Capítulo 1 · Mais Dúvidas
Rrrrrrrrrrinnnnnng!!! Rrrrrrrrrrriinnnng!!!
Já vai! Já vai, porra!
— Fala, Pezão do caralho.
— Babalu Babaloá. Meu nome é Maurício.
Nãããããããããããão!!! Eu ouvi direito??? Ah, não acredito nisso.
— Puta que pariu!!! — disse eu, apavorado. — Vai começar tudo de novo?
Silêncio.
De repente Pezão caiu na maior gargalhada, tipo uma hiena que acabou de perder a virgindade.
— Peguei você, vacilão!!! — disse ele, ainda às gargalhadas.
Puta merda. O filho da puta quase me mata de susto, porra!!!
— Pezão.
— Fala. Não, espera aí, eu já sei. "Enfia o dedo no cu e assopra!!!". Acertei?
— Não. Eu ia dizer pra assoviar o hino da Coréia, mas tudo bem.
— Fica frio, cara. Aquele lance de Babalu já morreu. Nunca mais quero ouvir falar naquilo. — ouvi ele batendo três vezes em algum objeto de madeira.
— Você não tem noção de como ficou ridículo.
— Imagino. Maldito anão filho da puta. Fez uma lavagem cerebral em mim. Você acredita que eu não me recordo de quase nada?
— Sério?
— Sério, cara. Foi como se eu estivesse em transe ou sei lá. As palavras saíam da minha boca, mas era como se alguém tivesse me guiando por um controle-remoto.
— Vai se foder, Pezão. Não viaja.
— Estou só tentando explicar, seu porra!!!
Silêncio por alguns instantes. Até que eu não resisti e resolvi tirar um sarro ...
— Quer dizer então que você não se lembra do traveco comendo o seu rabo?
— O quê???????????
Acho que o filho da puta deve ter caído do sofá. Ouvi um estrondo pelo telefone.
— Você não lembra? — insisti. — O travecão levou você pro quarto e ...
— Ninguém enfiou nada no meu rabo — disse ele, puto da vida. Aposto que suas veias da testa estão saltando feito cangurus enlouquecidos. — Não tente me fazer de idiota. Posso não me lembrar de alguns detalhes, mas ...
— Você que sabe — falei o mais sério que pude, apesar de estar louco para explodir numa gargalhada histérica. — Se quer esconder isso da sua mente ... tudo bem.
— Não estou escondendo nada de ninguém. Isso que você disse não aconteceu. Não aconteceu, porra!!!
— Fica frio, Pezão, não vou contar nada pra ninguém.
— VAI SE FODER !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E bateu o telefone na minha cara com tanta raiva que deve ter partido o seu aparelho em diversos pedaços.
Nossa!!! Ficou nervosa a menina!!!
Explodi numa gargalhada monumental. Até meus irmãos vieram espiar o que eu estava fazendo.
Aposto que o telefone vai tocar novamente. É só uma questão de ...
Riiiiiiiiiiiiiiiiiiiinnng!!!
Eu não disse? Conheço o filho da puta. Atendi o telefone:
— Fala, seu bosta!!!
— Meu, liga o rádio agora!!!
Sua voz havia mudado completamente. De irritado passou a excitado.
— O que houve? — perguntei.
— Liga o rádio, porra!!! E sintoniza a Municipal!!!
E Pezão caiu na gargalhada.
Liguei meu aparelho de som e sintonizei a Rádio Municipal. É uma rádio pirata que tem aqui na minha cidade. Acredite se quiser, é a melhor rádio que temos. Os caras tocam rock o dia todo, e ainda dão oportunidade para as bandas locais mostrarem o seu som. Mas continua sendo pirata, né? Algum dia a casinha deles cai, infelizmente.
— Rápido, Nando! — gritou Pezão. — Antes que acabe a porra da música!!! Você não vai acreditar!!!
Quando aumentei o volume eu realmente não pude acreditar no que estava ouvindo.
Reparem na letra!!! Hahaha ... Parece familiar???
Diga aí, camaradinha.
O que é que há?
Cuidado, uma joaninha!
Deixa que eu mato. Pá!
Fala aí, sua bicha.
O que é que há?
Se liga, uma lagartixa!
Deixa que eu mato. Pá!
E quando a música ia terminando entrou a voz do locutor. O cara disse que o nome da música era Rock do Maluco, da banda The Fodidos.
É claro que eu quase mijei na cueca quando terminei de ouvir tudo aquilo.
— Meu, o que foi isso??? — disse eu, rindo histericamente, tipo uma hiena arrancando piolho.
— Fizeram uma música para o Pigmeu??? — disse Pezão, rindo tanto quanto eu.
Precisei tomar fôlego pra poder dizer alguma coisa. Eu não conseguia parar de rir.
— Era só o que faltava — respondi, enfim. — Que banda é esta?
— Nunca ouvi na minha vida. Mas já virei fã dos caras!
— Com certeza! Eu também! Eles só erraram uma coisa.
— Eu até já sei o que é. O camaradinha não diz lagartixa. Ele diz ...
— Largatixa!
E caímos na gargalhada outra vez.
Desliguei o telefone, segurando pra não mijar na cueca.
Foi uma pena vocês não terem ouvido a música. É hilária! E os caras da banda mandam bem. Rock de boa qualidade. Chegou a lembrar os Titãs em início de carreira, quando eles faziam um rock bem mais porrada. Animal!
Anotem o nome da banda: The Fodidos. Aposto que algum dia serão famosos. Meu, já imaginaram a música do camaradinha tocando no Domingão do Faustão???
Hahahaha ... Tem uma joaninha na sua barriga, Faustão! Pá! Oloko, meu!!!
Alegria de pobre dura pouco.
— E agora vamos às notícias de hoje — disse o locutor, com uma voz séria.
Não sei explicar, mas juro pra vocês que os pêlos dos meus braços ficaram arrepiados quando ouvi aquela frase. Tive a nítida sensação de que alguma coisa terrível tinha acontecido com um conhecido meu. E o pior de tudo ... senti que a notícia iria me afetar diretamente, como um soco no estômago.
Aumentei o volume, com as mãos trêmulas. O locutor começou a ler as notícias:
— Um garoto de 11 anos foi encontrado morto no pátio do Orfanato São Lucas, em Taubaté. O menino, conhecido apenas por Caíque, foi brutalmente assassinado. Os legistas que examinaram o corpo encontraram mais de 20 golpes de um objeto cortante, muito provavelmente um canivete. Nenhuma outra criança do orfanato foi ferida.
Caíque? Caíque não é o nome do irmão da Caroline?
Caraaaaaaaaaaaaaaaalho!!!
Precisei me sentar. Minhas pernas ficaram moles feito borracha.
E o locutor prosseguiu, dando mais detalhes ...
— ... o crime chocou a cidade. A população exige a prisão imediata do cruel assassino. A polícia possui poucas pistas até o momento. Duas testemunhas afirmaram ter visto um homem correndo pelas proximidades do orfanato durante a madrugada. Segundo as testemunhas o homem teria por volta de 1,65 de altura e uma cicatriz na testa.
Desliguei o aparelho de som. Aquilo estava me deixando louco. O garoto assassinado era o irmão da Caroline. Eu não tinha a menor dúvida.
Vinte golpes de canivete? Putz! Senti até uma pontada no peito ao imaginar uma coisa tão cruel e terrível.
Pobre garoto.
Ainda lembro daquela sua ligação apavorada. Colocara o seu na reta em troca de me dar um aviso. E agora ele está morto.
Agora fica a pergunta ... Quem foi o assassino? Será que foi a madrasta? Se foi ela, então quem seria o homem da cicatriz na testa?
E mais uma ... O assassino virá trás de mim?
O guri tinha me dito que eu seria o próximo, não foi?
Perdoem-me, mas preciso ir ao banheiro. A vontade de mijar na cueca passou, em compensação me deu um cagaço!!!!!!!!!
Santa Pixirica.
Capítulo 2 · O Carro Preto
Agora fica a pergunta ... Quem foi o assassino? Será que foi a madrasta? Se foi ela, então quem seria o homem da cicatriz na testa?
E mais uma ... O assassino virá trás de mim?
O guri tinha me dito que eu seria o próximo, não foi?
Perdoem-me, mas preciso ir ao banheiro. A vontade de mijar na cueca passou, em compensação me deu um cagaço!!!!!!!!!
Santa Pixirica.
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Não vou mentir para vocês; a notícia me deixou com os nervos à flor da pele. Passei o dia meio paranóico; assustando-me com praticamente tudo que se movia à minha frente.
Quando a noite chegou eu fiquei ainda mais assustado, é claro.
E o pior de tudo é que eu não consegui entender o motivo de tanto medo. Afinal de contas eu corro perigo? O guri havia me dito que a sua madrasta estava na minha cola. Mas por que a mãe da Caroline viria atrás de mim? O que eu fiz para ela? Só por que eu comi a filha dela algumas vezes? Não, isso não é motivo para uma mãe vir atrás de mim. Se fosse assim eu já estaria morto há muito tempo, não é?
Tentei relaxar de todas as formas possíveis. Até aquilo eu fiz. Se é que você me entende.
Depois liguei a TV e deixei no Programa do Jô. Estava tão interessante que eu devo ter dormido logo no começo da segunda entrevista da noite.
Nem preciso dizer que tive sonhos terríveis, não é? Num deles um homem misterioso me perseguia numa estrada deserta. Ele com um carro preto — muito parecido com aquele do seriado Super Máquina — e eu com um Fusca vermelho. Falando em Fusca vermelho, vocês já repararam que este carro me persegue? Analisem comigo ... o travecão psicopata que encontrei no episódio do Show do Rappa tinha um Fusca vermelho; Caroline, minha doce e falecida Caroline, também tinha um Fusca vermelho. Meu, muito estranho isso. É coincidência demais para o meu gosto. Mas voltando ao meu pesadelo ... O cara misterioso me perseguiu durante horas, até que capotei o Fusca num barranco. Saí do carro sem um arranhão sequer, mas o maluco assassino continuou na minha cola, atirando em mim com uma espingarda velha. Ainda bem que o cara era ruim e não acertou nenhum tiro; nem de raspão. Curioso como a minha sorte muda nos pesadelos, não? Se fosse na vida real eu garanto que já teria morrido ao capotar o Fusca. Bom, não vou me alongar muito ... o psicopata me perseguiu por um bom tempo; cruzei rios, estradas de terra e vastos matagais. Sempre correndo desesperadamente. Num determinado momento ele finalmente me alcançou. O desgraçado me acertou um golpe com o cano da espingarda, derrubando-me. Para ser sincero eu estava mais curioso do que assustado. Eu queria muito saber quem era aquele filho da mãe que me perseguia por horas e horas. Mas quando olhei para ele só consegui enxergar uma cicatriz na testa; o rosto estava todo borrado e fora de foco.
E foi aí que acordei ...
Eu estava todo molhado. Calma, porra! Molhado de suor ... de suor!!! Se liga!
Levantei ainda mais paranóico, se é que isso era possível. Tomei um banho para me livrar do suor e voltei para o meu quarto. Notei que minha mãe me olhou com uma cara bem estranha, mas não me disse nada. Um verdadeiro milagre, diga-se de passagem.
Abri a janela do meu quarto e levei o maior susto de toda a minha vida ... o meu coração quase congelou. Havia um carro preto estacionado em frente ao portão da minha casa. Não era exatamente o mesmo carro do pesadelo, é claro que não. Isso aqui não é nenhum filme de Hollywood; isso aqui é a vida real. Porém o carro era preto e estava lá, estacionado em frente ao portão da minha casa. Era um Opala preto.
Alguém aqui já viu alguma pessoa bondosa e caridosa dirigindo um Opala preto? Eu não sei você, mas eu nunca conheci. Só pode ser o carro do assassino do moleque! Entrei em pânico. Peguei o telefone e liguei para o Pezão. Sei lá por que eu fiz isso, mas fiz. Acho que foi o desespero. Sei lá, porra! Eu precisava desabafar com alguém, nem que esse alguém fosse o meu amigo mais filho da puta.
— Alô — era a voz do pirralho.
— Seu irmão está aí, guri? — perguntei, segurando o telefone com força e olhando o carro pelo vão das cortinas. Meus olhos nem piscavam.
— Que voz é esta, Nando?
— Voz de cagaço. Agora chama o Pezão, caralho!!!
— Calma, oh! Vou chamar. Está todo mundo nervosinho hoje. Eu, hein!
Alguns segundos depois o guri passou o telefone para o irmão.
— Fala — disse Pezão, com a voz meio estranha. Acho que ele estava mastigando alguma coisa.
— Pezão, acho que eu vou morrer.
E o filho da mãe caiu na maior gargalhada da história; parecia uma hiena com complexo de Édipo.
— Estou falando sério, porra!!! — falei, fulo da vida.
— Isso é hora pra pegadinha, porra? Sérgio Mallandro é só no final de semana.
— Que mané Sérgio Mallandro??? Estou falando sério, caralho!!!
— Sei, sei.
— É sério!!! Tem um assassino psicopata parado em frente ao portão da minha casa!!!
— Entendo. E ao invés de você ligar para a polícia, ligou para mim. Inteligente pra caralho.
Fiquei sem saber o que dizer por alguns instantes. De certa forma ele estava com a razão. Senti-me um completo idiota.
— Não liguei para a polícia porque ainda não tenho certeza se o carro é mesmo do assassino.
— Nando, você comeu cocô no café da manhã???
— Pra falar a verdade eu devo ter comido sim; e devo ter tomado muito café com mijo também. Acordei péssimo.
— Você está zoando comigo, não é? É pra se vingar de alguma coisa?
— Não estou zoando, cara. Eu juro que não!
Acreditem ou não; jamais contei para o Pezão a respeito do telefonema do guri. Então é bem provável que ele não esteja entendendo porra nenhuma sobre este lance de assassino psicopata.
— Então vai tomar no seu cu!!! — disse ele. Depois bateu o telefone na minha cara.
Amigão, hein!!!
Coloquei o telefone novamente no gancho e voltei meus olhos para a frente do portão. O maldito carro misterioso continuava lá. A pintura brilhava sob o sol da manhã. Mas nenhum sinal do assassino.
De repente alguém bateu na porta do meu quarto.
Meu coração quase saltou do meu peito, fazendo um estrondoso Tum tum!!! Tum tum!!! E agora? Será o assassino? Porra, Nando, assassinos não batem na porta! Se liga!
— Posso entrar? — não era o assassino; era apenas a minha mãe.
Ufa!!!
— Entra — disse eu, tentando disfarçar meu pavor.
Mas mãe é mãe ... Ela entrou, olhou para mim e:
— Credo, Nando!!! — ela me olhou com uma expressão de espanto. — Que cara é esta? E por que você está tremendo tanto? Está com frio? Está com febre? Mas está um tremendo calor!!! O que você tem? Está doente?
— Calma, mãe!!! Calma!!!
E ela saltou pra perto de mim, passando a mão na minha testa, olhando para mim como se eu estivesse morrendo.
— Você está suando frio! — disse ela. Depois ela abriu as cortinas o máximo que conseguiu. — Este quarto está abafado demais, meu filho!
Quando as cortinas se abriram e vi o Opala preto reluzente diante do meu portão, meu coração disparou ainda mais. Minha mãe olhou para o carro e deu um sorrisinho estranho com o canto dos lábios. Fiquei ainda mais confuso.
— Mãe — falei, olhando para o carro. — Faz tempo que aquele carro preto está parado ali?
Ela pousou o olhar sobre o Opala por alguns instantes, depois olhou para mim e disse:
— Não sei. Por quê?
É lógico que não vou contar a história do moleque assassinado para a minha mãe, né? Comeram cocô? A coitada teria um treco do coração e ...
Vi um vulto abrir o portão! Será o assassino? Gelei. Mas não era nenhum assassino psicopata, era apenas o meu pai. Quando me viu, abriu um largo e simpático sorriso.
— Eu não sabia que o pai estava em casa — falei baixinho.
— Ele chegou de madrugada — respondeu minha mãe, enquanto ajeitava o lençol da minha cama.
E meu pai veio até a janela, atravessando a varanda.
— Até que enfim está de pé, hein! — disse ele, super sorridente.
Caralho, fazia tempo que eu não via o meu pai. E ainda mais assim: bem humorado logo cedo. O velho deve ter tido uma boa noite de ... Putz!!! Deixa pra lá.
— Pois é — disse eu, tentando apagar a imagem dos meus pais fazendo ... Porra, apaga isso da sua mente, cérebro dos infernos!!! Apaga!!!
Meu pai olhou para o Opala, depois voltou os olhos para mim e disse:
— Uma beleza, não é?
Dei outra olhada para o carro. Só agora percebi suas rodas cromadas.
— Por acaso o senhor sabe de quem é? — perguntei.
Pela primeira vez na vida vi meu pai cair numa gargalhada como aquela. Ele parecia uma hiena fazendo ménage à trois com a Xuxa e a Mara Maravilha.
De repente minha mãe me abraçou por trás e deu um beijo molhado na minha bochecha. Fiquei espantado com tudo aquilo, é claro. Será que os meus pais enlouqueceram de vez? Será que ficaram sabendo que eu vou morrer e estão se despedindo? Que diabos está acontecendo aqui?
Até que finalmente descobri o que estava rolando ...
— Feliz aniversário!!! — disse minha mãe, apertando minha bochecha. — Não acredito que você esqueceu do seu próprio aniversário, Nando!!!
Hoje é dia 26 de fevereiro??? Puta merda ... é hoje mesmo: meu aniversário. Juro que eu nem me lembrava disso.
Meu pai puxou uma chave do bolso da calça e ficou balançando a dita cuja diante dos meus olhos. Ele não parava de sorrir para mim.
— Não acredito — falei baixinho, olhando para a chave e para o Opala; para a chave e para o Opala novamente. — Ele é meu?
O velho fez que sim, balançando a cabeça. Depois ele me entregou a chave do Opala, dizendo:
— Feliz aniversário, filhão.
Acordei apavorado, crente que ia ser assassinado por um psicopata com uma cicatriz na testa; mas acabei ganhando meu primeiro carro.
Uhuuuuuu!!! Puta que pariu! Finalmente uma coisa boa, hein!
Agora eu posso ir pra onde quiser, sem precisar de carona do Pezão dos infernos. De agora em diante serei independente; vou e volto das baladas quando e com quem eu quiser. Porra, agora ninguém me segura!
E ai de vocês se zombarem do meu Opala preto. O bichão está em ótimo estado; ano 91; rodas cromadas; banco de couro e até aparelho de CD. Meu pai não quis me contar quanto pagou por ele; só disse que foi uma verdadeira pechincha. Comprou de uma viúva. A mulher resolveu vender o carro porque ele trazia muitas recordações do falecido marido. Parece que o cara sofreu um ataque cardíaco enquanto tirava um cochilo no banco traseiro. Veja que maneira mais bizarra de bater as botas. Eu, hein!
Querem saber? Foda-se! O importante é que agora o Opala já tem novo dono: EU!!!
A minha emoção ao ligar o motor pela primeira vez foi indescritível. Quase tive um orgasmo. Sério! Porra, esperei muito tempo para ter o meu carro. Agora quero aproveitar todos os benefícios possíveis. É claro que estou querendo dizer apenas uma coisa: MULHER!!!
— Vai devagar — disse minha mãe, abraçada ao meu pai.
Eles estavam me olhando da calçada. Minha mãe com cara de preocupada e meu pai sorrindo, todo orgulhoso. Não sei se era orgulho de mim ou por ter passado as pernas na viúva.
— Pode deixar — respondi, tão excitado que nem olhei para o lado.
Depois foi a vez do meu pai:
— Cuida bem do ...
Nem consegui esperar ele terminar. Saí fincando. Não queimei o asfalto como o Pezão, mas cheguei bem perto.
Coloquei meu ray-ban mais estiloso, abaixei o vidro e parti para o melhor passeio da minha vida. Enfiei um CD do Ramones e aumentei o volume até o máximo quando começou a tocar Surfin' Bird.
Meu, fala sério, se o mundo acabasse agora eu morreria feliz.
Será que estou sonhando???
Olha, se isso aqui for um sonho eu juro que me mato quando eu acordar.
Quando eu ia contornando mais uma esquina vi uma loira muito gostosa. Ela estava de costas; caminhava pela calçada como se aquilo fosse uma passarela do São Paulo Fashion Week. Seus cabelos longos brilhavam debaixo do sol forte. O vento batia no seu vestidinho azul-piscina, dando a impressão de que iria erguê-lo a qualquer momento. Tudo muito perfeito. Só falta a loira ser um tremendo acidente de trem.
Bom, só tem um jeito de descobrir, não é?
Diminuí a marcha e passei ao lado dela, quase na mesma velocidade em que ela caminhava. Eu estava louco para ver o seu rosto. Vira pra cá, meu bem!!!
De repente ela virou o rosto na direção do Opala e olhou direto para mim. Foi aí que me dei conta de que eu a conhecia. Uau!!!
Capítulo 3 · O Sol Nasceu Para Todos
Bom, só tem um jeito de descobrir, não é?
Diminuí a marcha e passei ao lado dela, quase na mesma velocidade em que ela caminhava. Eu estava louco para ver o seu rosto. Vira pra cá, meu bem!!!
De repente ela virou o rosto na direção do Opala e olhou direto para mim. Foi aí que me dei conta de que eu a conhecia. Uau!!!
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O nome dela é Magnólia.
— Nando, é você? — disse ela, fazendo um olhar de surpresa.
A Magnólia sabe o meu nome? Não é possível. Galera, esta filha da mãe já me deu uns três foras. Lembro exatamente de cada um deles. Tento comer esta biscate desde que me conheço por gente.
Encostei o Opala e tirei os óculos. Ela veio falar comigo.
— Oi, Magnólia — disse eu. — Tudo bem com você?
— Tudo, e você?
Quando ela se abaixou, seus peitos quase saltaram para dentro do Opala. Acho que ela não está usando sutiã. Puxa vida, o tempo passou e ela continua gostosa.
— Comigo está tudo ótimo — respondi, tentando não encarar seus peitões. — Quer uma carona?
— Muito obrigada. Quero sim. Ninguém merece este sol.
Sorri e abri a porta para ela. Magnólia deslizou pelo banco de uma forma tão sexy e natural que parecia estar acostumada com o meu carro há séculos. Seu perfume tomou conta do Opala em questão de segundos. Fazia tempo que eu não sentia um cheiro tão bom.
Durante o trajeto até a casa da garota, descobri que Magnólia estava solteiríssima. Isso acontece muito com as garotas de beleza acima da média. Já perceberam? A maioria delas se sente tão gostosa, mas tão gostosa, que acaba não ficando com ninguém. Ou acabam ficando com os piores tipos. É impressionante!!! Parece que quanto mais nóia é o cara, mais linda é a garota do lado dele. Não me conformo com isso.
De repente ela fez sinal para eu encostar o carro. Acho que chegamos. Coincidência ou não, Magnólia mora perto da casa do Pigmeu.
— Muitíssimo obrigada pela carona — disse ela.
— De nada — respondi.
Desta vez eu tive que olhar para os peitões. Não resisti. Quem é homem sabe do que estou falando. Vestido decotado atrai nossos olhos da mesma forma que uma moeda é atraída por um ímã. São as leis da física e da natureza.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Até que ela disse:
— Você lembra da Julieta?
— Julieta? — disse eu, franzindo a testa e puxando pela memória.
— Sim, uma moreninha baixinha que estudou com a gente.
Não me lembrava porra nenhuma, mas ...
— Acho que lembro — disse eu, por fim.
— Vai ter uma festa na casa dela hoje. Gostaria de ir comigo?
Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!
Esperei anos por este momento. Finalmente!!!
1 ... 2 ... 3 ... e:
— Não — respondi.
— Não? — disse ela, olhando espantada para mim.
Já viram o olhar de uma criança mimada que nunca ouviu um não na vida? Pois foi exatamente este olhar que Magnólia me lançou.
— Não — repeti. — Mas agradeço o convite.
Agora ela me olhou como se eu fosse um alienígena.
— Tudo bem — disse ela, meio atônita. — Fica para uma próxima.
E nos despedimos com um beijo no rosto.
Confesso que quase ... quase voltei atrás. Mas continuei firme até o final.
Quando Magnólia desceu do carro e rebolou aquela bundinha gostosa, caminhando até o portão de sua casa, estive prestes a pedir para ela voltar.
Mas não gritei.
Vocês perceberam o que acabou de acontecer aqui, não? Meu, esta maldita nunca me deu bola; e agora, só porque eu tenho carro, me convida para sair? Ah, vai se foder! Agora eu não quero mais. Eu sei que daqui para frente isso vai acontecer mais e mais vezes, mas eu precisava dar um fora nesta filha da puta. Questão de honra, saca? Uma humilde vingança pelos três foras que ela me deu.
Vou me arrepender mais tarde, mas agora já foi.
Quando eu ia ligar o motor novamente, surgiu um vulto do meu lado, dizendo:
— Credo, camaradinha!!!
Preciso dizer quem é? Puta merda, era só o que me faltava ...
— Fala, Pigmeu — disse eu, protegendo meu rosto de um possível tapa — Beleja?
O maluco ficou me olhando com aqueles olhos vermelhos e com uma cara de quem viu um fantasma fazendo sexo com uma vampira.
— Cadê o defundo? — disse ele, de repente.
— Defundo?
— Sim. Cadê o defundo?
Defundo? Mas que porra é esta de defundo?
E foi aí que a minha ficha caiu.
— Não seria defunto? — perguntei.
— Isso. Cadê o defundo?
Era só o que me faltava. O maluco está pensando que o meu Opala é carro funerário? Puta que pariu! Ninguém merece.
— Não tem nenhum ...
Vi a mão do Pigmeu vindo em minha direção. O filho da puta ia me acertar mais um daqueles seus famosos tapas. Mas desta vez eu fui mais rápido do que ele; coloquei meus braços sobre a minha testa, formando um X, e escapei.
— Porra, Pigmeu! — falei, puto da vida.
— Ela deve ter saído de um dos defundos!
— Ela quem? Ah, já sei: uma joaninha irada.
— Onde? Onde? Você também viu?
Ninguém merece o Pigmeu. O maluco está cada vez pior.
Magnólia apareceu na varanda de sua casa. Será que ela veio me convidar outra vez? Assim que me ajeitei no banco para vê-la melhor, senti o tapão do Pigmeu acertar a minha nuca. Gritei de dor.
— Caralho, Pigmeu!!! — falei, olhando nos olhos do maluco. — Por que não vai bater na puta que te pariu?
Pigmeu ficou me olhando assustado.
Quando olhei para a varanda de Magnólia outra vez, ela não estava mais lá. Se por acaso ela pensou em me convidar outra vez, desistiu no meio do caminho. E foi até bom; eu não conseguiria dizer não para ela outra vez. Meu, a filha da mãe é gostosa pra caraaaaaaaaaaaaalho!!! Só de imaginar aqueles peitos balançando na minha frente eu já fico excitado.
Agora já foi. Bola pra frente senão vem porra quente.
Deixei de comer uma loiraça gostosa, mas outras virão. A fila anda, não anda? É claro que anda. Sempre andou e sempre andará.
De repente o Pigmeu deu a volta no Opala. Nunca vi o maluco correr daquele jeito. Foi tão engraçado que comecei a rir sozinho. Quando dei por mim, Pigmeu já estava sentado ao meu lado. Seus olhos estavam arregalados. Ele tremia mais que gelatina. Só falta o maluco sofrer uma overdose dentro do meu Opala.
Com a sorte que eu tenho, né?
— O que foi? — perguntei. — Outra joaninha?
E comecei a rir. Mas ele estava super sério. Nunca vi o maluco tão assustado assim.
— Está fugindo de alguém? — perguntei, agora sério.
Ele deu uma olhada para os lados; depois voltou o olhar assustado para mim e disse:
— Estão querendo me enterrar vivo, camaradinha.
Putz!!! E o bobo aqui pensando que era alguma coisa séria.
— Verdade, Pigmeu? — disse eu, segurando para não rir.
— Juro pra você.
— Então você está no lugar certo. Estou com dois defundos no porta-malas. Se quiser eu enterro ...
O maluco abriu a porta do Opala e saiu fincando. O Pigmeu correu tanto que deve ter quebrado o recorde mundial dos 100 metros rasos para maconheiros.
Eu dei tanta risada, mas tanta risada, que num determinado momento eu não sabia se estava rindo da corrida do Pigmeu ou se estava rindo porque o Opala estava com um forte cheiro de maconha. Pra ser sincero eu acho que foi por causa das duas coisas.
— Volta aqui! — gritei e dei uma buzinada em seguida.
Mas Pigmeu já estava longe, muito longe.
Que pena! Eu ia perguntar para ele a respeito da música que fizeram em sua homenagem. Será que ele está sabendo? Eu acho que ele nem faz idéia.
Puta que pariu! Meu carro está parecendo um maconhódromo. Eca!!!
Passei no primeiro supermercado que vi, comprei três desodorantes e borrifei dentro do carro. Se eu chegasse em casa com o carro cheirando maconha seria o meu fim. Nem quero pensar nisso.
Bom, antes de voltar para casa, resolvi mostrar o carango para o Pezão.
Estacionei bem na frente do portão dele e liguei no seu celular.
— Ué, o assassino não te pegou? — disse ele, debochando da minha cara.
— Muito engraçado. Agora olha pela janela do seu quarto.
— Por quê?
— Cala a boca e olha, porra!
— Se for alguma sacanagem ...
— Anda logo, cacete!
Menos de um minuto depois ele apareceu na janela, segurando o celular.
— Não estou vendo nada — disse ele.
— Nada? Tem certeza?
— Espera. Estou vendo um carro de uma funerária parado no meu portão. Será que morreu alguém aqui em casa e eu não estou sabendo?
— Carro funerário é a puta que te pariu!!!
Saí do Opala e acenei com os braços. Pezão caiu na gargalhada quando me viu.
— Eu não sabia que você trabalha numa funerária, Nando! — disse ele, rindo feito uma hiena que acabou de fugir de uma penitenciária de segurança máxima.
— Pezão.
— Fala.
— ENFIA O DEDO NO CU E ASSOPRA, PORRA!!!
Pezão deixou a mansão e veio falar comigo.
— De onde saiu esta bicheira? — disse ele, abrindo o portão.
— Bicheira o caralho! — respondi, louco para dar um soco no estômago dele. — O bichão anda bem pra caralho.
Pezão começou a analisar cada canto do Opala. Ele olhava para o carro e olhava para mim; olhava para o carro e olhava para mim outra vez. Ficou assim uns dois minutos, fazendo aquela cara cínica que só um grande filho da puta sabe fazer.
— Quanto você pagou? — disse ele, por fim.
— Meu pai que me deu de aniversário.
— Aniversário?
— Pois é, hoje é meu aniversário. Eu nem me lembrava disso.
Pezão me deus dois tapas nas costas. Doeram mais que o tapa do Pigmeu.
— Parabéns — disse ele, saboreando minha dor. — Vai ter bolinho e guaraná também? — agora sua voz era de deboche.
— Vai se foder.
O babaca ficou rindo outra vez. Mas reparei que ele não tirava os olhos do Opala. De repente ele disse:
— Quer saber? Até que é um belo carro. Tirando o fato de ser bicheira, é claro.
— Pode falar o que quiser. Não vai me afetar.
— Qual a data de fabricação?
— Segundo o meu pai: 91.
Pezão começou a fazer contas usando os dedos das mãos.
— Caralho, Nando — disse ele. — O bagulho é mais velho que o meu irmão.
— E daí? O motor ainda funciona; isso é o que importa.
— Não é bem assim. Todo mundo sabe que carro tem uma função primordial na vida de um homem: atrair biscates.
Lembrei de Magnólia sentadinha ao meu lado. Quase senti o cheiro do seu perfume outra vez. Se não fosse o maconheiro do Pigmeu, o Opala ainda estaria com o perfume delicioso dela. Maldito Pigmeu dos infernos!!! Tomara que algum dia um grupo de pagode bem fuleiro grave uma música sobre ele. Ou pior ainda ... Sandy e Júnior. Eca!!!
— Quanto a isso eu posso ficar sossegado — falei.
Pezão franziu a testa e coçou alguns pêlos debaixo do seu queixo. Agora que eu percebi; Pezão está deixando crescer um cavanhaque daqueles bem sem-vergonha.
— Não vá me dizer que você já comeu alguém no Opala? — disse ele.
— Não. Mas ia comer esta noite.
— Sério? Quem? E por que você disse ia? Não vai mais?
— Lembra da Magnólia?
— Aquela que você tentou comer umas vinte vezes e nunca conseguiu?
— Vinte vezes o caralho! Foram três. Três!
Pezão começou a rir. Por fim, acabei rindo também.
— Pois é — disse eu. — Encontrei com a filha da puta lá no centro. Ofereci carona e ela veio toda posuda. Quase esfregou aqueles peitões na minha cara.
— Não acredito. Faz tempo que eu não a vejo. Ela era muito gostosa.
— Era não; continua gostosa pra caralho. Deixei a biscate na porta da casa dela.
— Mas e daí? Peru pra dentro ou não?
— Ela bem que se ofereceu. Mas eu disse um não bem gostoso na cara dela.
Pezão ficou até branco. Foi a terceira cara de espanto que vi hoje. A primeira foi Magnólia, quando eu disse o não; a segunda foi do Pigmeu, quando pensou que meu carro levava defundos.
— Meu, você está zoando comigo — disse Pezão. — Não pode estar falando sério.
— Pior que estou. A mina ficou até tonta.
— Nando, você comeu cocô? Vai se ferrar, porra! Isso não é coisa que se faz, meu!
— Aquela filha da mãe merecia uma lição.
— E não dava par dar uma lição na cama? Comprasse um chicotinho e desse uma boa lição nela! Mas na cama, porra!!! Peru pra dentro!!! Caralho, Nando, foi a coisa mais idiota que você já fez em toda a sua vida. Desta vez você se superou.
Será que o Pezão tem razão? Será que exagerei na dose? Afinal de contas a Magnólia é realmente uma das garotas mais gostosas que eu já vi na minha vida. Eu sei que a fila anda, mas não é sempre que aparece uma loiraça de um metro e oitenta e quatro de altura; olhos verdes; seios fartos e coxas grossas.
Sentei-me sobre o capô do Opala, cabisbaixo e pensativo.
— Agora já foi, cara — disse Pezão, encostando-se na porta do carro.
— Tem muita mulher por aí — disse eu, sem muita convicção nas palavras.
— Um montão.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. A única coisa que eu conseguia pensar era na Magnólia nua sobre o banco traseiro do Opala; seus seios saltando para cima e para baixo; sua boca quente no meu ...
— Tive uma idéia do caralho! — disse Pezão, de repente. Tomei um puta susto.
— Que idéia?
— Vamos batizar o Opala. Que tal?
— Batizar? Não estou gostando muito ...
— Calma. Batizá-lo com uma viagem.
— Viagem? Mas viagem pra onde?
Pezão fez uma concha sobre os olhos, tapando o sol.
— Para a praia, é claro! — disse ele, excitado. — Olha que sol!
Poxa, até que não é uma má idéia.
— Com o Opala?
— Não, seu bosta! De bicicleta! É claro que é de Opala, porra!!!
Se já não bastasse eu ter feito uma pergunta idiota, fiz outra:
— Pra onde vamos, Ubatuba?
Pezão ficou branco outra vez. Já vi tudo. Tirei o dia para assustar os outros.
— Não seria arriscado demais voltarmos lá? — disse ele.
— Com certeza — respondi prontamente. — Nada de Ubatuba.
Silêncio outra vez.
Mil e uma coisas passaram pela minha cabeça. Mas acho que é melhor eu ficar quieto.
— Já sei! — disse Pezão. Sua voz parecia empolgada outra vez. — Vamos pra São Vicente.
— Perto de Santos?
— Isso. Tenho uma tia que mora lá.
— Sério? Porra, demorou então!!!
Pezão estendeu suas mãos com as palmas viradas para cima. Bati nelas com as minhas e selamos o pacto: São Vicente ... aí vamos nós!!!
Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!
Para o dia ficar perfeito só falta eu ganhar na loteria.
Por via das dúvidas, passei na primeira lotérica que encontrei e resolvi arriscar. Quem sabe, né? O sol nasceu para todos, inclusive para os filhos da puta.
Capítulo 4 · Mais Dois
Pezão estendeu suas mãos com as palmas viradas para cima. Bati nelas com as minhas e selamos o pacto: São Vicente ... aí vamos nós!!!
Uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!
Para o dia ficar perfeito só falta eu ganhar na loteria.
Por via das dúvidas, passei na primeira lotérica que encontrei e resolvi arriscar. Quem sabe, né? O sol nasceu para todos, inclusive para os filhos da puta.
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De repente alguém passou buzinando com uma moto vermelha. O motoqueiro estava de capacete, então não consegui reconhecê-lo de prontidão.
— Sabe quem é? — perguntei para o Pezão.
— Não tenho a menor idéia.
E o motoqueiro misterioso veio na nossa direção, diminuindo a velocidade. Acho que estou desconfiado de quem seja, mas não vou arriscar.
Acertei. É ele mesmo.
— Fala, Zoinho, beleja? — disse eu.
— Beleja, Nando. Quanto tempo, cara!
— Virou motoboy? — perguntou Pezão.
— Não — respondeu ele, descendo da moto. — Mas até que você me deu uma boa idéia. Eu não tinha pensado nisso.
— É sua? — perguntei, apontando para a moto.
Zoinho fez que sim com a cabeça.
— Ah, roubou de quem então? — falou Pezão, rindo. — Você nunca pagou nem cerveja pra gente! Só tem dinheiro pra comprar revistas de putaria.
— Vendi todas elas.
— Como é que é? — fiquei até branco de surpresa. — Não acredito. Você vendeu sua coleção todinha?
— Sim. Vendi tudo pela internet.
— Pela internet? Porra, Zoinho, estou orgulhoso de você.
E estendi minha mão para cumprimentá-lo.
— O cara está de gozação com a gente, Nando — disse Pezão.
— Não estou. Existe um site que você pode vender de tudo. Vocês não entram na internet, porra?
— Não — respondeu Pezão.
— Ah, algumas vezes — respondi.
— Então vocês estão por fora! — disse Zoinho, excitado. — O bagulho é muito louco!
— Mas você nunca teve grana pra comprar computador — disse Pezão.
— E quem disse que pra acessar a internet você precisa ter computador? Eu acesso lá na lan-house do centro.
Putz! Pezão ficou com a cara lá no chão.
— Mas me fala uma coisa — disse eu. — Quanto pagaram pela sua coleção?
Zoinho olhou desconfiado para mim.
— Ah, prefiro não responder. Mas foi uma grana legal. O cara que comprou é um puta colecionador de revistas eróticas. Parece que ele já saiu até no Guiness.
— Puta colecionador o caralho! — disse Pezão. — Um grande punheteiro, isso sim!
— Punheteiro ou não; foda-se! — disse Zoinho, revoltado. — O importante é que ele me pagou direitinho.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
— Viva a internet — disse eu, sorrindo.
— Com certeza — completou Zoinho. — Ah, e falando em internet, alguns dias atrás recebi umas fotos no meu e-mail; tinha um cara comendo uma loira gostosa na frente de um clube. Meu, o cara era muito parecido com você, Nando! Impressionante!
Fiquei branco, claro!
— Quem te mandou estas fotos? — perguntei.
— Uma amiga minha lá de Salvador.
— Salvador? Na Bahia?
— Não, lá do Egito! Claro que é da Bahia, porra!
— Mas como é que esta foto foi parar ... ?
— Puta que pariu! — disse Zoinho, prestes a explodir na maior gargalhada do século. — Não vá me dizer que era você?
— A foto era de noite? E atrás do casal tinha um portão verde?
— Do portão eu não lembro direito, mas a foto foi batida de noite sim. E dá pra ver um segurança todo bem vestido lá atrás.
Zoinho quase se mijou de tanto rir.
— Então era você mesmo? Caraaaaaaaalho! Parabéns, Nando! Se deu bem, hein! A loira era muito gostosa!
— Mas eu não cheguei a comê-la — falei, meio triste. — Na hora da foto eu só estava abraçado com ela.
— Acho que já recebi esta foto mais umas três vezes ... só esta semana!
— Putz!!!
— Vocês dois já são praticamente celebridades na internet, cara.
E Zoinho olhou para o seu relógio. Meu, um puta relógio novinho em folha! Daqueles que não saem por menos de 300 paus.
— Caralho, estou atrasado! — disse ele, aflito.
— Atrasado pra fazer o quê? — perguntou Pezão. — Você nunca fez porra nenhuma, além de tocar punheta.
— Minha namorada entra no serviço daqui a pouco.
Namorada??? Não é possível. Este mundo está prestes a acabar mesmo.
— Você está namorando, Zoinho? — perguntei, incrédulo. — Quem é ela? Onde ela trabalha? A gente conhece?
— Acho que não — Zoinho olhou para o relógio outra vez. Ele parecia nervoso. — Ela não é daqui.
— Xiiiiiiiiiiiiiii, Marquinho! — disse Pezão. — Você está namorando aquela americana do Mamute?
— Não viaja, Pezão! — falei. — Aquela biscate já voltou para os Estados Unidos faz tempo.
— Minha namorada mora em Santos.
— Tá fraco não, hein, Zoinho! E como é que ela é?
Zoinho passou de nervoso a desanimado. Seus olhos murcharam.
— Eu não sei. Mas aposto que é ...
— Como assim não sabe? — perguntou Pezão. — Ah, eu sabia que era mentira.
— Não estou mentindo, porra! — disse Zoinho, puto da vida.
— Espera um pouco aí — falei. — , acho que já sei o que está acontecendo aqui. — e olhei para o Zoinho. — Você conheceu sua namorada pela internet, certo?
Zoinho fez que sim com a cabeça.
Pezão começou a rir feito uma hiena com tendinite.
— E como é que vocês trepam? — disse ele. — Você bate o pinto no monitor e ela esfrega a xoxota no teclado? Ah, vai tomar no seu cu, Zoinho!
Zoinho saltou da moto e partiu pra cima do Pezão. A sorte dele é que eu fui rápido e segurei a moto, caso contrário teria feito um belo estrago.
Ajeitei a moto com o descanso e parti pra cima dos dois, tentando apartar a briga. Ao invés disso, acabei levando alguns safanões.
— Parem com isso, porra!!! — disse eu para eles.
Mas não adiantou muita coisa. Os dois continuaram se esbofeteando e trocando pontapés.
De repente tive uma idéia. Entrei no Opala e comecei a buzinar sem parar. O barulho era tão irritante que eles passaram a dar mais atenção para o Opala do que para a briga.
— Pára com esta porra de buzina, Nando! — gritou Pezão.
— Desliga esta merda! — reclamou Zoinho.
— Só paro de buzinar quando vocês pararem esta briguinha ridícula. Parecem duas moças brigando por causa de namorado.
E deu certo. Não fizeram as pazes, mas pelo menos a briga parou.
Saí do carro e fiquei no meio dos dois.
Zoinho olhou para o relógio outra vez. Desta vez ele ficou irritado.
— Puta que pariu! — disse ele, balançando a cabeça. — Por causa deste imbecil a Camilla vai brigar comigo!
Pezão ficou vermelho de raiva.
— Se você me chamar de imbecil mais uma vez eu te arrebento a ....
— Calma, porra! — disse eu. — Muita calma nesta hora.
Silêncio por alguns instantes. Até que Zoinho disse:
— Todas as tardes a gente se encontra pelo MSN.
— Aquele programinha de bate-papo, né? — disse eu. — Sei qual é. O irmão do Pezão usa direto. O pirralho criou até uma conta pra mim.
— Coisa de nerd — disse Pezão. Na verdade foi mais um resmungo.
— Aquele negócio é muito doido — falei. — Aparece até a foto da pessoa e ...
— Mas a Camilla é muito tímida — disse Zoinho. — Ela nunca coloca a foto dela.
— Ela deve ser o cão chupando pirulito no escuro — disse Pezão.
Zoinho ficou puto da vida; tentou partir pra cima do Pezão outra vez. Mas desta vez eu o impedi.
— Está esperando o quê? — disse Pezão, chamando Zoinho para a briga. — Vem, seu punheteiro do caralho!
Mas Zoinho não caiu na provocação. Pegou o capacete que estava sobre o capô do Opala, colocou-o na cabeça e subiu em sua moto.
— Vou pra lan-house encontrar minha gatinha — disse Zoinho. Sua voz saiu abafada por causa do capacete.
— Isso aí, Zoinho — disse eu. — Pau pra dentro!
E Zoinho deu a partida na moto. Antes de sair fincando ele deu uma olhada no Opala. Depois olhou para mim.
— De quem é este Opala? — perguntou ele. — É seu, Nando?
— Sim. Ganhei do meu pai. Estiloso, né?
— Muito doido. Já batizou o bichão?
Pezão olhou para mim, aflito. Seu olhar me disse tudo. Ele não queria que eu contasse para o Zoinho a respeito da nossa viagem.
— Já batizei sim — respondi. — Fui para o Rio de Janeiro semana passada.
— Dahora!
E Zoinho saiu fincando com sua moto. Pra fazer uma graça ele passou raspando os pés do Pezão. Faltou muito pouco para não passar por cima. Muito pouco mesmo.
— Cuzão, filho da puta, punheteiro do caralho! — gritou Pezão, irado. — Volta aqui e passa por cima, se você é homem!
Mas Zoinho já estava longe pra caralho.
Logo depois foi a minha vez de sair fincando. Mas não arrisquei a mesma graça que o Zoinho; era perigoso eu mudar de idéia na última hora e passar por cima do Pezão, né?
Voltei pra casa, enfim.
É claro que meu celular já estava cheio de ligações da minha mãe. A coitada estava desesperada. Achou que eu tinha batido o carro em algum lugar.
Bom, sejamos honestos, no lugar dela eu também teria pensado a mesma coisa, afinal de contas eu saí para uma voltinha e cheguei em casa às 3 horas da tarde.
Depois do almoço, meus pais me chamaram para uma reuniãozinha na sala.
Xiiiiiiiiiiiiiiiii, Marquinho! A última vez que fizeram isso comigo eu fiquei de castigo por duas semanas. Se não me falha a memória eu tinha 16 anos, e mereci o castigo. Meus pais me flagraram com a vizinha em cima da cama deles. Putz!!! Estávamos no melhor e mais gostoso 69 de nossas vidas ... e de repente meus pais abrem a porta do quarto. Nunca vi meu pau murchar tão rápido em toda a minha vida. Foi uma das situações mais embaraçosas que eu já vivi. Não desejo aquilo pra ninguém.
E a reuniãozinha começou:
— Vinte anos — disse meu pai, olhando sério para mim.
— E parece que foi ontem — completou minha mãe, sorrindo. — Você foi um bebezinho tão lindo!
— Pronto. Muito bonitinho. Agora posso ir para o meu quarto?
— Precisamos ter uma conversa séria, Nando — disse meu pai.
Ufa! Não me chamou de Fernando. Já é um bom sinal.
— Uma conversa muito séria, Fernando — disse minha mãe.
Putz!!! Lascou.
— O que foi que eu fiz? — perguntei, um pouco assustado.
— A questão é justamente esta, Nando. Você não está fazendo nada!
— Mas se eu não fiz nada, por que estão zangados comigo? Olha, aquele cheiro lá no carro não foi minha culpa, eu apenas ...
— A conversa não tem nada a ver com o carro, filho — disse minha mãe.
— O que nós estamos tentando dizer, Nando, é que você anda meio ... relaxado.
— Relaxado?
— Muito relaxado. Você largou o cursinho, não fala mais em faculdade ...
Putz!!! Agora eu me lasquei de vez. Pensei que eles não tinham percebido.
— Ah, eu penso em faculdade sim. O problema é que cada hora eu quero fazer uma coisa diferente.
— Mas nunca vai pra frente! — reclamou minha mãe. — Se não estou enganada, você já montou uma banda e não deu certo; diz que trabalhou como ator naquele programa Linha Direta, mas até hoje eu nunca vi você. Fernando, meu filho, você precisa dar um jeito na vida! Você não é mais moleque, é um homem!
— Eu sei, mãe, eu sei.
Meu pai começou a coçar o queixo. É sinal de que ele está preocupado.
— Você vai voltar para o cursinho, e vai arranjar um trabalho também.
— Pode deixar.
— E vai se afastar daquele seu amigo, o Maurício.
Nossa! Por esta eu não esperava.
— O que o Pezão tem a ver com isso? — perguntei.
— Ele é má influência. Você não pode ficar a vida inteira na cola de um filhinho de mamãe como ele. Aquele rapaz não faz nada da vida, Fernando! Mas a mãe dele pode bancar aquela vida pra ele, nós não!
— Nós somos apenas amigos, mãe. Não vivo na cola de ninguém. Ele tem a vida dele e eu tenho a minha. Eu sei que a mãe dele tem muita grana e nós não. Porra, não sou idiota, né?
— Fernando! — esbravejou meu pai. Certamente foi por causa do "porra" que eu soltei sem querer. Putz!!! Este lance de soltar porra sem querer ficou meio esquisito.
Não vou aborrecê-los com esta conversa fiada, a qual durou muito mais tempo do que eu esperava. Depois de detonarem o Pezão eles partiram para o assunto namoradas. E ficaram buzinando no meu ouvido que eu nunca tinha uma namorada fixa e bla bla bla. Porra, eu até procuro uma namorada bacana, alguém que não seja apenas uma trepada casual, né? Mas vocês são testemunhas ... eu só me estrepo!!! E quando eu finalmente encontro, ela morre a pauladas. Ninguém merece.
Mas é claro que eu não contei estas histórias para os meus pais. Eles ficariam chocados, e muito provavelmente não acreditariam em mim.
Admito que eu ando meio relaxado nestes últimos meses. No fundo tudo isso tem uma explicação lógica: Ubatuba.
Minha vida ia muito bem, até que resolvemos fazer aquela maldita viagem pra Ubatuba. Depois do que aconteceu lá eu nunca mais fui o mesmo. Perdi a concentração nos estudos, fiquei mais largado e minha vida está cada vez pior. Nada dá certo para mim; já perceberam? Porra, é claro que perceberam, né? Hahaha ... E não adianta mentir, eu sei que vocês se divertem às minhas custas, sei que vocês adoram me ver na pior. Calma, não vou brigar com vocês. Berinjela no cu dos outros é refresco, eu sei disso.
Aquela conversa com os meus pais me deixou tão nervoso que eu peguei o Opala e saí para dar mais uma volta. Mas desta vez eu não trombei com a Magnólia; desta vez aconteceu algo muito pior.
Num cruzamento eu esqueci de olhar para os lados e não vi uma moto vindo a toda velocidade. Preciso dizer de quem era a moto? O coitado do Zoinho desviou do Opala e foi parar num canteiro. Zoinho escapou ileso, mas a moto ficou toda amassada, além de ter quebrado os espelhos retrovisores e as lanternas dianteiras.
Eu já estava chateado por ter feito aquilo com a moto, e fiquei ainda mais triste quando soube que Zoinho iria com ela até Santos para encontrar sua amada Camilla.
Pobre Zoinho, está completamente apaixonado pela mina virtual; tão apaixonado que nem se preocupou em me cobrar o conserto da moto. A única coisa que ele se lamentava era o fato de não poder mais viajar até Santos. Putz!!! Fiquei de coração partido.
E foi aí que tive uma idéia. Acho que vocês até já sabem que idéia foi esta, né?
Isso mesmo, para me redimir da canalhice que aprontei com Zoinho, resolvi convidá-lo para ir até São Vicente comigo e com o Pezão. Para vocês que não conhecem, Santos e São Vicente são cidades-irmãs, coladinhas uma na outra.
Nem preciso dizer que Zoinho ficou uma alegria só. O coitado quase me deu um beijo na boca de tanta felicidade. Mas é claro que eu não deixei. Sai fora, oh!!!
Agora eu tinha outro problema: contar para o Pezão a respeito do nosso novo companheiro de viagem. Pezão ia ficar uma fera.
E ficou.
Liguei pra ele mais tarde e contei tudo o que tinha acontecido. Pezão adorou quando contei sobre a moto destruída, mas perdeu imediatamente o bom humor quando contei que tinha convidado Zoinho para ir até São Vicente conosco.
Pezão disse que não ia mais participar da viagem, depois mandou eu enfiar o Zoinho naquele lugar, e bateu o telefone na minha cara.
Na manhã seguinte ele me ligou.
Trrrrrrrimmmmmmmmmmmmmmmmm!!!
— Fala, Pezão.
— Arranjei mais um maluco pra ir com a gente.
— Mas ontem você disse que não ia mais.
— Esqueceu que a tia é minha? Se eu não for, não tem viagem.
— Foda-se, a gente ia dormir no Opala mesmo.
— Abraçadinhos, é? Bichonas!
— Pezão.
— O quê?
— Enfia os cinco dedos no cu e assovia, porra!!!
— Depois. Agora eu preciso te contar que convidei o Mamute.
— O Mamutão?
— Encontrei o gordo dando bobeira lá no centro e decidi convidá-lo.
— Legal. O Mamutão é muito figura. A viagem vai ficar mais divertida com ele.
— Imagine aquele monte de banha balançando nas areias de São Vicente!
E caímos na gargalhada, feito duas hienas de sunga na praia.
Capítulo 5 · Pé Na Estrada
— Enfia os cinco dedos no cu e assovia, porra!!!
— Depois. Agora eu preciso te contar que convidei o Mamute.
— O Mamutão?
— Encontrei o gordo dando bobeira lá no centro e decidi convidá-lo.
— Legal. O Mamutão é muito figura. A viagem vai ficar mais divertida com ele.
— Imagine aquele monte de banha balançando nas areias de São Vicente!
E caímos na gargalhada, feito duas hienas de sunga na praia.
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É lógico que depois daquela conversinha com os meus pais, não havia o menor clima para uma viagem à praia. Foi por isso que eu não contei para eles a respeito de São Vicente. Precisei mentir. Inventei uma história sobre uma faculdade em Itu e bla bla bla. Falei que ia dar uma olhada na faculdade e tal. Não vou entrar em detalhes; o importante é que eles engoliram a história e pronto. E o melhor de tudo, meu pai ainda me deu 200 paus. Pois é ... Quando eu morrer, meu lugarzinho no inferno já está mais do que garantido.
Putz!!! Só agora caiu a minha ficha; como é que eu vou explicar para eles quando eu voltar todo bronzeado da viagem? Porra, eu não tinha pensado nesse detalhe. Ah, querem saber? Foda-se!!! Depois eu me viro.
Eu estava terminando de arrumar a minha mala, quando o telefone tocou ...
— Fala, Pezão do caralho — atendi.
Nada. Silêncio total. Na verdade o silêncio não era total, pois dava para ouvir uma respiração do outro lado da linha.
— Desembucha, porra!!! — falei, nervoso. — Pezão, pára de graça!!!
Nada. Nenhuma resposta. E a pessoa desligou o telefone.
Eu, hein!!! Muito esquisito. Liguei imediatamente para o celular do cuzão, só para ter certeza de que foi realmente ele.
— Fala — atendeu o Pezão.
— Foi você que ligou pra cá?
— Eu? Claro que não, seu idiota! Você que me ligou. Comeu cocô?
— Perguntei se foi você que me ligou agora há pouco, no telefone da minha casa.
— Nem. Estou no vaso.
— Putz!!! Ninguém merece, cara.
— Espera! Não desliga! Eu nunca tinha experimentado conversar com alguém enquanto ...
— Ah, vai tomar no seu cu!!!
E desliguei o telefone, é claro. Era só o que me faltava! O filho da puta batendo um barro e eu aqui servindo de companhia. Ah, se liga!!!
Agora voltando ao assunto do telefonema misterioso, quem será que estava do outro lado da linha? Será que foi apenas um engano ou ... ??? Putz!!! Fiquei até arrepiado.
Bom, seja quem for, terá de me seguir até São Vicente, pois eu não vou adiar a nossa viagem por nada neste mundo. Já está tudo certo. O Opala está em ponto de bala; levei o carro num mecânico amigo meu e o cara não sabia se babava ou se gozava na cueca. Ele ficou impressionadíssimo com o estado de conservação do carango.
Em outras palavras, só não viajo amanhã se me der uma tremenda caganeira.
Ah, pára com isso, Nando!!! Pensamento positivo, porra!!!
Acordei com o alarme do meu celular. Oito horas em ponto. Bom, aparentemente não senti o menor sinal de caganeira. Para ser sincero, fazia muito tempo que eu não me sentia tão bem em toda a minha vida. Nunca acordei tão bem disposto assim. Senti-me como se eu tivesse transado a noite toda com a garota mais gostosa do bairro.
Passei pela cozinha com um puta sorriso nos lábios. Meus pais estavam sentados à mesa e perceberam logo.
— Nossa, o que houve? — perguntou minha mãe, curiosa.
— Nada — respondi. — O dia está bonito hoje, não?
— Conheço o rapaz — disse meu pai. — Arranjou outra ... ficante. É assim que vocês falam hoje em dia, não é? Daqui a pouco a palavra namorada irá sumir do mapa.
— Nem arranjei, pai — respondi.
— É hoje que você vai viajar para Itu?
E por um momento quase coloquei tudo a perder ...
— Pra onde? — disse eu. Putz!!! Esta minha cabeça de vento ainda me fode.
— Não é pra Itu que você vai? — disse minha mãe, com uma cara meio desconfiada.
E foi aí que caiu a minha ficha. Itu, Nando!!! Acorda, seu porra!!!
— Ah, sim ... claro! Itu! É que eu tinha entendido outra coisa. É hoje sim.
— Muito cuidado na estrada, hein! — disse meu pai. — Conheço aquela região; tem uns trechos bem perigosos.
— Pode deixar, pai.
E corri para o banheiro. Calma, não foi caganeira. A viagem continua de pé.
Quando consegui sair de casa o relógio marcava 9h45. Eu havia combinado de passar na casa do Pezão às 9h30. Ainda bem que o cara é enrolado pra caralho, aposto que vou chegar lá e ... Putz!!! Não acredito no que estou vendo: Pezão e Mamute já estão me esperando na frente da mansão. Cada um com uma mochila nas costas. O físico dos dois lembra dois surfistas aposentados.
Pezão bateu o dedo indicador no seu relógio de pulso e gritou para mim:
— Perdeu a hora, porra?
Estacionei o Opala e mostrei aquele famoso dedo para ele. Mamutão era só sorrisos. Caralho, o cara deu uma pequena emagrecida. Não chega a estar em forma, mas já não é aquela baleia cachalote dos velhos tempos.
— Está fazendo regime, Mamute? — perguntei.
— Pedalando muito, cara — respondeu ele, enquanto olhava admirado para o Opala. — Vou da minha casa para o trabalho de bicicleta. São quase 10 quilômetros.
Antes que ele pudesse perceber, Pezão deu-lhe um tapa na nuca, dizendo:
— Pedala, Mamute, pedala!!!
E os dois subiram a bordo. Mamute sentou-se no banco de trás e Pezão ficou ao meu lado. Que bosta, viu? Meu carro vai ficar com o pior cheiro da face da Terra ... cheiro de cueca!!! Isso por que eu nem mencionei as bufas.
— Massa o Opalão, Nando!!! — disse Mamute, excitado.
— E o bichão anda pra caralho!!! — disse eu, ainda mais excitado.
— Só espero que esta banheira não nos deixe no meio do caminho — disse Pezão, mais azedo que pum de velho.
Liguei o Opala e saí fritando os pneus.
— Aprendeu isso com alguém? — disse Pezão, rindo feito uma hiena gozada.
— O Zoinho não vai? — perguntou Mamute.
— Vai — respondi. Percebi o Pezão torcendo o nariz. — Fiquei de passar na casa dele por último, já que ele mora perto da rotatória.
— O mané ainda mora naquele fim de mundo?
Pezão olhou para trás e disse para o gordo:
— Olha só quem fala! Você também nunca se mudou daquele cortiço do caralho.
Mamute ficou vermelho de raiva.
— Cortiço é a puta que te pariu! — gritou ele.
— É cortiço sim, porra! — insistiu Pezão, rindo. — Parece até o cortiço do Chaves! Até os números nas portas são parecidos.
Tentei evitar, mas não consegui. Comecei a rir.
— Lá também tem a Bruxa do 71, Mamutão? — perguntei, tentando quebrar o clima tenso que estava começando a se formar.
E deu certo; Mamute começou a rir também.
— Na verdade tem uma velha feia pra caralho que mora lá. O número dela não chega a ser o 71, mas chegou perto: 73. A criançada chama a velha de Bruxa do 73. E o mais curioso é que ela paquera com um magrelo bigodudo muito parecido com o Seu Madruga.
E caímos na gargalhada, feito três hienas rindo de uma gazela recém-abatida.
Parei na frente da casa do Zoinho e buzinei três vezes.
De repente o maluco apareceu na janela. Ele estava usando um óculos escuro tão engraçado que nós três quase nos mijamos dentro do Opala.
— Fala, zangão!!!! — gritei.
Creio que Zoinho não entendeu a piada. Mesmo assim sorriu e fechou a janela. Dois minutos depois ela apareceu no portão, segurando uma bolsa preta.
— Cadê o computador pra você conversar com a sua namoradinha? — disse Pezão, esticando o cabeção pra fora do Opala.
Zoinho mostrou o dedo para Pezão e deu a volta no Opala. Desci o meu banco e Zoinho embarcou, sentando-se ao lado de Mamute, no banco de trás. Guardei a bolsa dele no porta-malas e voltei para dentro do carro.
— Você está noivo, Zoinho? — disse Mamute, com um sorriso irônico.
— Não viaja na maionese, gordo — respondeu Zoinho, meio desconfortável.
Dei um longo suspiro, fechei a porta do Opala e falei:
— Eu só vou falar uma vez: quem quiser brigar me avisa agora, pois ainda dá tempo de desistir da viagem. Estou falando sério, se tiver uma briguinha no meio do caminho eu paro esta porra e deixo vocês no meio da estrada.
— Calma, santa! — disse Pezão, irônico.
Olhei sério para o filho da puta.
— Não estou de brincadeira, cacete!!! — e dei uma olhada para o banco de trás. — Estamos entendidos?
— Fica frio, Nando — disse Mamute.
De repente Zoinho esticou a mão entre os dois bancos da frente.
— Vamos fazer as pazes, Pezão — disse Zoinho. — A gente sempre se deu bem, porra!
Pezão foi pego de surpresa. Notei que ele ficou sem saber o que fazer. Primeiro ele olhou para mim, depois olhou para a mão do Zoinho, depois olhou para o Zoinho, voltou a olhar para a mão entre os bancos e disse, por fim:
— Você acabou de tocar uma punheta, não foi?
E caímos todos na gargalhada, feito quatro hienas que se reencontram após um acidente de avião numa ilha deserta.
Não poderia ter sido melhor. Quebrou a tensão negativa que pairava no ar. Pezão não chegou a apertar a mão do Zoinho, mas pelo menos ele parou com as piadinhas estúpidas com o nosso amigo.
Após vinte minutos de viagem eu comecei a notar algo que me deixou preocupado. Muito preocupado.
— O que foi, Nando? — perguntou Mamute. — O que você tanto olha pelo retrovisor?
— Você está muito gostoso, Mamutão!!! — disse Pezão, sarcástico. — Eu percebi que ele não tira os olhos das suas pernas cabeludas.
Eu estava tão nervoso que nem dei bola para a brincadeirinha sem graça do Pezão. E olhei outra vez para o retrovisor.
— Viram? — disse Mamute. — Olhou outra vez!!!
Zoinho olhou para trás e percebeu o que eu já tinha percebido minutos atrás.
— Acho que tem um Chevete rosa seguindo a gente — disse ele.
Pezão e Mamute olharam imediatamente para trás, procurando o Chevete rosa.
— Aquele Chevete gay? — disse Pezão, rindo muito. — Ah, fala sério!
— Por que acha que ele está nos seguindo? — perguntou Mamute para Zoinho.
— Quando eu saí na janela da minha casa eu vi aquele Chevete parado na esquina.
— Ele não sai da nossa cola — disse eu. E olhei outra vez para o retrovisor. — Eu acelero, ele acelera; eu diminuo o ritmo, ele também diminui. Estou ficando preocupado.
Pezão olhou novamente para trás.
— Não conheço ninguém com um Chevete rosa — disse ele.
— Nunca vi um carro tão boiola na minha vida — disse Mamute.
— Nem eu — completou Zoinho.
— Encosta o Opala em algum lugar — disse Mamute. — Se a bichona também parar, a gente dá um cacete nela e descobre o que ela quer.
— Isso aí — concordou Pezão.
A idéia do Mamute foi muito boa.
Assim que avistei um daqueles restaurantes de beira de estrada, não pensei duas vezes. Parei o Opala no estacionamento mais próximo e ficamos todos de olhos atentos no Chevete rosa. Nossa concentração só foi abalada quando Mamute soltou um sonoro peido.
— Porra, gordo, vai cagar lá fora!!!
Capítulo 6 · Santos
A idéia do Mamute foi muito boa.
Assim que avistei um daqueles restaurantes de beira de estrada, não pensei duas vezes. Parei o Opala no estacionamento mais próximo e ficamos todos de olhos atentos no Chevete rosa. Nossa concentração só foi abalada quando Mamute soltou um sonoro peido.
— Porra, gordo, vai cagar lá fora!!!
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Quinze segundos foi o tempo máximo que conseguimos suportar dentro do Opala, mesmo com todos os vidros totalmente abaixados.
— O que você comeu de manhã? — gritei, correndo pra longe do Opala. — Cocô, repolho e ovos cozidos?
— Nem foi tão forte assim, gente — disse ele.
Detalhe: Mamute foi o único que continuou dentro do carro, sentado como se nada tivesse acontecido. Duvido que o cheiro tenha lhe poupado. Duvido!!!
De repente Zoinho apontou o dedo na direção da rodovia, gritando:
— O Chevete rosa passou reto!!! Uhuuuuuuu!!!
Todos nós olhamos para a rodovia, com olhos curiosos.
Nem sei explicar o alívio que senti ao ver o Chevete cruzando a rodovia. Cheguei a imaginar tantas coisas horríveis que acho menor nem citá-las. Ainda bem que foi tudo paranóia mesmo. Ufa!!!
Até esqueci o maldito cheiro de gambá do peido do Mamutão.
Pezão começou a rir de forma cínica, fazendo aquela cara de filho da puta que só ele sabe fazer.
— O cara está seguindo a gente!!! — disse ele, tentando imitar o Zoinho. — Vocês estão vendo muito filme de Hollywood, isso sim. Cambada de bicha medrosa.
— Mas a porra daquele Chevete estava parado na esquina da minha casa — disse Zoinho. — Juro por tudo que é mais sagrado.
— A única coisa sagrada pra você é tocar punheta.
Putz!!! Zoinho ficou roxo de raiva.
— Vai tomar no seu cu, Pezão!
— Vai você!
Zoinho estava se controlando para não pular no pescoço do Pezão.
— Quer saber? — disse Zoinho. — Eu toco punheta, e daí? Vai me dizer que você não toca? Todo homem que é homem toca, e se não toca, deveria tocar!!! É gostoso e é seguro!!! Faz muito bem pra saúde, sabia?
— Claro que toco — respondeu Pezão. — , mas não oito vezes ao dia como algumas pessoas.
— Pelo menos o pau é meu!
Pezão mudou de cínico para assustado.
— Do que você está falando, babaca? — disse Pezão.
— Todo mundo sabe que o seu pinto era de outro cara, Pezão.
Pezão mudou de assustado para furioso. Putz!!! O cara está olhando puto para mim. Lá vem bronca:
— Que papo é este de que todo mundo já sabe? Você contou pra alguém?
Pior que eu não contei. Juro pra vocês.
— Eu não contei! — respondi.
Pezão olhou para o Opala, onde estava o Mamute.
— Foi você, gordo inútil? — gritou Pezão.
Mamute esticou a cabeça para fora do carro e respondeu:
— O que tem eu? Nem estou sabendo do que vocês estão falando, porra.
Pezão partiu em direção ao carro, furioso. Mamute saiu voando do Opala. Tudo isso é medo do Pezão ou o peido finalmente fez efeito em suas narinas?
— Vem aqui, gordo filho da puta, fofoqueiro do caralho!!! — gritou Pezão, enlouquecido. — Pra quem mais você contou?
— Do que você está falando, cara? — repetia Mamute, apavorado.
Fala sério, o Mamutão é muito burro!!! Assim que ele saiu correndo do Opala já entregou o ouro. Foi o mesmo que dizer ... FUI EU!!!
Pezão perseguiu o gordo pegá-lo pelo pescoço. Fodeu. Vai sair morte.
Fiz sinal para o Zoinho me ajudar a separar a briga. Ele deu de ombros.
— Estou cagando e andando — sussurrou Zoinho. — Deixe que se matem.
Mas eu não posso fazer isso. Depois da viagem eu deixo, mas agora não! Eu quero curtir uma praia sossegado, sem enterros e funerais.
Como dizem: já cheguei chegando. Empurrei o Mamutão pra longe e entrei no meio dos dois. É claro que levei algumas porradas de graça, mas foi a única forma de separar os brigões. Caralho, já é a segunda vez que aparto briga neste episódio. Se continuar assim...
— Me larga, porra!!! — repetia Pezão, tentando se livrar de mim.
— Eu só contei para o Zoinho, Pezão!!! — disse o Mamute, apavorado. — Juro pra você, cara!!!
— Gordo fofoqueiro do caralho!!!
— Tudo bem, não foi só para o Zoinho.
Xiiiiiiiiiiiii, Marquinho!!! Faz isso não, Mamute!!! Se você dá valor pra sua vida, faz isso não!!! Comeu cocô???
E Mamute abriu o bico:
— Além do Zoinho eu contei pra duas amigas minhas. Mas só!!! Eu juro!!!
Pezão conseguiu se soltar de mim e partiu pra cima do Mamute outra vez.
Ah, querem saber??? Fodam-se os dois!!! Que se matem!!! Estou nem aí.
Voltei para o Opala.
Zoinho veio atrás de mim.
Dei a partida e comecei o caminho de volta para a rodovia. Os dois continuaram lá, aos socos e pontapés.
Eu juro que estava preparado para deixar os dois para trás. Já tinha tomado a decisão e tudo.
— Oh, ficou maluco? — gritou Pezão, uns cem metros lá atrás.
Não parei. Reduzi a marcha e prossegui bem lentamente. Se quiserem voltar para o carro, terão de ralar o cu no asfalto.
— Pisa fundo e vamos embora, Nando! — disse Zoinho, sério.
— Vou dar só mais uma chance — falei. — A próxima briga que o Pezão aprontar eu largo o filho da puta e a gente segue sem ele.
— Ele nem deveria ter vindo. O cara é muito mala.
— O foda é que preciso do filho da puta; vou ficar hospedado na casa da tia dele.
— Ah, é! Eu tinha me esquecido.
Os dois continuavam lá atrás, vinham se arrastando. Estavam exaustos. Aparentemente a briga havia acabado, pelo menos fisicamente. Pelos gestos do Pezão, ele ainda xingava o gordo de tudo quanto era nome.
— E você, Zoinho? — falei, de repente. — Vai ficar com a gente ou vai ficar na casa da namorada? Como é mesmo o nome dela?
— Camilla — respondeu Zoinho, todo empolgado. — Vou ficar na casa dela. Já avisei que estou indo para Santos hoje.
— O amor é lindo.
E Zoinho fez uma cara preocupada.
— O que foi? — perguntei.
— Estou com medo.
— Medo? Medo de mulher, porra? Peru pra dentro, Zoinho!
— E se ela não gostar de mim? E se ela me achar horrível?
— Espera aí, não vá me dizer que você não mostrou foto sua pra ela?
Zoinho demorou alguns segundos para responder, mas desembuchou:
— Não mostrei.
Putz! Comecei a rir. Mas quando vi a cara triste do Zoinho eu fiquei sem graça e parei.
— Desculpa — disse eu, sem graça. — E agora?
— Sei lá.
Pezão e Mamute chegaram.
Zoinho fez sinal desesperado para que eu ficasse quieto. Concordo com ele, este lance da foto seria um prato cheio para o Pezão começar outra briga.
— Tudo na paz? — falei para os dois. — Podemos recomeçar nossa viagem ou não?
Eles não responderam nada. Entraram no Opala e cada um foi para o seu canto.
Pisei fundo e voltamos para a rodovia. O dia ficava cada vez mais quente. Nem me atrevo a dizer quantos graus, mas a temperatura era altíssima. Daria para fritar um ovo no capô do Opala, sem dúvida alguma.
O restante da viagem foi pacífica. Coloquei o primeiro CD do Linkin Park e, aparentemente, agradei a gregos e troianos. Todo mundo relaxou e curtiu a viagem na paz. Pezão e Mamute não se olhavam, mas pelo menos não se socavam. Já era um grande avanço. Uma hora ou outra eu sentia um cheiro azedo, e pelo sorriso malandro no rosto do Pezão eu sabia de quem era a culpa. Teve um que quase me obrigou a parar no acostamento. Puta merda!!! Parece que todo mundo comeu carniça de manhã!!! Eu, hein!!! Credo em cruz!!!
De repente avistei a placa indicando que estávamos chegando em Santos. Olhei pelo espelho retrovisor e vi Zoinho roncando. Adoro quando isso acontece ...
— Acorda, filho da puta!!! — gritei com toda a força dos meus pulmões.
É claro que assustei não só o Zoinho, mas todos dentro do Opala.
— Caralho, Nando!!! — resmungou Pezão, puto da vida. — Vai assustar lá na puta que pariu!!!
— Ficou maluco, porra? — reclamou Mamute, assustado.
Zoinho foi o único que não falou nada. Ele estava mais assustado com a placa de SANTOS.
— Está chegando a hora — falei para o Zoinho.
— Ela é bonita, Zoinho? — perguntou o Mamute.
Antes que Zoinho dissesse alguma coisa, Pezão falou por ele:
— Linda feito a Roberta Close!
Fodeu. Lá vamos nós outra vez. Tomara que Zoinho não dê bola para a provocação. Bom, mas antes que termine em homicídio, é melhor eu intervir.
— Deixem o Zoinho em paz, cacete!!!
Funcionou. Ficaram quietos.
— E se a menina não for bonita — disse eu. — , foda-se!!! Quem disse que beleza é tudo na vida?
Pezão e Mamute caíram na gargalhada, feito duas hienas num show de strip-tease.
— Olha só quem está rindo! — falei, olhando para o Mamute.
— Não posso rir? — perguntou ele, rindo.
— Esqueceu da Lelê Cria-do-Demônio-com-Filhote-de-Jaguatirica?
Pezão caiu numa gargalhada ainda maior. Mamute não gostou muito.
— Bem lembrado, Nando — disse Pezão.
— Aquela vez foi diferente — disse Mamute, desconcertado. — Eu estava completamente chapado e ...
— Chapado porra nenhuma!!! — falei. — Você estava muito sóbrio.
— Como é que você conseguiu comer aquilo, gordo? — disse Pezão, rindo muito.
— Caridade, porra!!! — respondeu Mamute, irritado.
Eu ria tanto que quase perdi o controle do carro.
— A guria era tão horrível, coitadinha! — prosseguiu Mamute. — Fiquei com pena e resolvi dar uma colher de chá de Porraminha pra ela.
Entramos em Santos.
— Onde a Camilla mora? — perguntei pro Zoinho.
— Rua Antonio Berzoíno, número ...
— Caralho, Zoinho!!! Ela não deu um ponto de referência ou coisa parecida?
— Ah, ela disse que fica perto do campo da Portuguesa Santista.
— Putz! Não tenho a menor idéia de onde fica isso.
— Se é que esta tal de Camilla existe mesmo, né? — disse Pezão. — Acho melhor a gente ir pra São Vicente primeiro e amanhã ...
Olhei feio para ele.
— Fica quieto, cara — disse eu. — Já estamos em Santos mesmo, não custa nada a gente deixar o Zoinho na casa da mina.
— A Camilla tem irmã, Zoinho? — perguntou Mamute.
Todo mundo olhou para ele, aguardando a resposta.
— Não sei — respondeu Zoinho.
— Aposto que a tal de Camilla é uma gorda cheia de sardas — disse Pezão. — E ela deve ter outras cinco irmãs gordas, todas sardentinhas também.
— Não sendo piranha como a tua irmã, está ótimo — disse Zoinho.
Falando na Maura, será que ela já voltou de Belo Horizonte? Bom, esta é outra história ... Vamos prosseguir com a nossa.
Ninguém aqui conhece Santos, então o jeito é perguntar por aí.
Quem tem boca vai a Roma, certo? Então vamos lá.
Embiquei o Opala por dentro da cidade. Em cada boteco que passávamos eu parava para perguntar informações sobre o campo da Portuguesa Santista. Deve ser um local conhecido, não? E é mesmo. Todos sabiam onde é, o problema era encontrar alguém sóbrio para explicar direito. Teve um tiozinho que estava com um bafo tão forte que quase me derrubou.
Mas o pior ainda estava por vir ...
Paramos em frente a um boteco chamado PEIXE ATÉ A MORTE. Nome agradável, vocês não acham?
— Moço, oh, moço! — gritou o Pezão para um cara parado na porta do boteco.
O cara era do tamanho de um armário. Ele olhou meio desconfiado para o Opala, ergueu a sobrancelha e disse com um puta vozeirão de locutor de rádio FM:
— O que você quer?
— Faz favor, — prosseguiu Pezão, fazendo gestos para o cara vir até o carro. — vê se você pode ajudar a gente.
O grandão fez uma cara de pouquíssimos amigos, mas veio até nós. Ele vestia uma camisa do Santos. A camisa era tão velha que deve ter pertencido ao avô do Pelé.
— Como é que a gente faz pra chegar no campo da Portuguesa Santista? — perguntamos.
O cara não respondeu de imediato. Ele ficou encarando a gente por algum tempo. Depois encarou o meu Opala, cada centímetro dele. Comecei a ficar preocupado.
— Portuguesa Santista? — disse o grandão, em tom de deboche. — Fica bem longe, graças a Deus.
Porra! Que fica longe a gente já sabe. Já nos disseram.
— Poderia nos informar como a gente faz pra chegar lá? — perguntei.
O cara mirou os olhos em mim, e confesso que senti um cagaço na hora. Meu, o cara parece que acabou de saltar do filme Carandiru. Puta cara de traficante.
De repente ele mirou os olhos em outro lugar: porta-luvas. Puta merda!!! Havia um baita adesivo do Corinthians colado ali. De onde saiu isso? Juro que eu nem tinha reparado!!!
Meu, quando o grandão bateu o olho no adesivo, senti as veias da sua testa saltarem uma por uma. Deu pra sentir a raiva crescendo em seus olhos e em todo o seu corpo.
O cara bateu a mão no porta-luvas e tentou arrancar o adesivo na porrada.
— Isso aí não é meu — falei. Sei lá se alguém conseguiu ouvir. Eu estava tão apavorado que devo ter apenas sussurrado. — Meu pai que comprou este carro e ...
O cara nem me deu bola, continuou tentando arrancar o adesivo de qualquer jeito.
De repente saíram outros dois caras enormes do bar.
— Tudo corintiano, meu povo — disse o brutamontes para os dois amigos. E apontou para o interior do Opala.
Puta merda!!! Estamos fodidos. Isso aqui vai dar bosta, com certeza!
— Está havendo um engano! — disse Pezão. — Não somos corintianos!!!
Meu, quando saíram mais três grandões do bar eu não tive outra opção: pisei fundo no acelerador e saí queimando o asfalto. Quase arranquei o braço do grandão fora, mas foda-se!!! Era o dele ou os nossos, certo? Não sairíamos vivos dali, com certeza.
— Meu, os caras estão entrando numa Kombi! — disse Mamute, apavorado.
— Pisa fundo nesta porra, Nando! — gritou Pezão. — Acelera, maluco!!!
Quando olhei o tamanho dos caras que estavam subindo na Kombi eu pensei comigo mesmo: é peso demais para uma Kombi, não vão conseguir nos alcançar nem a pau!!!
E realmente não conseguiram. O Opala deixou a Kombi no chinelo.
Ufa!!!
— Agora tira este adesivo daí, pelo amor de Deus!!!
Obs.: Nada contra o Corinthians. Mas o adesivo só nos traria problemas.
Já era quase quatro horas da tarde quando nós finalmente localizamos a maldita casa da Camilla. Se é que esta porra de Camilla existe mesmo. Estou desconfiado de que seja uma pegadinha de alguém. Na Internet tem muita gente sacana.
— Está ali, é o número que ela me passou — disse Zoinho, apontando para um sobrado do outro lado da rua. Zoinho estava mais branco que um copo de leite.
— Fica frio, mano — falei, tentando acalmar o pobre coitado. Quero dizer, pobre eu acho que não, pois o filho da puta tinha tanta revista de mulher pelada, e se ele realmente vendeu todas, isso deve ter lhe rendido uma boa grana.
— Anda logo com isso, porra! — disse Pezão, impaciente. — Estamos perdendo um dia na praia por causa dessa biscate virtual.
Zoinho estava tão concentrado no sobrado que nem deu bola para a provocação.
Desci do carro e levantei o banco para que Zoinho também descesse. O coitado estava tremendo de nervoso. Enquanto ele descia, fui abrir o porta-malas para pegar sua bolsa.
— Calma, Zoinho! — gritei. Zoinho me olhou assustado. Fiquei com pena do rapaz. Ele está morrendo de medo de ser rejeitado. — Vai dar tudo certo, você vai ver.
Entreguei-lhe a bolsa e dei-lhe dois tapinhas nas costas, tentando passar confiança pro maluco.
— Vamos lá comigo, Nando, por favor.
— Ah, será que é uma boa idéia? Eu não sirvo pra segurar vela, eu ...
— Por favor! Estou nervoso demais, vou acabar fazendo merda.
Putz! E agora? Poxa, o coitado está tão apavorado que não vai conseguir nem caminhar até a casa da mina. Preciso fazer alguma coisa.
— Tudo bem, eu vou até lá com você. Mas só até o portão, hein!
Zoinho ficou tão contente que quase gozou na cueca.
Abaixei-me até a porta do Opala e falei para o Pezão:
— Vou lá conhecer a namorada do Zoinho. Espera um pouco aí.
Pezão fez cara de poucos amigos.
— Enquanto isso a gente vai sair pra comprar cerveja então — disse ele, já pulando para o banco do motorista.
Porra, até que é uma boa idéia. Desde que ele compre para todos, é claro.
— Beleja — disse eu, jogando as chaves do Opala para o Pezão. — Mas muito cuidado com o ...
Pezão nem me deu tempo de completar; saiu queimando os pneus. Filho da mãe!!!
Paramos em frente ao portão de madeira do sobrado. O portão é daqueles todo fechado, então não dá para ver nada do outro lado. Acho que isso deixou Zoinho ainda mais nervoso. Pensando bem, eu também ficaria. Imaginem só ... a mina vai abrir o portão e Zoinho vai dar de cara com ela. Se a Camilla for o monstro do Lago Ness não vai dar tempo pra fugir ou fingir que não se assustou.
— Vamos, Zoinho! — falei, apontando para a campainha perto dele. — Não temos o dia todo.
Ele hesitou um pouco, mas apertou o interruptor.
— E se ela não gostar de mim? — perguntou ele, esfregando as mãos e tremendo dos pés a cabeça.
— Foda-se! — respondi, dando risada. — Eu também não gosto e você nunca reclamou.
Zoinho acabou rindo também.
Ouvimos passos do outro lado do portão. Vem vindo alguém. Será ela? Zoinho começou a suar frio. Confesso que até eu fiquei um pouco nervoso.
E o portão abriu-se.
Santa Pixirica!!!
Capítulo 7 · Camilla
Zoinho acabou rindo também.
Ouvimos passos do outro lado do portão. Vem vindo alguém. Será ela? Zoinho começou a suar frio. Confesso que até eu fiquei um pouco nervoso.
E o portão abriu-se.
Santa Pixirica!!!
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Meu, o Zoinho se deu bem!!!!!!!!!!!
Uma verdadeira deusa saiu detrás do portão. Perdoe-me a comparação, mas a mina parece a Camila Pitanga. Tudo bem, admito que ficou uma comparação bem idiota, já que a mina do Zoinho também se chama Camilla, mas elas são parecidas mesmo, o que eu posso fazer?
A garota é simplesmente um arraso: altona; pele morena; cabelos negros e longos (chegam até a cintura); olhos verdes (sim, verdes!!! talvez os mais lindos que eu já tenha visto em toda a minha vida); nariz batatinha, muito gracioso; lábios grossos e sensuais; um sorriso perfeito! Ela está usando uma blusinha preta com o logotipo dos Thundercats, tão apertada contra os seios que dá a sensação de que morrerão sufocados mais cedo ou mais tarde. A calça jeans está mais apertada ainda, revelando todo o contorno de suas pernas. Meu, a mina é a perfeição em pessoa! Mais gostosa é impossível. O filho da puta do Zoinho se deu bem!!! Peru pra dentro, Zoinho sortudo do caralho!!! Se eu soubesse que na internet também tem uns filés como este, já teria mergulhado de cabeça na bagaça.
Ela sorriu para nós. Zoinho estava tão duro que parecia uma estátua de pedra.
E a gostosa começou a me examinar da cabeça aos pés.
— Então você é o famoso Demétrius? — perguntou ela, olhando para mim com aqueles olhos verdes magníficos.
— Demétrius? — e fiz cara de confuso.
— Não — disse Zoinho, tímido. — E ... e ... eu sou o De De De Demétrius.
Putz!!! É verdade, o nome do Zoinho é Demétrius. Eu nem me lembrava disso.
E a guria olhou bem para o Zoinho e começou a rir. O coitado quase abriu um buraco na calçada para enfiar a cabeça. Sacanagem. Deu pena dele.
— Ânimo, rapaz! — disse a garota. Zoinho até se assustou. — A Camilla está super ansiosa para ver você! Ela não pára de falar em como vocês se conheceram pela internet e ...
— Então você não é a Camilla? — perguntei.
Ela me abriu um puta sorriso e respondeu:
— Meu nome é Isabella. A Milla é minha irmã.
Opa!!! Isso aqui começou a ficar interessante, hein!!! Irmã?
— Muito prazer — disse eu, pegando na mão dela. — Eu sou o Nando.
Dei-lhe um beijo no rosto. Seu perfume gostoso me deixou ligeiramente excitado. Nando Júnior deu até uma fisgadela.
— Entrem — disse ela, abrindo um pouco mais o portão. — A Milla está lá em cima trocando de roupa. Ela está muito nervosa. Acho que já experimentou todo o seu guarda-roupa hoje.
— Só pra me ver? — disse Zoinho, um pouco mais empolgado.
Isabella balançou a cabeça positivamente. Depois ela olhou para mim e piscou.
Não sei se é impressão minha, mas parece que eu me dei bem também!!! A mina está me jogando cada olhar que eu vou te contar ... loucura, loucura, loucura!!!
Entramos e ficamos aguardando a Camilla na sala. O sobrado é bem limpinho e arrumado; pelo jeito só há mulheres na casa. Isso é bom, muito bom.
Isabella foi até a cozinha preparar um café para nós. Ela fez questão de atravessar a sala todinha rebolando; aquilo me enfeitiçou de vez. Numa escala de um a dez, eu daria nota onze para a sua bunda.
— Milla, anda logo! — gritou Isabella, ao passar pela escada que dá acesso ao segundo andar da casa. — Seu amado virtual já está aqui!
Zoinho estava sentado do meu lado, mais nervoso do que nunca.
— Por que você não me disse que a Camilla tinha uma irmã, seu porra? — perguntei em voz baixa para ele.
Zoinho deu de ombros, fazendo cara de desentendido.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que ...
— O Pezão tinha razão — disse Zoinho, triste. — A Camilla deve ser uma gorda horrível, cheia de estrias e ...
— Por que está dizendo isso? Você não viu a irmã?
— Justamente por isso. A Isabella é a mina mais gostosa que eu já vi na vida. O que sobrou deve ter ficado com a Camilla.
Comecei a rir. Não vou mentir, eu também estava pensando justamente isso. É raro você ver duas irmãs gostosas como a Isabella. Geralmente uma das duas fica com a raspa da panela. Mas é claro que existem as exceções; lembram da Caroline e Carolina? As duas eram bonitas.
— Pensamento positivo, Demétrius!
Zoinho me olhou meio assustado. Acho que nem ele está acostumado com o próprio nome.
De repente, passos na escada. Alguém estava descendo os degraus.
— Será que é ela? — falei baixinho. — Respira fundo, Zoinho. Mulher odeia homem que fica ga ga ga gaguejando.
Putz!!! Acho que deixei o cara ainda mais nervoso; ele começou a tremer.
O som dos passos ficava cada vez mais alto, até que ...
Nada. Era só a Isabella, mas usando outra roupa. Agora ela estava com um vestido amarelo claro, super comportado. Parecia outra pessoa. Mas como é que ela desceu as escadas se eu nem a vi subir? Eu, hein!
— Demétrius? — disse ela, olhando para mim.
— Eu sou o Nando — respondi, sorrindo meio sem graça. — Já se esqueceu?
— Ca Ca Camilla, é você? — perguntou Zoinho, embasbacado.
— Sim — respondeu a garota. Não entendi nada. — , você é o Demétrius?
Zoinho e a garota se abraçaram. Não houve beijo na boca, apenas um beijo no rosto de cada um.
— Você é a garota mais linda que eu já vi na vida — disse Zoinho, praticamente babando.
A mina ficou super vermelha, parecia uma lata de molho de tomate.
— Obrigada.
Demorou, mas finalmente caiu a ficha. Talvez vocês tenham percebido antes de mim.
— Vocês duas são irmãs gê ... ?
— Gêmeas — completou Isabella, entrando na sala com um pote cheio de bolachas. — Eu pensei que vocês já soubessem.
— Uau! — falei, olhando para as duas.
Meu, as duas são gêmeas idênticas! Cara de uma, focinho da outra. A única diferença clara é o guarda-roupa das duas. Isabella é muito mais ... sexy. A Camilla parece ser mais conservadora, mais tímida.
— Estou tremendo — disse Camilla para Zoinho. — , você acredita?
— Eu também — respondeu Zoinho. — Nunca fiquei tão nervoso em toda a minha vida.
— O amor é lindo — disse eu, colocando as mãos no ombro do Zoinho. — Acho que vocês foram feitos um para o outro, hein!
Putz! Nem acredito que falei isso. Zoinho é feio que dói; já a Camilla é uma cópia da irmã Isabella, portanto nem preciso dizer que é lindíssima. E usando aquele vestidinho todo comportado ela ficou parecendo uma personagem de filmes antigos; ficou ainda mais bonita.
— Agora eu preciso encontrar o meu príncipe encantado, não é? — disse Isabella, olhando para mim com o rabo dos olhos.
Filha, se depender de mim, você já encontrou a sua pica encantada. Ops! Quero dizer, o seu príncipe encantado. É chegar e levar. Tô facinho, facinho!
Sentamos e tomamos um belo café. Acho que eu nunca comi tanta bolacha na vida.
Zoinho e Camilla foram se soltando aos poucos, mas não passaram daquele beijo no rosto. E pelo que eu estou entendendo, é bom o Zoinho nem arriscar nada mais ousado, pois Camilla é realmente uma garota recatada. Não duvido nada se ainda for virgem.
Acreditem se quiser!!! Virgem!!! Mas ... também tem muita mina que se finge de santa por aí e ... Ah, vocês sabem muito bem que tem. Não preciso citar nomes.
Já a irmã, Isabella, não tem nada de virgem. Isabella não é virgem nem de signo. Só de observá-la um pouquinho você já percebe que a mina gosta da coisa. Estávamos conversando de boa e, do nada, ela pegou minha mão e colocou sobre suas coxas.
— Já tem dois meses que estou malhando diretão — disse ela. Quase cuspi pedaços de bolacha pelo tapete da sala. — Dá pra notar como elas estão durinhas?
Engoli a bolacha e depois respondi:
— Você tem pernas lindas — completei. — Não consigo entender como uma gata como você não tem namorado. Só tem gay nesta porra?
E Isabella caiu na gargalhada, parecia uma hiena tocando siririca. Mas pouco a pouco sua expressão foi mudando, até ela ficar triste feito um bicho-preguiça com caxumba.
— Eu estava noiva, mas faltando um mês para o casamento nós brigamos feio e acabou tudo.
— Nossa, que merda. A briga foi feia, hein!
— E tudo por causa de uma bobagem. Acredita?
— É mesmo?
— Vai vendo ... Quando estávamos preparando os convites para o casamento, os pais dele surtaram e não queriam colocar o nome do meu pai de jeito nenhum.
— Putz! Mas por quê? Comeram cocô?
— Tudo bem que o meu pai tem um nome ... diferente, mas os pais dele não precisavam fazer tanto escândalo assim. Você não acha?
— Ahã. Mas você vai me dizer o nome do seu pai ainda hoje ou não?
Ela começou a rir novamente. Meu, sorrindo ela fica ainda mais parecida com a Camila Pitanga. Fala sério, a mina é muito gata!!! Não vejo a hora de beijar sua boca.
— Eu falo — disse ela, terminando de rir. — mas não vale debochar, hein!
— Eu jamais faria isso, gata.
— Está bem. Flatulêncio.
— Não fui eu.
— Não! É o nome do meu pai ... Flatulêncio Gaspar.
Putz!!! Juro que eu tive de me segurar pra não mijar na cueca. Foi foda.
— Não vai rir? — perguntou ela, me encarando.
— Nem é tão estranho assim — o que é que a gente não faz para impressionar uma mulher, não é?
Mas valeu a pena!!! A mina quase me comeu com os olhos.
— Você é muito fofo, sabia? — disse ela. — Aposto que tem namorada sim.
— Não tenho, eu juro.
— Sei, sei — e ela ficou me olhando. — E já se apaixonou alguma vez?
— Sei lá, acho que sim.
— Não existe isso. Ou já se apaixonou ou não.
— Então eu diria que sim.
— E por que não estão juntos?
— Porque ela morreu.
E Isabella fez aquela cara de bicho-preguiça com cólicas outra vez.
— Credo!!! Você está falando sério?
E agora eu fiz cara de bicho-preguiça carente.
— Estou.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Até que ...
Nossos olhos se cruzaram; nossas bocas salivaram ... e o resto eu não preciso nem dizer, né? Mas vou dizer assim mesmo ... ROLOU O MAIOR BEIJÃO DE LÍNGUA. Aooooooooooo, me dei bem!!! Enquanto nos beijávamos, minhas mãos apertavam suas coxas malhadas, subindo e descendo lentamente. Aquele perfume dela me deixava ainda mais enlouquecido. Foi maravilhoso. Seus lábios contra os meus formaram um par perfeito, modéstia à parte.
O beijo foi tão bom que perdi até o rumo. Planeta Terra, chamando Nando!!! Volta, filho da puta!!!
— Meu, você é demais — falei, apertando sua coxa durinha uma última vez.
— Curti você logo de cara — disse ela.
Só agora eu percebi que Zoinho e Camilla estavam olhando para nós, atônitos:
— Vocês são apressadinhos, hein! — disse Camilla, torcendo o nariz.
Fiquei um pouco sem graça, mas foi só na hora. Vai se foder, Sinhá Moça do caralho!!!
— Vocês é que são lentos demais — disse Isabella, pegando nas minhas coxas. — A vida passa muito depressa. Se você não aproveita ...
— Alguém aproveita por você — falei.
— É isso aí.
Camilla fez cara de cu.
Ouvi três buzinadas longas vindo lá da rua. Dez segundos depois senti algo vibrar dentro da calça. Não era o Nando Júnior, mas o celular.
— Fala, Pezão dos infernos — atendi.
— Vem logo, porra!!! — gritou ele. Todos ali na sala ouviram suas gentilezas ao telefone.
— Não dá pra falar mais baixo?
E desliguei o celular.
— Ah, você não vai embora agora, vai? — disse Isabella, com uma carinha desapontada.
Putz!!! E agora, o que eu faço? A guria está no ponto; é chegar, levar lá pra cima e ... peru pra dentro.
Mais três buzinadas longas. Pezão deve estar bufando dentro do Opala.
O celular tocou outra vez. Nem atendi.
— Eu vou — respondi, já meio arrependido — , mas eu volto, é claro.
— Fica aqui em casa com a gente. Tem espaço de sobra.
É muita tentação, porra!!! E agora, o que eu faço???
— Não acho uma boa idéia — disse a Camilla, de repente. — Os vizinhos vão falar besteiras e eu não quero confusão. — e ela olhou para Zoinho. — Você não se importa de passar a noite num hotel, não é?
Zoinho ficou bem decepcionado, mas fez a coisa certa:
— Não — respondeu ele. — Sem problema.
— Vamos ficar na casa da tia de um amigo nosso — falei. — Ficaremos bem. E voltaremos amanhã. — e olhei para o Zoinho. — Certo, Demétrius?
Zoinho balançou a cabeça positivamente, apesar do seu rosto não demonstrar nada de positivo. Acho que ele pensou que ia se dar bem esta noite, coitado. E coitado mesmo, pois pelo que eu percebi, a Camilla vai dar canseira nele. Se pra rolar um beijo na boca já está demorando tudo isso, imagine pra ...
Pobre Zoinho, vai continuar na punheta.
É lógico que as irmãs quiseram nos acompanhar até o portão. Mas não deixei. É melhor que Pezão e Mamute não tenham a menor idéia do que se passou aqui nesta casa. Vocês não concordam comigo? Se eles descobrirem que descolamos duas gêmeas gatíssimas, é claro que vão querer uma casquinha também, com certeza. Principalmente o filho da puta do Pezão. A gente conhece bem o cara, não é?
As irmãs ficaram meio griladas, mas não criaram problemas.
Eu me despedi da Isabella com um puta beijo de língua; Zoinho já não teve tanta sorte, ficou apenas no abraço e beijinho no rosto mesmo. Mas nota-se que a Camilla gostou dele. Já é um grande passo. Eu cheguei a pensar que a mina ia sair correndo.
Bom, saímos os dois pelo portão, sozinhos.
Eu pensei que ia dar de cara com o Opala, mas isso não aconteceu. Não havia o menor sinal do Pezão e do Mamute.
— Cadê aqueles filhos da puta? — perguntei, coçando a cabeça e olhando para os lados.
De repente, alguém saltou de um terreno baldio que havia ao lado do sobrado e acertou Zoinho com um pedaço de pau. Zoinho caiu desacordado na calçada. Foi tudo muito rápido e confuso. Quando eu pensei em me defender, fui atingido também. Pa!!!
Capítulo 8 · Nando Vê a Luz
Bom, saímos os dois pelo portão, sozinhos.
Eu pensei que ia dar de cara com o Opala, mas isso não aconteceu. Não havia o menor sinal do Pezão e do Mamute.
— Cadê aqueles filhos da puta? — perguntei, coçando a cabeça e olhando para os lados.
De repente, alguém saltou de um terreno baldio que havia ao lado do sobrado e acertou Zoinho com um pedaço de pau. Zoinho caiu desacordado na calçada. Foi tudo muito rápido e confuso. Quando eu pensei em me defender, fui atingido também. Pa!!!
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Tudo ficou escuro.
Depois tudo ficou claro, muito claro ... tão claro que meus olhos doíam.
Pronto, morri. Só pode ser isso. Puta merda, eu morri!!!
Ah, fala sério!!! Por quê? Por quê? Por que eu? Tão jovem ...
Oh, mundo cruel ... por que fizestes isso comigo? O que eu fiz para merecer tamanho castigo? Tem tanta gente pior do que eu, porra!!! Eu nunca fiz mal pra ninguém ... Quero dizer, eu já fiz ... mas ... Ah, deixa pra lá.
E a luz foi diminuindo de intensidade ...
Um corredor!!!
Putz!!! Agora fodeu de verdade, morri mesmo. Agora não tem mais volta.
E agora, será que estou indo paro céu ou para o inferno? Estou descendo ou estou subindo? Porra, não dá pra saber de nada disso!!! A única coisa que eu vejo é uma maldita luz branca na minha cara!!!
Se estou mesmo morto e estou indo para algum lugar, a única coisa que me interessa agora é saber se vai ter mulher lá. E o mais importante, é claro, será que ainda serei capaz de fazer alguma coisa? Meti a mão na cueca e ... Ufa! Nando Júnior continua no mesmo lugar de sempre.
Ah, querem saber? Dane-se! Morto ou não, pelo menos ainda tenho meu pistolão.
Olhei para trás; outro clarão.
E um silêncio. Um silêncio tão limpo e puro que, por um instante, cheguei a esquecer todas as coisas ruins que eu já fiz na vida. Senti-me em paz ... Até parei de pensar em ... Não me lembro. Estou puro. E nem precisei do Mestre dos Magos e uma jarra de leite para isso.
Xiiiiiiiiiiiiiiiiiii, Marquinho ... Depois que morre a gente vira baitola? Eu, hein!!! Estou começando a não gostar desta história de morto.
De repente, uma voz!!! Uma voz feminina. Uma voz linda. E na hora eu não consegui identificar de quem era a voz, mas agora eu sei: Caroline. Sua voz linda entrou pelos meus ouvidos como um vento gelado numa manhã de inverno, ela disse o seguinte: "Muito cuidado com o homem da cicatriz".
E quando dei por mim ...
— Ele voltou!!! — disse alguém. Creio que tenha sido a Isabella, mas não tenho absoluta certeza. Eu estava bem grogue.
Meus olhos foram abrindo aos poucos. Eu não estava mais sob o clarão, mas num quarto de hospital. De um lado da cama havia um médico e uma enfermeira me olhando com olhos arregalados, do outro lado estavam Isabella e Pezão, com olhos ainda mais arregalados.
— Você nasceu de novo, rapaz — disse o médico, com um puta sorriso nos lábios.
Tentei responder alguma coisa, mas não consegui. Eu não conseguia me lembrar qual músculo eu deveria mexer para fazer isso. Está pensando que é gozação? Jamais queiram passar por esta experiência; foi horrível.
Até que senti um beijo nos lábios. Isabella me beijou. A filha da puta da enfermeira tentou impedi-la, mas não conseguiu.
Ainda bem! O beijo dela me acordou totalmente. Até o Nando Júnior acordou. Meu, como foi bom sentir o meu companheiro de luta outra vez.
— O que aconteceu comigo? — disse eu, finalmente.
— Você sofreu um golpe violentíssimo e apagou — respondeu o médico, enquanto checava o meu pulso. A enfermeira não parava de escrever numa prancheta.
— Pensei que você tinha batido as botas, cara — disse Pezão, com um sorriso cínico nos lábios. Ele não sabia se olhava para mim ou para o decote da Isabella. Cuzão!
— Estávamos preocupadíssimos — disse Isabella, com um rostinho triste.
— E quando vou poder sair daqui? — perguntei, meio assustado.
— Só quando terminarmos todos os exames — respondeu o médico. — Até lá, é melhor você ficar em observação.
Putz!!! Ninguém merece. Eu devo ter jogado cocô na mulher do capeta, viu? Venho passar uns dias na praia e acabo numa cama de hospital. Assim não dá.
Bom, mas pelo menos eu estou vivo, certo? Certo. Eu preciso parar de ver somente o lado ruim das coisas. Vocês não acham?
— Mas quem me acertou? Como vim parar aqui? E o Zoinho? Ele está bem?
— O Zoinho está melhor do que todos nós juntos, cara — disse Pezão. — Foi pra casa da namorada. Dá pra acreditar nisso? O Zoinho tem namorada. Parece piada.
— Você precisa de repouso — disse a enfermeira, aplicando-me uma injeção. Nunca vi uma enfermeira tão feia em toda a minha vida. Mas o que vocês queriam? Isso aqui não é Cine Privet, porra!!!
E fui me sentindo cada vez mais sonolento ... A última coisa que ouvi foi a voz do Pezão, dizendo: "Deixa que eu tomo conta da Isabella".
Nããããããoooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!! Filho da ...
E apaguei outra vez.
Mas desta vez não vi clarão algum. Em compensação, tive sonhos eróticos um atrás do outro. A maioria deles com a Isabella. Mas o melhor de todos foi um que estavam as duas irmãs juntas. Loucura, loucura, loucura!!! Pra falar a verdade eu sonhei até com a enfermeira mocréia. Bom, pelo menos no sonho ela tinha seios bonitos.
Abri os olhos e vi a luz do dia atravessando as cortinas do quarto. Olhei para a minha esquerda e vi Isabella, mais linda do que nunca. Ela estava sentada ao meu lado, segurando a minha mão. Quando me viu abrir os olhos, ela sorriu. Foi o sorriso mais sincero que eu já vi até hoje.
— Bom dia, moço da cabeça dura — disse ela, rindo e apertando a minha mão. E de repente ela olhou para o lençol ligeiramente levantado. Putz!!! Eu estava de pau duro e nem tinha percebido. — Ou devo dizer ... cabeças duras???
E ela caiu numa gargalhada maravilhosa. Eu teria morrido de vergonha, mas tudo que consegui sentir foi mais afeição por ela.
— Desculpa! — falei, enrolando-me no lençol. — Sonhei sacanagem a noite inteira — e dei um sorrisinho sacana.
Os olhos dela quase saltaram das órbitas.
— Sério? Agora me conta, vai!
Ela apertou meu braço com tanta força que senti suas unhas penetrarem minha pele. Quase gritei de dor.
E alguém abriu a porta. Era o Pezão, trazendo dois copos de café e um pacote de bolacha água e sal.
— Acordou, morto-vivo? — disse ele, rindo feito um louco. Isabella fez sinal para ele falar mais baixo, em respeito ao outro paciente que dormia na cama ao lado. — Podemos ir embora ou não? — ele abaixou a voz desta vez.
— Já poderíamos ter saído há muito tempo — falei. — Estou bem, muito bem!
— Mas agradeça ao seu santo, cara — disse Pezão, após tomar um longo gole de café. — Você ficou mal pra caralho. Nem acredito que esteja falando com a gente.
— Sério? — perguntei, olhando nos olhos da Isabella. — Fiquei tão mal assim?
Ela deu uma engolida seca e respondeu:
— Verdade, gato, todo mundo pensou que você ia ...
— Putz!!! Mas quem foi o cuzão que me acertou? Eu não consigo me lembrar de quase nada do que aconteceu.
— Você não vai acreditar — disse Pezão, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado da cama.
— Conta logo, porra!!! — falei, impaciente.
E Isabella fez sinal para eu falar mais baixo também. Meu, o cara da outra cama deve estar morto, pois nem se mexe.
— Sabe quem te acertou? — disse Pezão, de boca cheia.
— Porra, se eu soubesse não teria perguntado — falei baixo desta vez, mas ainda irritado.
— Você não vai acreditar; foi o filho da puta do Chevete rosa.
Como é que é? Caraaaaaaaaalho!!!
— Mas ... mas ... ele passou batido por nós e ...
— Sei lá, cara. Mas era ele. O filho da mãe seguiu a gente direitinho. O punheteiro do Zoinho estava certo.
— Filho da puta!!!
— E tem mais ... — prosseguiu Pezão, após engolir mais uma bolacha. — Eu conheço o desgraçado de algum lugar. Eu posso jurar que já vi aquele babaca antes.
— Mas o que aconteceu com ele? Onde ele está?
— O covardão fugiu — disse Pezão. — Você deu muita sorte. O Mamutão e eu chegamos bem na hora em que ele estava arrastando você para o terreno baldio.
— Caralho!!! — falei tão alto que devo ter acordado o hospital inteiro. — O cuzão estava me seqüestrando?
Pezão fez sinal de positivo com a cabeça.
— Ele ia comer o teu cu no mato — falou Pezão, rindo feito uma hiena comendo churros.
— Vai se foder! — resmunguei. — Seria melhor ter morrido.
E Isabella me deu um tapa no braço, dizendo:
— Fala isso não, oh!
— E você? — perguntei para ela. — Viu tudo?
— Não. Quando cheguei à janela, o safado já tinha fugido. Não quero nem me lembrar do momento em que vi você e o Demétrius caídos na calçada. Eu quase desmaiei de tanto apavoramento. Minha irmã foi a mais sensata na história toda; foi ela que ligou para o hospital.
— Caramba — fiquei boquiaberto. — Puta merda, e os meus pais? — disse eu, apavorado. — Eles estão sabendo?
— Fica frio — disse o Pezão, calmamente. — Eu não deixei que o hospital entrasse em contato com eles. Eu sou foda.
Foda ou não, eu senti um puta alívio ao saber disso. Escapei do psicopata, mas eu não sei se teria a mesma sorte com os meus pais.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Até que ...
— Faz uma força aí, porra! — falei para o Pezão. — De onde você conhece o cara? Será que eu também conheço?
— Aposto que sim.
E foi aí que lembrei do sussurro de Caroline no meu ouvido, durante o período em que fiquei desacordado. Resolvi arriscar:
— Por acaso ele tinha uma cicatriz?
Pezão arregalou os olhos, parecia excitado.
— Porra, tinha sim!!! Uma puta cicatriz na testa. Lembrou quem ele é?
— Não — respondi, triste. Nunca me senti tão triste e apavorado na vida.
— O que foi? — perguntou Isabella, acariciando meu rosto.
— Deixa pra lá — disse eu. — Vocês não vão acreditar mesmo.
Parece que algumas peças estão se encaixando, vocês notaram? O assassino do irmão da Caroline é o dono do Chevete rosa. Mas por que este filho da puta está me perseguindo? Ninguém merece.
Bom, mas como eu disse anteriormente: tudo na vida tem um lado bom. Descobri que a minha querida Caroline continua do meu lado. Sinto a sua falta, gata.
A vida continua.
Finalmente deixei o hospital. Minha cabeça estava coberta de curativos e doía um pouco, mas fora isso eu estava me sentindo muito bem. O médico me recomendou repouso, mas o que eu quero mesmo é pegar uma praia. O sol está de rachar, porra!!! Quem é que fica de repouso numa cidade como Santos?
Ah, e vocês não imaginam a felicidade que eu fiquei ao ver o meu Opala no estacionamento do hospital. Sua pintura reluzia ao sol. Quase tive um orgasmo.
Isabella queria me arrastar para a delegacia a todo custo. Ela queria que eu registrasse um boletim de ocorrência contra o filho da puta da cicatriz. Mas algo me diz que isso não resolveria absolutamente nada. Sinto que este assunto terá que ser resolvido entre nós dois.
Capítulo 9 · De Volta ao Sobrado
Ah, e vocês não imaginam a felicidade que eu fiquei ao ver o meu Opala no estacionamento do hospital. Sua pintura reluzia ao sol. Quase tive um orgasmo.
Isabella queria me arrastar para a delegacia a todo custo. Ela queria que eu registrasse um boletim de ocorrência contra o filho da puta da cicatriz. Mas algo me diz que isso não resolveria absolutamente nada. Sinto que este assunto terá que ser resolvido entre nós dois.
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Eu estava louco para dirigir meu Opala outra vez, mas Isabella não me deixou. "Você ainda não está 100 porcento!", disse ela de um jeito duro, mas maternal ao mesmo tempo.
Sei lá, mas acho que a Isabella é o tipo de namorada que eu preciso neste momento; alguém que me ajude a entrar na linha. Nunca tive uma namorada mandona.
Pezão sentou-se ao volante; Isabella e eu fomos para o banco de trás.
— Porra, virei taxista agora? — resmungou Pezão, vermelho de raiva.
— Virou sim — respondeu Isabella, com um sorriso maroto. — E agora pega aquela avenida ali à direita e segue até a rotatória. Quando chegar lá eu te passo o resto do caminho. Sacou?
— Puta que pariu.
E Pezão deu a partida no Opala.
Pezão sempre foi um péssimo perdedor; principalmente quando o assunto é mulher. Ele não admite quando uma garota prefere ficar comigo. Pezão fica uma fera! Suas veias da testa estão até dançando.
Opa! Isabella colocou suas mãos quentes nas minhas coxas. Senti até uma cutucada. Nando Júnior acordou.
— Você é valente — disse ela, olhando nos meus olhos. Até arrepiei.
— Nem tanto, gata — respondi, acariciando seus belos cabelos morenos.
— Você é sim! — insistiu ela, beijando carinhosamente a minha mão. — Ontem eu pensei que estaria no seu velório, e agora estamos aqui, como se nada tivesse acontecido. Nem abalado você está!
Ela que pensa. Estou disfarçando o máximo que posso, mas por dentro estou apavorado. Quem garante que o maluco do Chevette rosa não está me perseguindo neste exato momento?
— Valente o escambau! — disse Pezão, de repente. — Se não fosse por mim, o tarado teria comido o cuzinho dele ali mesmo no mato e ...
— Pezão — falei.
— O quê?
— Enfia o dedo no cu e assovia!!!
Isabella quase morreu de rir, parecia uma hiena fugindo do zoológico.
— Vocês são doidos, sabiam? — disse ela, ainda rindo bastante.
Dei uma olhada rápida para trás, procurando algum Chevette cor de rosa. Ufa! Aparentemente nenhum sinal do maluco.
Quando virei meu rosto novamente, Isabella me beijou. Foi um beijo tão bom, mas tão bom que senti uma enorme vontade de pular em cima dela e transar com ela ali mesmo. Eu queria arrancar aquela sua blusa decotada, agarrar seus peitos macios e beijar aqueles biquinhos duros e ...
— Já chegamos na maldita rotatória! — gritou Pezão, puto da vida, ou posso dizer ... MORRENDO DE INVEJA!!!
Para provocá-lo ainda mais, não amoleci os lábios e continuei beijando a sósia da Camila Pitanga.
— Oh, psiu! — prosseguiu Pezão, mais irritado do que nunca. — Já estamos na rotatória, porra!
Bom, é melhor eu deixar a Isabella falar com ele ou vai dar briga isso aqui. O Pezão já deixou de ser São Maurício há muito tempo, não é? Putz! Tem horas que eu sinto saudade daquelas paradas de Babalu Cósmico do caralho. Tudo bem que ele ficou um chato dos infernos, mas pelo menos nós vivíamos em paz.
Dei uma pausa no beijo. Isabella não gostou muito da idéia, mas entendeu o motivo.
— O que você quer? — disse ela para o Pezão.
Pezão não disse nada, apenas apontou para a rotatória, fazendo cara de pouquíssimos amigos.
— Vire para a direita ali no restaurante e siga reto, depois passe o viaduto, vire à esquerda, depois direita ... e pronto, já estaremos praticamente em casa. Sacou?
— Saquei, belezinha.
Pezão pisou com tanta raiva no acelerador que cheguei a pensar que ia varar o assoalho do meu carro. Já vi ele fritar pneus, mas não como ele fritou os do Opala agora.
— Oh, pega leve aí! — gritei com ele. — O carro é meu, porra!
Ele fez a curva no restaurante tão fechada que Isabella e eu quase fomos jogados para fora do Opala. Eu me senti praticamente dentro de um foguete, com gravidade zero.
— Quer nos matar, cara? — reclamou Isabella, apavorada.
Meu, quando eu vi aquele baita viaduto lá na frente eu senti o maior cagaço.
— Pega leve aí, Pezão! — gritei. — A gente vai sair voando desta porra, cara!
E vamos mesmo! Se ele não diminuir a velocidade nós vamos sair voando daquele viaduto e vamos parar lá no Guarujá. Puta que pariu!!!
Isabella olhou para mim com os olhos arregalados.
— Seu amigo é louco? — disse ela, segurando forte a minha mão.
— Louco eu não sei, mas comeu muito cocô quando era criança!!!
E o viaduto está cada vez mais próximo. Agora eu morro de verdade. Fodeu, vou chegar do outro lado com a Isabella grudada no meu pescoço, aí o espírito da Caroline vai ver a gente e ... Não quero nem pensar!!! Isso não vai dar certo.
Ufa!
Pezão deu uma desacelerada e subiu o viaduto de boa. Meu, quase caguei na calça. Sem brincadeira. Maldito Pezão dos infernos!!!
Isabella fez algo que eu não via ninguém fazer há muitos anos, e me fez rir um pouco. Ela chegou atrás do Pezão e deu um puta croque nele. Putz!!! Ardeu até em mim.
— O que é isso, gata? — gritou ele, surpreso. — Caralho, doeu!!!
— E era pra doer mesmo!!! — disse Isabella, irritadíssima. — Quer me matar do coração, rapaz?
Depois do susto nós perdemos até o tesão para nos beijarmos outra vez. Ela encostou sua cabeça no meu peito e seguimos o resto do caminho calados.
Mamute nos aguardava na janela de cima do sobrado.
— Que bom te ver, cara — disse ele, bem animado.
— Vaso ruim não quebra — disse eu, enquanto ajudava a Isabella a descer do Opala.
Pezão desceu do carro soltando fogo pelas ventas.
— Será que nós podemos ir para São Vicente agora ou não? — disse ele, com as mãos na cintura.
— Nossa, como a moça está nervosa! — debochou Mamute.
Pezão mostrou aquele famoso dedo para o gordo, é claro.
— Por que você não faz um favor para a humanidade, seu gordo inútil? Pula daí, pula! Ninguém vai sentir tua falta, pode apostar que não.
— Sua mãe vai!
— Gente, calma, gente! — gritou Isabella, impaciente. — Vocês parecem crianças num jardim de infância! Cruzes!
Pezão e Mamute ficaram vermelhos de vergonha, acreditem se quiser.
— Dois homens barbudos já! — prosseguiu ela. — Ah, fala sério! Me poupem! — e ela pegou na minha mão e me puxou em direção ao portão. — Vem, vamos entrar e comer alguma coisa. Comida de hospital não é comida.
Mesmo contrariado, Pezão acabou entrando também.
Isabella foi para a cozinha preparar alguma coisa para nós. Enquanto isso nós ficamos esperando na sala. Mamute desceu a escada e veio ao nosso encontro.
— Não dá pra acreditar, Nando — disse ele, me olhando com olhos arregalados. — Você estava mais pra lá do que pra cá.
— Eu sei — respondi. — Pra falar a verdade eu até vi um pouquinho do lado de lá.
Os olhos do gordo ficaram ainda mais arregalados, parecia um peixe-boi fora d'água.
— Sério, cara? — perguntou ele.
— Ah, larga mão de ser mentiroso, porra! — disse Pezão, impaciente.
— Isso é perfeitamente possível — disse o gordo, encarando Pezão com uma cara super séria. — Já vi no Discovery Channel.
— Discovery Channel? — assustou-se Pezão. — E desde quando você assiste Discovery Channel? Você nem sabe o que é isso, gordo.
— Claro que sei, babaca! Meu primo fez uma gambiarra lá no meu bairro e conseguiu TV a cabo pra mim. Estou pegando todos os canais feras agora. Só de putaria tem uns vinte.
— Porra — falei. — , e teu primo não consegue descolar isso pra mim também?
— Claro que sim. Coloca duzentinho na mão dele e o cara faz até uma chupetinha pra você. Meu primo é foda.
— A chupetinha eu dispenso.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
— Cadê o Zoinho, porra? — perguntei.
— Deve estar tirando o atraso — disse o Pezão.
E Mamute caiu na gargalhada, parecia uma hiena gorda que acabou de sair de um rodízio de pizzas.
— Acho muito difícil, viu? — disse o gordo, quase engasgando com a própria risada.
— O punheteiro finalmente se deu bem, Nando.
— Eu vi. A Camilla é muito gostosa, apesar de fazer um pouco de cu doce.
— Um pouco??? — disse Mamute. — Bota cu doce naquilo!!! Nando, você acredita que o Zoinho não conseguiu nem um beijo na boca até agora? O coitado já está entrando em parafuso. Pobre Zoinho.
— Putz!!! — exclamou Pezão, debochado. — Então deixa que o Pezão vai entrar em ação.
— Você vai ajudar o Zoinho? — perguntei, na maior inocência.
— Ajudar? — Pezão quase caiu no chão de tanto rir. — Ajudar o caralho! Ele já teve a chance dele com a mina virtual. Agora é a minha vez. A fila anda, camarada.
— Sacanagem — disse Mamute baixinho.
— Sacanagem é uma gostosa daquela perder tempo com um punheteiro desengonçado como o Zoinho. É um desperdício muito grande. O cara passou a vida inteira folheando revista; aposto que ele nem sabe tirar um sutiã.
Isabella entrou na sala de repente. Todos ficamos em silêncio.
— Aposto que estavam falando de mulher! — disse ela, com uma cara desconfiada.
— Nada a ver — falei, sorrindo pra ela.
Ela me devolveu o sorriso e depois olhou sério para o Mamute, dizendo:
— E onde está a minha irmã? Não a encontrei em lugar algum da casa.
— Ela saiu com o Zoinho — respondeu o gordo.
— Foram à praia?
— Não. Foram comprar alguma coisa no supermercado.
Isabella fez um misterioso "Hmmmm!" e depois soltou uma risadinha irônica.
— O que foi? — perguntei. — Supermercado aqui em Santos quer dizer outra coisa?
— Pela cara que ela fez — disse Pezão. — , eu acho que significa motel. Eu não disse que o Zoinho ia tirar o atraso?
Isabella deitou-se no sofá e colocou sua cabeça no meu colo. Uau! Vocês não fazem idéia do visual maravilhoso que eu tenho agora. Ai ai ... Controle-se, Nando Júnior!!! Ou você vai cutucar a nuca da menina!!!
— Vocês estão viajando — disse ela, piscando para mim. — Supermercado é supermercado mesmo. Mas ... dependendo do que eles trouxerem de lá ....
E ela caiu na gargalhada, parecia uma hiena com pobrema.
Dei de ombros e olhei para Pezão e Mamute, dizendo:
— Não entendi nada, e vocês?
— Muito sol na cabeça deixa o povo meio sem-noção — disse Pezão. — É por isso que eu jamais quero viver em cidades praianas.
— O que você quis dizer? — perguntei baixinho no ouvido dela.
Ela fez sinal com os dedos para que eu me aproximasse mais. Quando nossos rostos ficaram colados ela me deu um beijo na testa, depois disse baixinho:
— Mais tarde eu te conto — e saltou do sofá numa pressa danada. — Putz grila! Esqueci o arroz no fogo!
E Isabella voou para a cozinha feito um jato supersônico.
Capítulo 10 · O Almoço
— O que você quis dizer? — perguntei baixinho no ouvido dela.
Ela fez sinal com os dedos para que eu me aproximasse mais. Quando nossos rostos ficaram colados ela me deu um beijo na testa, depois disse baixinho:
— Mais tarde eu te conto — e saltou do sofá numa pressa danada. — Putz grila! Esqueci o arroz no fogo!
E Isabella voou para a cozinha feito um jato supersônico.
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Camilla e Zoinho chegam do supermercado. Ela entra segurando uma sacolinha minúscula; ele entra com vários pacotes, todo atabalhoado.
Pezão cresce os olhos para cima de Camilla.
— Já disseram que você é muito mais gata que a sua irmã? — disse Pezão, levantando-se do sofá e parando na frente dela.
— Impossível — disse ela, secamente. — Somos gêmeas idênticas.
— Mas eu sou muito mais você — insistiu ele.
— Tudo bem; se você acha — e ela olhou na direção do Zoinho. — Vem, vamos descarregar tudo isso lá na cozinha.
Por trás daquele monte de pacote dava para ver Zoinho vermelho de raiva. Poxa, e com toda a razão, não é? O filho da puta do Pezão xavecou a Camilla bem na frente dele.
Zoinho passou encarando o Pezão nos olhos. Nunca vi tanto ódio no olhar de uma pessoa só. Vai dar merda se eles continuarem sobre o mesmo teto. Ah, vai!
Quando os dois deixaram a sala eu falei para o Pezão:
— Não mexe com a mina do cara, porra.
— É muita maionese pra pouco sanduíche.
— Hã?
— Ah, você entendeu, porra! Eu quis dizer que ela é muito gostosa pro Zoinho. O cara não vai dar conta de ... tudo aquilo.
— Deixa ele, Pezão — disse Mamute. — O Zoinho é inexperiente, mas a gente só pega experiência fazendo.
— Pra isso existe o bom e velho puteiro — disse Pezão, abrindo um sorriso bem sarcástico.
Pronto o almoço, fomos todos para a cozinha e nos ajeitamos à mesa. Isabella e eu ficamos de um lado; Zoinho e Camilla do outro; nas pontas ficaram Pezão e Mamute. O cheiro estava maravilhoso. Meu, que fome!
— Espero que tenha preparado uma porção bem grande — disse eu, rindo. — Pois o meu amigo aqui — olhei na direção do Mamute. — come por cinco.
Isabella deu tanta risada que quase deixou escorrer lágrimas dentro das panelas. Mamute acabou rindo também.
Olha, vou contar uma coisa para vocês: há muito tempo eu não comia um feijão com arroz tão gostoso. Putz! E a macarronada, sensacional! Comi dois pratos bem servidos. Meu, a Isabella é uma cozinheira de mão cheia! Será que eu finalmente encontrei a mulher ideal? Poxa, a mina é bonita, gostosa, cozinha bem e, o mais importante, parece gostar bastante de mim. Como diria minha mãe: esta é pra casar!
Segurei a mão da Isabella, olhei bem naquele par de olhos verdes e falei:
— Foi o melhor almoço que eu já tive em toda a minha vida.
Uau! A carinha de felicidade que ela fez ... foi indescritível.
— Sério? — disse ela, quase vertendo lágrimas. — Você está falando só para me agradar, não é?
Balancei a cabeça negativamente.
— Só não estou lambendo os beiços porque é falta de higiene.
Isabella caiu na gargalhada.
— Então deixa que eu lambo por você — e ela me beijou. Após o beijo ela fez uma cara estranha.
— O que foi? — perguntei. — Não gostou do beijo.
— Claro que gostei. Só estou com uma dúvida; agora há pouco eu falei: "lambo" por você. É assim mesmo que se fala? Lambo? Que palavra mais estranha, né? Lambo!
E Isabella caiu na gargalhada outra vez.
— Eu gostei mais do Lambo 2, A Missão — disse eu. E agora fui eu que a beijei.
— Você é fofo demais — disse ela, apertando as minhas bochechas.
Putz! Apertou tanto que até doeu.
De repente senti algo vibrar na minha calça. Calma, gente, é só o meu celular. Vocês são muito maliciosos.
Aposto que é a minha mãe.
Na mosca! É ela. Atendi:
— Oi, mãe. Tudo bem?
— Por que não me ligou, senhor Fernando!
— Calma, mãe. Não liguei porque eu fiquei tão empolgado com a faculdade que acabei até me esquecendo da vida.
Isabella me olhou curiosa. Ela não entendeu bulhufas quando falei a palavra "faculdade".
— Não custava nada ter me ligado pra dizer que está tudo bem — insistiu minha mãe.
— Desculpa, mãe.
— Que falatório é este? Onde você está?
— Almoçando ... num restaurante.
— Tem alguém aí com você? Estou ouvindo uma voz bem conhecida. — Putz! Aposto que ela ouviu o .... — O Maurício está aí com você?
Fodeu.
— Não, mãe! — tentei ser o mais convincente possível.
— Está sim, continuo ouvindo a voz dele.
Fiz sinal para que o Pezão falasse mais baixo ou não falasse absolutamente nada. Mas o filho da puta nem me deu bola. Levantei-me e fui correndo até a sala.
A conversa durou mais uns dez minutos. Não sei se ela ficou totalmente convencida sobre o Pezão não estar aqui comigo, mas pelo menos a história da faculdade em Itu ela continua engolindo. Menos pior.
Voltei para a cozinha e, acreditem se quiser, o assunto à mesa era sexo.
— Na minha opinião — ia dizendo Mamute. — , um papai-e-mamãe, quando bem executado, vale mais do que uma noite de sexo animal.
Putz! Eu ouvi isso? Comecei a rir. Sentei-me novamente ao lado da Isabella.
— Ah, vai tomar no seu cu, gordo! — disse Pezão, rindo muito. — Você fala isso porque deve ser a única posição que você consegue fazer com esta banha toda.
— Você é que pensa, meu filho!
— Ah, papai-e-mamãe é gostoso quando estamos apaixonados — disse Isabella, me encarando nos olhos.
Todos na mesa fizeram aquele ... "hmmmmmmmm" ...
— Se deu bem, Fernandinho!!! — gritou Pezão, rindo e assoviando.
— Mas é sério! — prosseguiu Isabella. — É muito bom mesmo.
— E você? — disse Pezão para Camilla.
— Eu o quê? — respondeu ela, meio encabulada, brincando com o garfo sobre o seu prato.
— Qual a sua posição favorita?
Por um instante eu pensei que ela ia pegar o garfo e lançá-lo bem no peito do Pezão.
— Isso é uma intimidade minha e não compartilho com estranhos — respondeu ela, enrubescida até o dedão dos pés. — Principalmente à mesa.
— Concordo plenamente! — completou Zoinho. — Isso aqui não é lugar pra se falar de sexo!
— Discordo — falei. — A cozinha é um ótimo lugar pra se falar e ...
— Fazer também — completou Isabella, me encarando nos olhos outra vez.
— Transar na cozinha é a coisa mais gostosa que tem — disse Mamute. — Porque depois que você termina, basta esticar o braço e pegar alguma coisa da geladeira.
— Maldito gordo — falei.
— Na verdade eu acho que sexo independe do lugar — disse Isabella. — Contanto que seja com a pessoa certa, sempre é bom.
— Lugares esquisitos! — disse Pezão de repente. — Vamos ver quem ganha. O lugar mais estranho que eu já trepei foi ...
— Show do Zezé Di Camargo e Luciano — completei por ele.
Todos nós caímos na gargalhada, inclusive o próprio Pezão.
— Cara, eu nem me lembrava mais dessa parada! — disse ele, rindo muito.
— Ficou estranho isso, hein! — disse Mamute, olhando para mim. — Por acaso foi uma transa gay entre vocês dois?
É claro que mostrei aquele famoso dedo para o gordo filho da puta.
— Vai se foder, gordo inútil dos infernos!!! — disse eu, puto.
— Agora conta a história toda — disse Isabella para o Pezão.
— Não sei se foi a trepada mais bizarra que eu já tive, mas foi muito engraçada. A mina era filha do cara que organizou o show, então ela tinha passe livre em praticamente tudo: camarim, palco e o caralho a quatro.
— Vocês transaram no camarim do Zezé Di Camargo e Luciano? — perguntou o Zoinho.
— No camarim? — Pezão quase surtou de tanto rir, parecia uma hiena com uma receita de viagra. — Nós trepamos em cima do palco mesmo, durante o show dos manés. O foda é que tinha tantos fios que num determinado momento eu pensei que seríamos eletrocutados.
— Se fosse comigo eu teria broxado — falei. — Odeio música sertaneja.
— Eu também não sou fã — disse Isabella, fazendo cara de desgosto. — Mas o Luciano é uma gracinha.
— Ah, fala sério!!! — disse Mamute. — Seja honesta com a gente; se ele fosse um pobretão da roça você daria bola pro cara?
— Acho que sim, né?
E todos caímos na risada, até a Isabella.
— E o lugar mais estranho que você já transou? — perguntei pra ela.
— O mais estranho eu não sei, mas o mais incômodo é a praia, disparado!
— Com certeza — confirmei com a cabeça. — , é uma droga. Mas não fuja da pergunta.
Ela riu.
— Não estou fugindo, gato. Bom, deixe-me ver ... — e fez uma cara pensativa.
— Enquanto você lembra da sua — disse Mamute. — , eu conto a minha.
— Fique à vontade — disse Isabella.
Pezão caiu na gargalhada, apontando na direção do gordo.
— O lugar mais estranho que o gordo já trepou eu não sei, mas sei qual foi a mina mais estranha!
Mamute ficou vermelho de raiva.
— Ah, vai se foder, Pezão! — disse o gordo.
— Lá vem besteira — disse Isabella, rindo.
— Eu já falei que só comi a Lelê porque deu pena da mina, porra!!!
Percebi Camilla indignada. Ela balançava a cabeça negativamente sem parar.
— O linguajar de vocês é uma coisa linda, hein! — disse ela, de forma sarcástica.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que ...
— Lembrei!!! — disse Isabella. Tomei um susto tão grande que quase caí da cadeira. — Lembrei qual foi o lugar mais estranho que já transei.
— Aposto que foi no elevador de algum condomínio — disse Pezão.
— Passou longe, rapaz.
— Vai contar ou não? — falei.
— Esperando um X-Salada — disse ela, rindo muito. — Dá pra acreditar?
— Esperando um X-Salada? — disse Mamute, com uma cara espantada. — Como assim?
— Fim de balada. Meu namorado e eu havíamos deixado o clube e estávamos famintos. Quero dizer, famintos e com um tesão enorme também.
— Não vá me dizer que vocês transaram em cima do carrinho de lanches? — disse Pezão.
Isabella deu uma gargalhada muito gostosa. Depois disse:
— Não, claro que não! Ficou louco? Teríamos nos queimado!
— Não estou entendendo nada — disse Mamute. — O que vocês fizeram então?
— Bom, a rua estava deserta — recomeçou Isabella. — Acho que nós éramos os últimos fregueses. Estávamos lá, parados diante do carrinho de lanches, abraçadinhos. Meu namorado estava me abraçando por trás. Resumindo a história, o cara estava demorando para terminar nossos lanches e então ...
— Vocês fizeram ali mesmo na rua? — perguntou Camilla, perplexa.
— Sim — respondeu Isabella. — Eu estava de saia, aí o Felipe a ergueu um pouquinho atrás, baixou o zíper da calça dele e ... fizemos ali mesmo.
— Não acredito nisso! — disse Camilla, ainda mais perplexa.
— Eu nunca contei isso pra ninguém.
— Mas o cara que fazia o lanche não percebeu nada? — perguntei.
Isabella olhou para mim e respondeu:
— Se percebeu, ficou quietinho e não falou nada.
Caraca, só de imaginar a história eu fiquei de pau duro. Sossega, Júnior!!!
— Mas que pouca vergonha! — disse Camilla, levantando-se com seu prato nas mãos. Fodeu! Ela vai jogar o prato na irmã!
Não. Não jogou. Meu, que susto eu levei agora.
— A vida da gente precisa de uma emoção forte uma vez ou outra — disse Isabella para a irmã. — Sem isso, qual é a graça?
Camilla não disse nada; debruçou-se sobre a pia, abriu a torneira e começou a lavar seu prato e seus talheres. Percebe-se que ela ficou bem injuriada com a irmã.
— Deixa que eu te ajudo — disse Isabella.
Nós homens voltamos para a sala.
— E aí, Zoinho — disse eu. — Já conseguiu o primeiro beijo?
Notei Pezão bem interessado na resposta.
— Ainda não — respondeu Zoinho.
Pezão deu um sorriso com o canto dos lábios. Ainda bem que Zoinho não percebeu.
— Sério, Zoinho? — disse Mamute. — Nem um beijinho?
— Só no rosto — respondeu Zoinho, triste. — Meu, a Camilla parece uma freira!
— Freira? — disse Pezão, rindo.
— Pega leve — falei para o Pezão.
— Chega junto, cara! — disse Pezão para o Zoinho. — Mulher gostosa é igual encontrar uma nota de 100 paus na rua: se você não cata, vem outro e cata no seu lugar, entendeu?
Milagre! Pezão dando conselhos para o Zoinho? Confesso que por esta eu não esperava.
— Eu não posso fazer isso! — disse Zoinho, cabisbaixo. — Eu preciso chegar com calma. Ela não é como as outras mulheres.
— Mulher é tudo igual, cara! — insistiu Pezão.
— Não, ela é diferente! Ela é um anjo! — e Zoinho olhou para mim. — Eu te contei que a Camilla é voluntária do CVV?
— CVV? O que é isso?
— Aquele lance que a pessoa liga quando está desesperada e precisa de alguém pra conversar. Chama-se Centro de Valorização da Vida.
— Ah, tô ligado.
— Semana passada ela salvou a vida de quatro pessoas. Elas iam se suicidar. Mas depois que conversaram com ela ...
Zoinho colocou a mão na barriga e fez uma puta careta.
— O que foi? — perguntei.
Mas antes que ele respondesse, o mau cheiro no ar respondeu por ele.
— Caralho, Zoinho! — disse eu. — Vai cagar no banheiro, porra!
— Onde fica o banheiro mesmo? — disse Zoinho, suando frio.
— E eu é que sei? Você é que passou a noite aqui, porra!
Assim que Zoinho desapareceu do mapa, Pezão levantou-se do sofá e ...
— Aonde você vai? — perguntei.
Na verdade eu vi muito bem aonde ele estava indo: para a cozinha.
— Vou tomar um copo d´água — respondeu ele. — Não posso?
— Filho da puta — falou Mamute. — Você vai ... catar a nota de 100.
Pezão deu um sorriso bem sacana e foi para a cozinha.
— Sacanagem com o Zoinho, Pezão! — falei. Mas ele nem me deu atenção.
— Tomara que o Zoinho esteja com uma puta caganeira e fique preso no banheiro — disse o Mamute. — Se ele topar com o Pezão xavecando a Camilla ...
— Vai sair morte — completei.
— Ah, vai!
Capítulo 11 · Uma Visitinha Surpresa
Pezão deu um sorriso bem sacana e foi para a cozinha.
— Sacanagem com o Zoinho, Pezão! — falei. Mas ele nem me deu atenção.
— Tomara que o Zoinho esteja com uma puta caganeira e fique preso no banheiro — disse o Mamute. — Se ele topar com o Pezão xavecando a Camilla ...
— Vai sair morte — completei.
— Ah, vai!
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Alguns minutos depois, Pezão passou bufando pela sala, parecia uma leoa com TPM.
— Estou indo pra São Vicente — disse ele, puto da vida. — Alguém vem comigo?
Aposto a minha vida; Pezão deve ter levado um puta fora da Camilla.
— Eu falei pra você não ir atrás da mina, mas você não ...
— Vai se foder, Nando — e Pezão olhou para o Mamute. — Vamos pra São Vicente, gordo. Lá sim tem mulher de verdade.
Na última frase ele dobrou o tom de voz, a fim de que as irmãs o ouvissem.
— Demorou — concordou Mamute. — Vou lá pegar a minha mochila.
Pezão abriu a porta e saiu para a varanda . Fui atrás dele.
— Você não está pensando em pegar o meu carro outra vez, está? — perguntei.
— Fica frio — respondeu Pezão. — Não quero aquela porra do seu carro.
— Vocês vão de busão?
— Voando é que não é, caralho!
Zoinho apareceu de repente.
— Cadê o gordo? — perguntou Zoinho, olhando ao seu redor.
— Foi pegar as coisas dele — respondi. — Ele e o Pezão vão pra São Vicente.
— Sério?
Zoinho abriu um puta sorriso. Percebi que Pezão ia dizer alguma coisa, mas desistiu no último instante. Acho que o chega-pra-lá da Camilla deixou o camarada meio desnorteado.
Mamute voltou com sua mochila nas costas. Pezão já foi logo abrindo o portão.
— E as suas coisas? — perguntei para o Pezão.
— Deixei na sua lata velha — respondeu ele. — Você vai pegar pra mim ou vou ter que arrombar aquela bosta?
Mostrei aquele famoso dedo para ele.
Pezão estava com uma pressa descomunal. Enquanto eu não tirei sua mochila do carro ele não sossegou.
— Vamos dar o fora daqui — disse Pezão para o Mamute.
— Espera um pouco — falei. Pezão olhou nos meus olhos. — Me diz pelo menos o endereço da sua tia.
— Pra quê?
— Porra, se a gente precisar ...
— Você tem meu celular.
— Deixa de ser vacilão, cara! Diz o endereço aí.
Pezão virou as costas e saiu andando. Mamute passou por mim e sussurrou algo no meu ouvido:
— Fica frio. Quando chegarmos lá eu te ligo e passo o endereço direitinho.
Fiz sinal de positivo para o gordo. Mamute me deu dois tapinhas nas costas e saiu correndo atrás do Pezão. Foi uma boa idéia termos trazido o Mamutão, o cara é gente fina.
Antes que eu fechasse o portão, alguém me abraçou por trás. Ufa! Era a Isabella. Pensei que fosse outro ataque do maluco do Chevette.
— Quer me matar de susto? — falei. Meu coração estava bem acelerado.
— Desculpa! — disse ela, rindo.
Girei o corpo rapidamente e ficamos frente a frente, agarradinhos.
— Seus amigos foram embora?
— Embora não, foram pra casa da tia do Pezão, em São Vicente.
— Que bom.
— Às vezes o Pezão fica insuportável.
Ela balançou a cabeça positivamente, depois encostou os lábios nos meus e nos beijamos. De todos os nossos beijos, este último foi sem dúvida o mais longo e o mais gostoso também.
— Vem — disse ela, me puxando pelo braço. — Tem um cômodo da casa que você ainda não conheceu: o meu quarto.
Aaaaaaaaaaaoooooooooooooooooooo!!! É hoje!!! Me dei bem!!!
Subimos as escadas e eu não conseguia parar de sorrir.
No corredor eu não resisti ao impulso; peguei Isabella nos braços, como se estivéssemos chegando num hotel para curtirmos nossa lua-de-mel.
Putz!!! Ela é mais pesada do que eu imaginava. Meus braços começaram a doer.
— Qual é o seu quarto? — perguntei, tentando esconder meu sufoco.
— O último, lá no final do corredor.
Claro, né? Tinha que ser. Nada é fácil para mim, lembram?
Mas não tem nada não, pois hoje eu vou me dar bem!!! Uhuuuuuu!!!
Entrei finalmente no quarto e a primeira coisa que fiz foi tropeçar num tapete. Resultado: fomos os dois ao chão, nos estabacamos feito sacos de batatas.
Fiquei morrendo de vergonha, claro.
— Machucou, meu anjo? — perguntei para ela, desesperado. — Desculpa!
Isabella olhou para mim e começou a rir feito uma hiena solta na Disney.
— A culpa foi minha — disse ela, levantando-se. — Eu devia ter avisado que este tapete é traiçoeiro. Já caí várias vezes.
— Mentirosa — falei, rindo. — Não precisa me defender.
Isabella fechou a porta e depois a trancou. Enfim sós. Nem acredito que daqui a pouco ela estará peladinha na minha frente. Tudo parece tão perfeito. Será que é sonho? Bom, sonho não é, mas se eu tivesse namorada, ia jurar que isso aqui é um Teste de Fidelidade, do programa do João Kleber.
O quarto dela parece quarto de criança; vários ursinhos de pelúcia e uma porção de almofadas com desenhos do Bob Esponja. Meu, vai ser fã do Bob Esponja assim lá longe!!! Nunca vi tanto Bob Esponja na minha vida. Fiquei até zonzo.
Apesar do quarto infantil, a cama é um espetáculo à parte. Cama de casal. Enorme!
— Você vai me deixar aqui sozinha? — disse ela, deitadinha sobre a cama. — Tem lugar pra mais um, sabia?
Fiquei de pé imediatamente. Tirei meu par de tênis numa rapidez inacreditável. Joguei as meias longe e saltei sobre a cama.
Mal começamos as preliminares e ... TOC! TOC! TOC!
Três batidas na porta. Ah, fala sério!!! Ficamos um mais frustrado que o outro.
— O que foi? — gritou Isabella, irritadíssima.
— Eles vieram mais cedo! — era a voz da Camilla.
— Do que você está falando? Eles quem?
— O pai e a mãe!
Meu, quando a Camilla disse isso, vocês não fazem idéia de como ficou a cara da Isabella. Foi como se outra pessoa tivesse possuído o seu corpo. Ela se transformou totalmente. Parecia estar frente a frente com um demônio de oito cabeças.
— O que houve? — perguntei, apavorado. — Você está bem?
Isabella saltou da cama como uma perereca enlouquecida.
— Vista-se imediatamente! — gritou ela para mim. Seu rosto estava mais branco que um copo de leite.
— Mas eu estou vestido, gata — e realmente estava, com exceção das meias e do tênis, é claro.
Já deu pra perceber que ela está super nervosa, né? Saltei da cama e antes que eu procurasse as minhas meias, Isabella as entregou para mim, bem como meu par de tênis. Guria rápida no gatilho, hein!
— Vai me contar o que está acontecendo ou não? — perguntei.
— Aposto que foi idéia da minha mãe — disse Isabella, andando de um lado para o outro. — Ela adora uma visitinha surpresa.
— Mas por que tanto drama? Basta dizer que somos namorados e que ...
— Não é tão fácil assim, Nando! — o jeito que ela falou me assustou um pouco. Meu, a guria está apavorada!!!
— Calma, meu anjo — e passei minhas mãos na cintura dela. — Tudo vai dar certo.
Ela me olhou com o rabo dos olhos e disse com uma voz bem séria e preocupada:
— Você diz isso porque não conhece o meu pai.
Putz!!! Agora quem está preocupado sou eu.
— Ele não pode ser tão ruim assim — falei. — Uma vez eu tive um sogro que era a cara do Hitler e o cara ...
— Hã? — ela me olhou feio. — Você acha que estou brincando, não é? Meu pai é casca grossa, Nando. Reze para que ele não sinta o seu cheiro nesta casa.
O que ela quis dizer com casca grossa? É bravo? Anda armado? É militar?
Isabella não parava de andar de um lado para o outro. Aquilo me deixava ainda mais apreensivo.
— O que eu devo fazer? — perguntei, meio perdido.
— Bom — disse ela — , eles vieram de longe, vão ficar uma semana inteira com a gente. Droga, droga, droga!
— Você disse uma semana? Putz!
— Pois é. Mas eu pensei que eles só viriam na semana que vem. Não acredito nisso!
TOC! TOC! TOC!
Três batidas na porta outra vez. Meu coração quase saltou pela boca.
Isabella fez sinal desesperado para que eu me escondesse embaixo da cama, e foi exatamente o que eu fiz. Parece que eu já fiz isso outras vezes, não é?
— Abra esta porta! — era a voz da Camilla, desesperada. — Sou eu!
Isabella correu até a porta e a destrancou.
— Estamos perdidas! — disse Camilla, com uma voz trêmula.
— Calma — disse Isabella, tão nervosa quanto a irmã.
— O papai vai matar a gente!
— Não vai. Quero dizer, se ele não desconfiar de nada.
— Eles já viram o Demétrius!
— O quê? — Isabella quase surtou. — Mas como? Você é doida?
— Não tive culpa! Estávamos na janela e eles apareceram do nada.
— Então estamos perdidas mesmo.
De repente ouvi uma voz chamando as irmãs. Deve ser a mãe delas.
— E agora? — disse Isabella para a irmã.
— Acho que tive uma idéia.
— Que idéia?
Camilla saiu correndo pelo corredor.
— Volta aqui! — tentou Isabella, mas foi em vão.
Isabella trancou a porta outra vez.
— Não sei o que será de nós — disse ela, desabando sobre a cama.
Rastejei-me para fora da cama e deitei-me ao lado de Isabella.
— Vai dar tudo certo — falei, mas sem muita convicção. — Seus pais só viram o Zoinho.
— Você não conhece os meus pais, Nando. Eles vão descobrir você também. E eu não quero nem imaginar o que pode acontecer.
Ficamos uns dez minutos ali deitados, quietos ... e apavorados.
De repente ... TOC! TOC! TOC!
Suamos frio. Meu coração disparou pra valer.
— É você, Milla? — disse Isabella, quase sussurrando.
— Sim, abre a porta!
Isabella saltou da cama e abriu a porta. Camilla e Zoinho entraram rapidamente.
Foi muito estranho, as duas irmãs estavam com expressões tão diferentes que nem pareciam irmãs gêmeas. Camilla estava sorridente e aparentemente aliviada. Isabella estava prestas a surtar.
— E aí? — disse Isabella para a irmã. — Sua idéia deu certo?
— Por enquanto sim.
Isabella levou as mãos à cabeça.
— Vai me contar que idéia foi esta ou vai esperar que eu morra do coração?
Camilla respirou fundo e disse:
— Modéstia à parte, foi uma idéia brilhante, mas tem um porém.
— Ai meu Deus ...
— Só vai funcionar com a colaboração de todos nós.
— Como é que é? — falei. — Todos nós?
— Sim, e vocês dois — ela olhou para o Zoinho e depois para mim. — serão fundamentais.
Não estou gostando nada disso. Isso aqui está com cara de programa policial. Manchete: "Pai assassina namorados das filhas a golpes de machado". Putz!!!
— Como assim? — disse Isabella. — O Nando não vai participar de nada não. Eles nem precisam saber que ele está aqui!
— Mas eles já sabem — disse Camilla, calmamente.
— Mas como? Eles nem ...
— Eu contei para eles.
Putz!!! A Isabella quase saltou no pescoço da irmã.
— O quê? Você ficou maluca?
— Calma! — disse Camilla. — Tudo faz parte do meu plano.
— Conta logo, porra!!! — perdi a calma.
— Vou contar, seu boca suja! — e Camilla olhou para a irmã. — Lembra do Cirilo e do Guto?
— Claro que me lembro.
— Lembra que mamãe sempre foi louca para conhecê-los?
— Sim, mas ela nunca conseguiu ...
E Isabella caiu na maior gargalhada que eu já vi até hoje, parecia que todas as hienas do planeta haviam possuído o seu corpo. Camilla começou a rir também, mas não tanto quanto a irmã. Zoinho e eu ficamos feito bobos, um olhando para a cara do outro. Não entendemos bulhufas.
— Do que estão rindo? — perguntei.
— Já entendi qual é o plano da Milla — disse Isabella, ainda rindo bastante.
— Pretendem nos contar ainda hoje ou não? — falei, impaciente.
— Cirilo e Guto são dois amigos meus — disse Camilla. — , eles são ...
— Afeminados! — completou Isabella, às gargalhadas.
— E daí? — disse Zoinho.
— Ainda não caiu a ficha? — perguntou Isabella.
Putz!!! Acho que a minha ficha caiu. A de vocês também?
— Mamãe está tão contente! — disse Camilla, rindo.
— Claro que está! — completou Isabella — Ela finalmente vai conhecer o Cirilo e o Guto, não é?
— Isso aí!
E as duas irmãs caíram na gargalhada, como duas hienas num salão de cabeleireiros.
Capítulo 12 · Guto e Cirilo
— Mamãe está tão contente! — disse Camilla, rindo.
— Claro que está! — completou Isabella — Ela finalmente vai conhecer o Cirilo e o Guto, não é?
— Isso aí!
E as duas irmãs caíram na gargalhada, como duas hienas num salão de cabeleireiros.
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Eu não levo o menor jeito pra bicha, nem de mentirinha!!!
— Essa parada aí não vai dar certo — falei, injuriado.
— Eu não quero ser pessimista — disse Isabella. — , mas para o bem de vocês dois, é bom que o plano funcione.
Camilla fez uma cara de preocupada, depois disse:
— Papai tem um ciúme tremendo de nós duas. Qualquer homem que se aproxima de nós, ele não enxerga como homem, mas como um inimigo.
— Mas esquecemos de um pequeno detalhe, mana — disse Isabella, atraindo olhares curiosos de nós três.
As gêmeas trocaram olhares por alguns segundos, como se estivessem se comunicando por telepatia.
— Ai meu Deus! — disse Camilla, bem assustada. — Como eu pude me esquecer disso?
— Do que vocês estão falando, caralho? — esbravejei.
Eu estava bem nervoso, admito.
— Como eu já disse, papai odeia qualquer homem que se aproxima de nós — disse Camilla.
— Sim, já entendemos — disse Zoinho.
— Mas esquecemos de dizer que papai também odeia gays — completou Isabella.
Porra, agora fodeu de vez.
— Acho melhor a gente pular a janela e dar no pé — falei, já me encaminhando para a janela.
— Fique à vontade — disse Isabella, ironicamente.
Olhei pela janela e vi que seria praticamente uma missão impossível descer por ali, a menos que eu fosse o Homem-Aranha. E que eu saiba, meu nome é Fernando, não Peter Parker.
Bom, parece que não tem outra solução. Fodeu.
Isabella desceu para preparar o terreno. Camilla não tirava os olhos de cima de mim.
— O que foi? — perguntei, irritado.
— Vocês não têm jeito de homossexuais.
Lógico que não, né? Eu sou é macho, porra!!!
— Pode tirar o cavalinho da chuva! — falei, já suspeitando do que Camilla tinha em mente. — Não vou usar nenhuma roupa sua ou da mana, muito menos usar maquiagem, entendeu?
— Nem eu!!! — concordou Zoinho, prontamente.
Camilla começou a rir.
— Como vocês são bobos!
— Se o seu pai não acreditar, foda-se! Saio correndo. Ele deve ser um senhor de idade mesmo, jamais me alcançaria e ...
— Papai já foi bi-campeão da Maratona do Guarujá. Tem um físico invejável para a idade dele. Vocês vão me desculpar, mas nenhum de vocês teria a menor chance contra ele. Papai faria picadinho de vocês.
Zoinho sentou-se na cama, bem nervoso.
— Estamos perdidos — disse ele, cabisbaixo. — Fui descolar o pior sogro do planeta.
— Calma, Zoinho — falei. — Vai dar tudo certo.
— Vocês poderiam pelo menos dar uma desmunhecadinha, não é? — disse Camilla.
Mostrei aquele famoso dedo para Camilla, é claro.
Dez minutos depois, Isabella voltou para o quarto.
— Está na hora — disse ela. — Vocês precisam descer. Papai já está ficando desconfiado demais.
Putz!!! Fodeu. Meu corpo inteirinho congelou.
— Espera! — disse Camilla, de repente. Tomei um puta susto.
— O que foi? — disse Isabella.
— Qual de vocês será o Guto e qual será o Cirilo?
— O Zoinho tem mais cara de Cirilo — falei.
— Cirilo o escambau! — resmungou Zoinho, puto. — Você é que tem cara de Cirilo!
— Cirilo é nome de baixinho, combina mais com você.
— Dane-se! Eu vou ser o Guto.
Notei que as irmãs estavam indignadas com a nossa discussão idiota.
— Vamos, continuem! — disse Isabella, irritadíssima. — Temos todo o tempo do mundo!
Fiquei com vergonha. Olhei para o Zoinho e falei:
— Vamos nessa, Guto.
Zoinho entendeu o espírito da coisa e respondeu no mesmo tom:
— Isso aí, Cirilo. Vamos lá.
— Que desmunhecada foi esta, Zoinho?
— Foi só para entrar no personagem.
Sei, sei ...
— Poxa vida, uma desmunhecadinha não fará mal algum — disse Camilla, esforçando-se para não rir das nossas caras.
— Ah, só uma coisinha! — disse Isabella. — Lembrem-se que vocês dois são namorados e moram juntos há cinco anos, e possuem uma loja de antigüidades em São Paulo.
— Puta que pariu — resmunguei, puto da vida. — Por que estas coisas só acontecem comigo? Será que eu joguei merda na cruz?
Eu já passei por muitas situações difíceis e embaraçosas nestes últimos tempos, vocês são testemunhas disso, mas ... esta realmente me pegou totalmente despreparado. Como eu já disse, eu não nasci pra ser veado!!! Até o meu lado gay é sapatão.
Descemos apavorados a escada. Eu nunca suei tanto em tão pouco tempo.
Sentados no sofá, estavam os pais das gêmeas. A mãe, uma coroa bonitona, acredito que não tenha mais do que 40 anos de idade; pele morena como as filhas, olhos tão azuis que me deixaram hipnotizado por alguns instantes. E agora o pai: um baita homenzarrão de 2 metros e mais alguns centímetros de altura, cabelo todo seboso de gel, olhos atentos de predador. Apesar da idade, o coroa tem um físico realmente de dar inveja. Camilla tinha razão, numa briga mano a mano, eu levaria uma surra do coroa.
Não tivemos nem tempo para sentirmos medo, pois a coroa veio com tudo para cima de nós. Lascou dois beijos no meu rosto e me deu um puta abraço apertado. Se o abraço durasse mais dois segundos eu teria uma baita ereção. A mulher é cheirosíssima e tem uns seios maravilhosos. As filhas herdaram os genes da mama, ainda bem.
— Você deve ser o Guto, acertei? — disse a mulher para mim, abrindo um sorrisão tão lindo quanto os das filhas.
— Não, senhora — respondi. Confesso que não me preocupei se tinha falado grosso demais ou não. Na hora eu nem me lembrei da porra do plano. — Eu sou o Cirilo.
— Mas você não tem cara de Cirilo! — e a coroa apontou para Zoinho. — Ele tem.
Todos olhamos para Zoinho. Fizemos um puta sacrifício para não rolarmos no chão, às gargalhadas.
— Eu sou o Guto — disse Zoinho, meio sem graça.
E a mulher deu um abraço ainda mais apertado no Zoinho. A mulher praticamente esfregou os peitos na cara do nosso amigo. Creio que se ela soubesse que não somos gays, jamais teria feito aquilo.
— Perdão, Guto — disse a mulher, vermelha de vergonha. — Bom, eu não preciso dizer o meu nome, é claro. Minhas filhotinhas lindas já devem ter falando muito sobre mim, não é?
Antes que Zoinho dissesse alguma bobagem, Isabella interveio.
— Convencida esta Dona Hermegilda, vocês não acham?
Putz!!! Hermegilda? Bom, é tão horrível quanto o nome do pai. E como é mesmo o nome do coroa assustador? Flatulêncio alguma coisa ... Sei lá! Bom, pelo menos as filhas receberam nomes decentes.
O pai das gêmeas estava olhando atentamente tudo o que se passava ali na sala. Olhos iguais aos de um falcão perseguindo uma lebre.
— Como vocês já devem imaginar — disse a coroa, dando alguns passos em direção ao homenzarrão assustador. — , este é o meu marido, Gaspar.
Isso! O nome do coroa é Flatulêncio Gaspar. Ainda bem que a mulher não disse ... "este é o meu marido Flatulêncio", caso contrário eu não sei se teria me controlado.
Estendi minha mão direita para cumprimentar o homenzarrão, mas ele limitou-se apenas a um aceno discreto. Será que ele acha que a veadagem é algo contagioso?
A mãe das gêmeas ficou claramente envergonhada com o ato frio do marido, mas limitou-se a ficar calada. Meu, aposto que o João Grandão bate na mulher.
Ficou um silêncio constrangedor por alguns segundos, até que resolvi agir.
— Dona Hermegilda e Seu Gaspar — falei pausada e educamente. Ah, e não fiz voz de veado nem desmunhequei, viu? Sai fora! — Foi um prazer imenso conhecê-los, mas nós já estávamos de saída e ....
E a coroa gostosa deu um salto até a porta e deu duas voltas na chave.
— Nem pensem nisso! — disse ela, sorrindo. — Esperei anos para conhecê-los. Vocês não saem daqui tão cedo. Nem lhes preparei meu famoso cafezinho! — e ela olhou na direção das filhas. — Eles precisam experimentar o café da mama, vocês não acham?
— Sim, mamãe — responderam as irmãs, preocupadas.
A mulher literalmente nos arrastou para a cozinha. De certa forma eu me senti aliviado, pois acabamos nos livrando do sargentão com olhos de falcão. Aquele cara estava me dando nos nervos. A sensação que dava era a de que ele estava louco para pular no meu pescoço e me enforcar até a morte.
— Eu sempre quis conhecer rapazes assim como vocês — disse Dona Hermegilda, colocando a água para ferver.
— Não fala assim, mamãe! — disse Isabella. — Eles são absolutamente normais.
— Eu sei disso, meu anjo. O que eu quero dizer é que, vocês sabem, é diferente! Eu estou me sentindo tão à vontade, como se estivéssemos numa roda de mulheres aqui na cozinha, entendem?
Ela disse quatro porque Camilla não estava conosco. Ela ficara conversando com o pai lá na sala.
— Mas eles não são mulheres, mãe! — disse Isabella, rindo.
— E nem queremos ser — disse Zoinho.
Eu comecei a rir feito uma hiena num show do Ari Toledo.
— É verdade que em toda relação gay tem um que é o homem e outro ... ?
— Credo, mãe!!! — gritou Isabella, horrorizada. — Que pergunta mais ...
— Sou apenas curiosa, filha — e a coroa olhou para mim. — Vocês são quietos demais! Nas novelas os gays são bem mais animados e falastrões!
— Novela é novela, dona — respondi, secamente.
De repente Camilla entrou na cozinha, com uma cara bem animada. Alguma coisa boa aconteceu. Ela entrou toda sorridente e sussurrou algo no ouvido do Zoinho. Depois veio para perto de mim e falou algo também:
— O perigo já passou. Papai subiu para descansar da viagem.
Meu, vocês não imaginam a alegria que eu senti ao ouvir aquilo. Levantei-me e beijei as duas irmãs ... na boca!!!
— Ué, vocês não sentem nojo de mulher? — disse a coroa, espantada.
— Eu sou bi, Dona Hermegilda.
Isabella me olhou feio. Sua cara foi tão hilária que eu caí na gargalhada outra vez.
O meu desejo foi sair correndo daquela casa o mais rápido possível. Afinal de contas a dona sorte não bate à nossa porta duas vezes, não é? Se o João Grandão adormeceu, esta seria uma oportunidade de ouro para escaparmos!!!
O problema é que a Dona Hermegilda é um pé no saco. A mulher grudou em nós como carrapato. Obrigou-nos a tomar o seu maldito café.
E foi aí que eu me ferrei ...
O maldito café da Dona Hermegilda era a coisa mais doce e enjoativa que eu já tomei em toda a minha vida. Se eu fosse diabético, teria morrido ali mesmo na cozinha.
— O que acharam do meu cafezinho? — perguntou a mulher, toda orgulhosa. — É bom, não é?
Não tive nem tempo de responder porra alguma. Senti a maior dor de barriga de todos os tempos. Olhei apavorado para as irmãs e perguntei:
— Onde fica o banheiro mesmo? — eu estava quase cagando na cueca.
— Vá reto pela sala e vire à direita depois da escada — disse Isabella, apontando o caminho.
— Você vai ter que usar o banheiro lá de cima — respondeu Camilla. — Este aqui debaixo está com problema.
E Zoinho deu uma puta disfarçada. Foi ele que detonou o banheiro, é claro.
Porra, e agora? Não vou conseguir subir todos aqueles degraus com esta puta caganeira!!!
Mas não tenho outra escolha: ou arrisco e subo a escada ou vai voar merda por toda a cozinha. Resultado: saí correndo e vertendo lágrimas ... por todos os orifícios possíveis.
A cada degrau que eu subia, meu cu fazia uma ginástica incrível para não soltar o almoço numa estilingada só. Eu nunca pensei que subir uma escada com cagaço seria uma tarefa tão apavorante. Ainda bem que não tinha ninguém atrás de mim, pois teria morrido logo no terceiro degrau.
Depois de muito sacrifício, consegui vencer a escada! Nem acreditei.
Agora só falta o maldito corredor. Por que sempre colocam o banheiro no final do corredor? Maldito arquiteto filho da puta dos infernos!!!!!!!!!!!!
Bom, mas o corredor foi bemmmmm mais fácil do que subir aqueles degraus todos.
Entrei no banheiro e ... Aaaaaaaaaaaaaaaaahhhh!!!
Meu, que alívio ........... Foi como se eu tivesse retirado um alien de dentro de mim.
Dei umas quinhentas descargas e nada. Meu amigo alien não queria ir embora de jeito nenhum. Era inconcebível admitir que aquilo estivesse dentro de mim, minutos atrás.
Sinto muito, Camilla e Isabella, se este era o único banheiro sobrando, vocês estão perdidas ... Pois o bagulho vai ficar interditado por um bommmmmm tempo.
Saí do banheiro e dei de cara com quem?
É claro, dei de cara com o senhor-olhos-de-falcão. Ele mesmo, o pai das gêmeas, o João Grandão dos infernos.
Comecei a suar frio outra vez.
Ele não me disse nada, ficou me olhando com aqueles olhos assustadores.
— Acordei o senhor? — disse eu, apavorado.
Nada. Ele continuou me olhando.
— Que pergunta idiota, não? — prossegui. — É claro que acordei. Peço desculpas, não foi a minha intenção.
O cara continuou me olhando dos pés a cabeça. Eu sinto que ele quer me matar.
Um puta mau cheiro começou a sair do banheiro. Puxei a maçaneta e fechei a porta.
— O almoço não me fez muito bem e ...
Puta merda!!! O cara está vindo pra cima de mim. Pulei para a esquerda e ele fechou a minha passagem com o braço direito. Pulei para a esquerda e ele me fechou com o braço direito. O que eu faço? O cara é grande demais!
— Fique calmo — disse ele, com uma puta voz de trovão, parecia um arroto.
— O que você quer comigo? Não fiz nenhum mal para suas filhas, eu juro!!!
O grandalhão olhou para os lados e, quando viu que estávamos a sós, disse:
— Eu queria experimentar algo novo.
Como é que é?
— Não entendi.
E o filho da puta tentou me dar um beijo.
Puuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuta que pariu!!!
Agora entendi o que ele quis dizer. Sai pra lá, João Grandão queima-rosca dos infernos!!! Comigo não, violão!!!
Meu, não pensei duas vezes: dei-lhe um puta chute no saco. O grandalhão caiu duro no chão, gritando feito um louco.
Saí correndo pelo corredor e desci a escada feito um foguete. Nem pareceu ser a mesma escada que eu subira minutos atrás, tamanha foi a diferença de tempo que levei para percorrê-la.
Quando cheguei na sala, estava todo mundo ali me olhando com olhos esbugalhados.
— Que estrondo foi aquele? — perguntou Camilla, assustada.
— Seu pai tentou me agarrar, então eu ...
— O quê? — gritou Dona Hermegilda. — O meu marido tentou o quê?
De repente ouvi passos lá em cima. O grandalhão já se recuperou. Puta merda!!!!
— Eu vou matar vocês dois, seus viados desgraçados!!! — gritou o João Grandão lá em cima.
Puxei Zoinho pelo braço, dizendo:
— Se você quer viver, vem comigo!!!
Zoinho ficou branco.
Saltei até a porta da sala, girando a chave desesperadamente.
— Aonde vocês vão? — disse Isabella, apavorada.
— Qualquer lugar bem longe daqui!!!! — respondi, tremendo dos pés a cabeça.
E saí correndo desesperado até o portão. Zoinho veio logo atrás.
Entramos rapidamente no Opala, nem arrisquei olhar para trás. Pisei fundo no acelerador e saí queimando os pneus.
O destino? Sei lá!!! Qualquer lugar bem longe daquela casa!!!
Capítulo 13 · A Casa da Tia
Saltei até a porta da sala, girando a chave desesperadamente.
— Aonde vocês vão? — disse Isabella, apavorada.
— Qualquer lugar bem longe daqui!!!! — respondi, tremendo dos pés a cabeça.
E saí correndo desesperado até o portão. Zoinho veio logo atrás.
Entramos rapidamente no Opala, nem arrisquei olhar para trás. Pisei fundo no acelerador e saí queimando os pneus.
O destino? Sei lá!!! Qualquer lugar bem longe daquela casa!!!
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Celular tocando. Mas não era o meu. Era o celular do Zoinho. O coitado tremia tanto que quase não conseguiu atender o bagulho.
— Alô — disse ele, meio assustado. — Ah, é você? Não, não estamos mais na casa das garotas.
— Quem é, porra? — perguntei.
— É o Pezão. Ele quer falar com você.
E Zoinho me passou o celular.
— Fala — disse eu.
— Está rolando a maior suruba aqui na casa da minha tia — disse Pezão.
— O quê?
— Suruba, Nando, suruba!
— Suruba? Ah, fala sério! Brincadeira tem hora, porra!
É mentira do Pezão. Ninguém diz que está numa suruba com este desânimo todo.
— Estamos saindo de Santos — falei. — Agora me ensina a chegar aí na casa da sua tia.
— Então vocês estão vindo pra cá?
— Sim. Tivemos um probleminha lá na casa das gêmeas.
— Legal. Estão só vocês dois ou as biscates também?
— Só nós dois. E o que te importa?
— Vem logo. O negócio está bom aqui. Descolamos umas gostosas na praia.
— Está me achando com cara de idiota, Pezão? Pára de graça, cara. Agora me diz como eu faço pra chegar aí.
Pezão me deu algumas dicas e me forneceu alguns pontos de referência.
Mas tem algo de estranho nesta história. O Pezão me pareceu nervoso. Ou será que o papo de suruba é verdade? Será que tinha alguma biscate fazendo glu-glu enquanto ele conversava comigo? Ah, sei lá ...
Enquanto isso, Zoinho chorava.
— O que foi, cara? — perguntei.
— Não é justo, Nando.
— E quem disse que a vida é justa? Bola pra frente, Zoinho.
— Finalmente encontro uma garota bonita que gosta de mim ... e me acontece isso.
— Não é o fim do mundo. A gente volta lá depois que tudo se acalmar.
— Mas os pais da Camilla jamais aceitarão o nosso namoro.
— Fodam-se, Zoinho!!! Você quer namorar a Camilla ou os pais dela?
Zoinho ficou em silêncio, triste.
— Vai dar tudo certo — falei, tentando animá-lo um pouco.
— Eu já te contei que ela impediu vários suicídios lá no CVV, né?
Puta merda, homem apaixonado é um porre.
— Já, Zoinho, já contou.
— A Camilla é um anjo, Nando!!!
Eu ainda prefiro a Isabella.
De repente Zoinho começou a rir.
— Isso aí, mano, bola pra frente — falei.
— É verdade mesmo que o pai delas tentou te agarrar?
Filho da puta. Então é por isso que ele estava rindo, né?
— E eu ia inventar por quê?
— E ele te beijou?
— Ah, vai se foder, Zoinho!!!
Santos e São Vicente são praticamente coladas. Você nem percebe quando sai de uma e entra na outra. Segundo as informações do Pezão, para chegar na casa da tia, eu preciso encontrar uma tal de Ponte Pênsil, atravessá-la e virar à esquerda.
Encontrei a ponte rapidamente. Nem foi preciso perguntar pra ninguém. Havia placas por toda a cidade.
O celular do Zoinho tocou novamente. Quando ele viu que era o Pezão, passou o aparelho para as minhas mãos.
— Fala, Pezão do caralho, e a suruba?
— Continua rolando.
Me engana que eu gosto. Se o filho da puta estivesse mesmo numa suruba, vocês acham que ele nos convidariam? É lógico que não.
— Vocês já estão chegando? — perguntou ele.
— Já estou vendo a tal da ponte. Mais alguns minutinhos e a gente chega aí.
— Legal — silêncio ao telefone. De repente ... — Nando ...
E caiu a ligação.
— Estranho — disse eu.
— O que houve? — perguntou Zoinho, pegando o celular de volta.
— O Pezão ia me dizer alguma coisa e parece que alguém o interrompeu.
— O Mamutão?
— Sei lá. Pode ser.
— E que papo é este de suruba? É verdade?
— Duvido muito. Mas seria legal se fosse verdade, hein!
— Justo hoje??? Porra!!!
— Como assim?
— Eu não poderia trair minha doce Camilla.
— Se a suruba for de verdade você esquece a Camilla em dois segundos, cara.
— Não mesmo.
— Quer apostar comigo? Nós somos guiados pelo pinto, Zoinho. Ou será que você não percebeu?
— Eu sei me controlar.
Caí numa gargalhada, tipo uma hiena com uma calculadora na prova de matemática.
— Vai se foder, Zoinho!!! Pra cima de mim? Esqueceu da sua coleção gigantesca de revistas de sacanagem? Você sempre foi o mais punheteiro da turma.
— Mas agora é diferente. Estou apaixonado pela Camilla.
— Fica frio. A suruba é invenção do Pezão.
— Ufa.
— Você não resistiria à tentação, não é?
— Claro que não. Não sou de ferro, porra.
Viu só, mulherada? Nós homens somos todos iguais mesmo. Nenhum presta.
Passei pela ponte, virei à esquerda e subi por uma rua esquisita. O número da casa é 584 ... Ali está ela!!! Chegamos.
Parei o carro em frente ao portão da casa. Uma casa bem modesta, diga-se de passagem. Eu estava esperando mais. Mas dane-se, pelo menos não tem nenhuma bicha enrustida tentando me agarrar.
— Agora eu entendi por que o Pezão ligou para o seu celular — falei.
— Você esqueceu o seu na casa das garotas — respondeu Zoinho, nada surpreso.
— Sim. Só percebi isso agora.
— Mais um motivo para voltarmos lá.
— Pois é.
E falando em celular, o celular do Zoinho tocou outra vez. Peguei o aparelho das mãos dele e atendi:
— Já chegamos, porra!!! Vem abrir este portão.
— Ele já está aberto — respondeu Pezão, com uma voz meio estranha. — Entrem, estamos esperando por vocês.
— Não tem cachorro bravo, tem?
— Não.
E desliguei o celular.
Meu, tem alguma coisa estranha. Ou será que a suruba está rolando solta e eu estou me preocupando à toa? Bom, vamos descobrir logo.
Empurrei o portão e entramos. Passamos por um estreito caminho de cimento até chegarmos numa porta de madeira. As janelas da casa estavam fechadas, bem como as cortinas. Muito estranho, principalmente para o tremendo calor que faz aqui nesta região.
Quero dizer, a não ser que a tal suruba seja verdade e ...
Bati três vezes na porta. Ninguém apareceu.
— O Pezão está armando alguma coisa pra cima da gente — disse o Zoinho.
— Eu também acho. Ah, quer saber de uma coisa? Foda-se!
Girei a maçaneta da porta. A porta estava aberta. Empurrei-a com cuidado e entrei na casa. Zoinho veio atrás de mim.
— Onde vocês estão? — gritei.
— Aqui, Nando! — era a voz do Pezão. — Estamos na cozinha.
Por um breve momento eu tive uma visão maluca: Pezão transando com três loiras sobre a mesa da cozinha. Porra, eu não tenho culpa? O cara ficou falando em suruba! A minha mente é fértil, caramba!!!
Dei três passos na direção de onde veio a voz do Pezão, quando fui me preparar para o quarto passo ... PÁ!!! Senti uma forte pancada na cabeça.
Infelizmente não era o Pigmeu e suas joaninhas iradas.
Fiquei desacordado não sei por quanto tempo.
Quando acordei, minha boca estava fechada com fita isolante e meus pés e minhas mãos estavam amarrados com cordas. Nunca senti tanto medo e desespero em toda a minha vida.
Só percebi a presença dos meus amigos, alguns minutos depois. Eles estão na mesma situação que eu. Estamos todos numa espécie de porão. Há uma lâmpada bem fraquinha acesa, o suficiente para eu ver que está faltando um de nós: o Mamute.
Nem tive tempo para pensar no que teria acontecido com o gordo, pois um vulto surgiu diante da porta, fazendo o meu coração acelerar ainda mais.
— Assustados? — disse o homem.
A luz é fraca demais e não pude vê-lo direito. O homem aproximou-se mais, e apontou para mim, dizendo:
— Você é o que tem mais motivos para ficar assustado.
Agora eu pude ver melhor, é o maluco da cicatriz.
Putz!!! Fodeu. De hoje eu não passo. Adeus, mundo cruel.
Capítulo 14 · A Vingança
Nem tive tempo para pensar no que teria acontecido com o gordo, pois um vulto surgiu diante da porta, fazendo o meu coração acelerar ainda mais.
— Assustados? — disse o homem.
A luz é fraca demais e não pude vê-lo direito. O homem aproximou-se mais, e apontou para mim, dizendo:
— Você é o que tem mais motivos para ficar assustado.
Agora eu pude ver melhor, é o maluco da cicatriz.
Putz!!! Fodeu. De hoje eu não passo. Adeus, mundo cruel.
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Quanto mais perto o maluco ficava, mais eu sentia que já o conhecia. Mas não consigo me lembrar de onde!!!
De repente o maluco olhou para o Pezão e disse:
— Olha, você também está nos planos dela.
Dela? Dela quem? Que planos são estes? Meu, este cara é mais doido do que eu imaginava. Ou será que este filho da puta tem alguma relação com Ubatuba?
Putz!!! Agora eu acho que caguei na calça.
O pior de tudo é saber que eu conheço este desgraçado, mas de onde? De onde???
Minha memória deu nós e mais nós, até que de repente o maluco ficou de perfil, e senti um puta estalo na minha cabeça ... LEMBREI!!!!
Meu, vocês não vão acreditar ... o filho da puta da cicatriz é aquele cara esquisito que estava no banheiro da pizzaria. Lembram? É o esquisitão que largou um pinto na privada e saiu de fininho. É ele!
Mas continuo tão confuso quanto antes. O que ele quer comigo? O que foi que eu fiz para deixá-lo tão irritado? Será que comi a filha dele e não liguei no dia seguinte? Ou pior ... será que comi a esposa dele e liguei no dia seguinte?
Bom, vamos raciocinar um pouco ... ele já deixou escapar que tem mais alguém por trás disso tudo, não é? Sim, uma mulher, a mulher do plano. Será a tia do Pezão? Não, nada a ver. Acho que já sei quem é. Só pode ser ela ... a mãe da Caroline, madrasta do guri assassinado no orfanato. É ela que está por trás disso tudo.
Mas esperem um pouco ... Foi ela que matou ao própria filha a vassouradas, não foi? Claro que foi. Então o que ela quer comigo? A culpa foi dela, não minha!!! Na verdade sou eu que deveria estar puto da vida com ela, não o contrário!!! Não concordam comigo?
Porra, do que me adianta vocês concordarem ou não, né? Sou eu que estou amarrado e aguardando a morte.
Celular tocando. O maluco da cicatriz atende.
— Onde você está? — diz ele, um pouco nervoso. — Já? Ótimo. Sim, estão todos aqui. — ele disse isso olhando para mim. — Tive que matar a velha, dona da casa. Ah, e matei um deles também.
Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!!! O Mamutão morreu? Não é possível ... puta que pariu. Percebi Zoinho chorando. Pezão não derramou uma lágrima, mas vi em seus olhos que ele ficou abalado com a notícia. Eu já estava apavorado há muito tempo, imaginem agora.
E o maluco saiu correndo e nos deixou sozinhos no porão.
Nós três ficamos nos olhando apavorados, certos de que a morte para cada um de nós será apenas uma questão de tempo. Só espero que seja rápida.
Zoinho chorava sem parar, a gola de sua camisa estava toda molhada de lágrimas.
Alguns minutos depois, o maluco voltou. E voltou acompanhado de uma mulher.
Sim, eu matei a charada ... é ela mesma, a mãe da Caroline.
A desgraçada está um pouco diferente. Seu rosto está com algumas queimaduras, mas é ela sim. Eu jamais me esqueci da foto dela no jornal, quando fizeram uma reportagem inteira a respeito da morte da minha amada Caroline.
A maluca ficou me encarando por um longo tempo. De repente ela foi chegando mais perto, mais perto, e arrancou o esparadrapo da minha boca. Senti uma vontade enorme de cuspir na cara dela, mas não tive coragem suficiente. Não seria inteligente irritar alguém que tem total controle sobre você, não é?
— Finalmente peguei vocês — disse a maluca, enquanto puxava o esparadrapo da boca do Pezão também.
— Socorro!!! — gritou Pezão, apavorado. — Alguém aí fora, ajuda a gente!!!
O maluco da cicatriz caiu na gargalhada, depois disse bem calmo:
— Pode gritar o quanto quiser. O porão desta casa é bem isolado. Pensando bem, acho até que vou pegar a casa pra mim. A velha está morta mesmo, não é?
E o filho da puta soltou outra gargalhada, parecia uma hiena serial-killer.
Meu ódio acumulou-se de tal forma que saiu num desabafo:
— Assassina!!! — gritei, encarando a mãe da Caroline.
A maluca arregalou os olhos e ficou me olhando com desprezo. De repente ela me deu um tapa no rosto. O tapa pegou em cheio, derrubando-me no chão. Como eu estava bem amarrado à cadeira, tombamos eu e a cadeira juntos.
— Vocês tiraram de mim a única coisa boa que eu fiz em toda a minha vida — disse a doida varrida, ainda olhando fixo para mim, com o mesmo ar de desprezo.
— Foi você que matou a Caroline!!! — disse eu, cheio de dores.
— Caroline? Dane-se a Caroline!!! Eu a odiava desde que ela nasceu. Eu estou falando da Carolina, minha linda Carolina!!!
Meu, nem queiram saber o ódio que eu fiquei da maluca ... A sorte dela é que eu estava muito bem amarrado, caso contrário teria voado no pescoço dela e sufocado a doida varrida até a morte. Sempre desconfiei que a morte da minha Caroline não tivesse sido acidente, e agora eu não tenho a menor dúvida ... A filha da puta assassinou o meu amor!!!
— Não tivemos culpa nenhuma na morte da Carolina — disse eu.
— Não? — putz, lá vem a maluca outra vez. Aposto que desta vez vou levar um chute no estômago. — Quem é que levou minha filhinha para aquele motel imundo? Não foram vocês, hein??? Não foram vocês? Respondam, seus malditos!!!
— Mas nós não a obrigamos a ir — disse o Pezão.
Cala a boca, Pezão!!! Porra, não provoca a mulher!!!
Tarde demais. A maluca deu um tapa tão forte no Pezão que ele quase caiu sobre mim. Foi por muito pouco.
— Vocês desgraçaram a minha vida — disse a doida. — A morte dela me deixou totalmente perdida. Passei mais tempo em psiquiatras do que na minha própria casa. Tudo culpa de vocês dois, seus filhos da puta!!!
Do nada, o maluco da cicatriz me chutou o saco. Filho da mãe!!!
Após me recuperar do chute, olhei nos olhos do maluco da cicatriz e perguntei:
— E o que você tem a ver com tudo isso? E de quem era aquele pinto que você deixou na privada da pizzaria? Não venha me dizer que era coincidência, pois não pode ser!!!
O maluco ficou me olhando com aquele sorriso irônico nos lábios. Meu, o sorriso do cara consegue ser mais filho da puta do que o sorriso do Pezão. Mil vezes mais. Muito irritante. Eu daria tudo pra dar um soco na cara daquele desgraçado.
— Deixa que eu respondo — disse a maluca. — Ele estava seguindo vocês quatro. Eu o contratei pra isso. Minha Carolina não era para o bico de nenhum de vocês. Minha Carolina era um ser precioso.
— Ser precioso ... sei! — disse Pezão, baixinho.
Mas a maluca ouviu, e deu um pontapé no estômago do Pezão. Doeu até em mim.
— Mas que história é esta de pinto na privada? — perguntou a mãe da Caroline para o maluco.
— Antes de segui-los eu havia feito um outro ... servicinho. Eu ...
— Não estou nem um pouco interessada!!! — disse a maluca. Depois olhou para o Zoinho. — Quem é aquele idiota ali? Ele não faz parte dos meus planos.
— Se quiser, posso dar um jeito nele agora mesmo — disse o maluco.
— Não faça isso! — gritei, reunindo forças não sei de onde. — O cara não tem nada a ver com a história.
— Venha — disse a maluca para o maluco. — Eu trouxe algumas coisinhas para brincarmos com eles.
— Sério? — disse o filho da puta da cicatriz, todo empolgado.
— O que você acha que eu fiquei fazendo este tempo todo em que fiquei livre?
E a doida varrida soltou uma gargalhada assustadora, parecia uma hiena imitando uma bruxa.
Ambos deixaram o porão. Assim que eles se afastaram, Pezão começou a gritar:
— Alguém aí ajuda a gente!!! Por favor!!! Socorro!!!
— Não adianta, cara — disse eu, vencido. — Se adiantasse alguma coisa, você acha que a filha da puta teria tirado os esparadrapos?
— Sei lá! Não custa nada tentar.
De repente ouvi um estrondo vindo de bem longe.
— Você ouviu também? — perguntei para o Pezão.
— Foi um tiro?
— Acho que sim. O que será que houve?
— Será que alguém veio nos ajudar?
— Mas quem? Ninguém sabe que estamos presos aqui.
— Sei lá. Só sei que aconteceu alguma coisa! — Pezão tomou fôlego e gritou: — Tem alguém aí? Socorro!!! Estamos presos aqui no porão!!!
Logo em seguida ouvi passos correndo na direção do porão. Meu coração disparou. Será a morte para nós três?
— Vocês estão bem? — perguntou uma voz masculina.
E não era a voz da Dona Morte. Era um policial.
Quase me mijei de tanta felicidade. Eu não conseguia acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo. Era bom demais pra ser verdade.
Quando tiraram as cordas de mim, eu senti como se estivesse nascendo outra vez. Foi uma sensação tão boa que nem o melhor sexo da minha vida poderia ser comparado com aquilo. Pode parecer exagero, mas é verdade. Só quem sente a morte de perto entende o que estou lhes contando.
Estávamos tão abobalhados que nos esquecemos de perguntar para os policiais, como eles haviam nos encontrado. E nem precisamos perguntar ... a resposta veio até nós.
— Nando!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! — gritou Isabella, correndo em minha direção. Ela me deu um abraço tão forte que quase me esmagou.
O abraço da Camilla no Zoinho também foi carinhoso, mas nem chegou perto do que a Isabella deu em mim. Deu pena do Pezão, ninguém veio abraçá-lo. Isabella limitou-se a perguntar se estava tudo bem com ele. Pezão fez que sim, balançando a cabeça.
— Elas salvaram as vidas de vocês — disse um policial.
— Mas ... mas ... como? — eu ainda estava meio nervoso.
— Tudo por causa disso aqui — disse Isabella, segurando o meu celular. — E não podemos nos esquecer do amigo de vocês, o gorducho. Foi ele que fez a ligação salvadora.
— Então o Mamute ainda está vivo? — perguntou Zoinho, empolgado.
— Infelizmente não — disse outro policial. — Encontramos o corpo de um rapaz lá no quintal. Acreditamos que seja o amigo de vocês. Ele segurava um telefone celular na mão esquerda.
Zoinho começou a chorar. Confesso que derramei algumas lágrimas também. Porra, não sou de ferro, né? Além disso, o gordo usou seus últimos minutos para salvar nossas vidas. Derrubar algumas lágrimas é o mínimo que posso fazer, não é? Pobre Mamutão, que papai do céu o proteja. Aposto que o céu ficou um pouco mais divertido com aquela bunda gorda lá.
Calma, o final não será tão triste assim ...
Os malucos foram presos.
Ah, e comi a Isabella, finalmente.
Calma, ainda tem mais ... No dia seguinte à nossa primeira transa, voltei à casa das irmãs para pegar o meu celular (Sim, esqueci o bendito lá outra vez. Fazer o quê? Sou desligado mesmo, e daí?) Bom, mas voltando à história ... Chegando lá, Isabella estava sozinha. Amasso vai, amasso vem, é claro que subimos para o quarto e não preciso dizer em detalhes o que fizemos, não é? Foi bem diferente da transa que tivemos no dia anterior, mas até foi boa.
Até aí tudo bem. O problema foi o que aconteceu depois ... putz!!!
Desci a escada para pegar algo na cozinha e ... ???? Adivinha quem entra pela porta da sala? Ela: Isabella. Entenderam o que acabou de acontecer? Sim, caros leitores, eu havia transado com a Camilla, a gêmea. Ela se fez passar pela irmã, e me enganou direitinho. Achei a transa bem diferente mesmo, mas sei lá ... pensei que ela não estivesse num bom dia, só isso.
Meu, a Isabella ficou furiosa comigo, e com a mana também. Vocês não fazem idéia do barraco que ela armou naquele sobrado. Até hoje eu não sei como eu sobrevivi a tantas coisas que ela jogou em cima de mim. A Isabella teve a moral de jogar até um liquidificador. Vocês acreditam? Se eu não fosse ágil, não estaria aqui para contar a história.
E agora ... a parte bizarra da história ...
Para se vingar da irmã, a Isabella fez algo terrível ... Terrível mesmo, algo que eu jamais imaginei que ela fosse capaz de fazer:
Isabella vestiu-se com as roupas da irmã Camilla e foi para o CVV. Como são irmãs idênticas, ninguém notou a diferença. Chegando lá, Isabella começou a atender alguns telefonemas. E vocês sabem muito bem como são estes telefonemas: a grande maioria são de pessoas desesperadas, deprimidas e solitárias.
Bom, não vou entrar em detalhes, mesmo por que eu não sei todos eles. Só posso dizer o seguinte: dos onze telefonemas que a Isabella atendeu, nove pessoas se suicidaram, um comeu o cu do cachorro e o outro jogou o vizinho do décimo segundo andar de um condomínio.
Putz!!! Isso é que é vingança, hein!!!
( FIM )
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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