A Punição
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Sinopse
Depois de mais de vinte e sete anos na prisão, um homem se prepara para recuperar a liberdade e revisita o crime que destruiu sua vida. Entre arrependimento, lembranças e a esperança de recomeçar, uma dúvida persiste: cumprir a sentença dos homens será suficiente para encerrar sua punição?
Capítulo único · A Punição
Faltam apenas 40 minutos para eu ser um homem livre novamente. Confesso que estou ansioso, afinal estou confinado aqui neste inferno por 27 anos, 4 meses e 3 dias. Apesar de ter comido o pão que o diabo amassou eu reconheço que mereci cada segundo. O que eu fiz foi imperdoável, monstruoso, e por isso acabei aqui na Penitenciária Morte Negra, em Stoneyfield. Aqui eu convivi com a escória do mundo, desde ladrões de TV a estupradores de garotinhas. Aqui eu presenciei cenas horrendas, como aquela em que Horacios Monterrubias arrancou todos os órgãos de seu companheiro de cela com um canivete. Eu estava muito perto. Como esquecer uma coisa dessas? Eu acho que nunca esquecerei. Metade da minha vida eu passei aqui, literalmente. Hoje estou com 53 anos. Meu Deus, 53 anos! Poucas vezes eu parei para pensar nestes anos todos que eu nunca terei de volta. Estranho eu ter mencionado Deus, pois em todos estes anos eu me lembrei muito pouco Dele. Pelo menos uma vez por mês recebemos a visita de um padre aqui na Morte Negra, todos dizem a mesma coisa: Somente Deus poderá salvar suas almas. Eu não acredito nem desacredito em Deus, só sei que não pedi Sua ajuda. Tudo o que eu queria em todos estes anos era sair daqui, não purificar minha alma. A vida aqui neste lugar foi um inferno, não consegui tempo para abraçar este lado religioso não. Todas aquelas palavras do padre eram muito bonitas sim, eu reconheço, mas o que estas palavras poderiam fazer por mim naqueles momentos em que Jonas Mão de Ferro me espancava e me enrabava por mais de 1 hora? Jonas Mão de Ferro, um negrão com pouco mais de 2 metros, estuprador. Por sorte sua passagem por aqui foi ligeiramente curta, 3 meses, caso contrário eu não estaria aqui agora. Só sei que meu ânus não estaria.
Hoje termina minha punição perante a lei dos homens. Será que também estou absolvido perante as leis de Deus? Talvez sim, talvez não. Não me importa, só sei que eu ainda não consegui me perdoar. Eu nunca pensei que fosse capaz de fazer algo tão monstruoso, mas infelizmente fiz. Arrependido? Sim, é claro, mas o que me adianta? Arrependimento não trará de volta as vidas que tirei, nem recuperar meus 27 anos que gastei aqui na Morte Negra. Muitas vezes eu pensei em me matar. Pra falar a verdade eu pensava nesta hipótese todos os dias nos primeiros 2 anos aqui. Não sei como ainda estou vivo. Talvez milagre. Não, não acredito em milagre. Não aqui, este maldito lugar não inspira pensamentos bons. Este maldito cheiro de morte pelo ar. A cadeira elétrica, ou fritadeira, como é conhecida entre os prisioneiros. Escapei por muito pouco dela, graças ao juiz. Bendito o seja. Que estranho! Faltando pouco mais de 30 minutos para eu sair e já mencionei palavras que nunca mencionara em todos estes 27 anos, Deus, milagre e bendito. Será que depois de todos estes anos resolvi purificar minha alma justo agora? Não, minha alma está longe de ser considerada pura. Meu passado condena. Posso ser um homem melhor agora, mas vou carregar o que fiz naquela maldita tarde de sábado pelo resto da minha vida. Vocês já devem ter percebido que estou relutante em contar o porquê da minha vinda à Morte Negra. Faz apenas 4 anos que os pesadelos deixaram de me atormentar. Temo que eles voltem se eu relembrar os fatos, mas eu contarei. Serei breve, não entrarei em detalhes, mas serei fiel.
Eu estava com 18 anos quando me apaixonei por Cindy Hoffman, a garota mais bonita de Silver Hill. Nós nos conhecemos no drive in. Tanto eu como ela estávamos namorando naquela noite, eu estava com Martha Said e ela com o brutamontes Derek Lus, mas por ironia do destino nós abandonamos o filme na mesma cena e nos esbarramos na fila da pipoca. Quando olhamos um para o outro eu senti que ela era a mulher da minha vida. Não sei dizer como isso é possível, mas realmente aconteceu. Ela me disse o mesmo alguns dias depois, quando nosso romance começou. Namoramos 2 anos e nos casamos. Foram anos maravilhosos, acho que os melhores anos de minha vida. Não trocaria estes 2 anos por nada. Após nos casarmos algumas coisas mudaram, infelizmente para pior, nossa paixão já não era a mesma, a rotina começava a nos desgastar. Completei 22 anos e terminei minha faculdade de história, alguns meses eu aceitei uma vaga de professor no colégio municipal de Silver Hill. O salário não era muito bom, mas agora seria possível realizar o sonho de Cindy, ter um bebê. Talvez isso conseguisse salvar nosso casamento também. Não conseguiu. Cindy se apaixonou pela linda criança que fizemos, Christian Muriel Hoffman, mas estava cada vez mais distante de mim. Eu não sabia mais o que fazer para recuperar seu amor. Eu era fiel, nunca deixara faltar nada em casa, era um bom pai para Christian, mas nada a trazia de volta pros meus braços. Comecei a sentir ciúme do meu próprio filho, afinal ele passava muito mais tempo com Cindy, a mulher que eu amava. Até aí tudo bem, todos me diziam que no começo era assim mesmo, eu só precisava esperar passar aquele período de amamentação e eu teria minha esposa de volta. O problema é que os anos se passaram e Cindy estava cada vez mais fria comigo, mas o pior de tudo ainda estava por vir, eu começara a sentir desprezo por meu próprio filho. Comecei a odiá lo.
Minha situação ficou ainda mais complicada quando eu comecei a suspeitar de que Cindy estava me traindo com o meu melhor amigo. Allan sempre fora paquerador, mesmo após se casar com a ingênua Margot Struders. Talvez ela soubesse dos flertes extraconjugais do marido, mas fingia que não. Certa vez eu vim mais cedo pra casa e avistei Allan deixando minha casa ás pressas. Esquecera a carteira, dissera ele. Tudo bem que ele realmente estivera em casa na noite passada, poderia ter realmente a esquecido, mas eu sabia que havia algo de errado. Cindy já não me amava mais, isso era cada vez mais claro. O cheiro de traição estava no ar.
Saí de férias no colégio e resolvi tirar esta estória a limpo. Fingi que ficaria 2 dias fora para pescar com uns amigos. Cindy não duvidou de nada. Despedi me com mais um beijo frio e fui pra casa de Stuart Movis, professor de álgebra, meu amigo do colégio. Quando a noite caiu eu voltei para espiona la, fiquei escondido nos arbustos em frente a minha casa. Por vezes eu me senti ridículo, afinal não seria mais fácil sentarmos e discutirmos nossa relação? Não seria mais fácil perguntar? Talvez, mas minha mente não enxergava estas opções naquela época. Passava das 22 horas e nada, nenhuma movimentação suspeita em casa. No exato momento em que comecei a me sentir aliviado vi um farol dobrar a esquina, era o carro de Allan. Estacionou em frente a minha casa. Havia algo em suas mãos, uma caixa, parecia um presente. Estava fumando, como sempre. Antes de apertar a campainha jogou o cigarro na grama, na minha grama. Não me lembro de ter sentido tanto ódio como naquele momento. Malditos. Minhas suspeitas eram verdadeiras. Cindy veio lhe receber. Allan lhe passou a caixa, era mesmo um presente. Desgraçado. O ódio dentro de mim aumentava a cada segundo. Fecharam a porta. Fiquei transtornado. Não sabia o que fazer. Passei alguns minutos em transe, paralisado, minhas mãos começaram a tremer. Minha cabeça começou a girar, senti me tonto. Algo dentro de mim estava para despertar. Um ser monstruoso.
Deixei os arbustos e caminhei lentamente até minha própria casa. Entrei sorrateiramente e fui até a cozinha. Peguei uma faca e subi as escadas. Passei pelo quarto de Christian, este estava dormindo. Meu quarto era o último no corredor. A cada passo os gemidos ficavam mais altos, aquilo penetrava meus ouvidos como lâminas. Naquele momento eu não conseguia me lembrar de Cindy como a mulher que eu amava. Quanto mais próximo do quarto menor ficava meu amor por ela. Cheguei até a porta entreaberta e vi os desgraçados transando sobre minha cama. Aquela cena me deixou novamente paralisado, não consegui passar dali, mas o ódio continuava a crescer. O ser monstruoso dentro de mim não me abandonara, estava mais vivo do que nunca. Dei meia volta e caminhei lentamente até o quarto de Christian. Dormindo feito um anjo em sua cama confortável. Estava com 4 anos de idade. Tinha as feições da mãe. Tudo que eu mais queria naquele momento era ver Cindy sofrer, e tudo que ela mais amava estava ali. Assassinei meu próprio filho a facadas. Foram 19 ao todo. O quarto azul estava agora todo vermelho. Seu corpo desfigurado não passava de um pedaço de carne. Havia um monstro dentro de mim e eu nunca percebi. Peguei o corpo em minhas mãos e carreguei até o meu quarto, onde estavam os adúlteros. Estavam se divertindo tanto que não notaram minha entrada. O quarto estava escuro. Acendi o interruptor e joguei o corpo de Christian sobre os dois. Naquele momento eu não sentia mais ódio, na verdade eu não sentia emoção alguma. Desci as escadas ouvindo os gritos desesperados de Cindy. Allan veio em minha direção e me nocauteou com um forte soco no queixo.
— Você enlouqueceu? — gritou ele, com uma cara pálida.
Não respondi nada, afinal não era eu ali. Empurrei o violentamente contra a escada, ele bateu a cabeça no degrau e ficou desacordado. Deixei a casa lentamente. Ainda era possível ouvir os gritos de Cindy. Os vizinhos começaram a chegar. Perguntavam o que estava acontecendo. Quando descobriram eu já estava na delegacia. Eu me entreguei. Fui condenado a cumprir 27 anos na Penitenciária Stoneyfield, ou Morte Negra, como é mais conhecida.
Aproveito para corrigir algo que eu disse lá no começo, sobre ter convivido com a escória do mundo. Após o que eu cometi eu também faço parte dela, que fique bem claro isso.
* * * Liberdade. Não acredito que deixei o inferno. A Morte Negra consegue ser ainda mais tenebrosa por fora. Seus muros altos e pintados de preto passam uma sensação fúnebre. Hoje recomeço minha vida. Meus velhos pais me esperam em Silver Hill. Sei que não sou uma pessoa bem vinda por lá, mas minha passagem será rápida. Só quero meus pertences. Não dá pra recomeçar a vida com uma mala contendo 2 camisas velhas, 1 calça rasgada, 1 cueca, 1 escova de dente e 35 dólares. No momento é tudo o que tenho. O caminho até Silver Hill é longo, resta torcer para que ex condenados consigam carona nesta estrada deserta, o que deve ser muito difícil. Infelizmente não me resta outra opção.
Já estou caminhando a quase 1 hora e nada. Apenas 2 carros passaram por mim, por mais que eu tenha esticado meu polegar não me deram chance. Modéstia á parte, não tenho cara de ex condenado.
Finalmente alguém resolveu parar, mas não sei se poderá me ajudar, o carro vinha em direção contrária a Silver Hill, meu destino. Como não tenho nada a perder resolvi checar.
— Estou indo para Silver Hill, mas parece que você está vindo....
Uma bela mulher esticou a cabeça até a janela, ela estava no volante.
— Eu sei, Jack. Quanto tempo, hein!
— Mas.... como sabe meu nome?
— Será que mudei tanto assim? Não me reconhece?
Realmente, aquele rosto não me era estranho. Sim, a ingênua Margot Struders.
— Margot?
— Sim, Jack. — e abriu a porta do carro. — Entra, seus pais estão lhe esperando. Apesar de todo o surrealismo daquela cena eu entrei no carro. O quê Margot Struders estaria fazendo aqui? Seria algum plano de vingança de Allan? Margot deu meia volta e avançamos a estrada, rumo a Silver Hill, eu espero.
— Então, 27 anos naquele lugar? Deve ter sido horrível.
— Sim, foi, porém ainda estou vivo. Poucos tiveram esta sorte.
— Verdade. Eu já entrei lá uma vez.
— É mesmo?
— Sim, fui visitar um sobrinho. História triste, sabe? Alguns meses depois ele foi morto, lá mesmo. Não quiseram contar todos os detalhes, mas parece que usaram um canivete e o cortaram todo.
Lembrei me de Horacios Monterrubias e seu canivete, mas não quis tocar no assunto. Olhei mais cuidadosamente para Margot. Ela está mais bonita agora, uma bela coroa. Cabelos loiros bem penteados, olhos grandes cheios de maquiagem, lábios finos pintados com um batom vermelho estridente. Estava mais encorpada, mais mulher.
— Margot, perdoe me a curiosidade, mas o que você veio fazer aqui?
— Sabe, Jack, muita coisa aconteceu desde sua prisão. O suicídio de Cindy e...
— O quê? — este sim foi um baita susto.
— Você não soube? Pensei que as notícias chegassem até lá também.
— Algumas sim. Eu costumava saber através dos meus pais, mas depois que adoeceram não puderam me visitar. Eu sabia que eles escondiam muita coisa de mim, mas confesso que também não estava muito a fim de ter notícias de Silver Hill. Mas.... Cindy.... suicídio!
— Sim. A perda do...
Notei que ela ficou sem jeito, afinal o assassino de Christian sou eu.
— Eu a matei também, Margot. Indiretamente.
Silêncio total. Ambos constrangidos. Eu ficava cada vez mais com a pulga atrás da orelha. O que aquela mulher queria com um ex condenado? Eu ficava imaginando quando ela iria se tocar de que estava sentada ao lado de alguém que foi capaz de assassinar o próprio filho. Eu realmente não estou entendendo esta mulher. Ela estaria louca?
— Você disse que muita coisa mudou. Que coisas seriam estas?
Ela suspirou, abriu o porta luvas e tirou um maço de cigarro.
— Quer?
— Aceito.
Ambos começamos a fumar.
— Bom, tudo começou quando encontraram Cindy enforcada na varanda.
Por mais bizarro e cínico que pareça, derramei algumas lágrimas.
— Allan ficou transtornado com a morte de Cindy. Naquela noite ele saiu de casa, embebedou se, pegou o carro e bateu de frente com um poste. Morreu 1 hora depois no hospital. Dia trágico aquele.
— Realmente, muita informação pra tão pouco tempo.
— Sabe, Jack, eu sabia das escapadas do Allan até sua casa. Mesmo assim nós éramos muito felizes.
— Então você sabia?
— Sim, sempre soube.
Silêncio novamente.
— Ás vezes eu penso que eu deveria ter te contado. Talvez evitasse toda aquela tragédia.
— Margot, não. Isso só fará você se sentir culpada. Por favor, não faça isso consigo mesma. Cometi algo monstruoso e o único culpado sou eu.
— Mas é aí que eu queria chegar, Jack. Deixe me continuar a história. Após aquele dia trágico eu fiquei sozinha. Minha família mora na Irlanda. Eu só tinha meu Allan. Senti me muito só.
Margot começou a chorar.
— Sinto muito.
— Passei a freqüentar a igreja, lá eu não me sentia assim tão só. Foi lá que conheci seus pais. Sabe, hoje eles são como pais pra mim. Nossa dor nos uniu. Eles sofriam com a distância do filho, você. Acabei fazendo o papel da filha que eles nunca tiveram.
Esta notícia me deixou feliz. Eu passava horas pensando no sofrimento dos meus pais, tendo que aturar toda uma cidade acusando os de terem criado um monstro em casa. Esses pensamentos me angustiavam tremendamente. Chorei noites e noites.
— Obrigado, Margot.
— Não precisa me agradecer. Eu sim, devo minha vida a seus pais. Sei que sem eles eu não teria resistido muito tempo.
Já estava escurecendo. Margot acendeu os faróis.
— Sei que você deve estar se perguntando o que vim fazer aqui.
— Agora nem tanto.
— Jack, apesar de ter preenchido um vazio na vida dos seus pais, eles nunca te esqueceram. Fique sossegado quanto a isso. Sempre lembravam de você com todo o carinho deste mundo. Não entendiam como você fora capaz de fazer aquilo, mas nunca deixaram de te amar. Convivi todos estes anos com eles, ouvindo suas histórias, aprendendo cada detalhe, cada momento da sua vida. Foi isso que me fascinou. Você era perfeito.
— Assim não vale, lógico que a versão dos pais é sempre a melhor.
Ela sorriu por um instante.
— Tem razão, mas não digo isso somente baseado nas histórias que me passaram. Você era perfeito. Não havia nada suspeito em todos aqueles anos. Sabe, Jack, eu comecei a gostar de você. Comecei a vê lo como um irmão, a princípio.
Virou se pra mim, sorrindo. Quando voltou os olhos para estrada perdeu o controle do carro.
— Jesus Cristo! — gritou ela.
O carro capotou umas 2 vezes e batemos numa árvore.
* * *
Acordamos com o sol tinindo em nossos rostos. Meu corpo todo doía. Olhei rapidamente para o lado e vi o rosto de Margot sujo de sangue. Livrei nos dos nossos cintos de segurança e balancei suavemente o corpo dela.
— Você está bem?
Ela abriu os olhos lentamente. O sangue havia escorrido de um arranhão que sofrera na testa. Não parecia ser nada muito grave.
— Acho que sim — respondeu ela. — Só estou um pouco tonta.
— Você deve ter perdido um pouco de sangue.
A porta estava emperrada. Usei toda a força que eu tinha para golpeá la com um chute. Conseguí abrí la. Puxei Margot para fora com cuidado.
— Passamos a noite inteira desacordados?
— Parece que sim.
— Minha cabeça! Como dói!
— Precisamos voltar para a estrada. Não devemos estar muito longe de casa.
— Eu vi algo na estrada.
Batemos numa árvore bem próxima a estrada.
— Não estou vendo nada.
— Não agora, Jack. No momento do acidente. Eu vi um carrinho de bebê. Foi por isso que girei o volante daquela maneira.
— Margot, não havia nada na estrada. Eu me lembro.
— Mas foi tão real, Jack! Havia um carrinho de bebê no meio da estrada, eu vi!
Aquele corte na cabeça de Margot poderia estar afetando seu juízo. Resolvi não argumentar. Seria mais fácil concordar. Peguei a em meus braços e voltamos para a estrada. Agora precisamos urgente de uma carona. Apesar das dores eu estou bem, mas não posso dizer o mesmo de Margot.
Alguns minutos mais e avistei um Buick preto se aproximar. Era nossa chance. Quem se recusaria a dar carona a um casal ferido? O Buick parou lentamente diante de nós. Um rapaz aparentando ter pouco mais de 20 anos desceu do carro. Seu rosto de cicatriz despertou minha atenção.
— Vocês estão bem? Meu Deus! Aquele era o seu carro?
— Era sim. — respondi. — Minha... esposa precisa de atendimento. Pode nos ajudar?
— Achei melhor dizer que éramos casados.
— Claro! — o rapaz abriu a porta do Buick negro.
Sentei Margot delicadamente no banco de trás e deslizei me ao lado dela. O rapaz da cicatriz entrou rapidamente no carro e avançamos novamente a estrada.
— Qual o seu nome, meu rapaz? — perguntei. Havia algo de familiar.
— Todos me chamam de Cicatriz. — ele sorriu.
Até Margot esboçou um sorriso.
— Sou Jack Muriel e esta é minha esposa Margot.
Ele estendeu seu braço direito por entre os bancos e apertou minha mão.
— Muito prazer. Vocês tiveram sorte, hein! Poucas vezes vi um carro ficar daquele jeito.
— Sim, eu acho.
— Aonde estavam indo?
— Silver Hill.
— Deixo vocês lá.
— Se não for muito incômodo.
— É caminho mesmo. Em 15 minutos estaremos lá.
Cicatriz, como ele mesmo se intitulou, lembra me alguém. Mas quem? Provavelmente algum prisioneiro, a maioria possui cicatrizes. Acho que é isso.
A velha e empoeirada placa “Sejam Bem Vindos a Silver Hill – Terra da Paz e Harmonia” dizia tudo. Eu estava de volta. Senti uma sensação muito estranha. Um friozinho na barriga.
— O hospital ainda fica no mesmo lugar? — perguntei a Margot.
— Não preciso de médico, Jack. Estou bem.
— Mas este arranhão aí na sua testa, meu bem? — Fazia tanto tempo que eu não dizia isso, “Meu Bem”.
— Não se preocupe. Já parou de sangrar faz muito tempo. Estou bem, acredite. Tudo que eu quero é um banho e descanso. Vamos pra casa.
— Tudo bem. — Margot parecia estar realmente melhor.
Passei as indicações para Cicatriz.
— Bela cidade — disse ele. — todas estas cidadezinhas do interior são muito bonitas.
— O que estraga é o povo.
Cicatriz sorriu.
— Estou brincando, finja que não ouvi isso.
A velha casa dos meus pais. Meu coração quase não agüentou. Cicatriz estacionou o Buick negro.
— Faz muito tempo que você está fora? — perguntou Cicatriz.
— Sim, muito tempo. — respondi. — Justamente o que não quero tomar seu.
— Não se preocupe, tenho tempo de sobra.
— Então entra conosco. Venha tomar um café.
— Outro dia, Jack. Talvez outro dia.
Desci do carro, Margot veio logo em seguida.
— Cicatriz, sei que é bobagem, mas você poderia me dizer seu nome verdadeiro?
— Não lembra o nome do próprio filho, pai? Christian Muriel Hoffman.
— O quê? Mas que brincadeira de mau gosto é esta?
Ele começou a rir. Engatou a primeira marcha no Buick negro e saiu a toda velocidade. Ouvi sua risada por uns 2 quarteirões.
— Foi uma brincadeira de muito mau gosto. — disse Margot. — Muita gente sabia que você sairia da penitenciária hoje, Jack. Eu já temia por isso.
— Mesmo assim havia algo naquele olhar, Margot.
— Você está tremendo, Jack! — eu estava mesmo. Brincadeira ou não, aquilo me abalou um pouco.
— Venha, vamos entrar. Seus pais esperaram muito tempo por este momento.
— Eu também.
Entramos e a casa estava muito calma. Silêncio total. Um cheiro estranho, mas não consigo descobrir do quê. Sobre a mesinha da sala havia um porta retratos, de um lado uma foto minha aos 13 anos, do outro uma foto de Margot mais recente.
— Pai, mãe! Estou em casa!
Nenhuma resposta.
— O que houve? — disse Margot. — Eles quase não saem de casa, suas pernas estão fracas.
Olhei para a sala de jantar e vi algo assustador. Havia 2 caixões e muitas velas. Margot também os viu.
— Não, não é possível! — gritou ela.
Fiquei paralisado. Senti um peso enorme em minhas pernas, eu não conseguia me mover. Margot correu desesperada até os caixões. Ao olhar para os corpos ela começou a gritar e chorar. Aquilo a chocou muito, pois eu nunca vira alguém chorar daquela forma. Mas eu estava prestes a descobrir o motivo. Ouvi passos lentos vindos da cozinha. Meus pais, estavam chorando. Gritei como nunca fizera antes.
— Pai! Mãe! Estão vivos!
Eles não me deram a menor atenção. Não me ouviram. Foi quando eu me dei conta de algo. Se não são eles nos caixões, então quem são? Reuni todas minhas forças e caminhei até os 2 caixões de madeira. Havia 2 corpos ali. O meu e de Margot.
Cicatriz entrou com um sorriso irônico nos lábios.
— Perdoe me, pai. Esqueci de dizer, vocês não tiveram tanta sorte assim naquele acidente. Bom, acho que vocês já perceberam, certo? Vem, pai, eu levo você.
— O quê? Aonde?
— Acha que aqueles 27 anos atrás das grades foram sua punição? — e começou a gargalhar. — Pai, sua punição ainda nem começou.
FIM
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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