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Capa de A Cabana
Contos de Terror

A Cabana

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Sinopse

Depois da morte da mãe, um menino de oito anos viaja com o pai para um sítio no interior, na esperança de que a mudança de ares alivie o sofrimento. Entre lembranças de família, uma cabana isolada e uma descoberta inquietante, o refúgio começa a revelar razões para temer a chegada da noite.

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Espaçamento 1.4

Capítulo único · A Cabana

Eu tinha pouco mais de 8 anos de idade quando o câncer levou minha mãe embora. Foi um grande choque para mim, como foi para meu pai também. Após a morte dela nós ficamos alguns meses num estado de letargia total, eu não conseguia me concentrar nos estudos e meu pai também não ia nada bem no seu trabalho, papai era escritor. Eu me lembro de vê lo sentado diante da máquina de escrever durante horas, apenas olhando para ela, hipnotizado, procurando um caminho, procurando uma saída, procurando um remédio para aquele sofrimento. Papai era completamente apaixonado pela minha mãe. Eu era apenas uma criança, mas percebia isso em seus olhos. Seus pequenos olhos castanhos brilhavam ao vê la.

Aproximadamente 3 meses após a morte de mamãe meu pai decidiu que deveríamos fazer uma viagem, seria bom passarmos alguns dias longe de nossa casa em Curitiba, afinal de contas todos os cômodos nos faziam lembrar dela, tudo ali possuía o toque sutil e elegante de Camila Girotto.

O local escolhido para a viagem foi um sítio em Tremembé, interior de São Paulo, oferecido por alguns primos nossos. Meu pai achou a idéia maravilhosa, fazia muito tempo que ele pretendia passar alguns dias no campo e nunca tivera tempo ou disposição para tal. Mas desta vez nós fomos.

Passamos quase 8 horas na estrada, eu, papai e um monte de quinquilharias e pacotes de pão com manteiga. Se mamãe estivesse viva nós certamente teríamos um banquete, mas infelizmente nós teríamos de começar a nos acostumar com a ausência dela em nossas vidas.

Apesar da longa viagem nós trocamos poucas palavras, se eu tivesse contado cada uma delas eu garanto que não ultrapassariam cinqüenta. Mesmo antes da morte de mamãe nós nunca tivemos uma comunicação muito boa, meu pai sempre fora um homem fechado e sisudo, tinha um melhor relacionamento com sua máquina de escrever do que com os seres vivos ao seu redor. Até aquele momento ele havia publicado 4 livros, sendo que apenas um deles chegara a ter uma segunda edição, mas vivíamos razoavelmente bem, nunca nos faltara nada. Mamãe era advogada, mas abdicara do trabalho para cuidar dos afazeres do lar e da minha educação.

Não foi dificultoso achar a casa dos nossos primos, a pior parte foi chegar até o sítio, apesar da boa vontade do primo Ezequiel em nos mostrar o caminho. A estrada era bem estreita e esburacada, além do mato querendo avançar as beiradas. Ezequiel foi à frente, dirigindo seu Fusca vermelho. Ao olhar mais desatento você poderia confundi lo com uma gota de sangue gigante, era uma visão um tanto quanto aterradora, eu nunca tinha visto um carro pintado com uma cor tão gritante. Mesmo que meu pai fosse o pior motorista do mundo jamais perderia o Fusca de vista, o que era bom.

Após quase uma hora de trancos e solavancos nós finalmente chegamos. A visão era bem diferente daquela que eu esperava. Nas gravuras dos livros infantis de Monteiro Lobato um sítio não era nada parecido com aquilo diante dos meus olhos. Lembro me que a reação de meu pai fora indiferente, ele apenas deixou cair sua mão direita sobre meu ombro, encarou me nos olhos e disse:

— Novos ares, filho. Será bom para nós dois.

Não tenho tanta certeza, foi o que pensei, mas guardei pra mim. Meu pai não era o melhor pai do mundo, mas ele estava tentando melhorar, isso era ótimo.

— Será muito bom, pai. — respondi, encarando seu rosto suado e cansado.

Ezequiel nos levou até a cabana, nada mais do que um casebre feito de madeira. Havia uma pequena sala com mobílias velhas, dois quartos e um banheiro. A cozinha ficava do lado de fora. Na verdade não era bem uma cozinha, mas sim uma varanda com um fogão de lenha num canto.

— O lugar é modesto, mas vocês se acostumam. — disse o primo Ezequiel.

Papai olhou para cima e percebeu algo:

— Não tem luz? — perguntou.

— Há um lampião no quarto maior. — respondeu Ezequiel, apontando o local.

A expressão no rosto de meu pai não foi das mais animadas.

— Vocês ficarão bem, — disse o primo, acertando dois tapinhas nas costas de meu pai. — o que são alguns dias sem eletricidade?

— Este lugar não me é estranho. — disse papai.

— Você já veio aqui uma vez, primo. Houve uma festa de final de ano aqui no sítio e você veio com seus pais e sua irmã. Foi a primeira vez que conseguimos reunir quase a família toda.

— Sim, agora eu me recordo! Mas isso foi há muito tempo.

— Ah, com certeza, faz muito tempo. Você devia ser mais novo do que o seu garoto.

— Nossa, é impressionante como vieram memórias muito antigas à minha cabeça. Lembro me de seu pai contando histórias ao redor de uma fogueira.

— Meu pai adorava histórias assombradas.

— A Cabana do Tio Bartolomeu.

— Oh, claro, ele nunca se cansava de contá la.

— É exatamente esta, não? A cabana!

— Sim, a própria.

Lembro me de não ter gostado da mudança no tom de suas vozes. Quando se é criança e nota se insegurança na voz de um adulto isto não é um bom sinal.

— Você acredita naquela história? — papai perguntou para o primo Ezequiel.

— Alguns pedaços dela realmente aconteceram, não há como negar, mas quem conta um conto aumenta um ponto. A versão final não passa de folclore.

Primo Ezequiel voltou para a cidade naquela mesma noite, apesar de meu pai ter insistido para que ele ficasse. Seria medo de passar a noite na cabana? Minha curiosidade a respeito da história aumentara, bem como o medo de conhecê la. Aquele lugar já era meio assustador, e ficaria ainda pior sem luz. Seria prudente piorar ainda mais a situação ouvindo uma história assombrada? Lógico que a resposta sensata seria não, mas como a palavra sensatez não quer dizer absolutamente nada para um garoto de 8 anos...

— Pai, você poderia me contar a história da cabana?

Hoje eu sei que papai omitiu as passagens mais escuras da história, eu o compreendo, ele quis me proteger de pesadelos. Assim ele fez um mero resumo:

— Bartolomeu era irmão do seu avô. Não cheguei a conhecê lo, eles eram apenas adolescentes quando tudo aconteceu. Acho que o tio Bartolomeu tinha apenas 14 anos.

Deus, que lástima! A família toda morava aqui no sítio, sobreviviam do que colhiam. Já era final de tarde, mais um dia de colheita terminara, estava na hora de voltar pra casa, foi quando meu pai e meu outro tio, Salazar, notaram a falta de Bartolomeu. Antes de pegarem o caminho de volta decidiram procurar pelo irmão. A noite chegara e nada, nem sinal de Bartolomeu. Meu pai e Salazar voltaram pra casa sem o irmão, imaginando que Bartolomeu tivesse ido embora mais cedo naquele dia, talvez por estar se sentindo mal ou qualquer outro motivo. Quando chegaram em casa a notícia assustou a todos, Bartolomeu não voltara pra casa mais cedo. A noite já se fazia presente, mesmo assim a família inteira saiu à sua procura. Após um longo período de busca tio Salazar encontrou o corpo.

— Ele estava morto? — perguntei, já prevendo a resposta.

— Sim, filho, Bartolomeu estava morto.

Lembro me que papai pensou em parar a história por ali, ele ficou quieto por alguns segundos fitando me com olhos preocupados. Mas acabou prosseguindo:

— Salazar entrou em pânico, gritando histericamente, pobre coitado. Pouco a pouco todos foram se aproximando daquela cena terrível. A família toda reunida contemplando o corpo de Bartolomeu caído sobre a relva, sem a cabeça.

— Sem a cabeça? — eu quase saltei da cadeira.

— Sem a cabeça. Coitada da vovó, o choque foi tão grande que ela perdeu a voz e nunca mais a recuperou novamente. Eu a vi somente uma vez em toda a minha vida, e ao observar aqueles olhos eu quase podia ver a cena macabra em suas pupilas. Aquele silêncio assustador que ela fazia, era como se ela estivesse esperando para explodir num grito histérico jamais ouvido em toda a face da Terra. Pobre vovó, que Deus a tenha.

Papai olhou pra mim, acho que tentando imaginar se a história me afetara.

— Meu Jesus, se sua mãe estivesse viva ficaria louca da vida por eu estar lhe contando esta história.

Minha única preocupação naquele momento era...

— Mas e a cabeça? — perguntei. — Onde estava a cabeça do tio Bartolomeu?

— Nunca encontraram, filho. Ninguém soube direito como ele morreu. Pra ser sincero acho que até hoje não sabem.

Senti um calafrio como eu nunca havia sentido antes. A porta que dava acesso à varanda estava aberta, deixando um vento gelado entrar. Papai a fechou.

— Tio Bartolomeu morava nesta cabana? — perguntei. — É por isso que chamam de cabana do tio Bartolomeu?

Papai tentou desconversar.

— Está fazendo frio, não? Ainda bem que o primo Ezequiel nos emprestou alguns cobertores e...

— Não estou assustado, papai. Não tenho medo de histórias de terror. Não tenho medo de nada.

Papai me olhou orgulhoso, talvez tenha sido a primeira vez que ele fizera isso em anos. Aproximou se de mim, apertando sua mão contra o meu ombro.

— Todos temos medo, e é bom sentir medo. Sem ele fazemos besteiras.

— Entendi, pai. E a cabana?

Ele balançou a cabeça, sorrindo pra mim.

— Você tem um gênio igual ao da sua mãe. Quando quer alguma coisa não desiste até conseguir. — sorri de volta. — Se você tiver pesadelos esta noite a culpa é sua, viu? Eu acho que nem deveria ter contado o que já lhe contei.

— Não costumo ter pesadelos, pai. Conta!

— Calma, vou contar. Alguns anos após a morte de Bartolomeu muitos começaram a ver o .... fantasma dele ..... bem aqui .... nesta cabana. Geralmente crianças.

Senti outro calafrio, bem maior do que o primeiro. Senti meus ossos gelarem. Se arrependimento matasse, naquele momento eu estaria tão morto quanto tio Bartolomeu. Quando papai recusara a contar o restante da história eu deveria ter me calado, mas era tarde demais.

Passei a noite toda apavorado. Qualquer sombra diferente nas paredes, qualquer zumbido, qualquer bobagem era motivo para fazer meu coração bater de forma acelerada, fora do ritmo. O colchão era duro feito uma pedra e cheirava à urina de gato. O cobertor emprestado do primo Ezequiel tinha mais buracos que um queijo suíço, e também cheirava à urina de gato. Tudo naquela noite colaborava para o meu desconforto. Foram horas e mais horas sem conseguir fechar os olhos, ás vezes eu ficava apavorado até com os roncos do meu estômago. O café na casa do primo Ezequiel até que não fora ruim, mas ninguém cozinhava feito minha mãe. Cozinhar era um de seus diversos dotes. Lembrar dos bolinhos de aveia que ela preparava acabou me fazendo esquecer do fantasma do tio Bartolomeu, pelo menos até eu adormecer. Tive pesadelos terríveis aquela noite. Num deles o fantasma do tio Bartolomeu me amarrava na cama e colocava fogo no quarto. Quando eu me preparava para sentir minha pele derretendo nas chamas eu acordei.

Mas nenhum pesadelo me causou tanto pavor quanto o que eu senti ao abrir os olhos pela manhã. Eu gritei tão alto que se estivéssemos em nossa casa eu teria acordado o quarteirão inteiro, talvez mais. Meu coração quase atravessou minha garganta. Senti meus ossos saltarem dentro do meu corpo franzino.

— Ninguém vai acreditar no que eu achei! — disse meu pai, sua voz estava trêmula, ele parecia um garimpeiro após descobrir quilos de ouro na Serra Pelada.

Exceto que ele não achara ouro, mas um crânio humano, sujo e repugnante. Papai o segurava bem perto de mim. Acho que ele ficou esperando até que eu acordasse para poder me dar a notícia.

Após me recuperar do susto, perguntei:

— Onde você achou isso?

— Desculpa, filho, eu não queria ter lhe assustado. Eu saí para dar uma volta e achei uma plantação de milho, resolvi colher alguns para cozinhar e, de repente, tropecei em algo. Fui direto ao solo como um pugilista abatido. Por muito pouco não caí de cara num formigueiro. Jesus Cristo, que tombo! Quando olhei para o lado eu me deparei com isso. — papai olhou fixamente para o crânio, quase hipnotizado por aquele objeto sinistro. — Meu coração disparou. Foi uma sensação muito estranha.

— Será que é do... ?

— Tio Bartolomeu? Foi o que pensei também. — papai examinava o crânio com tanto cuidado e carinho que mais parecia um paleontólogo segurando um crânio de um dinossauro raríssimo. — Procurei pelos demais ossos do corpo e não encontrei sequer uma costela. Pelo tamanho nota se que não é de um adulto.

— Tio Bartolomeu tinha uns 14 anos quando morreu, certo?

— Sim, mais ou menos isso. Pode ser o crânio do tio Bartolomeu, pode sim.

Papai engoliu seco. Suas mãos ficaram trêmulas. Ele colocou o crânio sobre a sua cama, apontado para mim. Não foi uma sensação muito agradável ter aquele crânio olhando em minha direção.

— O que você vai fazer com ele?

— Não sei. Preciso contar para alguém.

Aquele crânio despertara o lado escritor do meu pai, percebi pelo modo agitado em suas palavras. Desde a morte de minha mãe ele não conseguira escrever mais do que 2 páginas, mesmo assim estas 2 páginas sempre iam parar no lixo horas depois. Aquele crânio misterioso no meio do milharal certamente fez sua cabeça viajar em muitas histórias. Mas a única história que eu realmente queria saber era a verdade. Seria o crânio do tio Bartolomeu?

Levantei me e o crânio continuava ali olhando para mim, sobre a cama desarrumada de meu pai. Eu não sabia o que era mais desconfortável, aquele objeto bizarro ou o cheiro insuportável de urina de gato que impregnara em meu pijama.

O banheiro estava uma sujeira. Havia folhas e mais folhas jogadas ao chão, eu tinha a impressão de que a qualquer momento um inseto gigantesco saltaria daquele chão imundo para me atacar. Por um instante conseguir sorrir, lembrei do pavor que minha mãe tinha por baratas. Eu não conseguia entender aquele pavor todo por uma coisa tão pequena e insignificante. Eu adorava bancar o herói para ela, pegava seu tamanco da sapateira e batia com toda a minha força sobre a temida vilã, a barata. Mamãe olhava pra mim como se eu fosse o mais corajoso dos homens.

Havia um espelho pendurado na parede do banheiro, logo acima da pia, mas eu não tinha altura suficiente para alcançá lo. Abri a torneira da pia e tive de esperar quase 2 minutos até que caísse um pouco de água, e o pouco que caiu estava suja e com cheiro tão desagradável que eu nem forcei minha imaginação para adivinhar o que era.

Voltei para o quarto e, antes de tirar o pijama, virei o crânio para a parede. Eu sei que é ridículo, mas aquele objeto parecia estar olhando para mim. Senti me outra pessoa ao trocar de roupa, o cheiro do pijama estava insuportável. Apesar da água da pia não ser das mais limpas, lavei as mãos novamente, afinal de contas eu havia tocado aquele crânio repugnante.

Meu estômago roncava. O cheiro dos sanduíches de queijo estava muito bom, apesar de que eu daria qualquer coisa por um biscoito de aveia da mamãe. Papai estava na varanda, escrevendo em sua máquina de escrever, ao lado de um prato com 2 sanduíches de queijo com manteiga que ele preparara para mim. Aproximei me da mesa e ele nem percebera minha presença. Sentei me diante dele e nada, era como se eu não existisse, tamanha era sua concentração. Peguei um dos sanduíches e ele continuava escrevendo, rápido feito um datilógrafo maluco. Após 20 minutos de “claps” e “tin tins” ele me olhou nos olhos e sorriu, um sorriso dos velhos tempos, daqueles que ele costumava dar para mamãe ao chegar para o café da manhã, após uma longa jornada de trabalho em seu escritório. Papai acordava 5 horas da manhã todos os dias, era seu horário favorito para escrever.

— Dezoito páginas! — disse ele, eufórico, olhos arregalados, sorriso largo no rosto, parecia uma criança com as mãos cheias de barras de chocolate.

Eu estava terminando meu segundo sanduíche. Mamãe sempre me ensinara a mastigar os alimentos o mais devagar possível.

— Outro livro, pai? — perguntei.

— Acho que sim, filhão!

Filhão? Meu pai nunca me chamara daquela forma antes.

— Preciso ir até a cidade, urgente.

— Vai contar para o primo Ezequiel?

— A respeito do crânio? Talvez. Mas preciso fazer outras coisas também. Precisamos de algo para comer além de sanduíches, não acha?

Fiz que sim com a cabeça. Depois ele prosseguiu:

— Também preciso comprar mais papel. Acho que meu bloqueio se foi, graças a Deus. Eu não suportava mais aquela angústia por não conseguir escrever.

— Que bom, pai. Estou feliz por você.

— Obrigado, meu filho. Isso é um sinal de que vamos ficar bem. Momentos difíceis todos temos, mas o mais importante é não perdermos nunca a esperança. Sentiremos a falta da sua mãe, é claro, nós a amávamos tanto! Mas ela estará sempre conosco, em nossos corações.

Os olhos de papai se encheram de lágrimas, mas ele segurou o choro. Acho que o fez por mim.

Após alguns segundos em silêncio...

— Você vai comigo? — perguntou ele, levantando se e ajeitando as páginas datilografadas.

— Não sei, estou um pouco enjoado.

— Enjoado?

— Sim, acho que o cheiro ruim do colchão não me fez bem.

— É verdade, aqueles colchões estavam mesmo com um cheiro muito ruim. Vou comprar alguma coisa para o seu estômago. Bom, se você estiver mesmo enjoado não será aconselhável ir comigo, afinal de contas nós dois lembramos muito bem como é o caminho daqui até o centro da cidade. Você acabaria vomi....

Papai olhou para mim e achou por bem não completar a frase. Também achei melhor. Os sanduíches de queijo dançaram dentro do meu estômago.

Se eu soubesse o que estaria por vir eu teria ido com ele, mesmo sofrendo da pior dor de estômago de todos os tempos.

— Tem certeza de que vai ficar bem? — perguntou papai, já sentado ao volante.

— Vou sim, acho que preciso de um pouco de ar puro, só isso.

— Tudo bem, — e apontou para minha direita. — ali atrás há uns pés de jabuticaba, tem bastante sombra e uma brisa agradável também. Recomendo.

Fiz que sim com a cabeça.

— Não vou demorar. Volto logo. Vou procurar algo para tirar o cheiro ruim dos colchões, está bem?

Papai ligou o motor e partiu. Eu ficara sozinho, mas só me dei conta disso quando não pude mais ouvir o barulho do motor. Fantasmas também atacam criancinhas à luz do dia? Seria melhor se eu não ficasse procurando a resposta para esta pergunta.

Senti vontade de mascar meu chiclete favorito. Voltei para a cabana com o coração acelerado. Quase desisti do chiclete. E se o fantasma do tio Bartolomeu estivesse ali no quarto? Pior, o crânio ainda estava lá? Não, provavelmente não. Papai não iria até a cidade sem levar sua fenomenal descoberta. Iria?

Faltavam apenas alguns passos para eu chegar até a porta do quarto. Respirei fundo, procurei manter o olhar fixo na porta, e lá fui eu. Minhas pernas curtas tremiam.

Lá estava ele. O crânio continuava sobre a cama desarrumada. Mas não estava virado para a parede, como eu deixara, estava virado para a porta, olhando para mim. Não exatamente olhando, pois não havia nenhum olho dentro daqueles orifícios.

Corri para o banheiro e vomitei os dois sanduíches do café da manhã e tudo mais que havia no meu estômago. O vômito estava tão grosso que não queria passar pelo buraco da pia. Senti me tão fraco, minhas pernas pareciam dois gravetos secos, eu tinha a impressão de que iriam se quebrar ao meio a qualquer momento. Eu estava mal, e o pior de tudo, estava sozinho. Não, muito pior, estava sozinho com aquele crânio misterioso.

Como ele ficou virado naquela direção? Eu o deixara virado contra a parede, com certeza. Teria sido meu pai?

A única notícia boa era o desaparecimento da minha dor de estômago. Senti me tão arrependido de não ter ido até a cidade com meu pai. Fiquei furioso comigo mesmo.

Eu precisava do meu chiclete, urgente. Mascar chiclete sempre me acalmava. Mamãe odiava este meu vício, mas eu não conseguia evitá lo. Eu mascava às escondidas, na verdade este fora o meu único segredo que eu escondia dela. Quando mamãe morreu eu senti um remorso tão grande. Antes de deixar o cemitério eu me aproximei de seu túmulo e contei sobre as vezes em que usufruí dos prazeres da goma de mascar, todas que consegui me recordar. Senti me bem ao fazer isso.

Aquele crânio misterioso me deixava tão apavorado que nem todos os chicletes do mundo me acalmariam, mas eu precisava de um, urgente.

Criei coragem suficiente e voltei ao quarto. Não acreditei nos meus olhos ao ver que o crânio não estava mais olhando para mim, estava novamente virado para a parede, como eu deixara da primeira vez. Eu não sabia se sentia pavor ou alívio. Eu estava muito assustado da outra vez, eu poderia ter imaginado o crânio olhando para mim, não poderia? Aproveitei que aquela coisa não estava mais olhando em minha direção e corri até minha mala, peguei todos os chicletes que eu pude e saí correndo do quarto. Senti me aliviado por minhas pernas não terem se partido. Só parei de correr quando alcancei o jabuticabal.

Meu pai tinha razão, o lugar era tranqüilo e proporcionava toda a calma que eu necessitava naquele momento. Joguei dois chicletes de framboesa dentro da boca e os mastiguei com prazer.

As horas foram se passando e meu pai não chegava. Para piorar a situação o céu começou a escurecer, nuvens negras iam se formando e ficava cada vez mais óbvio que uma tempestade estava para desabar.

Eu fiz um pacto comigo mesmo, não importava o que acontecesse eu não sairia dali. Por outro lado, ficar debaixo de árvores não é o lugar mais seguro para ficar em caso de uma tempestade de raios, diziam os mais velhos. Meu pai sempre me obrigava a correr pra dentro de casa quando os raios começavam, apesar de eu adorar ficar na rua, debaixo de chuva.

Aquele silêncio estava me deixando louco. Nem sinal do motor, nem sinal do meu pai, nem sinal de nada. A única coisa certa era a tempestade. Os raios já começavam a surgir ao longe. Meu relógio marcava quatro horas da tarde, mas o céu parecia noite, tamanha era a escuridão. Se o momento não fosse tão assustador eu poderia até curti lo, as nuvens negras dançando de um lado para o outro e os raios riscando o céu com suas ramificações aleatórias. Toda a suntuosidade da mãe natureza diante dos meus olhos. Fiquei impressionado.

Eu mascara quase todos os chicletes, exceto o último. Apesar do momento exigir, eu o guardei no bolso.

Quando a chuva começou a cair já passava das cinco horas da tarde. Não havia um pedaço claro no céu, tudo foi tomado pela escuridão. O som forte dos trovões parecia substituir a voz do meu pai gritando pra eu correr para dentro de casa. E não tive escolha, a chuva desabou de uma forma tão violenta e era tão fria que nem mesmo as árvores conseguiram me dar abrigo.

Corri para a cabana.

Durante o trajeto eu perdi meus chinelos no barro. Não me preocupei em procurá los, a chuva caía tão forte que chegava a machucar ao encontrar minha pele.

Fechei a porta da varanda, o vento era tão forte que precisei usar uma certa força para tal. Mamãe costumava brincar que tempestades caíam quando São Pedro estava zangado. Se fosse verdade eu nunca tinha visto São Pedro tão furioso em toda a minha vida, algo muito terrível o deixara colérico naquela tarde.

A cabana estava no mais puro breu, exceto pelos breves e assustadores clarões dos raios. Se havia um momento oportuno para o fantasma do tio Bartolomeu aparecer para me atacar, seria este. Eu comecei a tremer dos pés à cabeça, de pavor, de frio, de tudo. Num determinado momento eu tremia tanto que parecia estar dançando, sozinho, feito um louco no manicômio.

Coloquei a mão no bolso e parti o chiclete ao meio. Eu precisava me acalmar.

Aquela escuridão estava me deixando apavorado. Os raios, quando refletidos nas janelas, formavam desenhos fantasmagóricos nas paredes. Eu queria fechar os olhos para não vê los, mas era pior, quando eu fechava os olhos eu ficava com medo de abri los, imaginando que o fantasma do tio Bartolomeu estivesse ali do meu lado, segurando seu crânio.

O lampião citado pelo primo Ezequiel funcionava tão bem quanto uma vela dentro d’água. Fazia tanto tempo que ninguém o utilizava que poderia muito bem virar peça de museu. Minha esperança eram as lanternas que papai trouxera de casa, eu precisava pegar uma delas, ou talvez as duas. Seria bom ter uma de reserva. Mas elas estavam no quarto. Aquela peça bizarra continuava lá, sobre a cama, aqueles buracos vazios. Será que continuava olhando para a parede? Não seria sensato perder tempo imaginando a resposta, eu teria de agir, as lanternas estavam no quarto e eu precisava delas.

O escuro é seu maior inimigo em situações de pavor extremo, pois ele multiplica as possibilidades de fracasso, um simples ruído pode fazer sua mente imaginar trilhões de coisas, desde um monstro de duas cabeças até um anão sádico com uma faca na mão direita.

Eu só tinha uma imagem na minha cabeça: o fantasma do tio Bartolomeu segurando seu crânio, esperando a minha presença naquele quarto fedendo à urina de gato.

Mas eu queria as lanternas. Eu precisava das lanternas. Aquela escuridão era terrível. Se algo estava ali para me atacar eu queria pelo menos saber o que era, de onde vinha e pra onde ia.

Depois de mastigar com muita vontade aquela metade de chiclete eu tomei a decisão: quando o próximo raio acertasse o solo eu iria até o quarto. Agora era só esperar pelo próximo clarão.

Meu corpo inteiro tremia e eu chorava muito. Eram lágrimas de medo, desespero, e também pela ausência do meu pai. Onde estaria ele? O que lhe acontecera? Estaria morto? Estaria jogado no meio do mato, sem cabeça? Meio que adivinhando meu pavor o próximo e decisivo raio demorou a cair. Mas caiu.

Minhas pernas estavam tão bambas que eu quase tropecei em mim mesmo, como se minhas pernas tivessem dado um nó em si mesmas. O raio iluminou todo o corredor até o quarto, era tudo o que eu precisava. Na verdade não era tudo, pois eu queria um pouco mais de coragem pra enfrentar aquele quarto escuro.

Não deu pra ver muita coisa dentro do quarto, mas uma coisa eu sei que não vi, e era isso que importava, não vi fantasma nenhum, não vi nenhuma criatura do além segurando seu crânio nojento. Mesmo assim o medo continuava. Não me lembro de ter visto o crânio sobre a cama, mas também não me lembro de ter olhado em sua direção.

O quarto não possuía janelas, portanto a claridade dos raios não fazia muita diferença ali. Eu teria de confiar no meu tato. O quarto era pequeno, dando a impressão de ser uma tarefa simples, porém tinha um fator complicador, o crânio sobre a cama. Eu tinha calafrios só de imaginar minhas mãos encontrando aquele objeto novamente, principalmente no escuro.

Logo ao entrar no quarto havia um guarda roupa velho encostado perto da porta. Entrei me guiando por ele. Passando pelo guarda roupa eu chegaria até minha cama, onde larguei minha mala. Se minha memória não estivesse errada eu poderia jurar que meu pai deixara duas bolsas debaixo da cama. Numa destas bolsas estavam as lanternas. Ao passar pelo guarda roupa, tateando o cuidadosamente, com as mãos trêmulas, cheguei até minha cama. Desci os braços até o colchão e continuei o processo. A cama de meu pai ficava logo ao lado da minha, portanto eu estava próximo do meu objetivo.

De repente eu senti algo peludo encostando se em meu tornozelo. Gritei. Gritei como jamais o fizera em toda a minha vida. Se o grito que eu dera de manhã acordaria a vizinhança onde eu morava, este último levantaria as múmias do Vale dos Reis.

Aparentemente, o que me assustou ficou ainda mais assustado com o meu grito, porque sumiu tão depressa quanto os raios do lado de fora da cabana. Era um gato. Ouvi seu miado afeminado vindo da sala, ou do corredor, mas era um miado.

Sentei me na minha cama e tentei me acalmar. Eu tremia demais. Respirei fundo e voltei ao meu objetivo. Fui tateando lentamente até encontrar minha mala. Ao encontrá la comecei a revistá la em busca de mais chicletes. Foi em vão. Só encontrei peças de roupa e meu radinho de pilhas. Inúteis para a situação.

Todo instante eu me lembrava do crânio sobre a cama do meu pai. Estaria me observando? Estaria virado para a parede? Ainda estaria ali? Estiquei meu braço lentamente tentando encontrar a cama do meu pai, torcendo para tocar apenas o colchão.

Toquei algo macio, exatamente o colchão. Senti um alívio tremendo. Agora eu só precisava encontrar as bolsas debaixo da cama e revistá las em busca das lanternas.

Abri a primeira bolsa e comecei a tirar tudo o que havia dentro dela.

De repente ouvi um estrondo vindo do fim do corredor. A porta se abrira. Rezei como nunca para ter sido apenas uma rajada de vento. O vento e a chuva estavam muito fortes. Vento ou não, meu coração acelerou ainda mais. Eu mordia o chiclete com tanta força que meus dentes doíam.

Fiquei ainda mais aterrorizado quando ouvi pegadas.

Aí eu perdi o controle. Entrei em pânico total. Mamãe me ensinara a rezar a Ave Maria e o Pai Nosso quando eu tinha 6 anos de idade, mas no momento cada palavra, cada sílaba me faltara. Fechei os olhos e chorei, apenas chorei. De repente eu parei de ouvir os passos. Mesmo assim eu não me acalmei, acho que fiquei ainda mais apavorado.

Quando um raio violentíssimo atingiu as proximidades da cabana a terra tremeu. Levei um susto tão grande que arregalei os olhos. Foi aí que meu pavor ficou ainda maior. O clarão do raio entrou pela porta e iluminou o corredor, revelando uma sombra aterrorizante.

Havia mais alguém dentro da cabana, e ficava cada vez mais próximo do quarto. Os clarões dos raios faziam sua sombra dançar no chão do corredor. Seria meu pai? Não, por quê ele entraria tão devagar? Certamente chegaria desesperado procurando por mim, procurando saber se eu estava bem. Mas por outro lado ele poderia estar ferido, por ter sofrido um acidente, o que justificaria os passos lentos. Eu já não sabia mais o que pensar. Mil coisas passavam pela minha cabeça ao mesmo tempo. Todas ruins.

O pavor era grande demais, eu não tive coragem de me aproximar da porta para conferir a verdade. Escondi me debaixo da cama, junto com as bolsas. Parei a busca pelas lanternas, eu estava apavorado demais, a última coisa que eu queria era chamar a atenção da coisa no corredor. E ela estava se aproximando cada vez mais. No fundo eu sabia que não era meu pai. Poderia ser qualquer coisa, menos ele.

Aquela espera era tão enlouquecedora que lembro me de ter cogitado a hipótese da coisa do corredor ser o fantasma de minha mãe, vindo me cobrar pelos chicletes que eu mascara durante aquela maldita tarde. Mas a coisa no corredor não era o fantasma de minha querida mãe.

Quando mais um clarão atingiu o corredor eu pude ver uma perna. A coisa do corredor estava diante da porta do quarto. O meu terror chegou ao extremo, eu tremia tanto que cheguei a imaginar que acabaria jogando a cama para o alto. Cuspi o chiclete longe.

Estava escuro, mas percebi os passos adentrando ao quarto. Eu chorava baixinho, torcendo para que a coisa não notasse minha presença ali debaixo daquela cama fedorenta. Uma parte de mim desejava procurar a lanterna na bolsa, que estava ali do meu lado, mas eu não tive coragem. A curiosidade por descobrir quem era o visitante continuava bem menor do que o pavor que eu sentia por ele.

A coisa continuou seu caminho pelo quarto. Passos lentos. O momento crítico foi quando notei ele caminhando entre as duas camas. Ele sabia onde eu estava? No fundo eu imaginava que sim. Eu o via me puxando pelos tornozelos, enquanto eu implorava pela minha vida.

Num determinado momento eu cogitei a possibilidade de sair correndo, afinal de contas a coisa caminhava tão lentamente, eu conseguiria despistá la. Eu era o melhor corredor da minha rua. Sempre que brincávamos de pega pega eu era imbatível. Porém havia a possibilidade daquela coisa não estar sozinha na cabana, poderia haver mais.

Descartei a possibilidade de sair correndo.

Milagre ou não, eu só sei que, palavra por palavra, eu fui recordando da Ave Maria e do Pai Nosso que mamãe tanto insistira em me ensinar. Fechei os olhos e comecei a repeti los mentalmente. A coisa estava bem próxima, eu podia sentir sua presença. A coisa cheirava à terra.

Na manhã seguinte meu pai me encontrou debaixo da cama.

Eu estava em estado de choque.

A repetição incessante das orações me deixaram em transe, porque não me recordo de ver a coisa deixar o quarto. Recordo me de tudo, até o momento em que a senti bem próxima da cama. Dali pra frente não me lembro de mais nada.

O visitante noturno não fora o meu pai.

A tempestade pegara papai no meio do caminho de volta para o sítio. Ele ficara dentro carro o tempo todo, parado na estrada, aguardando a tempestade passar.

O crânio desaparecera de cima da cama.

Contei a meu pai a respeito do visitante noturno, e que certamente ele fora o responsável pelo desaparecimento do crânio. Meu pai não acreditou na história. Além de não creditar ainda ficou furioso comigo, culpando me pelo sumiço do objeto bizarro.

Após discutirmos ele deixou a cabana, furioso. Aparentemente o desaparecimento do crânio o deixara mais preocupado do que o meu estado debilitado. Eu havia passado pela pior noite da minha vida e não pude desfrutar de um simples abraço do meu pai. Senti ainda mais falta de minha mãe.

Uns quinze minutos depois papai voltou, trazia consigo o crânio.

Fiquei com os olhos arregalados. Voltei a tremer como na noite anterior.

— Até que você o enterrou bem, mas eu achei. — disse meu pai, com os olhos de um lunático.

— Mas, pai, eu não...

— Notei seu desconforto, mas não precisava ter enterrado o crânio e ...

— Não fui eu que enterrei, pai!

— Não precisa mentir.

— Mas não estou mentindo!

— Não está? — papai colocou a mão no bolso e retirou algo, um pequeno objeto sujo de terra. —Então como você me explica isso aqui?

Aproximei me com os olhos fixos no pequeno objeto e então percebi o que era.

— Meu chiclete, e daí?

— Sim. Estava lá, debaixo dos pés daquele espantalho horroroso.

— Espantalho? Que espantalho?

— Um espantalho feioso pregado lá no milharal. Até eu me assustei quando o vi pela primeira vez.Ontem eu encontrei o crânio próximo a ele. E foi o mesmo lugar onde você o enterrou. Eu só precisei seguir suas pegadas. — papai olhou para o chão da cabana, indicando as pegadas arrastadas do visitante noturno.

Nunca mais toquei no assunto com ninguém, afinal de contas quem acreditaria num garoto de 8 anos? Meu próprio pai não foi capaz de acreditar.

Naquele mesmo dia fomos embora do sítio. Papai estava louco para continuar seu livro e ele queria fazê lo onde se sentia bem, sentado em seu escritório.

Apesar da minha censura papai levou o crânio conosco para Curitiba, dizia ser seu amuleto. Eu só me perguntava até quando, pois algum dia viriam buscá lo.

FIM

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