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Capa de Edição 12 — Jovem Cientista
Nando e Pezão

Edição 12 — Jovem Cientista

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Sinopse

Sem sinopse.

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BOA LEITURA
Fonte 18 px
Espaçamento 1.4

Capítulo 1 · Ele Ainda Nem Sabe

Pensei que Pezão ia sofrer um pouquinho na cadeia. Eu já tinha até título para este novo episódio: "Pezão no Carandiru – Outras Histórias". Mas ... não foi bem assim. A mãe dele é foda. Alguns telefonemas para as pessoas certas e Pezão já estava de volta à sociedade. Pobre sociedade.

A primeira coisa que ele fez quando voltou pra casa foi me ligar. Bom, creio que vocês já fazem uma idéia de como foi o tom da conversa. Vou contar como foi:

— Alô — eu não imaginava que pudesse ser ele.

— Alô o caralho, seu filho da puta!!! O que você fez comigo vai ter volta, viu? Não pense que você vai sair limpo da parada, seu porra!!!

— Calma, brother, eu só estava de zoeira.

— Zoeira o caralho, Nando, você pisou na bola! Por que não disse que o carro era meu? Por que não disse que me conhecia? Você deve ter achado tudo muito engraçado, né?

— Pra ser honesto achei sim.

E comecei a rir feito uma hiena com oniquite. Se você não sabe o que é oniquite eu não posso fazer nada. Procure um dicionário, sua anta!

Pezão ficou ainda mais puto. Deu pra sentir as veias da testa saltarem feito cangurus no cio.

— Meu, você está fodido comigo. Isso não vai ficar assim, não!

— Pezão, fica de boa.

— Ficar de boa o caralho!!! O que você fez ...

— O que eu fiz não chega nem a 10% do que você já aprontou comigo em todos estes anos. Quer que eu numere todas as pisadas na bola que você já deu? Posso não me lembrar de todas, mesmo assim eu ficaria até a semana que vem aqui nesta porra de telefone.

— Não exagera.

— Não exagera o caralho!!! Desde a nossa infância que você me sacaneia. Lembra da vez em que você colocou cocô na gaveta da professora e a culpa caiu em mim? Lembra da vez em que você fez xixi na barraca das meninas e a culpa caiu em mim? Lembra da Marlene Sapinho? Lembra, né? Aquela que você deu um chupão nas tetas, atrás da escola, lembra? O murrão que o namorado dela me acertou dói até hoje, viu? Claro, porque a culpa caiu em quem? No Nando, como sempre.

Pezão começou a rir. Filho da puta.

— Agora você ri, né?

— Marlene Sapinho — disse ele, rindo enlouquecidamente. — Meu, como você foi lembrar disso? Desenterrou do fundo do baú agora.

— Você pode ter esquecido das pisadas na bola, mas eu não. Jamais.

— Porra, mas desta vez eu fui até preso, brother.

— E daí? 

— E daí que você quer comparar uma coisa com a outra.

— Comparar o escambau, eu só estou dizendo que você pisa na bola comigo desde a nossa infância. Não vem dar uma de santo, seu porra!!!

Pezão começou a rir outra vez.

— Marlene Sapinho!!! — disse ele outra vez. — Acho que foi a primeira vez que eu vi dois peitinhos com meus próprios olhos. Eu caí de boca com tanta vontade que a mina ficou apavorada, pensou que eu ia arrancá-los. Meu, por onde será que anda aquela biscate?

— Pezão.

— Hã.

— Enfia o dedão no cu e assovia!!!

E a raiva do Pezão foi passando com o tempo.

Somos amigos há muitos anos, já tivemos muitas discussões, até brigas feias. Lembro-me de uma vez em que saímos no tapa em frente ao colégio. Nem preciso dizer que foi por causa de mulher, né? Foi o maior mico, e pra ajudar ninguém ficou com a mina. É por isso que eu digo: a mulherada faz a gente de trouxa. Sempre foi assim e sempre será.

Ah, só um detalhe, eu ainda não contei pra ele que comi a Maria Rita. E aí, conto ou não conto? O que vocês acham? Hahaha ... Deixa pra lá, né? Mais cedo ou mais tarde ele vai descobrir mesmo. Não compensa colocar mais lenha na fogueira.

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmm!!!!!!

Putz, falando na besta ...

— Fala, Zé Boceta.

— Hã?

Putz! Não é a voz do Pezão.

— Desculpa. Quem é?

— É da casa do Nando?

Estranho. É voz de criança. Será o Rodligo? Hahahaha ... Porra, é claro que não, o guri ainda não tem idade pra isso, né? Dããããã!!!

— Sim, Nando sou eu, mas quem é você?

— Meu nome é Caíque, eu sou irmão da Caroline.

— Irmão da Caroline?

— Sim, você deve ter me visto quando foi lá em casa chamar as minhas irmãs.

— Acho que lembro sim. Mas como você descobriu o meu telefone?

— Eu guardei algumas coisas da minha irmã, e achei o seu telefone. Ela gostava muito de você, cara. Muito mesmo.

Fiquei meio sem saber o que responder. Além de bater uma certa tristeza. Pobre Caroline.

— Que bom — eu disse, com a voz um pouco alterada.

— Eu preciso ser rápido, ninguém sabe que estou no telefone. Se me pegam eu serei castigado.

— Seus pais me odeiam, não é?

— Meus pais morreram, Nando. Não tenho mais ninguém. Eu estou num orfanato.

— Como é que é?

— Nando, eu preciso ir, acho que me descobriram. Eu só liguei pra avisar que você será o próximo.

— Próximo? Do que você está falando? 

— A minha madrasta matou as minhas irmãs e o meu pai. Ela também tentou me matar, mas consegui escapar. E sei que você também está na lista dela.

— Caralho, guri, isso é hora de passar trote?

— Não é trote, Nando! — O guri estava com a voz trêmula. — Eu só liguei pra você por causa da minha querida irmã. Ontem sonhei com ela. No sonho ela me pedia para avisar sobre o perigo que você está correndo.

— Meu, mas isso é loucura!!! Não pode ...

De repente gritos no outro lado da linha. Vozes adultas mandavam o guri desligar o telefone. Mas antes de obedecê-los ele ainda achou tempo para me dizer isso:

— Fica esperto, Nando! Minha madrasta está solta e quer te pegar.

Tum! Tum! Tum! A ligação caiu.

Caralho!!! Mas que diabos foi isso? Será que foi trote? Porra, mas não pode ter sido trote, foi real demais. Tão real que estou até tremendo. Putz, meu coração está quase passando pela minha garganta. Sinistro!

Meu, vamos supor que o moleque tenha dito a verdade ... quem é esta madrasta? Será a mãe da Caroline? Bom, o moleque disse que a madrasta matou as irmãs e depois o pai dele, certo? Todos nós sabemos que Caroline morreu a vassouradas pela própria mãe, certo? Mas o moleque disse que a madrasta matou as "duas" irmãs. Mas Carolina morreu dentro do banheiro do motel, não foi? Não tinha mais ninguém com ela, certo? Porra, agora já não estou entendendo mais nada. E por que ela estaria atrás de mim? O que foi que eu fiz pra ela? 

Este maldito telefonema deu um nó no meu cérebro.

Porra, justo agora que eu estava começando a apagar o trauma da Caroline. Droga!

Querem saber de uma coisa? Eu vou sair pra dar uma volta. Se eu ficar aqui no meu quarto pensando nisso eu vou enlouquecer. 

Isso mesmo, preciso sair daqui.

Vou aproveitar e pegar os meus CD's que eu emprestei há séculos para o filho da puta do Pezão. Mato duas coelhinhas com uma pintada só.

Passei pela cozinha e minha mãe percebeu algo de diferente em mim. Afinal de contas, mãe é mãe.

— Que cara é esta, filho? Parece que viu um fantasma.

Se eu contar a respeito do telefonema serão dois preocupados. Melhor eu ficar quieto.

— Nem vi, mãe.

Lavei bem o rosto e saí de casa. Nem peguei bicicleta nem nada, saí a pé mesmo. Pezão nem mora tão longe assim.

Mas a cada esquina que surgia eu imaginava a maldita velha segurando uma faca e me ameaçando. Maldito trote do caralho, aquilo mexeu comigo. Ninguém merece, viu?

No meio do caminho vi uma dupla que vocês conhecem bem. Não, não é Zezé de Camargo e Luciano, porra!!!

— Olha lá o camaradinha — disse Pigmeu, abrindo um sorriso de orelha a orelha.

Ao seu lado, o bom e velho Zoinho. Este apenas fez sinal de positivo ao me ver.

— Beleja? — eu disse, aproximando-me dos dois.

— Cadê a sua mãe gostosona?

— Porra, Pigmeu, se liga!!!

Zoinho me olhou estranho.

— Que história é esta? O Pigmeu conhece a sua mãe?

— Conhece porra nenhuma. O maluco só viaja. Nem é da minha mãe que ele está falando.

Pigmeu colocou a mão no ombro do Zoinho, arregalou aqueles olhos vermelhos e disse algo no ouvido dele:

— Não fala nada pro camaradinha, mas estruparam a mãe dele bem na minha frente.

Zoinho começou a rir. Não resisti e acabei rindo também.

— Fica frio, Pigmeu — respondeu Zoinho no mesmo tom — , não vou contar nada pro camaradinha Nando.

Ninguém merece amigos como estes. Fala sério.

— O que vocês fazem por aqui? — perguntei.

Zoinho ergueu a camisa e vi uma revista Playboy enfiada por dentro da calça. Putz, o cara não muda mesmo. Será que ainda tem espaço na casa dele pra tanta revista?

— Ficou sabendo que a professorinha das Chiquititas saiu peladinha? — e apontou para a revista. — Acabei de comprar.

De repente Pigmeu deu um murrão no estômago do Zoinho. Putz! Doeu até em mim.

— Caralho, Pigmeu!!! — gritou Zoinho, contorcendo-se em dores. — Vai se foder, meu!!!

— Tinha uma joaninha deste tamanho — e Pigmeu abriu os braços para exemplificar. — subindo pela sua barriga.

Zoinho ficou ainda mais puto.

— Eu vou mostrar o tamanho da joaninha pra você, seu cheirador do caralho!

Precisei segurá-lo, caso contrário eu não sei o que seria do Pigmeu. Bom, mas pelo menos desta vez ele não ia apanhar de mulher, né?

Acalmados os ânimos eu deixei os malucos para trás e segui meu caminho até a casa do Pezão. De certa forma a companhia dos dois me fez bem, acabei esquecendo um pouco aquela história maluca do telefonema.

Nem precisei tocar a campainha. A empregada estava regando as plantas no jardim e me viu.

— O coisa-ruim está aí? — perguntei.

— Está sim — respondeu ela, rindo e fazendo sinal positivo com a cabeça. — Entra.

Caralho, até que esta empregada nova é bem ajeitadinha. A coitada já deve estar sendo assediada pelo Pezão, com certeza. Daqui alguns dias pede demissão, como todas as outras.

Fui caminhando pelo jardim e encarando as pernas da empregada. Olhar não tira pedaço, né? De repente ela me flagrou.

— Vocês não prestam mesmo — disse ela, balançando a cabeça para um lado e para o outro.

Sorri e segui meu caminho. Pezão apareceu na janela do seu quarto e me viu.

— Quem morreu? — perguntou ele.

Putz! Acabei lembrando do maldito telefonema. Mas nem vou tocar no assunto, não agora.

— Vim pegar os meus CD's.

— Que CD's ?

— Seu bosta, mês passado você foi lá em casa e pegou uns 10 CD's emprestados.

— Nem me lembro.

— Mas eu lembro.

Passei pela garagem e o carro do Pezão continua com os mesmos amassados e arranhões deixados pelo pai da Maria Rita. Estranho, Pezão trata o carro como se fosse um filho. Acho que desta vez a mamãe não quis bancar o conserto. 

Bom, estou cagando e andando. Eu só quero os meus CD's.

Entrei pela porta da cozinha e dei de cara com a mãe do Pezão. Ela me olhou torto, como nunca fizera até hoje.

— O senhor por aqui? — disse ela num tom irônico.

Senhor? Xiiiiiii, a coisa está preta mesmo. Geralmente ela me chama de Fernandinho.

— Tudo bem com a senhora?

— Comigo? Ah, comigo está tudo muito bem — e mordeu uma torrada.

— Que bom. Se me dá licença, eu vou subir para falar com o figura.

Quando eu ia passando pela porta, indo em direção à sala, ela abriu a boca outra vez:

— Pense muito bem antes de fazer brincadeirinhas na frente da polícia, viu?

Parei e virei em sua direção novamente, respondendo:

— Eu já pedi desculpas, sei que pisei na bola.

Ela ficou me encarando por alguns segundos.

— Não pense que livrei somente a pele do Maurício, livrei a sua também.

— Obrigado.

E quando eu ia retornar meu caminho para a sala ela me interrompeu novamente:

— Só mais uma coisa.

— Sim, senhora.

— A próxima vez que aquela peste resolver se engraçar pro lado da filha do Manoel eu quero ficar sabendo imediatamente.

— Filha do Manoel?

— Esqueci o nome dela, acho que é Rita alguma coisa.

— Ah, a Maria Rita.

— Justamente. Maria Rita. O pai dela é um cliente que eu não posso perder de jeito nenhum. E a filha dele é intocável.

Intocável? Esta foi boa. Quase gargalhei, mas me segurei. Não há nada naquela biscate que já não tenham tocado, isso eu garanto.

— Se eu puder ajudar — respondi sério.

— Pode e deve. Se você souber que o Maurício anda se engraçando pro lado dela eu quero ser avisada imediatamente. Faria isso por mim?

— Claro, pode deixar.

E finalmente ela abriu um sorriso. Não é por nada não, mas a mãe do Pezão dá um belo caldo, viu? Loucura, loucura, loucura.

Só não fiz uma cara muito contente pra ela não suspeitar de nada, né? Hahaha ... Mas deu vontade de dizer: "Fica fria, quem está comendo a filha do seu cliente sou eu".

— Obrigada ... Fernandinho.

Hmmmm. Senti um tom meio estranho neste "Fernandinho" ou foi só impressão minha? Bom, só eu posso responder, né? Só eu que ouvi. Dãããããã!!!

E finalmente consegui chegar até a maldita sala. Meu, fala sério esta casa, eu posso trabalhar a minha vida inteirinha e jamais vou conseguir comprar uma mansão como esta. Olha só o tamanho daquela TV! Caralho, imagine um filme pornô num bagulho daqueles! Zoinho ia pirar. Quantas polegadas será que tem aquilo? Maldito Pezão sortudo dos infernos. E o que dá mais raiva é que ele nem liga. Bom, não liga porque já acostumou, é claro. Quero ver o dia em que ele ficar sem grana, aí é que o bicho vai pegar. Não concordam?

Subi as escadas e passei pelo quarto do pirralho. Putz, quanto tempo não vejo o moleque. Lá está ele, sentado diante do computador, tão concentrado no monitor que nem me viu.

— E aí, Bill Gates Júnior, beleja?

O coitado tomou um puta susto. Pulou da cadeira.

— Fala, Nando, tudo jóia?

— Tudo.

— Fiquei sabendo o que você fez com o meu irmão.

— Pois é.

— Eu quase me caguei de tanto rir, cara. Você é foda.

Comecei a rir.

— Eu queria estar lá pra ver a cara dele — completou ele.

— Com uma câmera, de preferência.

— Claro, com certeza.

E o pirralho riu feito uma hiena com nudofobia. Porra, também não sabe o que é nudofobia? Meu, e você ainda acha que vai passar no vestibular assim? Hahaha ... sonha!!!

Deixei o pirralho com o seu computador e fui em direção ao quarto do filho da puta.

Bati 2 vezes na porta. Na terceira batida ele me atendeu. Abriu a porta e já veio me empurrando e me xingando de tudo quanto é nome.

— Meu, mas que porra de amigo é você? — disse ele, apontando o dedo pra mim.

— O que foi que eu fiz?

Não estou entendendo, ele já tinha esquecido tudo. Eu, hein!

— Você sabe muito bem o que foi que você fez — prosseguiu me acusando.

— Não sei.

— Sabe sim, e fez quatro vezes!!! Filho da puta!!!

Putz! Agora caiu a ficha. Já sei do que ele está falando: Maria Rita.

— Como você descobriu? — perguntei.

— A biscate acabou de me contar pelo celular.

— Porra, Pezão, o que você queria que eu fizesse? Estávamos presos dentro do quarto dela, a mina com tesão, eu não tive escolha. Peru pra dentro, velho! Não tinha outra solução.

Pezão me olhou torto.

— Você é um belo de um cuzão mesmo, sabia?

— Você teria feito a mesma coisa.

— Ah, isso eu aposto que não.

Mas é muito filho da puta, não é? Vocês também não acham que ele teria feito a mesma coisa? É claro que sim!

E de repente Pezão começou a rir. Até voltou para o quarto.

— Do que está rindo? Comeu cocô?

E ele continuou rindo. Como é que pode isso? Agora há pouco estava prestes a me socar a mão, agora ri feito uma hiena com pulgas.

— Meu, como é que você me paga um micão desses? Fala sério, Nando!

Hã?

— Do que você está falando, porra?

— A mina tirou o maior sarro com a sua cara, brother.

— Quem?

— A Maria Rita, caralho!!! Acorda!!!

— Nas quatro vezes em que eu fiz ela gozar gostoso não vi ela tirar sarro nenhum com a minha cara.

— Você não lava o cu?

— Do que você está falando?

— A mina me contou que você estava com uma puta freada de bicicleta na cueca!!!

Biscate dedo-duro dos infernos.

Capítulo 2 · O Caçula é Foda

— A mina tirou o maior sarro com a sua cara, brother.

— Quem?

— A Maria Rita, caralho!!! Acorda!!!

— Nas quatro vezes em que eu fiz ela gozar gostoso não vi ela tirar sarro nenhum com a minha cara.

— Você não lava o cu?

— Do que você está falando?

— A mina me contou que você estava com uma puta freada de bicicleta na cueca!!!

Biscate dedo-duro dos infernos.

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— Que culpa eu tenho se naquela droga de banheiro não tinha papel higiênico? O que ela queria que eu fizesse? Eu não ia dar uma de Creitão, né?

Creitão Porção. Acho que já mencionei esta criatura abominável uma vez ou outra nas minhas narrativas. Meu, vocês não têm noção do naipe deste cara. Estudamos juntos no colégio. O cara tinha a moral de fazer coisas que até o capeta duvidava. Se algum dia filmarem aquele programa "Jackass" no Brasil ... Creitão ficaria famoso da noite para o dia.

Tenho muitas histórias sobre o Creitão, só não sei se vocês possuem estômago suficiente. Vou contar justamente a que me levou a citar o seu nome.

Colégio. Retorno às aulas. Creitão chega ao colégio dando bom dia pra todo mundo, sorridente como nunca estivera antes. Cumprimentava um, cumprimentava outro, muito gentil e educado. É claro que todos acharam super estranho e bizarro aquele comportamento oposto ao Creitão que conhecíamos. Muitos pensaram que ele havia finalmente mudado. Houve até professor quem bateu palmas para o nosso ilustre Porcão. Parecia uma outra pessoa. Mas eu sabia que havia algo sinistro por trás daquilo tudo. Sapo que vira príncipe da noite para o dia só acontece nos livros.

No final da aula nós descobrimos o verdadeiro motivo de tanta gentileza. Eca!!!

Antes de entrar na sala Creitão havia usado o banheiro da escola. Perda total num dos vasos. PT dos bons mesmo. Dizem as más línguas que a diretora teve de arranjar verba do próprio bolso para comprar um novo. Mas o pior da história ainda está por vir; não havia papel higiênico naquele dia. Será que alguém adivinha o que aconteceu? Hahaha .... Pois é, acreditem se quiser, Creitão limpou-se com a própria ...

Pra evitar a rima eu decidi não completar a frase acima.

Bom, pra encerrar esta linda história ... Praticado o "crime" ele passou apenas uma água nas mãos e fez aquela palhaçada toda que eu já citei acima ... cumprimentou metade da escola com tapinhas nas costas e apertos de mão fervorosos e animados. Mal sabiam eles que estavam recebendo milhares de coliformes fecais.

Dizem que dali em diante nunca mais cumprimentaram o pobre do Creitão. Eu já não pegava na mão dele antes mesmo, então pra mim não fez a menor diferença.

Meu, fala sério ... nem o Pezão teria a moral de fazer aquilo. Bom, sei lá, eu não boto a mão no fogo por ninguém.

Minhas leitoras devem amar este tipo de história, né? Hahahaha ... Perdoem-me, mas eu tinha de explicar o motivo por ter citado o Creitão. Vocês entendem, né? Hahahaha.

— Porra, você acredita que eu vi o Creitão ontem? — disse Pezão.

— Ele está vivo ainda?

— Pior que está, cara. Meu, continua a mesma coisa.

— Como você sabe, conversou com ele?

— E acha que era necessário? Meu, eu tinha ido comprar um bagulho pra minha mãe no supermercado e o cara passa do meu lado. Vai vendo.

Pezão começou a rir feito uma hiena com coceira. Pensei até que o filho da puta ia ter um ataque.

— Mas o que aconteceu? — perguntei, impaciente.

— Meu, o cara passa do meu lado e solta um peido tão foda, mas tão foda que metade do supermercado pensou que o teto estava desabando. Teve uma mulher que saiu correndo desesperada para fora.

— Porra, não exagera.

— Sério, caralho. Eu estava lá.

— Pra início de conversa eu nunca vi você fazendo compras pra sua mãe em supermercado.

— A empregada estava de folga, e daí?

— Sei.

— Além disso eu preciso readquirir a confiança da velha, né? Depois daquele lance da delegacia ela anda meio ....

De repente gritos empolgados ecoam pela mansão. Alguém repetia "Eu sou Foda!" diversas vezes.

— O que deu no guri? — falei.

— A coroa deve ter comprado alguma bugiganga nova pra ele, sei lá.

E Pezão correu para o corredor. Fui atrás.

— O que houve, apareceu o seu primeiro pentelho? — disse Pezão, entrando no quarto do pirralho.

O moleque estava pulando feito um canguru tarado. Gritava e jogava as mãos para cima, parecia um daqueles bonecos de carnaval. Nunca vi o guri tão excitado assim.

— Eu sou foda!!! — gritava o pirralho. — Eu sou foda pra caralho!!!

— Mas o que aconteceu, ganhou na loto? — perguntei. — Não vá se esquecer dos amigos, hein! Lembre-se que eu sempre fui legal com você e ...

— Não ganhei na loto — respondeu o guri. — , isso é coisa pra gente que acredita na sorte.

E ele finalmente sossegou o rabo. Sentou-se na cama e prosseguiu seu raciocínio:

— Eu prefiro acreditar na minha inteligência. 

— Está fraco não, hein!

Meu, este guri vai longe. Escreve aí o que eu estou dizendo.

De repente a mãe do Pezão apareceu no quarto.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou ela. — Ouvi uma gritaria maluca. Vocês dois estão brigando outra vez?

O guri apontou para o monitor, olhou para a mãe e respondeu:

— Eu fiquei em primeiro lugar no concurso, mãe!

— Ficou? Que ótimo! Mas que concurso?

— Aquele que eu me inscrevi no final do ano passado, lembra?

A mãe do Pezão fez uma cara de bunda que eu nunca vi na minha vida. Putz! Nunca vi alguém ficar tão sem graça.

— É claro que lembro — respondeu ela, sem convencer a ninguém, é claro.

— Mas você vai ganhar alguma grana com isso? — pergutou Pezão.

— Isso eu não sei, mas meu nome vai sair na capa da revista Jovem Cientista!!! Uhuuuu!!!

— Nerd Zé Mané do caramba — disse Pezão, sorrindo de forma sarcástica.

— Não fala assim do seu irmão, Maurício!

— Meu, mas é muito trouxa mesmo — continuou Pezão. — , todo animado só porque o seu nome vai sair numa bosta de uma revista que eu nunca ouvi falar na minha vida. Ah, vai te catar!!!

O guri ficou uma fera.

— É claro que você nunca ouviu falar! Você nunca leu uma revista decente na sua vida, seu imbecil. Se bobear nem sabe ler.

A mãe do Pezão entrou no meio. Afinal de contas ela conhece os dois. Na próxima resposta ia voar safanão e pontapé por todos os lados.

— Vamos parar por aqui, entenderam? Cada um tem o seu dom — aí ela olhou para o guri. — Você sempre gostou de fazer experiências, sempre foi o primeiro da turma, aposto que vai ser um grande cientista algum dia — e terminou com um beijo na testa do pirralho. Que meigo. Aí ela olhou para o Pezão, mas não disse nada.

Pezão ficou até roxo de raiva.

— E eu não tenho dom pra nada, porra? — disse ele, irado.

— Deve ter — disse a mãe dele, com cara de bunda outra vez. — , mas eu estou tentando me lembrar qual é.

Putz!!!!! Depois dessa eu jogava meu boné e ia pra casa. Hahahaha .... Sacanagem, a própria mãe da gente dizer isso deve ser foda, hein! Coitado do mano Pezão.

— Valeu — disse Pezão, meio abatido.

O maluco passou fincando por mim e foi para o seu quarto. Bateu a porta com tanta força que a mansão até tremeu. Caralho, ele ficou magoado pra valer. Algo raro, não é? Pezão magoado. Será que eu já disse esta frase alguma vez na vida?

— Eu só estava brincando com você, volta aqui! — gritou a mãe dele, ainda mais constrangida do que já estava minutos atrás. E ela olhou pra mim — Ele levou a sério mesmo, hein!

— Ahã — fiquei sem saber o que dizer na hora.

— Ele fez de propósito, mãe.

— Como assim?

— Sempre que acontece alguma coisa boa pra mim ele faz o showzinho dele, assim ele consegue mais atenção do que eu.

— Espera aí — eu disse. — , não era pra ser o contrário? Afinal de contas você é o caçula da casa, certo?

— E daí? Posso ser o mais novo da casa, mas se você juntar o Q.I. da minha irmã e o Q.I. daquela anta ali não dá metade do meu.

Comecei a rir.

— Não fala assim dos seus irmãos — A mãe do Pezão se segurou pra não cair na gargalhada também.

— Mas é a verdade, o que eu posso fazer? Eu queria tanto que eles entendessem de química para tirar algumas dúvidas minhas.

Putz! Agora quem não se segurou fui eu. Caí na gargalhada. Imaginei a cena: Pezão e Maura ensinando química para o guri. Fala sério! Tão bizarro como imaginar o Creitão ensinando boas maneiras para o Papa.

— Pára com isso — disse a mãe do pezão outra vez. — , eles não são tão burros assim. Você está exagerando.

Agora foi a vez do pirralho cair na gargalhada. Parecia uma hienazinha recém-nascida.

— Mãe, ontem quase que eu fiz xixi de tanto rir com a Ma.

Ma, que Ma? Ah, a Maura. Entendi. Disfarça.

— Lá vem besteira — disse a mãe do Pezão — , o que você aprontou com ela desta vez?

— Eu? Nada, mãe! Ela é que é uma anta mesmo. Ontem pediu pra eu ensiná-la a mandar e-mail.

— A sua irmã? E-mail? Mas mandar e-mail pra quem?

— Sei lá, pra uma amiga.

Amiga? Sei, sei ... amiga, né? Hahaha ... O guri é esperto, não disse namorada porque ia dar um rolo dos infernos pro lado dele. O pirralho é liso que nem corrimão de hospital.

— Mas e aí? — eu disse. — Conseguiu ensinar?

— Eu juro que tentei, Nando. Ela sentou aqui do meu lado e fomos passo a passo. Aí depois ela foi lá pro quarto dela. Uma hora depois ela voltou.

— Está vendo como ela não é burra? — disse a mãe. — Você ensinou, ela foi lá no notebook dela e mandou, certo?

O pirralho caiu na gargalhada outra vez, depois respondeu:

— Ela voltou pra me perguntar como é que ligava o coiso.

— Ah, você está inventando história. Faz um ano que eu comprei aquele notebook pra ela. Não venha me dizer que até hoje ela não usou.

Agora o guri quase fiz xixi na cueca.

— Mãe, ela não sabia nem abrir o pobre coitado.

A coroa levou as mãos à cabeça, balançando lentamente em sinal de descrédito.

— Não acredito nisso. Gastei uma nota preta; comprei o melhor que tinha. Pensei que seria útil para os estudos dela. Eu preciso prestar mais atenção em vocês. Esta correria me deixa maluca, não tenho tempo pra mais nada.

— A senhora esqueceu do meu concurso, não foi?

E agora? Será que ela admite?

— Esqueci, meu anjo. Você perdoa a mamãe?

— Claro, mãe, não esquenta.

Que meigo. Hahahaha .... Porra, isso aqui está parecendo novela das seis! Eu, hein!

Meu, o Pezão está quieto demais no quarto dele. Será que o mala se enforcou? Putz! Do jeito que as coisas andam sinistras nestes últimos meses ... eu não duvido de mais nada.

— Mas diz aí — eu falei. — , que concurso foi este que você ganhou?

— Eu estava navegando aqui e resolvi olhar meus e-mails. Quando abri eu nem acreditei. Tinha uma mensagem me avisando que eu peguei em primeiro lugar no concurso da revista Jovem Cientista. Foram mais de 8 mil inscrições.

— Caraaaaaaaaaaaca!!!

A mãe do guri arregalou os olhos, estava emocionada.

— Oito mil inscritos e você foi o primeiro, meu filho?

A coroa deu um beijo tão nervoso no moleque que ficou até roxa a bochecha dele.

— Parabéns, guri — estendi-lhe a mão e o cumprimentei.

De repente até me lembrei da história do Creitão.

— Mas o que foi que você inventou, meu anjo? Agora fiquei super curiosa.

— Você achou a cura pra Aids? — Ok, a minha pergunta foi besta, mas ... vai que é verdade, né? O caçula é foda.

— Não, Nando, ainda não tenho capacidade técnica pra isso. Mas fica frio que há grandes nomes da ciência trabalhando neste assunto. Eu inventei outra coisa.

— Quanto suspense.

— Não é nada assim tãããããããããão espetacular. Não tive muito tempo para criar algo melhor. Mas se ganhou o concurso deve ter alguma utilidade, não é?

— Filho, você está parecendo autor de novela ... Desembucha, logo!!! O que foi que você inventou?

Capítulo 3 · Invenção Maldita

— Mas o que foi que você inventou, meu anjo? Agora fiquei super curiosa.

— Você achou a cura pra Aids? — Ok, a minha pergunta foi besta, mas ... vai que é verdade, né? O caçula é foda.

— Não, Nando, ainda não tenho capacidade técnica pra isso. Mas fica frio que há grandes nomes da ciência trabalhando neste assunto. Eu inventei outra coisa.

— Quanto suspense.

— Não é nada assim tãããããããããão espetacular. Não tive muito tempo para criar algo melhor. Mas se ganhou o concurso deve ter alguma utilidade, não é?

— Filho, você está parecendo autor de novela ... Desembucha, logo!!! O que foi que você inventou?

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— Eu acho que inventei o cheiro mais terrível do planeta.

— Como é que é? — eu falei.

Porra, guri, que decepção! Isso aí já foi inventado faz tempo. Até hoje eu me lembro de um peido do Mamute que fez a classe inteira evacuar a escola. Fato verídico.

— Ah, sem brincadeira, fala sério.

O guri olhou sério pra mim e respondeu:

— Eu estou falando sério. Inventei o pior cheiro do universo.

— Mas qual a utilidade disso, filho? — perguntou a mãe do guri.

— Mãe, eu inventei o pior cheiro, mas não foi só isso.

— Ah, então tem outra invenções. Quais?

— Uma bala de goma.

Porra, moleque!!! Bala de goma? Fala sério. Será que ele realmente ficou em primeiro lugar nesta porra de concurso?

— Não entendi nada. — falei. — Você ficou em primeiro lugar por ter inventado o pior cheiro ou por causa da bala de goma?

— Calma, Nando, vocês não me deixaram explicar direito. Uma é complemento da outra. Tipo ... a bala é um antídoto para o cheiro.

— Hã? — a mãe do Pezão fez a mesma cara que eu fiz. Cara de quem não está entendendo porra nenhuma. Acho que o moleque fumou um cigarrinho do capeta junto com o Pigmeu.

— Vocês estão parecendo a Maura, meu!!! Dããããããã!!!

A coroa caiu na gargalhada.

— Filho, você precisa entender que nós não somos gênios feito você, né?

— Mas não precisa ser nenhum gênio pra entender o que eu estou falando. É bem simples. Eu inventei o pior cheiro do mundo, mas inventei o antídoto. Acho melhor eu fazer uma demonstração prática. Esperem só um segundo.

O guri puxou a cadeira em que ele estava sentado e a colocou diante do armário. Abriu uma portinhola e puxou um pote de vidro, fechado, aparentemente vazio. Colocou o pote sobre a cama e fez cara de pensativo.

— Só mais um segundo — disse ele, coçando a cabeça. — , esqueci onde guardei as balas.

— É por isso que seu quarto tem sempre barata, Murilo! Tem sempre uma bala jogada aqui ou ali.

— E daí, mãe? Barata é uma das criaturas mais fascinantes da face da Terra, não sabia?

A cara de nojo que a mãe do Pezão fez foi hilária.

— Credo, meu filho! Fascinante uma ova! Eu acho o bicho mais nojento, isso sim!

Comecei a ficar impaciente.

— Vai mostrar seu invento pra gente ou não?

— Ah, lembrei! — disse ele. E correu em direção ao criado-mudo. Abriu a gaveta e retirou um pacote plástico cheio de balas. — Achei. São estas.

— Eu acho que você está aprontando alguma — eu disse, enquanto piscava para a mãe do Pezão.

Ela achou graça e completou:

— Também acho que você está brincando conosco. Garanto que sua invenção não tem nada a ver com cheiros ou balas. É tapeação isso.

O moleque fez cara séria.

— Estou falando a verdade, mãe! E para provar eu vou fazer uma pequena demonstração.

O guri pegou o pote que estava sobre a cama. Segurou com tanto cuidado que parecia até uma bomba.

— Credo, quanto suspense — falou a coroa.

— Aposto que tem alguma sacanagem — falei, incrédulo.

O guri começou a girar lentamente a tampa do pote.

— Preciso abrir com muito cuidado, pois se eu liberar uma quantidade muito grande o bairro inteiro poderá sofrer os efeitos.

E o guri retirou a tampa lentamente. Ele fez uma careta horrível, mas creio que tudo não passa de uma brincadeira do moleque. Afinal de contas vocês o conhecem muito bem, não é? Este pirralho já aprontou muitas pra cima da gente.

— Ah, Murilo, eu tenho muito mais o que fazer e ... PUTA QUE PARIU!!!!

Meu, a coroa soltou um "puta que pariu" tão alto que eu tomei um susto enorme. Quase caí para trás.

— Eu avisei, mãe.

E quando eu já me preparava pra dizer que tudo aquilo era brincadeira dos dois o cheiro me atingiu como um soco no estômago.

— Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!!! — gritei, levando as mãos ao nariz.

— Não adianta colocar as mãos no nariz, Nando. É inútil.

E o filho da puta do guri tinha razão. O bagulho era muito estranho. Mesmo com o nariz totalmente fechado eu ainda conseguia sentir aquele cheiro estranho. Era como se ele penetrasse o meu cérebro e sei lá ... sinistro!!! Meu, nunca senti nada tão terrível na minha vida!!! É como se eu estivesse preso dentro do esgoto com umas 500 pessoas e de repente estas 500 pessoas começassem a peidar ao mesmo tempo.

— Meu, fecha esta porra deste pote!!! — gritei.

Só não me pergunte de onde tirei forças pra fazer isso.

A mãe do Pezão começou a ficar verde.

— Peguem as balas! — gritou o guri, pegando o pacote sobre o criado-mudo.

A mãe do Pezão não conseguiu esperar, saiu correndo para fora do quarto.

— Não adianta, mãe! O cheiro vai junto! Volte aqui e pegue uma bala, rápido!

Ela não lhe deu atenção, continuou correndo.

Eu peguei umas três balas do pacote e joguei na boca, desesperado. Meu estômago estava embrulhando, eu ia vomitar a qualquer momento.

O guri começou a mastigar uma das balas e tentou me tranqüilizar.

— Mastiga com calma que o cheiro vai sumir.

Apesar de estar com as três balas na boca eu corri pra fora do quarto. Eu precisava sair dali urgentemente.

Mastiguei as malditas balas e não senti efeito algum! O que eu faço?

Saí do quarto e vi a mãe do Pezão caída no corredor. Meu, acho que a mulher morreu!!!

— Pirralho, você matou a sua mãe!!! — tentei gritar, mas saiu como um sussurro.

De repente Pezão deixou o seu quarto.

— Puta merda, quem foi o filho da puta que jogou bosta pela casa? — gritou Pezão. — Lá de dentro do meu quarto deu pra sentir um cheiro azedo e ....

Antes que eu pudesse responder alguma coisa Pezão começou a passar mal também.

Apontei pro quarto do guri e sussurrei pro Pezão:

— Corre, pega uma bala com o seu irmão, rápido!

Pezão começou a ficar roxo.

O guri apareceu no corredor. Estava com outro saco de balas nas mãos. Ele tirou uma do saco e jogou pra mim, dizendo:

— Pega aí, esta é a bala certa!!!

— Como é que é? Bala certa??? E a outra era o quê???

Peguei a bala no ar e joguei pra dentro da boca. Meu, o alívio foi quase imediato!

Pezão também pegou uma das balas e sua cor começou a voltar a normal.

Quando o guri viu sua mãe caída no corredor ele quase teve um treco. Pulou por cima do corpo dela, abriu-lhe a boca e colocou uma bala sobre a sua língua.

— Mãe, acorda, mãe!!!

— Que porra aconteceu aqui? — disse Pezão, meio grogue.

E finalmente a mãe do Pezão abriu os olhos. Ufa! Mais um defunto minha vida ia ser foda. Saravá!!!

O guri até chorou de alegria. Deu um abraço na mãe e pediu desculpas umas 10 mil vezes. Pezão olhou pra mim sem entender porra nenhuma.

— O que foi que este nerd dos infernos fez? — perguntou ele.

Ajudamos a mãe do Pezão a se levantar. 

— A senhora está bem? — perguntei.

— Acho que estou. Nem me lembro direito como vim parar aqui no corredor. Tudo o que eu me lembro é daquele cheiro terrível e ... — ela olhou para o guri. — Você quase mata sua mãe, filho!

— Não exagera, mãe. Eu disse que tinha o antídoto.

— Meu, sua mãe tem razão! — falei. — Você pegou a bala errada, poderia ter matado a gente sim!

— Mas alguém pode me explicar que história é esta de bala? Que diabos é isso? E que cheiro horrível foi aquele que eu senti lá dentro do meu quarto? Eu nem tinha peidado nem nada!

Falando em peido ... De repente, do nada, soltei um peido rasgante. Meu cu até ardeu.

— Credo, Nando!!! — disse a mãe do Pezão, afastando-se de mim.

O guri começou a rir feito uma hiena com osteoporose.

— Caralho!!! Fedeu, viu? — gritou o Pezão. — Então foi você o culpado pelo cheiro?

Antes que eu pudesse me defender soltei outro ainda mais rasgante. Senti até uma labareda saindo do meu ânus. Meu, de onde veio isso? O que está acontecendo comigo?

E o guri rindo. Rindo muito. Comecei a desconfiar.

De repente o guri também soltou um rasgante. Aposto que ardeu o rego dele também, pois a cara que o filho da puta fez não foi nada boa.

— Credo, Murilo!!! — disse a mãe do guri. — Isso são modos?

Olhei feio para o moleque e falei:

— Meu, não é o que eu estou pensando que é ... é?

Ele tentou parar de rir, olhou-me de soslaio e respondeu:

— Bom, acho que já descobri qual era a bala que peguei por engano.

Desta vez peidamos juntos. Puta merda. Estamos com FODA?

O guri começou a rolar de rir. Fiquei puto da vida.

— Meu, não ri não, você também chupou uma bala daquela.

— Eu sei — respondeu ele, rindo muito.

— E por que diabos continua rindo???

— Porque eu peguei só uma. Você pegou três.

Santa Pixirica.

Capítulo 4 · Babalu Cósmico

— Bom, acho que já descobri qual era a bala que peguei por engano.

Desta vez peidamos juntos. Puta merda. Estamos com FODA?

O guri começou a rolar de rir. Fiquei puto da vida.

— Meu, não ri não, você também chupou uma bala daquela.

— Eu sei — respondeu ele, rindo muito.

— E por que diabos continua rindo???

— Porque eu peguei só uma. Você pegou três.

Santa Pixirica.

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A mãe do Pezão nos levou na melhor clínica particular da cidade. Nenhum sinal de FODA. Na verdade o médico nos disse que isso nem existe. Aquela clínica maluca onde fizemos os exames de DNA só tinha picareta mesmo. Como se fosse novidade, né? Dãããã!!!

O doutor nos receitou muito repouso e alguns remédios para o estômago, e foi só.

UFA! Eu não estava nada interessado em fazer uma cirurgia. Pior, uma cirurgia no rego. Sai pra lá!!!

Faz uma semana que estou de cama e não agüento mais. Eu preciso sair, tomar um ar fresco, beijar na boca, fazer sexo, sei lá ... qualquer coisa!!! Não agüento mais ficar preso neste quarto assistindo sessão da tarde e comendo bolacha água e sal.

E por onde será que anda o ... ???

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmm!!!!!!!!!

Putz ... Falando no diabo ...

— Fala, Pezão do caralho.

— Pezão é coisa do passado, Nando.

— Agora a onda é ... namorar pelado.

E caí na gargalhada, tipo uma hiena depois de tomar viagra.

Pezão não achou muita graça.

— Como é que você está? — perguntou ele, sério.

Meu, eu ouvi bem? O cara perguntou como é que eu estou? Eu, hein! Este não é o Pezão que eu conheço. O Pezão que eu conheço teria me mandado à merda ou pra lugares piores.

— Pezão, você comeu cocô?

— Eu? Claro que não. Só perguntei como você vai. Não posso? 

— Pode, mas ... você nunca me fez esta pergunta antes.

— Acabei de fazer. E, por favor, de agora em diante eu gostaria de ser chamado pelo meu nome. Pezão não existe mais. Agora sou Maurício.

Como é que é? Putz!!! O cara está muito esquisito. Parece um robô.

— Tua mãe bateu na tua cabeça? — perguntei.

— Não, por quê?

— Fala sério, você está muito esquisito. Parece até que enfiaram um bambu no seu cu.

— Ninguém enfiou nada em mim.

— Mas aconteceu alguma coisa. Você está meio afetado.

— Bom, aconteceu uma coisa extraordinária comigo.

— Eu sabia! Você está diferente. E pelo jeito deve ter comido alguém muito importante. Quero detalhes. Era tão gostosa assim?

— Não foi isso.

— Claro que foi. Só pode ser isso. Conta aí, porra!!!

— Será que você poderia maneirar nos palavrões? Isso carrega o ambiente e abala meu Babalu Cósmico.

Como é que é??? Eu ouvi direito? Babalu Cósmico???

— Pezão.

— Diga.

— Enfia teu Babalu Cósmico no cu e assovia!!!

— Não diga isso, cara!!! Meu, que blasfêmia!!!

— Blasfêmia??? Pezão, e por acaso você sabe o que esta palavra significa???

— Claro que sei. Significa falta de respeito.

Meu, o que está acontecendo com o Pezão? O cara pirou de vez? Nunca vi ele falando difícil.

— Bom, vamos por partes — eu disse. — Acho que já sei o que aconteceu. Aposto que você encontrou o Pigmeu numa balada e o camaradinha lhe ofereceu um cigarrinho do capeta. Foi isso, não foi?

— Passou longe. Drogas afetam o nosso Babalu Cósmico. Eu jamais ....

— Mas que porra de Babalu Cósmico é este, caralho??? É algum chiclete de maconha?

— Babalu Cósmico não é um chiclete, Nando.

— Se é ou não eu não sei, mas que você fumou alguma coisa ... fumou!!! E aposto que foi dos bons, porque você está doidaço!!! Só falta enxergar joaninhas pelo telefone.

— Não farei isso. Estou muito bem. Aliás, nunca estive tão bem em toda a minha vida.

— Sinto muito, mas não está. Você está doidão, isso sim. E o que é pior, um doidão chato pra caralho!!!

— Eu apenas entrei em sintonia com o meu Babalu Cósmico, Nando.

— Meu, se você falar "Babalu Cósmico" mais uma vez eu vou até a sua casa chutar o seu saco. Eu juro que vou. E de quebra ainda enfio um bambu no seu cu.

— Você precisa se acalmar. Aposto que você não está em sintonia com ...

— Nem pense nisso!!! Já entendi. Meu, agora vamos falar sério ...

— Eu estou falando sério desde o momento em que você atendeu o telefone.

— Pezão, pára de zoeira.

— Já falei que Pezão não existe mais. E não estou com zoeira nenhuma. Eu falei pra você: algo extraordinário aconteceu comigo.

— Extraordinário o cacete!!! Você pirou de vez, isso sim. De onde surgiu este papo de Babalu Cósmico dos infernos?

— Em primeiro lugar Babalu Cósmico não tem nada a ver com ... isso que você acabou de falar.

— Inferno?

— Não repete, por favor. Meu mestre me aconselhou a não dizer certas palavras, pois elas abalam o nosso Babalu Cósmico.

— Sei. E além de "inferno" o que mais você não pode dizer? 

— Muitas outras coisas. O mundo é cheio de palavras negativas, Nando. Cada vez que você as pronuncia atrai todo o Universo contra a sua pessoa.

— Pezão, seja honesto comigo, você entrou para alguma seita?

Silêncio. Xiiiiiiiiiii ... pelo jeito a resposta deve ser SIM.

— Não somos uma seita; somos apenas pessoas interessadas em vivermos em sintonia com o nosso Babalu Cósmico.

— E vocês possuem um mestre?

— Sim.

— Então vocês fazem parte de uma seita, seu idiota.

— Nando, seu Babalu Cósmico deve estar muito abalado.

— Pezão, corta essa!!! Eu acho que enfiaram um Babalu Cósmico daqueles bem grandes no seu cu, isso sim!!!

— Babalu Cósmico é apenas uma força da natureza, Nando. Não dá pra enfiar o Babalu Cósmico em lugar algum. Você apenas sente sua presença e sua energia.

Meu, não estou acreditando nisso. Fizeram uma lavagem cerebral no idiota? Não pode ser verdade. Só pode ser uma piada de muito mau gosto.

— Mas desde quando você está assim? — perguntei, de saco cheio.

— Depois que coisas extraordinárias lhe acontecem você perde a noção de tempo e espaço, Nando. Eu só sei que nunca estive tão feliz em toda a minha vida. Sério mesmo.

— Fala sério, você está parecendo uma bichona recém-assumida.

— Você está com inveja, isso sim.

— Inveja? Inveja do quê? Se liga!!!

— Inveja do meu Babalu Cósmico estar em sintonia e o seu não.

— Meu, eu já falei pra você: enfia este Babalu Cósmico no cu. Se você pirou de vez é azar o seu, só não me venha com estas veadagens!!!

E desliguei o telefone na cara do Babaca Cósmico.

Meu, era só o que faltava ... Pezão bicho-grilo. Ninguém merece.

E o pior ... eu não posso nem me levantar e ir até a casa dele chutar-lhe o saco.

Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmm!!!!!

Ah, fala sério!!! Se eu ouvir Babalu Cósmico mais uma vez eu mesmo vou enfiar o dedo no meu cu e me matar. Ninguém merece.

— O que você quer, porra?

— Calma, Nando!

Não é o Pezão, é a voz do pirralho.

— Meu, o seu irmão mastigou um saco de cocô?

— Então você já está sabendo?

— Sobre o Babalu Cósmico?

O pirralho caiu na gargalhada. Depois disse:

— Pois é, de quatro dias pra cá ele só fala nisso. É Babalu Cósmico pra cá, Babalu Cósmico pra lá. O mano pirou na maionese.

— A sua mãe está sabendo disso?

— Não está. Ela viajou a trabalho, como sempre.

— Aposto que ela não vai curtir a idéia do seu irmão ter entrado para uma seita.

— Minha mãe é meio desligada. Ela só vai perceber quando o mano estiver fazendo algum sacrifício satânico com um bode no meio da sala. E só vai perceber porque sujou o tapete persa dela.

Putz!!!! Agora quem caiu na gargalhada fui eu. Nem tinha pensado nisso; será que a seita do Pezão tem estas coisas? Eu, hein! Chuta que é macumba!!!

— Esta foi boa — falei, ainda rindo muito.

— Vai rindo, vai! Você ainda não viu o naipe dos caras que fazem parte da seita dele. É um mais esquisito que o outro.

— Putz!!! E só tem homem? Não tem mulher?

— Na verdade vi umas duas ou três mulheres sim. Uma delas era até gatinha.

— Gatinha? Opa, começou a melhorar o esquema. Será que foi por isso que o seu irmão entrou para a seita?

— Nando, por favor, você não!!! Já basta um, né?

— Fica frio, guri. Estas paradas não são pra mim.

— E algum dia você chegou a imaginar que o mano entraria para uma seita? Agora veja onde ele está.

— Putz, você tem razão. Eu nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer.

— Sinistro.

— Muito. Mas como será que isso aconteceu? Ele te contou como foi?

— Ele veio me contar ontem à noite.

— É mesmo?

— Mas era uma história tão chata que eu acabei dormindo.

— Putz!!!

E caí na gargalhada outra vez, tipo uma hiena com taquipnéia. Ah, você não sabe o que é taquipnéia? Sorte a sua. Não é nada agradável.

— Mas eu te liguei pra pedir um favor, Nando.

— Favor? Xiiiiii, Marquinho!!!

— Calma, pensando bem nem é um favor. Está mais para um convite.

— Não entendi. É favor ou convite?

— Lembra do concurso em que eu fiquei em primeiro lugar?

— Sim, claro. 

— Então, os vencedores receberão troféus e bolsas de estudo fora do país.

— Xiqui nu úrtimo, hein!!!

— Pois é. Mas o problema é que a minha mãe só volta na semana que vem.

— Onde e quando vai ser a premiação?

— Será em Campos do Jordão, depois de amanhã.

— Campos do Jordão? Uau ... faz muito tempo que não vou pra lá. E você ligou pra me convidar? Opa!!! Demorou!!!

— Então você topa, não é?

— Claro, to dentro! Aquele lugar dá muita mulher gostosa. Já vou até lhe ensinar uma cantada boa que funcionou muito quando eu estive lá pela última vez. Nós chegávamos na mulherada e ... "Posso te esquentar, gatinha?".

— Que podre. E funcionava?

— É claro que havia exceções ... mas falando com jeitinho elas não resistem.

E o pirralho deu risada.

— Meu — disse o guri, com um ar de alívio. — , ainda bem que você topou. Eu não conseguiria viajar só com aqueles dois retardados.

Dois retardados? Que dois retardados?

— Como é que é? Quem vai também?

— O mano vai nos levar com o carro dele. Este papo de Babalu Cósmico deixou ele meio doidão, mas pelo menos ele está bonzinho comigo.

— Bom, resta saber quem é o outro retardado.

— Não é outro; é outra.

— Quem?

— A minha irmã também quer ir.

Putz!!! A viagem promete. Será que a gente volta vivo?

Capítulo 5 · Sim, Mestre

— O mano vai nos levar com o carro dele. Este papo de Babalu Cósmico deixou ele meio doidão, mas pelo menos ele está bonzinho comigo.

— Bom, resta saber quem é o outro retardado.

— Não é outro; é outra.

— Quem?

— A minha irmã também quer ir.

Putz!!! A viagem promete. Será que a gente volta vivo?

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Por sorte, coincidência ou uma tremenda cagada do destino, fiquei curado do problema estomacal logo no dia seguinte ao telefonema do guri. Uhuuuu!!! Iça!!! Meu, eu não poderia ficar de fora desta, né? Campos do Jordão é tudo de bom. Friozinho. Altas gatas. Edredom. Chocolate quente. Era tudo o que eu precisava.

Acordei super bem disposto, é claro. Passei pela cozinha com um puta sorriso nos lábios. De repente ouvi gargalhadas histéricas vindo da copa. Meus dois irmãos quase se mijavam de tanto rir, apontando os dedos para mim.

— O que foi? — perguntei.

— Nando tá de pinto duro !!! — repetiam os dois fedelhos dos infernos, apontando para a minha bermuda.

E eu realmente estava!

Imediatamente tentei dar uma disfarçada, mas não dava mais tempo. E os dois continuaram rindo feito idiotas. Corri para o banheiro e dei aquela mijada. Tudo bem que foi meio complicado não acertar os azulejos, afinal de contas o Nando Júnior estava mesmo empolgado.

Bom, vocês já devem ter reparado que eu falo pouco dos meus irmãos. E na verdade vocês repararam bem, é isso mesmo. Vão encarar? São dois fedelhos chatos, criançolas ainda. O caçula tem 8 anos e o outro completou 10 anos semana passada. Não tenho saco pra suportá-los. Mas se algum dia eles renderem bons momentos eu prometo citá-los aqui. Por enquanto eles só sabem fuçar e quebrar as minhas coisas. Que raiva!!!!!!!

Calma, Nando, não se irrite. Você acordou de bom humor, lembra? E mais, dizem que acordar de pau duro é bom sinal. Sei lá onde eu li isso, mas se estava escrito deve ser verdade.

Lavei bem as mãos e ... Estão pensando o quê? Sou um cara limpinho, porra!!!

Saí do banheiro e os pirralhos continuavam sentadinhos à mesa. Que bosta. Não vai dar pra tomar meu café sossegado.

Enquanto eu colocava açúcar no meu café vi os dois cochichando e rindo de mim. Não dei bola. Criança é foda, se você dá corda é pior.

Sentei-me com eles. Notei que eles queriam me dizer alguma coisa, mas não paravam de rir.

— O que foi? — eu disse, afinal. — E peguei um pão francês.

André, o caçula, respondeu:

— O Paulinho quer saber se é verdade o que falaram pra ele na escola.

— O que foi que falaram pra você na escola? — perguntei, encarando o Paulinho nos olhos.

Ele ficou me observando e depois de alguns segundos finalmente disse:

— Um amigo meu falou que o nosso pinto cresce quando a gente vira gente grande.

Putz!!! Ninguém merece. Eu sentei pra tomar meu café da manhã e sou obrigado a explicar os mistérios do pênis para meus irmãos caçulas? Ah, fala sério.

— Seu amigo disse a verdade — falei, passando margarina no meu pão.

Meu, vocês não botam fé na cara de alegria que o meu irmão fez. Foi tão engraçado que eu quase me cortei com a faca. No caçula não vi alteração nenhuma. Aí já seria pedir demais, né?

— Mas pra que esta preocupação com o seu pinto?

Ele fez sinal pra eu me aproximar. Quando atendi seu pedido ele me respondeu bem baixinho:

— Meu amigo ouviu dizer que quem tem pinto pequeno não arranja namorada.

Meu, eu quase mijei na cueca quando o fedelho me disse isso. Comecei a rir feito uma hiena com ejaculação precoce.

— Mas eu não entendo — prosseguiu ele.

— E nem é pra entender — falei, dando a primeira mordida no pão. — Você é muito pequeno para estas coisas.

— Por que a gente precisa de um pinto grande pra arranjar namorada? Não entendo.

Porra, cadê a minha mãe pra levar estes fedelhos longe daqui?

— Por que, Nando? — prosseguiu o guri. — Por quê? Por quê?

— Não sei — respondi.

— Sabe sim, você sabe!

— Nem sei.

— Sabe.

— Ele sabe — disse o caçula.

Estão vendo por que eu evito os meus irmãos? Moleques chatos, meu!!!

Resolvi tomar uma medida drástica. Calma, não vou bater nos moleques. Se eu fizer isso minha mãe me mata.

— Cuidado, hein! — falei pra eles, sério.

Os dois ficaram me olhando, curiosos.

— Cuidado por quê? — perguntou Paulinho, o mais velho.

— Porque quem fala e pergunta demais o pinto não cresce.

Ele caiu na gargalhada.

— Mentiroso — disse ele, olhando desconfiado pra mim.

— É sério — falei, fazendo uma cara bem séria.

O guri ficou me olhando, esperando pra ver se eu ia rir ou não. De repente ele disse:

— Meu amigo nunca me disse isso. É mentira sua.

Agora que comecei a zoar eu vou até o final. Comigo é assim.

Olhei sério para o pirralho e falei baixinho pra ele:

— Posso provar que é verdade.

Ele me olhou bem ressabiado, depois respondeu:

— Eu não sou bobo.

Afastei a cadeira um pouco e pedi para os dois guris chegarem mais perto. Ficaram os dois bobocas de frente pra mim.

— O silêncio faz bem para o pinto. Vou provar pra vocês — aí eu apontei para a minha bermuda e disse: — Reparem bem isso aqui.

Os fedelhos ficaram olhando pra minha bermuda. Fechei os olhos e tentei imaginar algo bem excitante. A primeira coisa que me veio à mente foi a professora de bateria do Pezão. Lembram? Se você é cueca eu aposto que se lembra. Aneri!!! Ai que saudade da Aneri ... ui ui ui. Meu, foi instantâneo. Nando Júnior começou a se mexer dentro da bermuda. Em questão de segundos a barraca estava armada. Abri os olhos, olhei para os moleques e disse:

— Estão vendo como ele cresceu rapidinho? Tudo porque eu fiquei em silêncio.

Os moleques ficaram abismados. Eles olhavam pra mim como se eu fosse o novo rei.

— Se eu fechar os olhos e ficar quieto assim como você fez o meu pinto também vai ficar bem grande?

Segurei-me pra não cair na gargalhada, depois respondi:

— Claro. Quanto mais quieto você ficar maior ele será.

— Legal!

E os dois correram para seus quartos. Paz, finalmente. De repente aparece a minha mãe.

— Cadê seus irmãos?

— Saíram correndo por aí.

— O que você fez pra eles, Nando?

— Credo, mãe, não fiz nada. Eu adoro aqueles dois.

— Ah, sei ... sei. Se bobear você não sabe nem os nomes.

Triiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmm!!!!

— O telefone está tocando — disse a mama. — Atende lá, só pode ser pra você mesmo.

— Vou atender lá no meu quarto — e saí fincando da cozinha.

Deve ser o Senhor Babalu Cósmico. Atendi:

— Fala, Babaca Cósmico.

Ouvi uma tremenda gargalhada do outro lado do aparelho.

— Babaca Cósmico!!! — é a voz do pirralho. — Esta foi ótima, Nando!!!

— Gostou, né? Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

— Lógico.

— Tudo pronto pra amanhã?

— Tudo. Nando, corre aqui pra casa, você precisa ver isso de perto.

— Ver o quê?

— O mano reuniu o pessoal do grupo dele. Isso aqui está muito engraçado. Mas rir sozinho não tem graça. Corre aqui, cara.

E vocês acham que vou perder a oportunidade de ver isso com os meus próprios olhos??? Troquei-me em dois minutos, peguei a magrela e saí pedalando feito um retardado com pulga nas canelas. Cheguei em tempo recorde.

O pirralho já me esperava no portão.

— Caralho, Nando, você já foi ciclista profissional algum dia?

Só depois que consegui recuperar o fôlego eu respondi:

— Nunca, mas depois de hoje eu vou começar a pensar na idéia.

Entramos e fomos caminhando pelo jardim.

— Meu, você vai rachar o bico — disse o guri.

— Cara, então é sério mesmo? O Pezão entrou para uma seita de verdade?

— Sei lá que porcaria é aquela. Eu só sei que é a coisa mais ridícula que eu já vi na minha vida. Adoraria que a minha mãe chegasse aqui agora e encontrasse o mano com aquele bando de malucos fantasiados.

— Meu, seria hilário.

— Ou trágico.

E caímos na gargalhada.

Entramos sorrateiramente dentro da mansão. Da cozinha já foi possível ouvir um coro de vozes desafinadas cantando uma música que eu nunca ouvi na minha vida. Quero dizer, nem sei se dá pra chamar aquilo de música.

— Estão todos na sala — sussurrou o guri, caminhando à minha frente.

Ao passar pela cozinha eu finalmente entendi porquê o guri me telefonou. Eu precisava mesmo ver aquilo com os meus próprios olhos, caso contrário eu jamais acreditaria.

— Caraaaaaaaaaaaaaaaalho!!! — falei.

Mas falei tão alto que todos pararam de cantar e olharam pra mim. Fiquei vermelho em segundos.

— Desculpa aí, galera — eu disse.

O pirralho olhava pra minha cara e não parava de rir. Eu juro que tentei respeitar, mas não consegui. Caí na gargalhada também.

Recuamos e nos sentamos à mesa da cozinha, rindo feito duas hienas com caxumba.

Meu, vocês também não iriam resistir. Imaginem a cena: Pezão de mãos dadas com um bando de malucos, todos fantasiados com umas túnicas amarelas ridículas, cantando algo parecido com ... "O lá iê iê iá ... Babalu babaloá ... O lá iê iê ia ... Babalu babaloá".

Fala sério. Que o Pezão é maluco todos nós sempre soubemos, mas isso já passou dos limites.

Quando o guri conseguiu parar de rir ele disse:

— Fala a verdade, é muita veadagem aquilo ali!!!

— Meu, fala baixo! — e caí na gargalhada outra vez.

— Estou na minha casa. Se eles não gostarem o azar é deles.

E a música rolando. Incrível como a letra continua sempre a mesma. Está começando a me dar dor de cabeça esta musiquinha dos infernos.

Opa! Finalmente silêncio. A maldita música parou.

— Vamos lá ver o que eles vão fazer agora — disse o pirralho, pulando da cadeira.

Fomos até a porta. Demos de cara com o Pezão, todo sério.

— Por que vocês não foram lá cantar com a gente? — disse ele. — Não precisa ser do grupo para participar da roda.

— Pezão — eu disse. — , chamando pra gente entrar na sua roda, é?

— Já falei que Pezão não existe mais.

— Corta essa, brother!!! Que papo é este de Pezão não existe mais? Olha você aqui, bem na minha frente, porra!!!

— Também já falei pra evitar palavrões na minha presença.

Puta merda!!! Alguém me segura ou vou dar um chute no saco do Pezão. Meu, o cara ficou muito chato!!! Ninguém merece. Cadê o Pezão filho da puta???

O guri entrou na conversa:

— Se a mãe chega aqui e pega aquele monte de mulher com os peitos de fora a gente ...

Espera aí. Eu ouvi direito? Monte de mulher com os peitos de fora? ONDE???

— Onde você está vendo isso, guri? — falei, enquanto procurava alguma.

Pezão saiu da minha frente e ... o guri tinha a razão ... as mulheres do grupo estavam todas com os seios à mostra!!! Meu, como é que eu não vi isso antes???

— Os seios fazem parte do corpo feminino — disse Pezão, calmamente.

— Dããããã!!! — disse o moleque, fazendo aquele típico gesto com o punho batendo na testa. — Claro que fazem parte, seu idiota, mas elas não sabem o que significa sutiã?

— O mestre nos ensinou que este tipo de coisa reprime o nosso Babalu Cósmico.

Eu só conseguia olhar para os peitos da mulherada. Será que é por isso que o Pezão entrou para esta seita? Só pra ver a mulherada com os peitos de fora? Meu, tem umas 7 mulheres no grupo. E pra ser bem honesto, todas lindas, altas e magrinhas. Elas usam uma espécie de saia, da mesma cor das túnicas dos homens, e é só. Os peitos ficam nus. Sério, estou ficando excitado.

— Usar calcinha também reprime o Babalu Cósmico? — perguntei, ainda com os olhos vidrados nas mulheres.

— Sim, principalmente a calcinha.

— Isso quer dizer que elas não estão usando calcinha neste momento?

— É proibido.

Putz!!! Se eu já estava excitado, imaginem agora.

E pra ajudar ... duas garotas do grupo aproximaram-se de nós.

— Cumbuca, — disse uma delas para o Pezão. — estamos com sede.

— Fiquem à vontade — respondeu Pezão, dando passagem para as garotas. — , na geladeira tem água gelada. Sirvam-se. A minha casa é a casa de vocês.

E as duas passaram por nós. Uma tinha os peitos meio caídos, mas a outra ... Santa Pixirica!!! Talvez os seios mais lindos que eu já tenha visto até hoje.

Enquanto as duas abriam a geladeira eu me lembrei de uma coisa que passou despercebido. Olhei para o Pezão e disse:

— Foi impressão minha ou ela te chamou de Cumbuca?

— Sim, é meu nome-símbolo: Cumbuca Rasa.

O guri caiu na gargalhada antes de mim. O moleque quase teve um treco.

— Muito prazer — disse o guri, ainda rindo muito. — , e o meu é Dança com Lobos.

Aí eu não resisti, caí na gargalhada feito uma hiena com rubéola. As duas garotas até se assustaram. Meu, que peitinhos durinhos tem a mina ... Loucura, loucura, loucura!!! Será que dar a bunda também reprime o tal de Babalu Cósmico dos infernos??? Acho que estou a fim da mina dos peitinhos bonitos.

Acho que só consegui parar de rir uns cinco minutos depois. Tudo por causa de um puta susto que eu tomei. De repente eu comecei a ter visões.

Vi um baixinho super esquisito, de cabelos brancos compridos, igual àquele personagem Mestre dos Magos, do desenho animado Caverna do Dragão. Sabem quem é? Então, eu juro que vi o Mestre dos Magos aproximar-se de nós. É sério.

Putz!!! Será que durante o ritual eles estavam cheirando alguma coisa e eu acabei absorvendo?

— Este aqui é o nosso mestre — disse Pezão, apontando para o ...

Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!!!

Não era visão porra nenhuma!!! Mas não é possível, o cara é igualzinho o Mestre dos Magos do desenho!!! Não é possível isso!!!

— O que foi, Nando? — perguntou Pezão, olhando assustado pra mim. — Que cara é esta? Parece que viu um fantasma.

Pior que fantasma. O baixinho está me dando nos nervos. Ele olha a gente de uma forma esquisita ... e ainda tem aquele sorrisinho cínico, apavorante.

— Olá, meu amigo — disse o cover do Mestre dos Magos.

Caralho, até a voz é parecida. Mas com um sotaque meio cearense. Sinistro.

— Mestre dos Magos, é você? — perguntou o pirralho, sério.

Eu caí na risada, é claro. O cara é tão parecido com o personagem que até o pirralho percebeu. 

— Quem? — disse o baixinho esquisito.

Aí o pirralho fechou com chave de ouro:

— É verdade que você e o Vingador são a mesma pessoa?

Caralho, o pirralho é foda mesmo. Olha o naipe da pergunta? É claro que o baixinho esquisito boiou, não entendeu porra nenhuma.

— Acho que você está me confundindo com alguém, garoto — disse o baixinho.

— Meu irmão é muito brincalhão, mestre — disse Pezão. — , não dê atenção.

— Brincar é uma coisa muito boa — disse o baixinho. — Nosso Babalu Cósmico fica altamente energizado quando estamos de bom humor.

Resolvi entrar na conversa.

— Mestre, permite-me uma pergunta?

— Claro, meu amigo. Você é o ... ?

— Nando — e cumprimentei o Mestre dos Magos cover. — Prazer em conhecê-lo.

— Faça sua pergunta, Nando.

Olhei na direção das garotas com os seios nus, depois voltei o olhar para o baixinho e perguntei:

— Fazer sexo também faz bem para o Babalu Cósmico?

— Sim, é claro que faz bem.

Uhuuuuuuuuuu!!! Garota dos peitinhos gostosos, aqui vou eu ....

— Mas só depois que a pessoa completa 14.666 dias de vida na Terra — terminou o baixinho.

— Como é que é? — perguntei, perplexo. — E isso equivale a quantos anos?

— Aproximadamente uns 40 anos e alguns meses.

Ah, fala sério!!! Esta seita não está com nada!!! Se eu fosse esperar completar 40 anos de vida pra dar a primeira trepada eu já estaria morto.

— Após os 40 anos o ser humano já tem maturidade suficiente para uma relação carnal. Até lá é impossível que isso aconteça em harmonia com o seu Babalu Cósmico.

Olhei para o Pezão e falei:

— Já contou pro seu mestre que você teve sua primeira relação carnal aos 15 anos?

O baixinho ficou indignado. Precisam ver a cara que ele fez para o Pezão.

— Babalu babaloá!!! Isso é verdade, Cumbuca?

Pezão fez cara de cachorrinho abandonado e balançou a cabeça, dizendo:

— Sim, mestre. Perdoe-me, mestre. Já fui um fornicador. Mereço punição, mestre.

— Sim, punição é o que você terá.

Caralho, o baixinho é uma mistura de Mestre dos Magos com Mestre Yoda? Eu, hein!!! Ele pegou firme no braço do Pezão e o arrastou de volta para a sala, dizendo:

— Precisamos iniciar o seu processo de purificação agora mesmo.

Pezão olhou para mim com cara de poucos amigos. Retribuí o olhar e falei:

— Calma, Cumbuca, a raiva não faz bem para o seu Babalu Cósmico.

O guri quase se mijou todo.

— Você é foda, Nando — disse ele.

— Nem sou, guri. Se eu fosse teria contado pro Mestre Yoda que a primeira relação carnal do seu irmão foi aos 14 anos, e com 3 prostitutas.

Capítulo 6 · A Aposta

Caralho, o baixinho é uma mistura de Mestre dos Magos com Mestre Yoda? Eu, hein!!! Ele pegou firme no braço do Pezão e o arrastou de volta para a sala, dizendo:

— Precisamos iniciar o seu processo de purificação agora mesmo.

Pezão olhou para mim com cara de poucos amigos. Retribuí o olhar e falei:

— Calma, Cumbuca, a raiva não faz bem para o seu Babalu Cósmico.

O guri quase se mijou todo.

— Você é foda, Nando — disse ele.

— Nem sou, guri. Se eu fosse teria contado pro Mestre Yoda que a primeira relação carnal do seu irmão foi aos 14 anos, e com 3 prostitutas.

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E o guri quase teve um treco do coração, parecia uma hiena com sarampo. O guri fez tanto escândalo que outras duas garotas da seita vieram até a cozinha. Meu, eu nunca vi tanta mulher com os peitos de fora, estou me sentindo numa praia nudista.

— Perdoe-me o meu pequeno amigo aqui — eu disse para as duas que chegaram. — , é que eu sou bom pra contar piadas.

Elas deram um sorrisinho bem amarelo. 

Olhando bem para elas nota-se algo em comum: são todas muito bonitas!!!! Estas duas últimas então ... uau!!! Uma ruiva e uma mulata. Seios perfeitos, como se fossem esculpidos por um artesão da Grécia antiga. Nossa, fui longe agora, hein!!! Mas que culpa eu tenho? Tem algo mais inspirador do que várias mulheres lindas com os seios à mostra?

O guri estava com os olhos arregalados para a mulata.

— Calma, baixinho, assim você arranca pedaço da moça.

Quando eu falei isso finalmente consegui arrancar algumas risadas das garotas. Foi lindo ver aqueles seios chacoalhando enquanto elas riam.

O guri me chutou a canela por debaixo da mesa. Eu estava tão concentrado nos peitos das minas que nem senti dor alguma.

— Meu nome é Fernando, mas podem me chamar de Nando — falei para elas. — Quem são vocês?

A ruivinha foi a primeira a se apresentar:

— Eu sou Fogo de Palha. Quero dizer, meu nome-símbolo é este, dado pelo mestre.

Fogo de Palha? Sei não, eu acho que esta ruivinha daria uma leoa na cama. Ela tem um corpão nervoso! Pena que esta maldita saia ridícula esconda as suas pernas.

— E você? — perguntei para a mulata, a mais sorridente das quatro.

— Pérola Negra — respondeu ela, toda orgulhosa.

— Chique, hein! Pérola Negra! Foi o mestre quem a batizou assim?

— Sim, todas recebemos o nome-símbolo do nosso mestre.

— E se vocês não gostarem do nome-símbolo? — perguntou o guri.

Finalmente a garota dos peitinhos mais bonitos resolveu abrir a boca. Ela respondeu:

— Já nascemos com o nosso nome-símbolo definido. Gostar ou não gostar não vem ao caso. Aceitamos e seguimos o nosso caminho.

Uau! A mina é do tipo séria. Acho que gamei.

— E qual é o seu? — perguntei, tentando não encarar os seus lindos seios desta vez.

— Montanha-Russa.

Putz!!! Montanha-Russa??? Assim que ela terminou de dizer eu precisei me segurar muito pra não soltar isso aqui: "Deixa eu passear em você, minha deusa?".

— Interessante — falei, ainda me segurando. — , muito interessante.

— E o seu? — perguntou o pirralho para quarta garota.

— Vento Sul.

Credo, será que além dos peitos caídos ela tem problema de gases? Pobrezinha. Bom, pelo menos de rosto ela não deve nada pra ninguém, ela tem uns olhos azuis maravilhosos. Resumindo: eu comeria!!!

Ficamos em silêncio por alguns instantes. 

O pirralho não tirava os olhos dos peitos da mulata. Aposto como o guri está de pau duro. Mas quem sou eu pra dizer alguma coisa, né? Também estou, ora bolas!

— Sentem-se — falei para as garotas. — , fiquem à vontade.

Ops!!! À vontade todas elas já estão, né? Mas elas entenderam o que eu quis dizer.

A mulata e a ruiva aceitaram o meu convite, já as outras duas pediram licença e voltaram para a sala. Droga! Eu queria tanto trocar uma idéia com a Montanha-Russa.

— Vocês são virgens? — perguntou o pirralho, do nada!

Meu, eu quase caí da cadeira. Para a minha surpresa elas acabaram rindo da pergunta. Eu pensei que o guri ia levar um safanão nas fuças.

— Sim — respondeu a mulata, calmamente. — , eu acabei de entrar no meu terceiro ciclo aqui na Terra, e Fogo de Palha nem saiu do segundo.

— Que negócio é este de ciclo? — perguntei, curioso. — Estou boiando.

— Cada ciclo terrestre tem exatos dez anos. Eu tenho 23 anos de idade, portanto já estou no meu terceiro ciclo. Fogo de Palha tem só 19 anos, nem saiu do segundo ciclo.

— E pra manter relações carnais vocês ....

Antes que eu pudesse terminar a frase senti um vulto entrando pela porta da cozinha, vindo do jardim. Era ela: Maura. A mina tomou um susto tão grande ao nos ver.

— O que é isso? — gritou ela, jogando sua bolsa sobre a mesa.

— Chegou bem na hora da suruba — falei, tentando me manter sério.

— Como é que é? E vocês nem me convidam?

— É zoeira do Nando, sua anta! — disse o pirralho.

— Zoeira? Mas então o que estas duas biscates estão fazendo com os peitos de fora?

Caralho! Agora vai dar rolo! Nem quero ver! Ou melhor, quero ver sim! Já imaginou uma briga de mulheres com os peitos de fora? Uhuuuuuuu!!!

Mas não foi isso que aconteceu. A ruiva, Fogo de Palha, olhou para a Maura com toda a calma do mundo e disse:

— Biscate? O que é uma biscate?

— E ainda por cima é metida a engraçadinha!!!

Porra, a Maura já está pegando pesado. É melhor eu intervir, apesar de estar bem interessado numa briguinha.

— Maura — eu disse. E ela olhou pra mim. — , acalme-se, elas fazem parte da seita satânica que o seu ....

— Seita satânica??? — caralho, a mulata quase chutou o meu saco. — Que horror!!!!!!

E a ruivinha completou, ainda mais indignada:

— Credo!!! Somos isso não!!! Somos um culto de amor à vida! Pregamos a paz e a harmonia entre a raça humana. Nós só queremos ficar em harmonia com o nosso Babalu Cósmico. Não temos nada de .. satânico! Credo, nem posso dizer esta palavra.

— Sim, é isso! — disse a Pérola Negra, ainda me olhando feio. — Você pensou que fôssemos satanistas?

Fiquei vermelho de vergonha. Eu falei por brincadeira, né?

— Perdoe-me, saiu sem querer querendo.

Falei de um jeito tão acanhado que todas acabaram rindo, inclusive a Maura.

— Preciso de 1 litro de leite, urgente!!! — disse uma voz, atrás de mim.

Era a Montanha-Russa, com um olhar sério e apreensivo.

— O que aconteceu? — perguntei.

— O Cumbuca está sendo purificado e precisamos de 1 litro de leite para finalizarmos o ritual!

— Cumbuca, mas quem é Cumbuca? — perguntou a Maura, olhando seco para os peitos da Montanha-Russa.

Caraca, esqueci que a Maura é bolacha. No fundo ela também está gostando desta mulherada com os peitos de fora, né?

— Cumbuca é o mano — respondeu o guri, levantando-se e indo até a geladeira.

— Vocês estão todos malucos — disse a Maura, balançando a cabeça negativamente.

— Toma — disse o pirralho para a Montanha-Russa, entregando-lhe uma jarra com leite. — , é tudo o que temos em casa.

— Obrigada — disse a Montanha-Russa. — , acho que serve.

E ela voltou correndo para a sala. É claro que todos nós corremos atrás dela. Ficamos curiosos para ver como é o tal ritual de purificação.

— Que seios lindos tem aquela garota — disse a Maura para mim.

Ela estava se referindo à Montanha-Russa.

— Sim, mas eu vi primeiro! — respondi.

— E daí?

Meu, que ódio que eu fiquei da Maura! Senti uma puta vontade de dar um chute na testa da biscate. Mas eu não bato em mulher. Que sorte a dela, viu?

Entramos na sala e não vimos porra nenhuma. O pessoal da seita fez um círculo em volta do Pezão e do Mestre Yoda.

Mas para a nossa sorte, os sofás e mesinhas estavam pra fora do círculo, então nós subimos neles. Meu, fala sério esta sala, rico é outra coisa mesmo. É enorme.

— O que estão fazendo com o mano? — gritou o pirralho, de pé sobre o braço de um sofá.

Caraaaaaaaaaaaaaalho!!! Olha lá o Pezão! Vocês não vão acreditar na cena: Pezão totalmente nu, deitado com a cabeça no colo do Mestre dos Magos. Ao seu lado, com a jarra de leite, está a minha bela Montanha-Russa.

— Puta que pariu! — gritou a Maura, descendo do sofá. — Meu irmão pelado no colo de um duende velhote! Terei pesadelos para o resto da minha vida! Eca!

E a Maura voltou para a cozinha, esfregando os dedos nos olhos.

Concordo que a cena não é das mais agradáveis, mas eu estou curioso pra saber o que vão fazer com ele. Será que vão mesmo purificar o Pezão? Fala sério, hein! Será necessário muito mais do que apenas 1 litro de leite pra se fazer isso. Pra tirar os pecados que aquele filho da puta já cometeu eles vão ter de chamar uns 20 caminhões da Parmalat.

— Babalu! — disse o Mestre dos Magos.

Montanha-Russa ficou de pé e ergueu o jarro com leite.

— Babaloá! — disse a galera que formava o círculo ao redor deles.

— Sai, espírito fornicador!!! — prosseguiu o Mestre dos Magos. — Sai, espírito fornicador!!! Sai, espírito fornicador!!! Sai, sai, sai, sai, sai, sai .....

— Seu amigo será purificado — disse a Pérola Negra, subindo no sofá e ficando ao meu lado.

Caralho, até perdi a concentração ao olhar para aqueles seios mulatos bem pertinho de mim. Ai que vontade de apalpá-los! Ai que vontade de fazer fom-fom!

Quando voltei os olhos para o ritual eu não pude acreditar ...

— O que a Montanha-Russa vai fazer? — gritei.

Alguns integrantes do círculo olharam para trás, na minha direção.

— Ela vai passar o leite no corpo dele — respondeu a mulata.

Ah, não!!! Não é justo!!! Maldito Pezão filho da puta dos infernos!!! Eu quero que ela passe leite em mim!!! Em mim!!! Ah, fala sério!!!

E não é que é verdade mesmo?

A minha doce Montanha-Russa pegou o jarro e despejou leite pelo corpo do desgraçado. Depois ela começou a ...

Parei de olhar. Desci do sofá. Ah, vai tomar no cu! Era pra eu estar lá, todo lambuzado e massageado pelas mãos lindas da Montanha-Russa. Não o Pezão!!! Agora eu tenho certeza: não existe justiça neste mundo cruel.

Voltei para a cozinha, puto da vida.

A Maura estava sentada à mesa, devorando um baita pedaço de pão com maionese.

— O que foi, enjoou? — perguntou ela, de boca cheia. Um farelo de pão voou no meu olho esquerdo.

— Se eu soubesse que o ritual era aquele eu teria me candidatado também.

— Ah, fala sério. Meu irmão pirou de vez.

— Se ela estiver passando leitinho lá onde eu estou imaginando ele deve estar pirando mesmo, filho da puta sortudo dos infernos.

— E quem é aquele duende velho e esquisitão?

— É o mestre deles, sei lá! O cara parece o Mestre dos Magos.

— Meu, é isso! — E Maura caiu na gargalhada, parecia uma hiena com berne. — Era este personagem que eu estava tentando me lembrar. Meu, é igualzinho mesmo!!! 

Silêncio por alguns instantes. Enquanto isso o ritual continuava lá na sala. Dava para ouvir os malucos repetindo o tal "Babalu babaloá".

Maura retomou a conversa:

— O Murilo tinha me contado sobre este lance de Babalu Cósmico, mas eu pensei que era alguma sacanagem de vocês.

— Fizeram uma lavagem cerebral no seu irmão.

Ela me olhou espantada.

— Como assim, lavagem cerebral? É aquele negócio que eu vi na televisão um tempo atrás? Eles pegavam as pessoas, jogavam sabão em pó pelos ouvidos, depois jogavam água e sacudiam. As pessoas ficavam doidonas, Nando! Era horrível!

Meu, ninguém merece esta família.

Sua anta!!! Bom, não vou perder tempo discutindo, né?

— Exatamente isso, Maura, exatamente isso.

Ela continuou me olhando assustada, enquanto dava a última mordida no pão.

— Quando a mãe souber eu não quero nem estar perto — ela disse.

— Eu quero, vai ser muito engraçado.

— Você quer ver o circo pegar fogo, né?

— Claro, desde que não seja com o meu fósforo.

E caímos na risada, feito um casal de hienas correndo para o motel.

Ficou um resto de maionese no dedo dela. A biscate aproveitou a oportunidade e deu "aquela" lambida, carregada com segundas, terceiras e até quartas intenções. Pra terminar ainda ficou chupando o dedo, fazendo movimentos de vaivém. E o trouxa aqui olhando e babando, né? Meu, nós homens somos um bando de idiotas mesmo. Bastou a mina ficar chupando o próprio dedo lambuzado de maionese pra eu ficar de pau duro novamente.

Ela terminou a brincadeirinha com um sorrisinho bem sem-vergonha.

— Você só provoca, né? — falei.

— Por que diz isso?

— Porque eu sei muito bem que a fruta que você gosta é outra.

Ela arregalou os olhos.

— Pra mim toda fruta é fruta, meu bem.

— O que quer dizer com isso?

— O que vier eu traço, sem preconceito.

— Hmmmm! Então você ainda gosta de homem?

— E quando eu deixei de gostar? Parece besta, Nando.

— Sei lá, de uns tempos pra cá eu só vejo você com mulher.

— Nem é tanto assim. A gente é que se vê pouco.

De repente gritos vindos da sala. Acho que terminaram a purificação do Pezão. Foda-se, eu é que não volto lá pra ver.

— A loirinha do leite é um tesão, hein! — disse a Maura, tirando um maço de cigarros da sua bolsa.

— Maravilhosa, mas não é para o nosso bico.

— Por que não? Já consegui mulheres mais lindas do que ela, Nando.

Isso! Provoca esta pobre alma afetada!

— Não é esta a questão — eu disse. — Desista.

— Nunca. Quando encasqueto com uma coisa eu vou até o final.

— Sabia que estes malucos só podem trepar depois dos 40 anos?

— O quê? — a Maura quase caiu da cadeira. — Nem na era medivenal era assim?

Putz!!! Era medivenal foi foda.

— Não é era medivenal, é era medieval.

— Então! Meu, que absurdo! Não acredito nisso. Ninguém seria capaz de esperar tanto tempo.

— Pergunta pra ela.

— Bobagem. Quero ver se ela resiste ao meu charme. Quarenta anos o escambau! Nem na era medivenal eles faziam isso, Nando! Eu estudei, porra!

Não corrijo mais.

— Você não vai conseguir nem um beijo no rosto, Maura. Eu vi o jeitão da mina.

— Nando, quer apostar comigo?

Putz!!! Apostar? Ela se acha a última bolacha do pacote mesmo, hein! Entenderam a piada? Última bolacha do pacote. Admitam, esta foi boa!

— Que tipo de aposta? — perguntei.

— Vamos ver quem consegue levar a gostosinha pra cama.

— Nenhum dos dois. A mina é jogo duro.

— Meu, você é homem ou não é?

Porra, agora ela pegou pesado. Pau no cu da Maura.

— Apostado — falei. E selamos o negócio com um aperto de mãos.

— Legal. Agora precisamos definir um prêmio para o vencedor.

— Mas o prêmio não é transar com ela? Convenhamos, é um prêmio e tanto. Você viu aqueles peitinhos ... são os mais gostosos que eu já vi até hoje!

— Ah, fala sério, não exagera. Precisamos de uma premiação para o vencedor.

— Eu não tenho nada pra lhe oferecer.

— Deve ter sim. Eu vou pensar em alguma coisa.

Lembrei de uma coisa. Já sei o que vou colocar na aposta. Será que a anta topa?

— Eu quero o seu notebook — falei.

— Meu o quê?

— Deixa pra lá, pelo menos eu ten ...

— Não, sério, eu não sei o que é. Nóti buqui? Eu tenho isso?

— Sim, o Murilo disse que você queria usá-lo para enviar um e-mail e ...

— Ah, aquilo? Aquela porcaria não funciona. Mas se você quiser ...

— Eu quero! — meus olhos até brilharam.

Meu, fala sério ... eu vi o notebook da biscate, tem até gravador de DVD. E é claro que funciona! Basta a anta carregar a bateria, né? Dããããã!!!

— Negócio fechado — disse ela. E apertamos as mãos novamente.

— Já decidiu o que vai querer de mim se você ganhar? — perguntei.

— Ainda não, mas eu prometo que vou pensar com carinho.

De repente os malucos da seita invadiram a cozinha, vindo da sala. Acho que o ritual acabou.

— Babalu babaloá! — repetiam eles, empolgados.

Meu, eles não percebem como são ridículos e patéticos? Ah, fala sério! Um bando de marmanjo vestido de amarelo gritando "Babalu babaloá". Se algum dia eu entrar para esta seita vocês prometem que me matam? Obrigado. Confio em vocês, hein!

Eles passavam pela cozinha e iam direto para o jardim. Acho que estão indo embora.

O guri apareceu, estava branco feito um fantasma.

— O que houve com você, Murilo? — perguntou a Maura.

— Nunca vi nada parecido em toda a minha vida — respondeu ele, atônito.

— Você acreditou naquela veadagem? — perguntei.

Notei que o povo que passava atrás de mim não gostou muito do que eu disse. Foda-se!

— Sei lá, parece que o mano gostou. Ele está com uma cara tão boa!

— Mas é claro que gostou, pirralho! Você não gostaria de ter uma loira gostosa passando as mãos pelo seu corpo?

— Não na frente de todo mundo.

Pezão, Mestre Yoda e a Montanha-Russa finalmente apareceram. Ah, agora Pezão estava vestido. Ele estava usando aquela túnica amarela ridícula outra vez.

— Tudo bem com você, São Maurício? — eu disse.

— Hã? — respondeu ele, num tom meio abobalhado.

— Não transformamos o Cumbuca em santo, meu amigo — disse o Mestre dos Magos cover. — , ele passou por um processo de purificação do seu Babalu Cósmico.

— Foi lindo — disse a Montanha-Russa. 

Ah, foi! Lindo mesmo! Esfregar as mãos em mim você não quer, né? Vou mostrar o meu leitinho pra você, aí sim vai ser lindo.

A Maura não tira os olhos da Montanha-Russa, a maldita já deve estar tramando alguma coisa.

— Estou meio zonzo — disse o Pezão, sentando-se numa cadeira.

— É perfeitamente normal — disse o Mestre dos Magos. — , afinal de contas os espíritos fornicadores eram muitos dentro de você. Nunca vi tantos assim em todos estes anos.

— É mesmo, mestre? Eram muitos?

— Muitos eles eram.

— Babalu babaloá!

Silêncio por alguns instantes.

— Bom, eu preciso ir — disse o Mestre Yoda. — preciso regar minhas plantas. — Depois ele olhou para a Montanha-Russa. — Fique um pouco mais com o Cumbuca, Montanha. Ele precisa sentir a sua presença por mais algumas horas. Vocês estão ligados pelo leite da purificação. Pode ser perigosíssimo um afastamento abrupto.

— Sim, mestre — disse a Montanha-Russa, linda como sempre!

Mestre dos Magos fez uns gestos esquisitos e, antes de se despedir, disse pra mim:

— Você deveria se juntar a nós, Nando.

— Eu? Mas eu já sou um menino tão puuuuuuuuuuro.

— Enganado você está. Vejo forças estranhas no seu Babalu Cósmico.

— Bom, ninguém é perfeito.

E o baixinho me olhou estranho. Cruz credo! Este anão tem um olhar esquisito pra caralho. Dá medo, oh!

— Babalu babaloá! — disse ele, antes de cruzar a porta da cozinha e ir embora.

— E que a Força esteja com você! — falei baixinho.

De repente imaginei o Pigmeu aqui com a gente. Já imaginaram o maluco dando uns tapas na careca do Mestre dos Magos? Pá!!! Tinha uma joaninha em você, Nelson Ned!

Maura levantou-se da cadeira. Lá vai ela encarar a Montaha-Russa.

— Qual o seu nome? — perguntou ela, num tom de voz bem diferente do normal. Meu, isso é voz de chaveco! Eu conheço muito bem este tom.

— Bom, meu nome de batismo é Narishcova Antropovalona.

Caralho!!! Prefiro Montanha-Russa mesmo. O nome da mina parece nome de remédio pra enxaqueca.

— Uau! — disse a Maura, arregalando os olhos. — Que sexy! Sempre gostei de nomes russos.

— Na verdade é polonês.

— Você tem uns olhos maravilhosos, sabia?

Porra, a Maura está partindo pra cima com tudo! Assim não dá! Preciso fazer alguma coisa.

— Montanha — eu disse, chamando a sua atenção. Ela olhou pra mim. — , pela sua descendência você deve sentir uma certa atração pelo frio, não?

— Sim, eu adoro o inverno, é a minha estação favorita.

Opa! Exatamente o que eu queria ouvir. Vocês ainda não entenderam? Simples, vejam e aprendam com o verdadeiro mestre:

— Amanhã nós iremos pra Campos do Jordão — eu disse. — Gostaria de ir conosco?

— Campos? — seus lindos olhos até brilharam. Finalmente vi um sorriso naquele rosto perfeito. — Nossa, eu adoraria!

— Então vamos, ora! Será um prazer tê-la conosco.

— Muito obrigada pelo convite! Amo aquela cidade!

E a gatinha com nome de remédio me deu um puta abraço apertado. Acreditam?

Eu sou foda.

Mas eu não sabia se ficava contente por ter recebido o abraço ou se chorava por estar tão perto daqueles peitinhos e não poder fazer ... fom-fom, bi-bi!!!

Capítulo 7 · Só Nari

— Campos? — seus lindos olhos até brilharam. Finalmente vi um sorriso naquele rosto perfeito. — Nossa, eu adoraria!

— Então vamos, ora! Será um prazer tê-la conosco.

— Muito obrigada pelo convite! Amo aquela cidade!

E a gatinha com nome de remédio me deu um puta abraço apertado. Acreditam?

Eu sou foda.

Mas eu não sabia se ficava contente por ter recebido o abraço ou se chorava por estar tão perto daqueles peitinhos e não poder fazer ... fom-fom, bi-bi!!!

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Fiquei tão decepcionado quando Montanha-Russa foi embora! Nem tanto pela ausência, mas sim por ela ter vestido uma camiseta. Ah, sacanagem!

Porra, a camiseta não reprime a porcaria do Babalu Cósmico também? Aparentemente não. Ela disse que a sociedade ainda não está preparada para mulheres com os seios nus pelas ruas. Bom, de certa forma ela tem razão. Seria um desastre total para o trânsito. Bateríamos todos os recordes mundiais em acidentes.

Bom, mas com ou sem camiseta, o importante é que ela topou viajar conosco.

Sairemos da casa do Pezão amanhã, após o almoço.

Acordei bem cedinho, tomei um banho, arrumei minha mala, almocei, dei tchau pra minha mãe e corri pra casa do Pezão.

Montanha-Russa já estava lá, sentadinha no sofá da sala. E para a minha decepção, usando uma blusa de manga comprida. Mas a decepção passou rapidinho quando olhei para o seu rosto lindo. Como uma garota tão bonita e gostosa pode me decepcionar, né? Jamais!

— Você está muito bonita — eu disse para ela.

— Ah, gentileza sua — disse ela, sorrindo meio sem graça.

De repente Maura surgiu do nada, com dois copos nas mãos.

— Toma, Nari — disse Maura, oferecendo um dos copos para Montanha-Russa. — , está bem geladinho.

Epa! Maura oferecendo bebida para a minha gatinha? Será que tem alguma substância duvidosa? E que papo é este de Nari? Que intimidade é esta? Não gostei.

— Obrigada — disse Montanha-Russa. — , você é um amor.

Putz grila, a Maura é foda! Meu, se eu perder uma garota para ela vou ficar sem moral alguma, hein! Isso não pode ficar assim, preciso contra-atacar.

— O que aconteceu com o seu nome-símbolo, não vai mais usá-lo?

Montanha-Russa quase engasgou-se com a bebida.

— Claro que vou! — disse ela, assustada. — Mas reconheço que Nari ficou bonitinho. Além disso é menor e mais fácil de dizer.

— Nem se compara, né? — disse a Maura, sentando-se bem do ladinho da ... Nari. — Ah, fala sério! Motanha-Russa? Narishcova? Ninguém merece, oh!

E ... Nari ... quase teve um ataque de risos, parecia uma hiena cantando La Bamba.

O guri apareceu. Putz grila, o moleque passou tanto perfume que até me deu enjôo.

— Caralho, tomou banho de perfume ou o quê? — reclamei.

— Ah, não exagera — respondeu ele, ligando a TV.

Caralho, olha a qualidade do bagulho! Até esqueci de mandar o pirralho enfiar o perfume no cu.

— Cadê o São Maurício? — perguntou a Maura para o guri.

— Quando eu passei pelo corredor vi a porta do banheiro fechada.

— Mas ele está lá até agora? Será que o filho da puta morreu?

Montanha-Russa, quero dizer, Nari, ficou indignada com a Maura.

— Não fale assim do seu irmão! O Cumbuca é uma pessoa tão legal.

— Quem? — e depois que a ficha caiu a própria Maura caiu na gargalhada. — Ah, Nari, você vai me perdoar, mas que apelidinho mais ridículo vocês arranjaram pro meu irmão, hein! Cumbuca?

— Cumbuca Rasa — completou o guri, quase mijando na cuequinha.

Nari não moveu um músculo dos lábios, permaneceu super séria.

— Pois eu não vejo nada de ridículo.

Opa! Nari chateada com a Maura? Preciso aproveitar a oportunidade e trazê-la para o meu lado.

— Concordo — falei. — , de certa forma até combina com ele.

Nari sorriu para mim. Uhuuuuu! Ponto pra mim! Enfia no rabo, Maura!

— Mas falando sério agora — disse a Maura. — , faz mais de uma hora que eu passei em frente ao banheiro e ele já estava lá com o chuveiro ligado. Os banhos dele nunca passaram de vinte minutos.

— Isso é verdade — confirmou o guri, fuçando no controle-remoto da TV.

— Não se preocupem — disse Nari, de repente. — , nossos banhos são assim mesmo, bem longos. O mestre que recomendou.

— O Babalu Cósmico tem muito cê-cê? — zoei.

— Não fala isso, oh! — Nari olhou feio pra mim.

Que bosta! Eu e minha boca grande. Por que é que eu não fico quieto?

— Gostei — disse a Maura. — , o mestre é esperto. Eu também adoro um banho bem longo. Saio relaxada.

— Banhos longos ajudam a tirar as cargas negativas acumuladas em nossos Babalus Cósmicos durante o dia. E é exatamente isso que o Cumbuca está fazendo.

— Mas o filho da mãe acabou de acordar! — disse a Maura. — Nem deu tempo pra acumular nada no Babalu dele.

— Não creio que ele tenha acordado tão tarde — disse Nari.

— Aquele filho da mãe nunca acordou cedo na vida!

— Não quero defender o mano — disse o guri. — , mas a Montanha-Russa está certa. Ele acordou umas 7 horas da manhã e foi regar as plantas da mamãe no jardim. Acredita nisso? E o pior é que é verdade, eu vi com os meus próprios olhos. E detalhe: peladão. Putz!

— Ah, ninguém merece! — disse a Maura, fazendo cara de nojo.

— O contato com a mãe natureza precisa ser feito sem roupas — disse Nari para a Maura.

— Não dá pra acreditar nisso — eu falei. — , o Pezão regando plantinhas, com a bunda branca de fora, às 7 horas da manhã? Eu, hein!

E caímos na gargalhada, tipo hienas numa rodinha de pagode, exceto a Nari. A guria não moveu um músculo dos lábios.

Que seita mais idiota é esta? As pessoas não acham graça em nada? Bela porcaria! O bom da vida é você sorrir, não é? Quem sorri adoece menos e vive mais. Sorrir é o melhor remédio pra tudo. Vocês não concordam?

E Pezão finalmente apareceu, vestido com aquela túnica amarela ridícula.

— Enfim o São Maurício! — disse a Maura, batendo palmas.

— Não sou santo — respondeu ele, sério.

Galera, é impressionante, parece outra pessoa. A impressão que eu tenho é que o Pezão verdadeiro foi abduzido por alienígenas e deixaram um clone no lugar dele, mas um clone bem chato!

— Limpou bem o Babalu? — perguntei, rindo.

Pensei que ele ia se irritar, mas nem. Respondeu-me tranqüilamente:

— Sim, obrigado.

Fala sério, eu vou lá dar um chute no saco do Pezão. Quem sabe assim ele acorda!

Tudo bem que o camarada sempre foi um tremendo filho da puta, e que ele já aprontou muito comigo e com muitas outras pessoas, mas Pezão Bento XVI não dá! Não combina!

— Vamos? — disse ele, apontando com o polegar para a porta.

— Pensei que tinha esquecido da viagem — disse o guri.

— Claro que não esqueci, meu irmão! Hoje é um dia importante para você e estaremos lá para aplaudi-lo de pé.

O guri tomou um susto tão grande com a resposta gentil que nem soube o que dizer. Ficou até vermelho. Que meigo! Hahaha ... Mas não vem pro meu lado! Se o Pezão disser coisas bonitas e simpáticas pra mim eu chuto o saco dele. Não vem com esta veadagem pra cima de mim!

Pezão ao volante e o guri ao seu lado. Atrás: Maura num canto, a Nari no meio e eu no outro canto.

E a viagem começa.

Nada de Pezão acelerar e sair queimando os pneus. Ele saiu de boa. 

Putz! Esta viagem está com cara de que vai ser um porre.

— Quando iremos voltar? — perguntei, só por curiosidade.

— Amanhã — respondeu o guri.

— Ah, tão cedo?

— Aquele clima gelado me faz muito mal, eu começo a espirrar e não paro mais.

— Porra.

— Vocês dizem muitos palavrões — disse a Nari, é claro.

— Desculpa.

— Por que vocês não entram para o nosso grupo?

Cada um disfarçou como pôde, e no final ninguém respondeu que sim nem que não. De repente Pezão quebrou o silêncio.

— Foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida. Estou vendo tudo de forma tão clara.

— Está vendo tão bem que agora há pouco você quase atropelou um casal de velhinhos — disse o guri.

— Não era a hora deles.

— Como você sabe?

— Eu não os atropelei, portanto ... não era a hora deles. Simples assim.

— A vida é simples — completou a Nari. — , vocês é que complicam demais.

Silêncio por alguns instantes.

— A Montanha já contou pra vocês que ela tem o dom de prever o futuro?

— É verdade isso? — perguntei, aproveitando para colocar minha mão esquerda sobre a perna dela.

— Sim, às vezes eu tenho algumas visões — ela respondeu, removendo gentilmente a minha mão da sua perna.

— Que incrível! — disse a Maura. — E como são estas visões? Tipo um filme no cinema?

— Mais ou menos. Algumas visões são tão reais que eu tenho a impressão de estar presente no local. É bem assustador.

O guri colocou a cabeça entre os bancos da frente e perguntou para a Nari:

— E você teve alguma previsão que se concretizou?

— Sim, várias.

— Fenomenal — disse Pezão. — , vocês não acham?

— Bobagem — disse a Nari. — , além disso eu ainda estou aprendendo a lidar com estas visões.

— O que você já acertou? — prosseguiu o guri.

Caralho, o moleque nem pisca. Será que arranjamos mais um concorrente? Era só o que nos faltava, mais um com tesão pela Montanha-Russa, quero dizer, Nari.

— Quando eu tinha 10 anos eu vi os aviões derrubando o World Trade Center.

— Caralho!!! — eu disse.

— Com 10 anos? — disse a Maura. — Quanto tempo faz isso?

— Tem uns 9 anos.

Nossa, então a Nari só tem 19 aninhos? UAU! Mas parece mais velha. Acho que é por que ela sorri muito pouco.

— Putz grila! — disse o garoto, fascinado. — Conta mais, conta mais!

— Ah, eu não gosto de ficar falando sobre isso.

— Ah, só mais uma! Conta!

E Nari acabou cedendo aos apelos do pirralho.

— Eu também vi as ondas gigantes devastando a Ásia.

— Tsunami — disse o garoto.

— Isso.

Senti uma tristeza muito grande na voz da Nari.

— Meu, mas você só prevê desgraça??? — perguntou a Maura.

— Infelizmente sim.

— Que legal! — disse o guri. — Eu queria saber fazer isso também.

— Não fale assim, é terrível. Eu daria tudo pra que isso parasse.

Daria tudo? Opa! Hehehe ... Meu, fala sério ... eu não presto ... nem pra trocar lâmpada.

— Você também previu o furacão Katrina? — perguntou o guri.

Neste momento Pezão puxou o irmão pela orelha e pediu para ele ficar quieto no lugar dele.

— Porra, o que deu em você? — reclamou o guri, puto da vida. — Eu perguntei pra ela, não pra você!

— Vamos mudar de assunto — disse o Pezão.

— Concordo com o Cumbuca — disse Nari.

O guri colocou a cabeça novamente entre os bancos e perguntou mais uma vez:

— Você viu, não viu? Seus olhos dizem tudo.

Nari começou a chorar. Pezão parou o carro imediatamente no acostamento.

— Viu só o que você fez? — gritou ele para o irmão.

— Mas eu só fiz uma perguntinha de nada! Era só responder sim ou não.

— Vocês não sabem de toda a história por trás disso, gente. Deixem-na em paz, por favor. Eu nem deveria ter tocado neste assunto.

Enquanto isso eu aproveitei para consolar a pobre coitada.

Maura ficou possessa comigo. Ela me olhava com raiva e inveja ao mesmo tempo.

— Calma, não chora — eu repetia no ouvidinho da Nari, acariciando seus cabelos.

Putz! Ela pode ser bonitona e gostosa, mas seus cabelos são meio sebosos. Só falta ela me dizer que passa mijo também. Não, acho que não chega a tanto.

Pezão engatou a primeira e voltamos para a estrada. Aos poucos Nari foi voltando ao normal.

— Obrigada, Nando — disse ela, limpando o rosto molhado.

— De nada, meu anjo.

Do outro lado a Maura fazia caretas para mim, morrendo de inveja.

De repente uma voz muito esquisita e conhecida invadiu nossos ouvidos. Pensei que estava ouvindo fantasmas, mas é claro que não eram fantasmas, era um CD.

— Vamos fazer silêncio e ouvir o mestre — disse Pezão.

Claro, era a voz do Mestre dos Magos, e dizia:

"Cultive a plantinha irradiante de amor que existe dentro de você, liberte o seu corpo das tentações tentadoras do fornicamento carnal do satanás"

... e bla bla bla bla ... Babalu Cósmico alguma coisa ... bla bla bla bla ...

— Meu, desliga esta porcaria aí, oh! — gritei.

— Fala sério, São Maurício! — gritou a Maura.

— Silêncio! — gritou Pezão. — Ouçam o mestre!

— O mestre o escambau! Desliga esta porra agora mesmo! Comeu cocô?

Nós azucrinamos tanto a cabeça do Pezão que ele acabou tirando o CD. UFA!

Foi até um alívio quando o silêncio voltou.

— Coloca Foo Fighters aí, meu! — disse a Maura.

— Ou liga o rádio mesmo — eu disse. — , qualquer coisa, menos aquilo.

Mas Pezão não fez nem um nem outro. Então ficamos no silêncio.

— Cadê os seus CD's? — perguntou o guri, fuçando pelo carro.

— Joguei tudo fora — respondeu Pezão. — Todos os meus CD's antigos evocavam o Satanás Fornicador que existe dentro de mim.

Satanás Fornicador? Não resistimos e caímos na gargalhada. Claro, nem todos. Nari estava séria, como sempre.

De repente, enquanto nos divertíamos às custas do Pezão, ela disse algo:

— Quando eu era bem pequena eu tive um sonho terrível. 

— Deixa pra lá, Montanha — disse o Pezão, sério.

O guri colocou novamente a cabeça entre os bancos, curioso.

E Nari prosseguiu:

— Não se preocupe, Cumbuca, eu quero contar. Eles têm o direito de saber.

— Mas que segredinho é este entre vocês? — perguntou a Maura.

— Não é um segredo só entre nós dois, todos do nosso grupo já sabem. Mas eu não gosto de contá-la por que eu sempre deixo as pessoas muito assustadas.

— Conta logo! — disse o guri, quase babando.

Capítulo 8 · Enfim, Campos do Jordão

— Quando eu era bem pequena eu tive um sonho terrível. 

— Deixa pra lá, Montanha — disse o Pezão, sério.

O guri colocou novamente a cabeça entre os bancos, curioso.

E Nari prosseguiu:

— Não se preocupe, Cumbuca, eu quero contar. Eles têm o direito de saber.

— Mas que segredinho é este entre vocês? — perguntou a Maura.

— Não é um segredo só entre nós dois, todos do nosso grupo já sabem. Mas eu não gosto de contá-la por que eu sempre deixo as pessoas muito assustadas.

— Conta logo! — disse o guri, quase babando.

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Silêncio total dentro do carro. Nari respirou fundo e começou a nos contar:

— Eu tinha só oito anos de idade quando tive este sonho devastador, e até hoje sou assombrada por ele. O sonho foi tão real que eu acordei em estado de choque. Se meus pais não tivessem acordado com os meus gritos e me levado imediatamente para o hospital eu não estaria aqui para contar esta história.

— Cruz credo, menina! — disse Maura, jogando a mão boba no joelho de Nari.

— Você faz suspense demais, oh! — disse o guri, sem piscar. — Conta logo o que você viu no sonho!

Os olhos de Nari encheram-se de lágrimas, mas antes que a primeira gota escorresse pelo seu rosto ela prosseguiu:

— Eu vi todos os tipos de desastres naturais possíveis e imagináveis, e havia uma voz que ia narrando tudo o que estava acontecendo. Era a voz mais horrível que eu já ouvi. Só de lembrar eu já me arrepio toda.

— Você sonhou com o Cid Moreira dando uma notícia no Jornal Nacional, filha! — disse a Maura, ainda com a mão boba no joelho da mina.

Ninguém achou muita graça. A Nari muito menos.

— Não era a voz do Cid Moreira — disse a Nari, agora chorando. — E eu sei exatamente o que sonhei. Eu vi o fim do mundo.

— E como você sabe disso? — perguntei.

— A voz assustadora me disse. 

— Mas tem alguma coisa errada — disse o guri. — Você ficou abalada e chorou quando eu mencionei o furacão Katrina. Mas o mundo não acabou com o Katrina.

— Pois é aí que entra a parte assustadora.

Caralho, ela disse de um jeito tão sério que deu um certo cagaço.

E a porra da Maura continua com a mão no joelho dela. Biscate sem-vergonha, só podia ser irmã do Pezão mesmo.

Nari prosseguiu:

— A voz me disse que o fim dos tempos viria com a chegada do Kaká.

Putz! Agora todo mundo dentro do carro caiu na gargalhada. Bom, todos menos a Nari e o Pezão. Este último estava concentradíssimo ao volante, acho que nem ouviu o que a Nari disse.

— Kaká? — disse o guri, rindo feito uma hiena com infecção pulmonar. — Mas o que o coitado do Kaká tem a ver com isso? O cara está lá na Itália jogando futebol.

— Kaká é aquele bonitinho que jogava no São Paulo? — perguntou a Maura.

— Não é deste Kaká que a Montanha está falando — disse o Pezão, enfim. Então ele estava prestando atenção, né?

— Não é o Kaká da seleção? — perguntei.

— Não — respondeu Nari, super séria, como sempre.

— Então deve ser um apelido que a voz misteriosa deu para o Katrina, né? — completou o guri.

— Também não. Kaká são as primeiras sílabas dos dois furacões que destruirão o nosso planeta.

Silêncio dentro do carro outra vez. De repente o guri perguntou:

— Um deles foi o Katrina, é isso?

Nari não disse nada, apenas balançou a cabeça afirmativamente. Ela estava super estranha, aparentava estar muito cansada, apesar de não ter feito esforço físico algum. Meu, juro pra vocês, olhando pra ela a gente tem a impressão de que ela acabou de correr a São Silvestre. Eu, hein! Sinistro.

Esperei alguns instantes, e perguntei:

— Se o primeiro Ka foi o Katrina, quando e qual será o segundo?

Putz! Pra que fui perguntar isso? A mina caiu aos prantos, e agora feio mesmo, saíam tantas lágrimas de seus olhos que eu cheguei a pensar que era chuva.

— Eu não sei, eu não sei! — repetia ela, várias vezes, desesperada.

Pezão parou o carro outra vez.

— Vocês vão deixar a Montanha em paz ou não? — disse ele. Mas sua voz não demonstrava raiva; era até gentil. Estranho!

Ficamos sem graça. Ninguém disse nada. E Pezão deu a partida novamente.

Com o tempo Nari acalmou-se e a viagem seguiu em paz. Estou começando a me arrepender de ter vindo. Isso aqui está um porre. Estou preso num carro com um monge no volante, um nerd punheteiro, uma biscate que corta pros dois lados, mas que eu já comi e nem foi tãããããão bom assim, e por último a Mãe Dinah cover.

E não sei se vocês notaram, mas as previsões da Nari são meio fora de ordem. Como é que ela prevê o fim do mundo com oito anos de idade e os atentados ao World Trade Center aos dez anos de idade? Não é esquisito? Não deveria ser o contrário? Ah, sei lá! Quem garante que ela esteja dizendo a verdade, né? A mina é bonita, gostosa, tem os peitinhos mais lindos e chupáveis que eu já vi, mas convenhamos, é bem neurótica.

Bom, neurótica ou não, eu quero comer. E a Maura também, é claro. Acharam que eu tinha me esquecido da aposta? Claro que não.

De repente Pezão coloca outra vez aquele maldito CD com o Mestre dos Magos recitando versinhos de sabedoria.

"Amigos e amigas, o nosso mundo é um mundo cheio de coisas mundanas. Esqueçam estas coisas, não precisamos delas para ... "

Na hora eu senti uma vontade imensa de gritar para que ele retirasse aquela porra de CD, mas o clima dentro do carro não estava propício. Acho que os outros também sentiram isso. O guri pegou uma revista pra ler e ficou quieto. Maura colocou fones nos ouvidos e ligou seu discman. Nari continuava com a mesma cara de bunda. Resolvi ficar na minha. Encostei a cabeça no vidro da janela e fui apreciando a bela paisagem. Esta viagem está me dando sono.

Tanto sono que adormeci durante o restante da viagem.

Acordei com um estrondo. Depois do estrondo ouvi:

— Babalu babaloá! — era o Pezão, com as mãos na cabeça.

Estávamos na entrada de Campos do Jordão. O dia ainda estava claro, o relógio do meu celular marcava 15h38. Quando despertei totalmente percebi o que tinha acontecido. O estrondo que me acordou tinha vindo da nossa traseira. Bom, não exatamente da NOSSA traseira, mas da traseira do carro, né? Porra, vocês entenderam, não venham com gracinha.

Olhei para trás e vi um Fiesta vinho com a frente um pouco amassada. Nada sério.

— Não foi sua culpa — disse o guri para o Pezão. — Você freou normal. O imbecil aí de trás é que veio sobre nós.

Pezão saiu do carro e foi ver o estrago.

Putz! Será que agora o Pezão volta a ser o Pezão? Meu, a gente sabe que ele trata este carro melhor do que a própria família, né? Acho que agora ele perde as estribeiras e volta a ser o filho da puta de sempre. Vamos ver? Saltei do carro e fui lá ver a cagada.

Ele passou direto e nem olhou para a traseira do seu carro, foi em direção ao Fiesta. É agora! Aposto que ele vai mandar o motorista enfiar o volante no cu e ....

— Vocês estão bem? — perguntou Pezão, gentilmente.

Caralho!!! Não acredito nisso.

De repente as portas do Fiesta se abriram e ... Puta merda!!!! ... saíram duas morenas gostosas pra caralho. Meu amigo, eu já vi morenas bonitas, mas fala sério!!! Nando Júnior deu até uma beliscada na cueca. A morena que saiu pela porta do motorista chega a ser mais alta do que eu, talvez um metro e noventa de altura. A outra é baixinha, talvez um metro e sessenta e poucos. Apesar da diferença tão grande eu não saberia qual escolher. A altona veste uma calça jeans super apertada, dá até pra ver a marquinha da calcinha. Meu, que delícia! A baixinha está de minissaia preta, uma gracinha. As duas estão usando jaquetas pretas muito elegantes. Aposto como são filhinhas de papai.

— Você é maluco? — disse a altona para o Pezão. Ela estava com a mão direita sobre a testa. Mas não havia sinal de sangue nem nada. Acho que é frescura ou encenação.

— Mil desculpas! — disse Pezão, quase ajoelhando-se diante das gostosas.

— Mil desculpas o cacete! — gritou alguém atrás de mim. Era a voz do guri. — Meu irmão não teve culpa de nada!

Putz! A baixinha ficou uma fera.

— O imbecil do seu irmão não sabe dirigir, moleque!

— Moleque o cacete, sua tampinha de guaraná!

Enquanto isso eu olhava para a marquinha da calcinha da altona. Perdoem-me, mas a mina é muito gostosa. E pra piorar a situação tem olhos azuis. Fala sério, uma morena de olhos azuis? De onde surge isso? Ah, me esqueci, estamos em Campos do Jordão! Este lugar é foda pra dar mulher bonita. Caralho, foda pra dar mulher bonita e foda pra fazer frio também. Putz grila, eu quero a minha blusa!!! Está friiiiiiiiiiiio!!!

— Eu vou pagar pelo estrago no carro de vocês — disse o Pezão para a altona.

— Além de santo ficou burro — esbravejou o guri, antes de voltar para dentro do Corsa, revoltadíssimo.

— Não se preocupe — disse a altona, passando as mãos sensualmente sobre os seus cabelos negros. — A culpa foi minha mesmo.

Porra, foi impressão minha ou a gostosa está dando em cima do Pezão?

— Eu faço questão de pagar — disse Pezão — , eu não devia ter parado daquela forma e ...

A baixinha aproximou-se sorrateiramente e entrou no meio dos dois, dizendo:

— Deixa ele pagar, Meiry! Não seja boba!

Meiry? Sei lá, a altona não tem cara de Meiry. Ela tem um jeitão de Nádia ou ... ah, sei lá!

— Mas a culpa não foi dele, Jaque.

Jaque? Hmmmm ... deve ser de Jaqueline, né? Ah, a baixinha até que leva jeito pra Jaqueline sim. Combina. Meu, a baixinha tem umas pernas violentas, hein! Loucura, loucura, loucura!!! Fiu-fiu!!! A baixinha não tem olhos azuis, mas tem uma boca carnuda maravilhosa.

Puta merda, eu não saberia escolher uma das duas. Páreo duríssimo. A Meiry, altona, parecer ser do tipo romântica e sonhadora, já a baixinha deve ser osso duro de roer, do tipo que numa crise de ciúme é capaz de jogar o celular na sua cabeça. Confesso que ambos os tipos me atraem.

— Claro que foi! — disse a baixinha enfezada.

E Meiry finalmente deu um sorriso, mas para o Pezão. Sortudo filho da puta.

— Está bem — disse ela, colocando a mão direita carinhosamente sobre o ombro do Pezão. — , se você quer tanto me pagar, por que não me paga um jantar hoje à noite?

Puta merda! Olha a Meiry! Romântica e sonhadora o caralho! A mina partiu pra cima. Pezão se deu bem, hein!!! Ah, moleque!!!

Depois dessa eu voltei pro carro. Admito minha dor de cotovelo.

Ah, assim não é justo! O outro vira monge e a mulherada ataca. Eu estou aqui para o que der e vier e a baixinha coxuda nem me olhou. Assim não vale! Minha mãe deve ter comido muito cocô quando estava grávida de mim, só pode ser isso.

A polícia rodoviária apareceu, mas não deu em nada. Os guardas não tiravam os olhos da bunda da baixinha. Bom, quem sou eu pra falar alguma coisa dos guardas, né? Eu também estava babando pela mina.

Uns sete minutos depois o Pezão voltou para o carro, mas não demonstrava felicidade alguma no seu rosto. Meu, só falta ele ter recusado a oferta da morena. Se o babaca fez isso eu chuto o saco dele. Juro que chuto!

— E aí? — perguntei pra ele.

— E aí o quê?

— Combinaram o jantar ou não?

— Não.

Putz!!!

— Chuta o saco do seu irmão por mim, por favor!!! — falei pro guri.

O pirralho caiu na gargalhada, sem entender nada.

— Do que vocês estão falando? — perguntou a Maura.

Resolvi explicar:

— A morena de dois metros ali convidou o seu irmão pra jantar e o bicha recusou.

A Maura olhou pra mim, boquiaberta.

— Sério? — e olhou para o Pezão. — Xiiiiiiiiii, meu irmão, seu Babalu Cósmico é gay? Deixou passar um filé daqueles?

— Ela queria relações carnais comigo — disse Pezão, olhando a irmã pelo espelho retrovisor. — , eu percebi quando ela acariciou os cabelos.

— Mas é claro, seu bosta! — falei, fulo da vida. — Você queria que ela lhe convidasse pra jogar xadrez?

— Sei lá, eu até toparia uma partida.

Putz!!! Ah, ninguém merece!!! Só não me levanto pra chutar o saco do Pezão por que eu chutaria com tanta força que mandaria o filho da puta pra lua.

Nari resolveu abrir a boca, depois de um longo tempo calada. Ela disse para o Pezão:

— Estou orgulhosa de você, Cumbuca. Hoje você provou que a sua purificação realmente foi um sucesso. E fico ainda mais orgulhosa por ter participado ativamente do ritual.

— Muito obrigado, Montanha. Serei eternamente grato por tudo o que você e o mestre fizeram por mim.

E Nari finalmente sorriu, após um longo e tenebroso inverno.

— Depois vocês namoram — disse o guri, meio irritado. — agora eu preciso comer! Estou faminto!

— Eu também — falei. — , e com frio! Quero a minha blusa.

— Vamos procurar um restaurante — disse o Pezão, ligando o carro.

Só espero que a porra funcione, né? Não estou a fim de ficar empurrando, ainda mais com o frio que está lá fora. Oh, cidade fria da porra! Bom, mas é por isso que a gente gosta, né?

E o Corsa pegou. Ufa!

— Nada de restaurante vegetariano, hein! — disse a Maura.

— Por que está olhando pra mim? — disse Pezão, encarando a irmã pelo espelho retrovisor.

— Sei lá, vocês não xingam, não peidam, não bebem, não fumam, não trepam, não fazem porra nenhuma! Acho que também não devem comer carne, né?

— Muito pelo contrário — respondeu a Nari. — Eu adoro carne! O mestre nos ensinou a comer de tudo. Se a vaca existe é para virar comida mesmo. Que outro objetivo na vida teria a vaca a não ser fornecer carne e leite para nós?

— A vaca é um animal sagrado para algumas culturas — disse o guri.

— Eu respeito. Mas entre uma vaca e um hambúrguer, eu fico com o hambúrguer.

— Porra, agora fiquei com mais fome ainda!!!

Tinha alguém seguindo o nosso carro. Sim, era o Fiesta das morenas tesudas. 

Bom, ou elas estão nos seguindo ou indo coincidentemente para o mesmo lugar, né? Eu fico com a primeira hipótese. O que será que elas querem?

Um ménage à trois cairia bem neste friozinho, vocês não acham? Hehehe ...

Capítulo 9 · Xiiiiiiiiiiiii!!!

Tinha alguém seguindo o nosso carro. Sim, era o Fiesta das morenas tesudas. 

Bom, ou elas estão nos seguindo ou indo coincidentemente para o mesmo lugar, né? Eu fico com a primeira hipótese. O que será que elas querem?

Um ménage à trois cairia bem neste friozinho, vocês não acham? Hehehe ...

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— Vamos parar pra comer ou ficar dando voltas no quarteirão? — resmungou o pirralho.

— Paciência, meu irmão, paciência — disse Pezão. 

O cara está virando monge mesmo, até o jeito de falar mudou completamente.

Olhei novamente para trás e lá estavam elas, as gostosas do Fiesta. Agora não tenho a menor dúvida, elas estão mesmo nos perseguindo.

E Pezão finalmente parou o carro. Estacionamos de frente para uma churrascaria.

— Você bebe, Nari? — perguntou a Maura.

— Bebida alcoólica? — pelo tom de voz já deu pra perceber que deve ser pecado mortal. — Nem pensar!

— Credo, menina! Não sabe o que está perdendo.

— Provavelmente nada. O álcool altera o seu Babalu Cósmico.

— Claro que altera — eu disse, sorrindo. — , mas a graça é justamente esta!

— Não vejo a menor graça em perder o controle sobre o meu Babalu. É muito perigoso.

O pirralho desceu do carro, impaciente. Pezão desceu logo em seguida.

— Você já perdeu o controle sobre o seu Babalu alguma vez? — perguntei.

Nari não gostou muito da brincadeira. Ela olhou feio pra mim e disse:

— Engraçadinho você, não? 

Maura, muito filha da puta, aproveitou o momento pra ganhar pontos. Pegou Nari pelo braço e a puxou para fora do carro, gentilmente.

Fui o último a descer do carro. Quando fui fechar a porta quase fui atropelado pela porra do Fiesta!

— Oh, se liga! — gritei para a biscate. Meu, fiquei muito puto.

Meiry, a altona, estacionou e olhou para mim. Ela estava usando uns óculos escuros super estilosos, daqueles que não saem por menos de duzentos reais.

— Você não olha por onde anda? — gritou a biscate.

Fiquei ainda mais puto. A filha da mãe passa tirando lasca do meu traseiro e ainda quer pagar uma com minha cara? Ah, fala sério! Ainda bem que eu curti a outra, a baixinha coxuda.

— Vem, Nando! — era o pirralho, gritando da porta da churrascaria.

Enquanto eu caminhava na direção do pirralho vi a baixinha descendo do Fiesta. Meu, que pernas! Quanta carne! A churrascaria perdeu até a graça diante daquelas coxas grossas.

— A baixinha é um tesão, você não acha? — falei pro guri.

— Aquele chaveirinho ali? — respondeu ele, fazendo cara de desgosto.

— Olha quem fala! Você é muuuuuito alto, né?

— Mas pelo menos eu sei que vou crescer. Já aquela tampinha de guaraná vai morrer daquele tamanho.

Comecei a rir feito uma hiena se afogando no Mar Vermelho. Depois eu disse:

— As baixinhas são ótimas na cama, guri.

— Sei lá, pode ser.

E ele correu em direção aos talheres. Caramba, o moleque está mesmo com fome. Quase derrubou dois garçons que passavam por ele.

Pezão e Maura já estavam se servindo. Nari parecia meio perdidona, acho que ela não gostou muito do local. Aquele monte de gente enchendo a cara parecia irritá-la um pouco.

— Não vai comer? — perguntei, passando por ela.

— Daqui a pouco. Estou desintoxicando.

Como é que é? Desintoxicando?

— Não entendi.

— Este lugar está cheio de Babalus infectados, Nando. Os nossos Babalus são como esponjas, absorvem tudo o que está ao nosso redor. Um lugar como este pode ser muito perigoso.

— Não entendo como uma simples churrascaria pode ser tão perigosa assim.

— Não tem nada a ver com a churrascaria. Eu sinto presenças negativas aqui, é isso.

E Nari olhou assustada para um senhor barbudo sentado num canto. Depois de observar o homem por alguns segundos ela olhou novamente para mim, dizendo:

— Está vendo aquele homem de barba comprida?

— Feio pra caralho.

— Evite palavrões, Nando! Isso é ruim para o seu ...

— Já sei, já sei ... agora me diz ... o que tem o barbudo?

Ela engoliu seco, aproximou-se de mim e sussurrou no meu ouvido:

— Ele acabou de estuprar duas mulheres.

Caralho!!! Galera, tomei um susto tão grande que quase derrubei uma pilha de pratos. Devo ter ficado tão branco que vi algumas pessoas olhando assustadas para mim.

— Como é que é? — falei baixinho, é claro. — Aquele barbudo feio acabou de estuprar duas mulheres? Mas como você sabe disso?

— Da mesma forma que você sabe que ele tem barba.

— Não entendi. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu estou vendo a barba dele, é muito diferente de acusar o coitado de ser estuprador.

— Justamente, Nando, eu também vi — e Nari começou a olhar para as mesas. De repente ela parou os olhos numa moça loira com um vestido azul. — Está vendo aquela linda mulher sentada sozinha?

— Linda mesmo. Ela também é estupradora?

— Não.

— Ah, sacanagem! Eu estava pensando em me oferecer como próxima vítima.

— Não fala assim! Isso atrai coisas ruins para o seu Babalu Cósmico, Nando!

— Entendi. Mas vai me contar o que a loira fez de ruim ou não?

— Ela veio até esta churrascaria em busca de uma próxima vítima.

— Demorou então! Eu, eu, eu, eu!!!

Se vocês vissem o naipe da loira também iriam se oferecer. Linda, e estava sozinha! A cuecada toda da churrascaria não tirava os olhos de cima dela, é claro.

— Está vendo aquele carro preto parado em frente àquele bar ali? — disse Nari, apontando para um Opala preto, estacionado do outro lado da rua.

— Sim, estou vendo.

— Aquele carro pertence ao namorado da loira.

— Que pena, ela tem namorado?

— Sim, o namorado dela é o terceiro assassino mais procurado de Pernambuco. E juntos eles já cometeram mais de vinte assassinatos. A loira está aqui na churrascaria esperando a próxima vítima. Alguém que jamais retornará pra casa novamente.

Quando olhei para a mesa da loira vi um coroa boa pinta sentando-se ao seu lado. Provavelmente jogando uma cantada idiota.

— Pronto — disse Nari, triste. — , ela já achou sua próxima vítima. Será a vigésima oitava. Sim, isso mesmo, a vigésima oitava, acabei de ver em minha mente.

— Vocês vão ficar aí o dia todo? — era o guri. Meu, que susto!

— Caralho, meu! — falei, assustado.

— Sobre o que estão conversando?

— Já estamos indo — respondi, nervoso.

E o moleque voltou para a mesa. Nari e eu decidimos pegar nossos pratos e nos servirmos, afinal de contas já estava ficando estranho nós dois ali cochichando no meio da churrascaria.

Enquanto pegava o arroz vi a loira e o coroa deixando a churrascaria. Olhei imediatamente para Nari, ao meu lado, e disse baixinho para ela:

— Você tem certeza do que me contou?

— Absoluta.

— E não vamos fazer nada para salvar aquele homem?

— É o destino, Nando, não podemos influenciar no destino das pessoas.

— Destino uma ova! O coroa tem uma pinta de quem tem muita grana. Se a gente salvar o cara pode até pintar uma recompensa!

— Pior ainda, você quer influenciar no destino dele e ainda lucrar com isso?

— Claro, mina.

— Nando, sinto muito em lhe informar, mas seu Babalu Cósmico é muito afetado.

E soltei uma gargalhada rápida, a churrascaria toda olhou para nós.

A loira e o coroa desapareceram da churrascaria. Olhei para o outro lado da rua e notei que o Opala preto também desaparecera. Sinistro, hein! Bom, talvez seja apenas coincidência.

Finalmente nos sentamos para comer. O guri estava sentado ao lado de sua irmã. Pezão não estava com eles.

— Ué, cadê o seu irmão? — perguntei para o guri.

Maura apontou para uma mesa a uns oito metros da nossa. Pezão estava sentado com Meiry e Jaque. Filho da puta sortudo do caralho!!! Será que ele vai comer as duas e nem vai me convidar? Putz, esqueci que ele virou monge, é mais fácil ele fugir das duas e ninguém comer ninguém. Ou pior, se bobear a Maura ainda chupa as duas.

Sentei-me, enfim.

— Vocês demoraram, hein! — disse a Maura — Já marcaram a data do casamento?

— Sim, semana que vem — falei, tentando provocá-la ainda mais.

O garçom veio até a mesa. Eu pedi cerveja, Nari pediu uma laranjada.

— Sério, sobre o que vocês tanto conversavam? — insistiu a Maura.

Nari olhou pra mim e eu logo percebi o que ela queria: discrição.

— Eu estava contando pra ela como o seu irmão está mudado — falei.

Fui rápido, hein! Mentir é comigo mesmo. Sempre fui bom.

— Mudado? — disse o guri, rindo. — Eu tenho a impressão de que ganhei outro irmão. Aquele ali não é o Pezão.

— Lembram do filme O Exorcista? — disse a Maura, em voz alta. — O Pezão está parecendo a menininha no final do filme, quando o demônio foi expulso. Igualzinho!

— Boa comparação — falei, rindo muito e quase engasgando com a comida.

Nari estava séria, como sempre.

— Não vou negar para vocês, o Cumbuca tem um passado terrível mesmo.

— Bota terrível nisso!!! — falei.

E Nari me olhou estranho, de uma forma como ela nunca tinha me olhado antes. Ela me olhou da mesma forma que o Mestre dos Magos me olhava lá na cozinha da casa do Pezão. Não gostei, é assustador.

— O que foi? — perguntei pra ela.

— O seu passado também não é dos mais belos.

— Ah, nem tanto, Nari. Não exagera.

Ela continuou me olhando daquele jeito estranho, como se estivesse tentando ler meus pensamentos. Muito esquisito, muito esquisito!!! Isso está me dando nos nervos.

— Quando eu olho pra você eu vejo um nome de um lugar — disse ela, ainda me encarando. — , mas não consigo decifrar qual é.

Eu, hein! A Montanha-Russa é muito esquisita, vocês não acham?

Mas eu ainda comeria. De quatro, de ladinho, papai-mamãe, como vocês quiserem.

Após terminar o meu prato decidi dar uma bisbilhotada no Pezão e as duas gostosas.

— Seu amigo é sempre assim? — perguntou a Meiry, a filha da puta que quase me atropelou.

Em outras situações eu teria respondido: "Sim, o filho da puta já nasceu deste jeito".

Mas hoje ...

— Assim como?

— Ele é o cara mais tímido e fofo que eu já vi! — disse a baixinha.

Porra, a minha baixinha??? Ah, fala sério!!! Pezão filho da puuuuuuuuuuuuuuta!!!

Sentei-me com eles, bem do lado da baixinha. Mas ela nem me olhou direito.

— Não sou tímido — respondeu Pezão, falando baixinho e calmamente.

— Ele bateu com a cabeça — falei, sério.

— É mesmo? — disse a Meiry, espantada. — Ai, tadinho!!!

E a morenaça sentou-se mais perto do Pezão. Este ficou totalmente desconfortável, eu quase notei sofrimento em seus olhos. Ah, fala sério!!! Será que o Pezão virou uma bichona enrustida? Não é possível uma morenaça gostosa daquelas se debruçar sobre o cara e ele fazer cara de quem peidou debaixo do cobertor e não conseguiu colocar a cara pra fora.

Realmente, aquele ali não pode ser o Pezão. Concordo com o guri, alguém deve ter raptado o irmão dele e colocado um robô no lugar. Um robô gay.

— Não é verdade — disse Pezão. — , não bati a cabeça em lugar algum.

— Porra, então você comeu cocô!!!

Caralho, falei tão alto que a churrascaria inteira olhou para a nossa mesa. Tudo bem que não tinha mais quase ninguém na bagaça, mesmo assim fiquei sem graça pra caralho.

Pior de tudo foi a baixinha. Ela olhou estranho pra mim e disse:

— Você é bem esquisito, sabia?

— E você é bem gostosa, sabia?

E vocês acreditam que a baixinha me virou um tapão nas fuças?

Tampinha de guaraná filha da puta de uma figa! Doeu pra caralho. Ela acertou em cheio mesmo. Vi até estrelas.

— Pra que violência, Jaqueline? — disse Pezão.

— Odeio caras folgados! — disse a baixinha, olhando furiosa pra mim. — Você precisa aprender muito com o seu amigo. Ele sabe como tratar uma mulher.

Putz!!! O que foi que ela me disse? Eu devo aprender com o Pezão como tratar uma mulher? Meu, esta foi boa. Será que eu conto pra elas o dia em que o Pezão comeu uma pé-vermeio num parquinho abandonado, roubou as roupas dela e deixou a coitada pelada no escorregador? E a vez em que ele convidou uma guria pra sair e ao chegar à casa dela viu que a irmã era mais gostosa e resolveu convidá-la em seu lugar?

Meu, eu poderia passar horas contando histórias absurdas como estas, mas Time is Money!

Levantei-me e, por incrível que pareça, Pezão veio junto comigo.

— Você está bem? — perguntou ele, colocando a mão direita no meu ombro.

Calma, não teve nenhuma boiolagem. Senti que foi sincero e amigo, coisa que eu nunca tinha visto no Pezão em todos estes anos.

— Estou bem pra caralho — respondi, ainda com o rosto dolorido. A filha da puta da baixinha deve praticar boxe, sei lá.

— Eu te ligo mais tarde — disse a Meiry para o Pezão.

— Tudo bem — respondeu ele, com um sorriso meio amarelo.

E voltamos para o carro. Maura, o guri e Nari já estavam lá nos esperando, impacientes.

— O que vocês combinaram para hoje à noite? — perguntei para o Pezão, logo quando entramos no carro.

— Nada.

— Nada? Ouvi a barbeira dizer que vai te ligar hoje à noite.

— Vai tentar a noite inteira então, pois eu passei o telefone errado.

Putz!!! Ninguém merece.

De repente todos nós tomamos o maior susto da viagem. Nari dá um grito do nada:

— Ubatuba!

— Credo, Nari!!! — resmungou a Maura. — O que foi isso? Quase me mata de susto, menina!

E Nari olhou pra mim, dizendo:

— Descobri o lugar que surge em minha mente quando olho pra você: é Ubatuba!

Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Capítulo 10 · Dinheiro Atrai Dinheiro

De repente todos nós tomamos o maior susto da viagem. Nari dá um grito do nada:

— Ubatuba!

— Credo, Nari!!! — resmungou a Maura. — O que foi isso? Quase me mata de susto, menina!

E Nari olhou pra mim, dizendo:

— Descobri o lugar que surge em minha mente quando olho pra você: é Ubatuba!

Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

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Caralho, o que será que esta maluca viu?

— Ubatuba? — falei, fingindo surpresa.

— Sim, vejo que o seu passado está muito ligado a este lugar.

— Grande coisa! — falei em tom de deboche. — Aposto que todo mundo aqui já foi pra Ubatuba pelo menos uma vez na vida.

De repente Nari fechou os olhos. Percebi que Pezão ficara um pouco nervoso. Aposto que ele está morrendo de medo da Nari descobrir tudo sobre Ubatuba. Bom, pra ser sincero eu também estou um pouco apreensivo.

Pra que mentir? Apreensivo nada, estou com um puta cagaço mesmo.

E Nari finalmente abriu os olhos, dizendo:

— Tem outra pessoa aqui dentro deste carro com uma ligação muito forte com aquela cidade. Mas não consigo ver quem é.

Quase olhei para o Pezão, mas seria a mesma coisa que entregá-lo. Fiquei imóvel.

— Do que vocês estão falando? — perguntou o guri.

Nari olhou para mim, depois voltou a atenção para o guri e respondeu:

— Estou muito cansada, devo estar falando besteira.

— Deve ter comido cocô — falei. — A única coisa que eu me recordo de Ubatuba foi uma vez que eu fui lá e tracei uma pé-vermeio dos infernos.

— Foi tão bom assim? — perguntou a Maura, rindo.

— Porra nenhuma! A mina tinha um cê-cê tão fedorento que impregnou no meu corpo. O maldito cheiro só saiu de mim depois de uma semana. Não gosto nem de lembrar.

Esta história aconteceu mesmo, mas não foi em Ubatuba.

Estou preocupado, eu acho que a Nari descobriu alguma coisa sobre Ubatuba. O jeito como ela me olhou foi muito estranho. Bom, ainda bem que ela disfarçou e não contou nada.

E agora, o que será que ela viu? Será que viu tudo? Putz ... agora fiquei grilado.

— Pra onde vamos agora? — perguntou a Maura.

— Quando será a premiação mesmo? — perguntou Pezão para o pirralho.

— Falta muito tempo. No meu convite diz 21h30.

— Não deu nem cinco e meia da tarde ainda — falei. — O que faremos até lá?

— Vamos procurar um hotel — disse o Pezão.

— Hotel? — resmungou a Maura. — Ah, eu não vim pra Campos do Jordão pra ficar presa dentro de um hotel assistindo TV.

— Então eu não sei ...

De repente alguém dá duas batidas leves no vidro do carro. Era Meiry, a biscate que quase me atropelou. Pezão abaixou o vidro pra falar com ela.

— Oi, gato, está perdido em Campos? — disse a Meiry.

Pezão hesitou um pouco em responder. Maura respondeu por ele:

— Não sabemos pra onde ir. Tem alguma sugestão?

A mulher-girafa encolheu-se e procurou de onde tinha vindo aquela voz.

— Estou indo para a casa dos meus pais — disse ela. — Venham comigo.

— Agradecemos muito o seu convite — disse Pezão. — , mas nós temos que ...

— Lá tem lareira, piscina aquecida e ...

— Meu, demorou!!! — falou o guri, empolgadaço.

A biscate sorriu, depois olhou para o Pezão.

— Venham!!! Será bem divertido, eu prometo.

Ficamos todos olhando para o Pezão. São Maurício demorou pra tomar a decisão, mas acabou cedendo.

Meiry passou com seu Fiesta vinho e Pezão foi atrás.

Fala sério, mulher quando quer dar é igual touro bravo: ninguém segura. O único problema dela é que o Pezão virou monge, né? Agora a única coisa com a letra "B" que ele pensa é Babalu Cósmico, se é que vocês me entenderam. Eu ainda prefiro aquelas outras ... hehehe.

Caralho, os pais da mina devem morar no céu ou na puta que pariu. Ela não pára de subir. Já estamos subindo um morro faz quase vinte minutos. E o pior é que quanto mais a gente sobre mais frio faz.

— A morena está apaixonada por você, mano — disse a Maura para o Pezão.

— Ela só quer uma coisa comigo — respondeu ele, todo sério.

— Suponhamos que ela tire a roupa e venha peladinha pra cima de você — disse o pirralho. — O que você vai fazer? Vai fugir? Vai gritar por socorro?

— Isso não vai acontecer.

Começamos a rir, exceto Pezão e Nari, é claro.

— Não conte muito com isso, mano — falou a Maura. — , eu conheço mulher, vi o jeitão que ela olha pra você. Aposto que ela já está fantasiando vocês dois nus diante da lareira.

Pezão ficou nervoso, percebi suas mãos apertando o volante com muita força.

— Pára com isso, Maura.

Mas ela prosseguiu:

— Garanto pra você que ela já está toda molhadinha.

Pezão parou o carro no acostamento e olhou para a irmã, furioso. Já fazia tempo que eu não via aquela expressão de fúria em seu rosto. Vi o velho Pezão outra vez.

— Olha aqui, sua ...

Nari interveio a tempo:

— Calma, Cumbuca!!! Respire fundo, respire fundo!!! Pense nas suas plantinhas!!! Pense nas nuvens branquinhas lá do céu!!! Pense no som da cachoeira em noite de lua cheia!!! Pense no coaxar dos sapinhos verdes!!! Pense nas formiguinhas trabalhando!!! Respire fundo, Cumbuca!!!

E Pezão atendeu aos pedidos desesperados da Nari. Sua expressão enfurecida deu lugar a um rosto calmo e sereno. O velho Pezão transformou-se no São Maurício outra vez.

— Perdoe-me — disse Pezão. — Quase perdi o controle do meu Babalu.

— Não se preocupe, Cumbuca — disse Nari. — , assim que descermos do carro vou lhe ensinar uma técnica infalível para o seu auto-controle. Isso não vai se repetir jamais.

Bom, já deu pra perceber que o Pezão é muito mais vulnerável que a Nari. Resumindo: é mais fácil a morena conseguir dar para o Pezão do que eu fazer a Nari dar pra mim.

De repente ouvimos gritos, vinham do Fiesta, uns quarenta metros à nossa frente. Meiry com o cabeção pra fora do carro, berrando:

— O que houve? Vocês estão bem?

Pezão desceu o vidro da janela e esticou o braço para fora, fazendo sinal de positivo com a mão. Um vento super gelado entrou pela janela. Meu corpo todo estremeceu. Nunca senti tanto frio na minha vida.

E voltamos para a estrada. Pezão fechou a janela rapidamente, antes que todos virássemos picolés humanos. Eita lugarzinho frio da porra!!! Imagine fazer xixi neste lugar! O cara vai mijando e de repente o mijo vira um tubinho de gelo amarelo.

Quatro minutos depois o Fiesta parou diante de um portão enorme. A altona e a baixinha coxuda desceram do carro. Pezão parou logo atrás do Fiesta.

— Chegamos — disse Meiry, sorrindo.

Pezão desceu o vidro. Novamente o vento gelado entrou e quase congelamos.

— É bem distante do centro, hein! — disse o Pezão.

— Um pouquinho só — e Meiry deu uma piscada para o Pezão. O que me dá raiva é que ela é gata demais. Não acredito que o Pezão esteja fazendo cu-doce com um tesão como este. — Vou abrir o portão, aguarde só um segundinho.

— Tudo bem.

Meiry foi até a lateral do portão e enfiou uma chave numa caixinha branca. Ao girar a chave a caixinha se abriu. Dentro da caixinha havia uma espécie de teclado. Meiry digitou algumas teclas e de repente o portão começou a se abrir. Caralho, parece até coisa de James Bond.

Ficamos todos admirados, pra não dizer embasbacados.

Do outro lado do portão havia uma casa belíssima e um jardim daqueles que a gente só vê em filmes americanos.

— Caraaaaaaaaaaaalho! — sussurrei, maravilhado com a cena. Pobre é foda.

— Faz um favor pra mim, mano — disse o pirralho. — Casa com ela!!!

Meiry veio até nós outra vez.

— Vamos entrar — disse ela. — , está muito frio aqui fora.

E foi o que fizemos. Logo quando ultrapassamos o portão este começou a fechar-se sozinho. Talvez Meiry tenha usado algum controle-remoto ou sei lá. Rico inventa cada uma, né? Eu só sei que isso aqui está bonito demais para ser verdade. Parece que estamos todos sonhando. Porra, não é justo! Por que a altona não foi gostar de mim? O Pezão já é rico, não precisa disso aqui.

Droga, aquele ditado é verdade mesmo: Dinheiro atrai dinheiro.

Tomar no cu, viu? A vida é injusta. Eu sei que dinheiro não traz felicidade, mas manda buscar.

— Será que os pais dela são famosos? — perguntou a Maura. — Eu acho que já vi esta casa na revista Caras uma vez.

— Famosos eu não sei — falei. — , mas são milionários.

— Pessoas famosas ou ricas são iguais a todo mundo — disse Nari. — , o que conta é o Babalu Cósmico da pessoa, isso é o que interessa.

Meiry parou o carro diante de um portão de madeira. De repente o portão começou a subir, revelando uma bela e ampla garagem. Acreditem ou não, vi uma Harley-Davidson lindíssima num canto. A moto atraiu os olhares de todos nós.

Pezão estacionou bem ao lado da Harley.

Desci do carro e fui imediatamente contemplar a moto. Nem me lembrei do frio.

— Lindona, né? — disse Meiry, vindo ao meu encontro.

— Ahã. É sua?

— Não. É do meu pai. Ele tem mais ciúme dela do que de mim.

— Como você é exagerada, Me! — disse Jaqueline, a baixinha coxuda.

Só de ouvir sua voz lembrei-me do tapão que ela me deu. Tampinha de guaraná dos infernos.

— A casa de vocês é linda, hein! — disse a Maura.

— Obrigada — respondeu a Meiry. — Agora vamos entrar, minhas pernas estão congelando.

Claro, olha só o tamanho das pernas da mina! A Meiry é tão alta que parece jogadora de basquete. Nunca vi uma mulher tão grande na minha vida.

O interior da casa era tão bonito quanto o lado de fora. Havia quadros e mais quadros pendurados nas paredes. Eu não entendo absolutamente nada de arte, mas confesso que achei os quadros horrorosos. Meus irmãos fariam rabiscos mais bonitos.

Os móveis eram antigos, mas de uma conservação impecável, senti-me dentro de um museu. Os pais da morena devem ser realmente muito ricos.

— Seus pais moram aqui? — perguntou o guri.

— Não, eles moram em Belo Horizonte.

— E hoje eles estão lá ou aqui? — perguntou a Maura.

— Estão lá. Depois que minha mãe adoeceu eles raramente vêm pra cá. Eu venho sempre que posso, adoro esta cidade.

De repente senti algo vibrando na calça. Calma, gente, é só o meu celular. Vocês só pensam em sacanagem, hein!

O identificador de chamadas está mostrando o número lá de casa. O que será que houve? É raro ligarem pra mim.

— Alô — atendi.

— Onde você está, Fernando?

É a minha mãe. Xiiiiii. Fernando? Ela deve estar furiosa comigo.

— Estou em Campos do Jordão, mãe. Esqueceu?

— O que você fez para os seus irmãos, hein?

— Eu? Como assim? Eu não fiz nada!

— Fez sim, Fernando! Desembucha!

— Mas o que houve com eles?

— Os dois não abrem a boca pra nada! Ficam o dia todo sentados, quietos, olhando pro meio das pernas. Já estou quase chamando um psiquiatra.

Putz!!! Não acredito!!! Agora que caiu a minha ficha. Eu quase comecei a gargalhar, mas minha mãe ia suspeitar de mim. Segurei a risada e falei:

— Eu juro que não fiz nada, mãe. Mas não entendo, se eles finalmente estão quietos a senhora está reclamando do quê? É bom ter um pouco de paz, não é?

— Fernando, é bom que você não tenha culpa no cartório, ou vai se ver comigo.

— Fica fria, mãe. Sou inocente. Eles devem estar cansados, só isso.

— Quando você volta pra casa? Levou agasalho? Aí é muito frio, você sabia?

Frio? Não me diga!!!

Minha mãe é péssima para dar broncas. Ela começa, de repente pára e começa outro assunto.

— Amanhã estarei de volta — falei. — Eu trouxe agasalho, mãe. Não sou burro, né?

— Vou desligar, a conta de telefone veio um absurdo mês passado. Juízo, menino! Tchau.

— Tchau, mãe.

Quando dei por mim estávamos numa sala com sofás confortáveis e uma TV de plasma pendurada na parede. Rico é foda mesmo. Mas faltavam duas pessoas: Meiry e Pezão.

— Cadê o Pezão? — perguntei pra Maura.

Ela piscou pra mim e disse em tom de ironia:

— A morena o levou para conhecer a lareira.

Pezão filho da puta sortudo dos infernos.

Enquanto Pezão ia enfiar a "lenha" na "lareira" da morena eu fico aqui na sala com este bando de idiotas. Ninguém merece, viu?

— Eu estou faminta, e vocês? — disse a baixinha.

— Eu aceito um chocolate quente — disse o guri.

— Eu preparo um pra você então — e a baixinha olhou para Maura. — Aceita um vinho quente?

— Claro! — respondeu a Maura, encarando as coxas da baixinha. Tem horas que eu acho que a Maura é mais tarada do que eu.

Nari e eu estávamos sentados no mesmo sofá. A baixinha olhou para nós e perguntou:

— Vocês querem alguma coisa?

— Não — respondemos praticamente juntos.

Jaqueline e Maura foram pra cozinha. O guri pegou o controle-remoto sobre uma mesinha e ligou a TV de plasma.

Agora pode ser a minha chance com a Nari. Oportunidade pra xavecá-la ou descobrir o que a maluca sabe sobre Ubatuba, né? Tomara que dê a primeira opção.

Aproximei-me dela. Sentei-me bem ao seu lado. Notei que ela ficou meio inquieta.

— Lindos os móveis, não? — eu disse, puxando conversa.

— Sim, muito bonitos — ela respondeu sem olhar nos meus olhos.

Ela estava nitidamente desconfortável no sofá.

— Está com frio? — perguntei.

— Não.

— Mas você está tremendo.

— Estou bem.

Tirei a minha jaqueta e quando eu fui vesti-la sobre o corpo da Nari ela surtou:

— Não me toque, seu porco imundo!!!

Ela gritou tão alto que o guri quase caiu do sofá com o susto.

Maura e a baixinha voltaram para a sala, assustadas.

— O que você fez pra ela? — perguntou a Maura, olhando pra mim como seu fosse um maníaco do parque.

— Não fiz nada! Pergunte pro seu irmão. Eu só ia vestir a minha jaqueta nela.

— Eu não vou com a cara dele — sussurrou a baixinha para a Maura.

— Você está bem, Nari? — perguntou a Maura.

— Estou sim, obrigada.

— Vem pra cozinha com a gente — disse a baixinha.

Nari atendeu o chamado da baixinha. Mas antes ela sussurrou a seguinte frase no meu ouvido:

— Eu sei o que vocês fizeram em Ubatuba.

Sabe quando alguém sussurra algo bem sacana no seu ouvido e você se arrepia por inteiro? Então, foi exatamente isso que aconteceu comigo, a diferença é que ao invés de ficar excitado eu fiquei apavorado.

Senti meu sangue congelar. Meu coração quase saltou pela boca.

Eu já desconfiava que ela sabia de alguma coisa, mas ouvir de seus próprios lábios foi uma experiência atordoante.

Será que ela vai contar pra alguém? Caraca, bateu cagaço outra vez.

Calma, Nando, calma. Ela não seria capaz disso. Ou seria? Putz!!! E agora?

Fiquei tão transtornado que não consegui ficar sentado no sofá. Levantei-me e comecei a caminhar pela sala, de um lado para outro.

— O que você tem? — perguntou o guri, percebendo minha aflição.

— Nada.

— Está um frio do caramba e você está suando em bicas.

— Estou com calor. Não posso?

E o pirralho encolheu-se todo no sofá, voltando sua atenção novamente para a TV.

A sala ficou pequena para mim. Comecei a vagar pela casa. Cômodos e mais cômodos. É impressionante como esta casa é enorme. Olhando por fora nem parece ser tão grande.

De repente vi um quarto com a porta aberta. Uma cama enorme. Sobre a cama vi uma porção de roupas íntimas femininas. Tinha de tudo. Calcinhas de várias cores, sutiãs de vários formatos diferentes, cintas-ligas e outras coisas que eu nem sei o nome.

Aproximei-me da cama e peguei uma das calcinhas em minhas mãos. Senti uma vontade enorme de cheirá-la. Quando levei a calcinha até o meu nariz ouvi o um barulho vindo do banheiro. Tinha alguém tomando banho. Ou melhor, saindo do banho.

Corri para o armário e me escondi lá dentro. A porta do armário possuía pequenos furinhos para ventilação. Foi através destes furinhos que pude ver quando Meiry saiu do banheiro, enrolada numa toalha. Parou a pouco mais de cinco metros do armário.

Não contei nem um minuto e a toalha já estava ao chão. 

Eu não posso acreditar no que estou vendo. Vocês também não vão acreditar.

Meiry não ficou nua. Meiry ficou nu. Sim, Meiry é homem!!!

Só não sei o que é pior: descobrir que Meiry é homem ou ver que além disso tem o pinto maior que o meu.

Capítulo 11 · Eu Te Amo

Corri para o armário e me escondi lá dentro. A porta do armário possuía pequenos furinhos para ventilação. Foi através destes furinhos que pude ver quando Meiry saiu do banheiro, enrolada numa toalha. Parou a pouco mais de cinco metros do armário.

Não contei nem um minuto e a toalha já estava ao chão. 

Eu não posso acreditar no que estou vendo. Vocês também não vão acreditar.

Meiry não ficou nua. Meiry ficou nu. Sim, Meiry é homem!!!

Só não sei o que é pior: descobrir que Meiry é homem ou ver que além disso tem o pinto maior que o meu.

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Eca!!!!! E eu com a calcinha na mão!!! Putz grila!!!

Larguei imediatamente, é claro! E quase que eu dei uma fungada naquilo! Que nojo!!! Acho que vou vomitar.

Ainda não consigo acreditar que Meiry não é mulher. Vocês devem estar loucos pra tirar o maior sarro com a minha cara, não é? Devem estar me achando um idiota. Mas eu juro que nenhum de vocês teria adivinhado. Aposto minha vida como ninguém teria nem desconfiado. Meu, tudo bem que o tamanho estava um pouco estranho para uma mulher. Mas existem muitas mulheres altas neste mundo também, não é? Estou pasmo. E dizer que tive alguns pensamentos eróticos com aquela pernas ... Putz!!! Deixa pra lá. Alguém aí tem uma borracha mental? Eu daria tudo por aquele aparelhinho do filme Homens de Preto, só pra deletar aquela imagem do bilau da Meiry.

Bom, Meiry o caralho, né? Este é o nome de guerra. Agora só o capeta pra saber o verdadeiro nome daquilo ali.

Criei coragem e olhei pelos furinhos da porta do armário outra vez.

Ufa! Meiry escondeu o seu ... coiso. Vestiu uma calcinha preta. Agora está sentado na cama vestindo uma cinta-liga. Olha lá, ele tem seios! E são seios bonitos. Já peguei muita pé-vermeio com seios que não chegavam nem aos pés daqueles ali. 

Mas espera aí, tem alguma coisa estranha. Raciocinem comigo: está na cara que Meiry, ou seja lá quem for, é muito rico. Certamente pagou por aquele par de seios. Mas por que não aproveitou e tirou o pinto? Dinheiro pra operação ele tem.

Opa, barulho no quarto. Espiei pelos furinhos novamente.

Caralho, ele está vindo pro armário! E agora?

Sai da minha frente, cabide dos infernos!!! Escondi-me atrás de um emaranhado de roupas. Agora só me resta torcer, ou pagar um puta mico.

Nada aconteceu. A porta do armário não se abriu. Meiry deve ter passado reto.

Aguardei mais um pouco e resolvi espiar novamente.

O quarto está vazio. Meiry deve ter ido atrás de sua vítima: Pezão.

Putz, até me esqueci do Pezão! Meu, vai dar um tremendo rebosteio, hein! Imagine a cara do maluco quando descobrir que Meiry é um marmanjo pingueludo.

Será que agora ele volta a ser o Pezão que a gente conhece? Hahaha ...

Saí do armário e ... Opa! Esta frase não ficou nada bem pra mim, hein! Porra, vocês são muito engraçadinhos, né? Só pensam besteira!

— Nando?

Era o guri.

Puta que pariu!!! Vai assustar a sua vó, filho da puta!!! Meu, tomei um susto tão grande que meu coração quase saiu pelo cu.

— Você quer me matar do coração, porra? — falei, puto da vida.

— Você sumiu.

— Sumi o caralho! Não está me vendo aqui na sua frente?

— Dá um tempo, Nando! O que aconteceu pra você ficar cuzão assim? — E olhou para o chão do quarto, coberto por roupas íntimas femininas — Você estava transando com a grandona?

Só de imaginar já me deu um arrepio nos cabelos do saco. Fiz cara de nojo. 

— Eu não transaria com ela nem por 1 milhão de dólares — respondi. O guri fez uma cara de quem não entendeu porra nenhuma.

E saí do quarto, em direção ao corredor.

Pra onde a mulher-girafa pingueluda foi? Eu não posso perder o encontro dela com o Pezão. O bagulho promete.

O guri veio atrás de mim.

— Por que você não transaria com ela? — perguntou ele.

Nem dei atenção, continuei a procurar. Meu, esta casa é enorme! Onde eles estão?

E o guri na minha cola. Coitado, o moleque deve estar achando que eu enlouqueci.

— Só por que ela quer dar pro meu irmão? — insistiu o guri.

Fiz sinal pra ele ficar quieto. Preciso de silêncio pra descobrir onde eles estão.

Música romântica! Estou ouvindo música romântica vindo de algum lugar!

— Você está ouvindo esta música? — perguntei.

— Sim, estou ouvindo — respondeu o guri, procurando saber de onde vinha.

— Vem lá do fim do corredor.

— Acho que sim. Será que o meu irmão está comendo a grandona?

— Reze pra que isso não esteja acontecendo.

— Por que eu faria isso?

Caí na gargalhada, tipo uma hiena com tesão por cu de galinha.

E lá fomos nós para o final do corredor. A música que estava tocando era uma do Kennny G, só não me pergunte o nome.

Ao chegarmos até a porta eu girei a maçaneta lentamente e ... Droga! Está trancada!

— Meu, deixa ele trepar sossegado! — disse o guri.

— Estou fazendo isso pelo bem do seu irmão. Acredite.

— Você está com inveja dele, isso sim.

Olhei feio para o guri. Estou louco pra contar sobre o pinguelo da Meiry, mas acho que será mais divertido se o moleque descobrir com os próprios olhos. Não acham?

Fiz sinal pra ele ficar quieto.

Encostamos nossos ouvidos na porta.

— Você está confortável? — era a voz da Meiry. Estou confuso, não sei se chamo de A Meiry ou O Meiry. Ah, foda-se, por enquanto vou chamar de A Meiry.

— Sim, estou bem, obrigado.

E a música parou. Parou, mas logo começou outra, também do Kenny G.

— Você aprontou alguma pra ele, não? — sussurrou o guri, rindo.

— Eu? Não — e comecei a rir também.

— Conta pra mim! O que você fez? Emprestou camisinha zoada pra ele?

— Juro que não fiz nada.

De repente começou a maior gritaria dentro do quarto. Era o Pezão, aos berros.

— Sai de perto de mim! — repetia ele, sem parar.

— Calma, fique calmo! — retrucava a Meiry.

O guri ficou assustado.

— O que será que está acontecendo? — perguntou ele, com os olhos arregalados para a porta.

E a maçaneta começou a girar. Aposto que é o Pezão tentando sair do quarto.

— Abra esta porta agora!!! — sim, era mesmo o Pezão mexendo na porta.

— Mano, o que está acontecendo? — perguntou o guri.

— Murilo, é você? O que você está fazendo aí? — perguntou Pezão.

— Viemos lhe ajudar — respondi, com a maior cara-de-pau.

— Calma, Maurício — disse a Meiry. — Vamos conversar!

— Não temos nada pra conversar! Agora abra esta porta, por favor!

— Não vou abrir enquanto não conversarmos!

Xiiiiiiiiiiiiiiiii!!! O bagulho está ficando feio. A Meiry quer botar no cu do Pezão de qualquer jeito.

— Vamos arrombar a porta, Nando! — disse o guri, preocupado com o irmão.

— Até parece que é fácil, né? Por acaso você é o Hulk?

Enquanto isso ouvi barulhos estranhos vindo de dentro do quarto. Será que Pezão está saindo no tapa com a Meiry? Porrada!!! Porrada!!!

— Acho que nem precisamos arrombar — disse o guri, piscando pra mim. Ele colocou a mão no bolso traseiro da calça e pegou um pequeno envelope.

— O que é isso?

— É o convite pro evento desta noite.

— Comeu cocô? O que você vai fazer com isso?

Ele retirou um pequeno clipe de ferro preso ao envelope. Acho que entendi.

— Isso só funciona em filme, guri — falei, enquanto ele esticava o clipe.

— Você que pensa.

E o guri enfiou o clipe na fechadura. Virava pra cá. Virava pra lá. E o pau comendo solto dentro do quarto. Putz!!! Pau comendo solto? Hahaha ... será que "literalmente" falando? Hahaha ... Pobre Pezão.

Caraaaaaaaalho!!! O guri conseguiu abrir a porta!!! O moleque é foda mesmo.

Pezão estava no maior pega com a Meiry. Calma, não é o que vocês estão pensando. Eles estavam brigando por causa da chave da porta.

Será que o Pezão já descobriu que a Meiry é homem? Sei lá, parece que não. Ela está de calcinha e sutiã ainda. Só tirou a cinta-liga.

— Pára de boiolagem e come logo, mano! — disse o pirralho. — Aí ela sossega o rabo.

Quando Pezão viu a porta aberta não pensou duas vezes, parou a briga e veio correndo até nós.

— Deixe-me em paz, por favor! — disse o Pezão.

Quando ele ia chegando perto da porta Meiry disse algo:

— Liberte-se para sempre, Maurício. Assuma que você é gay.

Pezão parou, deu meia-volta e ficou olhando pra Meiry.

Xiiiiiiiiiiiiiiiii! É agora! O bicho vai pegar! Aposto que agora o Pezão vai se libertar do São Maurício. Querem apostar? Tchau Babalu Cósmico dos infernos!

— Como é que é? — disse ele. Sua voz já demonstra uma pequena alteração.

— Eu vi que você não ficou atraído com a minha forma feminina.

Pezão hesitou por alguns segundos, depois disse:

— Não é que eu não me sinta atraído, o problema é que ....

Putz!!! Meiry desceu a calcinha e puxou o pinguelo escondido.

— Agora fiquei atraente pra você? — disse Meiry, chacoalhando o pinguelo.

Olhei pra cara do guri e vi que valeu a pena não ter contado nada. A expressão no seu rosto foi a coisa mais hilária que eu já vi em todos estes últimos anos.

— PUTA QUE PARIU, É HOMEM ????????????????????????

Preciso dizer quem foi que gritou isso?

Hahaha ... Pobre guri, vai ficar traumatizado pro resto da vida.

Que nada, acho que me enganei. Assim que disse aquilo o guri caiu na maior gargalhada que já vi na face da Terra, parecia uma hiena com febre aftosa.

Pezão passou zunindo por nós. Mas a expressão no seu rosto ainda era a do São Maurício. Que bosta!

Meiry saiu correndo atrás dele, com tudo balançando.

— Volta, Maurício! Eu te amo!

Putz!!! O traveco gamou no Pezão mesmo, hein! Hahaha ...

Enquanto isso o guri quase se mijava de tanto rir.

— Nunca viu um traveco antes? — falei pro guri.

— Como é possível, Nando? Ela era muito linda. Eu estava quase me apaixonando.

— Pior que era, né? Daqui pra frente não sei mais em quem confiar.

— É mesmo. Só apalpando.

E caímos na gargalhada outra vez.

De repente Pezão reapareceu na ponta do corredor. Nari estava ao seu lado.

— Vocês vão ficar aqui? — gritou Pezão. — Nós estamos indo embora!

— Espera aí — disse o guri, assustado.

Quando alcançamos os dois notamos a falta de alguém.

— Cadê a Maura? — perguntei.

— Ela saiu com a Jaque — respondeu a Nari.

Putz!!! Será que a Maura catou a baixinha coxuda? Ah, fala sério!!! Este mundo está cada vez mais injusto.

Passamos pela sala e Meiry estava deitada de bruços sobre o sofá, chorando feito uma criança. Vou ser sincero, fiquei com pena. Sei como é gostar de alguém e não ser retribuído. 

O mais estranho de tudo é que era quase impossível imaginar que era um homem deitado ali no sofá. Se meu cérebro não soubesse que Meiry é homem eu aposto que ficaria excitado com a cena. O cara tem o corpo de uma modelo de revista, porra! Que culpa eu tenho? A única coisa que estraga é aquele pinguelo no meio das pernas, pois o resto é perfeito.

— Vamos procurar a Maura agora mesmo — disse Pezão, super sério. — Não quero ficar mais nem um minuto nesta casa.

E assim fizemos. Saímos à procura das biscates.

E alguns minutos depois eu encontrei as duas. A Maura é filha da puta mesmo! Olha ela lá na piscina de água quente, quase engolindo a baixinha.

Fui me aproximando das duas, elas nem perceberam, estavam numa fissura que só vendo.

— De língua é mais caro! — eu gritei, interrompendo a transa das duas.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou a baixinha. Ela ficou ainda mais bonita com os cabelos molhados.

Olhei pra Maura e respondi:

— Seu irmão está desesperado pra ir embora. Estão todos lhe procurando.

— Manda ele se foder! — ela respondeu. — Eu não saio daqui tão cedo!

E as duas lascaram um puta beijo de língua. Nando Júnior deu até uma beliscada básica.

— Tem lugar pra mais um? — perguntei. Quem não arrisca não petisca, né?

Mas as duas continuaram se beijando. Nem me deram atenção. Mas após o beijo:

— Entra, a água está uma delícia! — disse a Maura.

Ooooooooooooooopa!!! Eu ouvi direito?

— Ah, de jeito nenhum! — disse a baixinha filha da puta.

Meu, se eu trombar com esta tampinha de guaraná outra vez eu juro que ... Ah, deixa pra lá!

— Vai ser gostoso, Jaque! — insistiu a Maura, fazendo beicinho. — Tem coisas que só um homem pode fazer pra gente.

A baixinha olhou pra mim e disse:

— Claro que tem: matar barata e trocar pneu!

E as duas caíram na gargalhada, como duas hienas fazendo a unha no salão de beleza.

Meu, aquilo me deixou tão irritado, mas tão irritado ...

Vocês nem vão acreditar no que eu fiz. Baixei o zíper da minha calça e ...

— Oba! — disse a Maura, empolgada. — Vai se masturbar pra gente? Eu acho super excitante e ...

Botei o Nando Júnior pra fora e comecei a mijar dentro da piscina. Não sei de onde veio a inspiração, pois eu nem estava tão apertado assim. Só sei que dei uma bela e longa mijada.

E consegui o efeito desejado: a baixinha ficou furiosa!!!!!!!!!!!!

— Seu cretino filho de uma puta! — esbravejou a baixinha, enquanto saía da piscina pela escadinha. — Nojento, babaca, crianção!!!

E a tampinha de guaraná saiu disparando vários outros xingamentos, os quais eu não me recordo, pois assim que ela saiu da piscina e seu corpo nu atingiu os meus olhos eu perdi totalmente a concentração ... a baixinha é gostosa demais ... e o principal ... é MULHER de verdade!!! E que mulher!!! Loucura, loucura, loucura!!! Nando Júnior deu outra beliscada básica.

Maura também ficou uma fera comigo. Ela não me xingou, mas só o olhar que ela me fez disse mais que qualquer outra coisa.

E Pezão apareceu.

— O que pensam que estão fazendo? — disse ele, com as mãos na cintura.

— Fazendo sexo, seu idiota! — respondeu a Maura, enquanto subia a escadinha da piscina. — Se você não faz alguém tem que fazer, né?

Pezão nem lhe deu atenção. Estava com aquela expressão séria no rosto.

— Vista-se. Nós vamos embora desta casa perturbada.

E a Maura saiu da piscina. Vê-la nua não foi tão empolgante, pois eu já conhecia o material, né? Mas também não desviei o olhar, afinal de contas mulher é mulher ... e mulher nua foi, é e sempre será colírio para os meus olhos.

— Cadê a Meiry? — perguntou a baixinha para o Pezão.

— Está lá no sofá da sala.

A baixinha fez uma cara de sem-vergonha para o Pezão, e disse:

— E vocês ... já ... ???

Olhei para o Pezão e fiz sinal pra ele dizer que sim, pois isso daria menos dor de cabeça pra ele. Ainda bem que o babaca sacou o que eu quis dizer.

— Sim, nós nos entregamos à tentação da carne.

A baixinha fez cara de quem comeu cocô.

— Hã?

— Eles treparam gostoso — falei.

— A conversa não chegou na lixeira.

— Vai se foder, tampinha de Tubaína!

Alguns minutinhos depois a Maura terminou de se vestir.

— Podemos ir embora agora? — disse o Pezão.

— Vá você! — disse a Maura, abraçando a baixinha. — Eu vou ficar com as minhas novas amigas.

Pezão balançou a cabeça negativamente.

— Quando você vai tomar vergonha, Maura?

Maura ficou possessa.

— Meu, quem é você pra me dizer isso? Só por que passaram leite pasteurizado no seu corpo você acha que vai poder apagar todos os seus pecados? Vai se foder!

Pezão não respondeu nada. Apenas olhou pra mim e disse:

— Vamos embora, Nando. Se ela quer ficar, pois que fique então. Esta casa tem tudo a ver com ela mesmo.

E assim fizemos. Maura ficou agarrada com a baixinha, no maior amasso. Agora explica pra mim: por que será que duas mulheres se beijando deixa a gente com tanto tesão? Quase deixei o Pezão ir embora sozinho.

Não cheguei a fazer isso, mas eu precisava perguntar algo pra Maura antes, e perguntei:

— E a nossa aposta?

Ela terminou de beijar a baixinha e me respondeu:

— Esquece, Nando, nenhum dos dois vai conseguir nada com aquela doida varrida.

O pior de tudo é que ela tem razão. Bom, pelo menos não apostamos a baixinha, eu teria perdido de goleada. Nunca vi uma mulher me odiar tanto. Acho que a baixinha preferiria dar o cu pro capeta ao invés de dar pra mim. Eu, hein!

Comigo as coisas são diferentes. Mesmo odiando a baixinha eu comeria o cuzinho dela numa boa, sem remorso algum ... hehehe.

Meiry nos aguardava na sala. Estava totalmente vestida agora. Ela estava com cara de poucos amigos, pra não dizer furiosa.

— Fora da minha casa, agora! — ela disse.

— É pra já — respondeu Pezão.

Nari e o pirralho já nos aguardavam dentro do carro.

— Por que demoraram tanto? — disse o guri, puto da vida.

— Sua irmã me tira do sério — disse o Pezão.

— Minha não, nossa irmã.

Meiry abriu o portão da garagem com um controle-remoto.

— A partir de hoje não tenho mais irmã — disse o Pezão.

Notei que Nari ficou indignada.

— Cumbuca, não diga isso!

— Digo.

— Nós temos que respeitar as pessoas, Cumbuca. O Babalu Cósmico dela é diferente do nosso, mas isso não significa que ela seja pior ou melhor. Ela é apenas diferente.

E Pezão deu a partida no carro.

— O Babalu Cósmico dela é podre — disse ele.

— Não sei se você tem moral suficiente pra dizer isso da sua irmã, Cumbuca.

Putz!!! Aoooooooooo!!! Esta foi forte, hein!!! Mandou ver, Nari!

Pezão até desligou o carro. Olhou Nari pelo espelho retrovisor e disse:

— Não tenho moral? Agora eu não entendi.

— Entendeu muito bem, Cumbuca.

Lá fora, Meiry começou a chutar o carro do Pezão, furiosa.

— Saiam da minha casa! — esbravejava ela, ou ele. — Sumam daqui!

Antes que o carro ficasse todo amassado Pezão deu a partida novamente e saiu fincando, deu até pra lembrar um pouco o velho Pezão.

Vi a Harley-Davidson ficar para trás pelo espelho retrovisor. Que pena! Eu até pensei que ia poder dar uma voltinha. Alegria de pobre dura pouco mesmo.

E passamos pelo outro portão.

Pezão retomou o assunto:

— Você está chateada comigo, Montanha?

Nari não disse nada. Ficou quieta, encostada na porta do carro, bem afastada de mim.

De repente ela disse:

— Como você foi capaz de fazer aquilo, Cumbuca?

— Do que você está falando, Montanha!

— Não mente pra mim, você sabe muito bem! Ubatuba!

Putz! Pezão perdeu o controle do carro e quase fomos parar numa ribanceira. Faltou muito pouco.

Quase morro por causa de Ubatuba. Seria trágico, pra não dizer irônico.

Capítulo 12 · Descendo o Morro

De repente ela disse:

— Como você foi capaz de fazer aquilo, Cumbuca?

— Do que você está falando, Montanha!

— Não mente pra mim, você sabe muito bem! Ubatuba!

Putz! Pezão perdeu o controle do carro e quase fomos parar numa ribanceira. Faltou muito pouco.

Quase morro por causa de Ubatuba. Seria trágico, pra não dizer irônico.

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Dois metros a mais e teríamos saído da estrada. O tombo não seria pequeno. Ufa! Se eu pudesse daria um beijo na boca de quem inventou o freio. Falando nisso, será que algum dia a invenção do pirralho será famosa? Tipo alguém dizendo ... "se eu pudesse daria um beijo na boca de quem inventou o cheiro de peido com carniça concentrado numa garrafinha".

Mas voltemos ao assunto sério ...

— O que foi isso, mano? — gritou o guri com o Pezão.

— Desculpa — disse Pezão, suando frio e tremendo muito. — , acho que não estou me sentindo bem.

— Deve ser remorso por ter deixado a nossa irmã para trás.

— Sua irmã ficou lá por livre e espontânea vontade, guri — eu disse. — Acho que esquecemos de lhe contar.

Pezão tirou o cinto de segurança e desceu do carro. Nari continuava encolhida no outro canto, olhando para o nada. 

— Acho melhor você dirigir daqui pra frente — disse o guri para mim.

Fiz que sim com a cabeça, e desci do carro. Acreditem ou não, tive uma forte sensação de que Pezão iria se suicidar.

— Você está bem? — perguntei, aproximando-me lentamente.

Pezão estava de pé, bem na pontinha de uma ribanceira. Um passo a mais e tchau pardal. Ninguém seria capaz de sobreviver a uma queda daquelas. Olhei rapidamente lá pra baixo e já fiquei até meio zonzo. O lugar é muito alto.

— Tem mil coisas passando pela minha cabeça, Nando — Pezão respondeu, de costas para mim.

— Que coisas?

— Coisas ruins. Quando a Montanha disse Ubatuba a minha cabeça começou a girar e vi um filme passar diante dos meus olhos. Foi bem assustador.

Caralho, será que após a purificação o Pezão esqueceu de tudo o que aconteceu em Ubatuba? Poxa, se isso aconteceu eu também quero ser purificado. Seria muito bom apagar tudo aquilo.

Pezão ficava cada vez mais na ponta da ribanceira.

— Dá pra você recuar um pouco? — falei, apreensivo. — Você vai cair daí, porra!

— E faria alguma diferença?

Xiiiiiiiiiiiiiiiii! Agora fodeu, hein! O mano está pensando mesmo em se jogar. Calma, muita calma nesta hora. Todo mundo já assistiu aqueles filmes onde um policial tenta convencer o suicida a não pular de um prédio, né? Em todos eles o policial convence a vítima de que a vida é linda e maravilhosa. Bom, vamos lá então ...

— Você vai cair, porra!!! — gritou o guri, logo atrás de mim.

Que susto, cacete!!! Meu, ainda bem que não era eu ali na ponta da ribanceira, ou eu teria caído. Levei o maior susto com o pirralho filho da puta dos infernos.

Por sorte o Pezão nem se mexeu. Continuou parado feito uma estátua.

Olhei feio para o pirralho, é claro.

— Você comeu cocô??? — sussurrei. — Fica quieto aí, porra!

— O que está acontecendo aqui? — perguntou o pirralho.

— Diz pra mamãe que eu a amo muito — falou o Pezão, de repente.

Putz grila, o cara já está se despedindo?

— Como assim? — disse o pirralho.

Meu, fala sério!!! O guri é tão inteligente, mas tem horas que ele demora pra sacar as coisas!!! Quase dei um "Pedalada, Murilo!!!".

— Pára com isso, Pezão — falei. — Você vai voltar pra casa e abraçar sua mãe muitas vezes ainda.

— Ele está pensando em se jogar dali? — sussurrou o guri no meu ouvido.

Aleluia!!! Finalmente caiu a ficha do moleque.

Fiz que sim com a cabeça. O guri ficou branco.

— Mas o que aconteceu, mano? — gritou o guri para o Pezão.

Pezão não respondeu de imediato, levou algum tempo até ele responder:

— Sangue, muito sangue.

Putz!!! Ele está recordando Ubatuba.

— Mas que sangue? — disse o guri. — Não estou vendo nada!

Pezão olhou para trás, na nossa direção, e disse para o guri:

— Você não estava lá.

— Lá onde?

E Pezão voltou o olhar para a ribanceira outra vez. Meu, estou ficando assustado, acho que ele vai mesmo se jogar dali. Daqui pra frente serão apenas as "Aventuras de Nando".

— Volta para o carro, Murilo — sussurrei pra ele. — Deixa que eu resolvo isso aqui.

— Não saio daqui enquanto o meu irmão não voltar para o carro com a gente.

Putz!!! Vão começar as viadagens justo agora? Olhei feio para o guri.

Bom, o jeito é aproveitar isso para alguma coisa, certo?

— Não faça nenhuma bobagem — falei para o Pezão. — , viu como o seu irmão gosta de você? Vamos voltar para o carro e sair daqui.

— Nando — disse o Pezão.

— Diga.

— Aquelas visões que eu tive agora há pouco realmente aconteceram?

Caralho, e agora? Se eu disser que sim ele pula da ribanceira?

— Não sei do que você está falando — resolvi dar de louco.

— Acho que sabe. Você também estava nas minhas visões.

— Não, sinto em lhe informar, mas sua mente comeu cocô.

E o pirralho começou a rir. Olhei feio para ele.

— Desculpa — disse o guri.

Voltei os olhos para o Pezão novamente.

— Agora deixa de frescura e vamos embora daqui! — falei firme.

— Não, eu não posso voltar para aquele carro.

— Claro que pode! Deixa que eu dirijo.

— Não tenho coragem de olhar para a Montanha-Russa outra vez. Estou me sentindo a escória do Universo.

Porra, vai tomar no cu! É por isso que ele quer se matar? Está com vergonha de olhar pra Nari? Ah, puta que pariu! Ninguém merece.

Olhei para o carro e lá estava ela, Nari, olhando a situação toda pela janela. Parecia muito tranqüila. Será que ela sabe o que realmente está acontecendo aqui?

Bom, só perguntando. Fui até o carro.

— Por sua culpa o meu amigo quer se matar — fui bem direto, olhando nos olhos da maluca.

— Por minha culpa? Tem certeza?

— Sim, ele acabou de dizer que ... — senti um calafrio. Olhei pra fora do carro, só pra garantir se Pezão tinha pulado ou não. Não pulou. Ufa! — ... não quer voltar para o carro por estar com vergonha de encará-la novamente.

— Eu também ficaria, você não?

— Não. Quem me garante que o seu passado não é pior que o nosso?

E Nari deu uma recuada. Acho que acertei na mosca. Sua expressão facial mudou totalmente. Por incrível que pareça ela ficou feia. Bom, não ficou tão feia como a Lelê, mas ficou bem estranha.

— Não diga bobagem — ela disse, seus lábios tremiam. — , eu jamais seria capaz de fazer o que vocês fizeram.

— Será? Por que você está tremendo tanto?

— Estou com frio. Estamos em Campos do Jordão, esqueceu?

Bela resposta, mas não me convenceu nem um pouco. Convenceu vocês? Aposto que não.

Dei outra olhada pra fora do carro. Pezão ainda está no mesmo lugar, imóvel. Olhei para a Nari, decidido, falei bem sério:

— Agora você vai lá fora ajudar o Pezão a voltar para o carro.

— Não posso.

— Claro que pode. Pode e vai. Que raio de Babalu Cósmico é este? Ficam com esta viadagem pra lá e pra cá e na hora de ajudar um amigo vocês viram as costas? Vão todos vocês tomarem no cu então!

— Não posso influenciar no destino do Cumbuca. Se ele escolheu morrer eu não posso fazer nada, é uma escolha dele, somente dele.

— Foda-se! Você vai lá fora e vai fazer com que ele desista de pular.

E fiz algo que eu não gosto muito: peguei no braço da maluca e puxei a Nari para fora do carro, à força. Sei que não é legal, mas vocês concordam comigo que foi por uma boa causa, certo? Teriam feito o mesmo por um amigo.

Nari lutou um pouco, mas acabou cedendo.

O guri estava com os olhos lacrimejantes.

— Calma — falei baixinho pra ele. — , vai dar tudo certo.

— Oi, Cumbuca — disse a Nari, aproximando-se do Pezão.

Pezão não disse nada, e continuou imóvel. Pensando bem, será que eu conseguiria me aproximar e puxá-lo para trás? Não, seria arriscado demais. Vamos ver se a doida varrida consegue alguma coisa.

— Você não está pensando em pular, está? — prosseguiu ela, falando carinhosamente.

Pezão finalmente respondeu:

— Sim, eu não mereço viver.

— Não diga bobagem! Todos nós merecemos viver.

— Não depois do que eu fiz.

E Nari olhou rapidamente para mim. Seu olhar me provocou calafrios. Foi aquele mesmo olhar do Mestre dos Magos. Credo.

— O que foi que ele fez de tão horrível, Nando? — perguntou o guri pra mim.

— Seu irmão está delirando, guri — respondi, baixinho. — Acho que o travecão deixou ele meio lelé da cuca.

— Eu mato aquela bichona!!!

— Muita calma nesta hora, guri.

Quando dei por mim, Pezão e Nari estavam se abraçando. Porra, nem vi como tudo aconteceu! Merda, a vida real é uma bosta mesmo! Nos filmes a gente ainda pode apertar o botão " << " e voltar a fita. Aqui não tem jeito. Piscou, fodeu.

Bom, o importante é que o Pezão não pulou da ribanceira.

— Você comeu cocô? — falei pro Pezão, puto da vida. — Quase mata a gente de susto, porra!

— Não sei o que deu em mim — Pezão parecia muito envergonhado.

— Fica esperto, se você fizer isso outra vez eu serei o primeiro a empurrar! Não ajudo mais.

— Não farei novamente — e Pezão olhou para a Nari, sorrindo. — , ela me convenceu a ficar.

— Não diga isso, Cumbuca, a decisão foi sua, somente sua.

E voltamos para o carro, aliviados. O guri até deu um abraço no Pezão, coisa raríssima de se ver. Vocês já viram isso em algum outro episódio? Aposto que não. Porra, isso aqui está virando novelinha das seis? Eca!!!

Invertemos as posições no carro. Assumi o volante e Nari passou para o banco da frente, sentando-se ao meu lado. O guri foi lá para trás fazer companhia para o irmão.

Meu, sentado ao volante deu pra ver bem como estivemos bem próximos da morte. Não quero nem imaginar como teria sido a nossa queda. Putz grila!!!

Engatei a ré e finalmente deixamos aquele lugar sinistro.

— Acelera aí, Nando — disse o guri. — Já são 8h10.

— Calma, ainda dá tempo. O bagulho vai ser às 9h30, certo?

— Isso.

— Beleja. Fica frio.

Tudo bem que estamos descendo uma ladeira, mas não é bom arriscar. Sou bom motorista, mas não sou doido. Acelerei, mas nem tanto.

Procurei algum CD interessante pra tocar, mas só achei CD's com o Mestre dos Magos narrando suas boiolagens. Por fim acabei sintonizando uma rádio mesmo.

A viagem estava tranqüila. Pezão e o guri acabaram dormindo. Nari estava acordada, olhando para a estrada e com os pensamentos distantes. Garota estranha, vocês não acham? O problema é que eu me sinto atraído por ela, este jeitinho enigmático me deixa doido. Aposto como ela também guarda um segredo bem cabeludo.

Falando em "cabeludo" ... vocês já pensaram sacanagem, não? Vocês não prestam mesmo. Putz grila!

— Obrigado — falei pra ela, gentilmente.

Ela não me deu resposta. Até que de repente ela resolveu se manifestar:

— Ele não ia pular.

— Será? Eu acho que se você não tivesse falado com ele, tchau pardal.

— Suicidas não pensam duas vezes. Quando eles querem vão lá e se matam.

— Sei lá. Mesmo assim, obrigado.

Silêncio outra vez.

Já estávamos quase terminando de descer o morro quando senti uma mão acariciando minha perna direita. Senti até um calafrio, a mão estava gelada.

Bom, o guri e o Pezão estão roncando lá atrás, então ... Nari???

Caralho, ou é ela ou é um espírito dos infernos.

Dei uma olhada rápida para o lado e ela continuava olhando a estrada, mas a mão era dela sim, e seus movimentos ficavam cada vez mais ousados.

Nem preciso dizer que fiquei excitado, né? Nando Júnior ficou empolgado rapidamente.

Fiquei calado, ela leva jeito pra coisa! Uau!

Pezão e o guri continuam roncando.

Eu olhava para o lado e nada, ela não me retribuía o olhar, mas continuava a me provocar com sua mão esquerda. Ela apertava minha coxa direita com vontade, às vezes até doía um pouco, mas vale a pena.

Num determinado momento a mão subiu para o zíper.

Opa!!! Será??? Sim, caros amigos e amigas, ela baixou lentamente o zíper da minha calça e depois enfiou a mão por dentro da minha cueca.

— Já chegamos? — era a voz do guri.

Porra, o pirralho tinha que acordar justo agora?

Nari não deu a menor atenção pro guri. Sua mão continuou dentro da minha cueca. Ela começou a acariciar os meus ... pentelhos! Eu, hein! Tanta coisa pra ela pegar e ela foi logo para os pentelhos? É doida varrida mesmo.

— Onde estamos? — insistiu o guri, irritado.

— Calma, já estamos quaaaaaaaaaaaaaa ... — nem preciso dizer o que foi que a Nari pegou agora, né? — ... aaaaase lá.

Ainda bem que a mão dela já não estava tão gelada.

— Que foi isso, Nando? — perguntou o guri.

— Nada, é sono.

E Nari começou a tocar uma pra mim. Loucura, loucura, loucura!!!

O mais estranho é que eu olho pra ela e nada! A cabeça dela nem se mexe, ela continua olhando para a estrada, séria, como se nada estivesse acontecendo. A impressão que dá é que sua mão esteja possuída, tipo uma criatura com vida própria. Vocês me entendem? Mas isso não existe, existe? Sinistro.

Porra, se existe eu não sei, o que eu sei é que está bommmmmm demais!!! Continua! Assim! Vai, Nari! Com força! Mais rápido! Hmmmmmmmm!

Capítulo 13 · Um Babalu Perturbado

E Nari começou a tocar uma pra mim. Loucura, loucura, loucura!!!

O mais estranho é que eu olho pra ela e nada! A cabeça dela nem se mexe, ela continua olhando para a estrada, séria, como se nada estivesse acontecendo. A impressão que dá é que sua mão esteja possuída, tipo uma criatura com vida própria. Vocês me entendem? Mas isso não existe, existe? Sinistro.

Porra, se existe eu não sei, o que eu sei é que está bommmmmm demais!!! Continua! Assim! Vai, Nari! Com força! Mais rápido! Hmmmmmmmm!

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Gozei. O bagulho saiu com tanta potência que foi parar no painel do carro.

Eca!!!

Meu, se o Pezão descobre é bem capaz de voltar ao normal rapidinho. Sei lá, o cara pode ter perdido o tesão por mulher, mas o tesão pelo carro eu acho que ainda persiste.

Nari recolheu sua mão delicada. Dei uma olhada rápida pra ela e não vi alteração alguma. Mesma cara de bunda. Voltei Nando Júnior pra dentro da cueca e subi o zíper.

Resolvi tentar algo mais ousado do que apenas olhar para ela. Pra ela ter feito isso comigo é sinal de que está a fim de alguma coisa, né? Belisquei-lhe as coxas.

Putz! Eu deveria ter ficado quieto no meu canto. Olha no que deu:

— Tarado!!! — ela gritou, assustada.

E pra ajudar ainda me deu um tapão na cara. Quase perdi o controle do carro.

— O que aconteceu? — perguntou o guri.

— Este sem-vergonha estava querendo abusar de mim!

Dá pra acreditar nisso? A mina enfia a mão na minha cueca e depois eu é que sou o tarado? Ah, vai se foder, biscate maluca dos infernos!

— Foi só um beliscão, mina — falei, enquanto olhava o sinal fechando de repente. Pisei no freio como uma gorda pisa numa barata. Por muito pouco não enfio o Corsa do Pezão dentro de uma Kombi. Faltaram milímetros.

A freada foi tão brusca que Pezão e o pirralho caíram do banco.

— O que foi isso? — gritou Pezão, assustado. 

— É o Nando querendo nos matar — disse o guri.

Fiquei puto.

— Se liga, anãozinho de jardim, cala esta boca.

— E quem vai me obrigar?

O sangue subiu. Mas quando eu me preparei pra pular para o banco de trás o sinal abriu. Pisei com raiva no acelerador.

— Cuidado aí, Nando! — disse Pezão. 

— Vamos chegar atrasados, droga! — resmungou o guri.

— Não vamos — falei, agora um pouco mais calmo. — Onde fica o bagulho?

— Centro de Convenções Capivari.

— Tudo bem, mas onde fica esta porra?

— E você acha que eu sei? Tem o nome da rua aqui no convite, mas eu também não tenho a menor idéia de onde fica.

Parei o carro em frente a um barzinho. Tinha um casal de velhos. Desci o vidro e ... porra, que frio!!!! Entrou um puta vento gelado na minha cara. Quase virei picolé.

— Senhor — falei pro velhinho. — , por acaso você sabe onde fica o Centro de Convenções Capivari?

O velho me olhou estranho. Acho que depois de 1 século ele entendeu que eu tinha falado com ele.

— O quê? — gritou a velhinha.

— Centro de Convenções Capivari!!! — gritei duas vezes mais alto.

— A Marli? — gritou o velho.

— Não!!! — tomei fôlego e gritei o mais alto que pude: — CENTRO DE CONVENÇÕES CAPIVARI !!!!!!!!!!!!!!!!

E a velhinha me respondeu:

— Não, meu filho, a Marli não mora mais aqui não.

Puta que pariu!!! Velha surda do caralho!!!

Desisti. Dei a partida no carro e resolvi perguntar em outro lugar. Depois de duas tentativas eu consegui achar alguém que conhecia a porra do lugar.

E estávamos a menos de dois quarteirões. Se fosse uma cobra teria nos mordido.

Difícil mesmo foi achar um lugar para estacionar, o lugar estava lotado.

— Vai ter algum show de rock pra animar a festa? — perguntei, enquanto puxava o freio de mão.

— No cronograma do evento não diz nada — respondeu o guri.

E saímos do carro. Ao abrir a porta eu quase derrubei uma garotinha. Ela segurava um pequeno aquário. Dentro do aquário não havia água nem peixes, mas um sapo.

— Você viu aquilo? — disse o guri, apontando para a menina.

— Vi um sapo feio pra caralho — falei. — Parecia o Mamute.

— Foi impressão minha ou o sapo tinha duas cabeças? — disse o Pezão.

— Não viaja — eu disse.

— Tinha sim, Nando! — corrigiu-me o guri. — Você não viu?

— Vocês comeram muito cocô quando eram crianças, isso sim.

— Eu vi a foto no site. Aquela garotinha ficou em segundo lugar na categoria Experiências Bizarras.

— Não quero nem imaginar quem ficou em primeiro — disse Nari, após um longo e tenebroso inverno.

E o guri começou a rir feito uma hiena após uma lipoaspiração.

— Qual a graça? — perguntou Pezão.

— Em primeiro lugar ficou um moleque da minha idade. O garoto só pode ser doente das idéias. Implantou dois pintos no Pastor Alemão dele.

Putz!!! Tive um ataque de risos também. Nari e Pezão continuaram sérios.

— O cachorro ficou com três pintos?

— Sim, mas os dois novos ele implantou na cabeça do cachorro, tipo chifrinhos, saca?

— Caralho! O guri é doente mesmo.

O guri ficou branco após olhar o relógio. Acho que já deve ter passado das 9h30. Ele pegou as chaves do carro comigo e correu para o porta-malas. Já sei o que ele quer.

— Tem certeza que é seguro pegar nisso aí? — perguntei, olhando assustado para aquela garrafa de vidro nojenta, aquela com o cheiro maldito.

— Desde que ela fique fechada.

— Mas no caso de alguma emergência você trouxe aquelas balinhas especiais, né?

— Claro, Nando ... dããããããã!!! Acha que eu sou doido??? Sem as balas a minha invenção não tem razão de ser. Sem as balas isso aqui seria apenas um vidro com um puta cheiro ruim.

— Pior. Um puta cheiro ruim que pode matar.

— Claro, isso também.

Meu, o guri é foda. Nem sei por que eu parei de chamá-lo de Bill Gates Júnior.

Nem bem entramos no lugar e as atenções voltaram-se para nós. O motivo? Nós éramos os mais mal vestidos do pedaço. Acho que nunca passei tanta vergonha na minha vida. Tive vontade de sair de fininho, mas seria ainda pior.

Querem saber? Foda-se! Saiu na chuva é pra se queimar.

De repente parou uma mulher super esquisita bem na nossa frente. Ela ficou olhando por alguns segundos, até que resolveu dizer alguma coisa:

— Você é o garoto do cheiro assassino?

— Sim, eu mesmo! — disse o pirralho, excitado.

E a mulher correu os olhos por uma prancheta, procurando alguma coisa.

— Murilo, é isso? — disse ela, sorrindo para o guri.

— Exatamente.

E a mulher puxou o guri pelo braço.

— Vamos, vamos! Você está super atrasado para a sua premiação. Venha, eu levo você até lá.

Quase que o guri derrubou a garrafa com o cheiro mortal. Nem quero imaginar o que teria acontecido.

E lá fomos nós atrás do guri e da mulher esquisita.

— O moleque vai longe — disse o Pezão.

— Tomara que vá longe mesmo, e leve a garrafa junto. Eu não quero sentir aquele cheiro de peido azedo nunca mais na minha ...

— Não. Eu quis dizer que ele vai ser alguém importante um dia.

De repente Nari caiu dura no chão.

— Montanha, o que houve? — Pezão ficou branco de susto. — Fala comigo! Fala comigo!

Ela estava desacordada. Experimentei uns tapinhas no rosto, mas não resolveram.

Antes que levantássemos para pedir ajuda surgiu um homem vestido num terno branco super elegante.

— O que houve com ela?

— Não sabemos! — disse o Pezão. — Ela desmaiou de repente.

E o homem colocou as mãos sobre o peito de Nari. Espertinho, não?

— Não se preocupem — disse ele, apertando as mãos sobre o peitos dela. — , eu sou médico.

Ou doutorzinho de meia-tigela aproveitou e fez um boca-a-boca na Nari.

E ela finalmente recobrou os sentidos. Bom, espertinho ou não, ele a ajudou. Nari abriu os olhos e voltou a respirar normalmente.

— Você está bem, moça? — perguntou o doutorzinho safado.

— Ahã, só estou um pouco tonta, obrigada.

O cara beijou-lhe a mão e ajudou Nari a se levantar. Que meigo.

Vai tirando o seu cavalinho branco da chuva, doutor! Só por que você é médico acha que vai conseguir comê-la? Com essa aí não rola.

— Vou ficar de olho em você, hein! — disse o doutor, afastando-se.

E Nari olhou assustada para nós.

— Quanto tempo fiquei apagada?

— Acho que menos de 1 minuto — disse Pezão. — Pensei que você ia nos deixar.

— Isso já me aconteceu antes.

— Lembre-me de não deixá-la dirigir — falei.

Nari fez uma cara assustada, como se tivesse visto um fantasma ou o capeta.

— Eu tive uma visão terrível — disse ela.

— Durante o seu apagão?

— Não, segundos antes. Existe uma força do mal aqui neste local.

— Hã?

— Tem uma pessoa com o Babalu perturbado aqui entre nós. 

— Mas quem é? — perguntei.

— Tenho medo de olhar novamente para ela. Meu Babalu está fraco. Posso apagar de novo.

— Diga como ela é — disse o Pezão, curioso. — É homem? É mulher? Que roupa está usando?

Também fiquei curioso. Comecei a olhar em todas as direções, tentando adivinhar quem é a tal pessoa do Babalu perturbado.

— Quem é, porra? — perguntei.

Nari hesitou um pouco, mas acabou revelando:

— É a garotinha do sapo.

Putz!!! Caí na gargalhada. Pensei que o Pezão também acharia graça, mas não achou.

— Você acredita se eu lhe disser que também notei algo sinistro nela? — disse ele.

— O Babalu dela é perturbado ao extremo. Nunca vi coisa igual. Fico arrepiada só de imaginar.

— Meu, é apenas uma garotinha, porra!!! — chutei o balde. — Vocês comeram cocô?

— O fato dela ser uma garotinha não quer dizer nada. Um Babalu perturbado independe de sexo e idade.

— Sei, sei ... Mas se o Babalu dela é tão feio assim, por que você não percebeu nada quando ela passou bem pertinho de nós lá na rua?

— Se eu tivesse resposta para tudo eu não estaria aqui perdendo tempo com você.

— Ahá! Peguei você, né? Ficou sem respos...

De repente vi a garotinha aproximando-se de nós. Nari teve outro ataque, caindo ao chão feito um saco de batatas. Desta vez ela não ficou desacordada, mas ficou se debatendo e babando feito um cachorro raivoso. Lembrei do filme O Exorcista.

Uma multidão de curiosos reuniu-se em torno de nós. Ajudar que é bom, nada. Cambada de gente esnobe dos infernos. Onde está aquela porra de médico quando se precisa?

— Tira ela de perto de mim! — repetia a Nari, desesperada. Ela gritava e babava ao mesmo tempo. Bem nojento.

— Faça o que ela está pedindo! — disse o Pezão para mim.

Levantei-me e procurei a menina do sapo. Ela estava ao lado da mãe, olhando curiosa para a Nari.

Putz! E agora? Não dá pra eu chegar na menina e dizer: "Olha, seu Babalu está todo fodido e a minha amiga tem medo dele. Dá pra você sumir daqui, sua biscatinha?".

Opa! Tive uma idéia.

— Olá! — falei pra menina. A mãe dela me olhou estranho. — Minha amiga é alérgica a sapos. Será que você poderia ... ?

E a mãe da menina a puxou pelo braço. As duas afastaram-se da multidão.

Quanto mais distante a menina ficava, mais calma ficava a Nari.

E o mais curioso é que não era fingimento, pois a Nari não estava vendo a menina. 

Sinistro.

Será que o Babalu da guria é tão perturbado assim? Eu, hein! Deu até arrepio.

Capítulo 14 · Sossega, Nando Júnior!!!

— Olá! — falei pra menina. A mãe dela me olhou estranho. — Minha amiga é alérgica a sapos. Será que você poderia ... ?

E a mãe da menina a puxou pelo braço. As duas afastaram-se da multidão.

Quanto mais distante a menina ficava, mais calma ficava a Nari.

E o mais curioso é que não era fingimento, pois a Nari não estava vendo a menina. 

Sinistro.

Será que o Babalu da guria é tão perturbado assim? Eu, hein! Deu até arrepio.

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De repente uma voz feminina muito sexy saiu das caixas de som espalhadas pelo auditório. A voz disse: "Atenção, senhoras e senhores, dentro de 5 minutos estaremos dando início às cerimônias de premiação. Categoria Júnior, sala 1. Categoria Adolescente, sala 2. Categoria Livre, sala 3. Categoria Bizarrices, sala 4."

E a multidão se espalhou. 

Voltei para perto de Nari e Pezão. Os dois estavam sentados num canto do auditório.

— Ela está bem? — perguntei.

— Está meio zureta ainda — respondeu Pezão, colocando sua mão sobre o ombro direito dela.

Nari ergueu a cabeça e olhou pra mim com uma cara de poucos amigos.

— Estou bem — disse ela. — , mas quero distância daquela garota.

Agora o auditório estava quase vazio. Além de nós três só havia um casal de gordos comendo o resto dos canapés. Na verdade não comiam, mas devoravam!

— Vamos — disse Pezão, levantando-se. — , ou perderemos a premiação do Murilo.

— Eu quero ir embora daqui — disse a Nari.

— Embora? Mas a premiação ainda nem começou.

Antes que Nari dissesse alguma coisa resolvi apoiá-la. Falei para o Pezão:

— Vá acompanhar a premiação. Eu fico aqui com ela.

Pezão ficou hesitante, mas acabou concordando.

— Pra qual sala eu devo ir? — perguntou ele, coçando a cabeça.

— Agora fodeu — falei. — , não tenho a menor idéia.

— Bom, eu me viro — e olhou para Nari. — Tem certeza de que não quer vir?

Nari só balançou a cabeça.

Assim que Pezão desapareceu de nossas vistas sentei-me ao lado da Nari. Ficamos em silêncio por alguns instantes, até que resolvi dizer alguma coisa:

— Não vi nada de estranho na garotinha, mas a mãe dela eu achei bem esquisita.

— Você viu apenas com os olhos — disse ela, olhando para a mesa de canapés. Bom, era uma mesa com canapés, mas o casal de baleias comeu tudo. — Eu vi com a minha mente.

E ficamos em silêncio novamente. Nari não me dava a menor bola, era como se eu não estivesse ali.

Meu estômago começou a roncar. Levantei-me e fui até a mesa de canapés para averiguar se havia sobrado alguma coisa. Não. Não sobrou porra nenhuma. Malditos gordos esfomeados dos infernos!!!

Voltei para o meu lugar. Após algum tempo resolvi quebrar o silêncio outra vez.

— O que foi aquilo no carro?

E ela finalmente olhou pra mim.

— Hã?

— Você sabe ... aquela hora!

Ela me olhou espantada.

— Do que você está falando?

— Você sabe muito bem do que estou falando.

— Não. Não sei.

Olhei ao redor pra me certificar de que não havia ninguém nos observando e então ... imitei a Nari tocando uma pra mim.

Ela me olhou mais espantada ainda.

— O que você está fazendo? — seus olhos estavam arregalados.

— Você não me engana — e parei com os gestos. — O jeito com que você abriu o meu zíper e ...

— O quê? — Nari deu um salto da cadeira. Cheguei até a me lembrar de uma Pegadinha do Mallandro, aquela da cadeira que dá choque e faz a vítima dar pulos de 2 metros.

Nari ficou de pé e olhando feio pra mim. Não me intimidei, resolvi atacar:

— Admita — eu disse, com um sorriso irônico. — Você sente tesão por mim.

— Você enlouqueceu de vez.

— Eu enlouqueci? Eu? Tem certeza? O zíper da minha calça não desceu sozinho, disso eu tenho certeza.

— Você é nojento, sabia?

Comecei a ficar irritado com tantas negações. Levantei-me da cadeira também. Ficamos frente a frente. Olhos nos olhos.

— Agora já aconteceu — falei, irritado. — , não dá pra negar.

Nari começou a murchar. Cheguei a pensar que iria desmaiar novamente. Mas não desmaiou. Seu rosto ficou triste e ela sentou-se novamente.

— Perdoe-me — disse ela, olhando para o chão. — Isso já me aconteceu antes.

— Ahá!!! Então você admite que ...

— Ás vezes minha mente apaga e faço coisas ... que vão contra o meu Babalu. Mas quando eu volto ao normal não me lembro de mais nada.

Putz!!! Ah, fala sério! Pra cima de mim? Ela meteu a mão no meu bilau e agora vem com este papinho de "contra o meu Babalu". Ah, se liga!

— Nari.

E ela finalmente olhou para mim.

— O que foi?

Senti uma vontade enorme de dizer "Enfia o Babalu no cu e assovia o hino da Argentina!!!" ... mas não fiz. Ajoelhei-me diante dela e beijei sua boca. Ela resistiu um pouco no começo, mas depois liberou geral.

Eu sabia que ela estava a fim! Eu sabia! Aquele papinho furado não colou nem um pouco. Vocês podem não acreditar, mas o beijo durou mais de 5 minutos. Antes que vocês me perguntem, a resposta é sim ... rolou língua.

— E agora? — falei, sorrindo pra ela. — Você também vai me dizer que não se lembra?

Nari fez algo raríssimo ... sorriu pra mim. Depois balançou a cabeça, fazendo sinal de não. E nos beijamos novamente, mas desta vez um beijo mais curto.

Fiquei de pé e meti a mão no bolso da minha calça. Nari olhava pra mim de forma diferente agora, não com aquele olhar desconfiado e assustado, mas com tesão.

Ela abriu outro sorriso quando puxei do bolso da minha calça as chaves do carro. Dei-lhe uma piscadela bem sem-vergonha e falei:

— Vamos?

Ela me olhou curiosa.

— Pra onde?

— Pra onde você quiser! A noite é uma criança, gata.

Nari olhou na direção das salas.

— Mas e o Cumbuca e o menino?

— Depois a gente volta para pegá-los.

Ajoelhei-me novamente diante dela. Agarrei seus pés e fui subindo minhas mãos por debaixo da saia, até alcançar suas coxas. Sua pele macia estava pegando fogo.

Ela olhou pra mim com mais tesão ainda.

— Vamos sair daqui — disse ela.

Uhuuuuuuuuuuuuuu!!! É hoje!!!

Entramos no carro feito dois fugitivos que acabaram de assaltar um banco. Adrenalina lá em cima.

Assim que fechei a porta do carro Nari veio pra cima de mim feito uma leoa esfomeada. Mordeu o meu pescoço com tanta vontade que até gritei de dor.

— Desculpa — disse ela, acariciando o local da mordida — , machuquei você?

Nem perdi tempo respondendo, parti pra cima dela com um beijo na boca. Enquanto nos beijávamos enfiei minhas mãos por baixo de sua blusa e fui acariciando sua barriguinha, até chegar no sutiã. Sutiã? Ela não usa sutiã ... aooooooo delícia!!! Quando minhas mãos tocaram seus seios os bicos ficaram durinhos. Aposto como seria possível furar uma bexiga com eles.

A rua onde estávamos estacionados era escura, perfeita para o que estávamos prestes a fazer. E mesmo se não fosse escura eu acho que faríamos da mesma forma.

Deixei minha mão direita encarregada dos seios, pois eu tinha outros planos para a mão esquerda. Nari não usa calcinha, né? Uhuuuuuuu! Lá vamos nós ...

De repente pensei ter ouvido duas batidas secas no vidro. Foda-se, ignorei e continuei o caminho até ...

— Abre esta porra ou eu meto bala!!! — gritou uma voz do lado de fora.

Parei tudo o que estava fazendo. Só o Nando Júnior não deu atenção para a voz. Nando Júnior continuou ereto feito um bambu.

— Deve ser brincadeira de algum moleque sem-ver ...

— Abre a porta, porra!!!

Não era nenhum moleque sem-vergonha. Havia dois homens encapuzados do lado de fora do carro. Um deles apontando um revólver para mim.

— Sai do carro agora! — gritou o encapuzado armado. — Anda, rapidinho!

— Faça o que ele está mandando — disse Nari, com uma voz razoavelmente tranqüila.

Abri a porta com as mãos tremendo. Um vento congelante acertou-me em cheio. Agora eu tremia de medo e de frio.

— Mãos na cabeça, babaca!!! — gritou o outro encapuzado. Este parece não estar armado. Mas já deu pra perceber que é tão filho da puta quanto o primeiro. — Quero relógio e celular também!!! Rápido!!!

Desci do carro e levei uma pancada na nuca. A dor foi terrível. Entreguei meu celular, pois relógio eu não uso.

O desarmado ficou parado olhando para a Nari. Ela estava toda despenteada e com a blusa toda torta. A saia estava arreganhada e amassada.

— Se quiser eu termino o serviço, belezinha!!! — disse o desarmado.

— Não temos tempo pra isso, caralho — disse o armado. Ele olhou para Nari. — Está olhando o quê? Desça do carro, piranha!

E Nari obedeceu. Acho que ela está mais tranqüila do que eu. O desarmado passou-lhe a mão na bunda com tanta violência que faltou pouco pra lhe arrancar a saia.

— Gostosa — disse o filho da puta.

— Entra no carro, porra! — gritou o armado para o desarmado.

O cara não obedeceu, ficou parado e deu uma piscada para a Nari. Filho da puta.

— Vamos levar a piranha com a gente — ele disse, colocando a mão na virilha. — Estou precisando me divertir um pouco.

— Nós somos ladrões, não estrupadores! Agora entra no carro, cacete!!!

O desarmado ficou puto da vida. Entrou no carro, mas resmungando:

— O correto é estupradores, não estrupadores! Não sabe nem falar direito.

Eu, hein! O cara é bandido ou professor Pasquale? 

Por fim o armado entrou no carro e fechou a porta. Senti um alívio grande. Agora sumam daqui, filhos da puta!!!

Mas não sumiram. O armado abaixou o vidro e ficou me encarando. Porra, o que será que ele quer agora? Se levarem a Nari será o fim da coitada. Só iremos vê-la novamente nas páginas policiais de um jornal qualquer.

E os bandidos começaram a rir feito duas hienas homossexuais saltitantes numa parada gay. O pior é que eles estavam claramente rindo de mim.

Sei que posso me arrepender, mas não resisti:

— O que foi? — falei, puto pra caralho.

— Sente tesão por bandido, sua bicha? — gritou o armado olhando para mim.

Nari me deu um cutucão e me mostrou do que eles estavam rindo. Eu não tinha me dado conta de uma coisa ... Nando Júnior continuava duro feito pedra. A barraca estava armada. E acho que estava armada desde quando saí do carro. Fiquei sem graça pra caralho.

Quando eu pensei que nada pior poderia acontecer ...

— Tira a roupa agora! — gritou o armado, apontando o revólver para a minha calça.

— Pra que isso? — falei. — Vocês já pegaram o que queriam.

— Cala esta boca e tira a roupa rapidinho, sua bicha! — e o filho da puta olhou para a Nari. — Você também, vagabunda! Anda, rapidinho! Mostra estes peitões pra gente.

Acreditem ou não, Nando Júnior continuou duro. Porra, brother, isso é hora de ficar empolgado? Tem um filho da puta apontando uma arma para nós!!! Sossega, Nando Júnior!

Nem preciso dizer que os bandidos tiveram outra crise de risos.

Desconfio que estes filhos da puta são duas bichas enrustidas, pois nem olharam para a Nari peladinha do meu lado. Ficaram olhando pra mim, às gargalhadas.

— Parem com isso — disse a Nari, de repente.

Os filhos da puta pararam de rir. O armado olhou feio para a Nari.

— Não me faça mudar de idéia, vagabunda — disse ele. — Cala esta boca ou eu levo você com a gente.

— O que vocês estão esperando? — disse o outro encapuzado, rindo. — Queremos as roupas! Rápido, as roupas!

Tremíamos tanto de frio que não conseguíamos nos mover.

— Vocês são surdos? — gritou o armado. — Queremos as roupas, porra!

Recolhi peça por peça do chão e entreguei para os filhos da puta. Eu não acreditava no que estava acontecendo. Parecia pesadelo.

E não era. Estávamos nus em Campos do Jordão. Dá pra acreditar? Ou morremos de vergonha ou morremos de frio. Fodeu.

— Divirtam-se — disse o encapuzado ao volante.

E o filho da puta saiu fritando os pneus, levando o carro do Pezão, meu celular, minha carteira e nossas roupas.

Que beleza ... a vida é bela. Se eu pego o filho da mãe que disse isso ... chuto-lhe o saco com tanta força que as bolas irão parar nos olhos.

— Vamos morrer congelados — disse Nari, batendo com os dentes.

— Abrace-me forte — falei, sem segundas intenções. — Isso vai nos aquecer um pouco.

Está frio pra caraaaaaaaaaaaaalho!!! E detalhe: Nando Júnior continua duro.

— Credo, Nando! — resmungou a Nari. — Sossega isso aí!!!

— Não tenho culpa! Não sei o que deu nele.

E ficamos ali na calçada, nus, abraçados na escuridão. Impressionante como não passava uma alma viva naquela porra de rua. Será que todo mundo morreu e não fomos avisados?

Só porque eu disse ... um farol apontou lá longe.

— Vem vindo um carro — disse a Nari, tremendo muito. — Vamos pedir ajuda!

Vou confessar uma coisa: se não fosse o frio ... eu estaria no céu ... A Nari tem um corpo delicioso. Juro pra vocês, se eu não estivesse sem camisinha aproveitaria a situação e ... peru pra dentro!!!

Lá vem o carro.

— Precisamos de ajuda!!! — gritou ela, bem quando o carro passou por nós.

Acho que não ouviram seus gritos, pois ... Opa, o carro está dando a ré. Uhuuu!

— O que iremos dizer? — eu falei.

— Contaremos que fomos assaltados e ...

O carro parou do nosso lado e foi uma tremenda chuva de gargalhadas.

— Caralho, os dois estão trepando na calçada!!! — gritou uma voz feminina.

— Não é isso não!!! — gritou a Nari, desgrudando-se de mim por um instante. — Nós fomos assaltados e ...

— Bate uma foto, Tati!!! — gritou outra voz feminina.

— Foto não, porra!!! — gritei, escondendo-me atrás da Nari. — Precisamos de ajuda! Fomos assaltados!

Dois flashes. Um atrás do outro. 

— Parem com isso! — gritou a Nari. — Vocês são surdas? Nós precisamos de ...

Outro flash. E o carro saiu em disparada. Mesmo distante eu ainda ouvia as gargalhadas das patricinhas dos infernos.

Putz!!! Nem quero imaginar o que farão com as fotos. Uma vez fotografamos um amigo nosso cagando no mato e a foto caiu na internet. Nem preciso dizer que esta foto roda por aí até hoje, né? Bom, se depender da minha sorte ... Não quero nem imaginar!

— Vamos voltar para o local da premiação — disse a Nari.

— Creio que seremos barrados na porta.

— Seremos, é claro. Mas aí a gente conta o que aconteceu. Alguém irá nos ajudar.

— Espero que sim.

E lá fomos nós. Para não congelarmos voltamos a nos abraçar.

— Nando, seu sem-vergonha, dá um jeito nisso!

Nem preciso dizer o que foi, né? Putz grila, o que deu no Nando Júnior hoje? Será que tinha viagra naquela cerveja que tomei na churrascaria?

Quanto mais perto ficávamos do centro de convenções, mais iluminada ficava a rua, e é claro que mais envergonhados ficávamos.

— Pelo menos aqui não tem formigueiro — pensei em voz alta.

— Hã?

— Deixa pra lá, é uma lonnnnnnnga história.

Capítulo 15 · Dois Novos Discípulos

E lá fomos nós. Para não congelarmos voltamos a nos abraçar.

— Nando, seu sem-vergonha, dá um jeito nisso!

Nem preciso dizer o que foi, né? Putz grila, o que deu no Nando Júnior hoje? Será que tinha viagra naquela cerveja que tomei na churrascaria?

Quanto mais perto ficávamos do centro de convenções, mais iluminada ficava a rua, e é claro que mais envergonhados ficávamos.

— Pelo menos aqui não tem formigueiro — pensei em voz alta.

— Hã?

— Deixa pra lá, é uma lonnnnnnnga história.

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Não demorou muito para chamarmos a atenção do segurança que estava no portão do centro de convenções. Imaginem a cena ... Nari e eu completamente nus, abraçados, tremendo de frio, andando feito um casal de caranguejos bêbados.

O cara não parava de rir, falando alguma coisa no seu rádio. A esta altura deve estar contando pra todos os companheiros de serviço a respeito dos peladões na rua.

Apesar de envergonhados nós prosseguimos com o plano. Seríamos zoados, é claro, mas o centro de convenções era a nossa única esperança de ajuda. Ficar ali parado na rua escura e gelada seria o nosso fim.

— Fomos assaltados — gritou a Nari para o segurança. — Levaram tudo!

O segurança, um negro fortão, tinha quase 2 metros de altura por não sei quanto de largura. Parecia um armário vivo. Ele não sabia se olhava para a Nari ou usava o rádio.

— Precisamos de ajuda — disse eu. Mas ele nem me deu bola, continuou vidrado na Nari. 

Eu não vou culpá-lo, ela é mesmo muito gostosa. E não é todo dia que você vê uma loira peladona na rua, né?

De repente outro carro parou bem pertinho de nós e ...

— Pega o seu celular, Rafael! — gritou alguém de dentro do carro. — Bate uma foto dos tarados!!!

E antes que pudéssemos dizer alguma coisa ... Flash!!! Não acredito. Outra vez? O filho da puta bateu uma foto da minha bunda branca.

Nari ficou possessa. Mais do que eu. Imagine se a foto tivesse sido da bunda dela.

— NÃO SOMOS TARADOS!!!! — gritou ela, com toda a força que possuía em seus pulmões. 

E o carro saiu fincando.

— Tomara que tenha queimado a lente, seus filhos da puta!!! — gritei, fulo da vida.

Nem preciso dizer que a galera do carro saiu morrendo de rir, né? Parecia uma convenção de hienas enlouquecidas. Agora já são quatro fotos. Puta merda, quem será o babaca que teve a idéia de colocar câmera fotográfica em aparelho celular? Se eu pego este filho da puta ...

Quando olhei para o portão já tinha mais um segurança crescendo os olhos sobre a Nari. Trabalhar ninguém quer, né?

— O que vocês estão olhando? — disse a Nari, vermelha de raiva ... mas acho que de vergonha também. — Nunca viram?

Adoro quando ela fica nervosinha assim, ela fica ainda mais sexy. Os seguranças grandalhões ficaram sem graça.

— Vocês foram assaltados mesmo? — perguntou um deles.

— Não — respondi. — Adoramos passar frio e vergonha!!! Por que ninguém acredita na gente, porra?

— Não precisa bancar o engraçadinho, colega — disse o outro segurança.

— Peço desculpas por ele — disse a Nari. — Precisamos nos agasalhar, estamos quase congelando!!!

Ela nem precisou fazer beicinho nem nada, afinal de contas a mina está nua!!! Se uma loira gostosa aparecesse peladinha no seu portão e lhe pedisse alguma coisa você teria a coragem de dizer não??? Só se você fosse muito louco ou muito gay.

O segurança chamou alguém com o seu rádio e pediu permissão para que pudéssemos entrar. A permissão só nos foi concedida quando ele mencionou que um de nós era uma loira de parar o trânsito. Se a Nari se sentiu envaidecida eu não percebi, pois ela continuou com a mesma cara de bunda de sempre.

Um dos seguranças tirou seu paletó e o colocou sobre nós. Muito gentil de sua parte, mas não afastou totalmente o frio.

— Venham comigo — disse o segurança, passando pelo portão. — Meu patrão vai descolar umas roupas e um café bem quente para vocês dois.

Nari e eu finalmente sorrimos. Estávamos quase virando picolés humanos. Acho que mais alguns minutos e cairíamos duros na calçada.

Do portão até a porta que dá no auditório há um longo corredor, talvez trinta ou quarenta metros de comprimento. Quando estávamos no meio do caminho ...

O rádio do segurança chamou:

— Pedrão, precisamos de ajuda, urgente!!!

A voz no rádio soava bem nervosa e preocupada. O segurança tirou o rádio da cintura e respondeu, apreensivo:

— O que foi, Jorge?

— Não sei, cara! Aconteceu alguma coisa naquela primeira sala. Está um corre-corre do caralho!

O grandalhão prendeu o rádio na cintura outra vez e saiu em disparada pelo corredor. Esqueceu completamente de nós. O outro segurança permaneceu parado no portão, mas olhando preocupado para o companheiro. Ou estava olhando a bunda da Nari e não percebi.

— Nossa — disse a Nari, com um olhar assustado. — , o que será que houve?

E ouvimos gritos assustadores no auditório. Gritos de desespero e pavor.

Nari e eu ficamos parados no corredor. Não sabíamos o que fazer. Eu queria entrar para saber o que estava acontecendo, mas me dei conta de que estava pelado. Você perde sua liberdade de ir e vir quando está pelado em público. Só quem já passou por esta experiência sabe do que estou falando. É terrível.

Muita gente passa a vida toda e não se depara com uma situação como esta. Eu não completei nem 20 anos e já estou na minha quarta vez. Putz grila, eu devo ter comido muito cocô quando era criança.

Os gritos ficavam cada vez mais próximos.

— Vem gente aí — disse a Nari, olhando para a porta do auditório.

E estávamos corretos. A porta do auditório que dava para o corredor ficou pequena para tanta gente. Uma multidão de pessoas em pânico surgiu diante de nossos olhos. Alguma coisa muito ruim estava acontecendo lá dentro do centro de convenções. Ninguém sai correndo daquele jeito por causa de uma barata, né? O bagulho deve ser muito sério.

Tivemos de sair do caminho ou seríamos esmagados pela multidão. As pessoas passavam por nós e nem se davam conta da nossa presença. Tudo o que elas queriam era sair correndo dali. Homens, mulheres, crianças, todas enlouquecidas e aos berros. Vi muita gente ferida e outras sem arranhão algum.

— O que está havendo? — perguntei para uma senhora que passava chorando do meu lado. A mulher estava branca de pavor.

— Horrível, horrível!!! — repetia ela. — Um garotinho caiu morto bem na minha frente!!! Eu quase pisei nele, quase ...

E a mulher desmaiou bem na nossa frente.

— Mas que porra está acontecendo lá dentro??? — disse eu, bem assustado, devo confessar. Nunca vi uma cena como esta na minha vida. E olha que já vi muita coisa estranha nestes últimos anos.

Nari olhou espantada para mim.

— É o fim do mundo, Nando. Aposto que a garotinha do sapo tem culpa no cartório.

Será? Não, não pode ser. O que uma garotinha inocente poderia fazer para provocar um tumulto desse tamanho? A Nari está exagerando.

Um barulho de sirene crescia do lado de fora do centro de convenções. Havia várias ambulâncias estacionadas na rua. É, o bagulho é sério mesmo. Que diabos está acontecendo lá dentro? Eu quero saber!

Em questão de segundos surgiu um batalhão de homens e mulheres vestindo macacões brancos e máscaras de oxigênio. Caraaaalho!!! Será mesmo o fim do mundo? Não, não pode ser. Ainda tenho tanta coisa pra fazer, porra! Ménage à trois!!!

— Evacuem a área! — gritou um deles, vestindo um macacão vermelho.

Um de macacão branco chegou até nós dois, dizendo em voz alta e imperativa:

— Vocês precisam sair daqui agora mesmo! — por causa da máscara sua voz saiu bem estranha, tipo Darth Vader. Ele apontou para o portão que dá para a rua. — Ali fora tem uma ambulância esperando por vocês! Agora vão, rápido!

Antes eu perguntei:

— Será que você pode me dizer o que está acontecendo?

— Não há tempo para explicações agora. Vá para a ambulância, nossos médicos irão examiná-los.

Lembrei daquele filme "Epidemia", com o ator Dustin Hoffman. Já assistiram? Caralho, mas isso aqui não é filme! Será que aconteceu alguma coisa com a gente? Hoje realmente não é o meu dia. Eu devia ter ficado na cama.

— Vamos! — disse a Nari, puxando-me pelo braço. — Vamos sair daqui!

E lá fomos nós. Estávamos bem assustados. Agora nossos corpos tremiam de frio e de medo também.

— Nem assim você se acalma, Nando???

Bom, nem vou dizer nada, vocês já sabem do que se trata. O que será que deu no Nando Júnior hoje? Será que congelou na posição de sentido?

Assim que passamos pelo portão fomos separados. Cada um foi levado para uma ambulância diferente. Deixei Nari ficar com o paletó. Fiquei peladão ... outra vez.

Sentaram-me numa cama e começaram a examinar as minhas pupilas. Fizeram vários testes para ver se eu estava enxergando normalmente. E eu estava. Em seguida mediram a minha pressão, e por último me deram uma injeção no braço. A minha sorte é que eu nem tive tempo de ver o tamanho da agulha. O bagulho era enorme. Odeio agulhas.

— Vou morrer? — perguntei para o cara de macacão.

Vocês acham graça, né? Filhos da puta. No meu lugar vocês teriam feito a mesma pergunta.

— Acalme-se — disse o cara. Novamente tive a impressão de estar ouvindo Darth Vader. Só espero que seja médico esta porra. — , está tudo bem com você.

Sei lá, não senti muita segurança.

— Se está tudo bem comigo, por que você me deu uma injeção daquele tamanho?

— Pra você ... — e o cara olhou para o Nando Júnior. — ... relaxar.

E Nando Júnior realmente ficou ... relaxado. Se é que vocês me entendem.

Alguém gritou por socorro do lado de fora da ambulância. O cara de macacão branco saiu em disparada.

Fiquei ali sentado, nu, tremendo de frio e com o bilau mole.

De repente ouvi uma voz familiar se aproximando. Era ele, o pirralho. O guri estava super nervoso e agitado, estava falando mais rápido do que narrador esportivo.

— Eu avisei a mulher que eu não tinha balinha pra todo mundo naquela sala — disse ele. — , mas ela não me ... — e ele finalmente me viu. — Nando, é você?

— Não, seu porra, sou o Ronaldinho Gaúcho, não está vendo?

E ele abriu um largo sorriso.

— Você está vivo!!! Cara, pensei que você tinha morrido!!!

— Ainda não foi desta vez — e sorri.

— E a Montanha?

— Está viva também — disse eu. — , não se preocupe. Mas que diabos aconteceu lá dentro do bagulho? — e apontei para o centro de convenções.

— Aquela doida que me arrastou para a premiação, lembra?

— Lembro.

— Então, ela pediu pra eu fazer uma demonstração da minha invenção.

— Putz!!! 

— Agora olha a merda que deu. Eu falei pra ela que era perigoso, mas a maluca não me deu atenção e ...

— A imbecil abriu a garrafa.

O moleque balançou a cabeça.

— O problema é que eu não trouxe bala pra todo mundo, né? Tinha mais de 400 pessoas naquela sala.

— E quantas balas você trouxe?

— Acho que não tinha nem 50 no pacote.

— Santa Pixirica!!!

— Pois é. A coisa ficou feia lá dentro, Nando. Muita gente passou mal. E quem não passou mal entrou em pânico e saiu correndo, pisando por cima de tudo e de todos.

— Eu vi, guri.

Ele começou a me encarar de cima a baixo.

— Mas por que você está pelado?

— É uma lonnnnnnga história. E o Pezão, morreu?

— Não, guardei uma bala pra ele.

— E onde ele está?

— Saiu para procurar você e a ...

— Montanha — disse Pezão, entrando na ambulância com a Nari ao seu lado.

— Pensei que tinha morrido, seu porra — falei.

— Isso é jeito de se tratar os amigos?

Nari estava vestida. De certa forma fiquei decepcionado. Eu gostava mais dela peladinha. Vocês também, eu aposto. Agora ela estava usando uma calça jeans preta e uma jaqueta do Chicago Bulls. De onde surgiu isso não faço a menor idéia. 

Ela tinha um saco plástico nas mãos.

— Presentinho — disse ela, oferecendo-me o saco plástico. — Espero que goste.

Olhei dentro do saco e abri um puta sorriso ao ver uma calça moletom e uma blusa de lã. As cores não combinavam nem um pouco, mas foda-se!!! Nem perdi tempo, vesti imediatamente. Eu não agüentava mais aquele maldito vento frio congelando o meu saco.

E o cara de macacão entrou na ambulância com outros dois pacientes. Os caras não estavam nada bem, ambos reclamavam de dores no corpo e tontura. 

Saímos de fininho, enquanto os dois moribundos recebiam tratamento.

— Onde você conseguiu estas roupas? — perguntei para a Nari.

Ela hesitou um pouco, depois sussurrou no meu ouvido:

— Tiramos de um cara morto ali atrás.

Putz!!! Era só o que me faltava. 

Bom, mas gente morta não precisa de roupa, precisa? Claro que não. Então foda-se. Morreu, morreu, vai primeiro, sobra eu.

E ficamos os quatro parados no meio da rua, olhando o pisca-pisca das ambulâncias. Havia um monte. Era uma imagem surreal. Parecia final de filme americano. Sinistro.

— Não vejo a hora de voltarmos pra casa — disse o guri, de repente.

— Ainda não sei como faremos isso — disse o Pezão, hipnotizado pelas sirenes.

Será que o Pezão já sabe do roubo do carro? Bom, pra ele ter dito isso a Nari já deve ter lhe contado, né?

— Como assim? — disse o pirralho, confuso — É só a gente entrar no carro e ...

— Roubaram o carro, guri — falei. Foda-se, se não sabia ... ficou sabendo agora.

— O quê? — o moleque quase surtou. — Roubaram? Quando foi isso? E agora? O que faremos?

— Fique calmo — disse a Nari, com uma tranqüilidade incrível. — , o Babalu do Cumbuca é iluminado.

Até o Pezão foi pego de surpresa. Ele olhou espantado para a Nari.

— Como assim, Montanha? — disse ele, intrigado.

— Espera — disse ela, sorrindo. — , você vai entender.

Babalu iluminado? Meu, a Nari viaja. Aproveitei para chutar o balde.

— Você comeu cocô, Nari — disse eu, de frente para ela — Acusou a pobre garotinha do sapo, sendo que o negócio não teve nada a ver com ela.

E Nari começou a rir. Ela ria feito uma hiena grávida da primeira hienazinha. Meu, ela ficou dez vezes mais linda. Eu não fazia a menor idéia do motivo de tanta risada, até que ...

— Que bom que encontramos vocês!!! — gritou alguém atrás de mim, e era uma voz familiar ... eu só não consegui me lembrar de quem era ...

Quando eu me virei não pude acreditar no que estava diante dos meus olhos. Eram os dois bandidos filhos da puta, com o carro do Pezão.

— É o meu carro! — disse o Pezão, arregalando os olhos.

— Pega ladrão!!! — gritou o pirralho.

A confusão em frente ao centro de convenções era tão grande que ninguém ouviu.

— Calma, garoto! — disse um dos bandidos. Detalhe: os dois filhos da puta não estavam mais encapuzados. Mas eram eles. Reconheci pelas vozes.

— O que vocês querem agora? — falei, puto da vida. — A única coisa que sobrou para dar pra vocês é o meu cu, seus filhos da ...

Um dos bandidos saiu do carro. Cheguei a pensar que iria morrer. Mas não foi para me matar que ele saiu. Ele saiu para me entregar as chaves do Corsa.

— Viemos lhe devolver o carro.

Eu não estava acreditando naquilo. Isso não é possível, é? Bandidos não roubam carros e depois os devolvem na mesma noite. Pelo menos eu nunca ouvi uma história assim antes.

— Isso é alguma pegadinha? — falei, segurando as chaves. — Um de vocês é o Sérgio Mallandro disfarçado?

— Não, cara, não é pegadinha — respondeu o outro bandido, descendo do carro.

— Eu não estou entendendo nada — disse o Pezão. — Foram vocês que roubaram o meu carro?

— Sim, fomos nós — disse um dos bandidos, claramente envergonhado.

Incrível. Parecem duas pessoas diferentes. Não lembram nem um pouco aqueles dois filhos da puta que levaram o carro e as nossas roupas.

— Mas aconteceu uma coisa maravilhosa enquanto fugíamos com ele — completou o outro bandido.

— Remorso? — disse o guri.

E os bandidos olharam para o guri. Um deles até colocou a mão carinhosamente sobre o ombro do pirralho, e disse:

— Nós começamos a ouvir um CD que estava no carro.

— CD, que CD?

— O CD do mestre — disse a Nari, abrindo um largo sorriso.

Putz!!! Não acredito nisso. Aquele CD chato pra caralho??? Aquele CD com gravações ridículas do Mestre dos Magos? Não, não pode ser verdade.

Os bandidos olharam com os olhos arregalados para a Nari.

— Você conhece o cara que gravou este CD?

— Claro, ele é o nosso mestre — e Nari olhou para o Pezão.

— Ele é sensacional — disse Pezão. — O mestre mudou o rumo da minha vida.

— Pode crer — disse um dos bandidos. — Ele mudou o rumo das nossas vidas também, podem acreditar.

— Deixa eu ver se entendi direito — falei, segurando-me pra não rir. — , vocês ouviram aquele CD ridículo e resolveram devolver o carro?

— Não achamos nem um pouco ridículo — disse um dos bandidos.

— Aquele CD salvou as nossas vidas — completou o outro.

Meu, fala sério. Posso ter comido muito cocô quando era criança, mas estes dois comeram o dobro. Bom, pelo menos recuperamos o carro!

— Estou muito feliz por vocês — disse a Nari, sorrindo para os malucos. — Aposto que o mestre ficará muito feliz também.

— Então vocês conhecem o mestre pessoalmente?

O olho do bandido até brilhou quando ele fez esta pergunta.

— Sim — disse o Pezão. — , gostariam de conhecê-lo?

— LÓGICO!!! — responderam os malucos, juntinhos.

Vocês não vão acreditar no que aconteceu ... Pezão ofereceu carona para os dois "ex-bandidos". É mole ou querem mais? Era só o que nos faltava.

Pezão ao volante, Nari ao seu lado; eu fui atrás, espremido feito uma salsicha, ao lado do guri e dos dois recém-convertidos.

Puta que pariu. A viagem de volta promete.

— Estou ansiosa para saber os nomes de vocês — disse a Nari.

— Jairo — disse um deles.

— Gérson — disse o outro.

Nari e Pezão começaram a rir. Coisa que na viagem de ida não aconteceu nem uma única vez. Não que eu me recorde.

— Esqueçam estes nomes — disse o Pezão. — , o mestre irá revelar o verdadeiro nome de vocês.

— Receberemos novos nomes?

— Sim — respondeu a Nari. — Por exemplo, o meu é Motanha-Russa.

— Que lindo. Combina mesmo com você, sabia?

Putz! Ninguém merece. 

— E o meu é Cumbuca Rasa.

— Que massa!

Puta merda, eu não acredito no que está acontecendo. Será que um dos bandidos ainda tem aquele revólver? Eu juro que vou me matar se eles continuarem com esta viadagem dos infernos. Eu quero sair daqui!!!

— Nós costumávamos trocar de nomes — disse um dos bandidos, sério. — , mas só quando a gente assaltava bancos.

— Eu chamava o Gérson de Tango.

— E eu chamava o Jairo de Cash.

— Muito original — falei, em tom de ironia. — Por causa do filme, né?

— Como você sabe?

— Todo mundo já assistiu este filme, caralho.

— Puta merda!!! Sério? Eu pensei que ...

— Credo, Jairo! — disse a Nari. — O seu Babalu enfraquece quando você diz palavrão, sabia?

— Sério?

Não agüento mais!!!!!!!!! Alguém, por favor, me tira daqui!!!!!!!!!!

— Vocês ainda estão armados? — perguntei.

— Não — respondeu um deles. — , joguei num bueiro. Nunca mais quero tocar uma arma na minha vida.

Merda.

— Por que, Nando? — perguntou o Pezão.

— Deixa pra lá.

Tudo o que eu posso dizer é que a porra da viagem de volta pareceu ser cinco vezes mais longa do que a de ida. O único que se deu bem na viagem foi o guri. O filho da puta dormiu a viagem inteirinha. Maldito pirralho sortudo dos infernos.

Quando Pezão parou o carro em frente a sua casa o relógio marcava 4h35 da manhã. O céu ainda estava escuro e a rua deserta. A temperatura estava bem mais quente; comecei a sentir calor com aquela blusa de lã e a calça moletom.

— Nem acredito que chegamos — disse eu, com o corpo todo dolorido.

Pezão colocou a cara entre os bancos da frente e disse para os dois malucos sentados ao meu lado:

— Minha casa é a casa de vocês. Serão bem-vindos.

— Babalu Babaloá — disseram eles, juntos.

— Estou muito orgulhosa de você, Cumbuca — disse Nari, e depois deu um beijo no rosto do Pezão.

Porra, não é justo! Eu estava tão próximo de comê-la ... e por causa destes dois panacas eu perdi a minha chance.

Preciso descontar minha raiva em alguém. Já sei ... Juntei todas as forças que ainda me restavam e ...

— ACORDA, FILHO DA PUTA!!!!!!!!!!!!!!! — gritei no ouvido do guri.

O coitado tomou um susto tão grande que pulou meio metro de altura e caiu no colo de um dos malucos.

— O que aconteceu? — gritou ele, apavorado e tremendo.

— Chegamos — disse eu. — Estamos em casa.

Descemos do carro todos tortos. Estávamos exaustos. Pelo menos eu estava podre, não preguei os olhos um segundo sequer. E pra ajudar ainda fiquei no maior aperto, né? Todo mundo sabe que o Corsa não é um carro tão espaçoso assim, imaginem três marmanjos e um moleque sentados no banco de trás ... não é nada confortável. Nadica de nada.

Olhei para a garagem e vi o carro da mãe do Pezão, um Honda Civic preto. Quem pode, pode.

— Sua mãe já voltou de viagem — disse eu, enquanto abria o portão.

Pezão passou lentamente com o carro e me respondeu:

— Pensei que ela só voltaria na semana que vem.

— É, foi o que o guri havia me dito.

Pezão entrou com o Corsa e o estacionou bem atrás do carro da mãe dele.

Fechei o portão. Agora estávamos todos no jardim. Estava bem escuro ainda, até que Pezão acendeu a luz da garagem e iluminou o caminho.

— Venham — disse ele, fazendo gestos com as mãos — , vamos tomar um café bem reforçado.

Putz! Ótima idéia, Pezão! Estou faminto. Acho que eu comeria um boi.

Enquanto aguardávamos Pezão abrir a porta da cozinha reparei que Nari estava meio ansiosa.

— Você está bem? — perguntei, colocando minha mão sobre o seu ombro.

— Estou me sentindo estranha — disse ela, claramente incomodada com alguma coisa. — Estou com um pressentimento muito ruim.

Pezão finalmente abriu a porta da cozinha. Tateou a mão na parede e acendeu o interruptor.

— Entrem e fiquem à vontade — disse Pezão.

Todos entraram, exceto Nari e eu.

— Conte-me o que você tem — disse eu.

— Não sei explicar — disse ela, fazendo cara de quem está com dor de barriga. — Meu Babalu está querendo me dizer alguma coi ...

Um grito partiu de dentro da casa ... Era a voz do Pezão.

Minha curiosidade foi muito grande, larguei a Nari falando sozinha e corri para dentro da casa. Não havia mais ninguém na cozinha, estavam todos na sala.

PUUUUUUUUUUUTA QUE PARIU!!!!!!!!

Vocês não vão acreditar no que estava acontecendo na sala.

CARAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAALHO!!!!!!!!!

Querem mesmo saber?

E agora, conto ou não conto?

Tudo bem, eu conto. Acho que vocês não sobreviveriam a mais um mistério, né? Pobrezinhos ...

Quando cheguei na sala vi o Mestre dos Magos e a mãe do Pezão nus sobre o sofá. Estavam suados e com os cabelos desarrumados. Meu, será que eles estavam ... ??? Porra, Nando, é claro que estavam!!! Dããããããã!!!!

Putz! Se fosse a minha mãe eu matava o anão a pauladas.

— Você chegou cedo, Cumbuca — disse o Mestre dos Magos, calmamente.

A mãe do Pezão catou suas roupas do chão e começou a vesti-las rapidamente, nitidamente muito envergonhada. Caralho, a coroa até que está bem gostosa. Fiquei impressionado. Só os peitos é que me decepcionaram um pouco. Naquelas fotos dela com o Nelson Ned eles pareciam mais firmes.

— Isso são horas de chegar? — disse ela, com a voz trêmula. Nunca vi a mãe do Pezão assim. Ela é sempre fria e cheia de si.

Pezão nem lhe deu atenção. Ele não tirava os olhos do anãozinho nu. Pezão estava de costas para mim, portanto não sei se a expressão no seu rosto era de surpresa, raiva ou ... alegria. Sei lá, né? Vai que ele gostou de saber que o Yoda comeu a mãe. O cara anda meio perturbado ultimamente e ...

— Você tem 30 segundos para desaparecer da minha frente, seu Hobbit do caralho!!!

Hobbit do caralho??? Porra, Pezão ... esta foi muito boa!!! Hahaha ... Gostei. Eu nem sabia que o Pezão curtia O Senhor dos Anéis! Hahaha ...

— Calma, Cumbuca — disse o Mestre dos Magos. — O seu Babalu está um pouco perturbado no momento e ...

— BABALU O CARALHO!!! — gritou o Pezão. Aeeeeee!!! O filho da puta está voltando ao normal!!! — Agora você tem só 20 segundos. Some da minha frente ou lhe arrebento a cara, anão filho da puta dos infernos!!!

A mãe do Pezão ficou apavorada.

— Pára com isso, Maurício! 

— Não se mete, mãe! — respondeu o Pezão, ainda com o olhar fixo no Mestre dos Magos.

Fiquei com pena do guri, o coitado assistia a tudo sentado no sofá, perplexo. Acho que ele estava em estado de choque. O moleque nem pisca. Será que morreu?

— Pronto — disse o Pezão. — Seus 30 segundos já se passaram.

Quando Pezão deu o primeiro passo a frente o guri saltou do sofá e pulou no pescoço do Mestre dos Magos.

— Murilo, não!!! — gritou a mãe do Pezão, desesperada.

O guri e o anão caíram do sofá e começaram a rolar no chão. Eu nunca tinha visto o moleque tão furioso na minha vida. Acho que ele vai matar o anãozinho.

Um dos ex-bandidos me cutucou, dizendo baixinho:

— Eu conheço a voz daquele anão. Por acaso não é o ... ???

— Ele mesmo — respondi. — É o tal do mestre.

Putz!!! Maldita hora em que eu fui abrir a boca. Os malucos resolveram defender o Mestre dos Magos.

— Saia de cima do mestre! — disse um deles, saltando sobre o guri.

— O que pensa que está fazendo? — disse Pezão, furioso.

— Devemos nossas vidas ao mestre — disse o outro maluco. — Iremos defendê-lo com todas as nossas forças.

— Defende isso aqui, ó! — e Pezão desferiu-lhe um golpe certeiro na testa do maluco.

O outro ficou furioso. Quando este partiu pra cima do Pezão eu entrei na briga. Pulei no corpo do maluco e caímos sobre o sofá. Sobraram socos e murros por todos os lados. Confesso que aproveitei para me vingar de tudo o que aqueles babacas haviam aprontado pra cima de pra mim nas últimas horas.

O filho da puta acertou um soco no meu saco que quase me desacordou. Quando ele se levantou do sofá eu chutei-lhe a boca do estômago com toda a força. O golpe foi certeiro, o desgraçado caiu no chão feito um saco de farinha.

Enquanto isso o pau comia nos outros cantos da sala. Pezão com o outro maluco e o guri com o Hobbit do caralho. O anão estava bastante machucado.

— Parem agora mesmo!!! — gritou a mãe do Pezão. — Vocês enlouqueceram? Isso aqui é uma casa, não um ringue de luta-livre!!!

E tudo parou. Cada um de nós tombou para um lado, ofegante e com o corpo dolorido. Coloquei a mão no meu nariz e vi sangue nos meus dedos.

Quando tudo parecia ter acalmado ...

— Eu quero vocês quatro sentados no sofá e quietinhos!!! — gritou um dos malucos, apontando uma arma para nós. Uma arma? Mas ele não tinha ...

Puta merda. Era só o que faltava, viu?

— Calma, calma — disse a mãe do Pezão, com as mãos para o alto.

— Senta no sofá e tudo ficará bem, dona! — e o filho da puta olhou para mim. — Você também, vá para o sofá!

Depois ele apontou a arma para o Pezão e para o guri, obrigando-os a se juntarem a nós no sofá.

— Você não tinha jogado a arma num bueiro? — disse eu, encarando o filho da puta.

Depois me arrependi. Isso poderia ter nos causado mais problemas.

— Eu menti — e ele olhou para o anão, que gemia de dor. — Você está bem, mestre?

O Mestre dos Magos olhou com curiosidade para o maluco, como se tivesse forçando pela memória.

— Eu conheço vocês dois?

— Não, mestre, mas nós o conhecemos — disse o outro maluco, erguendo-se do chão. — Você deu um rumo a nossas vidas.

— Que belo rumo, hein! — disse a mãe do Pezão.

— Fique quieta, dona — e o maluco olhou para o anão. — Seremos seus discípulos de hoje em diante.

Os malucos ajudaram o Mestre dos Magos a se levantar e depois lhe entregaram sua túnica.

— Estou decepcionado com você, Cumbuca — disse o Mestre dos Magos, enquanto vestia sua túnica amarela.

Pezão ficou azul de raiva. Suas veias da testa saltaram todas.

— Se você me chamar de Cumbuca mais uma vez eu juro que enfio um chute no teu cu, anão do caralho!

O Mestre dos Magos balançou a cabeça negativamente.

— Muita raiva você tem.

— Você ainda não viu nada.

Um dos malucos estava apontando a arma para nós. Pezão não poderia fazer absolutamente nada, a não ser ameaçar.

Quando o anão terminou de se vestir ele olhou para a mãe do Pezão.

— Sinto muito que tenha terminado assim.

— Eu também, Joaquim.

Joaquim?????????? O nome do Mestre dos Magos é Joaquim?????????

Fala sério! Não consegui me segurar. Caí na gargalhada, tipo uma hiena com prisão de ventre. Eu ria tanto que pensei que ia mijar na calça moletom.

— Se você encostar um dedo na minha mãe outra vez eu te mato — disse o guri, após um longo inverno.

O Mestre dos Magos sorriu e encarou o pirralho.

— Muito corajoso você é, menino. Isso é uma coisa muito boa. Venha participar das nossas reuniões.

— Nem morto!

Antes de finalizar ... 7 considerações finais:

1) O Mestre dos Magos saiu escoltado pelos seus dois novos discípulos. Pezão queria chamar a polícia a qualquer custo, mas sua mãe não deixou. E pensando bem ... o que a polícia poderia fazer? Qual seria a acusação? A mãe do Pezão deu pro anãozinho por livre e espontânea vontade ... e Tango e Cash não levaram sequer uma maçã da casa.

Dizem que os seguidores do Mestre dos Magos aumentam a cada dia, e que em breve irão erguer uma igreja no centro da cidade. Igreja Humanitária do Reino do Babalu Cósmico seria o nome do bagulho. Babalu Babaloá!

2) Até onde eu sei a mãe do Pezão não se encontrou mais com o Mestre dos Magos, mas para ser sincero eu não coloco a minha mão no fogo.

3) Pezão voltou a ser o velho Pezão filho da puta de sempre. Ontem mesmo nós saímos para a balada e o cara teve a moral de passar pela mesa de uma ex-namorada dele e soltar um peido bem na cara da mina. Deu até dó da coitada. Cheguei até a pensar que precisaria daquela balinha especial do guri.

Ah, e tem mais ... Pezão pegou trauma do nome "Cumbuca". Se você disser este nome na frente dele o cara vira o bicho. Ele prefere ver o satanás a ouvir este nome. Pegou ódio mortal.

4) A Maura ainda não voltou pra casa, mas temos notícias de que ela viajou pra Belo Horizonte com suas novas "amigas" e está se divertindo à beça. Ah, e tem mais ... o traveco é filho de uma atriz super famosa da Rede Globo, porém a cabaçona da Maura não quis nos contar quem ela é. Mas a gente sabe como é mulher ... ela não vai guardar segredo por muito tempo, né? Elas não conseguem. Por exemplo, se meu nome fosse Fernanda vocês já saberiam tudo o que aconteceu em Ubatuba.

5) Meus irmãos continuam acreditando na "lei do silêncio" ... Lembram?

6) Agora a parte triste — pelo menos para mim — , a Nari simplesmente desapareceu do mapa. Vocês acreditam? Evaporou que nem pum no escuro. E o pior de tudo é que eu não tinha o seu endereço nem seu celular. Bom, acho que celular ela nem tinha mesmo. Poxa, eu estou sentindo uma puta falta dela. 

Mas algo está me dizendo que irei vê-la em breve ... Sei lá, intuição.

7) Este último item eu nem ia mencionar, mas ... devo admitir que é algo um tanto quanto intrigante. Vocês devem se lembrar que a Nari nos contou a respeito de um sonho terrível que ela teve quando criança, onde uma voz lhe dizia que o fim dos tempos viria com a chegada do Kaká. Lembram? Então, o primeiro Ka foi o furacão Katrina. Bom, vocês devem estar se perguntando ... E daí, porra???

E daí que eu acho que descobri qual seria o segundo Ka, responsável pelo fim dos tempos.

Querem mesmo saber? Muito juízo com esta informação, hein!

Lembram da garotinha do sapo? Ela foi uma das sobreviventes lá do incidente com o gás tóxico. A mãe dela faleceu, mas a guria não sofreu nem um arranhão sequer. Sinistro, né? Sabem qual é o nome da menina?

Katiúcia.

( FIM )

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