre os cabelos molhados outra vez e ... mandou ver.
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Não pensei duas vezes, saltei na frente do Jibóia para protegê-lo.
— Vai tomar no seu cu, Pezão! — falei, puto da vida.
— Pingou água em mim também, seu idiota! — resmungou Val.
— Vocês são um bando de frescos, isso sim — disse Pezão.
De repente senti meus pés esquentarem. Não é o que eu estou pensando que é ... é?
Infelizmente era.
— Jibóia, se você tem amor à sua vida, diga que você não mijou no meu carro.
Ele ficou olhando para mim, com um misto de espanto e alívio.
— Meu, não me faça repetir a pergunta.
— Credo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! — gritou Val, de repente. — Que cheiro de urina!
Ela abriu a porta, mas aí se deu conta de que a chuva ainda estava muito forte. Entre ficar ensopada e o cheiro de mijo, ela acabou ficando com a segunda opção.
— Eu não acredito que você mijou no meu carro, seu porra! — perdi o controle. — Você é alérgico a água de chuva, mas mijo você suporta numa boa, é isso?
— Desculpa, cara — disse Jibóia, todo encolhido e muito envergonhado.
Pezão começou a rir histericamente, parecia uma hiena que acabara de morder as pernas da Claudia Raia.
— Eca! Vai detonar o seu banco, brother.
Juro para vocês, a minha vontade era pegar o Jibóia pelo pescoço e jogá-lo para fora do carro. Eu queria vê-lo sofrer debaixo daquele maldito temporal que não parava de cair. Eu queria me vingar da mijada que ele deu no banco do meu Opala.
Mas eu não tive coragem. Acho que foi aquele maldito cheiro de mijo; era tão forte que estava me deixando até zonzo.
— Tira a gente daqui, por favor! — resmungou Val outra vez. — Este cheiro está me fazendo mal!
— Passa a chave do carro pra mim — disse Pezão, esticando o braço na minha direção.
Até que não era uma má idéia, afinal de contas o Pezão já estava ali no banco da frente mesmo. Tirei a chave do bolso e passei para ele. Sentei-me o mais longe possível do Jibóia e respirei fundo. Uma curiosidade: meus pés continuam quentes. Putz!
— Vou descer um pouquinho o vidro — disse Val, com uma voz bastante irritada. — Nunca senti um cheiro tão forte em toda a minha vida! Cruzes!
Nisso eu vou ter que concordar com ela: eu também nunca senti um cheiro de mijo tão nojento como aquele. Comecei a me perguntar se ele também não tinha feito outra coisa no carro. Meu, se o Jibóia cagou no meu carro eu juro que mato o filho-da-puta.
Caía um verdadeiro toró lá fora. Bastou a Val descer um pouquinho o vidro, começou a chover dentro do carro. Preciso dizer quem ficou apavorado?
— Fecha a janela!!! — gritou Jibóia, feito um maluco com medo de tomar injeção. — Está chovendo em mim!!!
— Cala a boca, primo!!! — gritou Pezão. — Se ela fechar o vidro a gente morre aqui dentro desta porra.
Pezão engatou a ré e começou a deixar o estacionamento da choperia. Ele dirigiu bem devagar, pois a visibilidade estava péssima. Meu, será que vai acabar o mundo hoje? Que chuva é esta? Será castigo?
— Nandinho, eu estou passando mal.
— Já estamos saindo daqui, Val. Fica calma.
— Eu não estou nada bem, Nandinho — disse ela, agora com uma voz horrível.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Val vomitou no painel do meu carro.
— Puta merda!!! — gritou Pezão, assustado. — Vira esta boca pra lá, mina!!!
Ninguém merece. Eu senti uma imensa vontade de chorar naquele momento, mas nem para isso eu tive forças. Fiquei paralisado de horror. Eu não tive coragem para dizer absolutamente nada. Entrei em estado de choque.
Perdoe-me se você tem estômago fraco e não está se sentindo muito bem ao ler este capítulo. Infelizmente estou aqui para relatar os fatos, sejam eles bons ou bizarros. E os fatos são estes: meu carro está mijado e lavado de vômito. Vocês não fazem idéia do cheiro.
O que será que ainda vai acontecer? Isso ...
Quando Pezão ia passando pelo portão do estacionamento, um outro carro passou zunindo feito uma bala e pegou de raspão no meu querido Opala. O barulho foi de cortar a alma. Sabe quando a gente pega uma moeda e passa na lataria de um carro? Calma, gente, eu só fiz isso uma vez na vida, quando era moleque. Imagine um som idêntico a este, só que muitas vezes mais alto.
— Caralho, vocês viram aquele barbeiro filho-da-puta? — disse Pezão, branco de susto. Pezão desceu do carro, com chuva e tudo.
— Aonde você vai? — gritei.
— Vou pegar o cara na porrada — e bateu a porta do Opala com toda a força.
O que será que eu fiz para merecer isso? Agora meu carro está mijado, lavado de vômito e sabe-se lá como ficou a lataria depois deste maldito raspão que nós levamos.
Além de tudo isso, Val e Jibóia não param de chorar e resmungar nos meus ouvidos.
Puta que pariu!!! Vou ter que apelar para uma frase bem conhecida:
CALEM-SE! CALEM-SE! CALEM-SE! VOCÊS ME DEIXAM LOOOOUCO!
Antes que eu mate alguém, é melhor eu descer do carro agora mesmo. Foda-se a chuva, foda-se tudo.
Pezão vinha na minha direção, ensopado e com cara de bunda.
— A bichona fugiu — disse ele, puto da vida. — Bicha barbeira do caralho. Mas fica frio, eu ainda lembro da placa.
— Amassou muito? — perguntei, desanimado.
— Foi de raspão, brother. Mas alguns milímetros mais e o bagulho teria sido feio.
— Qual era o carro do cuzão?
— Era uma Saveiro novinha. Tinha duas bichas no carro. Quando eu chamei os veados para o pau eles saíram fincando.
Não tive coragem de ir olhar o arranhão. Abri a porta e também não tive coragem de entrar no carro. Pezão ficou me olhando e rindo. Cuzão.
— Pensa pelo lado positivo, cara — disse ele. — Se o veadinho da Saveiro tivesse nos acertado em cheio nós não estaríamos aqui agora.
E o pior é que o Pezão estava certo, por incrível que pareça. Meu carro está mijado, vomitado e arranhado, mas ... é apenas um carro. Acho que minha vida vale mais do que um Opala, certo?
E a chuva finalmente começou a dar uma trégua.
Voltamos para o carro. Desci os vidros, pois o cheiro estava insuportável.
— Eo io ora i errgu — resmungou Val.
— O quê? — perguntei.
— Eo io ora i errgu — repetiu ela, chorando bastante.
— Val, não estou entendendo nada do que você está dizendo.
Val limpou o rosto, respirou fundo e disse:
— Meu tio mora aqui perto.
Eu não sabia se olhava para ela ou para o painel todo vomitado. Ai que vontade de estrangular a Val.
— Meu tio mora aqui perto — disse ela, mais uma vez.
— E daí? — disse o Pezão, sentando-se bem longe do Jibóia.
Val ficou uma fera.
— E daí que eu preciso de um banho urgente, meu filho! E daí que eu preciso sair deste carro nojento agora mesmo! E daí que eu não quero olhar para a cara de vocês três nunca mais! Deu para entender?
— Nossa! — disse Pezão em tom de deboche. — A moça está nervosa.
— Não provoca, cara — falei.
Val olhou para mim e disse de uma forma um pouco mais calma:
— Por favor, me leva para a casa do meu tio.
— Levo. Se você me indicar o caminho ...
— Vira aqui — disse ela, apontando para a direita.
E o tio dela morava perto mesmo, a três minutos da choperia. Afinal de contas, o cara é o dono da choperia.
Vocês não acreditam, a mansão do cara deve ser duas vezes maior do que a da mãe do Pezão. Bonita pra caralho. Três dobermans parrudos tomam conta do jardim.
Parei o carro bem na frente do portão. Os dobermans ficaram enlouquecidos com a nossa presença.
— Seu tio é político? — perguntei.
Val balançou a cabeça negativamente.
Ficamos num silêncio meio embaraçoso por alguns instantes. De repente a Val me lançou um olhar melancólico e disse:
— Perdoe-me por ter vomitado no seu carro. Sinto muito.
Tentei manter a seriedade, mas acabei rindo. E meu riso provocou uma reação em cadeia, pois todos começaram a rir também. Acreditem se quiser, até o Jibóia riu.
Enquanto todos riam feito hienas numa rave, Val colocou a mão no bolso de trás da saia e tirou um cartão magnético.
— Vai pagar os estragos do meu carro? — perguntei, brincando.
— Coitada de mim, não tenho grana pra isso não.
— Mas que cartão é este?
Val pegou no meu braço e me puxou para fora do carro. Fiquei com pena de vê-la daquele jeito, toda manchada de vômito. Não caía mais uma gota de chuva. O céu estava inacreditavelmente bonito.
— Que tal tomarmos um banho quente juntinhos? — disse ela, toda empolgada.
— Olha, até que não é uma má idéia — respondi, sorrindo.
Ela me deu um beijo. Eca! Beijo com sabor de vômito ninguém merece, né?
Depois do beijo ela pegou o cartão magnético, inseriu numa caixinha ao lado do interfone e o portão fez um estalo.
Porra, eu ainda tinha esperanças de que fosse os cartão de crédito do pai dela, e que a Val fosse usá-lo para pagar os estragos no meu carro. Bom, deixa quieto então.
— Vamos? — disse ela, apontando para o jardim da mansão.
— Espera aí, e os dois? — falei, apontando para o Opala.
— Eles podem vir com a gente, se quiserem.
Val acalmou os dobermans e nós quatro adentramos a mansão.
Capítulo 9 · A Volta dos que Não Foram
Porra, eu ainda tinha esperanças de que fosse os cartão de crédito do pai dela, e que a Val fosse usá-lo para pagar os estragos no meu carro. Bom, deixa quieto então.
— Vamos? — disse ela, apontando para o jardim da mansão.
— Espera aí, e os dois? — falei, apontando para o Opala.
— Eles podem vir com a gente, se quiserem.
Val acalmou os dobermans e nós quatro adentramos a mansão.
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O tio da Val pode ser rico, mas tem um mau gosto dos infernos! Entrei na sala e dei de cara com um sofá horroroso, feito com pele de algum animal exótico. Nas paredes, quadros com figuras bizarras, para não dizer demoníacas. Detalhe: a cor das paredes é vermelho sangue. Eu, hein! Isso aqui é uma mansão ou centro de umbanda?
— Chique, não? — disse Val.
— Um pouco esquisito para o meu gosto — falei, sendo bem sincero.
— Seu tio é bicheiro? — perguntou Pezão, sério.
Val caiu na gargalhada, parecia uma hiena dançando numa rave.
— Bicheiro? — disse ela. — Não, nada a ver.
Jibóia não tirava os olhos de uma estátua de um casal fazendo sexo. A peça de mármore era tão real que dava a impressão de que estavam ali na sala mandando ver.
— Calma, sua hora vai chegar — falei, dando dois tapinhas no seu ombro.
Ele me olhou desanimado, dizendo:
— Será? Hoje já não dá mais tempo. Acho que vou morrer virgem mesmo.
Val arregalou os olhos para o Jibóia.
— Como é que é? VIRGEM?
Pobre Jibóia, ficou mais vermelho que um pote de catchup. Ele nem conseguiu forças para dizer nada. Tive que fazer por ele.
— Sim, mas a gente já está providenciando uma solução.
Val olhou para o Jibóia da mesma forma como uma criança olha para um palhaço pela primeira vez: um misto de medo e excitação.
— Vocês estão zoando com a minha cara — disse ela, colocando as mãos na cintura. — E aquela história de alergia a chuva também era brincadeira, né? Vocês não prestam.
— Eu disse que ela não iria acreditar, seus bostas! — disse Jibóia, ainda meio envergonhado.
Coitado do cara, não agüentou os olhares da Val e veio com esta desculpa fajuta. Bom, mas parece que vai colar.
— Homem é bicho bobo mesmo — disse a Val, balançando a cabeça. — Virgem! Até parece! Se você tivesse uns 17 aninhos isso seria até um charme, confesso que eu ficaria tentada a dar um jeitinho nisso. Mas velho desse jeito! Ah, se liga, mané!
E Val me puxou pelo braço. Quase deslocou meu ombro. Doeu pra caralho!
— Ai! Ficou louca, mulher?
— Louca de tesão. Vem!
— Aonde vocês pensam que vão? — disse Pezão.
— Assistir TV é que não é!
— Porra, então me dá a chave do carro! Eu não vou ficar aqui e ...
— Está vendo aquela porta? — e Val apontou para uma porta lá do outro lado da sala. — Qualquer bebida que você imaginar, lá você vai encontrar. Fiquem à vontade.
Pezão arregalou os olhos para a porta.
— Sério?
— Seríssimo. Podem tomar o que quiserem.
Pezão nem pensou duas vezes, correu na direção da porta.
— Seu tio não vai ficar puto? — sussurrei no ouvido dela.
— Ele nem vai notar. Aquilo lá é enorme.
Porra, agora quem ficou com vontade de ir lá fui eu. Uma garrafinha de Ice gelada cairia muito bem agora! Mas nem tive tempo para sugerir coisa alguma, Val me puxou pelo braço outra vez.
— Vai com calma, minha filha! Quer que eu fique sem braço?
— Sem braço eu nem me importo. O que eu quero de você é outra coisa.
E ela sorriu gostoso para mim.
Subimos uma longa escadaria. O corrimão parecia ser feito de marfim, muito bonito. Acho que a foi única coisa de bom gosto até o momento.
Nos cômodos superiores o mau gosto voltou. Paredes pintadas com cores escuras. Desta vez nenhum quadro. Os móveis eram grandes, porém feios. Estátuas eróticas havia aos montes.
— Seu tio é casado?
— Não.
— Ele mora sozinho nesta mansão enorme?
— Que obsessão é esta? Você quer transar comigo ou com ele?
— Só estou tentando entender como alguém consegue morar sozinho numa ...
Val me deu um beijo daqueles de levantar até defunto.
— Esquece o meu tio, Nandinho. Se a noite na choperia for boa, ele não vem pra cá tão cedo. Teremos a mansão todinha só para nós dois.
Sorri para ela, ainda excitado com o beijo maravilhoso.
Val começou a se despir. Primeiro arrancou a blusinha, seus peitinhos ficaram à mostra; nem grandes demais, nem minúsculos, eu diria proporcionais ao seu corpinho. Em seguida desceu a saia lentamente, provocando, de um jeito que só as garotas experientes sabem fazer. A calcinha era branca, cheia de florzinhas coloridas. Meu tesão veio a mil! Arranquei a minha camisa e tirei minha calça num estalar de dedos. Fiquei só de cueca. A barraca estava armada, se é que vocês me entendem.
— Que apetite, hein! — disse a Val, salivando. — Tira a cuequinha, tira!
— Não — respondi, sério.
— Não?
— Não — e apontei para a calcinha dela. — Primeiro as damas, né?
Ela caiu na gargalhada. Colocou as mãos na cinturinha e disse:
— Bobo!
Putz grila! Foi o melhor banho que eu já tomei na minha vida. Se eu soubesse que dava para fazer tantas coisas debaixo de um chuveiro, já teria feito há muito tempo!
Ah, fiquei com outra dúvida: isso aqui é uma mansão ou um motel? Meu, no banheiro tinha uma gaveta com pelo menos umas duzentas camisinhas, de todos os tamanhos, cores, sabores e marcas. O tio da Val sabe viver a vida. Estou sentindo uma pontinha de inveja deste filho da puta.
Quando eu pensei que iria descer as escadas para tomar alguma coisa, Val me puxou novamente pelo braço e me arrastou para a banheira. Ela queria brincar de submarino. Eu não fazia a menor idéia de como seria isso, até que ela afundou seu rosto debaixo da água e ... é isso mesmo que vocês estão pensando. Só não me pergunte como ela conseguiu fazer sem se afogar.
Bom, coisas de uma garota experiente, né?
De repente um susto. Ouvi um estrondo vindo lá debaixo.
— O que foi isso? — perguntei, olhando para a porta do banheiro.
— Não ouvi nada, Nandinho.
— Como não? Parece até que foi tiro.
— Não inventa.
E ouvi passos cada vez mais próximos.
— Vem vindo alguém — falei, meio apreensivo.
— Deve ser aquele seu amigo com cara de Maníaco do Parque. Aquele rapaz não bate bem da ...
Um baixinho atarracado saltou dentro do banheiro, apontando um revólver na nossa direção.
— Valeriana? — gritou o baixinho, olhando assustado para a Val.
— Tio?
Val ficou vermelha feito um pimentão. Colocou as mãos sobre os seios e tremia mais que gelatina.
O baixinho abaixou o revólver e limpou o suor de seu rosto.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ele.
— Tio, será que não é óbvio o suficiente?
O cara olhou feio para mim. Eu estava imóvel e bem assustado, afinal de contas estou nu na sua banheira e comi sua a sobrinha. E mais ... o cara está armado! Não é uma situação muito cômoda.
— E quem são aqueles dois idiotas lá embaixo?
— Meus amigos — disse a Val.
— Quase estourei os miolos dos dois — disse o baixinho, na maior tranqüilidade.
— Atirou neles?
— Eu pensei que fossem bandidos, porra!
— Mas eles estão bem?
— Sim, estão todos borrados de merda, mas pelo menos estão vivos.
Val não resistiu e caiu na gargalhada. Eu continuei imóvel e assustado.
— Você devia ter me avisado que estaria aqui, meu anjo — disse o baixinho.
— Desculpa, tio. Tem mais alguém com você?
— Sim, e é justamente por causa disso que você deveria ter me avisado a respeito da sua visitinha surpresa. — acho que ele percebeu o meu pavor. Olhou para mim e disse: — Fica frio, rapaz. Não vou atirar em você também.
— Fico feliz em saber — disse eu, tentando me acalmar.
— Vocês estão namorando?
Antes que eu respondesse não, Val beliscou meu traseiro debaixo da banheira. Algo me diz que não seria uma resposta muito adequada. Então ...
— Sim, estamos — disse eu, com a maior cara de pau do mundo.
— Val, se fosse outro dia eu não me importaria, mas vou ter que pedir para vocês irem embora Tenho negócios importantes a tratar. Há pessoas lá embaixo me esperando.
— Tudo bem, tio, já estávamos de saída mesmo.
— Você me entende, né?
— Claro, tio! Ah, só uma coisinha ...
— Fica sossegada. Não vou contar nada para a sua mãe..
Val abriu um sorrisão de orelha a orelha.
— E você — disse o baixinho para mim. — ,cuida bem da minha sobrinha favorita, hein! Ou ... — e o maldito mostrou a arma para mim.
— Sim, senhor.
Acho que mijei na banheira.
Nunca me vesti tão rápido na vida.
— Seu tio é gente boa; apesar de ter me ameaçado com uma arma.
Val sorriu, enquanto ajeitava seus cabelos diante do espelho do banheiro.
— Eu gosto muito dele. Nem parece que é irmão da minha mãe. São tão diferentes!
— O que ele faz da vida? Para morar numa mansão como esta, deve ser algo muito rentável.
— E é mesmo.
Fiquei olhando para ela, esperando que me contasse qual a profissão do tio, mas nem sinal.
— Ele é assaltante de banco, não é?
— O quê? Não, nada a ver.
— Mafioso então.
— Ficou maluco? Se fosse um mafioso, você acha que ele deixaria você sair vivo daqui?
— Bem pensado. Mas o que ele faz da vida então? Conta pra mim. Quando eu crescer, quero ser como ele.
Val caiu na gargalhada.
— Você é muito fofo, Nandinho!
Puta merda. Mas pra que tanto segredo assim? Eu, hein!
Começamos a descer a escada e Val sussurrou algo no meu ouvido:
— Café o quê? — perguntei. Não entendi direito o que ele disse.
— Cafetão — repetiu ela, baixinho.
— Cafetão?
— Fala baixo!
— Seu tio é cafetão? Sério?
Val balançou a cabeça afirmativamente.
Porra, mas é claro! Como é que eu não pensei nisso antes?
Continuamos descendo a escada. Lá debaixo eu ouvia vozes masculinas. Pelo que eu pude perceber, conversavam em outro idioma: inglês.
— Está cheio de gringos na sala — sussurrei no ouvido da Val.
— São os melhores clientes do meu tio. Quero dizer, só perdem para os alemães.
Quando chegamos na sala, a situação era a seguinte: havia uns 6 gringos sentados no sofá, todos eles com cara de cachorro no cio.
O tio da Val veio de mansinho na nossa direção.
— O carro preto lá fora é seu?
— Sim, é meu.
E o tio da Val começou a me revistar.
— O que é isso? — disse eu, assustado.
— Calma, rapaz, é só por precaução. Se você estiver limpo, nada irá lhe acontecer.
— Como assim limpo?
— Ele não é policial, tio! — disse a Val, apreensiva. — Pode confiar em mim.
Imediatamente o tio dela parou de me revistar.
— Tudo bem então. Perdoe-me.
— Sem problema — disse eu.
Neste momento entraram umas oito garotas na sala. Uma mais gata do que a outra! Eu nunca tinha visto nada igual na minha vida. Eram três loiras, três morenas, uma ruiva e uma mulata.
Estavam todas de cinta-liga e um roupãozinho transparente por cima. Eu pirei!!! Não consegui tirar os olhos de cima delas. Era a visão do paraíso.
Val me deu um puta beliscão. O beliscão foi tão forte que eu acabei dando um grito. Quando eu gritei, as garotas olharam para mim.
E foi aí que eu quase desmaiei. Uma das garotas era a minha querida, amada e "falecida?" ... Caroline.
Capítulo 10 · Quem Tem Grana...
Estavam todas de cinta-liga e um roupãozinho transparente por cima. Eu pirei!!! Não consegui tirar os olhos de cima delas. Era a visão do paraíso.
Val me deu um puta beliscão. O beliscão foi tão forte que eu acabei dando um grito. Quando eu gritei, as garotas olharam para mim.
E foi aí que eu quase desmaiei. Uma das garotas era a minha querida, amada e "falecida?" ... Caroline.
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Mas não pode ser! Caroline morreu!
Esfreguei meus olhos para ter certeza de que não estou vendo coisas. Sei lá, né? Talvez o fato do tio da Val ter apontado uma arma para mim pode ter me abalado psicologicamente e ...
— Perdeu alguma coisa, rapaz? — perguntou o tio da Val.
Eu não conseguia tirar os olhos da suposta Caroline. Ela não tinha os cabelos verdes, agora estavam loiros e com algumas luzes, mas é a Caroline! Eu sei que é ela! Mas como?
— Não, senhor — disse eu, com os olhos vidrados na loira.
O tio da Val colocou a mão sobre o ombro dela e disse, num tom de voz bem mais brando:
— Querida, vocês precisam ir embora.
De repente, vindo de não sei onde, criei coragem e ...
— Quanto custa? — perguntei para o tio da Val, olhando bem nos olhos dele.
O baixinho olhou com cara de poucos amigos para mim. Depois olhou na direção dos gringos e disse:
— I'll be right back! — depois olhou para as putas e disse: — Meninas, vocês sabem muito bem o que fazer. Vou ali e já volto.
Feito isso, o tio da Val nos arrastou delicadamente para fora da sua mansão.
Lá fora, insisti na pergunta. O baixinho não gostou muito.
— Não é para o teu bico, rapaz — disse ele.
Putz! A Val ficou puta da vida quando ouviu isso.
— Espera aí, tio! Aquelas vadias não são para o bico dele, e eu sou? Quer dizer então que você considera aquelas putas mais do que sua própria sobrinha? É isso?
— Valzinha, não começa!
O clima ficou meio tenso.
Val me puxou pelo braço, daquela forma delicada que só ela sabe fazer. Gritei de dor.
Quando o baixinho se preparava para abrir a porta da mansão, gritei para ele:
— Não é para mim! Tenho um amigo que é virgem e está nas últimas! Eu gostaria muito de poder ajudá-lo.
E parece que deu certo. O tio da Val ficou parado diante da porta por alguns segundos. De repente ele virou na nossa direção e fez sinal com os dedos, pedindo que fôssemos até ele.
Val olhou puta da vida para mim.
— Eu não quero olhar na cara dele — disse ela. — Se quiser, vá você sozinho.
E foi o que fiz.
Val, bufando de ódio, virou as costas e saiu batendo os pés na direção do portão. Uma longa caminhada, visto que o jardim é enorme.
— Quanto custa? — perguntei mais uma vez.
O tio da Val repetiu aquela cara de pouquíssimos amigos, mas finalmente respondeu:
— Olha, rapaz, cada gringo aqui dentro já depositou na minha conta 4 mil dólares por cada garota. Entregue minha sobrinha sã e salva e vá para a sua casa. Isso aqui é negócio de gente grande.
— Quatro mil dólares cada uma? Caralho, elas têm diamante na buceta?
— Tem a grana ou não tem? Se não tem, por favor desapareça daqui — e o baixinho filho da puta colocou a mão na cintura, deixando sua arma à mostra.
— Mas não tem como você dar um descontinho?
— Está vendo? É por isso que eu prefiro os gringos. Os filhos da mãe me pagam sorrindo. Já os brasileiros choram pra caralho.
Bom, pelo menos eu tentei. Virei as costas para o baixinho desgraçado e comecei minha longa caminhada até o portão.
— Três mil! — gritou o tio da Val — É o que dá fazer.
— Reais ou dólares?
E o filho da puta deu uma gargalhada daquelas, parecia uma hiena no picadeiro de um circo.
— Verdinhas, rapaz, verdinhas. Só trabalho com verdinhas.
— OK — respondi, desanimado. — Antes de ir embora, posso fazer uma última pergunta?
— Anda logo que eu tenho negócios para cuidar!
— Aquela loira com luzes nos cabelos. Por acaso o nome dela é Caroline?
— Não é da sua conta, garoto! E tem mais, puta não tem nome! Agora suma daqui, por favor! E peça para a minha sobrinha não ficar chateada comigo. Eu adoro aquela biscatinha.
Ao me aproximar do portão, avistei a Val, o Pezão e o Jibóia encostados no Opala. Estavam com caras de poucos amigos. Pareciam leões famintos aguardando sua presa.
— Não precisam olhar para mim com estas caras — falei, passando pelo portão. — Não tenho culpa de nada.
— Cala esta boca e me leva para casa! — disse a Val, bem nervosinha.
— Seu tio lhe mandou lembranças — falei, bem sínico.
— É? Pega estas lembranças e enfia no seu cu!
— Aooooooooooooooooooooooo!!! — gritou o Pezão, rindo. — Toma!
— Eu também quero ir embora, por favor! — disse o Jibóia, olhando para o céu. — Acho que vai chover outra vez.
— Realmente, a noite não saiu como esperávamos.
— Não mesmo — disse o Jibóia. — Até tiro a gente levou. Nunca senti tanto medo na vida.
— Mas você já está com os dias contados mesmo, cara — disse Pezão. — Eu não! O primeiro tiro passou a milímetros do meu rosto. Foi uma cagada muito grande não ter me acertado.
— Os filhos da puta também têm anjo da guarda.
Abri as portas do Opala. O cheiro era tão insuportável, mas tão insuportável que precisamos nos afastar dele por alguns minutos. Ou desmaiaríamos.
— Chama um táxi agora! — gritou a Val para mim. — Eu não entro neste seu carro nojento nem que a vaca tussa!
— Calma, deixa ele tomar um ar puro. Daqui a pouco o cheiro desaparece.
— Sinto em lhe informar, cara — disse Pezão. — Mas este cheiro aí não sai tão fácil não. Diga adeus ao seu carro. Você vai ter que vender a bagaça.
— Nem a pau!
— Alguém aí sentiu um pingo de chuva cair? — disse Jibóia, olhando apavorado para o céu.
— Enfia a chuva no seu cu, babaca! — gritou a Val.
E ficamos ali do lado de fora do Opala, encostados no muro da mansão, aguardando o mau cheiro diminuir. Ninguém se atrevia a chegar perto do carro. Tentei algumas vezes, mas não consegui. Será que o Pezão tem razão? Será que este cheiro não sai mesmo?
— Vocês também viram as putas? — perguntei, tentando puxar conversa.
— Claro que vimos — respondeu Pezão. — Uma mais gostosa do que a outra.
— Eram putas? — disse Jibóia.
Pezão fez um "pedala, Jibóia!". O tapa foi tão forte que Jibóia deve ter visto estrelinhas.
— O Jibóia ficou de pau duro quando elas entraram na sala — disse Pezão, rindo feito um louco. — Até esqueceu de se proteger dos tiros.
— Até você ficou de pau duro.
— Eu fiquei também — falei.
— Homem é tudo idiota mesmo, viu? — disse a Val, balançando a cabeça negativamente.
— Pezão, você viu uma loira com luzes nos cabelos?
— Luzes nos cabelos? Nando, e você acha que eu ia olhar para os cabelos das biscates? Se liga!
— Mas olhou para os rostos, pelo menos?
— Muito rapidamente. O cara chegou atirando feito um louco e tivemos que nos proteger. Depois não tivemos muito contato com as gostosas.
— Por acaso você não achou que uma delas era muito parecida com a ... ?
— Aquela mina que tinha cabelos verdes?
Quando Pezão disse isso eu me arrepiei todo. Isso prova que não foi apenas uma alucinação.
— Exatamente! — disse eu, com as pernas bambas. — Eu sabia que era ela!
— Se liga, Nando! A mina morreu, cara. Aquela puta deve ser parecida, só isso.
— Mas até o jeito de olhar era igual, cara! Quando ela me olhou nos olhos, eu quase morri do coração. É a Caroline sim!
— Não é, cara.
— É sim!
— Porra, vai lá e contrata a biscate então! Deve custar uns trezentos paus pra você dar uma trepada com ela e descobrir se é mesmo ou não.
— Trezentos? Trezentos? — e comecei a rir feito um doido. — Trezentos não pagam nem uma punhetinha.
— Meu tio enfia a faca nos gringos — disse a Val. — Como vocês acham que ele construiu uma mansão como esta?
— Quanto ele cobra pra gente passar o peru nelas? — disse Pezão.
— Parece que ele cobra 2 mil dólares por noite — disse a Val.
— O quê? — Pezão ficou indignado. — Vai tomar no cu! Duzentos reais estariam muito bem pagos. Elas têm ouro no xereca?
— Seu tio é filho da puta, hein! — falei. — Pra mim ele disse 4 mil dólares.
— Quatro mil? — disse a Val, espantada. — Caraca, já subiu então?
— Seu tio é maluco? Quatro mil dólares por uma trepada?
— Os gringos pagam e não reclamam, viu?
— Cambada de gringo idiota do caralho! Quatro mil dólares!
— Sexo deve ser um negócio gostoso pra caralho mesmo — disse Jibóia, bem triste. — Pra eles pagarem tanto assim.
— Eu até tentei um desconto pra você, cara — disse eu.
Jibóia pulou na minha frente, empolgadíssimo. Nem parecia a mesma pessoa. Seus olhos arregalados brilhavam.
— Sério? Sério? E aí? Conseguiu? Ele faria por quanto? Fala, Nando!
— Não se anime tanto — respondi. — O desconto até que foi bom, mas ainda custaria caro demais.
— Quanto, porra?????????????????
É impressão minha ou o Jibóia começou a falar palavrão de alguns minutos pra cá?
— Três paus.
— Três mil reais? — perguntou Pezão.
— Dólares.
— Três mil dólares? — disse Jibóia.
— Isso — respondi.
Jibóia não fez uma cara nem triste nem contente. Ele se afastou um pouco e parecia pensativo. Muito pensativo.
— Acho que vou começar a cobrar também — disse a Val. — Quanto você pagaria para me comer, Nandinho?
— Pagar pra você? Já comi tantas vezes de graça. Por que pagar?
Val me deu um puta beliscão no braço. Doeu pra caraaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!!!
— Eu pago! — disse o Jibóia, de repente.
Todos nós olhamos espantados para ele.
— Você pagaria para me comer? — disse a Val, toda empolgadinha.
— Você não — disse o Jibóia. — Eu quero uma daquelas — e Jibóia apontou para a mansão.
Putz!!!!!! A coitada da Val não sabia aonde enfiar a cara. Toma!!!
— Você não está falando sério, está? — disse eu para o Jibóia.
— Estou sim.
— Mas é muita grana, seu idiota! — disse o Pezão.
— E daí? O que eu tenho a perder? Posso morrer daqui a cinco minutos mesmo!
Bom, nisso ele tem razão.
— E você tem a grana? — perguntei.
— Tenho sim. Está no banco, mas tenho.
— Já sabe qual biscate vai escolher? — perguntou o Pezão.
— Eu quero a loira com luzes nos cabelos.
NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!
Capítulo 11 · O Silêncio que Precede o Esporro
— Você não está falando sério, está? — disse eu para o Jibóia.
— Estou sim.
— Mas é muita grana, seu idiota! — disse o Pezão.
— E daí? O que eu tenho a perder? Posso morrer daqui a cinco minutos mesmo!
Bom, nisso ele tem razão.
— E você tem a grana? — perguntei.
— Tenho sim. Está no banco, mas tenho.
— Já sabe qual biscate vai escolher? — perguntou o Pezão.
— Eu quero a loira com luzes nos cabelos.
NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!!
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Calma, Nando. A guria não é a Caroline. É apenas alguém que se parece com ela! A Caroline está morta. Morta! Entendeu?
A Val me passou o número do celular do tio dela. Jibóia não sossegou enquanto eu não liguei.
O cafetão dos infernos ficou puto quando soube que era eu, mas amansou quando mencionei os 3 mil dólares. É impressionante como dinheiro resolve uma porção de problemas, não é? Mas lembrem-se, não resolve todos.
Acertei todos os detalhes: local, garota e forma de pagamento. Por um instante fiquei de pau duro durante a conversa. Acho que Nando Júnior pensou que tudo aquilo seria para ele, coitadinho.
Desliguei o celular.
— Tudo certo? — perguntou Jibóia, ansioso feito um fumante que não vê cigarro há mais de uma semana.
— Sim, é hoje que você perde o cabaço.
Eu disse hoje porque já é madrugada, mas marquei a trepada dele para as 22h.
Os olhos do Jibóia até brilharam.
— Dá pra me levar pra casa agora ??? — resmungou a Val, bem nervosa.
Quando deixei a Val no portão de sua casa, ela me tratou da maneira mais fria possível; nem tchau ela me deu. Mas se eu a conheço bem, hoje mesmo ela me liga para sairmos outra vez. O problema é que eu não sei se vou querer atender. A Val é grudenta demais, não faz o meu tipo.
E assim terminou a nossa noite. Foi bem frustrante, eu esperava muito mais. Não que eu botasse muita fé na perda do cabacinho do nosso amigo Jibóia, mas no fundo eu achei que ele fosse ter uma morte digna: recebendo um sexo oral no estacionamento da choperia. Não sei se isso seria digno, mas pelo menos seria divertido. Melhor do que morrer no sofá da sala, assistindo a Sessão da Tarde.
Bom, mas o pior de tudo foi o maldito cheiro de gente morta que ficou no meu carro. Puta que pariu! Cinco minutos dentro dele e você começa a se sentir enjoado. Dá vontade de se jogar pela janela. Ah, e não nos esqueçamos do arranhão na lataria. Meu, acho que vou chorar.
A sorte é que o Jibóia se prontificou a pagar pela limpeza. Bom, era o mínimo que ele poderia fazer por mim, não é? Afinal de contas armei a primeira e (quem sabe?) a última trepada da vida dele. Quero dizer, se o Jibóia não morrer antes, é claro. Putz! Seria muito azar, não acham? Mas isso é coisa que geralmente aconteceria com um certo alguém que vocês já conhecem de longa data.
Pensei que ia dormir a tarde toda e descansar, mas não foi bem assim que a banda tocou ...
— Fernando, o que houve com o seu carro? — gritou minha mãe, enquanto abria a janela do meu quarto.
— Oi?
— O senhor ouviu muito bem a minha pergunta!
— O primo do Pezão passou mal e acho que não preciso contar o resto.
— E aquele arranhão, hein? Você estava dirigido bêbado, Fernando?
— Não, mãe.
— O carro está com um cheiro terrível!
— Mas aposto que não é cheiro de cerveja.
— E o mau cheiro está passando pra garagem, Fernando! É bom o senhor tratar de lavar aquilo, antes que o cheiro venha parar dentro de casa também!
— Tudo bem, mãe.
Ela puxou meu lençol com raiva. Poucas vezes vi minha mãe tão irritada assim.
— Agora levanta daí e dá um jeito naquilo, Fernando!
Caramba, vocês contaram quantas vezes ela disse Fernando? Bateu todos os recordes mundiais.
Levantei, tomei um banho, tomei café, peguei o telefone e liguei para a casa do Pezão. O próprio atendeu:
— Fala.
— Chama o filho da puta do seu primo aí.
— Impossível, cara.
— Chama logo aí, porra!
— Não dá.
— Mas não dá por quê?
— Porque ele morreu, Nando.
Putz!!! Sacanagem.
— Caralho! Quando ele morreu, cara?
De repente ouvi uma leve risadinha ao fundo.
— Pezão, seu filho da puta!!! — disse eu, irritado.
Aí o que era uma leve risadinha transformou-se numa puta de uma gargalhada.
— Peguei você direitinho, hein! — disse Pezão, rindo feito uma hiena que acabou de ser contratada pra fazer um filme pornô com a Gretchen.
— Pezão.
— Fala.
— Enfia o dedo no cu e assovia o hino da Coréia, seu porra!
— Ah, vai ser foda. Enfiar o dedo no cu eu até enfio, mas eu nem faço idéia de como seja o hino da Coréia, mano.
— Palhaço. Acordou engraçadinho hoje, não?
— Muito. Não são nem 10 horas da manhã e já meti gostoso três vezes.
— Já sei, você resolveu aliviar a tensão do Jibóia e comeu o cuzinho dele.
— O dele não, mas o da nova empregada sim. Meu, a mina teve a moral de vir limpar o meu quarto sem calcinha. Ah, aí quando ela se inclinava para limpar as minhas coisas eu não resisti e créu!!! Essa empregadinha está me deixando louco.
Porra, por que estas coisas não acontecem comigo também?
— Ela não é bonita — prosseguiu o Pezão. — , mas a filha da mãe tem uma bunda muito gostosa e os peitinhos são durinhos e pontiagudos, umas belezinhas. Foi a primeira diarista comível que a minha mãe já contratou até hoje. As últimas eu não teria coragem de catar, nem bêbado.
— Quando eu for aí você me apresenta a Marinete?
— Apresento porra nenhuma! Vai te catar! E o nome dela não é Marinete, cara. Bom, para ser honesto eu nem sei qual é o nome dela.
— Meu, pára de me enrolar e chama logo a porra do seu primo!
— O cara deve estar numa punheta daquelas. Faz mais de meia hora que o maldito está no banheiro.
— Talvez você estivesse certo então: morreu.
— TÁ VIVO, PRIMO?????? — gritou Pezão. Ainda bem que ele afastou a boca do telefone, ou teria estourado meus tímpanos.
Não consegui ouvir a resposta muito bem, mas parece que o Jibóia deu sinal de vida.
— Espera aí, ele vem vindo — disse Pezão.
— Beleja.
E Jibóia assumiu o telefone.
— Fala, Nando.
— Seguinte, preciso que você pague a limpeza do meu carro o mais rápido possível.
— Sem problema. Você passa aqui?
Caralho, tão fácil assim? Bom, o cara está pra morrer a qualquer momento. Nada mais justo do que resolver as pendências antes de bater com as botas, né?
— Sim, já estou a caminho então.
— Beleza.
Chegando em frente a casa do Pezão, acho que dei de cara com a tal diarista fogosa. Ela estava empurrando sua bicicleta pela calçada. Aprovo tudo o que o Pezão havia dito sobre ela; a bunda é mesmo deliciosa e os peitinhos têm um formato bonito. Agora o rosto ... puta que pariu!!!!!! Vai ser feia assim lá na casa do capeta!!!!!! Será que a diarista do Pezão é parente da Lelê? Páreo duro as duas, não sei dizer qual das duas é a filha favorita do demônio. Meu, de onde saiu aquilo ali? Sai, coisa ruim!!!!!!
Não resisti; assim que ela subiu na bicicleta eu disse:
— Oi, Marinete!
Ela olhou pra mim e não entendeu porra nenhuma. Comecei a rir sozinho. E ela saiu pedalando sua bicicleta cor-de-burro-quando-foge, tão linda quanto ela.
Pezão apareceu na janela do quarto dele. Dei jóia e gritei:
— Fala, São Jorge!!!
Em seguida, Pezão e Jibóia vieram até o portão.
— Por que você me chamou de São Jorge? — resmungou Pezão.
— Porra, quem mata dragão é o quê? — respondi, às gargalhadas.
Jibóia parou pra pensar um pouco e, quando caiu a ficha, também desabou numa gargalhada.
— O pior é que ela é gostosa — disse o Jibóia.
— Ah, isso ela é — reconheci. — Do pescoço pra baixo dá um belo caldo.
— Vão se foder vocês dois — disse Pezão, nervosinho. — Isso é inveja. Imaginem ela sem calcinha, só de avental, fazendo faxina no quarto de vocês.
Pois é, acho que eu comeria também. E o Jibóia idem, o cara está no desespero, o que vier é lucro.
— Mas eu vim aqui para resolver outras coisas — disse eu. E olhei para o Jibóia. — Vamos nessa?
Jibóia fez que sim com a cabeça.
— Espera, eu vou também — disse Pezão. E saiu correndo pelo quintal.
— Aonde você vai? — gritei.
— Pegar um carro, né? Não entro no seu enquanto não sair aquele cheiro de merda. Passei mal a noite inteira.
Mas isso será resolvido o mais breve possível.
Entramos no carro, engatei a primeira e saí queimando os pneus. Nem me lembrei que o Pezão viria atrás. Ah, dane-se o Pezão, não é ele que vai pagar o serviço mesmo.
Quando eu era guri, lembro-me de ter vomitado no banco de trás do carro do meu pai. É lógico que ele ficou uma fera comigo. Fiquei uma semana de castigo. O mais curioso de tudo é que a empresa onde meu pai deixou o carro para limpar ainda existe: Limpinhu's Lava Car. Apesar da fachada estar mais moderna, o lugar continua idêntico.
Assim que eu estacionei no pátio da empresa, o celular tocou, é o Pezão. O Jibóia desceu do carro, acho que não suportou o cheiro.
Putz! Acho melhor eu descer também. O cheiro está foda mesmo.
Atendi o celular.
— O que você quer? — disse eu.
— Onde vocês estão, porra? Por que não me esperaram?
— Estamos aqui no Limpinhu's.
— Limpinhos? Que porra de bar é este?
— Não é bar, caralho! É a empresa que vai dar um trato no meu opalão.
— Ah, eu sei qual é. Os caras mandam bem. Uma vez minha mãe deixou o carro dela aí e voltou novinho em folha.
— É o que eu espero.
— Tô indo aí então.
E desliguei o celular. Um dos funcionários da empresa veio até a nossa direção.
— Bom dia, em que posso ajudar?
— Bom dia — e abri a porta do carro. — Chega mais perto e você vai entender o motivo de estarmos aqui.
Antes mesmo do cara entrar no meu carro, já deu pra ver ele fazendo careta.
— Caramba! — disse ele. — Desculpa a pergunta, mas morreu alguém aí dentro?
— Felizmente não, mas é exatamente o que parece.
— Este vai dar trabalho. Nunca senti um cheiro tão forte.
— Mas tem solução, né?
— Sim, fica sossegado. Tudo na vida tem solução. Menos pra morte, é claro.
— Com certeza — confirmou o Jibóia, balançando a cabeça.
Deixei o Opala para ser devidamente higienizado. Espero que consigam tirar aquele maldito fudum. Deram um prazo de dois a três dias para concluírem o serviço. Eu achei um exagero, mas se ficar bom, é o que importa. O preço do serviço também não ficou muito baratinho, mas como não sou eu que vou pagar mesmo, foda-se.
De repente Pezão apareceu com um Vectra azul bonito pacas.
— O Pezão está de Vectra agora? — perguntei para o Jibóia.
— Não é dele, é da minha tia.
— A mãe dele troca de carro direto, né?
— Quem pode, pode.
— Vamos dar um rolê por aí? — disse Pezão.
E saímos de Vectra. Olha, show de bola o carrinho. Vidro fumê, DVD e o escambau. Só faltou um frigobar.
— Pra onde a gente pode ir? — perguntou Pezão.
— Porra, se fosse noite teríamos mais opções — falei. — , mas não deu nem meio-dia!
— Eu estou morrendo de fome — disse Jibóia.
— Eu também — disse Pezão. — Tem uma churrascaria aqui perto.
— Demorou.
Almoçamos e depois acompanhamos o Jibóia até o banco. O cara foi sacar a grana para pagar o tio da Val. O gordinho cafetão me disse em alto e bom som que só aceitaria o pagamento em dinheiro vivo. Maldito gordinho sem-vergonha dos infernos.
Ao nos despedirmos, ficou combinado o seguinte: 21h30 o Pezão e o Jibóia vão passar na minha casa e iremos direto para a mansão do cafetão, onde irá rolar o vuco-vuco. Com certeza Pezão e eu não poderemos ficar para assistir, então nós sairemos para dar um rolê. Quando o Jibóia terminar o serviço, nós voltaremos para a mansão para pegá-lo e bebemorarmos a tão aguardada perda do seu cabaço.
O dia custou a passar. Imagine para o Jibóia então! O coitado deve estar numa ansiedade monstruosa. Mil coisas devem estar se passando em sua cabeça pervertida. Será que vai ser bom? Será que vou gozar? Será que vou brochar?
Quando o relógio marcou 21h43, Pezão buzinou.
Assim que abri a porta de trás do Vectra, um cheiro forte me pegou de assalto. Reconheço que era um cheiro infinitamente melhor do que o cheiro que assola o meu pobre Opala, mas estava forte demais para o meu gosto.
— Caralho, quem foi que tomou banho de perfume? — perguntei.
— Eu não falei pra você, seu porra? — brigou Pezão com o primo.
— Mas eu passei só um pouco.
— Duvido! Deve ter despejado o frasco inteiro. Esta porra desse cheiro está me deixando tonto.
E Pezão saiu fritando os pneus.
— Trouxe camisinha? — perguntei.
— Ahã, uma porção — disse Jibóia.
É nítido o nervosismo em sua voz. E convenhamos, perfeitamente natural para a ocasião.
— Isso aí, rapaz, bota pra quebrar! Hoje é a sua noite.
— Você conhece a garota que eu escolhi?
Esta pergunta me pegou totalmente de surpresa.
— N... não, não. Ela apenas me lembra uma pessoa. Nada mais.
— Quer que eu confirme se é mesmo ela?
— Bom, acho meio difícil que você consiga fazer isso.
— Por quê?
— Porque putas raramente revelam seus nomes verdadeiros, Jibóia. Se você perguntar o nome dela, ela irá dizer o nome de guerra.
— Hmmmmm ....
Liguei no celular do tio da Val e avisei que estávamos chegando. Ele me falou algumas regras que o Jibóia deveria seguir lá dentro e bla bla bla. Nada de mais, coisas básicas como não poder entrar armado e não furtar nada da casa. Coisas que até eu e vocês não gostaríamos que o Jibóia fizesse em nossas próprias casas, não é?
Quando paramos o carro na frente da mansão, já tinha uma pessoa a nossa espera. O cara era grande feito um armário. Coitado do Jibóia se ele desrespeitar as tais regras de conduta.
— Vai lá, primo — disse o Pezão. — Não esquece de comer o cuzinho dela também. Por 3 mil dólares você deveria ter direito a comer até a mãe dela, porra.
— Pega leve, Pezão — falei. — Não pressiona o cara.
— Obrigado pela força que vocês me deram — disse Jibóia, agora com uma voz um pouco mais relaxada. — Se por acaso eu morrer e não conseguir me despedir de vocês ... venho puxar o lençol e assustá-los todas as noites!!!
— Pode parar com isso! — falei. — Se você morrer, vá para o inferno, mas não venha me encher o saco não! Fantasma ou não, chuto o seu saco.
Pezão abriu a porta do carro e gritou no ouvido do Jibóia:
— Chega de babaquice e vai logo, porra!
— E não se esqueça de ligar para o meu celular quando terminar — falei.
— Pode deixar.
Quando o Jibóia desceu do carro, o grandalhão o analisou de cima a baixo. Antes de deixá-lo entrar, o cara saiu e o revistou. Havia um certo volume na calça do Jibóia, só não sei se era o pau dele ou se era a grana no bolso da frente.
Capítulo 12 · Um Charlatão e um Segredo
Pezão abriu a porta do carro e gritou no ouvido do Jibóia:
— Chega de babaquice e vai logo, porra!
— E não se esqueça de ligar para o meu celular quando terminar — falei.
— Pode deixar.
Quando o Jibóia desceu do carro, o grandalhão o analisou de cima a baixo. Antes de deixá-lo entrar, o cara saiu e o revistou. Havia um certo volume na calça do Jibóia, só não sei se era o pau dele ou se era a grana no bolso da frente.
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— E agora, pra onde a gente vai? — perguntei.
Pezão estava concentrado, procurando CD no porta-luvas.
— Sei lá, nem estou muito animado hoje — respondeu ele, enquanto tentava descobrir de que banda era o CD que estava em suas mãos.
— É Deftones, seu cego!
— Defeitones?
— DEFTONES! Não conhece?
— Não. Esta porra deve ser do meu irmão.
— Não vou dizer que é uma super banda do caralho, mas é melhor do que todas as bandas de pagode juntas, isso eu te garanto.
— Grande bosta. Qualquer coisa é melhor do que pagode.
E Pezão colocou o CD pra tocar.
— Vamos sair pra encher a cara ou vamos ficar parados aqui? — resmunguei.
— Espera — e fez sinal para eu ficar quieto. — Quero saber que porra de música esta banda toca.
O som começou a rolar. Pezão colocou o volume no máximo. Puta merda, meus tímpanos quase foram arrancados fora. Por que a mãe do Pezão precisa de um som tão potente assim? Será que ela curte uma Tati Quebra-Barraco nas horas vagas?
Pezão olhou para mim e deu aquele sorriso filho-da-puta que só o cara sabe fazer.
— Caraaaaaaaaaalho!!! — disse ele, empolgado. — Até que o pirralho tem bom gosto!
Bom, eu acho que foi isso que ele disse. O som está alto demais.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Pezão saiu fritando os pneus do Vectra.
Demos um rolê pelo centro da cidade e acabamos no Guerreiro's Bar.
Ah, antes que vocês façam insinuações, esta porra não é bar GLS. A julgar pelo nome, vocês podem ter a impressão de que o lugar só dá baranga, mas é aí que vocês se enganam; já encontrei cada filé neste barzinho! E digo barzinho apenas por força de expressão, pois o local é bem grande; tem dois ambientes: Dance e Rock.
Os garçons são meio lerdos, mas em compensação a cerveja é barata e a porção de batatas fritas é a melhor que eu já comi. Hoje nem está tão lotado, mas foi a melhor opção que encontramos.
Assim que paramos, notei alguns olhares femininos sobre nós. O foda é que o Vectra da mãe do Pezão está show de bola, e sair com carro bacana deixa você com aquela pulga atrás da orelha: será que as minas estão olhando para mim ou para o carro?
Ah, querem saber? Foda-se!!! Elas podem desejar o carro, desde que o meu bilau entre em ação no final da noite, certo? E falando em bilau, será que o Jibóia já está mandando ver?
— E o Jibóia? — disse eu para o Pezão, enquanto descíamos do carro.
— O que tem ele?
— O que será que ele está fazendo neste exato momento?
Pezão bateu a porta do carro com força. Depois respondeu:
— Porra, se ele não estiver metendo, é bom que esteja morto! Porque não levo ele de volta pra casa nem a pau.
Não agüentei, caí na gargalhada, tipo uma hiena chegando ao motel com outras cinco hienas biscates.
Escolhemos uma mesa.
Quase cinco minutos depois, fomos finalmente atendidos. Eu avisei que os garçons daqui são lerdos, né?
— Amigão, aquelas três morenas ali — apontei com o dedo indicador — estão desacompanhadas?
O cara olhou discretamente para a mesa delas, depois voltou a atenção para a nossa mesa e respondeu:
— Sozinhas, sozinhas. Dá para acreditar? E a do meio está louquinha pra dar.
— É hoje! — disse Pezão, esfregando as mãos.
— Acabei de vir da mesa delas. A da esquerda acabou de pegar o namorado com outra; está meio deprimida. E a que está de costas para nós é a mais bonita, mas fuma mais do que uma chaminé.
— Foda-se! — falei. — Eu cato.
— Eu também tenho um negócio para ela fumar — disse Pezão, passando a mão na virilha.
— Ali é só chegar e levar — disse o garçom. — Querem uma dica?
— E eu preciso de dica? — resmungou Pezão, batendo a mão na mesa. — Eu não sou o Jibóia, porra!
— Cala a boca, Pezão! — falei, quase metendo a mão na cara dele. — O cara está querendo ajudar, cuzão! — e olhei para o garçom, dizendo: — Desculpa, amigão, diz aí.
— As três estão carentes. Paguem um drink para cada uma das três. Eu entrego e digo que foram vocês dois que ofereceram. É tiro e queda.
— Fechado — disse eu. — Manda ver.
— Para a deprimida, uma Batidinha de Frutas; isso vai animá-la rapidinho. Para a assanhadinha, uma dose de Nevada; ela vai ficar ainda mais excitada. E para a fumante, um bom Licor de Chocolate; isso vai tirar um pouco aquele bafão de nicotina.
— Caralho — disse Pezão. — O cara manja mesmo. Desculpa aí, mano.
Pezão estendeu a mão e cumprimentou o garçom. Foi legal da parte dele.
— E vocês vão querer uma cerveja, certo?
— Claro, né? — falei. — Já imaginou se a galera passa aqui e pega a gente tomando Licor de Chocolate?
— Nem a pau, Juvenal! — disse Pezão.
O garçom deu risada e saiu com os nossos pedidos debaixo do braço.
— Porra, gente fina o cara — falei.
— Sei lá, tenho medo de gente boazinha demais.
— Nem todo mundo é filho da puta como a gente, brother.
A nossa cervejinha chegou bem antes, é claro. Já nos preparávamos para a segunda garrafa, quando os drinks das garotas foram entregues pelo garçom gente boa.
Não sou nenhum PHD em leitura labial, mas eu saquei quando ele disse para elas: "foram aqueles dois rapazes". Aí ele gesticulou e apontou para a nossa mesa.
A deprimida e a assanhadinha olharam para nós. A primeira deu um sorriso meio amarelo; a outra abriu um puta sorrisão, do tipo que diz: eu topo uma transa a três!
A fumante nem se deu ao trabalho de olhar para trás. Continuou de costas para a nossa mesa. Foda-se! Eu fico com a tarada e o Pezão que se vire com a deprimida corna chifronésia.
Drinks entregues; o garçom veio até a nossa mesa, com um sorriso nos lábios.
— Eu não disse que ia ser molesinha? — disse ele, todo cheio de si.
— Elas curtiram? — perguntou Pezão.
— Claro! E a do meio já convidou vocês dois para a mesa delas. Agora é com vocês.
— É hoje! — falei, esfregando as mãos.
Cumprimentamos nosso amigão garçom, mas de forma discreta. E depois fomos direto e reto para a mesa das morenas. Putz! Estou sentindo que o bicho vai pegar!
No meio do caminho eu me atrapalhei com uma garçonete e o maldito Pezão chegou à mesa delas primeiro. Resumo da história: ele ficou com a tarada só pra ele. Restou uma cadeira entre a deprimida e a fumante. Bom, o que vier é lucro. Aquela que der mole primeiro, eu caio pra dentro.
A deprimida é uma graça! Linda, parece uma indiazinha. Longos cabelos negros, lisos e brilhantes; tão brilhantes que quase vi o meu reflexo neles. Olhos grandes e expressivos, atrás de um discreto e elegante par de óculos. O narizinho é tão pequenino e delicado que a gente quase não o percebe. A boca é grande e seus lábios não chegam a ser finos nem grossos; eu diria proporcionais ao rosto. Quando ela se levantou para me cumprimentar, surpreendi-me com sua estatura; ela é bem alta.
— Muito prazer — disse eu. — Eu sou o Nando. Na verdade é Fernando, mas ...
— Aposto que só a tua mãe te chama pelo nome, né?
— Exatamente — e sorri para a indiazinha.
Ela sorriu de volta. Agora um sorriso mais bonito e verdadeiro do que aquele sorriso amarelo de agora há pouco.
— Muito prazer, Nando — disse ela, olhando bem nos meus olhos. — Eu sou a Nayra. Esta é a minha amiga ...
Quando tudo parecia estar caminhando bem, olhei para a minha direita e dei de cara com a terceira morena: a chaminé ambulante.
— Oi, Nando — disse ela. A voz é anasalada e tremendamente irritante. — Lembra de mim?
Putz! O pior de tudo é que esta voz é familiar. E o rosto também não me é estranho.
— Vocês se conhecem? — perguntou a assanhadinha. Esta, com as mãos nas coxas do Pezão.
— Eu me lembro muito bem de você, Nando — disse a fumante, após uma enorme baforada na minha cara.
— Desculpa, mas eu confesso que não consigo me lembrar de você. Qual o seu nome?
— Aparecida — respondeu ela, sentando-se novamente e cruzando as pernas. Lindas pernas, diga-se de passagem.
A indiazinha e eu nos sentamos também. Fiquei sentado entre as duas amigas.
— Desculpa — disse eu, olhando para a fumante — , mas você deve estar enganada. Não conheço nenhuma Aparecida.
— Talvez você se lembre da Cidinha Rolha dePoço.
Como é que é? Cidinha Rolha de Poço? Porra, é claro que eu lembro. Era uma gorda horrível, cheia de espinhas na cara e ....
— O que tem ela? — disse eu, espantado.
A fumante apagou o cigarro no cinzeiro, ficou de pé, olhou bem fundo nos meus olhos e respondeu:
— Está olhando para ela, babaca!
E a chaminé ambulante passou bufando por mim. Ela pisava com tanta força que o seu tamanco deve ter trincado o chão do bar.
— Aquela gostosa é a Cidinha Rolha de Poço? — disse o Pezão, com os olhos vidrados na bunda dela.
Não pode ser!!! A Cidinha Rolha de Poço era enorme! A menina era tão gorda que a escola precisava encomendar cadeiras e carteiras especiais só para ela.
Como é que ela se transformou naquele pedaço de mau caminho? Galera, aquilo ali que estava bufando fumaça era um tremendo mulherão. Tudo bem que parecia uma chaminé, mas era uma morena de parar o trânsito. Concordo com o garçom; é a mais bonita das três.
— Volto logo, tá? — disse a indiazinha, indo atrás da amiga. — Vou ver o que deu nela.
Bom, eu sei exatamente o que deu nela.
Nós estudamos juntos, há muitos e muitos anos atrás, quando éramos crianças. Todos os anos, em junho, acontecem as tradicionais Festas Juninas. Nem preciso dizer quem sobrou para ser meu par na quadrilha, né? Sim, ela, a Cidinha Rolha de Poço.
Mas a guria era muito gorda!!! Como poderíamos dançar sem que ela me esmagasse? Como eu poderia escapar daquela humilhação? A escola todinha estaria lá para me ver pagar aquele mico histórico.
Resumo da história: no dia da festa eu não fui. A coitada da gorda foi a única que dançou a quadrilha sozinha.
Depois daquele dia ela pegou um ódio mortal da minha pessoa. Sempre que nos encontrávamos ela jurava vingança.
Bom, só espero que ela não resolva se vingar hoje, pois eu estou louco para levar a sua amiga indiazinha para o motel.
Enquanto eu esperava o retorno das duas, Pezão quase engolia a tarada em pleno bar. Era língua pra cá. Mão cega pra lá. Uma pegação sem igual. Os dois estavam quase transando ali do meu lado.
Ah, esqueci de dizer que o nome da morena assanhadinha é Margareth. O Pezão se deu bem, a desgraçada é muito gatinha. Pele branquinha, seios durinhos, barriga tanquinho, pernas compridas e uma voz rouca sexy pra caralho. Aposto como ela é locutora de alguma rádio. Nunca tinha ouvido uma voz tão linda.
Porra, se não fosse aquela maldita garçonete, eu teria chegado primeiro à mesa e ...
Meu celular está tocando: é o Jibóia. Será que ele já terminou o serviço?
— Fala, Jibóia dos infernos — disse eu. — Perdeu o cabaço?
— Me ajuda, Nando! — disse ele, apavorado.
— O que foi, cara?
— Como é que eu tiro a porra da camisinha?
— O quê? Deixa a porra na camisinha, cara. Depois é só dar um nó e ...
— Não é isso! Eu quero saber como é que eu tiro a camisinha da embalagem?
— Jibóia, você está de brincadeira comigo, né? E cadê a biscate?
— Ela desceu pra pegar uma garrafa de vinho. Eu não consigo abrir esta maldita embalagem, Nando! Me ajuda, caramba!
Fala sério, hein!
— É fácil, seu idiota! Está vendo os lados picotadinhos?
— Picotadinhos?
— Sim, repare que há diferença entre os lados picotadinhos e os outros.
— E o que eu faço?
— Porra, Jibóia, usa a cabeça! Segura firme a embalagem com as duas mãos sobre um dos lados picotados. Com uma das mãos você empurra para frente; com a outra você puxa na direção do seu peito. Entendeu?
— Espera. Vou tentar.
Ninguém merece.
— Conseguiu? — perguntei. — Conseguiu, porra?
E a ligação caiu.
O filho da mãe deve ter ficado empolgado com a camisinha nas mãos. Talvez nunca tenha visto uma na vida, né? Se bobear, até gozou ao abrir a embalagem.
Quando dei por mim, Pezão e Margareth já haviam se mandado dali. Maldito Pezão filho da puta dos infernos!!!
Levantei-me e pude vê-lo deixando o estacionamento com o Vectra. O cuzão me largou aqui sozinho e saiu com a tarada para o motel. Com um amigo como este, quem precisa de inimigo?
Mas parece que nem tudo está perdido ...
— Voltei — disse a indiazinha, sentando-se ao meu lado.
— Ufa — disse eu, aliviado. — Pensei que vocês tinham ido embora.
A indiazinha finalmente percebeu a ausência da outra amiga.
— Cadê a Margareth?
— Será que preciso mesmo responder?
E sorri de forma sacana.
— A Ma é foda, viu? — disse ela, fazendo bico. — Só pensa em sexo. Eu agüento ficar até uns seis meses sem.
— Sério? Seis meses? Seis dias sem umazinha e eu já entro em parafuso.
— Homem é tudo igual mesmo. Fala sério, viu?
— Não é bem assim. Conheço garotas que não suportam ficar três dias sem.
— A Margareth não agüenta nem dois dias.
— Putz! O Pezão será estuprado então.
— Ah, aquele seu amigo também tem uma cara de tarado, viu?
E ficamos os dois rindo feito bobos. Gostei da indiazinha! Além de muito gata, parece ser gente fina também.
Quando percebi um certo clima, parti pra cima dela e tentei um beijo. Ela recusou. Há muito tempo eu não ficava tão sem graça.
— Aqui não! — ela sussurrou no meu ouvido.
— Por que não? — falei baixinho também.
— Prometi para a Aparecida que não rolaria nada entre nós dois.
— Ah, não seja boba!
— Ela disse que nunca mais olharia na minha cara.
E tentei beijá-la outra vez. Ela desviou novamente.
— A Aparecida não está passando muito bem. Vou levá-la para casa Aí saímos para um lugar mais tranqüilo. O que você acha?
— Adorei a idéia — respondi, esfregando minha mão direita sobre a coxa dela.
De repente ela me surpreendeu com um beijo. Um beijinho rápido, praticamente um selinho. Foi muito bom.
— Mas cadê a sua amiga? — perguntei.
— Já está vindo. Ela está com alguns problemas estomacais esta noite. Pobrezinha.
— Pobrezinha? Peça para ela parar de fumar, isso sim. Se o estômago dela está ruim, imagine o pulmão!
— Verdade. Eu não me canso de pedir para ela parar de fumar, mas não adianta. Quanto mais a gente pede, mais ela fuma.
— Mas uma coisa eu preciso admitir, ela está linda.
— Como assim? Quando você a conheceu ela não era?
Comecei a rir.
— Deixa pra lá — falei, segurando para não soltar uma gargalhada monstro.
Cidinha, quero dizer, Aparecida, voltou. Estava com uma cara de pouquíssimos amigos. Além disso estava pálida e transpirava bastante.
— Você está bem? — perguntou Nayra para a amiga.
— Não. Me leva urgente pra casa, Naná.
— Claro, amiga.
Cidinha não gostou muito quando soube que eu iria junto, mas também não fez nenhum escândalo.
E lá fomos nós três. Nayra tem um Ka prata. Bonitinho, mas não faz meu gênero. O bagulho parece um ovo com rodas.
Ao engatar a ré, Nayra quase atropelou um casal que estava encostado num Corsa. Depois, ao engatar a primeira, quase entrou dentro do bar. Fiquei com medo de perguntar, mas achei melhor arriscar:
— Você está em condições de dirigir?
Eu a vi me olhando torto pelo retrovisor.
— Homem é tudo igual mesmo. Machista!!!
Nayra saiu do estacionamento do bar e quase entrou no meio de um ônibus que passava pela avenida. Demorei um pouco para entender que Nayra não está bêbada, ela é barbeira mesmo.
— Gatinha, você não acha melhor eu ir dirigindo? — tentei outra vez.
Ela nem me deu bola. Engatou uma primeira bem longa e meteu a segunda aos trancos e barrancos.
Parece que a aventura está só começando. Fechei os olhos e entreguei tudo nas mãos do meu anjo da guarda. O problema é que vocês conhecem muito bem o meu anjo da guarda, né? O desgraçado costuma cochilar de vez em sempre.
Se já não bastasse uma meia-roda no volante, a outra ao seu lado estava com caganeira. O problema estomacal da Cidinha era mais grave do que eu imaginava. Aposto que a mina já está toda cagada.
— Eca, que cheiro horrível é este? — resmungou Nayra.
Imediatamente, a Cidinha inclinou-se sobre a amiga e cochichou alguma coisa no ouvido dela. A reação da Nayra foi imediata.
— Credo, Nando! — disse ela, super irritada. — Não dava para esperar e soltar lá fora?
— Como é que é? — fiquei muito puto. — Eu não fiz nada!
— Seu porco! — gritou Cidinha.
— Eu, né? Ah, se liga! Quem é que está com problemas estomacais?
— Vou ter que parar! — disse Nayra, dirigindo pelo meio da pista. — Não estou conseguindo dirigir direito com este cheiro!
Minha filha, com ou sem cheiro, você não sabe dirigir!!!
— Ele soltou mais um, Naná! — gritou a maldita Cidinha.
E foi aí que aconteceu uma cena que ficará gravada em minha mente pelo resto da vida: Nayra entrou em pânico, soltou as mãos do volante e começou a gritar de forma histérica. Daí pra frente eu não me lembro de mais nada.
Testemunhas dizem que o Ka passou em altíssima velocidade sobre uma lombada e decolou. Acertamos um Uno de raspão e acabamos batendo no muro de um casal de velhinhos. Quase fomos parar dentro do quarto deles.
Por incrível que pareça, nós três, ocupantes do Ka, sobrevivemos. Infelizmente o casal de velhinhos não teve a mesma sorte; os pobrezinhos morreram na hora. O susto foi grande demais para eles.
Dois dias após o acidente, Pezão e Jibóia foram me visitar no hospital. Quando Jibóia entrou no quarto, pensei que nós dois havíamos morrido e estávamos nos encontrando em algum lugar do infinito.
— Cara, seu anjo da guarda é forte, hein! — disse Jibóia.
— Será?
— Claro que é! Se você visse o estado em que ficou o carro ... Putz!!!
— Quase que você foi pro saco antes do Jibóia — disse Pezão.
— Falando nisso — disse eu para o Jibóia. — , você continua vivinho da Silva.
— Pois é, não morri ... ainda.
Ficamos em silêncio.
— E aí, perdeu o cabaço?
Antes que Jibóia respondesse, Pezão caiu na gargalhada.
Xiiiiiiiiiiii, já estou vendo que não comeu porra nenhuma.
— Continua virgem?
Jibóia balançou a cabeça afirmativamente.
— Porra, Jibóia!!! O que houve? Não conseguiu tirar a camisinha da embalagem?
— Consegui.
— E ???????????
— E foi aí que eu descobri que sou alérgico ao látex.
— Você está brincando comigo, né?
Jibóia balançou a cabeça negativamente.
— Ele foi internado às pressas, Nando — disse Pezão, rindo feito uma hiena com coceira no ânus. — Até ontem ele era seu vizinho de quarto aqui no hospital.
— Sério? — perguntei.
Jibóia balançou a cabeça afirmativamente. Sacanagem, fiquei com pena do cara.
— E não rolou nem uma chupetinha?
Aí os olhinhos do Jibóia brilharam e ele abriu um sorrisão feito uma criança quando descobre que o pai trouxe sorvete.
— Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee, Jibóia!!! Só no glu-glu, hein!!!
Eu até queria estender minha mão direita e fazer um "toca aqui!", mas foi aí que eu me lembrei de que estava com mais da metade do corpo enfaixado.
— É muito bom, né? Principalmente quando ....
Um médico entrou no quarto, às pressas. Parecia apavorado com alguma coisa.
— Se perguntarem por mim — disse o médico. — , digam que não me viram. Combinado?
Jibóia estendeu a mão na direção do médico e disse:
— Lembra de mim, doutor? Está tudo bem com o senhor?
O homem nem lhe respondeu. Escondeu-se atrás da cama onde eu estava deitado.
— Espera aí — disse Pezão, indo na direção do médico. — Eu conheço este safado filho de uma puta do caralho!!!
— Foi ele que me examinou quando eu bati a cabeça, primo — disse Jibóia.
Pezão pegou o médico pela gola do jaleco e o obrigou a ficar de pé.
— Foi este cuzão que disse que você ia morrer a qualquer momento?
— Sim, mas por que você está chamando o doutor de cuzão?
— Você o conhece? — perguntei.
— Claro que conheço!!! Olha bem para este filho da puta, Nando! Não lembra?
Antes que eu pudesse olhar bem para a cara dele, o cara empurrou o Pezão e saiu correndo em direção à porta. Quando esta se abriu, uns cinco policiais avançaram nele e o algemaram.
E foi só aí que a minha ficha caiu ... Este médico é aquele mesmo médico que operou o pinto do Pezão naquela clínica falsa, meses atrás. Lembram? O cara é um puta charlatão. Acho que nem diploma ele tem.
Ficamos contentes por descobrirmos que o Jibóia não tem nenhuma doença grave, e que não está para morrer a qualquer momento, como afirmara o falso médico.
Saímos para celebrar e tomamos um porre daqueles. Margareth foi junto com a gente, afinal de contas agora ela é a Sra. Pezão. Pois é, acreditem se quiser, Pezão está namorando firme.
Antes do famoso "FIM", preciso lhes contar algumas coisas muito importantes:
Lembram da loira com luzes nos cabelos? Além do glu-glu que ela fez no Jibóia, os dois também conversaram. Durante a conversa, Jibóia tocou no assunto Caroline. A loira afirmou que tudo não passava de uma coincidência, mas ... parece que ela ficou bem abalada ao ouvir o nome da falecida.
A melhor parte vem agora ...
Quando Jibóia sofreu o ataque alérgico e teve que ser levado às pressas para o hospital, a loira pensou que ele fosse morrer. Com a consciência pesada, ou sabe-se lá por quê, ela acabou lhe contando um segredo ao pé do ouvido.
A loira que fez o primeiro sexo oral da vida do Jibóia não é a Caroline, mas sim irmã dela.
E agora, para terminar, acabei de ficar sabendo que o Jibóia comeu a Maura.
Ele e a torcida do Flamengo, né? Hehehe ...
( FIM )
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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