As Aventuras de Nando & Pezão

“Me Perdoa, Margareth”

Capítulo 1 – Mirabel

E aí, cambada, quanto tempo! Senti saudade de todos vocês, é sério.

Foi bizarro ver os dias passarem sem ter ninguém para seguir os meus passos, meus tropeços e … sim, alguns triunfos.  Triunfos?  Sim, por que não?  Arranjei um emprego e agora moro sozinho! Finalmente deixei a casa dos meus pais e descolei um lugar só meu.  Agora posso andar peladão pela casa.  Não que eu já tenha feito isso, mas o que importa é que agora eu posso. Ah, o doce sabor da liberdade!  Tudo bem, morar sozinho tem as suas dificuldades, como ter que cozinhar e lavar minhas próprias freadas nas cuecas, mas eu acho que vale a pena.

Quem leu “O Segredo de Ubatuba” sabe que eu reencontrei o grande amor da minha vida: Polly.  Eu me apaixonei novamente por ela, se é que isso é possível. Chegamos até a viver um romance bem caliente por algum tempo, mas como ela mora no Rio de Janeiro e eu aqui no interiorzão de São Paulo, as coisas não saíram como eu esperava.  Namoro à distância não é para mim, não funfa.  Mal tenho grana para pagar as minhas contas, quanto mais para bancar passagens de ônibus (o Opalão está encostado já faz um bom tempo. Motor pifando e aquele velho problema do cheiro de gambá) até o Rio, sem contar os créditos que evaporavam do meu celular de forma assustadora.  Tive que fazer não sei quantas horas extras para pagar minhas dívidas com a operadora de celular.

Mas Polly é o grande amor da sua vida, Nando!  Não vale a pena o sacrifício?

Sendo sincero: não.  Nosso reencontro foi maravilhoso, inesquecível, mas o fogo durou pouco. Cinco meses e duas semanas, para ser mais exato.  Sim, eu contava os dias para revê-la, mas sabe quando você encontra a pessoa e não sente que ela ficou tão feliz em te ver quanto você ficou? Pois é, se você já passou por isso sabe como é foda.  Amar pelos dois ninguém merece. Porra, eu trocava finais de semana com meus colegas de serviço só para poder ir até o Rio de Janeiro me encontrar com ela, e na última vez que eu fui …

“A minha alma tá armada e apontanda para a cara do sossego!”

É o toque do meu celular.  Não tenho telefone fixo.

Preciso dizer quem é? Atendo ou não? Tudo bem, só porque vocês estão com saudade dele. Estão sim, eu sei. É como diz aquele comercial de carro: “Ele é fura zóio, mas é meu amigo!”

— Faaaaaaaaaaaaaala, grande Pé … no saco!

— E aí?  — putz, que desânimo em sua voz. Parecia aquela hiena dos desenhos.

— Quem morreu?

— Ninguém.

Caraca, nunca vi o Pezão assim tão pra baixo. O que será que houve?  Deve ser algum rolo com a Margareth.  Sim, esqueci de dizer, eles ainda estão juntos. Tem seus altos e baixos. Mais baixos do que altos, melhor dizendo, mas … eles se gostam.

— Tudo bem com a Margareth?

— Sei lá! — seu tom de voz mudou de desanimado para irritado.

Bingo! Acertei na mosca. Os dois brigaram outra vez.

— O que você aprontou dessa vez, cara?

— A Margareth tem uma amiga, que é amiga de outra mina, que é vizinha da morena da padaria. Aquela. Das fotos.

— Puta merda, a Margareth viu aquelas fotos que você me mandou pelo celular?

— Tá louco?  Ela me mata se ver aquelas fotos. Falando nisso, você já fez bastante careta para o azulejo e depois deletou tudo, certo?

— Sim, é claro  — na verdade não deletei. Meu, a morena é muito gostosa. Pezão deu uns pegas nela e acabaram num motel.  Foi o que fiquei sabendo, eu não estava junto.

— Já deletei tudo do meu, — prosseguiu ele. —  ou pelo menos eu acho que deletei. Não manjo nada dessa porra de iPhone. Eu gostava mais do meu celular antigo.

— Porra, dá esse pra mim então!

— Ta ficando pidão igual o Zoinho? Para com isso. Podemos nos concentrar no meu problema?  Estou fodido, cara, a Margareth viu uma foto onde eu apareço com metade da minha língua dentro da orelha da morena. Bateram esta foto quando ainda estávamos no bar.

— Mas como ela descobriu a foto?

— No tal do Facebook.  Maldita internet dos infernos.  Quem foi o filho da mãe que inventou essa porcaria?  Será que ele não tinha mais o que fazer?

— Não coloque a culpa na internet.  Sem internet não teríamos mulheres peladas 24 horas ao dia, 365 dias ao ano. É uma bênção!

— Tá na seca, filhão?

Pior que estou.  Faz dois meses que terminei o namoro com a Polly e não vi nem a cor de uma pixirica até agora.  E o pior é que nem internet eu tenho aqui em casa.  Nem peitinhos virtuais eu estou vendo ultimamente.

— Não é problema seu — rebati, tentando não soar muito irritado. Se Pezão percebe um ponto fraco seu, tá fodido na mão dele. —  E aí, a Margareth terminou com você? Estamos na pista novamente?

— Então … ela está fula da vida comigo. Bateu o telefone na minha cara e descarregou um caminhão de palavrões para cima de mim, eu nem sabia que ela conhecia tantos palavrões assim.  Mas também não disse nada a respeito de termos terminado.

— E você acha que precisa de mais alguma coisa?  Admita, a morena da padaria foi a gota d’água.  O que você faria se visse uma foto da Margareth com a língua dentro da orelha de outro cara?

— Eu matava os dois  — silêncio por alguns instantes, por fim ele disse: — Mas foi a única vez que eu a traí. Juro!

— Pezão, pra cima de mim?

— É sério, cara! Foi a primeira e última, eu gosto muito da Margareth.

Disso eu não tenho dúvida, mas Pezão é descabeçado demais.  Conseguiu uma garota especial e não dá o menor valor.  Ela é bonita, gostosa, inteligente e bem humorada. Faz o tipo de qualquer um.  Acho que me esqueci de contar para vocês, ela se mudou para uma cidade do sul de Minas Gerais.  Assim como eu, Pezão também estava vivendo um namoro à distância.  Disse estava porque eu acho que depois da língua-na-orelha-da-morena o Pezão já rodou.

— Então dá seus pulos e diz isso pra ela, porra! — gritei com ele, até cuspi no celular.

— Estou tentando, sem parar, mas ela não me atende.

Silêncio. Ouvi um soluço? Pezão está chorando?

— Calma, também não precisa chorar.

— Que choro? Não estou chorando, cacete!

Outro soluço. Está sim. Ou pegou uma gripe de repente.

— Seguinte — falei, e olhei para o relógio do celular: 12h25. — Já almoçou?

— Ainda não.

— Pensei que tinha alguém batendo na minha porta, mas aí eu percebi que é o meu estômago roncando. Quer almoçar comigo?

— A sua comida? Miojo com salsicha não é almoço, cara.

Pegou pesado agora. Só porque ele comeu miojo com salsicha uma vez aqui em casa não significa que eu coma isso todos os dias. Bom, de segunda a quinta sim, mas sextas e sábados eu frito uma batatinha (ou carne de hambúrguer) e aos domingos eu tento fazer uma macarronada, que nunca dá certo e acaba virando uma gororoba grudenta que nem o falecido Mamutão teria coragem de comer. Vida de solteiro morando sozinho, gente. Uma vez por semana minha mãe passa aqui para dar uma sondada, mas eu não deixo ela cozinhar nada.  Preciso aprender a me virar sozinho.  Às vezes ela vem e lava a louça. Eu não falo nada.  Lavar louça é mesmo um saco e não tenho muita paciência.

— Eu sei — falei. — Shopping?

— Pode ser. Combinado. Eu passo aí.

— Pezão, só mais uma coisa ...

— Já sei. Eu pago, porra. Não entendo, você parece ter menos grana agora do que tinha quando não trabalhava.

Falando em trabalho, eu estou gostando desse negócio de ser locutor de rádio. Sempre me disseram que eu tinha uma voz legal. Mas eu nunca levei a sério. Comecei fazendo um programa de humor de meia hora, de segunda a sábado. A audiência foi tãããããããããão boa que reduziram para 10 minutos, até que perceberam que eu não levava o menor jeito para comediante e me puseram para tocar música mesmo.  No meu horário eu só toco indie e rock, apesar do povo ligar lá e insistir em pedir Jorge e Mateus.  Nada contra, mas eu prefiro enfiar o dedo no cu e rasgá-lo a ter que trabalhar ouvindo isso.  O problema é quando substituo algum outro locutor, aí eu sou obrigado a tocar qualquer coisa. E parece que tem ouvite que conhece o meu gosto e fica pedindo as piores bostas só para me irritar, é foda. Mas no geral eu estou gostando. Estou até pensando em fazer uma facul de comunicação.


Exatos 20 minutos depois Pezão tocou a minha campainha.  Sério, eu tenho a minha própria campainha.  Não é o máximo?  Minha casinha é modesta.  Quero dizer, bemmmm modesta mesmo.  Pense numa casa pequena.  Agora divida ao meio.  Pronto, você já conhece a minha casa.  Um muro de tijolos expostos razoavelmente alto (tem que ser, pois o bairro tem gente meio barra-pesada), portãozinho de ferro, uma garagem que só cabe o meu Opalão e mais nada. Nada mesmo, até eu tenho que me espremer todo para passar. A sala é minúscula e no momento só tem um sofá doado por um dos meus tios e uma mesinha de centro. Na verdade toda a mobília da casa é composta por doações dos meus pais dos meus tios, além dos móveis que ficavam no meu antigo quarto, como cama, guarda-roupas, cômoda e uma TV de 32 polegadas. A cozinha também é apertadinha, mas dá para o gasto. A mesinha no canto só dá para duas pessoas. O mais estranho é o banheiro: é maior que o da casa dos meus pais. Não o medi, mas aparentemente é o maior cômodo da casa. Meu pai ficou com inveja. O quintal é grande o suficiente para eu estender minhas peças de roupa no varal. Não preciso mais do que isso. O bairro é meio afastado, mas eu não ligo. Tem ônibus de meia em meia hora para o centro da cidade. Bom, com o salário — ó — que eu ganho lá na rádio foi o melhor negócio que eu consegui.


— Estava se maquiando?  — disse Pezão, segurando uma das barras de ferro do portão. — Já tem mais de 5 minutos que estou aqui.

— Eu estava no banheiro.

— Suspeitei desde o princípio  — e olhou para o Opala na garagem.  — Quando você vai vender esta porcaria?

— Nunca. Tem valor sentimental.

— Que bichona! Vende e compra … uma bike — e o filho da puta riu de orelha a orelha. — Não, melhor! Vou mandar uma cartinha para o Luciano Huck, aí você participa daquele quadro lá … o Lata Velha!

Mostrei aquele dedo para ele.

— E o cheiro de gambá com vômito de cachorro, saiu?

Fiz que não com a cabeça.  Destranquei o portão, saí para a calçada e tranquei novamente, dando duas voltas com a chave.  Pezão ficou me observando, com aquele sorrisinho filho da puta que só ele sabe fazer.

— Para que trancar? — ele disse. — Quem vai querer sua Lamborghini perfumada?

— Esse bairro tá foda, semana passada fizeram uma limpeza naquela casa ali  — e apontei para a melhor casa do bairro.  Um sobrado velho, mas mesmo assim não deixava de ser a melhor casa do bairro  — Levaram até os periquitos da mulher.

Pezão balançou a cabeça, rindo.  Gente rica não entende.  Temos pouco, mas o pouco que temos foi conquistado com suor.  Quando roubados, ricos como ele simplesmente pegam o cartão de crédito e compram tudo de novo. Fácil assim.

Falando nisso, Pezão trocou de carro outra vez. Agora ele dirige um VW up! azul escuro, lindão. Presentinho de aniversário da mamãe, é claro.

Entramos no carro e a cara do Pezão pareceu murchar em questão de segundos.

— Caralho, que cara é essa?  Nem peidei nem nada.

Entendi. Ele estava olhando para um dado de pelúcia pendurado no espelho retrovisor central. Presente de Margareth.

— Ela não quer falar comigo — disse Pezão, quase chorando. —  Acho que estraguei tudo dessa vez. Caguei geral.

— Você acha?  E por que você deixou baterem aquela foto no bar?

— Eu nem vi quando fizeram.  Eu estava mais bêbado que o Batman, o Robin e o Coringa juntos.  Para falar a verdade eu nem me lembro de ter comido a morena.  Só lembro de ter acordado naquele maldito motel cheio de carrapatos.  Estou com coceira até no cu.

Ri histericamente. Pezão ficou putinho.

— Por causa dos carrapatos, porra!

E o filho da mãe pisou fundo no acelerador e saímos fincando. De repente sentimos um baque e o carro deu um ligeiro salto. Ouvi um grito agudo. Atropelamos alguma coisa.

— Era uma vez um … cachorro? — falei. E olhei para trás. Sim. Estava morto.

— Só me faltava essa —  seu tom de voz parecia deprimido.

Pezão parou o carro e caiu de testa no volante. Os olhos fechados.

— Calma — falei, e dei dois tapinhas nas costas dele.

— Primeiro minha namorada não quer mais falar comigo, agora eu mato um cachorro?

Caraca, não estou gostando do Pezão-bebê-chorão.  Uma coisa é você ser sensível, mas isso já está passando dos limites.

Pensei que não poderia ficar pior, mas ficou. O dono do cachorro era um velhinho ranzinza de barba branca.  Uma versão mais irritadinha do Papai Noel.  Meu vizinho mais chato. Reclamava de tudo e de todos.  Uma vez ele veio me encher o saco porque eu estava ouvindo música alto demais.  E o pior é que eu não estava. Velho chato!

Ao ver seu cão esmagado no asfalto o velho ficou furioso, mais do que de costume.  Olhou na nossa direção, praguejando algum palavrão que eu não escutei direito, mas terminava com “uta”.

— Fodeu  — falei, cutucando o ombro do Pezão. — Você matou o cão-múmia do velho.

Eu o chamava de cão-múmia porque o bicho parecia ter todas as idades do mundo.  Era engraçado vê-lo subir as escadas do sobrado do velho.  Geralmente parava no meio do caminho para tirar um cochilo, horas depois continuava.

O Papai Noel às avessas bateu com a sua bengala na minha porta.  Desci o vidro, dizendo:

— Sentimos muito.

— Você sente muito?  É só isso que tem a dizer?  Meu melhor amigo acaba de morrer e tudo o que você tem a dizer é que sente muito?  Ele — e apontou para o defunto. — sente muito.  Eu sinto muito.  Vocês, moleques de hoje em dia, com seus carros comprados pelos papaizinhos, não sentem nada!  — e ficou um silêncio constrangedor.  — E agora, como ficamos? Como ficamos, hein?

— Quanto o senhor quer?  — perguntou Pezão, quase num sussurro.

— Ele acaba de me perguntar quanto eu quero?  — disse o velho olhando para mim.  — É isso mesmo?  Eu escutei direito?  Meu cachorro era de raça, sabia? Um legítimo Boston Terrier, seu moleque insolente!

O velhote tem um jeitão meio Clint Eastwood do Paraguai.

Pezão suspirou, colocou a mão no bolso da calça e puxou sua carteira, dizendo:

— Quanto custaria um Bostonzinho novinho em folha?

— Em primeiro lugar venha aqui fora para conversarmos olhos nos olhos.

Pezão deu mais um longo suspiro, revirou os olhos, abriu a porta do carro e caminhou a passos lentos até o velho.  Resolvi descer também.  Queria ver a cena de perto.

O velho ficou alternando olhares para o Pezão e para o cão defunto, até que de repente parou de frente para o Pezão e disse:

— Você acha que pode colocar um preço no meu Ronnie Von?

— Em quem?

— Era o nome dele — e o velho apontou para o defunto novamente. — Ronnie Von!  Meu grande amigo, meu único amigo, Ron-Ron para os mais próximos.

Tive que me segurar para não rir feito uma hiena no jardim de infância.  Não sei como Pezão não riu daquilo.  Permaneceu sério, encarando o velho, depois disse:

— Dou mil reais agora, em dinheiro.

O velho ficou indignado.  Pensei que ia dar uma bengalada no saco do Pezão.

— Seu moleque petulante, como ousa pagar o meu sofrimento com o seu dinheiro?

Neste momento vi alguém descendo as escadas da casa do velho.  Por um momento pensei que fosse a esposa dele, uma velhinha baixinha e de sorriso fácil, mas não era. Era uma garota de cabelos loiros com algumas luzes rosa-vinho. Não chega a ser tão espalhafatoso quanto aparenta ser, mas com certeza é um cabelo diferente. Baixinha. Tem um rosto lindo, com algumas sardas nas bochechas. Seus olhos azuis são grandes e chamam a atenção de longe. Usa óculos de armação vermelha e noto um piercing delicado no nariz.  É gostosa. Caramba, como é gostosa!  Está com uma camiseta preta com um casal de Stormtroopers se abraçando, super apertada no corpo, revelando seios grandes e uma barriguinha sarada.  Show! O shorts jeans curtinho deixa suas pernas deliciosamente à mostra.  E que pernas!  Não são grossas, mas estão longe de serem cambitos.  Nos pés uma rasteirinha (é assim mesmo que chama?) com detalhes de oncinha.  Fiquei de boca aberta.  Qualquer um ficaria.

O velho percebeu que eu estava quase babando na minha camiseta, deu com a bengala na minha canela e gritou para mim:

— Pare de comê-la com os olhos, seu moleque pervertido sem-vergonha!

Pezão foi o último a perceber a presença da gostosa, pois estava de costas para a casa do velho. Ele se virou para ela, e é claro que também a comeu com os olhos.  Era impossível não fazer isso com um corpão daqueles descendo a escada.

— O que está acontecendo aqui?  — disse ela, um pouco antes de passar pelo portão.

O velho apontou para o cachorro morto.  A gostosa finalmente percebeu o defunto no meio da rua, mas não pareceu dar muita bola.  Apenas voltou os olhos para o velho e disse:

— É o Ronnie Von? — sua voz era rouca. Gostei — Descansou, né?

O velho semicerrou os olhos, indignado, parecia que ia soltar fogo pelas narinas.

— Descansou?  Como assim descansou?

— Vovô, convenhamos, ele já estava fazendo hora extra aqui na Terra, né?

Vovô?  A gostosa de luzes nos cabelos é neta do velho barbudo? Aí fomos surpreendidos novamente.

— Mas ainda tinha muito para viver  — argumentou o velho. E virou-se para nós, apontando com a bengala  — Até que estes moleques o assassinaram!

— Foi um acidente, senhor! — resmungou Pezão, após uma encarada rápida nas coxas da garota.

— Viu só, vovô?  — disse ela, agora a poucos centímetros de nós. Ela é cheirosa, um cheiro leve e adocicado. De onde saiu esta garota que eu nunca a vi antes?  — Foi um acidente.  Isso estava para acontecer mais cedo ou mais tarde.  A visão dele não era das melhores.

Sorri para ela, depois estendi minha mão para cumprimentá-la — Prazer. Nando. — Ela pegou na minha mão e disse:

— Mirabel.

Pezão a encarou de forma estranha, depois falou:

— Mirabel?  Isso não é marca de biscoitos?

— Não — respondeu ela de bate-pronto. — É o nome de uma rainha da Noruega do século passado. Ficou mundialmente famosa como “Mirabel, a Rainha Elegante”.

— Ah, então tá.

Ela riu, e disse:

— Brincadeira, vem das bolachas mesmo.

O mais curioso é que ela respondeu olhando para mim, não para o Pezão. Apesar de toda a sua sensualidade, não há como negar que ela tem um jeitinho meio nerd.

— Sua mãe era apaixonada por estes biscoitos  — disse o velho para a neta. Por um instante ele até pareceu uma pessoa gentil e amável. Mas logo voltou para o velho ranzinza e gritou com o Pezão: — E como resolvemos a nossa situação aqui?  — disse ele, passando as mãos na barba branca.

— Eu enterro, vô, não se preocupe.

— O quê?  Mas isso não tem o menor propósito. Você não vai fazer nada, minha querida.

— Nós enterramos  — falei.

— Você enterra então! — disse o Pezão, olhando feio para mim.

O velho lançou um olhar de raio laser para o Pezão.

— E o dinheiro?  Você me deve um cachorro novo.

— Vovô — disse a garota num tom apaziguador. — , não foi de propósito  — e olhou para o Pezão.

— Lógico que não.  Eu nem vi o filho da …

Fingi que tossi.  Pezão entendeu o toque e ficou quieto. Por fim tirou um bom número de notas da carteira e ofereceu ao velho.

— Milzinho — disse. — É pegar ou largar.

Quem me dera ter milão assim na carteira.  Ou no colchão.  Ou no banco.

— Não precisa!  — disse Mirabel, puxando carinhosamente o avô pela cintura.  — Ronnie Von era velho e morreria a qualquer momento mesmo.  Lembra que ele quase morreu ontem com um pedaço de carne, vô?

Num movimento consideravelmente rápido o velho se soltou da neta e puxou as notas do Pezão.  Foi até engraçado.

— Meu precioso Ronnie Von valia muito, muito, muito mais que isso, — e balançou as notas no ar. —  mas eu aceito.  Vai servir para pagar as custas do funeral do meu querido e estimado amigo.

— Vovô!  — disse Mirabel, balançando a cabeça, quase rindo.  — Ai que vergonha!

De repente ouvimos:

— Meu Santo Expedito!  — agora sim era a velha, descendo a escada com o dedo apontado para o cachorro morto.  — Aquele é o Ronnie Von?

Todos fizemos que sim com a cabeça, quase em sincronia.  Não sei se foi impressão minha, mas parece que a velha deixou escapar um sorrisinho.

— Eu estava ouvindo um falatório lá da sala  — disse ela. Eu semper a vejo lavando a calçada, sempre sorrindo e dando bom dia e boa tarde para todos os vizinhos. Parece gente fina. É o oposto do marido carrancudo e brigão.

— Ron-Ron se foi para sempre  — disse Mirabel para a avó, que agora estava próxima de nós, depois piscou para ela.

O velho não percebeu a piscadela,  e disse:

— Moleques inconsequentes.  Poderia ter sido eu. Ou você, minha velha.

— Credo, vô! — resmungou a garota. —  Vire esta boca pra lá!

Percebi os olhos da velha em cima de mim.

— Este eu conheço  — disse ela. — Você mora aqui na nossa rua.

— Sim, somos vizinhos.  Sou o Nando  — eu a cumprimentei.  — Este é o meu amigo Pezão.

— Olá — disse Pezão mega desanimado.

Agora a velha estava encarando os pés do Pezão.

— Pezão? Nossa, você tem pés muito grandes mesmo — disse ela, depois soltou uma risada gostosa que só velhinhas sabem fazer. Por fim disse:  — Sou a Mirtes. Nunca tive apelidos. Eu queria tanto ter um apelido!

A velhinha é adorável. Senti uma enorme vontade de beijar sua testa enrugada.  Eu achei que o velho tinha cara de Jonas,  mas seu nome verdadeiro é Noriel.  A velha o chama de Seu Nori.

— Bom, eu acho que podemos voltar aos nossos afazeres  — disse Mirabel, colocando as mãos novamente na cintura do avô.

— E o Ronnie Von?  — perguntou o velho, preocupado.

— Eu resolvo, vô.

— Eu te ajudo  — falei. Uma gata dessa eu ajudo a fazer qualquer coisa, até a assaltar um banco se ela me pedir.

Pezão mostrou seu iPhone com capinha do Homem de Ferro para mim, apontando para o relógio na tela. Nem consegui enxergar que horas eram.

— Não íamos almoçar no Shopping?  — sussurrou ele para mim.  Mas como Pezão não consegue fazer nada com delicadeza, até a velha o escutou.

— Tem bastante almoço lá em casa  — disse Dona Mirtes para nós dois, toda felizona. — Venham almoçar com a gente!

— O quê?  — o velho quase surtou. — Depois de assassinarem o meu melhor amigo, vou alimentá-los com a minha comida? Do meu bolso? Que absurdo isso, minha velha!

— Absurdo coisíssima alguma  — e a velha lançou um olhar sinistro para o marido.  — Eles são meus convidados.  Se estiver incomodado, fique aqui na rua e almoce com o Ronnie Von.

Caraca, a velha é fodaça, depois dessa não teve como recusarmos seu convite.  E, na boa, o cheiro que vinha da casa era simplesmente maravilhoso.  Seria arroz, feijão e um bifão acebolado com mandioca frita?  Oh, yeah!  Quanto tempo não como comida de vovó. E de sobremesa um enterrinho básico, mas um enterrinho com uma gata nerd incrivelmente sexy.

A tarde promete.