INÉDITO
A Babá
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Sinopse
Após anos afastadas, Valéria e Cecília se reencontram e abrem espaço para uma conversa sobre as feridas da infância. Entre lembranças dolorosas e segredos nunca revelados, surge a figura de Katrina, a enigmática babá de cabelos roxos que passou pela casa da família. Quanto mais Valéria conta, mais Cecília percebe que o desaparecimento do pai e os estranhos hábitos daquela mulher escondem uma verdade difícil de aceitar.
Capítulo único · A Babá
INÉDITO
A BABÁ
Valéria estava no meio de um pesadelo quando foi acordada pelo toque do seu celular. Acordou assustada, tateando o criado-mudo em busca do aparelho. Achou. O relógio do celular marcava 23:56. O nome Irmã piscava na tela. Cecília. Há anos não se falavam. Valéria não queria, mas atendeu.
— Alô!
— Oi, Val.
— Aconteceu alguma coisa?
— Desculpa te ligar assim tão tarde — e começou a chorar.
— Por que está chorando?
— É o Fofo, ele se foi.
Valéria sentiu um arrepio. Era exatamente com ele que estava tendo um pesadelo agora há pouco. Fofo era seu cachorro, um poodle branco, era relativamente grande para a sua raça. No pesadelo ele estava coberto de sangue e rosnava ferozmente para ela, do final de um corredor escuro, parecido com o da sua antiga casa, onde morou com sua mãe, o padrasto e a irmã.
— Ele acabou de morrer em meus braços — continuou a irmã, entre um soluço e outro.
— Fofo ainda estava vivo?
— Sim, bem velhinho, mas estava vivo até há pouco.
— Quantos anos ele tinha? Mais de vinte, com certeza.
— Vinte e um.
— Nossa, eu não sabia que um cachorro poderia viver tanto tempo. Sei que você fez tudo o que pôde. Fica em paz.
— Pra você é fácil dizer, você nunca gostou dele.
Valéria deu uma bocejada e, por fim, disse:
— Não vou ser hipócrita. Nunca fui fã de animais.
— Nem de pessoas — disse a irmã em voz baixa. Valéria ouviu.
— O quê? Por que isso agora, Cecília? Não me procura há anos, e agora me liga pra me esculachar?
— Desculpa, Val, melhor eu desligar.
— Espera! Se tem algo para me dizer, diga logo de uma vez. Não é possível que você tenha me ligado só por causa do Fofo.
— Foi um erro eu te ligar. Desculpa.
— Para de pedir desculpas, porra! — ela perdeu a paciência.
— Foi bom ouvir sua voz mais uma vez.
— Cecí…
A ligação foi encerrada.
O celular tremia nas mãos de Valéria, fazia tempo que ela não ficava tão nervosa. Lembrou o motivo de ficar tanto tempo sem contato. Valéria morava em Sapucaí-Mirim e se mudou para a casa da tia em Taubaté, ainda jovem, para cursar arquitetura. Nunca mais voltou. Às vezes arrependia-se de ter largado a irmã caçula daquela forma, afinal de contas Cecília não tinha culpa de absolutamente nada. Já a mágoa que sentia da mãe ainda estava ali, como uma tatuagem malfeita.
Pensou em ligar de volta e pedir desculpas, mas não conseguiu. Escreveu um texto longo no aplicativo de mensagens, mas antes de clicar no botão de enviar, apagou tudo. Por fim, acabou enviando uma mensagem de texto: “Eu te amo muito, irmãzinha. Mas é complicado, o passado ainda dói”.
E colocou o celular de volta no criado-mudo. Esperou a resposta da irmã por alguns minutos, mas não veio. Ela pegou no sono novamente. Teve outros pesadelos com o Fofo aquela noite, mas não se recordou de nenhum deles quando acordou, exceto o último: a silhueta do cão parado à porta do quarto, no seu apartamento.
Acordou com o sol batendo em seu rosto. Pegou o celular, havia duas mensagens não lidas. Uma da sua sócia e outra da irmã. Ignorou a mensagem da sócia e abriu a mensagem da irmã:
“Você nunca quis me contar sobre esse passado que dói tanto. Sinceramente, não consigo me lembrar de muita coisa. Espero que algum dia você possa me contar. Farei uma prova para um concurso no próximo domingo, e será aí em Taubaté. Poderíamos nos encontrar pessoalmente. Eu gostaria muito, sinto sua falta. Beijos.”
Valéria abriu um sorriso, ainda meio constrangida por ter se exaltado com a irmã ao telefone, e gravou uma resposta por mensagem de áudio. Na verdade tentou umas três vezes e acabou deletando, gaguejou demais e parecia nervosa demais. Mas na quarta tudo fluiu melhor e ela finalmente enviou. Marcou até um local para se encontrarem. Ainda pairava uma certa dúvida se seria uma coisa boa reviver o passado novamente. Algumas questões ela já havia superado após anos de terapia, mas um pedaço daquela história ela guardava a sete chaves. E talvez fosse melhor mantê-lo assim.
O domingo simplesmente levou uma eternidade para chegar. A irmã lhe disse que a prova acabaria por volta das 16h. Valéria marcou às 16h30 na Padaria do Jarbas.
Sentada elegantemente atrás da mesa 7, ela esperou sua irmãzinha. Era estranho dizer irmãzinha, pois já tinha visto uma foto da irmã numa postagem de rede social alguns meses atrás. Cecília havia se tornado uma mulher muito bonita, com um corpo de fazer inveja, volumosos cabelos castanhos e o mesmo olhar gentil de quando criança. Estava nervosa em revê-la após todos esses anos. Pelo menos ela virá sozinha, pois a presença da mãe a deixava desconfortável. Valéria e a mãe não tinham um bom relacionamento, desde o dia em que a mãe se casara pela segunda vez. O pai de Valéria faleceu quando ela tinha oito anos. Pouco tempo depois a mãe dela conheceu Maurício, com quem se casou e teve uma filha: Cecília. Hoje Valéria tem 37 anos e Cecília, 27.
— Oi! — era Cecília, parada ao lado da mesa. — Você não mudou nadinha.
Valéria tomou um susto. Nem viu a irmã entrar. Levantou-se meio estabanada e esbarrou na mesa, quase jogou tudo no chão. Abriu um sorriso para a irmã.
— Cecí, você está linda — o tom de sua voz soou tão agudo que até as pessoas ao lado acharam graça. — Me dá um abraço, irmãzinha!
O abraço durou mais do que ela imaginava, e ela se sentiu muito bem. Não havia nada de errado com a sua relação com a irmã. E mesmo assim tanto tempo sem ao menos uma ligação. Ficaram encarando uma a outra, com os olhos marejados.
— Como foi a prova? — perguntou Valéria.
— Mais ou menos, nunca fui muito boa em matemática. Diferente de você, né?
— Amo. Desde que me conheço por gente, devo ter herdado do meu pai.
— Você nunca me falou sobre ele — disse Cecília, enquanto chamava a garçonete com a mão direita. Pediu pão na chapa e café com leite.
— Nossa mãe não deixava. Sempre que eu tentava falar algo sobre papai ela batia na minha boca e me mandava ficar quieta.
— Sério? A mamãe fazia isso?
— Sim.
— Mas por quê?
— Medo do seu pai, talvez.
Silêncio, até que a caçula disse:
— Não tivemos muita sorte com nossos pais, né?
— Pois é… — Valéria queria ter dito que também não teve sorte com a mãe, mas guardou para si. Até onde se lembra, ela sempre foi uma boa mãe para Cecília.
O pão na chapa e o café com leite da Cecília chegaram.
— O pão de queijo daqui é quase tão bom quanto o de vocês — disse Valéria, tentando suavizar o clima.
— Não aguento mais comer pão de queijo.
As duas finalmente abriram um sorriso.
— Nunca entendi essa sua raiva da mamãe — disse Cecília.
Valéria tomou o que restava da sua xícara de café com leite, encarou mais um pouco a irmã por cima da xícara e finalmente respondeu:
— Não é raiva. Nossa mãe sofreu bastante nessa vida, eu sei da história dela, pelo menos as partes em que passamos juntas. É complicado.
— Fico me sentindo uma estúpida quando você diz isso, como se eu não tivesse capacidade suficiente para entender o motivo desse abismo entre vocês duas. Estou aqui, me conta!
— Desculpa, Cecí, você tem razão. Acho que eu já deveria ter te contado tudo há muito tempo, mas sei lá, eu simplesmente travava. Fiz anos de terapia para tentar superar, sabia?
— Terapia? Nossa, eu não imaginava que…
— Pois é, meu amor, eu sei que você nem imaginava.
— Mas é para isso que eu estou aqui. Eu quero que você me conte tudo.
— Continuo achando que não seria uma boa ideia.
— Se você disser que é complicado mais uma vez, eu te soco a cara.
Por um momento, Valéria achou que a caçula estava falando sério, mas ela estava sorrindo.
— Como é sua relação com a nossa mãe hoje em dia? — perguntou a irmã mais velha.
— Você sabe muito bem como ela é: durona, teimosa, não dá o braço a torcer por nada. Não vou mentir, ela é uma pessoa difícil de se conviver, mas você sabe que ela tem um bom coração.
— Vocês ainda moram naquela mesma casa?
— Sim, mas devo me mudar em breve.
— Sério? E o que ela acha disso?
— Ela já sabe.
Valéria encarou a irmã nos olhos. Mas sua expressão estava mais séria.
— Você amava demais o seu pai, né?
— Sim, mas sendo bem sincera, tenho poucas recordações dele. Quando ele nos abandonou eu era bem pequena, você sabe.
— Claro que eu me lembro.
— Você também perdeu o seu pai quando era bem pequena, né?
— Sim. Meu pai era tudo pra mim.
— O que aconteceu com ele? Mamãe nunca me contou.
— E por que contaria? Ela fez questão de apagar todas as memórias dele. Vendeu todos os discos e pertences dele, simplesmente apagou tudo o que restou dele. Exceto eu. Talvez eu a fizesse lembrar dele, e por isso era tão rude comigo. Quem sabe?
— Sinto muito, Val.
— Não sinta, não é culpa sua. Meu pai era um homem tão gentil, seu único problema era o cigarro. Ele morreu de câncer no pulmão.
— Perder um pai é muito triste, mas pelo menos você sabe como ele se foi, pôde até se despedir dele num velório. Já o meu … nem adeus eu consegui dizer.
Silêncio. As duas irmãs pareciam estar se perguntando o que estavam realmente fazendo ali. O resultado daquele encontro teria um final feliz? Estava na cara que a resposta era não. Mas agora era tarde demais para voltar atrás.
— Quer saber de uma coisa? — disse Valéria. — O que eu tenho pra lhe contar não é algo que se diz numa padaria. Vamos para o meu apartamento.
— Claro.
— Vou te perguntar uma última vez. Você quer mesmo ouvir a minha história? Porque será a única versão que você terá.
— Confio em você, irmã.
Elas se abraçaram mais uma vez.
— Vamos ver que tipo de mulher você se tornou — disse a irmã mais velha. — Vinho ou cerveja?
— Não bebo.
— Mas hoje beberá.
Antes de fechar a conta pediu as últimas três garrafas de vinho cheias de poeira da prateleira de bebidas da padaria.
O sol já começava a se pôr quando chegaram ao prédio. Não disseram nada enquanto o elevador subia até o sexto andar. Quando as portas se abriram, a caçula perguntou:
— Você tem alguém?
— Tipo… um marido?
— Ou namorada.
Valéria soltou uma gargalhada.
— É tão óbvio assim?
— Ahã!
— Acabei de terminar um relacionamento de cinco anos. Estou só e em paz, a única coisa que eu quero agora é focar nos meus projetos e minhas leituras.
Entraram no apartamento. Decoração minimalista, sofisticada, com móveis em tons monocromáticos e quadros abstratos. Não havia TV na sala, mas o aparelho de som era imponente, algo saído diretamente dos anos 80.
— Hoje você vai tomar um vinho comigo — disse Valéria. — E vamos precisar de mais garrafas, se quisermos sobreviver a esta noite.
— Você está fazendo de tudo para eu desistir, não é?
— No meu lugar você faria a mesma coisa. Mas já vi que você é ainda mais teimosa que a nossa mãe. Ajeite-se no sofá. Vou só pegar um saca-rolhas e já volto.
— A última vez que bebi não deu muito certo.
— Se eu não beber, não vou conseguir.
Cecília fez uma careta. Lembrou-se da sua última experiência com vinho, tudo terminou com a cara dela dentro de um vaso sanitário.
Valéria voltou da cozinha com uma taça de vinho em cada mão, com vinho acima da metade em ambas as taças. Entregou uma taça para a irmã e ligou o som bem baixinho. Never Tear Us Apart, da banda INXS, tocava baixinho.
— Quer saber? — disse Valéria. — Não vai rolar. Não existe trilha sonora que combine — e desligou o aparelho de som.
— Val, tem algo a ver com o meu pai, né?
Valéria se ajeitou na outra ponta do sofá imenso e, só depois de um longo gole de vinho, respondeu:
— Infelizmente, meu amor — Valéria encarou a irmã de uma forma que a caçula nunca tinha visto. Ambas sentiram um frio na espinha.
— Só quero a verdade, irmã, nada mais — disse a caçula, e experimentou o vinho. Era horrível.
— Ele era seu pai. Você o via como um homem bom.
— Mas ele não era?
Valéria girou a taça para agitar o vinho. O olhar dela já era o suficiente, mesmo assim ela preferiu confirmar.
— Não, querida, pelo menos não comigo.
Cecília tomou a taça de vinho toda num gole só. Sua cabeça ficou mais pesada do que uma bola de basquete. Por sorte estava sentada no sofá, ou teria caído.
— Calma, Cecí, desse jeito não vai se lembrar de nada amanhã. E garanto a você, não quero contar essa história mais uma vez. Não consigo.
— O que ele fez pra você?
— Entenda, eu nunca quis te contar, não mesmo. Acho que você poderia muito bem viver sem saber de nada. Ainda dá tempo de voltar atrás. Largue a taça de vinho, vá tomar um bom banho, eu te empresto umas roupas, peço uma pizza, e você finalmente descansa. Foi um dia cansativo.
— Pode parar. Não sou mais uma menininha, eu aguento. Conta logo de uma vez!
Valéria encheu a taça da irmã e abriu a segunda garrafa de vinho.
— Me diz, você tem namorado, né? Vi uma foto sua com ele, no Instagram. Bonitão!
— Ele me trouxe para fazer a prova. Ele queria muito te conhecer, mas expliquei que talvez num outro dia.
— Parece ser um cara legal, irmã, você merece.
— Você está me enrolando outra vez — disse a caçula, com a voz começando a arrastar. — Está me embebedando, Val?
— Essa é a ideia.
— Meu pai te machucou de alguma forma — disse a caçula, nervosa.
— Seu pai era um homem doente — sua expressão murchou. — Desprezível.
— Desprezível?
— Acho melhor puxar o maldito Band-aid de uma vez — Valéria respirou fundo e disse, olhando nos olhos da irmã: — Seu pai abusava de mim.
Cecília ficou pálida, sua pressão caiu e todo o vinho que ela bebera até ali pediu para sair. Valéria a levou imediatamente até o banheiro. A irmã estava com a cara no vaso sanitário mais uma vez. Talvez não seja a última.
— Sinto muito, irmã — disse Valéria, parada na porta do banheiro.
— Eu avisei que não bebo… — e vomitou o resto de vinho e o pão na chapa.
— Tome um banho quente, meu amor, vai te fazer bem. Sei que foi um soco no estômago.
— Nada de banho, não agora — Cecília parou de vomitar e lavou o rosto na pia. Parecia estar melhor, pelo menos estava menos pálida.
— Quantas vezes isso aconteceu? — perguntou Cecília, encarando a irmã com uma expressão arrasada.
Valéria só respondeu quando as duas terminaram de se acomodar novamente no sofá. Nada de vinho dessa vez. Valéria ofereceu um copo de água para a irmã.
— Não importa mais — disse Valéria, tentando não ser rude.
— Quantas vezes, Val?
— E você acha que eu contei? Foram quase três anos! Sempre que pintava uma oportunidade. Aquele filho de uma puta ia para o meu quarto e trancava a porta. Sempre que estávamos a sós, às vezes até à noite.
Cecília começou a chorar feito criança.
As duas se abraçaram. Os lábios de Cecília tremiam quando ela perguntou:
— Será que ele também abusava de mim? Não me lembro.
— Cecí, não faça isso com você. E a resposta é não. Você era a princesinha dele. Eu via a maneira como ele te olhava. Era totalmente diferente de como ele olhava para mim.
— Isso é horrível, Val! Como ele pôde fazer isso com você? Estou sem chão.
— Como eu disse, ele era um doente filho-da-puta. Mas o que me magoa demais até hoje foi nossa mãe não ter acreditado em mim. Jamais a perdoarei por isso.
— Então você contou a ela?
— Sim, mas ela não acreditou, ou simplesmente caiu na lábia do seu pai.
— Ela deve ter acreditado sim, Val. Talvez tenha sido por isso que ele sumiu de nossas vidas tão de repente, sem ao menos se despedir. Ela o expulsou de casa, com certeza!
— Não foi bem assim…
Agora foi a vez da irmã mais velha correr para o banheiro. Após vomitar bastante, ela tomou um banho demorado. Do lado de fora, Cecília ouvia a irmã chorando de soluçar, isso a quebrava ainda mais. Sempre desconfiou de que algo muito estranho havia acontecido com a irmã, mas não imaginava que fosse algo tão terrível. Seu próprio pai, um pedófilo? Depois do seu sumiço misterioso, nunca mais teve notícias. Se morreu, seu corpo nunca foi encontrado. Teria sido sua mãe a responsável? Provavelmente sim, para proteger as filhas. Seu cérebro estava a ponto de explodir. E o maldito gosto do vinho não a largava.
Quase uma hora depois, Valéria reapareceu com uma toalha enrolada na cabeça e uma camisa branca enorme, com o logo dos Ramones, desbotado, no centro.
O silêncio entre elas foi o maior até então. De repente Cecília disse:
— Perdoe-me fazê-la relembrar tudo isso. Não é justo com você.
— Está tudo bem, eu precisava chorar, minha terapeuta vivia me dizendo que segurar tudo como eu sempre fiz só me faria mal. Pronto, hoje eu botei tudo pra fora.
— Vou ter que te perguntar. O que você acha que aconteceu com o meu pai?
Valéria ficou agitada.
— Você fuma, irmãzinha?
— Não.
— Eu parei, mas daria tudo por um trago agora.
— Não faça isso. Se parou, é tudo o que você não quer. Recaídas são terríveis. Eu era viciada em jogos. Quase perdi a casa da nossa mãe uma vez. Mas agora estou bem, já tem dois anos que parei. Acho que todos temos nossos vícios.
— Jogo? — Valéria foi sincera ao demonstrar surpresa. — Por essa eu não esperava.
— Pois é. Retomando, quando eu acusei a mãe de ter sumido com o meu pai, você foi enfática em afirmar que não. Sabe de algo que eu não sei?
— Cecí, tem um pedaço dessa história de merda que eu jamais contei pra ninguém.
— Nem na terapia?
Valéria soltou um riso histérico.
— Seria o último lugar onde eu contaria.
— Se estiver disposta a contar, estou aqui. Depois de tudo o que você já me contou essa noite, nada que disser poderá me chocar mais.
— Não estou tão convencida disso, irmã. Você vai me achar uma maluca, e talvez eu perca a credibilidade com a primeira parte da história.
A caçula não soube o que dizer, apenas continuou encarando a irmã, quase sem piscar.
— Por outro lado, acho que eu tiraria um peso das minhas costas em compartilhar essa insanidade com mais alguém. E em você eu confio. Só você.
— Prometo não contar nada a ninguém.
Valéria respirou fundo.
— Não acredito que vou contar isso pra você — disse Valéria, levantando-se do sofá. — Mas vou precisar beber alguma coisa. Nem me importo se eu vomitar outra vez, mas preciso beber.
Voltou da cozinha com a última garrafa de vinho. Dessa vez veio tomando no gargalo.
— Quer um gole? — ofereceu para a caçula. Ela recusou fazendo uma careta, ainda estava muito enjoada. Além disso, jurou que jamais enfiaria a cabeça num vaso sanitário outra vez.
Valéria tomou um longo gole de vinho, encarou a irmã e perguntou:
— Você se lembra da nossa babá?
— Claro que me lembro. Como eu me esqueceria de uma mulher daquele tamanho, de cabelos roxos e que usava vestidos pretos esquisitos? Carina, certo?
— Katrina. Pelo menos foi assim que ela pediu para ser chamada. Ela me dava arrepios quando chegou em casa daquele jeito, parecia personagem de um filme de terror. Mas aos poucos fui gostando dela. Ela entendia de praticamente qualquer assunto.
— Ela era muito estranha, isso sim.
— Sim, como a maioria das pessoas interessantes são. Você sabia que ela não recebia salário, né?
— Irmã, eu nem sabia o que era isso naquela época.
— Ela não recebia absolutamente nada. Em troca de cuidar de nós duas, e muitas vezes até arrumar a casa, ela pediu apenas uma cama para dormir e um chuveiro.
— Pobre coitada.
— Pois é. Mas você tem razão, ela era mesmo muito estranha. Ela não aceitava absolutamente nada de ninguém. Certa vez eu me lembro que peguei uma flor do jardim da vizinha e ofereci a ela com todo o carinho.
— Ela não aceitou?
— Não. Só depois de eu insistir o dia todo ela pegou a flor das minhas mãos, totalmente contrariada, parecia até que ia vomitar em cima da flor. Como se aceitar algo lhe causasse dor física.
— Eu, hein!
— Ainda nem cheguei na parte bizarra. Eu me virei de costas para ela, questão de segundos, e quando me virei de volta para lhe dar um abraço a flor havia simplesmente desaparecido.
— Ela jogou fora?
— Impossível ela ter feito isso, não deu tempo. E tem mais, notei que havia algo diferente nas palmas das mãos dela, estavam ligeiramente queimadas, saindo até um pouco de fumaça, não sei explicar. Aparentava estar sentindo muita dor, mas parecia disfarçar, talvez para não me magoar, não sei explicar.
— Lembro dela rezando, olhando para as paredes, em pé, eu morria de medo. Eu não entendia nada do que ela falava.
— Não sei qual língua era aquela, mas não me parecia reza. Estava mais para…
— Bruxaria?
A caçula deixou escapar uma risada nervosa, depois disse:
— Não sei como o meu pai não a mandou embora, ele olhava torto para ela.
— Você não vai acreditar no que vou dizer, mas eu acho que o seu pai simplesmente não a enxergava, pelo menos na maioria das vezes. Uma vez eu o vi passando por ela, quase a atravessou no meio, como se ele realmente não a tivesse visto. Nunca o vi tão assustado. Como se ele tivesse sido enfeitiçado.
As irmãs ficaram pensativas, fitando a cortina que balançava com o vento que entrava pela janela semiaberta. O som dos carros lá embaixo, uma sirene distante e latidos de cachorro.
— Cecí, ela descobriu o que o seu pai fazia comigo — disse Valéria, e tomou o resto do vinho.
— Descobriu? — a voz da irmã saiu falha.
— Ela havia voltado mais cedo do seu dia de folga. O seu pai deve ter se esquecido de trancar a porta do meu quarto, pela primeira vez. Ela entrou sem bater e nos viu. Não foi um flagrante, mas seu pai estava ajeitando a calça e eu estava terminando de vestir minha camiseta, então ela percebeu que havia algo bem errado.
— Meu Deus! — Cecília balançava a cabeça, chocada.
— Nunca me esqueço do olhar triste e solidário que ela lançou para mim, e o olhar de desprezo para o seu pai.
— Você acha que ela tem alguma coisa a ver com o sumiço do meu pai?
— Cecí, o que vem daqui para frente você fica à vontade para tirar suas próprias conclusões.
— Como assim? Do que você está falando?
— Naquele mesmo dia em que a Katrina me viu com o seu pai, ela voltou ao meu quarto mais tarde, à noite. Ela usava um véu escuro sobre o rosto, então eu não pude vê-la muito bem, mas sei que o rosto dela estava diferente, não sei explicar. Ela segurava uma vela e manteve a luz do quarto apagada o tempo todo. Ela chegou bem pertinho e sussurrou no meu ouvido:
— Menina, você aceitaria a minha ajuda por uma causa nobre e justa? Responda. Sim ou não?
Na hora não entendi nada. Fiquei muda, eu tremia de nervoso. Ela segurou as minhas duas mãos, suas mãos estavam geladas. Ela tinha um cheiro doce bem enjoativo. Na verdade eu queria mesmo é que ela fosse embora. Aí ela sussurrou mais uma vez:
— Menina, você aceitaria a minha ajuda por uma causa nobre e justa? Responda. Sim ou não?
— Finalmente entendi do que se tratava. Seu pai. Eu disse Sim. Perguntei o que aconteceria com ele, mas ela apenas sorriu por debaixo do véu e deixou o quarto a passos lentos. Antes de sair pela porta fez um desenho imaginário no ar, tipo uma letra Y. Não entendi absolutamente nada, às vezes ainda acho que tudo isso não passou de um sonho.
Valéria tentou tomar mais um gole de vinho, mas a garrafa estava vazia.
— Cecí, você lembra o que aconteceu naquela manhã seguinte?
— Não muito. Para mim foi uma manhã como outra qualquer, afinal de contas eu ainda não tinha a menor ideia de que jamais veria o meu pai novamente.
— Katrina chegou em casa com o Fofo, bem filhotinho ainda, parecia um brinquedo.
— Ah, sim, é verdade. Agora eu me lembro. Ele era a coisinha mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida. Tão pequenino, tão fofinho. Por isso o nome: Fofo. Eu que escolhi.
— Irmã, você lembra das coisas esquisitas que o Fofo fazia?
— Coisas esquisitas?
— Sim, ele gostava de sentar na mesma poltrona que o seu pai sentava. Ele se ajeitava lá todas as noites, exatamente na hora em que o Jornal favorito dele começava, ele gostava de comer as mesmas coisas que o seu pai gostava. Você lembra disso?
— Claro, na verdade ele jamais deixou de fazer, fez isso a vida inteira, todos os domingos ele adorava assistir aos mesmos programas que o meu pai assistia, praticamente todos, era muito bizarro. Nossa mãe ficava maluca com isso. Mamãe o colocou pra fora de casa várias vezes, mas ele sempre voltava.
— Fofo jamais conheceu o seu pai. Como poderia ser possível tudo isso? Não é bizarro?
As irmãs foram até a cozinha tomar um copo d’água. Era muita coisa para uma noite só.
— Estou faminta, você também deve estar — disse Valéria. — Vou pedir uma pizza pra gente.
— Por mim não precisa, Val, estou com o estômago meio ruim.
— Despejei um caminhão de merda em cima de você, né?
A possibilidade do pai de Cecília ter sido transformado num poodle pela babá misteriosa ficou apenas no ar, mas nenhuma das duas teve a coragem de dizer em voz alta.
— A Katrina ficou conosco mais uns meses e partiu — disse Cecília, puxando pela memória.
— Sim, uns cinco ou seis meses.
— Você nunca mais a viu?
— Pessoalmente, não.
— Como assim, pessoalmente?
— Vem comigo — Valéria a convidou a segui-la pelo corredor.
Foram até o final e viraram na última porta à direita, era o escritório dela. Valéria ligou seu laptop, acessou uma pasta com algumas fotos e ao pressionar Enter uma foto apareceu na tela. Ela a maximizou para a irmã vê-la melhor. A foto mostrava uma casa bonita, um lindo casal segurando juntos um molho de chaves e três filhos parados na calçada, ao lado deles uma mulher de cabelos roxos e vestido preto.
— É a Katrina! — disse Cecília, apontando para a foto. — De que ano é essa foto?
— Não tem nem 3 meses.
— Três meses? Não pode ser. Como ela poderia estar exatamente do mesmo jeito?
— A mulher na foto também trabalhava para o casal em troca de cama e um chuveiro. Além de todas as outras esquisitices, como não aceitar nada e falar com as paredes, entre outras bizarrices. Mas para essa família ela se identificou pelo nome de Morgana.
— E como você ficou sabendo de tudo isso?
— Uma incrível coincidência. Minha ex é repórter policial num jornal famoso aqui da região, ela foi enviada para fazer uma matéria sobre um homem que havia desaparecido de forma misteriosa, sem deixar pistas.
— Igual ao desgraçado do meu pai.
— Sim, irmã. Minha ex começou a investigar a família, os amigos e vizinhos. Descobriu que o marido dela era um tremendo de um escroto, violento, que batia na mulher e nas crianças. Assim que ela me mostrou a foto eu fiquei chocada. Era ela! Katrina, a nossa babá. Mas não tive coragem de contar nada para a minha ex, afinal ela já me achava maluca. Mas… não resisti e sugeri a ela que fizesse umas perguntinhas para a esposa do homem desaparecido, sobre o comportamento da babá. A mulher confirmou todas as minhas suspeitas.
— O sumiço do cara também foi obra dela, é isso que está dizendo?
Valéria olhava pela janela, para o horizonte, as luzes da cidade a tilintar lá embaixo.
— Irmã, tudo o que eu sei é que a família dele ficou livre de mais um crápula, e no mesmo dia ganhou um lindo gatinho preto. Presente da Morgana, ou Katrina, ou seja lá como for o nome da mulher de cabelos roxos e vestido preto.
FIM
MAIS UMA HISTÓRIA PARA GUARDAR
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