A Menina, o Monge e o Demônio
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Sinopse
A despedida de uma bibliotecária prestes a se aposentar é interrompida por um grito vindo de um dos corredores. O que parecia um susto passageiro abre caminho para uma história de mistério e forças sombrias, na qual uma menina, um monge e uma presença demoníaca terão seus destinos entrelaçados.
Capítulo único · A Menina, o Monge e o Demônio
Dona Verinha, como todos a chamavam, iria se aposentar. Quarenta anos dedicados à biblioteca Santo Antônio, em Pindamonhangaba. Todos os seus colegas de trabalho, sem exceção, já estavam sentindo saudade, antes mesmo de sua despedida oficial. Reuniram-se no refeitório da biblioteca, só esperando por ela.
Quando a senhorinha de 61 anos entrou e todos cantaram Parabéns pra Você, ela quase enfartou. Seus olhinhos cor de mel brilhavam.
— Agora eu entendi porque todos sumiram! — disse Verinha, nitidamente emocionada.
— Pensou que sairia sem uma festinha de despedida? — disse Marina, outra bibliotecária das antigas.
— Não vai nos abandonar, né? — disse Paulo, o segurança.
— Estou apenas me aposentando; não morri. Sou viúva e não tenho filhos, para onde mais eu iria? E sabem que eu adoro ler, não é? Estarei sempre por perto.
Todos a abraçaram; um por um.
— Vocês são a minha família.
— O primeiro pedaço de bolo é meu, hein! — disse Laura, a funcionária mais nova.
Quando Verinha se preparava para cortar o primeiro pedaço de bolo, um grito ecoou por todos os cantos da biblioteca. Ninguém conseguiu ficar indiferente.
Paulo largou o copo de refrigerante sobre a pia e saiu em disparada.
— Veio de lá! — disse um garoto, apontando para o final do corredor nove.
Tinha uma garota sentada no chão, com a cabeça entre os joelhos. A coitada estava branca e tremia como se estivesse nua no Alasca.
— O que houve? — perguntou Paulo.
Sua respiração estava tão ofegante que ela mal conseguia falar. Ela apontava para o final do corredor, mas olhava na direção contrária.
— Não estou vendo ninguém. Alguém te fez alguma coisa?
Ela balançou a cabeça negativamente. Seus lábios tremiam.
— Então o que aconteceu? Por que gritou daquele jeito?
A garota finalmente conseguiu dizer alguma coisa:
— Tinha uma menina. Eu vi o fantasma de uma menina!
Paulo ficou sem saber o que dizer sobre aquilo. Pediu que ela o acompanhasse para tomar um copo de água com açúcar.
No refeitório, todos estavam curiosos para saber o que havia se passado com a garota. Quando ela chegou com o Paulo, ficaram olhando para ela. Verinha, ao perceber que a pobre menina estava super constrangida, blindou-a dos seus colegas.
— Foi só um susto, né? — disse Verinha para a garota, dando uma piscadela no final.
A garota é bonita. Baixinha. Tem os cabelos curtinhos, bem loiros e olhos azuis lindos. Olívia é o seu nome. Veste uma camisa com a foto do Coringa, eterno vilão do Batman. A saia Jeans está tão batida que parece ter a mesma idade dela, uns 15 ou 16 anos.
Praticamente todos já haviam deixado o refeitório quando Verinha chegou no ouvido da garota e sussurrou:
— Eu acredito em você. Acho que sei o que você viu.
Olívia olhou meio assustada para ela e respondeu com uma pergunta:
— Você também já viu?
— Só uma vez, há muito tempo atrás. A pobrezinha não tem os braços, né?
A garota sorriu, pois finalmente acreditou nela.
— Quer que eu ligue para alguém vir lhe buscar?
Ela apenas balançou a cabeça, dizendo que sim.
— Seu pai? Sua mãe?
— Minha irmã. Meus pais estão trabalhando.
— OK. Diz o número que eu ligo pra ela.
Verinha ligou diversas vezes, mas ninguém atendeu.
O relógio marcava 18h12 e a biblioteca fechava as portas. Fim do expediente. Verinha estava tão preocupada com a menina que se esqueceu de que estava saindo por aquela porta pela última vez, como funcionária. De agora em diante, só voltaria para pegar um livro ou outro. Ou rever os amigos.
— Vocês querem uma carona? — disse Laura, passando por Verinha e Olívia.
— Você dirige? — perguntou Verinha, franzindo a testa.
— Finalmente tirei carta. Cansei de depender da carona do meu pai.
— Você tem carinha de menina, nem parece ter idade para isso.
— Isso é por sua conta, Verinha. Já sou até mãe, esqueceu? Mas, e aí, — ela olhou para Olívia. — mora onde?
— Jardim Cidade Nova.
— Ótimo, não é tão longe da minha casa. Vamos?
No primeiro semáforo que pararam, Laura não resistiu e perguntou à Olívia:
— Que grito foi aquele?
Verinha, sentada ao lado da motorista, quase surtou.
— Deixe-a em paz, Laura. Ela não está em condições de ...
— Eu vi uma menina sem os braços.
— Que horror! — disse Laura, num tom zombeteiro.
— Eu nunca tinha visto um fantasma antes.
— O quê? Como assim, fantasma? Eu pensei que você tinha visto uma menina sem os braços em algum livro.
— Vamos mudar de assunto. Não vê que a menina está muito abalada?
— Tudo bem, Verinha. Ninguém vai acreditar em mim mesmo.
Verinha fez sinal para que ela ficasse quieta. Laura viu quando ela fez o sinal para a menina.
— Vocês estão de segredinhos, é?
— Posso ser sincera? — disse Olívia. — Achei incrível! Lógico que me assustei na hora. Ninguém espera encontrar um fantasma caminhando pelos corredores de uma biblioteca, mas pensando bem, foi legal. Ela até sorriu para mim.
— Sério?
Laura era conhecida como a piadista da biblioteca. Adorava tirar sarro de todo mundo. Estava sempre falando pelos cotovelos e dando risada. Todos gostavam muito dela, exceto quando ela forçava a barra.
— Não devemos brincar com certos assuntos — disse a aposentada, séria.
— Peço desculpas. Mas não acredito nestas coisas de fantasmas e espíritos. Para mim, morreu, morreu. Acabou. Game Over.
Chegando à casa da menina ...
— Muito obrigada — disse ela. — Querem entrar para tomar um café?
— Café? Se eu comer mais alguma coisa vou explodir.
As três riram.
— Você vai ficar bem? — disse Verinha, com um ar de avó. — Sua irmã está em casa, né?
— Sim, estou bem, Verinha. Você é um amorzinho de pessoa. Vejo a janela da sala aberta, então ela está em casa.
— Não espalhe para todo mundo o que você viu, está bem? — disse baixinho no ouvido da garota. — Conselho de amiga.
— OK. Vou tentar.
Quando Olívia fechou o portão, Laura ligou o carro e disse:
— Você também vê fantasmas, Verinha?
— Que bobagem. Estas coisas não existem.
— Você ficou um bom tempo conversando com ela. Pareciam compartilhar alguma coisa, algum ... segredo. Pareciam velhas amigas.
— Esquece isso, Laura.
— Esquecer? Fácil pra você, né? Aposentada, não vai mais freqüentar aquele lugar. E eu?
Laura completará 2 meses de biblioteca na próxima semana. Ela mesma diz que tem o trabalho mais chato de todos. Contas a pagar e a receber. Passa a maior parte do dia lendo romances ou histórias dos Cavaleiros Templários, sua paixão.
— Não se preocupe, você vai ficar bem. Trabalhei 40 anos naquele lugar e sobrevivi, não foi? Nem rugas eu tenho.
Elas riram.
— Não preciso me preocupar com fantasmas mexendo no meu computador então.
— Cadê a garota que não acredita em fantasmas e espíritos? Você está mais assustada que a Olívia.
De repente a aposentada arregalou os olhos e passou a respirar com muita dificuldade. Parecia que ia ter um ataque do coração. Laura ficou muito assustada.
— O que foi? O que você tem?
Verinha olhava fixamente para alguém na calçada: um homem. Este caminhava lentamente, estava de costas para elas.
— Você também está vendo? — perguntou Verinha, aterrorizada.
— Quem, aquele cara?
— É ele, o monge!
— Monge? Não estou vendo nenhum monge.
Laura ultrapassou o homem e encostou o carro uns 15 metros a frente.
— Ele está usando uma camisa marrom, mas não se trata de um monge. Acho até que eu o conheço, parece muito com o Borba, amigo do meu pai.
A aposentada tirou os óculos, esfregou os olhos e voltou a colocar os óculos.
— Sim, é o Borba! — disse Laura, acenando para o homem. — Como vai o senhor, tudo bem?
— Tudo bem, Laurinha, e o seu pai? — o homem era só sorrisos.
— Vai bem. Aparece lá em casa para visitá-lo, ele vai gostar muito. Tudo de bom para o senhor, viu?
— Obrigado! Qualquer dia eu passo lá para jogarmos um truco. Manda um abraço para o seu pai.
— Mando sim!
E o homem continuou seu caminho.
Laura olhou preocupada para a aposentada. Verinha estava com a mão direita sobre o peito. Estava em choque.
— Desculpa se te assustei — disse ela. — Vamos embora daqui, por favor.
— Claro, vamos já.
— Não estou muito bem. Para dizer a verdade, não estou nada bem.
— Quer ir para o hospital? Você está muito pálida.
— Não. Só preciso de um bom banho e deitar na minha cama. É tudo o que eu mais quero.
Ambas ficaram em silêncio até a casa da aposentada. Quando Laura desligou o carro, não resistiu e perguntou:
— Que negócio foi aquele de monge? Você quase me matou de susto.
Verinha engoliu seco, coçou o queixo, revirou os olhos, mas enfim respondeu:
— Tudo bem. O que vai fazer amanhã cedo?
— Além de ficar com o meu menino? Nada.
— Então venha tomar um café comigo. Conto toda a história. Você tem todo o direito de saber, afinal de contas você vai trabalhar naquele lugar. E se a menina apareceu hoje, outras coisas estão por vir.
Agora quem sentiu um arrepio na espinha foi Laura.
— Credo, mulher, assim você me assusta.
A aposentada permaneceu séria.
— Ah, e mais uma coisa, não traga o seu menino. Por mais que eu adore criança, o que vou lhe contar não é história em quadrinhos.
Era sábado, não havia expediente na biblioteca. Laura levantou bem cedo e correu para a casa da aposentada. Verinha ainda preparava o café quando a campainha tocou.
— Eu estava à sua espera — disse a dona da casa. E sorriu. Mas seu sorriso não parecia o mesmo de sempre.
— Não consegui dormir esta noite. Confesso que se eu pudesse, viria ontem à noite, mas não quis te incomodar.
— Poderia ter vindo. Também não preguei os olhos. Entre, entre.
A casa era simples, porém muito arrumada. Quanta diferença da casa da outra, onde um menino de 2 anos não deixa absolutamente nada ficar no seu lugar.
Laura afastou duas almofadas com bordados de gato e se ajeitou confortavelmente no canto do sofá. Verinha foi até a cozinha pegar o café.
— Não sou de me assustar fácil, mas você conseguiu.
A aposentada ainda estava na cozinha quando respondeu:
— Perdoe-me, não foi minha intenção.
— Eu sei, mulher! Mas ...
Verinha apareceu à porta com uma bandeja com duas xícaras de café e algumas bolachas de água e sal.
— Não me lembro quando foi a última vez que alguém me trouxe o café da manhã numa bandeja.
— Sério? Que triste. Seu namorado não é romântico?
— Se pelo menos eu tivesse um, né?
— Mas você é tão bonita! Como não tem namorado?
Ela deu de ombros.
E Laura era mesmo muito bonita. Morena jambo. Seus cabelos encaracolados estavam sempre cheirosos e bem tratados. É alta e magra. De longe há quem a confunda com uma modelo de passarela, apesar de não levar o menor jeito para o negócio. Nunca se viu criatura mais desengonçada. Seu olhar é doce e seus lábios são finos. O nariz é delicado, apesar de um pouco longo demais.
Verinha sentou-se na poltrona, de frente para a outra. De pernas cruzadas e com os dedos tamborilando no braço do sofá, Laura aguardava ansiosa.
— Antes que você me conte o que vai me contar, só tenho uma pergunta: vou precisar trocar de emprego?
— Não vou mentir; acho que muitas pessoas fariam isso.
Laura tomou todo o seu café num gole só. Não era exatamente a resposta que ela queria ouvir.
— Não posso me dar ao luxo de ficar desempregada agora. Tenho filho pequeno para criar. E já te contei que o pai dele não me ajuda em nada, né? Um inútil.
— Sim, você já me contou.
— Mas eu vim aqui para ouvir tudo o que você tiver para me dizer. Por favor não me esconda nada.
— Prometo te contar tudo o que eu sei.
As duas trocaram olhares por alguns segundos, em silêncio.
— Não sei por onde começar. Trabalhei minha vida toda numa biblioteca, mas sou uma péssima contadora de histórias. Irônico, não?
— Vou te ajudar então. Uma pergunta: você já viu coisas estranhas na nossa biblioteca?
Verinha tomou seu último gole de café, antes de dizer com toda a calma do mundo:
— Sim, eu já vi.
— A tal da menina sem os braços?
Verinha fez que sim com a cabeça.
— Mas fantasmas não existem.
— Até o dia em que eles aparecem bem na sua frente, aí eles passam a existir. A menina não me assustou muito, mas a segunda aparição me deixou de cabelos em pé.
— Segunda? Tem mais?
— Sim — o rosto da aposentada murchou como uma flor.
— Credo, Verinha. Mas estas coisas já te fizeram alguma coisa?
— Sim, e não. Graças a Deus não me aconteceu nada grave, em comparação a outras pessoas. Mas sempre que lembro do nosso encontro me bate uma agonia tão forte que chega a comer um pedaço da minha alma. Não sei explicar direito. Nada do que eu vou te contar nos próximos minutos tem uma explicação lógica. Mas nem por isso deixou de ser verdade. Posso estar aposentada, mas não estou louca.
— Isso fica pior a cada minuto.
— Eu tinha apenas alguns meses de biblioteca quando eu vi aquela coisa nojenta pela primeira vez. O maldito monge.
— Mas monges não são bonzinhos?
— Sim, mas este eu acho que não era. Laurinha, só de lembrar daquela criatura me encarando dá vontade de vomitar. Nunca vi um olhar tão libidinoso, tão maligno, tão assustador.
— Quantas vezes você o viu?
— Para a minha sorte, apenas uma. E espero que tenha sido a única.
— Dos funcionários da biblioteca, quem já viu estas coisas?
— Uma ex-funcionária, a Celinha, mas já está morta.
Laura arregalou os olhos.
— Calma, a Celinha morreu de pneumonia, não tem nenhuma relação com os espíritos. Bom, não que eu saiba.
— Que bom.
— Mas não posso dizer o mesmo de algumas outras pessoas que freqüentaram a biblioteca. Todas morreram de forma estranha, e tenho certeza de que suas mortes possuem relação direta com o livro do corredor nove.
— Livro? Que livro?
— No corredor nove da biblioteca tem um livro misterioso; amaldiçoado.
— Livro amaldiçoado? Como assim?
— É a única palavra que encontrei para descrevê-lo.
— OK. Se este livro é amaldiçoado, por que não se livrou dele?
— E você acha que eu não tentei? Nada funciona. Já joguei no lixo. Já rasguei. Já tentei de tudo. E sei que arrisquei a minha própria vida ao fazer isso. Laura, você não imagina o inferno que virou a minha vida quando eu mexi com aquela coisa. Desde então nunca mais deixei faltar sal grosso nas minhas portas e janelas.
— Credo, Verinha! Mas você já tentou de tudo mesmo? Já o queimou?
— Já, minha filha. Acredite ou não, ele sempre volta.
— Não pode ser, isso é impossível.
— Estou falando a verdade. Ele sempre volta. Sempre no mesmo corredor nove. Sempre na mesma prateleira. Sempre no dia 19 do mês.
Laura soltou uma gargalhada rápida.
— Verinha, você vai me desculpar, mas ... sinceramente? Tá meio difícil de acreditar nessa história.
— Você deve estar me achando uma maluca, não é? Eu te entendo perfeitamente. Se eu não tivesse visto aquilo tudo com os meus próprios olhos, eu jamais acreditaria.
— Você disse que tentou de tudo com o tal livro. Tentou exorcizá-lo?
Neste momento os olhos de Verinha se encheram de lágrimas. Em questão de segundos estava aos prantos. Chorava feito uma criança perdida da mãe.
— Lembra do Padre Laércio? — disse a aposentada.
— E quem não se lembra? Todo mundo lembra exatamente do que estava fazendo quando recebeu a notícia da sua morte. Eu estava namorando o safado do pai do meu filho naquela época.
— Foi ele que chamou o livro de amaldiçoado pela primeira vez. Pedi para que ele viesse dar uma olhada no livro; também pedi que não contasse a mais ninguém a respeito dele. Pobre coitado, morreu alguns dias depois. Coincidência? Aposto que não. O livro o matou.
— Você acha que os fantasmas o mataram?
— Não. Não acho que tenham sido os fantasmas.
— Então quem foi?
Verinha demorou a responder. Parecia procurar uma palavra adequada.
— Um espírito demoníaco. Padre Laércio me contou que vira a face de um demônio quando tocou o livro pela primeira vez. Jamais esquecerei sua cara de pavor. Laura, por mais que você não acredite numa palavra do que eu estou dizendo, vou lhe fazer um pedido muito importante: não brinque com este assunto. Jamais desafie o livro. Melhor, fique longe dele, por favor! Você me promete?
— Prometo.
— Promete mesmo? Não brinque com aquela coisa, Laurinha!
— Fica tranqüila, eu acho até que nunca passei por aquele corredor. Meus romances ficam no corredor sete.
— Que bom, continue assim.
— Qual o nome do livro? Você já o leu?
— Não tem nome. Não há nada escrito nele.
— Como assim? Que livro chato.
— Laurinha, repito: não brinque com coisa séria.
— Pode deixar. Bom, acho que já está na hora de ir embora. Preciso ir à feira ainda.
— Pense no seu menino, antes de fazer alguma besteira.
— Credo, mulher, está me jogando praga?
— Nossa, Laura, você acha mesmo que eu faria isso?
— Desculpa. Falei sem querer.
As duas se abraçaram. Verinha sussurrou no ouvido da garota:
— Eu sonhei com você esta noite.
— Sério, e como foi?
— No sonho, ele estava muito interessado em você. Interessado não. Obcecado.
— Ele quem? Algum rapaz?
— O demônio, do livro.
Laura fechou a cara, muito irritada.
— Preciso ir — disse ela, seca. — Muito obrigada pelo café, pelas bolachas e por compartilhar suas histórias. Até que foi bem interessante.
— Eu sabia que ia ser difícil te convencer com palavras. Mas infelizmente o que está por vir talvez a convença.
— E o que está por vir?
— Ontem a Olívia viu a menina sem os braços. Se isso aconteceu, significa que muito em breve alguém terá o terrível desprazer de encontrar o monge. E este assusta.
— Você viu a menina e o monge e continua viva. Por quê? O que você tem de especial, hein, Verinha?
— Parece que o demônio do livro escolhe a dedo as suas vítimas. Não sei exatamente o que o atrai, mas sempre são mulheres jovens e muito bonitas. Jovem eu até já fui, mas bonita ...
— Bobinha, você é uma coroa enxuta. Qualquer dia te apresento para o meu pai, hein! O velho está viúvo já faz tempo.
Segunda-feira, 8 da manhã, biblioteca aberta novamente.
Sem nada para fazer, Laura ficava perambulando de um lado para o outro. Gostava de brincar com os colegas de trabalho, muitas vezes os irritando profundamente com piadinhas de gosto duvidoso.
— Sabe como o português faz aborto? — perguntou ela para Janete, uma das estagiárias.
— Já sei: taca pedra na cegonha! Você já me contou essa, Laurinha!
E a estagiária continuou seu caminho, apressada. Laura percebeu que a estagiária tinha entrado justamente no corredor nove. Por um instante sentiu uma vontade imensa de ir atrás dela. Uma curiosidade a invadiu de supetão. O tal livro assombrado estava lá, não estava?
— Quanta bobagem — pensou ela em voz alta. — Livro amaldiçoado.
— Falando sozinha, é? — disse Maria, a faxineira.
— Pois é, Maria, acho que este lugar deixa as pessoas loucas.
— Você acha mesmo? Este é o serviço mais tranqüilo que eu já tive em toda a minha vida. Estresso não, sabe?
— Deixa pra lá, querida — e voltou para a sua sala, rindo baixinho.
A segunda-feira passou lenta e arrastada, como geralmente eram todas as segundas-feiras. Todos esperavam ansiosamente o velho relógio mirar os ponteiros para o número seis.
Saíram todos às pressas. Sobrou para Laura a missão de fechar as portas da biblioteca. Paulo a aguardava do lado de fora.
O computador dela estava com problema e demorava mais do que o normal para fechar todos os programas e encerrar o Microsoft Windows.
— Maldita lata velha! — praguejou ela, chutando levemente a mesa do computador.
Impaciente, não conseguiu esperar o computador desligar corretamente. Bateu o dedo no estabilizador e o desligou.
O barulho de seus passos ecoava por toda a biblioteca. Seus colegas haviam apagado todas as luzes, talvez não soubessem que ela havia ficado para trás, ou fizeram de propósito para sacaneá-la.
— Amanhã eles me pagam — pensou em voz alta.
Ao fechar a porta do escritório, ouviu algo parecido com um choro.
— Esse lugar deixa a gente louca mesmo.
Agora o som de passos.
— Tem alguém aí? — disse ela, seu tom de voz ainda era calmo. — Pode parar de brincadeira. Vou fechar as portas, hein! Você vai ficar sozinha aqui. É você, Janete?
O choro ficou mais alto. Laura sentiu um friozinho na barriga quando percebeu que os sons vinham justamente do corredor nove.
— Paulo, você ainda está aí? — gritou ela, rezando para que sim.
— Estou! — respondeu ele. — Já está saindo? Preciso ir, estou atrasado para o culto!
A porta principal da biblioteca bateu com força. Tanta força que Laura sentiu uma corrente de ar esvoaçar seus longos fios de cabelo.
— Que brincadeira foi essa, Paulo? — disse ela, bem irritada.
— Mas eu não fiz nada! — gritou ele, sem graça. — Deve ter sido uma corrente de ar. Acalme-- se, vou abri-la.
Mas não conseguiu. Parecia lacrada.
Lá dentro, nenhum interruptor funcionava. Laura estava no escuro. Sua tranqüilidade deu lugar ao desespero.
— Abre essa porta, Paulo, pelo amor de Deus!
— Não consigo, Laura, a chave não entra na fechadura!
— Pega a chave certa, porra!
— Estou dizendo, é a chave certa, mas não funciona!
— Então derruba esta merda! Faça alguma coisa! Me tira daqui!
Para piorar a situação, dava para ouvir passos atrás dela. Eram lentos e arrastados, mas tinha alguém ou alguma coisa vindo em sua direção. Estava tão escuro, que mesmo que ela quisesse ver o que era, não conseguiria.
— Paulo, você está aí? Estou com muito medo, me tira daqui!
— Não abre, Laura, não abre! E não posso simplesmente arrombar esta porta, o Loretto me come vivo!
— Estou me lixando para o Loretto, derruba essa porta, Paulo! Se precisar, eu pago outra porta do meu bolso, mas me tira daqui! Pelo amor de Deus!
— Calma, eu vou ligar para um chaveiro amigo meu.
— Chaveiro? Mas isso vai demorar ...
Laura sentiu uma mão gelada na sua cintura e alguém sussurrou alguma coisa em latim no seu ouvido. O bafo quente e fétido a nocautearam. Ela desmaiou.
Quando abriu os olhos novamente, estava deitada sobre o jardim da biblioteca. Paulo e uma garota de cabelos negros olhavam para ela, assustados.
— Você está bem? — perguntou Paulo, num tom de alívio.
— Sei lá, acho que estou. Minha cabeça dói um pouco. — e Laura finalmente percebeu a presença da moça de cabelos negros. — Quem é você?
— Sou vizinha da biblioteca. Vi você caída no jardim e vim ver se vocês precisavam de alguma ajuda. Querem que eu chame uma ambulância?
— Não, obrigada. Estou bem.
— Você me deu um baita susto! — disse Paulo.
— Eu te assustei? Imagine eu! Pensei que ia morrer.
— Também não é pra tanto, né?
Laura o comeu com os olhos. A vizinha correu até sua casa e voltou com um copo de água com açúcar. Laura tomou no guti-guti e agradeceu a moça.
— Olha só que estranho — disse Paulo, girando a chave na porta principal, abrindo-a e fechando-a diversas vezes. — Está vendo? Agora funciona perfeitamente. É a mesma chave! Não consigo entender! Na hora não funcionou nem a pau!
Assim que chegou em casa, Laura pegou o telefone e ligou para a ex-colega de trabalho.
— Laura, está tudo bem? — atendeu Verinha, preocupada.
— Como sabia que era eu?
— Eu já sabia que você ia ligar. Agora acredita em mim?
— Acho que sim. Não consegui ver nada, mas eu senti uma presença muito ruim. Foi a pior sensação do mundo. O que você me disse no sábado foi perfeito: uma agonia tão forte que parecia comer a minha alma. Foi assustador.
— Eu sei como é, querida.
— Então, tudo aquilo que você me disse é verdade mesmo? Como vou conseguir voltar para o trabalho depois do que me aconteceu hoje? Estou sem chão. Estou tremendo até agora.
— Laura, querida, não volte àquela biblioteca.
— Não é tão simples assim, Verinha, dependo do meu salário para viver.
— Tenho umas economias, posso te ajudar.
— Não posso aceitar. São suas economias, você trabalhou sua vida inteira para isso. Eu jamais aceitaria ...
— Não é esmola. Seria um empréstimo, até você conseguir um outro emprego. Depois você me paga.
— Vou ficar bem longe daquele livro maldito e tudo ficará bem.
— Coisas terríveis estão por acontecer. Já vi esse filme antes.
— Como assim?
— Parece haver um padrão. Das outras vezes foi igual. Num belo dia alguém vê a menina sem braços. Dias depois é a vez do monge aparecer. Depois a coisa fica séria; começam as mortes. E da mesma forma que tudo começa, também acaba, de uma forma inexplicável. Fuja daquele lugar enquanto há tempo, Laurinha.
— Precisamos descobrir de onde veio aquele livro. Talvez haja uma forma de destruí-lo. Hoje em dia conseguimos encontrar tudo pela internet, não é? Na própria biblioteca tem que ter o registro de onde ele veio. Não é possível que ele tenha surgido do nada. Alguém o colocou lá. E eu vou descobrir quem foi!
— Cuidado, menina! Aquela coisa é muito perigosa. Antes de tudo, providencie o sal grosso para proteger sua casa. Coloque nas portas e janelas. Sua casa tem lareira? Coloque também. Se aquela coisa escolher você, é melhor estar preparada.
Desligou o telefone e foi direto para o banheiro. Precisava de um banho urgente. Estava sozinha em casa, deixara seu filho dormir no avô esta noite, não queria que a vissem como estava apavorada.
Tirou a blusa. Antes de tirar a calça, tinha o costume de limpar os bolsos. Hoje, além de algumas moedas, encontrou um pedaço de papel, dobrado. Achou estranho, pois não se lembrava daquilo. Desdobrou-o e tomou um susto ao ler o que dizia:
“Quer acabar com o livro?
Eu posso te ajudar.
Amanhã, chegue 1 hora mais cedo no trabalho.”
Foi o suficiente para fazê-la perder o sono. Quem teria colocado aquele bilhete em seu bolso? Esta pergunta lhe atormentou a noite toda.
O pouco que cochilou foi açoitada por pesadelos terríveis. Num deles, o autor do bilhete se revelara: o monge. Era uma armadilha para ela. Ele a aguardava na biblioteca, com uma pá na mão direita. Seu rosto era deformado e no lugar dos olhos um vazio medonho.
De todos os pesadelos, o que mais a assustou foi tão real que ela ficou na dúvida se fora apenas um pesadelo ou se acontecera de verdade. Estava deitada na cama. Ao apagar a luz do abajur, um vulto aparecia na porta do quarto. Ao acendê-lo novamente, não via mais nada. Apagava o abajur e lá estava o vulto outra vez, imóvel, como se estivesse olhando para ela.
Quando levantou de madrugada para ir ao banheiro, notou que havia marcas de dois pés, finos, exatamente no local onde o vulto estivera parado.
Ficou tão assustada que não voltou a dormir depois disso.
Quando amanheceu, pulou da cama, tomou um copo cheio de café e saiu às pressas. A curiosidade falou mais alto. Queria saber quem lhe escrevera aquele bilhete. E se realmente havia uma chance do livro ser destruído, ela não perderia aquele encontro por nada.
Passou dois sinais vermelhos, tirou fina de um ônibus e quase atropelou um cachorro, mas chegou em frente ao portão da biblioteca às 6h57. Ainda faltavam 3 minutos para o horário marcado no bilhete.
Antes que ela saísse do carro, alguém bateu três vezes, de leve, no vidro lateral. Seu coração acelerou.
— Não tenha medo — disse a voz lá fora.
Era a moça dos cabelos negros, da tarde passada.
— Então foi você? — e Laura apontou para o bilhete.
A moça fez que sim com a cabeça, um pouco tímida.
— Coloquei no seu bolso, enquanto estava desmaiada. Precisamos conversar. Acredito que será uma conversa bem longa, então eu sugiro que você guarde o seu carro na minha garagem. Não queremos que seus amigos da biblioteca cheguem e fiquem preocupados com você, não é?
E assim foi feito. Depois a moça fechou o portão de madeira, escondendo qualquer sinal do automóvel.
— Qual o seu nome?
— Coralina.
Coralina tinha os cabelos mais negros que Laura já havia visto em toda a sua vida. E ainda mais estranho, não brilhavam. A moça tinha um rosto muito bonito, mas um olhar sem vida e lábios pálidos. Era troncuda e pisava duro. Não estava muito confortável na presença da outra. Parecia até um pouco nervosa.
Entraram na casa. A sala logo chamou a atenção da visita. Um espetáculo visual. Laura nunca tinha visto uma sala tão bizarra. Ao invés de quadros, crânios e mais crânios de animais pendurados em todas as paredes. O abajur parecia ser feito com pele de morcego. A mesa de centro era a única peça aparentemente normal, se não fossem os pés em forma de sapos.
Laura teve receio de sentar no sofá, que mais parecia um urso vivo. Olhava ao seu redor com um misto de fascinação e repulsa. A decoração parecia ter saído de um filme de terror barato.
— Você parece assustada — disse Coralina, sentando-se numa cadeira de balanço. Os braços da cadeira eram duas cobras empalhadas. Pareciam incrivelmente reais. Que casa era aquela?
— Lá fora eu lhe diria a mesma coisa.
Só agora a visita percebeu que os vidros da janela estavam todos pintados de preto. Se não fosse o abajur de morcego, estariam na escuridão, apesar do sol já estar dando o ar da graça lá fora.
— O que sabe sobre o livro? — perguntou Laura. Havia esperado a noite toda para fazer esta pergunta. Só não sabia que a faria para a moça da água com açúcar.
— É uma maldição que aflige a minha família há muitos e muitos anos.
— Quem o escreveu?
— Antes, deixe-me esclarecer uma coisa: aquilo não é exatamente um livro. Não há nada escrito nele. Nem uma linha sequer.
— Que não tem nada escrito eu já sabia.
— Aquilo é um Saafièr, que nada mais é do que um objeto utilizado para aprisionar demônios. Foi criado em 1874, por Precília Fouillad.
— Então existe mesmo um demônio preso àquela coisa?
— Sim, muito antigo e poderoso.
— E você sabe como destruí-lo?
— Dediquei minha vida para isso. Você nem faz ideia dos lugares que eu estive para aprender a fazê-lo.
— E por que você quer destruí-lo?
— Quero por um fim nessa maldição. Todos nascem com uma missão. Acredito que a minha seja destruir aquela coisa.
Por mais estranho que fosse tudo aquilo, a moça dos cabelos negros parecia estar dizendo a verdade. O que atrapalhava era aquela decoração da sala, que mais parecia um cenário de trem fantasma.
— Digamos que você esteja dizendo a verdade, onde é que a menina e o monge se encaixam nesta história? Eles também são demônios?
— Não. É uma longa história. Vai perder o horário do seu trabalho.
Laura olhou para o relógio do celular.
— Quer saber? Dane-se! Nem com vontade de trabalhar eu estou. Conte-me tudo o que sabe.
— Conto, mas já que vai ficar mais um pouco, aceita um chá?
— Aceito um café. Pode ser? — Laura deu mais uma bela olhada ao seu redor e disse: — Café mesmo, não tomo poção mágica.
— Fique tranqüila, nós também sabemos fazer um bom café.
Laura preferiu entender aquela resposta como uma brincadeira.
Coralina voltou rapidamente com uma bandeja e duas xícaras. Café para Laura e chá para ela.
— Perdão, não bebo café — e tomou um gole de chá, que mais parecia um ponche de uva.
— Estou esperando a história da menina e do monge.
Coralina tomou o resto do chá num gole só, e começou:
— Precília tinha 6 anos quando ganhou 2 irmãos gêmeos: Lucila e Serafim. Apesar da diferença de idade, os três se adoravam. Mas Lucila e Serafim tinham uma ligação ainda maior; eram inseparáveis. Certa vez, quando brincavam de esconde-esconde, Precília flagrou os dois se beijando dentro do guarda-roupas. Parecia algo bobo e inocente, mas aquilo era o início do fim. Os anos foram se passando e o amor de Lucila por Serafim deixou de ser apenas um amor de irmã. Ao chegarem à adolescência, a garota já sabia o que era o amor. Amor não; paixão.
— E seu amor era correspondido?
— Não. Serafim sentia nojo daquilo. Eram irmãos, repetia ele, sempre. Mas nada a fazia desistir daquela paixão. Ela o encarava nos olhos e dizia que só seria feliz ao lado dele, e se assim não fosse, ele não poderia ser de mais ninguém.
— Lindo. Se não fossem irmãos, é claro.
— Cansado de fugir dos assédios da irmã, Serafim optou por uma vida religiosa. Mudou-se de mala e cuia para um mosteiro, em Aparecida.
— Lucila deve ter ficado arrasada!
— Ela ficou furiosa. E jamais queira conhecer uma bruxa furiosa.
— Lucila também era bruxa?
— Sim, como todas as mulheres da família Fouillad. Enfurecida por ter sido abandonada pelo amor da sua vida, Lucila jurou vingança.
— Ela matou o próprio irmão?
— Uma bruxa não mata; amaldiçoa. Mas até para uma bruxa, Lucila foi longe demais. Ela invocou um espírito tão ruim, mas tão ruim, que provocou sua própria destruição.
— O demônio do livro?
— Sim, o próprio. Serafim foi possuído pelo demônio. Todos os monges do Mosteiro da Sagrada Face foram assassinados brutalmente por ele. Jamais houve tragédia maior naquela cidade. Até hoje ainda contam esta história.
— Que horror.
— E na volta para Pindamonhangaba, matou praticamente todos que cruzaram o seu caminho.
— Matou Lucila também?
— Não. Ele não a matou; mas a estuprou.
— Nossa, que nojento.
— Na tentativa de ajudar a irmã, Precília pegou o primeiro objeto que encontrou e fez dele um Saafièr. Ela nunca tinha praticado aquele ritual, mas não pensou duas vezes e tentou. Funcionou, porém o espírito do Serafim foi sugado para dentro do Saafièr também. Quando o ritual chegou ao fim, o corpo de Serafim caiu morto sobre Lucila. Esta nunca perdoou a irmã.
— E a menina sem braços? Não me lembro de você ter citado nenhuma criança na sua história.
— Lucila teve uma filha: Jussara.
— Do estupro?
— Isso mesmo. A menina nasceu sem os braços. Quando Jussara completou 9 anos, o demônio conseguiu escapar do Saafièr pela primeira vez. Ele possuiu o corpo da menina e causou estrago na pequena vila onde moravam. Mesmo sem os braços, ele conseguiu matar 6 adultos e duas crianças.
— Precília o mandou de volta para o livro?
— Sim, mas dessa vez foi ela que saiu perdendo.
— Não entendi. Jussara não era sobrinha? Lucila era mãe, em tese deveria ter ficado ainda mais chateada.
— Lucila jamais amou aquela criança. Simplesmente desaparecera após o parto. Foi Precília quem criou a menina.
— Entendi.
— Depois da morte de Jussara, foi a vez de Precília desaparecer — silêncio por alguns instantes. Depois completou: — Aquela coisa só causou desgraça na minha família. Mas finalmente descobri como destruí-lo. Laura, vou precisar da sua ajuda.
— Mas por que eu?
— Porque você tem uma motivação muito importante.
— Tenho?
— Claro que tem. Viver não é motivação suficiente? Se não destruirmos o livro, você corre um sério risco de ser a próxima vítima do demônio. Ele quer você. Eu senti isso, quando me aproximei da biblioteca. Veja bem, aquilo foi só um aperitivo do que ainda vem por aí. E depois que ele a possuir, dê adeus à sua família. Seu pai e seu garotinho serão as primeiras vítimas. Não tem misericórdia.
— Cala a boca. Já entendi. Diz logo o que precisa de mim.
— Não se preocupe, você só precisa trazer o livro para cá.
— Só isso? Mas por que você mesma não faz isso? Você também é uma Fouillad, não é? Todas as mulheres da família são bruxas, portanto você ...
— Sim, eu sou uma bruxa. Mas Precília colocou um feitiço sobre o livro: nenhuma outra bruxa pode tocá-lo, exceto ela mesma. Ela tinha medo de que alguém tentasse libertar o demônio para sempre.
— Isso tudo parece um pesadelo sem fim.
— Calma. Depois que destruirmos aquilo, tudo voltará ao normal. Você não irá se lembrar de nada. Eu prometo.
— Como assim? Você vai apagar esta nossa conversa da minha memória? Está me dizendo que vai me enfeitiçar?
— Será melhor assim. Não posso correr o risco de você sair contando para todo mundo quem eu sou.
— E quem acreditaria em mim?
— Não posso correr este risco. A história nos ensinou uma dura lição. Minha família já sofreu muito em outras épocas. Destruíram nossas casas, fomos expulsas, algumas foram apedrejadas até a morte.
Laura ficou olhando assustada para a moça dos cabelos que não brilhavam.
— Quantos anos você tem?
— Se quando vocês fazem mais de 40 anos, não revelam a idade, por que eu revelaria a minha? As duas riram juntas.
Mas o rosto de Coralina voltou ao normal ao dizer:
— Tem que ser esta noite. O ritual precisa ser feito na noite do dia 19 de agosto. Hoje. Data onde tudo começou. Se não fizermos esta noite, só poderemos tentar no ano que vem. Não quero nem pensar nesta hipótese.
Laura deixou o carro na garagem da bruxa e foi trabalhar, certificando-se de que ninguém a vira sair da casa dela. Justificou o atraso dizendo que o filho estava doente e que o levara ao médico.
As histórias de Coralina giravam em sua cabeça como frutas no liquidificador. Se tudo desse errado, seria o seu fim? Seria o fim para seu pai e seu pequeno William?
— Você está bem? — perguntou Maria.
— Oi? Sim, sim, estou bem.
— Não parece. Aconteceu alguma coisa?
— Não aconteceu nada, Maria, estou bem. Sério.
— Seu filho está doente? Filho doente deixa a gente pra baixo, né?
— Doente? — Laura quase se esqueceu de que havia usado esta desculpa pelo atraso. — Ah, sim, o William teve 40 graus de febre hoje cedo. Mas já está melhor.
— Que bom.
— Maria, me diz uma coisa, você acredita em bruxaria?
— Claro que não! Isso não existe. Mas tenho medo de macumba.
Laura sorriu meio sem graça.
Depois do almoço ela finalmente criou coragem e entrou no corredor nove. Suas pernas pareciam pesar uns 200 quilos cada uma. Numa das conversas que tivera com Verinha, por telefone, ela havia lhe dito que a capa do livro era preta, tinha o desenho de um pentagrama vermelho e não tinha mais do que dois dedos de grossura. Estava na última prateleira do lado esquerdo de quem entrava no corredor.
Não foi difícil encontrá-lo.
Assim que bateu os olhos nele, seus olhos pareciam hipnotizados por aquela coisa. Sentiu muito medo também. Era inexplicável a sensação de olhar para ele. Tão comum. Aparentemente tão inofensivo, mas com um passado tão perverso.
Esticou o braço para pegá-lo, mas desistiu quando viu mais alguém se aproximar. Imaginou um monge vindo em sua direção. Mas era apenas um par de estudantes.
Fechou os olhos pegou o livro. Parecia ter tocado num animal morto. Sentiu nojo e soltou-o imediatamente, assustada.
Os dois garotos riram dela.
— Odeio aranhas — improvisou Laura, apontando para a prateleira.
Tirou um lenço da bolsa, envolveu-o em sua mão direita e tentou outra vez. Dessa vez ela conseguiu. Era bastante pesado para um livro tão pequeno. Media uns 20 centímetros de altura por 15 centímetros de largura. Sua espessura não passava de 2 dedos; exatamente como dissera Verinha.
Com o maldito livro dentro da bolsa, só lhe restou esperar ansiosa pelo fim do expediente.
Laura tocou a campainha de Coralina às 18h20. Em seguida o portão abriu sozinho. Ao passar pelo portão, foi a vez da porta abrir sozinha.
— Coralina, você está aí?
Uma voz distante respondeu:
— Parabéns, eu posso sentir o objeto dentro da sua bolsa.
— Sim, está aqui comigo.
— Aproxime-se.
Estava escuro. O abajur de morcego estava apagado.
— Poderia acender o seu abajur? Odeio escuro.
O abajur de morcego foi aceso. Ao lado dele estava uma velha. A criatura parecia ter mais de 100 anos de idade. Corcunda. Usava um roupão preto e segurava uma bengala velha. Laura deu um grito:
— Quem é você?
A velha sorriu para ela.
— Sou eu. Coralina.
— Mas, mas ... como?
— Digamos que essa sou eu de verdade.
— Mas hoje de manhã você estava tão jovem.
— Na verdade você apenas achou que estava me vendo daquela forma. Um truque que toda bruxa aprende no primeiro dia de aula.
A porta fechou sozinha atrás dela. Laura tomou um susto.
— Eu continuaria jovem para você, porém isso me deixa exausta. E preciso estar bem para hoje à noite, não é mesmo? Nós precisamos.
Laura apenas concordou com a cabeça. Estava espantada. Coralina era mesmo uma bruxa. Não usava um chapéu pontiagudo e muito menos tinha uma verruga no nariz, mas nem por isso deixava de ser amedrontadora.
— Acomode-se — disse a velha.
— Como assim? Eu vou embora.
— Embora? Você não se comprometeu a me ajudar?
— Já ajudei! — e colocou sua bolsa sobre o sofá-urso. — A minha parte do trato era trazer o livro. Aqui está ele.
— Sim, e lhe agradeço muitíssimo por isso. Mas sem você eu não vou conseguir realizar o ritual. Preciso de você aqui comigo.
— Mas por que eu?
A velha apontou para o livro, dizendo:
— Ele a quer.
— Espere um momento, você quer me usar como isca?
— Sim. Mas não se preocupe, não permitirei que nada lhe aconteça.
— Você está maluca se acha que eu vou topar uma coisa dessa.
— Então vá embora. Mas quando ele fugir e for atrás de você, será tarde demais. Laura, podemos colocar um ponto final nisso tudo. Fica e me ajuda!
A garota olhou para a bolsa. Pensou uma, duas, três vezes no que responder para a velha, que de manhã não era velha. Era muita coisa para sua cabeça.
— Tudo bem — disse ela, enfim. — Eu fico.
A velha sorriu.
— Mas preciso avisar o meu pai, senão ele vai ter um treco.
— Lógico, faça isso.
Laura enfiou a mão na bolsa para pegar o celular e algo terrível aconteceu. Um braço saiu de dentro da bolsa e uma mão com unhas negras e afiadas a arranhou com força. Laura gritou.
A velha gritou algumas palavras e a bolsa caiu no chão, sobre um lindo tapete vermelho-sangue. O braço misterioso voltou para dentro da bolsa, como uma cobra.
— O que foi aquilo?
— Acho que o desgraçado já descobriu o que queremos fazer com o livro. — a velha olhou para o braço da garota. Estava bem machucado. — Precisamos fazer um curativo nisso aí.
Enquanto a velha providenciava os cuidados necessários para o braço da garota, esta ligou para o pai. O homem passou um sermão de quase 15 minutos sobre o quão desnaturada ela vinha sendo nestes últimos dias. A garota chorou mais com as duras palavras do pai do que com o arranhão no braço.
— Acho melhor começarmos o ritual o quanto antes — disse a velha, olhando para a bolsa jogada no chão. — Se o maldito conseguir escapar antes que eu finalize o ritual, ninguém sabe o que será de nós.
— Como sabe que vai funcionar? Você nunca fez isso antes, não é?
— Para tudo na vida existe uma primeira vez. Pegue o livro. Acho melhor não perdermos mais 1 minuto sequer. Vamos começar.
— Melhor assim, quero ir embora daqui.
Quando ela se preparava para abrir a bolsa, lembrou-se da mão pulando para lhe atacar. Recuou, assustada.
— Não tenha medo, — disse a velha, com convicção. — ele não fará nada dessa vez.
— Como você sabe?
A velha piscou e o tapete saiu voando, chocando-se contra a parede. Havia um enorme pentagrama pintado no chão, onde estava o tapete. A bolsa exatamente no meio do pentagrama.
— Retire o livro da bolsa. Não precisa ter medo.
Laura tremia dos pés à cabeça. Aproximou-se da bolsa e enfiou sua mão dentro dela, lentamente, como se uma ratoeira estivesse prestes a esmagar os seus dedos. Pegou o livro. Segurou-o com tanto nojo que quase vomitou sobre ele.
— Tire a bolsa e coloque o livro no centro do pentagrama.
Ela obedeceu a bruxa.
— Agora afaste-se — disse a velha, ajoelhando-se ao lado do pentagrama, de cabeça baixa, repetindo palavras que para nós não fazem sentido algum. Sua voz estava mudada, mais esganiçada.
Laura sentiu muito medo quando o livro começou a saltar do chão. Sua reação imediata foi correr para a porta. Não queria estar ali se criaturas do outro mundo começassem a pular para fora feito pipoca na panela.
A porta se abriu de repente. Laura pensou que tinha sido aberta pela bruxa, mas não. Elas tinham visita. Estava escuro demais e só dava para ver um vulto parado diante da porta.
Seria o demônio? Laura recuou, muito assustada. A coisa parada na porta gritou:
— Lucila, não faça isso!
Lucila? Laura entrou em choque. Aparentemente a velha também, pois parou tudo o que estava fazendo e olhou para trás, mostrando os dentes.
— Não é possível — disse a velha. — Você?
— Surpresa, querida irmã?
— Hoje é o meu dia de sorte! Mato dois coelhos com uma paulada só.
— Podemos resolver da melhor forma possível.
— A melhor forma é vê-la morta, Precília!
A velha saiu alguns centímetros do chão e levitou de encontro à sua irmã bruxa, dando início a uma briga como jamais se vira na história da família Fouillad. Agarradas ao pescoço uma da outra, giravam no ar e gritavam palavras incompreensíveis e impronunciáveis para nós.
Laura já estava assustada com aquilo tudo, mas ficou ainda mais quando o pentagrama começou a pegar fogo e alguém ou alguma coisa parecia sair de dentro dele. A vestimenta marrom-escura e o capuz eram de um monge, mas seu olhar perverso não deixava dúvidas de quem estava ali, realmente. Ela correu para a porta, mas esta fechou com força antes que ela pudesse deixar a casa.
— Sentio te in timore — disse o demônio, numa voz amedrontadora.
— Sabe rezar? — gritou Precília para Laura. — Reze para o seu Deus, o mais forte que puder. Laura não era uma pessoa muito religiosa, mas sabia a Ave Maria. Rezou o mais alto que conseguiu. Mas o demônio continuou vindo. A cada passo que dava, sua aparência verdadeira ia sendo revelada. Seu corpo era magro, quase esquelético. Sua pele estava apodrecendo. Seu rosto era um borrão com olhos brancos e uma boca larga e cheia de dentes. Além dos dois braços, outros quatro brotavam do seu tronco. Medonho.
Como rezar não parecia estar surtindo nenhum efeito, Laura correu para uma porta do outro lado do pentagrama. Era um quarto. Fechou a porta. Seu corpo todo tremia. Não conseguia parar de chorar. Não havia como escapar daquilo com vida. Só conseguia pensar no seu pai e no seu filho. Jamais os veriam novamente.
Sentiu um bafo quente atrás dela. A coisa estava ali com ela. O demônio a tocou. Suas seis mãos percorriam todo o seu corpo. Despiram-na em questão de segundos. Laura voltou a rezar. Quanto mais alto ela rezava, mais irritado o demônio ficava, tocando-a em suas partes íntimas, violentando-a. Suas unhas grandes a machucavam profundamente. Ela gritava de dor.
Chegou num ponto onde ela não conseguia mais rezar. Não tinha mais forças, sentia seu corpo ir embora, sabe-se lá para onde. Era mesmo o fim.
De repente um barulho ensurdecedor, como se milhares de pessoas gritassem em uníssono. O som foi tão insuportável que incomodou até o demônio; suas mãos recuaram e Laura foi ao chão, nua, sangrando bastante.
A porta do quarto partiu-se ao meio e um clarão muito forte invadiu todo o cômodo, como se dezenas de holofotes apontassem para ele. Não viu a criatura demoníaca, muito menos as irmãs bruxas. Estava tudo tão claro que por um instante ela pensou estar morrendo. Dor. Sentia uma dor insuportável, como se o seu corpo estivesse em pedaços.
Na manhã seguinte, deitada numa cama de hospital, Laura acorda com o pai ao seu lado, chorando, segurando sua mão direita.
— Filha, eu pensei que fosse te perder!
— Onde eu estou?
— No hospital. Você foi estu ...
— Não importa, pai. Esquece. Estou viva — disse ela, com a voz fraca.
— Me perdoa, filha! Ontem eu falei coisas horríveis para você.
— Nem me lembrava disso, pai, fique tranqüilo. Já passou.
Seu pai lhe deu um beijo de quase 3 minutos em sua testa. Depois disse:
— Tem alguém querendo te ver.
Laura franziu a testa.
— O William? Eu quero ver o meu filho, muito!
— Não deixaram ele entrar, querida, sinto muito. Mas ele está bem, não se preocupe. Estou falando de outra pessoa. Ela quer muito falar com você.
— Quem, pai?
— Vou lá fora chamá-la, OK?
— Pai, espera! Quem é esta pessoa que quer tanto me ver? Você está me deixando assustada.
— Filha, calma. Foi ela que trouxe você para cá. Sei que você precisa repousar, mas ela insistiu tanto. Disse que trabalha com você na biblioteca.
— Trabalha comigo?
— Sim. Vou lá fora chamá-la.
Laura fez que sim com a cabeça, apesar de não estar a fim de conversar com ninguém. Seu pai deixou o quarto e logo em seguida alguém entrou no seu lugar.
— Você? — disse Laura, surpresa.
Era Maria.
— Como você está? — perguntou ela.
— Estou viva, é o que importa. Foi você que me trouxe para o hospital?
— Sim, fui eu.
A voz. Como ela não havia reparado isso antes? A voz da Maria é a voz da ...
— Precília, é você?
Ela sorriu.
— Mas ... mas ... como? Você? Bruxa?
A mulher olhou para os lados, procurando por mais alguém no quarto. Ao perceber que estavam sozinhas, respondeu:
— Sim, eu sou.
Laura começou a rir.
— Uma bruxa que trabalha o dia todo com uma vassoura. Faz sentido.
— Esta é a Laura que eu conheço. Querida, você apenas acha que eu trabalho lá. É um velho truque que se aprende no primeiro dia de aula.
— Adoraria freqüentar esta escola.
Agora foi Precília quem riu.
— Precisa ter o sangue da família Fouillad.
Laura não parava de olhar para ela, fascinada.
— E Lucila? O que aconteceu com ela?
— Vai sumir por algum tempo. Não tive coragem de matá-la. É sangue do meu sangue.
— A verdadeira intenção dela não era destruir o livro, era?
— Não. Pra falar a verdade eu não entendi muito bem o que ela queria. Mas garanto a você que não era coisa boa.
— E o livro, o que aconteceu com ele?
— Nada. É impossível destruí-lo. Nem a minha mãe e as minhas tias conseguiram destruí-lo. Quando eu o criei, devo ter dito as palavras de um jeito tão errado, mas tão errado, que a própria maldição foi modificada.
— O demônio voltou para dentro dele?
— Sim, mais uma vez. Criatura vil.
— Mas ele sempre escapa, não é?
— Sim, mas eu estou sempre de olho.
— Ah, então é por isso que você trabalha na biblioteca?
Precília sorriu.
— Eu vivo pelo mundo. Não tenho residência fixa em lugar algum. Adoro viajar. Mas sempre que sinto alguma coisa errada com o meu Saafièr, eu volto para cá. Amo este lugar, apesar de tudo de ruim que já me aconteceu aqui.
— Uma última pergunta ... você sabe como o livro foi parar na biblioteca?
— Depois que a casa das minhas tias foi destruída, o livro ficou desaparecido por vários anos, até que reapareceu naquela biblioteca. Sei lá, alguém pode tê-lo encontrado no porão de sua casa e doado para a biblioteca. Dizem os velhos manuscritos bruxos que um Saafièr escolhe sua moradia, e quando isso acontece é para toda a eternidade.
— Eu nunca mais verei o mundo com os mesmos olhos.
— Ah, é?
— Lógico que não. Depois de tudo o que eu passei nestes últimos dias...
— Verdade. Laura, agora vou deixá-la em paz. Você precisa descansar.
— Estou me sentindo como se um caminhão tivesse me atropelado.
— Imagino. Seu filho está em boas mãos com o avô. Eles te amam demais.
Laura começou a chorar.
— A gente se vê — disse Precília. Depois beijou a testa de Laura, delicadamente. Deu tchau e se foi.
O pai da garota voltou para o quarto.
— Nossa, ela tinha me prometido que a conversa seria breve.
— Do que você está falando, pai? Ela, quem?
— A moça que trouxe você para o hospital.
— Que moça? Pai, você bateu com a cabeça? Do que você está falando?
— Não sei, filha. O que estamos fazendo aqui neste quarto de hospital?
— Não me lembro.
FIM
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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